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26 dezembro 2025

Poemas dos dias que correm

 SHEMÀ

Vós que viveis seguros
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais no regresso ao fim do dia
comida quente e rostos amigos:

Considerai se isto é um homem
que trabalha na lama
que não conhece a paz
que luta por meio pão
que morre por um sim ou um não.
Considerai se isto é uma mulher
sem cabelo e sem nome
sem mais forças para lembrar
vazios os olhos e frio o ventre
como uma rã no Inverno.

Meditai que isto assim se passou:
Ordeno-vos estas palavras.
Gravai-as no coração
estando em casa ou no vosso caminho.
Quando vos deitardes e ao levantar:
repeti-as aos vossos filhos.
Ou que a vossa casa se arruine,
a doença vos definhe,
os vossos filhos vos virem a cara.
.
10 de Janeiro, 1946

Primo Levi
(1919 - 1987)
In "A Uma Hora Incerta"
(Tradução de Rui Miguel Ribeiro)

11 abril 2025

Poemas dos dias que correm

Aos amigos

Caros amigos, aqui digo amigos
No sentido mais amplo da palavra:
Mulher, irmã, camaradas, parentes,
Pessoas vistas uma só vez,
Ou com quem se conviveu toda a vida:
Contanto que entre nós, pelo menos um momento,
Se tenha estendido um segmento,
Uma corda bem definida.
 
A vocês vos digo, companheiros de um caminho
Denso, não poupado a trabalhos,
E também a vocês, que perderam
A alma, o ânimo, a vontade de viver.
Ou a ninguém, ou alguém ou talvez só a um, ou a ti
Que me lês: lembra o tempo,
Antes da cera endurecida,
Em que cada um era como um sinete.
Entre nós cada um traz a marca
Do amigo encontrado no caminho;
Em cada um o rasto de cada um.
Para o bem e para o mal
Em sageza ou em folia
Cada um estampado em cada um.
 
Agora que o tempo urge apressado,
Que as tarefas terminaram,
A todos faço o humilde voto
De que o Outono seja longo e brando.
 
16 de Dezembro, 1985  
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão

2024

07 março 2025

Ainda da gestão de expectativas

 APORTAR

Feliz o homem que chega a bom porto,
Que deixa atrás de si mares e tempestades,
Cujos sonhos estão mortos ou jamais nascidos;
E que se senta e bebe na taberna de Bremen,
Junto da lareira com uma paz serena.
Feliz o homem que é como uma chama extinta,
Feliz o homem que é como a areia do estuário,
que depôs o seu fardo e limpou a testa
e descansa no bordo do caminho.
Não teme, nem deseja, nem espera,
mas olha fixamente o sol que se põe.
10 de Setembro, 1964
Primo Levi
(1919 - 1987)
in "A Uma Hora Incerta"
(Tradução de Rui Miguel Ribeiro)

***

Primo Levi (1919 - 1987) morreu na sequência de uma queda nas escadas do prédio onde vivia. Há quem ache que se suicidou, há quem ache que morreu de acidente. Eli Wiesel diria que ele tinha morrido em Auschwitz, onde esteve preso, 40 anos antes.


Um dias destes apanhava uma conversa onde alguém dizia que o segredo da felicidade era não ter expectativas, porque se nada se esperasse da vida nenhuma desilusão se teria; esse alguém concordou comigo quando defendi que talvez o importante fosse ter uma gestão correcta das expectativas, que ninguém saudável conseguiria viver sem esperar nada. Ontem, em conversa com outro alguém, falou-se nisto também, na forma como conseguimos - e vemos vantagens ou não - gerir o que esperamos dos outros, como conseguimos lidar com as desilusões que os outros nos provocam, com que sentimento aceitamos - ou não - as diferenças. Ontem ainda encontrei um texto atribuído a Jordan Peterson sobre a forma de melhorar uma relação, seja com um cônjuge, um irmão, um pai, um filho, um amigo ou um colega. A regra nº 3 era: é difícil consertar alguém. É ainda mais difícil consertar alguém que não quer ser consertado.


Tudo isto está alinhado: o Jordan Peterson, as minhas conversas e o poema do Primo Levi - sobretudo este poema. O que queremos ser nas diversas fases da vida? Queremos sentar-nos junto da lareira com um paz serena? E este verso está alinhado com a ideia do homem que é feliz como uma chama extinta? Talvez a idade nos deva tornar mais sábios, para combater as guerras que vale a pena combater e não as guerras que nenhum valor acrescentam. Talvez a idade nos deva ensinar que não se tiram laranjas de figueiras e que não transformamos ninguém que não queira ser transformado. Talvez nem consigamos mesmo transformar de forma consistente quem queira ser transformado...


Que olhemos fixamente o sol que se põe, não como o fim de um dia, mas como algo que se repete e, como tempo de recolhimento, de regresso à casa sossegada, como diria S. João da Cruz, é um momento de particular beleza.


JdB

09 abril 2024

Poemas dos dias que correm

 AGAVE

Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?

(10 Setembro 1983)

Primo Levi
(1919 - 1987)
(Tradução de Luís Filipe Parrado)

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