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11 novembro 2025

Do purgatório

Paredão do Estoril, ontem de manhã cedo

Declaração repetida de interesses: continuo um homem de fé, e feliz na Igreja Católica a que pertenço há mais de 60 anos.

***

Acabei de ler, por estes dias, o Peregrinação Interior (volume I, Reflexões sobre Deus) de António Alçada Baptista. Quis lê-lo, não só por causa do meu doutoramento, mas, também, para ver como tinha envelhecido um livro que deu que falar quando foi publicado pela primeira vez, em 1971. E começo com uma citação que ressoou dentro de mim: "[s]into que a procura séria de Deus passa necessariamente pela interrogação e pela liberdade e descobri que ter Fé é interrogar livremente o imenso mistério de Deus."

Já aqui referi que a partir de 2001, ano de todos os anos, a minha fé - ou o modo como eu a vivia - se alterou: o acontecimento brutal de que fui testemunha abriu-me os olhos para estes temas: fé, Deus, Igreja, religião, padres, linguagem... Ao mesmo tempo que eu desresponsabilizava Deus daquilo que me tinha acontecido (como teria desresponsabilizado se o desfecho fosse outro) o que era, para mim, um upgrade na forma como conciliava Deus e o sofrimento, eu iniciava um olhar ar crítico para outras áreas do meu mundo religioso. Esse olhar crítico levava-me a fazer perguntas para as quais não tinha - e não tenho - resposta cabal.

No passado sábado, no jornal Observador, o Pe. Portocarrero de Almada (um cronista que, devo confessar, leio sempre com um pé atrás) escreveu um artigo ao qual chamou Mentira Diabólica e no qual ataca um outro artigo, este da autoria de Frei Bento Domingues. E diz o Pe. PdA: "[p]ara o cronista [Frei Bento Domingues], 'o céu, o inferno, o purgatório, o juízo final são metáforas dos desejos e dos medos humanos. São representações engrandecidas do além à imagem do que há de melhor e de pior neste mundo.” Ao contrário do que afirma, não são projecções da imaginação humana, como também o amor de Deus não é metafórico, mas a realidade transcendente revelada por Jesus Cristo e testemunhada pela sua Igreja. 

O tema do purgatório intriga-me. Segundo o Pe. PdA, "[e]mbora a realidade do purgatório não conste explicitamente na Sagrada Escritura, faz parte da Sagrada Tradição, a outra fonte da revelação divina, porque desde sempre na Igreja católica se rezou pelos fiéis defuntos, ou seja, se admitiu a existência de almas que, tendo-se salvo, ainda não chegaram ao Céu e, por isso, precisam dos nossos sufrágios." A ideia de haver almas que pairam num espaço à espera que se reze por elas para ascenderem ao Céu desconcerta-me, até pela injustiça de que parece revestir-se. Porque ando numa maré de interrogações e porque o purgatório, não só não vem mencionado na Bíblia, como não é um dogma de fé, permito-me ter dúvidas sobre a sua existência; ou ter dúvidas como se sai do purgatório, seja para o Céu, seja para o inferno. Tenho dificuldade em conceber que a ascensão ao Céu destas almas esteja dependente de orações: das nossas, de modo geral? Rezamos por quem, pela multidão anónima das almas do purgatório? E quem é que lá está, e porquê? E quando saem estas almas para o Céu? Podem nunca sair? E a responsabilidade é nossa? Será o purgatório um ardil para impor o temor aos crentes? 

Frei Bento Domingues tem fama de esquerdista, talvez, ou de pessoa pouco alinhada com algumas posições da Igreja Católica em Portugal. Porém, não sabendo de que cor política seria Jesus se por cá andasse neste tempo, não resisto a reproduzir uma frase de Hubert Lyautey, militar francês (1854 - 1934) que Alçada Baptista cita no seu livro: "[s]e Cristo me tem aparecido na Argélia, com as suas ideias e a sua subversão, eu não teria outro remédio senão fuzilá-lo". 

JdB

09 agosto 2022

Cartas e campanhas dos dias que correm

OS PADRES

Os Padres são, hoje em dia, uma espécie de “bombos da festa”!

Tudo e toda a gente “malha” nos Padres, em letra maiúscula de propósito.

Começa, (sei lá bem onde começa?), pelos leigos, pelos paroquianos, passa pelos ditos católicos que não “vão” à Igreja e lhes dá jeito os problemas de alguns padres para não irem, (aqui com letra minúscula de propósito), pelos políticos, (é tão bom que falem dos outros e esqueçam a “porcaria” que fazem todos os dias), pelos ditos jornalistas, que de jornalistas nada têm, mas apenas de fazedores de suspeitas, de difamações, de manipulações, passa até pelos que cometem os terríveis pecados que alguns, poucos, padres cometem, porque assim ninguém olha para eles, enfim, é um nunca acabar de gente a criticar, a julgar, a condenar, os Padres, normalmente na praça pública.

Infelizmente, até na própria Igreja, mesmo aos mais altos níveis, os Padres são objecto e razão para permanentes críticas e admoestações, porque são clericalistas, porque são conservadores, porque são progressistas, porque isto, porque aquilo, esquecendo-se essa mesma hierarquia de, pelo menos de vez em quando, os presentear com o reconhecimento do trabalho feito em tanto lugar e tantas vezes em momentos e lugares tão difíceis.

Quem vive com os Padres no seu dia a dia, quem com eles colabora no intuito de servir a Deus, percebe como tantas vezes é injusta a maneira e o modo como os Padres são tratados.

Quem cuida de saber se estão cansados, se celebram mais Missas do que deviam, intercalando com funerais, baptizados, casamentos e “outras coisas mais”?

Se confessam e nada dizem, não valeu a pena a confissão. Se confessam e tentam dar conselhos e ajudar a encontrar caminho, são uns “chatos”, quando não uns convencidos que pensam saber mais do que os “confessados”!

Se nas homílias tentam dar testemunho das suas vidas servindo-se das Leituras e do Evangelho, é porque estão a falar de si próprios, se falam apenas da Palavra e A tentam explicar com mais profundidade, têm a mania que são “teólogos”, se sorriem, riem e estão bem dispostos, é porque não percebem a “dignidade” do que estão a fazer, se estão de cara séria e chamam a atenção para os erros que todos praticamos, têm a mania que são melhores do que os outros.

A lista é interminável, mesmo sem fim, e aplica-se sempre aos Padres que acabam por pagar pelos erros dos outros, padres como eles também.

Então isso quer dizer que não se deve dar atenção e conhecer e punir os actos vergonhosos de alguns padres?

Claro que não!

Tudo isso deve ser apurado até ao fim e com toda a força da lei canónica e civil, doa a quem doer, mas que envolva também todos os outros sectores da sociedade onde tal acontece também.

As outros, filhos de Deus também, mas que nEle não acreditam, é prova mais do que acabada que Deus não existe, que a Igreja é uma “fantochada”, e que tudo isso devia acabar de imediato.

No entanto, não são capazes de tomar a mesma atitude, por exemplo, perante a política, pois sabendo que há políticos corruptos, reconhecem que há bastantes que o não são.

Aqueles que se dizem cristãos católicos e se afastam da Igreja por causa do pecado gravíssimo de alguns padres, (bem poucos no universo geral), ainda não perceberam que a Igreja não são os Padres, somos nós todos reunidos em nome de Deus.

Àqueles que se sentem envergonhados pelo comportamento inaceitável e pecaminoso de certos padres, obrigado, porque são Igreja e sofrem com a Igreja que são.

O texto não teria fim porque, infelizmente, é muito vasto o assunto e exige de nós cristãos católicos muita oração pelos Padres e pelos padres que prevaricam gravemente, bem como pelas suas vítimas.

Eu, pessoalmente, dou graças a Deus pelos Padres, orgulho-me de conhecer e ser amigo de muitos deles e agradeço-lhes do fundo do coração a sua entrega, mais ainda nestes momentos tão difíceis em que seria bem mais fácil “abandonar a barca”, e sobretudo o dom de trazerem Deus nos Sacramentos ao povo que O adora e nEle sempre confia e espera.

Amemos os nossos Padres, por eles pedindo sempre e pedindo ao nosso Papa Francisco e aos nossos Bispos que os acarinhem e reconheçam a sua dedicação profunda, não os criticando tantas vezes como se fossem eles os “culpados” de tudo o que não corre tão bem na Igreja.

Só Deus sabe o seu enorme sacrifício, a sua persistência, perante tantos e tão variados ataques e incompreensões com que as suas vidas são escrutinadas, a maior parte das vezes apenas para dizer mal e interpretar falsamente os seus gestos e atitudes.

O texto é cáustico, muito, eu sei, mas dói-me profundamente que a enorme maioria de Padres que deram e dão a sua vida por Cristo, estejam num frenesim de ataques que toma sempre a “nuvem por Juno”.

A vós Padres todos que, humanamente, resistis às tentações, que reconheceis as vossas fraquezas, mas vos mantendes firmes na fé, ajudando-nos a vivê-la em Igreja por Cristo, com Cristo e em Cristo, OBRIGADO!

Rezo por vós e dou graças a Deus por todos e cada um que permanece fiel ao seu sacerdócio, tudo e só para a maior glória de Deus.

Marinha Grande, 6 de Agosto de 2022

Joaquim Mexia Alves 

***

Carta dos católicos aos Bispos e Padres de Portugal

Para: Bispos e Padres de Portugal

Nós, católicos de Portugal, profundamente entristecidos com as notícias dos abusos sexuais cometidos por alguns membros do clero, vimos manifestar, de todo o coração, a nossa gratidão a todos os sacerdotes que são fiéis à sua vocação, à imagem de Jesus, o Bom Pastor e, de modo silencioso e discreto, diariamente fazem o bem às nossas famílias e comunidades.

Obrigado pelo acompanhamento aos mais frágeis dos frágeis, nas paróquias, nas misericórdias, nos lares, nos orfanatos, nas capelanias hospitalares, nas prisões, nos centros sociais e nas inúmeras associações da Igreja que diariamente ajudam os mais necessitados, os mais excluídos da sociedade.

Obrigado pelo acompanhamento que dão às nossas famílias, todos os dias e em todas as etapas. Obrigado por nos terem preparado para o matrimónio e presidido à sua celebração.

Obrigado por batizarem os nossos Filhos, ajudando-os a despertar na Fé e acompanhando a catequese ao longo da sua infância e juventude. Obrigado pela presença alegre nos escuteiros, nos campos de férias, nas capelanias dos colégios e das universidades.

Obrigado pela presença amiga e consoladora junto dos nossos mais queridos nos momentos em que partem para o Pai. Obrigado por acompanharem a nossa dor nas missas de exéquias e nos funerais.

Obrigado por nos ouvirem no sacramento da reconciliação e por nos terem resgatado nos momentos de crise das nossas vidas. Obrigado por aquela homilia que nos transformou, por todas as vezes que rezaram por nós e pela Eucaristia que diariamente celebram em nossa intenção.

Obrigado pelos quilómetros percorridos para não falharem às povoações mais isoladas. Obrigado pela alegria com que festejam os acontecimentos das famílias e das comunidades cristãs. Obrigado por acolherem os que chegam e por festejarem o regresso dos que partiram.

Obrigado por se gastarem e cansarem para chegar a todos.

Sabemos que ser Padre não é fácil nos dias de hoje. Que alguns são tentados pelo maligno e sucumbem. Rezamos por esses, para que o seu coração se arrependa e sejam transformados pela misericórdia do Senhor. Rezamos pelas suas vítimas, para que o mal que lhes foi feito seja compensado em abundância de amor.

Sabemos que a grande maioria de vós permanecem fiéis ao sacerdócio e à vocação. São para nós testemunho de entrega aos outros e imagem de Cristo. Damos graças pelo dom do vosso sacerdócio, que nos interpela e aponta o Céu.

Contem connosco e com as nossas orações. Sabemos que contamos sempre com as vossas.

https://peticaopublica.com/?pi=PT113307 

04 abril 2022

Do que faz sentido mudar e não faz sentido mudar

Janto há umas semanas com amigos, uns com filhos(as) já casados, outros com filhos(as) ainda por casar. Fala-se de tradições: a noiva que dá a boda e o noivo que monta casa, os números de convites para cada um dos lados, o texto a colocar no convite, etc. Percebe-se que a tradição é algo fluido, pouco estático: numa grande parte dos casos o casamento é oferecido por ambos os lados, mas a noiva ainda entra pelo braço do pai; muitos casais avançam para o casamento após um período mais ou menos longo de coabitação, mas a noiva ainda quer ir de branco. Há Pais que acham que devem pagar a boda e, com isso, impor o número de convites a disponibilizar ao lado do noivo, mas a festa já é, quase sempre, dos noivos.

***

Almoço há uns dias com um amigo, e conversamos sobre Igreja. Falamos de tradições, de hábitos, do que faz sentido mudar, ou mesmo se faz sentido mudar. Lembro-me de duas posições críticas - iguais mas de sentidos opostos - à Igreja Católica: uma posição diz que o mal da Igreja é manter-se ancilosada em posições antigas, que não fazem sentido; no fundo, que a igreja não se actualiza. A outra posição diz que o mal da Igreja é achar que deve actualizar-se, acompanhar os tempos; devia estar menos preocupada em navegar ao sabor do tempo.

Onde me situo eu, quer na história dos casamentos, quer na história da Igreja? Na posição mais fácil, naquela que diz confortavelmente: tudo depende. Já não faz sentido que seja a noiva a pagar a boda (excepto se o pai da noiva puder e quiser) mas faz sentido que a noiva entre pelo braço do pai. Não faz sentido a abstinência do consumo de carne nas 6ªs feiras da Quaresma, mas faz sentido que os padres andem vestidos de padre. Podemos falar das senhoras com véu, da missa em latim, da moral sexual, etc.

Percebo que a prática religiosa não deve assentar numa ideia de supermercado: sirvo-me do que quero ou me dá jeito. Sei que as regras não devem ser relativas, que não podemos deixar ao livre arbítrio de cada um o que fazer ou não fazer, o que cumprir ou não cumprir. Sei também que ser católico é fácil, requer pouco esforço, que as regras são poucas e pouco cumpridas. Porém, por outro lado, também sei que há regras que não fazem sentido à luz dos tempos modernos. No entanto...

Podia ficar aqui até amanhã a perorar sobre o assunto, mas falta-me o tempo e sobra-me a compaixão pelos meus leitores. O que fazer, então? Depende...

JdB      

23 abril 2020

Da oração (resposta a um comentário)

Visitante assíduo e assertivo, "ao" (assim se assina) escreveu o seguinte comentário ao meu post sobre pandemia e fé:

Ninguém é seguramente um cristão. Um cristão tem sempre dúvidas muito importantes acerca da sua Fé.
JdB, neste escrito Vexa não foi feliz. O que perdoo, porque é natural, tal afirmação é humana. Não será verdadeira, mas é natural.
Depois, o escrever que não acredita na oração é grave. A oração nada mais é do que nós conversarmos com Deus [como Adão fazia no Éden]. Escolhemos a intimidade.
Deus que disse que não lhe interessavam os sacrifícios; antes as obras.
Deus que tem um plano [divino] para o Universo.
Se reler os 10 Mandamentos, verá que são para um 'povo' reles, que colocava o seu conforto acima de tudo. Que sempre desprezou os seus irmãos das outras tribos. Repare o que se passou nos anos de 1930: os ricos foram para os EUA e o pobres, nos guetos, que se tramassem.
Mateus, um descendente de Levy, tribo encarregue de fazer as outras cumprir as regras religiosas, era desprezado por ser cobrador de impostos: num povo que venerava o dinheiro.
Levita sustentado, por lei, pelos outros judeus, trabalhando para os romanos? Mas que grande pecador.
Os fariseus, antes de se cruzarem com um publicano tinham, como regra, de se afastarem 9 passos, em semi-círculo, para não se contaminarem...
Tendo eu muitas costelas farisaicas, não o condeno porque sei que eu serei condenado.

***

Sobre o comentário - que agradeço pelo valor que acrescenta ao meu próprio pensamento - gostaria de dizer:

1) O dicionário (se fosse necessário recorrer-lhe) reforça o meu argumento: cristão é aquele que crê em Jesus Cristo, que segue os princípios do cristianismo. Assim sendo, não tenho uma dúvida quanto ao meu cristianismo: leio o que Cristo disse (ou aquilo que me dizem que Cristo disse, em que acredito) e é aquilo que faz sentido eu seguir. Talvez fizesse um esforço tremendo para procurar qualquer coisa sobre a qual pudesse dizer "eh pá! isto não! Com isto não concordo."

(Podia usar uma expressão engraçada que ouvi há uns tempos, "tal como disse Jesus Cristo, e com o qual estou de acordo...")

Assim, procuro ser cristão: o amor ao próximo, a justiça, a atenção aos desfavoráveis, as obras antes dos sacrifícios, as bem-aventuranças. Não é (só) fé, é uma prática de vida, um manual de procedimentos, o que dificulta a coisa....

2) Acredito na oração, mas não como forma de pedir a chuva e a interrupção da chuva, a cura de uma criança doente, a vitória num jogo de futebol, a descoberta de uma vacina. Acredito na oração para mudanças de comportamentos próprios ou alheios, para a tomada de consciência, para que tenhamos discernimento e força em doses suficientes para fazer deste mundo (ou do nosso pequeno mundo) um lugar melhor, para que cada um suporte a cruz que o destino lhe deu ou saiba dar sentido à sua vida. Acredito na oração para pedir milagres - mas os milagres da transformação humana, não os da cura do pé de atleta ou da artrose persistente.

3) Já fora da resposta ao comentário: apesar de todas as minhas críticas (que nem serão muitas...) não concebo a minha vida fora da Igreja Católica. Apesar de todos os defeitos que lhe encontro (e serão alguns) não concebo a minha vida fora da Igreja Católica. Acredito que haja salvação fora da Igreja Católica, mas eu quero salvar-me lá dentro.

JdB   

16 janeiro 2020

Da Igreja Católica

O filme Dois Papas, de que já se falou neste estabelecimento, provoca opiniões diferentes, embora haja aspectos importantes - vistos como negativos - que suscitam uma relativa unanimidade. Mais do que falar do filme - já o fiz, numa análise pouco profunda e que foi criticada - interessava-me divagar sobre o que falam as pessoas (ou algumas pessoas) quando criticam a obra cinematográfica; o que, para essas pessoas, está por trás (ou constitui o perigo) de uma ficção sobre papas vivos, ou que imagem da Igreja se quer passar (ou se passa) quando se confrontam dois papas daquela maneira. O assunto estava relativamente arrumado dentro da minha cabeça; no entanto, aconteceu este episódio do livro escrito pelo Cardeal Robert Sarah sobre o celibato dos padres e relativamente ao qual se anunciou uma certa parceria - deliberada ou manipulada - de Bento XVI. Daí este texto.

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Há uns meses almoçava com um amigo que é muito católico, muito conservador, muito culto e muito inteligente. A propósito de um certa dúvida disse-lhe

hoje vou jantar com um jesuíta e pergunto-lhe.

Ele respondeu numa tirada com graça

não se esqueça de perguntar depois a um padre... 

Poderia contar a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm relativamente a Amoris Laetitia naquilo que se cruza com a comunhão dos recasados; ou a visão muito oposta que amigos meus - católicos - têm sobre algumas ideias do Papa Francisco, desde a possibilidade de ordenação de gente madura na Amazónia até à eliminação de alguns sinais de grandeza da Igreja ou do papa. Ou, no fundo, a ideia que amigos meus - católicos - têm sobre Francisco e Bento XVI. A Igreja Católica, ao seu nível mais básico - que é o comum dos fiéis - está pejada de opiniões diferentes, por vezes muito críticas. Estou certo que a mesma Igreja, ao seu nível mais elevado, é igual - e portanto mais grave, pela sua maior visibilidade e amplitude.

Talvez haja uma certa ideia de banalização da Igreja, da sua redução a uma frivolidade sem importância, própria de um mundo desejoso de relativismo, de ódio a valores absolutos e não negociáveis. Talvez haja uma certa ideia de que toda a gente pode zurzir - e zurze - na Igreja Católica, e que toda a gente pode desdenhar a Igreja Católica, ao contrário de outras igrejas (ou religiões) onde ninguém se atreve a tocar. Haverá ainda a ideia de um ataque orquestrado à Igreja Católica, visível, sobretudo, no que surge nos orgãos de comunicação social, onde só se publica o podre, o negativo, o errado, o ligeiro, mas também noutras áreas, como no caso do filme em apreço.

Sempre tive dúvidas de que houvesse uma agenda de ataque à Igreja: teria de perceber de quem vem, quem a define, quem a controla ou gere, em que moldes se articula. Estou certo que a Igreja suscita irritações em vários graus; porém, a publicação do podre, do negativo, do errado ou do ligeiro é uma característica dos tempos modernos (aplicável a desmandos financeiros em IPSS, a pequenas corrupções de árbitros de província ou a infidelidades do jet set) e não o resultado de um ataque concertado. Publica-se o que vende - e basta, para isso, olhar a capa dos jornais ou das revistas. Numa visão muito radical, talvez não haja muita diferença entre uma primeira página que noticia o padre que roubou peças de arte sacra ou uma primeira página onde se refere (a toda a largura) um menino de dez anos que vê a mãe morrer num acidente.   

Isto não me impede da certeza de que a Igreja Católica tem inimigos; estou convicto, contudo, que os maiores inimigos da Igreja Católica estão dentro da Igreja Católica: é o triste e evitável caso do livro a duas mãos ou a quatro mãos; é o triste caso dos dinheiros do Vaticano, da corrupção, da fuga de informações, ou o vergonhoso e escandaloso caso da pedofilia; é esta certeza que todos temos de que há uma luta interna grande ao nível do topo da Igreja, com estratégias organizadas. É, numa dimensão diferente, a falta de empenho dos católicos na vida da sua paróquia ou da sua diocese, o excesso de criticismo, a incongruência entre o que defendemos e praticamos. É para estes inimigos, sobretudo mas não exclusivamente, que temos de apontar baterias.

Para mim, proteger a igreja é lutar ou rezar pela sua pureza interna; é identificar o adversário certo - não os fernandos meirelles tendenciosos ou os jornalistas à procura do escândalo, mas os inimigos internos. Proteger a igreja é militar, é estar presente, é defendê-la publicamente ou criticá-la recatadamente, é publicitar o bem que faz, colectiva ou individualmente, defender publicamente todos os papas. Proteger a igreja é discernir a diferença saudável, mas levar ao limite a ideia de obediência (o livro do Cardeal Sarah é paradigmático desta ausência de obediência filial). Proteger a igreja é identificar o que mina a sua credibilidade, o que afasta os fiéis das cerimónias, como se combate o excesso de laicismo, como se dá peso aos sacramentos.  

Os tempos não são fáceis; são tempos de muita visibilidade, de permanente escrutínio, de imediatismo e leveza excessiva. É preciso que cada um de nós, católicos, perceba como quer / pode defender a Igreja onde se revê. Talvez ajude se a Igreja (onde estou e quero estar) não cometer tantos erros. Já não vivemos, para o melhor e para o pior, o tempo da sede gestatória, do camauro orlado de arminho ou de outros sinais que evidenciavam a magnificência do cargo. Vivemos, também para o melhor e para o pior, um tempo de grande proximidade temporal: o que se faz agora sabe-se agora - ou inventa-se agora. Convém que estejamos mais atentos.      

JdB

22 fevereiro 2019

Da importância do testemunho

4ª feira à noite, a convite de um amigo, fui ouvir o Fernando Santos. Saí de casa numa noite fria para  ouvir o cristão, não o treinador. Fernando Santos Falou-nos da sua vida, da sua história, do seu percurso. Sempre que abordou o tema futebol foi para contar uma história relacionada com fé, com missa, com a Bíblia. Mais do que falar dele - e falar de si já é bom - ele falou-nos de testemunho: da carta que leu quando nos sagrámos campeões europeus (e que é pública) da forma como aborda as amizades com agnósticos ou como lida com jovens futebolistas que são muçulmanos, judeus - ou apenas nada.

Vem este texto muito a propósito do texto que publiquei ontem e dos comentários que algumas pessoas tiveram a amabilidade de fazer - no blogue ou por mail. Nada me levaria a escrever duas vezes seguidas sobre um tema semelhante, mas a expressão testemunho, tão usada por Fernando Santos, a isso me impele. 

Acredito, como comentava ontem alguém, que há uma campanha para destruir valores que são essenciais a um conjunto alargado de pessoas, valores que estão por trás - e foram o suporte - da Europa que se construíu e que se vai destruindo com uma alegria que confrange. Acredito que há uma campanha para destruir a Igreja Católica. Acredito ainda que muitos dos inimigos da Igreja estão intra muros, não são apenas os comunistas ou os bloquistas ou os pretensamente ateus. Muitos tiros - e tiros graves - são dados nos próprio pés.

Talvez, portanto, esta ameaça requeira uma defesa diferente da Igreja Católica e dos verdadeiros valores de solidariedade e atenção aos mais desfavorecidos que ela defende, valores esses que se revelam nas pequenas igrejas domésticas ou locais, nas inúmeras ipss de inspiração cristã, nos milhares e milhares de membros do clero que, no anonimato de vidas santas, fazem do mandamento novo o seu ideário. 

Testemunhar tem de ser mais do que fazemos - seguramente muito mais do que eu faço. Testemunhar tem de ser defender o forte, uma árvore fundamentalmente sã, ainda que vergada ao peso de maçãs podres. Testemunhar é afirmarmo-nos católicos apesar de tudo, é defender a credibilidade da igreja mesmo em tempos de grande falta de credibilidade. Testemunhar é afirmar que nada de tão bondosamente revolucionário se "inventou" depois de Cristo. Testemunhar é também, nas possibilidades de cada um, estar presente, falar dentro da Igreja, colaborar, ajudar, criticar e sugerir e, se necessário, por a nu. Testemunhar tem de passar por escrever ao Observador a criticar e a manifestar indignação. Testemunhar tem de passar por denunciar textos como o do José Diogo Quintela pela sua falta de respeito (e o respeito tem de vir antes da gargalhada alvar). Testemunhar tem de ser dizer o que somos por onde passamos. 

Nunca o testemunho dos católicos e dos cristãos foi tão importante como agora. A nossa consciência e o futuro não nos perdoarão se perdermos por falta de comparência.

JdB

21 fevereiro 2019

Da pedofilia na Igreja e do Observador

O jornal Observador tem vindo a publicar, desde há algumas semanas, uma investigação muito exaustiva sobre o problema da pedofilia (ou efebofilia, ou homossexualidade) na Igreja Católica em Portugal. Têm, inclusivamente, solicitado aos leitores que revelem histórias de que tenham conhecimento ou que possam ser contadas na primeira pessoa. Por outro lado, José Diogo Quintela, conhecido como humorista (talvez mais correcto do que dizer conhecido humorista) escreveu um texto a que intitulou Vade Retro, Sr. Padre! (em condições normais poria aqui o link, mas confesso que não me apetece). Porém, apetece-me dizer meia dúzia de palavras sobre o tema, respigando ideias que vou apanhando ou que vou redigindo mentalmente.

Nota previa: Tenho a declarar que um dos fundadores do jornal me é próximo e que eu próprio já escrevi 4 artigos, parece-me, que ali foram publicados. 

***

Do ponto de vista jornalístico pouco tenho a apontar ao Observador. O que membros da Igreja Católica fizeram com, ou a crianças ou jovens indefesos, é grave, ofende a nossa consciência e, estou certo, afastará muita gente dos bancos das igrejas. Há seguramente uma perda de credibilidade, não só pelo facto de alguns membros do clero se terem portado abominavelmente mas, acima de tudo, porque a hierarquia lidou com o assunto de forma desajeitada (para ser brando...). Como católico não gosto de ver a minha igreja nestes preparos, mas não posso pedir a um jornal que se cale perante esta barbaridade. Conto que os orgãos de comunicação social denunciem estes escândalos na Igreja Católica, como conto que os jornais denunciem escândalos (semelhantes ou diferentes) noutras igrejas. Como foi, aliás, o caso da TVI na sua investigação ao escândalo das adopções e dos luxos da IURD. 

Diz a sabedoria popular que a notícia é o homem que mordeu no cão. E, de facto, a notícia que vende não é a alma saudável da esmagadora maioria dos membros do clero; a notícia que vende não é o volume inigualável de ajuda humanitária da ICAR em África; a notícia que vende não é o labor silencioso e cristão das ordens religiosas que se dedicam a tomar conta dos mais pobres de entre os mais pobres, ou a acarinhar aqueles que a sociedade não tem onde colocar, porque são velhos e cegos, são velhos e deficientes, são improdutivos e desconfortáveis; a notícia que vende não é o bem que se faz, a paz que se promove, a ajuda que se dá. O que vende, o que representa o homem a morder o cão é isto: o escândalo, a porcaria, o desvio, o nojo, a vergonha. Devemos noticiá-los? Sim, devemos, sem qualquer sombra de dúvida. Mas também devemos noticiar o cão que mordeu no homem - se não for em nome do número de visualizações, que seja em nome da mais elementar justiça. Ser-se jornalista não é apenas vender, é também informar - e informar é partilhar as boas notícias, não apenas o que rebaixa a nossa condição humana.

***   

Sobre o artigo de José Diogo Quintela pouco tenho a dizer, a não ser que é uma porcaria. Mais do que lamentar que o Observador lhe dê guarida a troco de uma tença, tenho a lamentar que o cavalheiro, conhecido como humorista, se preste a isto, não saiba para mais, não queira mais, não possa mais. A Igreja põe-se a jeito? Sim, põe-se. Mas as pessoas correctas não se aproveitam disso, sob risco de se ofender quem não deve ofender-se (e não falo das avós do cavalheiro, que não sei se ainda são vivas). Bater na Igreja é uma tentação, mas escrever-se "instituição [ICAR] que anda há dois mil anos a convencer milhões de pessoas que é possível uma virgem dar à luz" é ofender dogmas, é apoucar. Pior ainda, é apoucar-se. Espero um dia poder imaginar-lhe a bonomia quando alguém, na sua competência de humorista, gozar com José Diogo Quintela e com aquilo que para ele é mais sagrado.

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Uma nota final para o meu estimado amigo ATM, que durante o dia de ontem me deu conta dos seus protestos junto do Observador, usando argumentos justos e fortes, próprios de um católico que se indigna com as indignidades. Protestos que mereceram uma resposta correcta e pensada por parte do jornal

JdB 

01 março 2018

Moleskine católico

Declaração de interesses (repetida quase ad nauseam): sou católico, voluntário, na medida das possibilidades, na paróquia que é minha desde há mais de quarenta anos. Já conheci seis ou sete priores e / ou coadjutores, e alguns acompanharam um período importante e desafiante da minha vida. Vivo numa situação conjugal que a Igreja classifica de irregular.

*** 

Muito se tem escrito sobre este tema do sexo nos recasados. Aquilo que leio oscila entre a defesa de D. Manuel Clemente, a defesa da posição que o patriarca apontou como um caminho (a abstinência sexual), a crítica mais ou menos equilibrada desta ideia - normalmente por jornalistas / colunistas  -  e a pestilência opinativa que brota da boca dos comentaristas, normalmente não católicos, mas a entenderem poder - e dever - perorar sobre um problema que é dos católicos, porque a um agnóstico não se lhe pede que se abstenha de ter relações sexuais com o seu significant other.

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Durante alguns anos participei em Cursos de Preparação para o Matrimónio na minha paróquia. Pela minha frente, para ouvir o que eu tinha a partilhar, passaram dezenas e dezenas de casais que pretendiam receber o sacramento - algo ligeiramente diferente de casar... No meu entendimento, mais de metade, e talvez esteja a ser obsequioso, não tinha a menor condição para casarem pela Igreja e a escolha dessa modalidade obedecia a dois critérios: tradição e beleza. Mais de metade daqueles jovens não tinha ido à missa no domingo anterior ao casamento e não faziam a menor tenção de ir à missa no domingo a seguir. Não tinham prática religiosa, mas azulejos do século XVIII fazem um fundo fotográfico mais bonito do que o busto semi-desnudo da Ilda Puga que adorna as conservatórias. E para muitos outros, alguns dos quais conheço bem, era a tradição, a ideia de que faz sentido, mesmo que nem sempre tivessem a noção do que estavam a fazer ou do desafio que enfrentavam.

Um famoso político socialista, parece-me, disse um dia: não são os salários que estão em atraso; são as falências que não estão em dia. Aplica-se o mesmo, diria, aos casamentos pela igreja: não há excesso de divórcios; há é excesso de casamentos. 

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Li alguns textos de opinião sobre o tema em apreço. Li, em particular, dois que foram publicados no Observador, um dos quais escrito por alguém que conheço superficialmente, com quem partilhei tardes de convívio com jovens (e futuros) casais. Da autora de outro texto não sei nada; não conheço a senhora, sou amigo de quem a conhece. Ambos defendem com vigor a ideia da abstinência sexual e dão-lhe uma dimensão (quase) divina. Discordo de ambos - no conteúdo e na forma. Incomoda-me que um católico escreva que os recasados "relegam Deus para um segundo lugar", porque isso confere a quem o escreve uma superioridade moral e religiosa abusiva, para além de se constituir como juiz genérico de comportamentos que não podem ser analisados genericamente. Incomoda-me que um católico escreva que "[a abstinência sexual] ... é levar a sério as frases de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimónio".  Os recasados não discutem a indissolubilidade dos casamentos - talvez mesmo a discutam menos do que alguns sectores da Igreja que vêem com bons olhos a facilidade, por vezes questionável, dos processos de nulidade. 

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Conheço vários recasados, como conheço vários casados. É um lugar-comum afirmar-se que sei de muitas situações ditas irregulares em que, na minha opinião, os intervenientes estão mais bem preparados para comungar do que outros que o fazem porque não incorrem em escândalo público. As "misérias" dos primeiros são visíveis, as dos segundos nem sempre. Qual é a miséria dos primeiros? Recasamento com sexo. 

Cada caso é um caso - e há casos que merecem um segundo e um terceiro olhares. Fazer o caminho que o papa Francisco preconiza não é abrir portas à barbárie civilizacional, mas oferecer uma possibilidade compassiva. Quem fizer esse caminho revela vontade de o fazer e, estou certo, fará o seu discernimento acompanhado, chegando à conclusão, em consciência, se deve ou não comungar. Não serei eu, nem os comentadores que escrevem sobre esse tema como se fossem polícias de costumes, a relegar os recasados para o gueto dos desgraçados que colocaram Deus em segundo plano, ou que não levam a sério as frases de Jesus. Cada pessoa saberá, ou quererá saber de si. E o assunto não fica exclusivamente à sua consciência, mas ao critério acompanhado de um padre.

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Gosto da ideia de castidade. Não porque tem o significado que se costuma dar-lhe (e o cinto não engana...), mas porque eleva o acto sexual a uma manifestação de amor. Ser-se casto não é praticar-se a abstinência. Ser-se casto é ser-se equilibrado, fazer do acto sexual com a pessoa com quem se vive um gesto de afecto, de equilíbrio, de construção de um projecto (igualmente) divino. A falta de castidade atinge todos - os casados, os recasados, os solteiros. A castidade é, por isso, para todos. Não perceber isto, ou usar frases retumbantes carregadas de fundamentalismo, mas desprovidas de humanidade, é não perceber a vida; ou é transformar o caminho da santidade na inscrição num clube de eleitos de onde os aparentemente virtuosos públicos excluem os certamente pecadores públicos. 

JdB

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