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02 setembro 2026

Moleskine

 

Paço Ducal de Vila Viçosa, Agosto de 2026

Na telefonia, uma jornalista informa os ouvintes de que o mercúrio vai subir nos termómetros. Refere-se, obviamente, ao aumento de temperatura previsto para os próximos dias. Acontece que a venda ao público de termómetros de mercúrio está proibida na União Europeia há mais de 10 anos, dada a sua perigosidade caso se partissem. Do ponto de vista factual, a informação está errada. Estou convencido, porém, que a associação mercúrio - termómetro demorará a desaparecer. Resta saber se a jornalista foi levada pela criatividade noticiosa ou vencida pela ignorância. Sei para onde me inclino. 

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Dirijo-me à loja do chinês para comprar sabão azul. Pergunto à funcionária (chinesa, obviamente) onde está o artigo. Ela pensa dez segundos e responde: primeira linha, em baixo. Dirijo-me ao primeiro corredor e olho para baixo. Nada de sabão azul. Insisto, e nada. A funcionária acaba por me mostrar umas escadas que conduzem à cave. No primeiro corredor lá estava, sorridente, uma barra de sabão azul. Fui derrotado pela sequência das informações: primeira linha, em baixo só aparentemente é igual a em baixo, primeira linha. A ordem dos factores não é arbitrária, como na soma ou na multiplicação. O primeiro hemistíquio da frase determina a coordenada principal; o segundo hemistíquio determina a coordenada secundária. 

Podia ter discutido esta questão com a funcionária, mas o meu mandarim (ou seria cantonês?) está enferrujado. 

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No Livro dos Reis (1Reis 3:5-13) Deus aparece a Salomão em sonhos e diz-lhe: Pede! Que posso eu dar-te? A versão que ouvi um dia destes na missa diz que Salomão pede um coração inteligente. A expressão suscita dúvidas em quem ouve a leitura, porque inteligente parece ser um conceito moderno. Uma breve investigação explica que a palavra ‘inteligência’ vem do latim intelligentia, derivada do verbo intelligere (composto por inter + legere, que significa 'escolher', 'discernir' ou 'ler entre'). O termo foi introduzido no vocabulário filosófico ocidental por Cícero, no século I a.C. Não é por aí, portanto. 

Para mim, porém, inteligência não é uma qualidade, mas uma característica. Nasce-se inteligente (qualquer que seja a forma de inteligência) mas a qualidade deriva da aplicação dessa inteligência. Um aldrabão pode ser superiormente inteligente, um ditador sanguinário também. Como é que Salomão pede um coração inteligente

A versão inglesa da Bíblia usa a expressão discerning heart. A minha versão da Bíblia refere um coração cheio de entendimento. Ambas as opções são claramente melhores do que coração inteligente. Aguardo que partilhem comigo a expressão usada por Frederico Lourenço na sua tradução da Bíblia. 

JdB 

28 abril 2025

Moleskine

Sá de Miranda, num soneto que aqui postei há poucos dias, faz uma pergunta: que farei quando tudo arde? Fernando Pessoa, no seu poema O Conde D. Henrique (incluído na Mensagem) faz uma outra pergunta: que farei eu com esta espada? 400 anos separam ambos os poetas. Porém, apesar da distância temporal de quatro séculos, a interrogação aproxima-os: que farei...? 

A interrogação é a mãe da resposta, embora só possamos intuir que os poetas a descobriram. Sá de Miranda deixa a pergunta no último verso do poema; Fernando Pessoa só acrescenta mais um verso depois da pergunta (Ergueste-a, e fez-se). Mas ambos fazem a pergunta certa: o que farei com uma determinada situação (quando tudo arde) e o que farei com uma determinada ferramenta (esta espada). Perceber que a pergunta certa é o que farei com...? é abrir a porta à solução - e a solução está no futuro que se constrói todos os dias. Sá de Miranda não pergunta porque é que tudo arde e Pessoa sabe que tem uma ferramenta, faltando apenas o discernimento do que fazer com ela. 

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Já aqui escrevi sobre o tema da dívida de gratidão para com pessoas que, em determinados momentos da vida, form particularmente importantes para nós. Um destes dias percebi (ou confirmei, não sei...) que estas dívidas de gratidão jogam muito a nosso favor. Não só somos gratos (e a gratidão verbalizada está em desuso) como percebemos a bondade que não desapareceu do mundo e a amizade que as pessoas têm por nós. Ter dívidas de gratidão faz bem à alma de credores e devedores.

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É de um certo domínio do bom senso a afirmação de que a repressão de sentimentos não é positiva. Salomón Sellam, um médico francês especialista em psicossomática, de quem ouvi falar esta semana, afirmou: tudo o que não se pode expressar exteriormente fica impresso interiormente e manifesta-se sob a forma de sintoma. A vida obriga a um equilíbrio: se retrairmos tudo, o nosso bem-estar fica prejudicado; se exteriorizarmos tudo, o bem-estar dos outros fica prejudicado. A medida certa chama-se educação

JdB 

02 dezembro 2024

Moleskine

 

Paredão do Estoril, um destes dias de manhã cedo
 

Haverá 50 anos de diferença entre estas duas frases: para que a Terra não esqueça, e vocês serão lembrados. Curiosamente, ambas se referem ao holocausto. A primeira, o título - provavelmente o subtítulo - de um livro que li há 50 anos; a segunda, uma das últimas frases ditas num filme que vi há pouco tempo. Ambas se referem à memória, à lembrança. 

Como tudo na vida, a memória já não é o que era. A minha geração (e outras antes disso) foi educada para a memorização das coisas: rios, serras, caminhos de ferro, reis, elementos da tabela periódica. Hoje já não é assim, pois está tudo à distância de um clique, de uma inteligência artificial, de um google. O que faz esta mudança pela nossa lembrança das pessoas? Desabituados que estaremos a usar a memória, como gerimos a memória que temos das pessoas? Ninguém com 40 anos ou menos lembrará de cor os rios de Portugal. Saberão lembrar as pessoas que lhes foram importantes? Em que parte do corpo está a nossa memória?

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Oiço esta frase atribuída a C S Lewis: não é humilde quem pensa que é poucochinho, mas quem pensa pouco em si próprio. A modernidade, ou o salazarismo, sei lá eu, deram cabo da palavra humilde, cuja etimologia (se a memória não me falha) está em húmus, em algo inferior, que está abaixo de. Uma virtude que o tempo adulterou.

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Janto um dia destes com sobrinhos que casarão para o ano. São pessoas na casa dos trinta e muitos que vivem juntos, que lidarão menos bem (e muito naturalmente) com algumas tradições antigas que sentem desactualizadas e sem sentido. Como (quase) todos os daquela geração, por mais alternativos que sejam, querem o casamento tradicional: missa, fraque, damas de honor, copo de água sentado com entrada, prato, mesa de queijos e de doces. 

Neste parágrafo não está envolvida nenhuma crítica, até porque gosto muito deste (futuro) casal. É uma constatação sociológica: por mais que algumas tradições mudem, outras querem-se imutáveis.

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Por causa do meu doutoramento, tenho vindo a entrevistar Pais de crianças / jovens com cancro que estão em tratamento ou fora de tratamento há pouco tempo. Em resposta à pergunta: na fase de diagnóstico / tratamento do seu filho(a), onde foi buscar apoio (fé, família, amigos, ciência, etc.) para lidar com a situação? a resposta foi quase sempre e mesma: ao meu filho(a). 

A resposta não está errada, porque nenhuma resposta está errada, mas fez-me pensar. O meu filho(a) seria, para mim - e num pensamento repentista - a resposta à pergunta: o que o fez nunca desanimar? Talvez o ânimo e o apoio se cruzem algures.  

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Já aqui escrevi sobre isto: a minha valentia física (já se vai perceber porque não uso a palavra coragem) nunca foi posta à prova. Na minha vida nunca fui confrontado com a necessidade ou inevitabilidade de bater em alguém ou de me defender de ataques físicos. Não posso imaginar, por isso, como reagiria se me visse envolvido numa circunstância semelhante.

Apanho numa palestra a definição de coragem, de quando a palavra entrou no léxico inglês: vem do latim cor (coração) e significava originalmente contar a história de quem somos com todo o nosso coração. De uma forma simplista, porque esta definição tem outras implicações, estas pessoas tinham a coragem de ser imperfeitas. 

Continuo sem saber se sou valente, ou destemido. Mas gosto de saber que sou um pouco corajoso.

JdB

01 agosto 2024

Moleskine

Machico - Porto da Cruz, Julho de 2024
 Jogos Olímpicos (I)

Oiço, antes dos Jogos Olímpicos começarem, uma entrevista com alguém ligado à nossa comitiva. Diz a uma determinada altura: temos fé em medalhas. Dei por mim a pensar nas medalhas que tenho ou tive: uma de Nossa Senhora do Carmo, outra de Santa Teresa do Menino Jesus, outra de um desgraçado Coração de Jesus. Nessas medalhas pode ter-se fé - talvez mesmo uma fezada; nas outras, nas olímpicas, há que ter confiança. Talvez por isso, por se confundir e confiança, vamos trazendo pouco ouro, prato ou bronze para Portugal, ainda que sejamos os melhores em tudo, segundo o nosso Presidente.

Jogos Olímpicos (II)

Gustavo Ribeiro, o nosso skatista na versão street (não estou certo de uma ou de ambas as palavras em itálico) foi prematuramente afastado, mas olha em frente com esperança - diz que ainda tem dois Jogos Olímpicos pela frente. Isto é fé e confiança em simultâneo. Vai treinar para ser melhor, conta estar vivo. 

Jogos Olímpicos (III)

Pouco tenho contra os neologismo. Na verdade, sou um grande produtor deles, embora mais por ignorância do que por criatividade. Mas nada me irritou tanto nos últimos dias (sou de irritação fácil) do que ler a expressão mesatenista aplicado às nossas representantes já afastadas, ambas com nomes chineses. O que se chamará aos que saltam à vara: saltavaristas? E aos que correm o hectómetro? Hectometristas? 

Expressões criativas

Nos últimos dias fui brindado com expressões novas, mas muito interessantes: Gabriel Alves, essa lenda do comentário futebolístico, falava na volumetria emocional (não afianço o emocional) referindo-se aos adeptos do desporto-rei. Num outro sítio, alguém se referia a alguém como sendo um cristal de energia. Podemos ler muito, mas há expressões que estão para além do poder limitado e vulgar dos humanos. São o fruto de um relâmpago, de uma epifania, de um golpe de asa.

Frase

Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente – o Corvo, as Flores, Faial, o Pico, o Pico, S. Jorge, S. Jorge, a Terceira e a Graciosa...  (Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas, e que descobri ao começar a ler Mau Tempo no Canal). A frase é interessante e uma possível metáfora para a vida: afinal, o que cada um de nós tem de mais belo e nos completa é aquele / aquela que está à nossa frente ou ao nosso lado. 

JdB   

09 maio 2024

Moleskine

Quanto tempo me sobra?

Comecei a perceber que, de certa forma, enfrentar a minha própria mortalidade não mudara nada e mudara tudo. Antes de o meu cancro ser diagnosticado, eu sabia que um dia iria morrer, mas não sabia quando. Depois do diagnóstico, eu sabia que um dia iria morrer, mas não sabia quando. Mas agora eu sabia-o de forma incisiva. O problema não era, na verdade, científico. A existência da morte é perturbadora. No entanto, não há outra maneira de viver.

Este texto (parágrafo traduzido por mim) foi publicado por Paul Kalanithi, um neurocirurgião de 36 anos diagnosticado com cancro do pulmão no The New York Times

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Gratidão

Há gente que me é próxima que não gosta da expressão: tenho uma dívida de gratidão para com... Apesar disso continuo a usar a expressão por vários motivos, nomeadamente o facto de haver pessoas a quem devo muito mais do que finezas de amizade. Foram pessoas que, em determinados momentos mais desafiantes da minha existência, me estenderam a mão, me puxaram activamente para cima e, nalguns casos, me apresentaram projectos, ideias, horizontes que deram um sentido à minha vida. Que, por um certo prisma, me salvaram 

Gosto da ideia de gratidão; gosto da ideia de ser grato. A gratidão não assenta numa contabilidade, mas num desejo de alegria interior. Agradece-se a alguém um presente, uma mão estendida, um jantar, uma palavra. Agradece-se à vida o que ela nos deu. Mesmo que tenhamos sido nós a construir o nosso caminho, todos sabemos que grande parte do que somos é fruto de um acaso. Tudo se destrói numa curva da estrada, numa análise estranha, num acidente fatal. E por último, mas não menos importante, agradecem-se os perdões, as reconciliações, os recomeços, como se de uma dádiva se tratasse

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Fotografias dos dias que correm

Fotografia de Herb Slodounik

Esta fotografia é curiosa, porque conta uma história. O interessante é que não se sabe qual é a história: pode ser a história de duas crianças curiosas; mas pode ser a história de duas crianças que, num museu cheio de obras de arte, escolhem não ver o óbvio, para se fixarem no que é, aparentemente, secundário.  

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Aprendido por aí

Regra de ouro: trate os outros como gostaria que o tratassem a si

Regra de platina: trate os outros como eles querem ser tratados.

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Lido por aí

No princípio da vida, quando somos crianças, precisamos dos outros para sobreviver, certo? E no fim da vida, quando ficas como eu, precisas dos outros para viver, certo? (...) Mas o segredo está aqui: entre uma coisa e a outra, também precisamos dos outros.

(Mitch Albom, in Às terças com Morrie, lido pela primeira vez em 2006)  

JdB

02 fevereiro 2024

Moleskine

Frases soltas

Há muito anos, integrado num grupo de amigos relativamente fixo, desenvolvi um hábito totalmente irrelevante: no fim do jantar num restaurante - quase sempre em estabelecimentos baratos - começar a escrever frases que eram ditas à mesa. As frases eram escritas de forma solta, entre as nódoas de vinho tinto, de gordura ou de café. Não tinham de ter uma sequência lógica nem tinham de ser ditas pela mesma pessoa. Findo o jantar, dobrava-se a toalha e levava-se para casa. A leitura posterior da toalha gerava um exercício curioso - saber quem disse, porque disse, a que respondeu, o que foi respondido, o significado da frase. Acima de tudo - estavamos muito longe dessa fase, poderia ser um momento de imaginação.

Um dia destes, no paredão, ouvi uma senhora dizer para a outra: o problema é que ele gosta do seu café de manhã. Dei por mim a recuar 40 anos e a confrontar-me com uma toalha de papel cheia de frases. Em que circunstâncias é que gostar de um café de manhã é um problema? Seria alguém preso?

Um dia soube de alguém que comprava fotografias soltas na Feira da Ladra. Fotografias não identificadas, de pessoas desconhecidas, em locais muitas vezes desconhecidos. O exercício é o mesmo: uma frase solta - escrita ou dita - um retrato solto são pontos de partida para histórias de adivinhação.

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 Filmes

Partilho com alguém que estou a ver A Paixão de Shakespeare pela enésima vez. Do lado de lá vem a graça: já só falta O Gladiador. A minha resposta é imediata: O Gladiador é um filme; a Paixão de Shakespeare é mais do que isso. 

Os filmes que nos são importantes são-no por diversos motivos: pela qualidade / beleza da banda sonora, pelo momento da vida em que os vimos, pela qualidade da interpretação, pela história, etc. A Paixão de Shakespeare tem várias virtudes: a actriz principal, a história, a aprendizagem da obra Romeu e Julieta mas, acima de tudo, tem uma dimensão de metáfora que me é particularmente agradável. Pode ver-se tudo - a beleza da actriz, o requinte do guarda-roupa, o enquadramento histórico, o desempenho dos actores, etc.  Acima de tudo isso está o diálogo:

- Estamos perdidos,
- Não, vai correr bem.
- Como?
- Não sei, é um mistério.

O encontro com a metáfora é o encontro com uma dimensão superior da estética. Há uma beleza e um encanto na metáfora que não devem ser descurados. Ensinar isto aos excessivamente racionais poderia ser uma obra de misericórdia.

JdB 

28 dezembro 2023

Moleskine

O paredão do Estoril, visto este mês através de um telemóvel matutino

 Música de chacha ou conversa de elevador

É muito natural irritarmo-nos, ou não termos paciência, com a chamada conversa de chacha. Em que consiste este tipo de conversa? Em falar de banalidades, nomeadamente o tempo: os dias estão mais curtos, parece que vai chover, que maçada este vento, etc. O objectivo é eliminar um silêncio incomodativo, remetendo os interlocutores para o menor múltiplo comum do socialização: falar do tempo, já que nem toda a gente percebe de física quântica, do novo cinema turco ou da qualidade dos quadros do Chega. Podemos não saber quem é o melhor médio-ala do Sporting, mas todos peroramos sobre a meteorologia. 

Curiosamente, ninguém se incomoda com a chamada música de elevador ou de lobby de hotel. Em que consiste este tipo de música? Em algo instrumental, cuja presença não se nota (ou não se impõe) mas cujo desaparecimento súbito suscita um sobressalto: o que aconteceu à música? Qual o objectivo deste tipo de música? Eliminar um silêncio incomodativo, remetendo os ouvintes para algo não desagradável, relativamente à qual (a música) não se exige uma sabedoria ou uma informação mais técnica. Ninguém discorre sobre música de elevador, como ninguém discorre sobre o tempo.

Entre a conversa de chacha e a música de elevador há uma grande semelhança: ambas salvam os tempos modernos do silêncio. Em certas alturas ambas podiam não existir, para que o silêncio ganhasse algum destaque benfazejo.

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 A isenção dos jornalistas

Não há nada de que os jornalistas se gabem mais do que da sua isenção. Poucos são os jornais ou canais de televisão que não apregoem a isenção e o respeito inviolável pela verdade. Ora, se isso pode ser verdade (em bom rigor não será) quando se fala de questões políticas, não o é, seguramente, quando se fala de trivialidades. Quando um jornalista diz, por exemplo, que se abateu uma tragédia sobre a aldeia x, está a reportar um facto ou a emitir uma opinião? Se usa a expressão tragédia então não me parece que haja isenção, porque está a emitir um juízo de valor sobre um acontecimento, ou série de acontecimentos. De igual forma, quando após uma chuva persistente em Novembro o jornalista informa que o bom tempo vai voltar na próxima semana, está a reportar um facto ou a emitir uma opinião? Quem decide o que é bom tempo na primeira quinzena de Dezembro?

JdB    

29 setembro 2023

Moleskine


Tal como aqui escrevi, Domingo passado fui ao lançamento do livro "Um Dia Bom", com textos da Marta Oliveira da Silva e ilustrações da Carolina Branco. Alguns dias mais tarde enviam-me um desenho, feito na hora, com os intervenientes no lançamento. Ficam os parabéns à Piedade (Pi) Jardine (que não tive o gosto de conhecer). Sugiro que façam uma visita ao site dela: https://www.laviebypi.com/

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A propósito da ligação da Marta com a oncologia pediátrica, pessoa que me é próxima partilha o pensamento de outra jovem mãe que se confronta com o mesmo desafio de ter um filho pequeno com cancro (a citação não é ipsis verbis): quando casamos e mencionamos "na saúde e na doença" nunca pensamos que a doença pode não ser de nenhum dos cônjuges. Eu acrescentei: e quando dizemos "até que a morte nos separe" também nunca pensamos que a morte pode não ser de nenhum dos cônjuges. 

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Amigo que me é próximo apresentou queixa no MP do Ricardo Araújo Pereira pela paródia que este fez do Presidente da República, aquando de um decote de uma jovem luso-descendente no Canadá. Refere-se ao programa "Isto é gozar com quem trabalha" que passou na SIC no passado dia 17 de Dezembro. 

A informação que ele partilhou comigo fez-me pensar retrospectivamente. Na verdade, vi aquele programa específico e ri-me sozinho. Mas também na verdade, a queixa fez-me perceber que o RAP se tinha excedido no humor e na troça que fez do Presidente. 

Não vou entrar numa discussão sobre liberdade, humor, limites, valores da Pátria ou símbolos institucionais. O que me fez pensar foi por que motivo não me indignei - nem antes de saber da queixa, quando vi o programa, nem depois de saber da queixa. Sim, achei que o RAP se tinha excedido, mas não associei nada (e vou explicar o nada) a desrespeito pelos símbolos nacionais. Isto é, não entendi o Presidente da República (ou terá sido o Marcelo Rebelo de Sousa) como símbolo nacional nem entendi as Forças Armadas como símbolo nacional. Nesse sentido, o que eu vi foi o RAP a gozar com o Marcelo e com a tropa. Porém, embora como monárquico não goste dela, acharia um desrespeito se o RAP gozasse com a bandeira nacional, essa sim, um símbolo nacional.

Será que o Marcelo com quem se goza não é o Presidente da República com quem se goza? Será que a tropa com quem se goza não são as Forças Armadas com quem se goza?

JdB

12 maio 2023

Moleskine de uma congresso de oncologia pediátrica

Estive estes dias que passaram em Valência, numa conferência europeia sobre oncologia pediátrica, com médicos e representantes de organizações de pais / doentes, mas também com sobreviventes. Voltarei a falar deste tema em maior detalhe, talvez, mas o que posso dizer de imediato é que, apesar do cansaço (afinal, falar uma língua estrangeira o dia todo não é fácil...) foram 4 dias imensamente gratificantes. Algumas notas soltas para já (num misto de informação ligeira e de ténue irritação):

Inteligência artificial

Durante uma hora fala-se deste tema, das suas implicações na oncologia pediátrica: protecção de dados, confidencialidade, desemprego dos patologistas. Ora, se a inteligência artificial vai gerar uma menor necessidade nesta classe de profissionais de saúde, isso significa que serão menos precisos. E se são menos precisos, então basta exportar a inteligência artificial para os pais em vias de desenvolvimento, onde as crianças morrem de cancro (também) por falta de pessoal especializado.

Pegada ecológica

Todos os anos há um congresso internacional de oncologistas pediátricos e de associações de pais / doentes. No ano que vem será (ainda ninguém me conseguiu explicar porquê) no Hawai. Falava com amigos sobre a viagem, sobre o meu relativo desinteresse em ir à ilha, sobre o preço das viagens, etc. Alguém opinou: acho esse congresso inaceitável; ninguém pensou na pegada ecológica? Ora eu, que no domingo parto para a Malásia e Singapura para (também) assistir a uma conferência regional sobre o tema, fiquei de cabelos eriçados, e só respondi, no limiar da bruteza: era o que mais faltava, começar a gerir as minhas viagens em função da pegada ecológica...

Gente negativa 

Oiço uma palestra em que alguém fala de se fugir das pessoas negativas, porque não acrescentam valor. Na véspera, perante alguém que comentou a menor qualidade de uma refeição, houve logo uma resposta certeira: é preciso sermos positivos, e pensar que tivemos um jantar; amanhã será melhor. Toda a gente fala da importância de sermos positivos e isso gera-me uma certa irritação. Para já, todos temos a nossa "negatividade": uns é por palavras, outros são por actos. E, confesso, o excesso de positivismo cansa-me, porque é artificial; é apenas uma coisa que se diz, para fingir que somos bons, queremos viver felizes, fugimos das pessoas tóxicas. Ao meu lado diz-me uma pessoa: numa organização é fundamental termos pessoas negativas: são eles que detectam os riscos... Haja alguém lúcido, não vendido à pureza da vida.

JdB

12 dezembro 2022

Moleskine

Versos

Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That's how the light gets in

Esta quadra, tirada de um poema mais extenso, de Leonard Cohen, chamado Anthem, são um bom ponto de partida, em particular os dois últimos versos. Sobre o tema escrevi e conversei abundantemente: é pelas fragilidades / debilidades (momentâneas ou mais permanentes) que as pessoas se ligam. Esta ideia é bonita, sobretudo para quem nunca reconhece uma racha na sua vida; por onde entrará a luz?

Futebol (I)

Lamento que Portugal tenha perdido, é claro. Gostaria de ver a selecção nacional chegar às finais e ganhar. Se tivesse de escolher contra quem, diria sem dúvidas: França. Algo em mim se compraz por ver França perder. Se for contra Portugal estou perdoado, porque ninguém me acusará de má vontade contra a nação gaulesa.

Futebol (II)

Ler os jornais, ver os blogs, escutar os comentadores é perceber que o tema fracturante do momento não é a eutanásia, mas o Ronaldo. Em cada mesa de café há gente ferozmente pró e gente ferozmente contra. Fala-se em lenda do futebol, e apanhei um cartoon onde o CR7, cabisbaixo e triste, caminhava entre uma guarda de honra de heróis da banda desenhada que se dobravam à sua passagem. Tenho respeito e admiração pela história de vida e de futebolista de CR7. Mas  facto de ele ter sido quem é não elimina o facto de passar uma imagem menos boa agora. E o passado bom das pessoas não deve impedir-nos de poder fazer críticas. Por último, gosto da sugestão da Dona Dolores para que o filho volte para casa onde há beijos e carinho. E gosto também de saber que a Georgina sabe de futebol o bastante para mandar recados ao Fernando Santos.

Futebol (III)

Disclaimer: percebo pouco ou quase nada de futebol. Com todo o respeito que tenho pela pessoa, ache o Fernando Santos uma pessoa maçadora. Tem sempre um ar zangado, ou irritado; raramente o vejo rir - ou mesmo sorri. Em muitos jogos vi Portugal praticar um jogo muito maçador. Questiono-me da influência de algumas características de um indivíduo no seu desempenho profissional: um homem maçador pode levar uma equipa a jogar um futebol "divertido"? Um treinador agressivo (Sérgio Conceição, por exemplo) gera uma equipa agressiva? Se sim, então já se sabe o que fazer. Substitua-se o engenheiro do penta (em letra pequena, para não se confundir com o chefe da manutenção do hotel) por alguém mais eficaz, que aproveite o potencial destes jovens.

JdB 

24 novembro 2022

Moleskine

O céu de Punta Cana, Novembro de 2022

O céu de Punta Cana, Novembro de 2022

Fotografias e esculturas

Vejo um filme onde alguém afaga, saudoso uma fotografia. Talvez lhe aponha um beijo. Enternece-nos esta possível saudade de quem partiu, seja qual for o destino. Algumas cenas depois, alguém conversa com uma estátua. Achamos graça a esta espécie de loucura, ou de demência. Falar com uma estátua? Depois talvez percebamos que não há diferença entre afagar uma fotografia ou conversar com uma estátua. A demência, a haver, é a mesma. 

Netflix

"Em conversas francas com o ator Jonah Hill, o aclamado psiquiatra Phil Stutz explora as suas experiências da juventude e o seu ímpar modelo visual de terapia." Vale a pena ver este documentário.

Goethe e os óculos (tradução minha, do inglês)

É sabido que Goethe não é amigo de óculos.

“Pode ser um mero capricho meu”, disse ele em várias ocasiões, “mas não consigo ultrapassá-lo. Sempre que um estranho se aproxima de mim com óculos no nariz, sou tomado por um sentimento dissonante que não consigo dominar. Isto aborrece-me tanto que, no limite, me retira grande parte da benevolência e me arruina os pensamentos, impossibilitando um desenvolvimento natural, sem constrangimentos, da minha própria natureza. Dá-me sempre a impressão de desobligeant, como se um estranho me dissesse algo rude no primeiro contacto. 

(...)

Parece-me sempre que para os estranhos sou o objecto de um exame rigoroso, e é como se, com os seus olhares armados, eles penetrassem nos meus pensamentos mais secretos e espiassem cada ruga do meu velho rosto. Mas, ao mesmo tempo que se esforçam por conhecer-me, destroem qualquer igualdade justa entre nós, pois impedem-me de conhecê-los. Na verdade, o que ganho com um homem cujos olhos não posso ver enquanto ele fala, e cujo espelho de alma me está velado por um par de óculos que me ofuscam?

Se um dia quisermos perceber de onde vem a ideia de olhos nos olhos, temos aqui a resposta. Olhos nos olhos não é olhos nos óculos.

JdB 


15 junho 2022

Moleskine

Aeroporto de Lisboa (I)

Tem causado furor e indignação as horas de espera a que os turistas de fora da Europa são submetidos no Aeroporto de Lisboa. As fotografias são explicativas. Sim, é indigno, como me parece indigno ouvir um governante dizer que não há solução. Como também me parece indigno alguém responsável dizer que a situação se deve a um pico de chegadas. Vou imaginar que há uma série de aviões que chegam inesperadamente, sem que ninguém saiba, perante o espanto dos controladores áereos de voo - olha mais um! e olha outro ali... ena pá, tantos!  

Aeroporto de Lisboa (II)

No espaço de três ou quatro semanas embarquei numa low cost para Viena de Áustria - Terminal 2, portanto.  O espectáculo é de vergonha: uma sala apinhada de gente que não se consegue mexer, uma sanduíche a custar os olhos da cara e, para terminar, uma casa de banho cujo cheiro me fez lembrar a tasca mais tasca de província há 40 anos. O cheiro era - e perdoem-me o grafismo - a mijo. Que imagem damos de Portugal?

TAP

Querer viajar na TAP é como ir a Toronto e querer comer um pastel de nata - é uma decisão sem grande racionalidade por detrás. Vim na TAP de Viena para Lisboa: o voo atrasado, como é costume nestes voos de fim de dia; monitores na sala de embarque a informarem a obrigatoriedade de um procedimento que já não é obrigatório há mais de um mês; por fim, uma assistente de terra que, à pergunta se aquele procedimento era para cumprir, respondeu secamente: não sei. À chegada a Lisboa, o avião a estacionar - como de costume - no ponto mais afastado do edifício; 15 minutos de espera dentro de um autocarro porque um outro autocarro que embarcava passageiros em trânsito para o Funchal não se desviou 5 metros. Respondi a um questionário habitual: fui demolidor.

Frase ouvida por aí

"o turismo vai matar o turismo".

O que somos depois de mortos

O Sr. Verde, como foi conhecido, viveu uns escassos 31 anos, tendo morrido de tuberculose pulmonar. Na sua adultez dedicou-se a algumas actividades comerciais herdadas de um pai, pessoa abastada. Era conhecido, repito, por Sr. Verde. Quando morreu passou a ser conhecido como Cesário Verde. Tiraram-lhe o título de senhor, colaram-lhe o apelido que já tinha e nascia o poeta. Embora a mesma pessoa, o Sr. Verde não era o Cesário Verde. São dele, de Cesário Verde, e não do Sr. Verde, os versos seguintes. 

Merina

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

JdB  

06 abril 2022

Moleskine

 Por inerência de funções assisto a muitas reuniões sobre a situação da comunidade da oncologia pediátrica na Ucrânia: evacuação, em primeiro lugar, para a Polónia onde é feita uma primeira triagem; as crianças em condições mais difíceis ficam na Polónia; as outras vão sendo encaminhadas para países europeus, mas também EUA e Canadá. Tal como já referi, neste estabelecimento ou noutro local, para Portugal não veio nenhuma criança. É certo que Portugal está longe e não é um centro de referência importante para nenhuma patologia. No entanto, o motivo principal para a não vinda de crianças é a burocracia portuguesa. Ao que parece, o governo requer a activação de uma protocolo burocrático europeu incompatível com situações de guerra (à luz do dia de hoje já só Portugal o requer) e, ao que parece, esse requisito prende-se com dinheiro: se se activar, vem dinheiro de Bruxelas; se não se activar, não vem...

As associações europeias de pais e doentes de crianças com cancro são incansáveis na recepção e no apoio a estas famílias: ajudam na organização dos transportes, na recepção e encaminhamento das famílias, na entrega de bens essenciais - por vezes uma simples escova de dentes; garantem tradutores, apoio psicológico, informações básicas. E asseguram comida, o que gera curiosidades culturais. Na Suiça assegurou-se refeições para muita gente: arroz, massa, bulgur, vegetais. Mas o que as famílias querem é batatas, que é isso que comem... Enfim, estamos sempre a aprender.

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Todos nós já ouvimos pessoas dizerem que, ao dedicarem-se a uma determinada actividade, perderam uma parte significativa da sua vida pessoal. So many good things in life I overlooked, cantaria Bob Dylan (frase que ouvi ontem). São médicos, investigadores, exploradores, profissionais de misteres muito específicos. Perdem o crescimento dos filhos, o amor das pessoas com quem vivem, a vida social, os cinemas ou os concertos ou as exposições. O que perdem situa-se em muitas áreas; o que ganham é numa área só. Faz sentido fazer uma contabilidade? Entre o crescimento dos filhos ou uma inovação médica que altera a vida a muitas pessoas, o que tem mais peso? Entre uma vida social ou uma exploração a um local inóspito, o que se escolhe? Entre um casamento ou uma volta ao mundo sozinho num barco à vela, para que pende a nossa balança?

Talvez a resposta seja aquilo que já aqui referi esta semana: depende...

JdB 


28 março 2022

Moleskine (com mau feitio)

Apanho um programa de telefonia já no fim. Há uma senhora que diz, falando de ternura:

Eu tenho muita ternura e amizade pelos animais. Tenho um gato e uma gata; eles percebem se eu estou triste e, se eu estou doente, não me largam até eu ficar boa. Há pessoas que não fazem nada por mim, nem sequer se aproximam. Tenho dito!

Apanho uma senhora que fala com amigos numa mesa de café, referindo-se a alguém que está, aparentemente, com um cancro na cabeça em fase algo terminal:

(...) Que qualidade de vida é que ele tem? Nenhuma. Eu, por exemplo, já assinei o meu testamento vital. Sabe, tenho uma nora farmacêutica; se estiver com uma doença grave ela vem, dá-me uma injecção e já está...

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Relativamente à primeira situação, quis telefonar à senhora que perorava na telefonia e dizer-lhe o seguinte: 

Sabe, já estive muito em baixo, com coisas sérias que me aconteceram. Tive sempre gente à minha volta. Estava a sofrer e o meu cão mijou-me as gardénias... O exemplo do seu casalinho de gatos ilustra o quê? Que os seus gatos são melhores que os seus amigos? Ou que todos os gatos são melhores do que todas as pessoas? Tenho dito!

Relativamente à segunda quis dizer à senhora que perorava na esplanada:

Sabe, o testamento vital é um "documento no qual é manifestada, antecipadamente, a vontade consciente, livre e esclarecida de um utente, sobre quais os cuidados de saúde que deseja receber ou não, por qualquer razão, caso não seja capaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente." Assinar o testamento vital não lhe garante que a sua nora, farmacêutica a a aviar paracetamol em Corroios, tenho o direito de a eutanasiar... 

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Sou desafiado à compaixão cristã pela ignorância alheia, pois eu próprio afirmo que aquilo que não sei enche várias bibliotecas de Alexandria. O problema destas duas senhoras não é a ignorância, mas o tom de voz. Não me maça que não se saiba, mas maça-me que não se saiba e se perore em tom afirmativo e decidido. Não me incomoda a senhora achar que a ternura dos gatinhos que se espojam na colcha é superior à ternura da rede familiar que a circunda; não me incomoda a senhora achar que testamento vital ou pedido de eutanásia sejam a mesma coisa. Incomoda-me, isso sim, que o digam alto; ou que o digam com um tom sério, de quem está a determinar visões sobre o futuro da raça humana.

Mau feitio meu, logo no dia da parábola do filho pródigo - ou do pai misericordioso... 

JdB

04 janeiro 2022

Moleskine desinteressante

 Como já tive oportunidade de escrever neste estabelecimento, dentro de mim há um optimista acanhado; tão acanhado que quase nunca surge, cedendo o palco ao pessimista que me habita há mais de seis décadas. Ao contrário de todos os comentadores da televisão, sorridentes e confiantes com um renque de livros por trás, não acredito na redenção da humanidade; acredito, isso sim, que o virus suspendeu o pior que nos habita, sendo que a suspensão dura o tempo que medeia o grito há virus e o grito há vacina. Vi gente assim: vítimas de uma doença grave tornam-se melhores; logo que se curam voltam ao mesmo...

Escrevi o parágrafo acima, parte de um texto maior,  em Julho de 2020. Detesto esta ideia de ser um pessimista com razão: em dois anos de pandemia não me parece que o mundo tenha mudado para melhor. Não me parece que consigamos ver um módico de melhoria no país ou no mundo: há pobreza, desemprego, casais em dificuldades devido a excesso de proximidade, falências sem perspectivas de solução, vidas suspensas, descrença adicional na classe política, problemas de saúde graves nas áreas não-COVID. A pandemia não trouxe nada de bom, a não ser uma certa ideia de colaboração entre cientistas. Somos o que sempre fomos, o que significa que é preciso mais do que uma pandemia para nos mudar.

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Vejo um filme ao fim da tarde. Numa mesa onde convivem amigas, fala-se de uma delas que acabou uma relação com o namorado. Uma delas diz: largaste fulano? Mas ele é tão bonito... Confesso a minha ligeira irritação pela ideia da beleza interior, como se fosse o único critério para gerar ou manter um encantamento, mas também me cansa esta obsessão pela beleza física das pessoas, pela magreza das pessoas, pelo sucesso das pessoas. Deixar um gordo ou uma gorda é mais aceitável ou recomendável do que deixar uma pessoa muito bonita? 

Volto ao filme. O diálogo que se segue no convívio de amigas centra-se na beleza do rapaz abandonado. Em momento algum se refere o interesse, a cultura, o divertimento, a boa formação da pessoa. Vivemos tempos ligeiros, superficiais, de consumo rápido, um pouco como se o corpo (e não os olhos) é que fosse o espelho da alma.

JdB

10 fevereiro 2021

Moleskine

Antiguidades

Tenho netos a brincar em casa. Um deles vai à casa de banho e recebe instruções básicas, como seja lavar as mãos e puxar o autoclismo. Tem 4 anos, pelo que o domínio da língua portuguesa é muito básico. Um dia mais tarde, quando perceber o que é uma metáfora ou uma sinédoque, vai estranhar que algumas expressões querem dizer o que querem e o seu contrário. Em bom rigor, já não se puxa o autoclismo, mas empurra-se (se assim se pode dizer) o autoclismo. Não se tracciona, pressiona-se.  Um dia os meus netos dir-me-ão que, para efeitos de casa de banho,  o português tem muito a desejar.

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Militares

Oiço o novo coordenador do Plano de Vacinação, o vice-almirante Gouveia e Melo. Por motivos que não vêm ao caso, tive várias reuniões com o seu antecessor, Dr. Francisco Ramos, enquanto Presidente do Conselho de Administração do IPO de Lisboa. Era uma pessoa cordata, educada, que suscitava respeito e consideração. Para quem, como eu, viveu o 25 de Abril de um certo lado, os militares não deixaram saudades. Não obstante tudo o aduzido acima, ouvir um militar a falar sobre este tema dá-me uma certa segurança. Para este efeito, há, num militar, uma certa credibilidade que não encontro num civil. No primeiro sinto planeamento, normas, factos, números, disciplina; no segundo vejo partido, política,  a voz do dono, clientela. Mesmo que esteja a ser injusto numa e noutra apreciação.

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Modernidades

Falo com alguém que me diz: Sabe... eu odeio a era media communication. Fascina-me até certo ponto e depois entedia-me. Estar a falar com um jovem da Polónia e com uma senhora na Jamaica ao mesmo tempo que consulto informação relevante na net... Respondo-lhe que, no meu voluntariado internacional, sou protagonista de experiências interessantes. E digo-lhe: há algo nesta parte da minha vida que me fascina: conversas com o Brasil, África do Sul, Malásia, China ou Chile, tudo em quase simultâneo... De lá vem a pergunta a que não sei ainda responder: mas a que preço? Ainda não sei, de facto. Há um preço a pagar nesta globalização das comunicações? 

JdB

28 julho 2020

Moleskine

Funchal, Julho de 2020

TAP

Já aqui o disse: tive a sorte de começar a viajar cedo - e na TAP: serviço impecável, comidas quentes, menu em papel de boa gramagem, opção de refeições, talheres de metal. Nada é eterno, e a necessidade de cortar custos, o desaparecimento de uma certa aura de aventura na vida de uma hospedeira, o desejo do turismo de massas e o 11 de Setembro deram cabo de tudo. Passou a haver uma sandes má de atum ou um pacotinho com sete bolachas salgadas. Para uma certa imagem que ainda tinha na memória, a ida ao Funchal foi um desastre: não havia refeições quentes, não havia sandes nem salgadinhos; havia, isso sim, comida paga. Não acho que seja uma vergonha ou um disparate - foi apenas uma tristeza. Como sempre, a expectativa (ainda que já muito pequenina...) é mãe da desilusão. Acresce ainda que no regresso houve falta de comida para vender...

Padre

Contam-me uma história curiosa e muito verdadeira: falam a um padre de província sobre o fim do celibato dos padres ou alguma coisa do género. O padre empertiga-se, irrita-se e diz: é fácil viver sem nada; sabes o que é a dificuldade de viver com pouco? Não me lembro do que suscitou a pergunta, mas gostei sobretudo da resposta.

Uber

Usei Uber para ir para o aeroporto; usei Uber no Funchal. Serviço sempre 5 estrelas - bom e barato. Chamo um Uber para o trajecto aeroporto - casa. Motorista simpático mas com uma conversa estranha: é hipertenso, teve muitos amigos que morreram de covid 19, a irmã, o cunhado e os sobrinhos (ou familiares semelhantes) apanharam todos o virus mas safaram-se. Questiono-me se devia sair na 2ª Circular ou se confio no destino - ou se acredito que ele é apenas um homem com uma conversa pouco convidativa. 

JdB


25 junho 2020

Moleskine desinteressante

Repito-vos que não sei de onde sois (Lc 13, 27)

Oiço este trecho na homilia de domingo passado. Seria assim que Deus se dirigira no paraíso aos que, praticantes da iniquidade, lá entrassem. Sussurro para quem está ao meu lado: será que Deus não conhece alguém que chegue ao Céu?  A pergunta será despropositada, mas por vezes estes pequenos raciocínios deixam-me a pensar: que pedagogia devo eu tirar deste trecho? Que se praticar a iniquidade vou para o céu mas o Criador me dirá (por duas vezes, como vem neste passo de Lucas) que não sabe de onde sou?

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A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim. A frase de John Donne tem várias traduções e nem sequer sei se esta é a mais correcta. Foi a que me saltou de imediato no computador. 

Tenho pensado na morte de Pedro Lima, o actor que se suicidou no passado fim de semana. Entre jornais, revistas e televisões não vi nada de elevado. Apenas vi porcaria, exploração ad nauseam de uma tragédia. À cabeça da manada, para citar uns versos de fado, a CMTV (não sei se há, como vi escrito por aí, aproveitamento para um ataque da Cofina à TVI), à qual só falta referir o tamanho da faca, o local e preço de compra, a direcção do movimento com que o actor se golpeou várias vezes, a quantidade de sangue jorrado. Ler os comentários dos jornais é contemplar uma cloaca, para usar uma expressão que encontrei por aí. Entre a admiração bacoca pelo actor e a crítica mais feroz ao que ele fez, nada se aproveita. Não há um módico de pudor nem de respeito. Aliás, ler os comentários dos jornais é perceber a dimensão da descarga de bílis de parte substantiva da nossa população.

Tenho pena da mulher e dos filhos do actor; tenho pena do sofrimento dele, daquilo por que ele passou até chegar a este ponto. Mas não sei o que dizer da Ministra da Cultura que se referiu a ele como "emblemático protagonista" ou do Presidente da República que achou que ele, Pedro Lima, irradiava felicidade. Faz-nos pensar, não só num claro provincianismo que nos assola, mas no que as pessoas veem num actor de telenovela que sofria de depressão que o conduziu ao suicídio. Felicidade?

JdB

18 fevereiro 2020

Moleskine

O que é para mim o luxo? Imagino-me vencedor de uma qualquer lotaria 100 milhões de euros. Para efeitos deste pequeno texto interessa-me a utilizações egoísta do dinheiro, não o que eu daria solidariamente aos outros que me estão mais próximos  em sangue ou afecto. Como actividade regular, as viagens: viajar mais e em fantásticas condições de conforto: executiva, quartos com vista sobre a cidade, cruzeiros com pouca gente, exotismo que passa por um gin tónico numa savana africana ao por do sol, jantares em locais onde se requer o smoking (que não tenho mas que adquiriria com um rápido movimento do cartão de crédito). Como actividade diária, um luxo caseiro: um mordomo, lareiras acesas em bibliotecas, pequenos-almoços a olhar as chamas e a lombada dos livros, passeio pelos campos (meus, obviamente) com um cão ao meu lado. O carro? O mesmo, que isso pouco me interessa. Os meus luxos são britânicos, diria eu. 

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Há muito disto na família: gente divertida ou não, com características peculiares, idiossincrasias, hábitos ou opções de vida que nos fazem sorrir. Gente que emigra e nunca mais dá sinal de vida, gente que constrói e destrói mobílias porque embirra com a cor sugerida, gente que faz ou não faz outras coisas. Há pessoas sobre as quais se constroem vidas romanceadas porque eram secretas, escondidas, protegidas do escrutínio da família ou dos amigos, que se desencadeiam sem que ninguém saiba exactamente porquê. Um dia vem-se a saber da paranóia, da obsessão ou da perturbação da personalidade. Palavras que não existiam em determinados vocabulários, em determinadas famílias, há 60, 70 ou 80 anos.

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Há dias falei aqui de dois amigos com preocupações pela saúde dos filhos, ainda que em gradações muito diferentes. Há umas semanas soube de um amigo com uma complicação séria na cabeça, a fazer quimioterapia e com um prognóstico obviamente cauteloso. Também há umas semanas soube que o filho de uma amiga de uma amiga estava no IPO, com 12 anos. Se pensar um pouco lembro-me de outras pessoas com vidas suspensas, interrogadas. Eu sei que este parágrafo é um repositório de lugares comuns, mas todos estes casos deveriam ser lanças na ilharga a alertarem-nos para não deixarmos a nossa vida tornar-se numa sequência de conflitos patetas e perdas de tempo. É importante que não deixemos a nossa vida tornar-se numa valente porcaria: a distância que vai de uma vida feliz a uma vida suspensa pode ser um fio de cabelo. Os casos que referi acima são prova disso: nenhum decorre de vidas dissolutas ou de maus hábitos. São apenas caprichos do destino. De facto, citando alguém, deveríamos viver os dias, não como se fossem os últimos nem os primeiros, mas como se fossem os únicos.

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Eutanásia. A minha opinião é contra e, se tivesse de dizer porquê, citaria os argumentos de grande parte das pessoas que são contra, sobretudo as católicas, como eu. Não vale a pena repetir argumentos já bem conhecidos. Os vários partidos têm posições diferentes: haverá partidos onde todos os deputados votam contra, outros onde todos os deputados votarão a favor; há partidos onde é dada liberdade de voto. Sendo eu votante do CDS, deixaria de votar nesse partido se se pronunciassem a favor do sim - agora ou no seu programa eleitoral. É uma questão de valores fundamentais relativamente à qual não transijo. O que pensarão agora as pessoas que votaram Iniciativa Liberal, sabendo que este partido foi um dos dois (espero não me enganar) que pôs no seu programa a defesa da eutanásia? E o que farão em futuras eleições?    

JdB

19 agosto 2019

Moleskine

Óbitos
Morreu Alexandre Soares dos Santos. Não acrescentarei nada ao que se disse dele enquanto empresário ou enquanto pessoa. Igualmente interessante (ou nalguns casos mais interessante ainda) é ler as caixas dos comentários. Gostei de um leitor do Observador que insistia várias vezes em que ele não estava morto, que tinha fugido para a Suíça por um motivo qualquer. Se o comentarista acreditar nisso, é tonto; se não acreditar e mesmo assim se der ao luxo de escrever, é tonto. Em qualquer dos casos, os jornais deviam considerar a hipótese de acabar com as caixas de comentários, pela ordinarice do que lá se escreve, pela total alarvidade de forma e conteúdo. Refiro-me sobretudo ao Observador, jornal que leio muito. 

Regresso a Soares dos Santos, sobre quem não farei comentários, para além de reconhecer a sua indiscutível qualidade de empresário. A ele, ainda que muito indirectamente, liga-me o facto de ter trabalhado 20 anos na Unilever que tinha, em Portugal, uma pareceria antiga com a Jerónimo Martins. Ainda um destes dias reconhecia a grande escola que era o grupo Fima-Lever-Iglo (a designação era esta, em 1986) em Portugal. Aqueles 20 anos ensinaram-me quase tudo o que sei profissionalmente: a necessidade do rigor, do planeamento, da organização, do trabalho em equipa.

Fumos
Janto no Clube House de Praia del Rey. Sala pejada de clientes, 99% estrangeiros, talvez ingleses (ou americanos). Crianças algumas, a fazerem o barulho que lhes é normal, adolescentes de minissaia e permanentemente ao telemóvel. Olha-se à volta (e não é preciso olhar, basta cheirar...) e percebe-se o prato que mais sai: bife na pedra, com o cheiro invasivo que lhe é característico. O estrangeiro come bife na pedra com a mesma motivação com que deglute pastéis de nata: pela invulgaridade do pitéu, pelo facto de não existir na sua terra. O facto é interessante; menos interessante é entrar num restaurante onde vários clientes se entretêm a grelhar pedaços de carne numa pedra muito quente. Imagine-se o fumo e o desejo de fuga...

JdB    

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