Mostrar mensagens com a etiqueta religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta religião. Mostrar todas as mensagens

11 novembro 2025

Do purgatório

Paredão do Estoril, ontem de manhã cedo

Declaração repetida de interesses: continuo um homem de fé, e feliz na Igreja Católica a que pertenço há mais de 60 anos.

***

Acabei de ler, por estes dias, o Peregrinação Interior (volume I, Reflexões sobre Deus) de António Alçada Baptista. Quis lê-lo, não só por causa do meu doutoramento, mas, também, para ver como tinha envelhecido um livro que deu que falar quando foi publicado pela primeira vez, em 1971. E começo com uma citação que ressoou dentro de mim: "[s]into que a procura séria de Deus passa necessariamente pela interrogação e pela liberdade e descobri que ter Fé é interrogar livremente o imenso mistério de Deus."

Já aqui referi que a partir de 2001, ano de todos os anos, a minha fé - ou o modo como eu a vivia - se alterou: o acontecimento brutal de que fui testemunha abriu-me os olhos para estes temas: fé, Deus, Igreja, religião, padres, linguagem... Ao mesmo tempo que eu desresponsabilizava Deus daquilo que me tinha acontecido (como teria desresponsabilizado se o desfecho fosse outro) o que era, para mim, um upgrade na forma como conciliava Deus e o sofrimento, eu iniciava um olhar ar crítico para outras áreas do meu mundo religioso. Esse olhar crítico levava-me a fazer perguntas para as quais não tinha - e não tenho - resposta cabal.

No passado sábado, no jornal Observador, o Pe. Portocarrero de Almada (um cronista que, devo confessar, leio sempre com um pé atrás) escreveu um artigo ao qual chamou Mentira Diabólica e no qual ataca um outro artigo, este da autoria de Frei Bento Domingues. E diz o Pe. PdA: "[p]ara o cronista [Frei Bento Domingues], 'o céu, o inferno, o purgatório, o juízo final são metáforas dos desejos e dos medos humanos. São representações engrandecidas do além à imagem do que há de melhor e de pior neste mundo.” Ao contrário do que afirma, não são projecções da imaginação humana, como também o amor de Deus não é metafórico, mas a realidade transcendente revelada por Jesus Cristo e testemunhada pela sua Igreja. 

O tema do purgatório intriga-me. Segundo o Pe. PdA, "[e]mbora a realidade do purgatório não conste explicitamente na Sagrada Escritura, faz parte da Sagrada Tradição, a outra fonte da revelação divina, porque desde sempre na Igreja católica se rezou pelos fiéis defuntos, ou seja, se admitiu a existência de almas que, tendo-se salvo, ainda não chegaram ao Céu e, por isso, precisam dos nossos sufrágios." A ideia de haver almas que pairam num espaço à espera que se reze por elas para ascenderem ao Céu desconcerta-me, até pela injustiça de que parece revestir-se. Porque ando numa maré de interrogações e porque o purgatório, não só não vem mencionado na Bíblia, como não é um dogma de fé, permito-me ter dúvidas sobre a sua existência; ou ter dúvidas como se sai do purgatório, seja para o Céu, seja para o inferno. Tenho dificuldade em conceber que a ascensão ao Céu destas almas esteja dependente de orações: das nossas, de modo geral? Rezamos por quem, pela multidão anónima das almas do purgatório? E quem é que lá está, e porquê? E quando saem estas almas para o Céu? Podem nunca sair? E a responsabilidade é nossa? Será o purgatório um ardil para impor o temor aos crentes? 

Frei Bento Domingues tem fama de esquerdista, talvez, ou de pessoa pouco alinhada com algumas posições da Igreja Católica em Portugal. Porém, não sabendo de que cor política seria Jesus se por cá andasse neste tempo, não resisto a reproduzir uma frase de Hubert Lyautey, militar francês (1854 - 1934) que Alçada Baptista cita no seu livro: "[s]e Cristo me tem aparecido na Argélia, com as suas ideias e a sua subversão, eu não teria outro remédio senão fuzilá-lo". 

JdB

02 setembro 2025

Das crenças

A ler vários livros por causa do doutoramento, cruzo-me com esta frase de alguém que se refere a outro alguém que já morreu: rezo pela alma dele todos os dias

O que significa rezar pela alma de alguém que pode ter morrido há 2 anos, ou há 20? Os mortos precisam da nossa oração para ir para o Céu? E o que acontece aos que não têm quem reze por eles especificamente? Confiam na generosidade de uma multidão anónima, porém crente? E o que acontece aos mortos que conhecemos, mas pelos quais nos esquecemos de rezar? E as crianças que morrem, estão também dependentes da nossa oração para encontrar o colo de Nossa Senhora? E a partir de quando se deixa de ser criança e já se requer a oração como uma espécie de bilhete de entrada na pátria celeste?

Estas e outras perguntas têm-me surgido à medida que vou escrevendo sobre o sofrimento e Deus, um capítulo claramente muito exigente do ponto de vista intelectual: conciliar harmoniosamente, e no mesmo texto, Camus, Dostoiévski, Santo Agostinho ou Carla Madeira (uma escritora brasileira moderna) é um exercício desafiante. Esta secção da tese pode ser uma faca, em que tudo depende de como a agarramos: à medida que leio e escrevo, releio e rescrevo, a minha fé não esmorece, torna-se mais clara, mais límpida, talvez mais discernida e, quem sabe, mais forte. Por outro lado, torno-me mais crítico do que fui ouvindo na catequese, nas missas de finados, nas orações pelas crianças doentes, na interpretação das curas aparentemente sem explicação racional, na imperscrutabilidade dos desígnios de Deus. 

Se eu pudesse dialogar com o personagem do livro que reza todos os dias pela alma do falecido, talvez lhe dissesse que o foco da nossa oração deveriam ser os vivos, e não os mortos. Mal de mim se acreditasse que os meus mortos estão dependentes da frequência das minhas rogativas; e quero sossegar os que me sucederem: estou em crer que o céu me será franqueado - ou não - independentemente da quantidade de avé-Marias que rezarem pela minha alma. Rezemos, por isso, por nós e pelos que cá estão ainda. E talvez mesmo, quando lembrarmos os mortos nas nossas orações, que seja para eles nos ajudarem.   

No livro Óscar e a senhora cor-de-rosa, de Eric-Emmanuel Schmitt, há um diálogo entre Óscar (uma criança com cancro) e a Vóvó-Rosa (uma voluntária) que deveria ser mencionado na catequese das crianças e nas conversas de adultos:

“- OK. Então posso pedir-lhe [a Deus] tudo? Brinquedos, bombons, um carro...
- Não, Óscar. Deus não é o Pai Natal. Só podes pedir coisas do espírito.
- Por exemplo?
- Por exemplo: coragem, paciência, esclarecimentos.” 
 

Perceber este diálogo é perceber que Deus não cura as nossas doenças, porque também não as causa; é perceber que os milagres são os da alma, não os do corpo; é perceber que as curas inexplicáveis são fenómenos que a ciência ainda não sabe explicar, e que é melhor que Deus seja bondoso e não omnipotente do que omnipotente e não tão bondoso, porque há crianças que morrem e não se percebe porquê... É melhor compreender isto e inocentar Deus das desgraças que acontecem, do que achar que é Deus que dá as coisas boas, mas que há um mistério nas coisas más...

Digo eu, no fundo...

JdB        

30 junho 2020

Da racionalidade na religião

No número de Maio - Junho de 2020 da revista Brotéria, João Carlos Paiva (da Faculdade de Ciências da UP) e o Pe. Pinto de Magalhães SJ assinam um artigo intitulado As Causas dos Santos e a Ciência, onde abordam a temática dos milagres para processos de canonização na Igreja Católica. Já aqui escrevi sobre esse assunto; discordo do processo que, seguindo regras do tempo de João Paulo II, parece ter-se mantido no séc. XVI. A santidade das pessoas cujas vidas conhecemos, porque nos são contemporâneas, não podem ser validadas por senhoras que não cegam quando lhes salta óleo quente para os olhos. As vidas dos candidatos devem ser escrutinadas, mas não podem estar dependentes deste tipo de pequeninos enigmas caseiros.

Sexta-feira passada, num almoço clubístico cuja regularidade fora interrompida pela pandemia, falou-se de religião: o que são os milagres, em que se manifesta a intervenção de Deus nos acontecimentos, o que é Fátima. Aduzi argumentos que já aqui escrevi: o milagre não é a cura milagrosa do corpo, mas a conversão (no sentido mais lato do termo) do coração. Nessa linha de pensamento, o milagre de Fátima não é a aparição de Nossa Senhora, mas o ponto de chegada ou de partida de milhares de vidas que se transformaram naquele recinto. Por outro lado, não acredito num Deus interventivo nas ocorrências terrenas: Deus não está nos terramotos, nas grandes tragédias, nas doenças individuais ou colectivas. Deus pôs o mundo em movimento e permite que as coisas aconteçam, mas o que ocorre é causado, ou pelo homem, ou pela natureza. Numa atitude que pode parecer um pouco excessiva, se assim não fosse eu teria alguma dificuldade em perceber os critérios de Deus...

Almocei um dia com um jornalista de esquerda, agnóstico, que estaria numa barricada oposta à minha nalguns combates mais fracturantes da sociedade. Achei curioso quando me perguntou, num tom não provocador, se se podia ser católico sem a necessidade da fé. Para ele o interessante era o ritual, não o transcendente; queria o espectáculo visível, não os bastidores indesvendáveis. Hoje, no meu passeio matinal junto ao mar dei por mim a pensar se não estaria a ficar (também) demasiadamente racional, descurando o lado misterioso das coisas. Afinal, segundo me contaram (e não afianço a explicação correcta ou o entendimento correcto da mesma) a obrigatoriedade dos milagres nos processos de canonização assentava na ideia de que nem tudo era explicável racionalmente. Não quero perder esta suspensão voluntária da incredulidade que está, de certa forma, por trás da fé. Mas também não quero embarcar numa prática religiosa que assenta numa fezada, em devoções a relíquias, em pés de atleta curados inexplicavelmente, em êxtases ou epifanias de trazer por casa. 

JdB        

Acerca de mim

Arquivo do blogue