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12 fevereiro 2019

Textos dos dias que correm

A Lucidez da Velhice

A mocidade é noivado, como a velhice é viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, é noivo ainda; e um velho, embora casado, é já viúvo... um solitário guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu espírito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza é o que resta dum incêndio, essa purificação suprema. Por isso, a consciência é um atributo da velhice, e também a ciência. A consciência é a ciência connosco, a ciência identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice é uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera límpida ou varrida pelo zéfiro da morte, a única Deusa verdadeira.

Teixeira de Pascoaes, in 'A Saudade e o Saudosismo'

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Lucidez sem Ignorância nem Sobranceria

Possivelmente não é sem razão que atribuímos à ingenuidade e ignorância a facilidade de crer e de se deixar persuadir: pois parece-me haver aprendido outrora que a crença era como uma impressão que se fazia na nossa alma; e, na medida em que esta se encontrava mais mole e com menor resistência, era mais fácil imprimir-lhe algo. Assim como, necessariamente, os pesos que nele colocamos fazem pender o prato da balança, assim a evidência arrasta a mente (Cícero). Quanto mais vazia e sem contrapeso está a alma, mais facilmente ela cede sob a carga da primeira persuasão. Eis porque as crianças, o vulgo, (...) e os doentes estão mais sujeitos a ser conduzidos pelas orelhas (ou seja, pelo que ouvem). Mas também, por outro lado, é uma tola presunção ir desdenhando e condenando como falso o que não nos parece verossímil; esse é um vício habitual nos que pensam ter algum discernimento além do comum. Outrora eu agia assim, e, se ouvia falar de espíritos que retornam, ou do prognóstico das coisas futuras, de encantamentos, de feitiçarias, ou contarem alguma outra história que eu não conseguisse compreender, vinha-me compaixão pelo pobre povo logrado por essas loucuras. Mas actualmente acho que eu próprio era no mínimo igualmente digno de pena; não que posteriormente a experiência me tenha feito enxergar acima das minhas primeiras crenças, o que no entanto não dependeu da minha curiosidade (não resultou de uma falta de curiosidade minha); mas a razão ensinou-me que condenar assim resolutamente uma coisa como falsa e impossível é atribuir a si mesmo o privilégio de saber as fronteiras e os limites da vontade de Deus e do poder da nossa mãe natureza; e que não há no mundo loucura mais imensa do que reduzi-los à medida da nossa capacidade e inteligência.
Se chamarmos de monstros ou milagres aquilo a que a nossa razão não consegue chegar, quanto disso se apresenta continuamente à nossa vista? Consideremos o quanto é pelo meio do nevoeiro e às apalpadelas que somos conduzidos ao conhecimento da maioria das coisas que temos em mãos: sem dúvida descobriremos que é mais o hábito do que o conhecimento que nos elimina a estranheza delas, Enfadados e saciados que estamos do espectáculo dos céus, ninguém mais se digna levantar a cabeça para esses templos de luz (Lucrécio). e que, se essas coisas nos fossem apresentadas pela primeira vez achá-las-íamos tanto ou mais inacreditáveis que quaisquer outras, Suponde que agora pela primeira vez elas se manifestem subitamente aos mortais e de golpe se apresentem a seus olhos: não se poderia citar algo mais admirável, e antes de vê-las os homens não teriam podido acreditar em algo semelhante (Lucrécio).

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

29 novembro 2018

Textos dos dias que correm

Kyoto, Novembro 2018

Lucidez sem Ignorância nem Sobranceria

Possivelmente não é sem razão que atribuímos à ingenuidade e ignorância a facilidade de crer e de se deixar persuadir: pois parece-me haver aprendido outrora que a crença era como uma impressão que se fazia na nossa alma; e, na medida em que esta se encontrava mais mole e com menor resistência, era mais fácil imprimir-lhe algo. Assim como, necessariamente, os pesos que nele colocamos fazem pender o prato da balança, assim a evidência arrasta a mente (Cícero). Quanto mais vazia e sem contrapeso está a alma, mais facilmente ela cede sob a carga da primeira persuasão. Eis porque as crianças, o vulgo, (...) e os doentes estão mais sujeitos a ser conduzidos pelas orelhas (ou seja, pelo que ouvem). Mas também, por outro lado, é uma tola presunção ir desdenhando e condenando como falso o que não nos parece verosímil; esse é um vício habitual nos que pensam ter algum discernimento além do comum. Outrora eu agia assim, e, se ouvia falar de espíritos que retornam, ou do prognóstico das coisas futuras, de encantamentos, de feitiçarias, ou contarem alguma outra história que eu não conseguisse compreender, vinha-me compaixão pelo pobre povo logrado por essas loucuras. Mas actualmente acho que eu próprio era no mínimo igualmente digno de pena; não que posteriormente a experiência me tenha feito enxergar acima das minhas primeiras crenças, o que no entanto não dependeu da minha curiosidade (não resultou de uma falta de curiosidade minha); mas a razão ensinou-me que condenar assim resolutamente uma coisa como falsa e impossível é atribuir a si mesmo o privilégio de saber as fronteiras e os limites da vontade de Deus e do poder da nossa mãe natureza; e que não há no mundo loucura mais imensa do que reduzi-los à medida da nossa capacidade e inteligência.
Se chamarmos de monstros ou milagres aquilo a que a nossa razão não consegue chegar, quanto disso se apresenta continuamente à nossa vista? Consideremos o quanto é pelo meio do nevoeiro e às apalpadelas que somos conduzidos ao conhecimento da maioria das coisas que temos em mãos: sem dúvida descobriremos que é mais o hábito do que o conhecimento que nos elimina a estranheza delas, Enfadados e saciados que estamos do espectáculo dos céus, ninguém mais se digna levantar a cabeça para esses templos de luz (Lucrécio). e que, se essas coisas nos fossem apresentadas pela primeira vez achá-las-íamos tanto ou mais inacreditáveis que quaisquer outras, Suponde que agora pela primeira vez elas se manifestem subitamente aos mortais e de golpe se apresentem a seus olhos: não se poderia citar algo mais admirável, e antes de vê-las os homens não teriam podido acreditar em algo semelhante (Lucrécio).

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

03 janeiro 2017

Da relação unívoca com os amigos

O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu». 

O texto acima é da autoria de Montaigne, retirado do seu célebre ensaio intitulado Da Amizade

Um destes dias, ao conversar sobre temas diversos, ocorreu-me pensar porque é que algumas pessoas são mais fechadas e estabelecem amizades facilmente enquanto que outras, mais joviais e abertas, têm mais dificuldade ou, melhor dizendo, não manifestam tanto interesse em. A simpatia não lhes traz mais militância a esse nível.

O que queremos dos amigos, sendo que a resposta das amizades fortes não se resume, nem pouco mais ou menos, à ideia de que era ele, ou de que era eu? Queremos amigos para nos divertirmos, para nos prestarem favores ou ajuda, para nos ouvirem, para nos falarem, para nos tirarem dúvidas, para serem interlocutores ou, nalguns casos mais específicos, para sermos sacos de pancada de irritações várias... É para isso que eles servem, sendo que o verbo "servir" não deve ser lido de forma negativa. Os nossos amigos são fruto de uma relação acima de tudo unívoca. Eu sou amigo de fulano porque fulano me dá algo: ajuda ou escuta ou orientação ou divertimento, etc.  A amizade de fulano por mim deve-se ao mesmo interesse: fulano encontra em mim ajuda ou escuta ou orientação ou divertimento, etc. É por isso que o maior amigo de fulano pode ser beltrano, mas o melhor amigo de beltrano já pode ser sicrano - nem todos queremos e damos sempre o mesmo e com igual intensidade. 

Ora, se eu dos meus amigos precisar só de divertimento, é só isso que vou procurar - e nada mais quero do que isso. Se não quiser / precisar de ajuda, orientação, escuta, mas apenas, repito, divertimento, o meu leque de amizades assenta nesse pressuposto. No limite, se eu quase nunca precisar de me divertir, quase nunca precisarei de amigos. E se eu não precisar de me divertir nem de ter com quem conversar, não preciso de amigos. A intensidade das amizades está, obviamente, relacionada com isto: só temos o que procuramos.

A ideia de Montaigne é bonita, mas pouco verdadeira. Nunca há um apenas porque era ele; porque era eu... Há sempre mais qualquer coisa: um tempo em que o divertimento nos enche a alma, um tempo em que a partilha nos enriquece, um tempo em que a escuta é uma espécie de peregrinação pelo nosso interior. Sei do que falo, passe a presunção: aos 58 anos estabeleci amizades fortes por pessoas que conhecia de forma relativamente superficial. Mas eram pessoas que queriam falar e eu as escutava, ou eram pessoas que queriam escutar o que eu tinha para lhes dizer. Aconteceu-me o mesmo com amizades com 15 ou 16 anos, reputadamente improváveis. Não foram acasos, foram encontros - pessoas que me divertiam quando eu queria divertimento, me orientavam quando a bússola perdia o norte magnético.

JdB 


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