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26 maio 2026

Das expectativas goradas

 Ao longo das últimas duas semanas escrevi vários emails para pessoas / grupos de pessoas diferentes, sobre temas diferentes. Não eram emails operacionais; talvez fossem mais pessoais - emocionais num certo sentido - pois revelavam uma dimensão mais intangível da vida. Em nenhum havia tristeza, revolta, ansiedade ou outros sentimentos mais exacerbados. Talvez se pudesse dizer que eram sobretudo, partilhas. De todos, devo confessar, esperava uma resposta - talvez mesmo uma resposta num certo sentido, ou com um certo tom de voz. A minha expectativa assentava (também) num pressuposto: se eu recebesse um mail daqueles, teria respondido de uma certa forma - da forma como contava receber... Nada aconteceu como previsto: ou o tom de voz não era o esperado, ou nem sequer houve tom de voz. 

Não sei o que é viver sem expectativas, mesmo que a minha gestão das ditas seja errada. Viver sem esperar nada do próximo é votar o próximo à indiferença, mais do que exercer uma santidade de quem não se incomoda com o que recebe - mesmo que seja pouco ou nada. Uma expectativa é um desejo - e eu não concebo uma existência sem desejos, mesmo sabendo que daí advirão desilusões. Gerir expectativas é também um exercício de auto-análise. Se não tivermos expectativas com ninguém, é de esperar que os outros não tenham expectativas connosco. Se assim for, quando o nosso próximo cair no chão só nos resta afastarmo-nos para que os sapatos de camurça não fiquem conspurcados do sangue alheio.

Um mail - sobretudo se não for operacional - envia uma mensagem. Não receber resposta - ou receber uma resposta claramente insatisfatória confronta-nos com o seguinte: há pessoas que percebem o que dizemos, há pessoas que não conseguem perceber o que dizemos, e há pessoas que não fazem a mais leve ideia do que estamos a dizer, mesmo que falemos a mesma linguagem e tenhamos códigos linguísticos semelhantes. Por vezes é como fazer um pedido a alguém: o nosso interlocutor pode não querer satisfazer o nosso pedido, pode não saber satisfazer o nosso pedido ou pode não fazer a ideia do que estamos a pedir.

A não resposta - ou resposta insatisfatória - aos meus mails têm uma dupla valência: põem-me num lugar certo de humildade pedagógica; e ensina-me muito sobre a alma humana. Decifrar o motivo por trás destas expectativas goradas é um exercício interessante: o que leva as pessoas a não reagir ou a reagir de forma que me parece insatisfatória? E se a ausência de resposta adequada for da maioria?

Já estive em reuniões onde, no final de uma apresentação, não houve praticamente ninguém a agradecer, a dar os parabéns, a fazer uma pergunta que revele interesse. O que se passa na cabeça das pessoas?

JdB 


07 março 2025

Ainda da gestão de expectativas

 APORTAR

Feliz o homem que chega a bom porto,
Que deixa atrás de si mares e tempestades,
Cujos sonhos estão mortos ou jamais nascidos;
E que se senta e bebe na taberna de Bremen,
Junto da lareira com uma paz serena.
Feliz o homem que é como uma chama extinta,
Feliz o homem que é como a areia do estuário,
que depôs o seu fardo e limpou a testa
e descansa no bordo do caminho.
Não teme, nem deseja, nem espera,
mas olha fixamente o sol que se põe.
10 de Setembro, 1964
Primo Levi
(1919 - 1987)
in "A Uma Hora Incerta"
(Tradução de Rui Miguel Ribeiro)

***

Primo Levi (1919 - 1987) morreu na sequência de uma queda nas escadas do prédio onde vivia. Há quem ache que se suicidou, há quem ache que morreu de acidente. Eli Wiesel diria que ele tinha morrido em Auschwitz, onde esteve preso, 40 anos antes.


Um dias destes apanhava uma conversa onde alguém dizia que o segredo da felicidade era não ter expectativas, porque se nada se esperasse da vida nenhuma desilusão se teria; esse alguém concordou comigo quando defendi que talvez o importante fosse ter uma gestão correcta das expectativas, que ninguém saudável conseguiria viver sem esperar nada. Ontem, em conversa com outro alguém, falou-se nisto também, na forma como conseguimos - e vemos vantagens ou não - gerir o que esperamos dos outros, como conseguimos lidar com as desilusões que os outros nos provocam, com que sentimento aceitamos - ou não - as diferenças. Ontem ainda encontrei um texto atribuído a Jordan Peterson sobre a forma de melhorar uma relação, seja com um cônjuge, um irmão, um pai, um filho, um amigo ou um colega. A regra nº 3 era: é difícil consertar alguém. É ainda mais difícil consertar alguém que não quer ser consertado.


Tudo isto está alinhado: o Jordan Peterson, as minhas conversas e o poema do Primo Levi - sobretudo este poema. O que queremos ser nas diversas fases da vida? Queremos sentar-nos junto da lareira com um paz serena? E este verso está alinhado com a ideia do homem que é feliz como uma chama extinta? Talvez a idade nos deva tornar mais sábios, para combater as guerras que vale a pena combater e não as guerras que nenhum valor acrescentam. Talvez a idade nos deva ensinar que não se tiram laranjas de figueiras e que não transformamos ninguém que não queira ser transformado. Talvez nem consigamos mesmo transformar de forma consistente quem queira ser transformado...


Que olhemos fixamente o sol que se põe, não como o fim de um dia, mas como algo que se repete e, como tempo de recolhimento, de regresso à casa sossegada, como diria S. João da Cruz, é um momento de particular beleza.


JdB

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