As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
29 janeiro 2011
Pensamentos impensados
28 janeiro 2011
um jardim às (amor)eiras
mistura de romã e de hortelã
com a luz em zénite de agosto.
recomendando mais juízo,
mas a poesia é aventura
e tudo o mais que é preciso.
querendo antes dizer Poesia.
repara: uma só letrinha diferente
e tudo é já plena magia.
janela-vida rasgada que sorri
afinal, diz a Agustina, terminar
pode ser via-sacra de alegria.
esta estranha coisa - a alma -
e ousássemos outra vez navegar
com toda a garra e toda a calma.
que não tenha dito mil vezes no retrovisor:
frémitos, balas, palmas e salvas,
tudo apenas declinações óbvias deste
Amor de Inverno - mas sempre em flor.
27 janeiro 2011
Deixa-me rir...
A crise está aí. Em Portugal, na Europa, no Mundo (aparentemente não tanto no Médio Oriente, por razões mais ou menos óbvias). É um facto, é uma realidade que toda a gente comenta ad nauseum. Por isso, quando se bate no fundo dos fundos e não há forma de saltarmos para o País das Maravilhas, qual Alice aos trambolhões pelo poço escuro do desânimo, do desalento, da demagogia e do baixar dos braços, há que nos levantarmos por nós próprios, não esperando que ninguém nos venha salvar (nem o Estado, nem a conjuntura, nem Deus, nem o Pai, a Mãe ou o namorado…). Isto tudo a propósito de várias conversas que tenha tido com um amigo meu. Apaixonado por Portugal, pela nossa História, pelos nossos feitos e pela nossa Língua, revolta-se, diariamente, contra a nossa passividade, a nossa ignorância, a nossa falta de auto-estima. É estimulante, muito estimulante, debater ideias com ele. Dentre a catadupa de ideias que jorram, cada 5 segundos, de uma cabeça muito inteligente e altamente criativa, destaco uma que não é demasiado complicada e que pode funcionar como alavanca de vida para jovens à procura de emprego, quarentões desempregados ou, simplesmente, pessoas que procuram ganhar mais algum dinheiro e que se preocupam com o futuro do nosso país. Porque, a componente social, ou melhor, a criação de emprego, e consequentemente de riqueza, está na génese desta ideia…
Portugal não precisa de importar nada. Já temos tudo. Prada’s, Donna Karen’s, Corte Inglés, produtos de todo o género e para todo o tipo de bolsas e gostos. Não precisamos, nem devemos, continuar a trazer para Portugal marcas e produtos que são o último grito, a última moda do que existe lá fora, e que, quer queiramos quer não, acabam sempre por relegar para segundo plano a produção nacional (por causa desta mentalidade bem nossa, bem portuguesa, que o que vem do exterior é que é bom). Neste momento, na minha opinião, e não é só na minha (basta ler alguns jornais estrangeiros), ser austero, viver com pouco, regradamente, é que é cool, é que está a dar. Acabou-se (será?) a era do esbanjamento, do consumismo frenético, do novo-riquismo irracional. Por mim, acho lindamente. A minha experiência prolongada na Índia fez-me entender, e de que maneira, como podemos ser felizes com muito pouco. Lembro-me até de ficar meio zonza quando, pouco depois de regressar, entrava nos nossos supermercados e via marcas e marcas de iogurtes, de bolachas, corredores e corredores de prateleiras cheias de artigos para consumir…. Não sou anti-consumo, atenção. Gosto de comprar roupa, livros e discos, de ir ao teatro, ao cinema e de viajar. Mas tudo tem de ter a sua justa medida. E chegámos a um ponto que deu no que deu. A economia “partiu”, a corda foi esticada demais.
Mas estou a afastar-me do meu pensamento inicial. Criar riqueza tem de ser o nosso futuro. De nós Portugueses, entenda-se, os outros países saberão de si. Temos de pegar em ideias portuguesas, em produtos portugueses e, com a maior confiança em nós próprios e no que criamos, pormos estes produtos no estrangeiro. Dou exemplos. Alguém já pensou em exportar as ameixas de Elvas? Ou as queijadinhas de Sintra? Ou os nossos deliciosos doces regionais? Nunca vi palmiers do género do Careca em nenhum supermercado de Londres, por exemplo.... E o nosso fabuloso azeite? E os bordados nacionais? E as jóias, os móveis ou as roupas que pessoas que conhecemos, particularmente dotadas, fazem? Porque não? Certa vez tentei vender as jóias duma amiga minha ao José António Tenente. E ele ficou interessado em vê-las… e não me conhecia, nem à minha amiga… ou seja, basicamente, the sky is the limit. Cada vez mais acho que as barreiras que nos rodeiam, somos nós que as criamos. E isto aplica-se aos negócios, aos estudos e ao nosso desenvolvimento pessoal. Já pensaram que se podem reunir com presidentes de câmaras municipais e propor-lhes a revitalização de indústrias locais? Já pensaram em pegar nas tapeçarias de Portalegre, uma arte que está, ao que sei, cheia de problemas, e levá-las aos melhores decoradores de Londres ou Nova Iorque? Porque não?
Esta ideia tem uma enorme vantagem: os custos do negócio são mínimos, porque se baseiam na intermediação. Basta ter um bom produto, internet, email e um telefone. Saber inglês, ter boa apresentação e desenvoltura ajudam, evidentemente. Assim como algum dinheiro para se viajar na Easyjet (de 3ª a 4ª feira, de preferência) e visitar as feiras que se realizam em Londres, Paris, Amsterdão ou Florença para vermos o que de melhor se faz no mundo ou, preferencialmente, apresentarmos os nossos produtos, tentando preencher nichos de mercado vazios.
Nada é impossível! E tudo isto se pode fazer devagarinho, claro. Até pode ser conciliável com outros trabalhos. Basta acreditar num produto com o qual nos identifiquemos e conseguir colocá-lo no mercado certo. Como é que isto se faz?? Bom, quem é de marketing e da área comercial, saberá muito melhor do que eu…. mas o bom senso, dois dedos de testa, persistência e o estar preparado para ouvir uma série de nãos ajudam…
E porque de Portugal falamos, aqui deixo dois exemplos da melhor tradição coimbrã, cidade onde nasci e de que guardo maravilhosas recordações.
PCP
26 janeiro 2011
Vamos lá ajudar o país??!!
Está provado que se cada português consumir 100 EUR de produtos nacionais por mês a economia cresce acima de todas as estimativas e ainda cria 1 posto de trabalho!
Ponham a mensagem a circular, nem que seja a uma só pessoa, desde que circule. Por favor, quando for ao supermercado, dê preferência aos produtos de fabrico Português. Se não sabe quais são, verifique sempre o
CÓDIGO DE BARRAS:
TODOS OS PRODUTOS PORTUGUESES COMEÇAM POR "560" NO CÓDIGO DE BARRAS!
Moleskine
JdB
25 janeiro 2011
Reflexões Presidenciais
24 janeiro 2011
Fórmula para o caos
23 janeiro 2011
Domingo …… Se Fores à Missa !
Toda a nossa existência, como Cristãos, assenta no princípio universal e supremo que é o Amor. Aqui no Adeus, o amor, tem sido tema, palavra, expressão, adjectivo, substantivo usado e abusado por todos os bloguistas. Seja o amor a Deus, seja o amor fraternal, o amor à pátria, o amor aos filhos, o amor romântico, o amor-amizade, o narcisista, o desinteressado, o amor próprio, o firme ….. Mas existe uma palavra que precede o amor e sem a qual o amor não entra em nós: e essa palavra é SIM. Se não dermos o nosso sim ao amor, a Cristo, à família, à sociedade, aos amigos, ao trabalho, aos estudos, nada acontecerá nas nossas vidas.
A vida de Cristo está recheada de SIMs . A sua Mãe deu o sim a Deus, ao conceber Cristo através do Espírito Santo; Cristo deu o sim a Deus, Seu Pai, ao tornar-se homem, ao morrer na cruz, ao aceitar tudo quanto lhe estava reservado; os apóstolos deram o seu sim a Cristo, conforme relata o Evangelho de hoje, largaram tudo e seguiram-no.
Também, a nós, ao longo das nossas vidas, nos são pedidos muitos sins. Quantos damos ? Estamos, realmente, preparados para dar o sim ? E dando-o, estamos realmente preparados para mantê-lo? O casamento, para resultar, requer um sim constante ao outro. A vida em Cristo, para ser verdadeira, requer um sim constante ao Pai. A vida profissional, a vida de estudante, a vida em família. Em todas as nossas vertentes, a espinha dorsal é sempre a mesma : darmos o nosso SIM . E, no entanto, quão difícil é dar esse sim. Muitas vezes dou comigo a dizer NIM , nem sim nem não, a não querer me comprometer, a olhar para o lado e assobiar, a lavar as mãos como Pilatos. Somos humanos, é natural ! Mas não devemos desistir. Cristo pede o meu sim constantemente …. será que lho dou na mesma medida ?
Domingo, Se Fores à Missa ……. Dá o teu Sim !
Maf
22 janeiro 2011
Pensamentos impensados
Levas com uma alcaparra num olho que ficas quatro dias a arrotar a azedo.
Levas uma pantufada na tabuleta que até ficas com folga na espinha.
Liga henseática
Era uma amálgama de metais para curar a ciática.
Justiça
Há regiões nos países muçulmanos onde não se pode aplicar a pena
de morte por lapidação; o deserto do Saara, por exemplo.
Tratamento
Parece que beber água é bom para quem tem pedras nos rins; daí...água mole em pedra dura...
Botânica
A couve-flor pode ser considerada verdura?
Polícia
Hoje, ao ver a Polícia a pôr bloqueadores nos automóveis, veio-me à ideia Gil Vicente, na peça Quem Tem Farelos, quando um personagem diz: fi de p... roim sapatos tens amarelos.
21 janeiro 2011
sem título?
deixaram-me em lágrimas.
tolice talvez não escrever armas
ao invés de lágrimas,
mas essa tua cintilante
gramática - ou semântica? -
é toda uma outra escola,
e uma outra escala,
dir-se-ia para além da Trapobana.
como se Camões e Pessoa
sentados à mesma mesa
te dessem a certeza
de que pelos séculos dos séculos
brilha intensa brilha imensa
a exacta e humana
eterna mesma chama.
de 2010 guardamos
uma singela aguarela em flor
melancólica natureza viva
que insiste e resiste no Amor
modinha à maneira de Lisboa
sim, sim, sim - gritam os mapas -
e o poeta agora sente e fala
em língua franca de criança:
brilha alto a palavra mágica
- luzes, amigos e amigas,
que o título do poema é afinal..
ESPERANÇA!
gi.
20 janeiro 2011
Deixa-me rir...
Us, and them,
And after all we're only ordinary men.
Me, and you.
God only knows it's not what we would choose to do.
'Forward' he cried from the rear
And the front rank died
And the General sat, and the lines on the map
Moved from side to side
Black and blue,
And who knows which is which and who is who.
Up and down.
But in the end it's only round and round.
Haven't you heard it's a battle of words
The poster bearer cried.
'Listen son', said the man with the gun
'There's room for you inside'.
Down and out
It can't be helped but there's a lot of it about.
With, without.
And who will deny it's what the fighting's all about?
'Out of the way', it's a busy day
I've got things on my mind.
For the want of the price of a tea and a slice
The old man died.
All that you touch, all that you see
All that you taste, all you feel
All that you love, all that you hate
All you distrust, all you save
All that you give, all that you deal
All that you buy, beg borrow or steal
All you create, all you destroy
All that you do, all that you say
All that you eat, everyone you meet
All that you slight, everyone you fight
All that is now, all that is gone
All that's to come
and everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.
A proxima,
PO
19 janeiro 2011
Textos dos dias que correm...
Era oriundo de famílias aristocráticas e descendente de flamengos.
O pai deixou de lhe pagar os estudos e deserdou-o.
Trabalhou, dando lições de inglês para poder continuar o curso.
Formou-se em Direito.
Foi advogado, professor, escritor, político e deputado.
Foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
Foi reitor da Universidade de Coimbra.
Foi Procurador-Geral da República.
Passou cinquenta anos da sua vida a defender uma sociedade mais justa.
Com 71 anos foi eleito Presidente da República.
Disse na tomada de posse: "Estou aqui para servir o país. Seria incapaz de alguma vez me servir dele..."
Recusou viver no Palácio de Belém, tendo escolhido uma modesta casa anexa a este.
Pagou a renda da residência oficial e todo mobiliário do seu bolso.
Recusou ajudas de custo, prescindiu do dinheiro para transportes, não quis secretário, nem protocolo e nem sequer Conselho de Estado.
Foi aconselhado a comprar um automóvel para as deslocações, mas fez questão de o pagar também do seu bolso.
Este SENHOR era Manuel de Arriaga e foi o primeiro Presidente da
República Portuguesa.
INDUBITAVELMENTE, OUTRA GENTE .....
Moleskine
JdB
18 janeiro 2011
Livro dos despautérios i)
Sombreio com precisão tudo o que fica entre mim e o chão. A minha extensa verticalidade é suficiente para anoitecer uma considerável porção de terreno num magnífico eclipse profético, aos olhos dos bichos, pelo menos. A haver sol, é o que faço melhor, não havendo, faço pouco mais que providenciar um distinto abrigo para o vento e, no caso de uma franciscana falta de melhor, para a chuva que possa vir de empurrão com ele. Tudo isto sem recorrer à notável faculdade do movimento e, melhor ainda, sem qualquer esforço intelectual. Quieto, mudo e estúpido.
Tenho tido saudades das alturas do ano em que, luxo raro, me é permitido ficar quieto, mudo e estúpido.
Zdt
17 janeiro 2011
Vai um gin do Peter’s ?

Quando em 2008/09 o maestro finlandês, Esa-Pekka Salonen, aterrou em Londres para gerir os destinos da Philharmonia, convidaram-no a arquitectar projectos de divulgação dos compositores clássicos nas Ilhas Britânicas, tentando importar a revolução que acabara de operar na Filarmónica de Los Angeles.
Assim nasceu a ideia de criar uma instalação digital, que permitisse ao público ouvir um concerto imergido no meio da orquestra, a acompanhar a regência de Salonen na perspectiva única que se tem do palco e… até mesmo agarrar na batuta e dirigir os músicos.
Explico-me melhor: depois de percorrer as salas recheadas de 29 ecrãs gigantes, em alta definição, a visita desagua num compartimento circular, com a régie à nossa disposição para fazermos experiências de som, alterando o volume dos vários instrumentos, na posição de maestros. Há também um espaço onde se podem tocar instrumentos. Nas salas iniciais, a música é ouvida junto ao naipe de músicos que aparece no ecrã. O primeiro é o dos violinos. Em frente às nossas cadeiras está a estante com a partitura que está a ser executada mesmo ao lado.
Não deve ter sido nada fácil descobrir a peça ideal para aguentar as fantasias dos espectadores, permitir desdobragens de som por naipes e proporcionar diferentes níveis de leitura, mantendo o público interessado, apesar de a maioria estar mais familiarizada com a sonoridade soft e popular das rádios. Esse terá sido o primeiro grande desafio. E a escolha recaiu sobre o repertório russo do princípio do século XX com a épica SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA (The Rite of Spring, de onde deriva o título da exposição), de Igor Stravinsky (1882-1971), de uma riqueza e densidade acústicas difíceis de igualar. Basta lembrar que há 101 músicos em palco! Um colosso.

Igor Stravinsky passou a infância em S.Petersburgo;
em 1910 mudou-se para a Europa (França e Suíça); com o
eclodir da II Guerra radicou-se nos EUA, onde morreu em 1971.
Alguns dados sobre esta peça magnífica: seguindo a boa tradição russa, também a Sagração está associada a um bailado, preparada em parceria com o empresário dos Ballets Russes, Sergei Diaghilev, e estreada em Maio de 1913, no coração de Paris: Teatro dos Campos Elísios. O ritual pagão e sacrificial em que Stravinsky se inspirou, chocou o público (houve verdadeira batalha campal no dia da estreia(2)), mas revolucionou a composição musical, inaugurando harmonias totalmente inovadoras, com inúmeras dissonâncias. E não pouca polémica, claro…
A própria coreografia – do famosíssimo bailarino Nijinsky – incorporou toda a intensidade rítmica e orquestral daqueles timbres vanguardistas, vertiginosos, exacerbados, adoptando movimentos abruptos, primitivos, selvagens, ditos «rústicos», que perturbaram a audiência, tanto mais que eram dançados pelos míticos Ballets Russes, que faziam furor na Cidade das Luzes. A parceria entre Stravinsky e Diaghilev redundou num sucesso rotundo, apesar de tudo, tendo dado origem a uma sequência de bailados lendários: «Pássaro de Fogo» (1910), «Petrushka» (1911) e «A Sagração da Primavera» (1913). Tudo o que envolvia os Ballets Russes era, só por si, um acontecimento: desde os figurinos à cenografia, passando pelos bailarinos e rematando na orquestração genial de Stravinsky. Artistas como Picasso, Matisse ou o poeta e cineasta Jean Cocteau colaboraram na concepção dos espectáculos, tornando-os memoráveis. Nunca em tão pouco tempo se fez tanto pela arte da dança.

De facto, a composição musical sublima toda e qualquer temática, envolvendo-nos em ritmos arrebatadores, vibrantes, excessivos e contagiantes, que nos franqueiam uma nova dimensão. Nas palavras de Salonen, a peça situa-se fora do tempo e toca a eternidade. Este comentário insere-se na explicação do maestro sobre o desenrolar do concerto, que pode ser visionada num dos ecrãs da exposição.
Há passos da Sagração que remetem para a criação do mundo. É como se recuássemos até ao Big Bang, até ao despertar mais ancestral da vida. Diria que Stravinsky nos convida para um concerto cósmico, onde ousa dirigir as próprias forças da natureza, indomáveis, ao rubro. Vulcânico e lindíssimo! Segundo declarações do compositor: «Sou o veículo através do qual passou A Sagração da Primavera (…) Tive uma soberba visão repleta dos mais inusitados efeitos sonoros indefiníveis...»
A Sagração revolucionou o paradigma da construção musical, anunciando uma Primavera muito fecunda na história da arte ocidental, como tinha pressentido o seu autor. Os cânones tradicionais são ignorados, o ritmo assume a primazia, a sonoridade reveste-se de timbres exóticos com os instrumentos a tocar em registos inusitados (ex: o fagote em agudíssimo) e com uma intensidade alucinante, as assimetrias e variações rítmicas sucedem-se em catadupa, as transições do fortíssimo para o pianíssimo superabundam, a reiteração de uma polifonia de tonalidades muito díspares cria uma concentração de energia acústica extrema. Até do ponto de vista físico é uma peça esgotante para os músicos. Percebe-se que tenha originado um degelo algo subversivo, que ainda hoje nos chega com uma novidade incrível. Nesse sentido é, provavelmente, das obras mais resistentes à banalidade, conservando uma frescura e uma inexpugnabilidade ao vulgar que a tornam verdadeiramente genial.
O «Re-Rite» nas palavras dos organizadores:
- O maestro Salonen: «Estar no meio de uma orquestra, experimentar a sensação de 101 músicos a tocar a Sagração, faz correr a adrenalina, e é algo que quero partilhar com o mundo.»
- O produtor Richard Slaney sobre a escolha da Sagração: «Porque é a peça definitiva de música clássica. Tem tantas camadas, tantos instrumentos e tantas coisas a acontecer! É uma peça muito dinâmica e excitante, e beneficia imenso de a desconstruirmos um pouco e entrarmos no seu íntimo, ganhando uma noção do que cada parte (dos músicos) está a fazer. (…) A Sagração foi roubada por todos os compositores para o cinema. Se não se souber muito de música clássica, há (…) acordes e atmosferas no início da segunda parte que parecem saídos d’A Guerra das Estrelas.»
Quis o Criador precisar de nós para acrescentar qualquer coisa à criação. Felizmente para a humanidade, Stravinsky deu o seu melhor e fez a diferença!
Fica ainda o convite para outra experiência única: aterrar nesta cidade azul e plena de luz que é Lisboa, desfrutando a vista soberba a partir da janela do cockpit. Uma paisagem inspiradora para o primeiro mês do Novo Ano.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) Mude - Museu do Design e da Moda - R. Augusta, nº 24. Tel. 21 8 886 117.
http://www.mude.pt/mude_site.html.
HORÁRIO: 3ª a 5ª e Dom. – 10h00-20h00. 6ª e Sáb. - 10h00-22h00.
(2) No breve espaço de um ano, os franceses conseguiram digerir o choque inicial e reconhecer a beleza assombrosa da Sagração.
Stravinsky registou este volte-face fantástico na segunda audição da peça, em Paris: «Foi uma esplêndida reabilitação. A sala estava repleta. O público, já não distraído pelo espectáculo, ouviu o meu trabalho com uma atenção concentrada e aplaudiu-o com um entusiasmo que me emocionou muito e que estava longe de esperar. Alguns críticos, que anteriormente tinham depreciado a Sagração, confessaram abertamente o seu erro» (in «Crónicas da minha vida»)
16 janeiro 2011
A mulher que se casou com ela própria
«Sabem de país mais desconhecido que um coração?». Foi o que me apeteceu perguntar estes dias ao assistir num dos telejornais a uma notícia bizarra, com a qual até os jornalistas que assinavam e apresentavam a peça gozavam. Uma mulher de Taiwan, secretária de profissão, aí entre os trinta e os quarenta anos, tinha protagonizado um casamento com ela própria: com direito a vestido branco, aliança, transporte em limousine, jantar para centenas de convidados e fogo de artifício. Não sei como é que tal possa ser, pois não imagino que exista em alguma parte um enquadramento jurídico para iniciativas do género. Penso que tudo se terá ficado por uma celebração simbólica em que aquela mulher, encenando um matrimónio, jurava fidelidade a si mesma.
Ao receber uma notícia destas podemo-nos rir, alarmar, enfurecer, encolher os ombros, interrogarmo-nos se tudo não passa de uma farsa desenhada para os tabloides e para a TV nas tréguas natalícias onde, ao que parece (sic), as notícias sérias não abundam, questionar a saúde psicológica daquela mulher e dos que a rodeiam, etc, etc. Mas, a existir um pingo de verdade nesta insólita história, somos remetidos para um nível mais profundo de compreensão: temos de tentar perceber, por de trás do ato, ainda que nos pareça destituído de qualquer racionalidade, o que conduz ou pode conduzir um Ser Humano a uma decisão destas. Sem querer ficcionar sobre uma história seguramente já saturada de ficção (e de óbvias, penosíssimas ilusões), há uma causa que ocorre imediata: uma grande, irresolúvel e mal vivida solidão.
A cultura contemporânea deixou de nos preparar para a solidão. Na maior parte das vezes é uma aprendizagem que temos de fazer em cima dos próprios acontecimentos, ou na sua dolorosa ressaca, e de forma muito desacompanhada. É como se a solidão fosse uma surpresa absolutamente improvável na nossa experiência humana e não, como ao contrário é, um modo de existência completamente comum. Há uma frase de Truman Capote, que há anos passei para um dos meus cadernos: «Todos estamos sozinhos, debaixo dos céus, com aquilo que amamos». Mas esquecemos isso. Esquecemos que todos os dias, mesmo numa vida afetivamente integrada e febrilmente ativa, a solidão nos visita. Somos sós connosco próprios e em companhia. Fomos sós em criança, fomos assim na transbordante juventude e nas décadas da vida adulta, e seremos assim na velhice. A amizade e o amor são formas de condividir, diminuir, dar serenidade ou potenciar criativamente a solidão, mas o assobio ininterrupto da solidão continuará a fazer-se ouvir no abraço redondo dos amantes ou na ronda magnífica dos amigos. Recordar-se disso é humanizar o nosso olhar e o nosso juízo sobre a realidade.
Também por este motivo, gostei muito de reencontrar no número de janeiro da revista "Ler" as palavras lúcidas da escritora brasileira Nélida Piñon, opondo o alicerçante desejo de recolhimento à atração atual por tudo o que é dispersivo: «a solidão buscada é o lugar onde melhor aprendi a encontrar-me».
Texto de José Tolentino Mendonça, tirado daqui.
2º Domingo do Tempo Comum
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
15 janeiro 2011
Pensamentos impensados
Comportamento de risco - diz-se dos selvagens que riscam os carros.
Choque em cadeia - diz-se das pessoas que são electrocutadas na prisões americanas.
Porta bandeira - diz-se das portas antigas que tinham um vidro em cima chamado bandeira.
Porta voz - diz-se das portas que rangem e fazem lembrar voz a gemer.
Dito por alguém
Uma pessoa, para ter ideias limpas, deve mudar de ideias todos os dias, como muda de camisa.
Como se chama a mulher do Pai Natal? Mary; Mary Christmas.
Mais anglicismos no nosso folclore
Try (experimente) Trai, trai, olaré trai trai, era a moda do meu pai.
Vayela (tecido) Vai tu vai tu vai ela, vai tu p´ra casa dela.
Ouvido na televisão
Programa de culinária com um convidado que em pouco mais de 5 minutos disse: água desidratada, profundidade elevada e som é uma onda sonora.
História
Pouca gente sabe que o Cartaxo tem milhares de anos e era conhecida por os habitantes terem piolhos. Hoje é a civilização que os tem.
Um general romano que estivera nas guerras cartaginesas, passando revista às tropas, viu um soldado com piolhos e exclamou: de lêndea!? És do Cartaxo.
14 janeiro 2011
os teus lábios
tanto melhores
quanto mais imaginados.
ou seja:
vivos, mas de outra maneira,
eternizados e míticos.
notas de prova à lareira:
cereja com ligeiros tons cítricos,
chocolate e alfarroba,
especiarias e flor de laranjeira.
ou de como na imaginação louca eles
- e tu neles, bem vês -
são bons de qualquer maneira.
ufa, menina.
para quem não existe neste mundo,
dás cá uma trabalheira..
gi.
13 janeiro 2011
Luís
Luís era o ai-Jesus das meninas na universidade. Já o tinha sido no liceu, no colégio, até na primária… era assim. Habituara-se a isso, a ser um pouco o centro das atenções. Às vezes era cansativo, mas as mais das vezes até que era bom. Fazia bem ao ego … afinal, quem é que não gosta de ser amado e de ser o centro das atenções? pensava com os seus botões. Em parte não tinha “culpa” do sucesso que fazia: era alto, ombros largos, as feições muito correctas, um nariz aquilino, cheio de personalidade, e uns olhos azuis de cair para o lado. Sobretudo a expressão era muito bonita e verdadeira. Era fácil ver-se-lhe a alma reflectida naqueles lagos azul-piscina. Do tímido ao audaz, do profundo ao divertido, do inquieto ao sereno, tudo se lhe via estampado na limpidez dos olhos. E porque era bom de raiz, essa bondade saía-lhe dos olhos, da boca, das mãos, dos poros …. e atraía, irresistivelmente, raparigas e rapazes, velhos e novos, professores e colegas. A educação exímia que recebera também contribuíra para o seu sucesso. Assim como a sua cultura e o à-vontade de falar sobre qualquer assunto. Mas eram os olhos, o jeito muito seu de puxar o cabelo para trás e a sua graça natural, qb arreliadora mas cheia de bondade, que faziam derreter os corações do sexo oposto. Poucas ficavam imunes ao seu charme e por muito poucas ele se sentira verdadeiramente atraído. Aliás, era normalmente por aquelas que lhe “tinham dado com os pés” e que procuravam sobretudo aventura, maluquice, pouca arrumação mental e espiritual que ele se interessava. Mas as pessoas não se inventam, consolava-se ele, quando o desamor lhe batia à porta. Mas custava-lhe. E muito. Custara-lhe sobretudo quando fora recusado pela Lili, aí quando tinha 20 anos. Tinha-a conhecido numa festa de Carnaval e quando a vira pela primeira vez parecera-lhe a rapariga mais gira e cool do mundo: moderna e atrevida, um cabelo preto em turbilhão, mini-saia sobre pernas esculturais, e um sorriso de perder a cabeça. Fora tiro e queda. Até tivera uma tontura, recordava agora. Mas a Lili era rapariga para outros voos, não para um rapaz bom e bem formado, ainda que cheio de charme e predicados. Ainda saíram umas semanas. Ela fora sempre querida, meiga, ouvira as suas histórias com atenção e interesse, fizera perguntas inteligentes… E rira-se frequentemente, mostrando uns dentes e uma boca perfeitos. Ai quando ela se ria … ficava totalmente desorientado! Mas aprendera a controlar esse desgoverno interior e a contorná-lo com mais e mais histórias divertidas. Mas Lili estava noutra: queria correr mundo, achava o ambiente em Portugal sufocante, tinha começado a interessar-se pela cultura dos góticos (sempre vestira muito de preto, gostava de rock pesado e tinha um fraco por ambientes algo marginais) e o Luís, pura e simplesmente, começou a sentir que não a conseguia acompanhar. Não fora programado para tanta paixão, para tanta sofreguidão, para tanta necessidade de liberdade. Por isso um dia arranjou um óptimo emprego num banco, casou uns anos depois com uma apaixonada de sempre, uma rapariga loira e bem-feita, educada para ser mãe e dar jantares. Teve 4 filhos lindos, viajou, comprou uma casa de férias em Arraiolos, jogava golfe aos fins-de-semana e bridge às quintas. Encontrou a estabilidade, gostava muito da mulher e era apaixonado pela luz de Lisboa nos fins de tarde de Verão. Mas a Lili ficou-lhe sempre na alma. Tentava, até, não pensar muito nela, pois ainda lhe era doloroso, passados tantos anos, recordar o seu sorriso e a forma como tantas vezes dançava, alheada do mundo e perdida nos seus pensamentos. Ficara-lhe de consolo a noite em que se tinham despedido definitivamente. Estavam sentados no carro, depois de uma noite de brincadeira e copos, e ela tirou um CD da carteira e entregou-lho. Gravei-o para ti. A pensar nos momentos maravilhosos que passei ao teu lado. Parto amanhã para Londres. Não esperes por mim, não vou voltar. Tirou o CD do invólucro, colocou-o no leitor de CD’s do carro e ligou-o.
Lembrava-se hoje, tão nitidamente como naquela altura, da voz da Carole King e da mão da Lili, suave e forte, agarrada à sua. Nunca mais a vira.
PCP
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal

