Amor Místico
Quando a minha alma nasceu
Para onde olhou primeiro,
E viu tudo um nevoeiro,
Foi lá cima para o céu...
Que a alma nunca lhe passa
De ideia a fonte da graça!
Em toda a ânsia de luz,
Em toda a ânsia de gozo,
Sempre aquele olhar ansioso
Nesse ideal de Jesus...
Nesse bem que não se exprime...
Êxtase de amor sublime!
Olhava da solidão,
Onde se sentia presa,
Com a natural tristeza
Dos ferros de uma prisão...
À espera sempre da hora
Que lhe raiasse a aurora!
Bem a chamavam de cá
Sempre os cuidados do dia;
Ela, que nunca os ouvia,
Olhava, mas para lá...
Donde ela mesmo viera,
Donde todo o bem se espera!
Um dia (nem eu sei qual,
Que em suma foi isso há tanto!)
Vê com uns olhos de espanto
Romper-se a névoa geral;
E como um sol recortado
Nesse mar enevoado...
E dentro desse clarão,
Como em círculo de prata,
Que imagem se lhe retrata,
Fosse verdade ou visão?
A mesma que ela apertava
Nos braços quando sonhava.
Mas a visão, em lugar
De vir cair-lhe nos braços,
Voa por esses espaços
Até já mal se avistar...
Indo assim a luz minguando
E indo-se a névoa cerrando!
E hoje a minha alma, não sei
Se nessa névoa cerrada
Vê tal visão embrulhada
Ou nem já vestígios vê...
Sei que se ainda me anima,
É de olhos fitos lá cima.
João de Deus, in 'Campo de Flores'
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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26 dezembro 2018
19 janeiro 2017
Eventos dos dias que correm
Foi ontem. Perante uma plateia bem composta de colegas de faculdade e outras pessoas que não conhecia, declamei, a meias com um rapaz actor de teatro e com quem também me cruzei nas aulas, quatro poemas de João de Deus, um dos quais reproduzido abaixo juntamente com uma versão declamada que encontrei na net. Foi uma experiência interessante, ainda que com alguns nervos à mistura. E lembro-me de um post que escrevi há algumas semanas sobre o que nos tinha dado a idade. A mim deu-me, entre outras, esta capacidade de vencer uma vergonha e uma dificuldade de exposição.
Agradeço à Helena Miranda e ao Tomás Castro o desafio. Que tenham gostado, é o que me interessa mais.
JdB
***
O DINHEIRO
O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
João de Deus
29 dezembro 2016
Espectáculos (eventualmente tristes) de dias que correrão
Colegas de faculdade desafiaram-me para uma das sessões referidas no poster abaixo. Como pode ver-se, não vou falar de ninguém. O que farei, então, para além de poder segurar um candeeiro? Declamar alguém, neste caso João de Deus. Nunca declamei na vida, aleguei, menos ainda em público. Ambos foram solícitos no elogio: o João tem uma voz óptima... E eu, mais vencido pelo desafio do que pela vaidade, acedi.
Quando dei por mim, percebi que não conhecia nada de João de Deus. Podia ser como algumas pessoas que afirmam não conhecer nada de Augusto Gil, e contudo, quando se lhes fala no batem leve, levemente / como quem chama por mim..., já o identificam; mas de facto não era: fui ler alguns poemas de João de Deus e nada de nada de nada.
Ao dia de hoje não faço ideia dos poemas que lerei. Neste momento acho graça ao desafio. Nas vésperas preferiria ter emigrado, pelo que vaidade é apenas uma palavra começada por 'v'...
Sinopse da Sessão (por Miguel Tamen): 'João de Deus (1830-1896) foi o primeiro de uma longa linhagem de poetas portugueses a quem se poderia aplicar o título, em Portugal inexistente, de Poeta Laureado. Está, como os herdeiros desse título, sepultado no Panteão Nacional. Foi autor de uma Cartilha que representou para várias gerações a ideia de literacia. Fragmentos dessa cartilha e de poemas seus são ainda lembrados, às vezes de forma truncada. Irá ser tratado como poeta por mérito próprio: serão lidos vários poemas seus que mostram esse mérito.'
Alea jact est...
JdB
Melancolia
Oh dôce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que fluctua
De engano em desengano!
Oh creação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E á dôr que nos opprime
Abres-lhe um oceano!
É esse céo um lago,
E tu, reflexo vago
D'um sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz orphã do dia!
Que mystica harmonia
Ha n'essa luz tão fria,
E a sombra que me guia
N'este areal deserto!
Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
(Sem mêdo que se illuda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!
Ah! sempre que descrevas
A orbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
As victimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as d'essas féras brutas...
E as lastimas, as luctas
Da orphã e do pobre!
João de Deus, in 'Ramo de Flores'
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