18 outubro 2011

Duas últimas


Desta feita escolho um dos nomes que a cidade onde nasci deu à música portuguesa. E realço que o Porto foi pródigo nessa matéria, pois deu-nos sem dúvida alguns dos melhores compositores e músicos portugueses da minha geração. Embora alguns deles tenham sentido necessidade de vir para a centralidade da capital para dar nas vistas e fazer carreira.

Pedro Abrunhosa lá tem as suas manias e peneiras – quem não as tem? –, alguns gostos e simpatia por certo discutíveis. Mas, no essencial, acho-o um excelente compositor e um intérprete (ao estilo de “diseur”) personalizado e diferente. Como li algures, trata-se de alguém que chegou à música pela via erudita e cujo caminho tem sido no sentido da simplificação, da depuração, da procura do essencial. Vi-o também ao vivo mais do que uma vez e gostei da presença em palco, passe alguns comentários dispensáveis, e da força das suas interpretações.

Esta sua musica não é das mais conhecidas e já agora, destas, há 3 ou 4 absolutamente imperdíveis. Mas acabei por seleccionar “Ilumina-me”, talvez pela leve pronúncia do Norte, pelo “beijo louco no Porto”, porque gosto de ser iluminado nestes tempos de trevas.

Espero que gostem!

fq


17 outubro 2011

Espaços dos dias que correm (enviado por mão amiga)


Um pouco do que melhor se vai fazendo em Portugal....
 
... e um blogue que vale a pena conhecer
 
 
que substitui este outro:
 

Ligar os pontos


Numa cultura que se recusa a encarar [a doença e a morte] … Steve Jobs deixa um testemunho exemplar de sabedoria e humanidade
É estranho dizer-se de um homem que morre aos 56 anos que tenha tido três vidas. Mas é isso que apetece dizer quando se escuta o inspirador discurso que Steve Jobs fez em 2005, na entrega de diplomas da universidade de Stanford, e que hoje podemos perceber claramente como uma espécie de testamento. Jobs conta, então, três histórias, que correspondem a momentos-chave do seu percurso. A primeira descreve os seus difíceis começos e ele chama-lhe “ligar os pontos”. O arranque da vida não podia ser mais áspero. Entregue para a adoção assim que nasceu, uma adolescência hesitante, a entrada numa universidade que os pais não conseguiam pagar nem ele verdadeiramente suportava, a dureza de uma juventude feita de biscates, meio à deriva…Mas no meio disso, a aprendizagem pessoal do valor das coisas, a busca exigente daquilo que realmente gostava e aceitar pagar o preço, em dedicação e esforço. Ele conta, por exemplo, que escolheu frequentar minuciosamente um bizarro curso de caligrafia. Só dez anos mais tarde, quando inventou o revolucionário Macintosh, percebeu que esse conhecimento viria a ter uma aplicação preciosa. Como diz Steve Jobs, precisamos confiar que os pontos dispersos do nosso percurso se vão ligar e receber daí confiança para seguir um caminho diferente do previsto.
A segunda história é sobre o amor e a perda. Ele inventou com um amigo, na garagem da sua casa, um negócio que, em apenas uma década, passou a mover 2 biliões de dólares e 4000 empregados. E, precisamente, quando julgava ter alcançado o auge despedem-no. Impressionante é o modo como integra este golpe, depois de um primeiro atordoamento: «Decidi começar de novo. E isso deu-me liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida». A verdade é que ele se reinventa e volta à liderança da empresa da qual havia sido dispensado.
A terceira história é acerca da doença e da morte. E numa cultura que se recusa a encarar qualquer uma delas, Steve Jobs deixa um testemunho exemplar de sabedoria e humanidade: «A morte é muito provavelmente a melhor invenção da Vida…O nosso tempo é limitado então não o desperdicemos… Tenhamos a coragem de seguir o nosso coração». Por isso, a sua morte recente não nos obriga apenas a lembrar a revolução tecnológica que ele aproximou dos nossos quotidianos. Ela obriga-nos a arriscar “ligar os pontos” dentro de nós.
Pe. Tolentino Mendonça
(Agência Ecclesia, 2011-10-11)

Formula para o caos

É verdade. As medidas adoptadas pelo governo são de uma extrema violência. É verdade. Foi o actual governo e o actual Primeiro-ministro quem as tomou e por elas deverá responsabilizar-se, no que toca às consequências das mesmas. Mas não, não é verdade que seja o actual governo o causador da necessidade da tomada das medidas. O principal responsável foi aquele senhor que ostenta nome grego. Aquele senhor que agora querem julgar criminalmente. Não faz sentido. Querer punir criminalmente um responsável político, é sinónimo de ser apologista da desresponsabilização do povo. Em política, os julgamentos fazem-se nas urnas. Em Portugal, a memória é muita curta. No dia 27 de Setembro de 2009, duas vias, em todo divergentes, foram a votos. Uma venceu. O povo é soberano. No entanto, o povo também terá de saber viver com as consequências das suas decisões. Para ilustrar, de forma inequívoca, o que acabo de escrever, aconselho o visionamento deste vídeo:



Pedro Castelo Branco

16 outubro 2011

Rectificação

Como se poderá ver, o editor e dono deste estabelecimento enganou-se e publicou o Evangelho de Domingo que vem. Ele há dias, sabem...

JdB

30º Domingo do Tempo Comum


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.


Todos discutimos a igreja e as suas opções; discordamos das regras, das tomadas de posição deste ou daquele; interpretamos algumas passagens da Bíblia conforme nos dá jeito; debatemos quais devem ser as prioridades, o que é mais urgente ou mais importante; ajuizamos dos comportamentos dos outros e justificamos os nossos; falamos de todos, tantas e tantas vezes da pior forma; temos um grau de exigência moral e social que é muito mais exigente quando olhamos para fora do que quando olhamos para dentro. E etc., etc., etc.

A igreja católica confronta-se com desafios importantes, que farão seguramente parte da agenda de quem nos dirige espiritualmente. Mas todos nós, consagrados e leigos, somos desafiados àquilo que é fundamental - intemporalmente fundamental - e que se resume (passe o simplismo da expressão) aos dois amores referidos no evangelho de hoje: o amor a Deus e ao próximo.         


Amar a Deus é segui-Lo, é ouvi-Lo, é viver a vida de acordo com o que Ele nos ensinou. Amor o próximo é não o pisar, ser ético, promover a paz, ser justo, ter caridade com os mais fracos, ter bem presente a noção do serviço. A tarefa é tremenda, mas também ninguém nos disse que ia ser fácil...

Bom Domingo para todos.

JdB

***  


EVANGELHO – Mt 22,34-40
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo,
os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
reuniram-se em grupo,
e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem
toda a Lei e os Profetas».

15 outubro 2011

Pensamentos impensados


Imobiliária
Já vi vários letreiros a anunciar casas que estão à venda; uns dizem vende-se, outros vendo e ainda venda.
Falta-me ver vendo-me.
 
Mais imobiliária
Anunciam-se vendas de casas elogiando a vista: vista para o mar, para a serra, etc. Ainda hei-de ver um anúncio a dizer vista para a casa do vizinho. Seria um atractivo para um "voyeurista".
 
Obras
O célebre obelisco que existe em Washington, aquando de um tremor de terra ocorrido há pouco tempo, ficou  avariado na ponta. Será que vai sofrer obras profundas?
 
Pague 4 e leve 2
Pague 4 kilowats e leve 2 murros no estômago.
 
Traduções My Way
"A fancos", em inglês diz-se BI UÉRE.

SdB (I)

14 outubro 2011

Arte dos dias que correm (enviado por mão amiga)


Arte, abstracção, lirismo, criatividade .... um pouco do que melhor se faz em Portugal.
 

Este video é parte integrante do site www.leonoralvim.com

april and silence

tomas tranströmer:
poeta; nascido a 15 de abril de 1931, em estocolmo, suécia; prémio nobel da literatura, em 2011.


april and silence


spring lies desolate.
the velvet-dark ditch
crawls by my side
without reflections.

the only thing that shines
is yellow flowers.

i am carried in my shadow
like a violin
in its black case.

the only thing i want to say
glitters out of reach
like the silver
in a pawnbroker’s.


abril e silêncio

a primavera jaz desolada.
o carreiro de água escuro-aveludado
gatinha, a meu lado,
sem reflexos.

a única coisa que brilha
são flores amarelas.

sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

a única coisa que quero dizer
refulge de brilho fora de alcance,
como prata
num prestamista.


(tradução de GI)

13 outubro 2011

Vidas académicas

Chamava-se Raymond e adorava livros. Alto, magro, desengonçado, evitara o epíteto de rato de biblioteca porque mais parecia uma enguia. Fruto de desejo e capacidade, chegara a reitor de uma universidade famosa. De Pamela, com quem casara há 18 anos, tivera um filho tardio e inquietado por uma inteligência precoce. A sua cunhada Miriam, no final de um périplo pelo mundo, pedira-lhes acolhimento, desejosa de um ambiente mais burguês, longe das estações de comboio e dos cigarros que provocavam risos extemporâneos.

Raymond organizava, anualmente, uma conferência com colegas reitores de outras universidades locais. No final do ciclo de palestras decidia-se o tema para o ano seguinte. Os assuntos eram variados, misturando o sério e o lúdico: num ano debatia-se quanto e para onde se expandia o universo, no seguinte a contribuição do contacto físico para o aumento da longevidade. Tudo servia para uma discussão académica, porque sobre tudo se podem elaborar tabelas e congeminar estatísticas.

Na manhã da conferência, tradicionalmente aberta pelo reitor anfitrião, Pamela abandonou o lar sem que se soubesse o destino, o modo de locomoção ou o que teria destinado para o jantar. Raymond empalideceu, tartamudeou frases ininteligíveis e desarvorou, todo ele ornamentado por um enorme ponto de interrogação: quem, o quê, porquê, quando, onde?

O salão nobre enchera-se de agitação: reitores suspensos, moleskines abertos, mentes curiosas. No entanto, de Raymond nada se sabia, pois tinha vestido a pele de um cão pisteiro para seguir, talvez, o odor a finados da sua relação. A salvação estava em Miriam, pois só ela tinha acesso ao discurso escrito pelo cunhado. A jovem, munida de brio familiar, de uma boca sensual, e de pena por um cunhado que se pusera à estrada para assistir às suas próprias exéquias, aquiesceu em abrir o encontro.

Miriam subiu ao palanque de onde falaria a um grupo de notáveis, cérebros intelectuais dedicados à arte sublime do pensar - porque para agir há outro género de gente. Respirou fundo, percebendo o encanto que terá provocado o enchimento da sua caixa torácica, e falou com voz clara:

Como sabem, Raymond teve de se ausentar devido a problemas de força maior. Ofereci-me para ler o seu discurso de abertura. O tema proposto para este ano é...

Miriam olhou em frente e vislumbrou um lugar vago na segunda fila, onde se sentaria o secretário de Raymond, um jovem finalista com cabelo cor de cenoura, acne persistente nas faces e umas mãos de irrequietude exploratória. Percebeu de imediato o enredo, mas não lhe faltaram forças para projectar uma voz acutilante, porque há quem não se perturbe com a necessidade de silêncio dos povos:

O tema proposto para este ano é o seguinte: a infidelidade conjugal no mundo universitário. Causas e consequências. A gestão do drama e da euforia.


JdB

Novidades

Obedecendo a uma vontade de inovação do blogue, durante este mês daremos à luz (passe a metáfora maternal) duas novas rubricas. A primeira chamar-se-á Grande, grande era a cidade, título roubado a Fria Claridade, um poema de Pedro Homem de Melo. Falará de viagens, não na perspectiva de um guia michelin em versão paupérrima, mas no sentido da impressão que as diversas cidades / países / lugares deixaram em cada um dos convidados. O figurino é livre - até porque tenho poucas ideias... 


A segunda, liderada por JdC, o homem que do Zimbabwe nos fala sobre música, chamar-se-á ... (ainda não sei, confesso...) e versará o top ten de listas - simplemente listas - cujo limite será a imaginação humana, para além da decência dos costumes. Alguns exemplos que ilustram o que não consigo explicar: palavras mais irritantes, coisas de que mais gosto nos espanhóis (ou franceses, alemães, ingleses, brasileiros, americanos, etc., etc.,) ou pratos culinários, entre outras...


Aceitam-se sugestões, contribuições e seus derivados.


JdB


12 outubro 2011

Imagens dos dias que correm


Porque faz hoje anos...

Diário de uma astróloga – [10] - 12 de Outubro de 2011


Steve Jobs:  24 de Fevereiro 1955 – 5 de Outubro de 2011

Este blog publicou uma bela fotografia de Steve Jobs.  Gostaria de continuar a prestar-lhe homenagem.

Quando ouvi a notícia da morte de Steve Jobs,  apesar de saber que ele estava com um cancro do pâncreas, a minha reacção foi de incredibilidade. Este génio que modificou a forma como comunicamos e ouvimos musica foi-se… e agora?  Senti-me abandonada. E não devo ter sido só eu, porque não me lembro de ter havido uma reacção global desta proporção relativamente à morte de um CEO. Até as televisões do  metropolitano de Roma, que normalmente dão meteorologia, notícias de crimes passionais e escândalos Berlusconianos, no dia 6 de Outubro falavam de Steve Jobs quase ininterruptamente.  

É lembrado pelos seus produtos inovadores, pelas companhias de sucesso que fundou mas, também, porque criamos uma intimidade com ele. O conceito normal de marketing diz que o produto deve ir ao encontro dos desejos do consumidor.  Steve Jobs percebeu que o consumidor não pode desejar uma coisa que não existe e, através da sua intuição, deu-nos o que ainda não existia, mas que ele sabia que o mundo desejava. 

Além disso, por detrás da sua imagem com a camisola de gola alta preta andando para cá e para lá no palco durante a apresentação de novos produtos, sentia-se um ser humano de uma qualidade excepcional.

Isto é confirmado no discurso que fez na cerimónia de formatura da Universidade de Stanford em 2005. Para mim a parte mais bonita é a seguinte:

O vosso tempo é limitado, por isso não o desperdicem vivendo a vida doutra pessoa.  Não se deixem aprisionar por dogmas – que consiste em viver de acordo com as opiniões de outros.  Não deixem que o barulho da opinião dos outros abafe a vossa voz interior.  E, sobretudo, tenham a coragem de seguir a vossa alma e o vosso coração.  Eles já sabem o vosso verdadeiro caminho.  Tudo o resto é secundário.

Estas palavras, para a astróloga, soam maravilhosamente.  Sei que cada um de nós tem uma identidade própria, um propósito neste mundo, umas qualidades fundamentais que necessitam de encontrar expressão e de não ser apagadas por critérios familiares, sociais, culturais.

Steve Jobs sabia do que falava;  apesar do sacrifício que os seus pais fizeram para o mandarem para uma Universidade caríssima, desistiu ao fim de 6 meses e foi criar o primeiro Mac com o seu amigo Woz para a garagem dos pais.  Depois da Apple ser já um sucesso foi despedido da própria companhia que tinha fundado.  Mas, apesar de riquíssimo, não calou a sua voz de criador e inovador. Fundou a Next e o estúdio Pixar que revolucionou a animação em cinema. Voltou para a Apple e revitalizou a companhia com todos os “i” que existem hoje.

A carta do céu dele tem aspectos que ajudam a perceber a sua personalidade e a sua vida.


O Sol no signo de Peixes, juntamente com as suas outras características, deu-lhe a intuição para perceber o que o mundo queria.

Mercúrio,  símbolo da energia mental, está na casa 5 da criatividade e no signo mais inovador de todos, Aquário. Mais ao menos 4% da população tem esta disposição, mas o Mercúrio de Steve Jobs tem mais duas características que elevam a uma potência estratosférica. Está estacionário relativamente ao movimento aparente com a Terra e não tem nenhuma relação angular com outros planetas. Isto significa poder mental inovador no seu mais puro estado.

O planeta que simboliza força, determinação, Marte, está no signo onde melhor se exprime, Carneiro, e num grau (29º) que o eleva a uma potência superior.  Steve Jobs tinha uma vontade de ferro e não se deixou abater, primeiro pela falta de meios, e depois por ter sido afastado da Apple por incompetência como gestor.

Ele conta que já fora do currículo universitário, mas enquanto ainda andava a pairar pelo “campus”, tirou um curso de caligrafia.  Esta escolha não foi racional mas foi uma resposta à sua voz interior.  O conceito de estética minimalista e atenção aos detalhes de execução presentes na caligrafia chinesa aparecem em todos os produtos da Apple e são simbolizados na carta do céu de Steve Jobs por Vénus (sentido estético) em Capricórnio (sobriedade, minimalismo, perfeição).

Por ter tido a coragem de ser quem era, por ter ouvido a voz do coração, por todos os “i”, pelos macs, obrigada Steve Jobs.

Luiza Azancot



11 outubro 2011

Duas últimas


O post de hoje tem a respaldá-lo (do verbo respaldar, muito usado por gente de Coimbra) três razões:
- Gosto da música, razão que, por si só, seria bastante;
- É a única música que eu sei cantar (e lindamente, digo eu) no karaoke de Harare;
- Fala do Sol e diz que o Sol devolve sorrisos e derrete o gelo.
Enjoy it.
JdC


Exemplos dos dias que correm (enviado por mão amiga)


Textos dos dias que correm (enviado por mão amiga)


"Uma vez, disse don Pancrácio, Monteforte Toledo atirou-me para o regaço este enigma: um poeta perde-se numa cidade à beira do colapso, o poeta não tem dinheiro, nem amigos, nem ninguém a quem recorrer. Ainda por cima, naturalmente, não tem a mínima intenção, nem vontade, de recorrer a ninguém. Durante vários dias vagueia pela cidade, ou pelo país, sem comer, ou a comer desperdícios. E nem sequer escreve. Ou escreve com a mente, quer dizer, delira. Tudo indica que a sua morte está iminente. A sua desaparição, radical, pressagia-a. Mas, no entanto, o referido poeta não morre. Como se salva? Etc., etc., soava a Borges, mas não lho disse, já bastante o lixam os seus colegas acusando-o de plagiar Borges aqui, ou de o plagiar ali, se o plagia lindamente ou se o plagia às três pancadas, como teria dito López Velarde. O que fiz foi ouvi-lo, e depois imitá-lo, quer dizer, ficar em silêncio. E depois chegou um tipo para me dizer que já estava à porta do hotel a furgoneta para nos levar ao aeroporto, e eu disse está bem, vamos lá, mas antes olhei para don Pancrácio, que já tinha escorregado do tamborete e que me olhava com um sorriso na cara, como se eu tivesse encontrado a solução do enigma, mas é evidente que eu não tinha encontrado, nem percebido, nem adivinhado nada, e, ainda por cima, estava-me nas tintas, por isso disse-lhe: e qual era a solução para o problema que lhe apresentou o seu amigo, don Pancrácio? E então don Pancrácio olhou para mim e disse: qual amigo? Pois o seu amigo, quem quer que fosse, Miguel Ángel Astúrias, o enigma do poeta que se perde e que sobrevive. Ah, isso, disse don Pancrácio como se acordasse, a verdade é que já não me lembro, mas não se preocupe, um poeta não morre, vai-se abaixo, mas não morre."

Roberto Bolaño

in página 285 de "Os Detectives Selvagens" (4ª edição, Março de 2010, Teorema)

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