27 julho 2012

Ninguém é um deserto


    “ O que embeleza o deserto, diz o principezinho, é que ele esconde um poço em qualquer lugar…”
                      Saint-Exupéry – O Principezinho

Eis-me diante de ti
Vejo-te com infinita ternura! Vejo a aridez coriácea do teu olhar e percorro com os olhos bem abertos o teu corpo hirto como um tronco fustigado por uma grande tempestade!
Vejo as tuas veias dilatadas e sofro o teu modo afectado e brusco! Ouço as tuas palavras duras que ferem os meus ouvidos como punhais e penso que talvez por isso dizem alguns que és um deserto humano, seco e árido!
Mas agora esquece essa mancha que pesa sobre o teu destino. Estou diante de ti. Confia. Sou dos poucos que não te chamam deserto e, ainda que o sejas, acredita que tenho a fé do principezinho…
Por isso te digo: A tua maior beleza está- como no deserto-escondida no poço do bem, que tu guardas algures no peito e eu pretendo encontrar!
E todos nós, que procuramos esses poços, é porque temos sede!
Então, precisarás de ter a caridade de dar de beber a quem te procura por dentro. E porque todos nós procuramos incessantemente um oásis no deserto humano.
Se puderes, no teu oásis planta um girassol. Quando desponta o sol, vermelho como uma enorme bola de fogo, logo a planta sorridente se vira para ele, agradecida!
Ao longo do dia vai girando e despede-se igualmente virado para ele, quando o Poente se fecha numa cortina de fogo.
Vira-te para o teu ideal…Gira, pois, em redor daquilo que persegues, mas sempre como o girassol: aberto e dando a face!
Olha-me. Vê bem. Estou diante de ti.
NÃO ÉS UM DESERTO HUMANO!
Tens sido- isso sim- um terreno estéril, que esconde um oásis que ninguém até hoje procurou por entre os areais escaldantes da tua vida!
Conta comigo!

JC

26 julho 2012

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, I went last night to an intimate concert by the Texan country/folk singer-songwriter Nanci Griffith.
In song and in life she is a storyteller. Indeed sometimes her introductions to her songs seem longer than the songs themselves. But she is charming and engaging and honest and funny.
Her songs are about love and family and place, are personal and political. They may be true stories, either autobiographical or first-hand observations, other songs are fictions of imagination. She tells an anecdote about a fan who approached her to ask: "So did you write these songs or did you just make them up?"
Perhaps still best known for the earliest version of From A Distance, made globally famous later by Bette Midler, she has recorded some sublime albums of her own material and songs by artists who inspire her. Two of my favourite songs are presented here, the first written and co-sung by fellow American country writer John Prine, and the second by herself:

The Speed of the Sound of Loneliness


It's a Hard Life Wherever You Go 




I am a backseat driver from America
They drive on the left on Falls Road (Belfast)
The man at the wheel's name is Seamus
We pass a child on the corner he knows
And Seamus says, "Now, what chance has that kid got?"
And I say from the back, "I don't know."
He says, "There's barbed wire at all of these exits...
And there ain't no place in Belfast for that kid to go."

It's a hard life, It's a hard life, It's a very hard life
It's a hard life wherever you go
If we poison our children with hatred
Then, the hard life is all that they will know
And there ain't no place (in Belfast) for
These kids to go

A cafeteria line in Chicago
The fat man in front of me
Is calling black people 'trash' to his children
He's the only trash here I see
And I'm thinking this man wears a white hood
In the night when his children should sleep
But, they slip to their window and they see him
And they think that white hood is all they need

I was a child in the sixties
Dreams could be held through TV
With Disney, and Cronkite, and Martin Luther
Oh, I believed, I believed... I BELIEVED
Now, I am the backseat driver from America
I am not at the wheel of control
I am guilty, I am war,... I am the root of all evil
Lord, and I can't drive on the left side of the road
A proxima.
PO


25 julho 2012

Reedições e efemérides


Este estabelecimento completou, no passado dia 16, quatro anos de existência. Nasceu numa fase de mudança - pessoal e geográfica. Poucos dias depois embarcava para o Zimbabwe onde ficaria dois meses, naquela que foi a viagem que mais me marcou, por ser o tempo que era e por ser África, que eu praticamente não conhecia. 
O texto abaixo, intitulado A Filha do Tenente Francês, foi das minhas primeiras experiências neste tipo de croniquetas. Agora que faço o paredão diariamente volto a encontrá-la, diligente e fervorosa no seu terço matinal.
Obrigado a todos os que por cá teimam em passar, seja como colaboradores, comentadores, simples transeuntes. A moderna psiquiatria explicará o que vos motiva...

JdB

***

Era atleta especializada nos 20km marcha, fascinada pelo gingar do corpo, pela regra obrigatória do pé sempre assente no chão, pelo olhar - que alguns diriam quase esgazeado - com que se vislumbrava a meta. Herdara do pai, militar na Legião Francesa, o gosto pela disciplina, pelo espírito de sacrifício, por aquelas três palavras - Legio Patria Nostra - que o comoviam como mais nada.

Um dia, ao 18º quilómetro, num ritmo seguro e de campeã, assentou mal o pé. Deu um grito de dor, provocado por um ligamento que se estirava numa rotura sem retorno e por uma alma premonitória que lhe anunciava o fim da carreira. Tudo se consumou ao quarto dia, quando lhe disseram que podia guardar o equipamento, se isso não a corroesse de saudades. Falaram-lhe também de um possível coxear em permanência, resultado da gravidade da situação e da ausência de tratamentos modernos.

Foi então que conheceu um fisioterapeuta português com um coração de ouro e umas mãos de escolhido que, numa persistência que envergonharia qualquer atleta de alta competição, lhe recuperou o pé, eliminou o coxear, ensinou a virtude do toque em zonas para lá do tornozelo.

Cruzei-me com ela hoje no paredão, como já me tinha cruzado ontem, há dois dias, na semana passada, no mês de Junho. Posso garantir que o ritmo está cada vez melhor, o terço que percorre com as mãos agita-se mais, o mexer dos lábios vai num frenesim crescente. Apostaria que as suas orações acabam ao quilómetro treze quando na 2ª feira acabariam ao oito - sinal de que a velocidade se aproxima do que é possível, considerando a entorse de há 35 anos.

Quando chega a casa encontra o fisioterapeuta a esfregar as mãos - não só de contentamento, mas para as aquecer, porque ela se queixa que um percorrer frio lhe arruina o erotismo.

É a filha do tenente francês, porque aposto que a vida dela é esta. Se eu me cruzo com ela todos os dias, não havia eu de saber?

24 julho 2012

Duas últimas

Há tempos, numa conversa sobre viagens, perguntavam-me qual teria sido o melhor banho de mar - ou talvez a melhor praia - que já tinha experimentado. Respondi que tinha sido, seguramente, no Rio de Janeiro.

Tenho de reconhecer que não sou um globetrotter no que diz respeito a praias. A mais exótica onde estive, por assim dizer, foi na do Savane, nas margens do rio com o mesmo nome (Beira, Moçambique). Foi o meu único banho no Índico. Fora isso, apenas no Atlântico, Mediterrâneo mais interior, Marrocos, ilhas gregas, Madeira e Açores. Na Grécia, por sinal, tomei talvez o pior banho de todos: um mar parado e quente, propício ao nojo que provocam as águas que nos parecem estagnadas.

Fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1975. O meu contacto com o estrangeiro resumia-se, até então, a Londres, Badajoz e Madrid. O cenário não era brilhante, mas não era pior do que o de muita gente da minha idade e condição. Era o que era... Desembarcar no Galeão no dia 26 de Dezembro de 1975, sentir o bafo quente e húmido do Verão à chegada, quando tinha sentido o frio cortante do Natal à partida já se afigurava uma emoção. Ir no dia seguinte à praia, ao Leblon parece-me, e ver aquele areal imenso, o mar batido, o brasileiro falado, o requebro das moças, o chá mate servido em copinhos na praia, as sanduíches de ovo ao fim da tarde no Bob's assemelhava-se, para um jovem de 17 anos como eu, a uma antevisão do paraíso. A praia, para um viajante reduzido, europeu e urbano, era muito mais do que um banho fresco num clima quente - era uma experiência. Era uma excitação.

Hoje, em lembrança desse tempo, deixo-vos com Alfredo da Rocha Viana Filho, mais conhecido por Pixinguinha, um dos maiores compositores da música popular brasileira e que mais contribuiu para a consolidação e divulgação do choro. As interpretações são diferentes, todas superiores, mas o tema é o mesmo. Porque cada um de nós, homens, tem a sua rosa.   

JdB






23 julho 2012

Fórmula para o caos


O Bispo D. Januário Torgal, sem qualquer base argumentativa ou conteúdo credível, teceu duros ataques ao governo. Acusou-o de profundamente corrupto e que seria composto por Diabinhos Negros. As acções ficam com quem as toma. Porém, surge uma evidência. Como o governo é de direita, todas as críticas são bem-vindas, seja de quem for. Se o governo fosse de esquerda, logo apareceriam as alusões ao laicismo e republicanismo revolucionário. Seria uma interferência inaceitável por parte da Igreja Católica. Logo em Portugal, um Estado laico desde 1911. Seguramente que as evocações de Afonso Costa não mais paravam.

Em Março último foi editado nos Estados Unidos (ainda sem edição em português) o livro Why Nations Fail, escrito por Daron Acemoglu e James Robinson, professores de Harvard e do M.I.T., respectivamente. O livro explica qual o processo que leva ao falhanço das nações. Muito mais que questões culturais, demográficas, religiosas ou climáticas, é a qualidade das instituições o factor determinante. Para os autores, as nações que concebem instituições inclusivas, em que a todos é conferida oportunidade, trilham o caminho da prosperidade. Já as nações com instituições extractivas, onde uma minoria extrai recursos da maioria, enfrentam o fracasso.

Pedro Castelo Branco

22 julho 2012

16º Domingo do Tempo Comum


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

O texto de hoje atira-me para o conceito de férias, o tempo que todos ambicionamos para descansar, recuperar forças, fazer tudo aquilo para que não temos tempo durante o resto do ano. Até Jesus convida os discípulos para irem para um lugar isolado e descansar um pouco.

Da minha rede social de amigos ou conhecidos mais próximos constam desempregados com alguma duração, gente que passa por momentos profissionais difíceis, empresários com negócios muito lutados, assalariados com perda de regalias. Não há ninguém que não conviva com o drama, com a angústia ou com a preocupação. Para todos estes, a ideia de férias pode ser uma faca de dois gumes. Que condições há para irem de férias? Como se vive um tempo de ócio que pouco diferente é do tempo de negócio?  

Obviamente que desejo que todos gozem um bom tempo de praia ou de campo, no estrangeiro ou cá dentro. No entanto, as minhas palavras de hoje voltam-se para os milhares que não têm dinheiro, não têm férias, não se podem dar ao luxo de uns dias amenos esparramados ao sol. As minhas palavras de hoje voltam-se para todos aqueles, mais ou menos amigos, a quem a pergunta para onde vais de férias?, é uma faca incómoda e dolorosa que lhes entra no corpo, porque a resposta aparentemente correcta é que não se vai de férias quando não se trabalha o ano todo, não se vai de férias quando o dinheiro é escasso para o que é essencial.

Apesar disso, todos temos necessidade de encontrar um lugar isolado para descansar um pouco. Que o saibamos encontrar no coração de Deus, sabendo que ele não nos arranja empregos, oportunidades veraneantes, dias exóticos. Mas dá-nos, tantas vezes, forças para continuar, esperança onde ela parece não existir, uma luz que, ao fundo do túnel, não seja o comboio em sentido inverso.

Bom Domingo para todos. 

JdB   

****

EVANGELHO – Mc 6,30-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

21 julho 2012

Pensamentos impensados


Etíopes
Na comitiva da troika vem um abexim. Dado que as casas estão, muitas delas, penhoradas, será que veio, da Abissínia, em demanda do prédio do João.

Zoologia
Uma característica dos mamíferos é terem o corpo coberto de pelos; há aranhas com o corpo coberto de pelos; serão mamíferas?

Culinária
Para se fazer arroz de cabidela será necessário saber o tipo de sangue da galinha?

Atletismo
Dantes fazia tudo com uma perna às costas; agora, não faço quase nada.
Será que tenho as duas pernas às costas?

Progressão
a primeira ideia, segundo os seus planos, era ir para a ilha Terceira e alugar um quarto que não fosse nos quintos do Inferno, e ir na sexta feira ouvir os Sétima Legião a tocar um antigo samba " Oi  tava na peneira, oi tava peneirando" enquanto comia uma anona, que aliás já era a décima.

SdB (I)

20 julho 2012

Friday is a great day to fall in love.






Por entre os sons da música, ao ouvido 
como a uma porta que ficou entreaberta 
o que se me revela em ter sentido 
é o que por essa música encoberta 
acena em vão do outro lado dela 
e eu sinto como a voz que respondesse 
ao que em mim não chamou nem está nela, 
porque é só o desejar que aí batesse. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Nota: Na última fotografia, o senhor da direita (com barba e cabelo branco) é o meu avô, o meu querido querido avô que eu adoro. É das minhas pessoas preferidas no mundo!

18 julho 2012

Diário de uma astróloga – [30] – 18 de Julho de 2012



Ciclos astrológicos na vida das crianças

Os meus netos vêem passar férias na nossa casa e estão quase a chegar. E que pode uma avó astróloga fazer senão olhar para as cartas do céu respectivas e ver quais os ciclos astrológicos que estão agora activos  na vida deles? Estes ciclos têm reflexo no seu comportamento. Vou ter o prazer de reconhecer cada planeta, cada faceta astrológica. Vou também poder adequar as minhas respostas às suas exigências psicológicas e assim consolidar a minha relação com eles.

Alguns destes ciclos acontecem na vida de todos as crianças mais ou menos na mesma idade e é sobre estes que vou falar. Tenho seis netos – o mais velho faz oito anos em Agosto e a mais nova faz dois anos em Setembro, idades que compreendem as 3 influências principais objecto desta reflexão.

Pais e avós, professores e baby-sitters prestem atenção porque esta informação poderá ser-vos útil.

1. Retorno de Marte – por volta dos dois anos – A Isabel  vai estar nesta fase. Marte o planeta da afirmação, da independência, da autonomia está de volta na sua posição natal. Representa o primeiro reforço desta energia. É altura de grandes descobertas, de se sentirem capazes de explorar o mundo um pouco mais longe dos pais e aprenderem a dizer “não”. A dupla dose de Marte manifesta-se com birras mais frequentes porque em termos emocionais Marte é o planeta da raiva e da irritação. Nos Estados Unidos a frase “Terrrible two’s” – expressão leiga para designar o retorno de Marte, já entrou na linguagem corrente e talvez em Portugal se fale nos “Terríveis dois”.

Qual é a resposta ideal de um adulto perante uma criança sob o retorno de Marte?
·       Dar-lhe autonomia – deixar ou encorajar a que se vista sozinha, encarregá-la de pequenas tarefas caseiras, tipo ”vá buscar ou vá levar”.
·       Deixá-la explorar, afastar-se um pouco mais, deixá-la algumas fazer asneiras dentro dos limites da segurança.
·       Perceber que as birras, mais ou menos fortes conforme o signo em que se encontra Marte, vêm da frustração de querer mas ainda não poder. Esta época passa e o principal é não deixar que um conflito permanente se instale. Por vezes será necessário uma técnica de diversão para que o adulto não entre na guerra de vontades. Sim, porque Marte era o deus da guerra.
·       Com cada “não”  gozar o privilégio de assistir à formação de uma nova personalidade e, obviamente não ligar nenhuma aos ditos “nãos”, pois como dizia a minha Mãe “criança não tem querer”.
  
2. Oposição de Júpiter – entre os cinco e seis anos – Os gémeos, Alice e Oliver, estão nesta fase muito positiva. Júpiter, planeta do optimismo, da abundância faz um ângulo de 180⁰ com o Júpiter natal. A vida é fácil, a primeira classe ainda não começou, a personalidade já está esboçada, têm uma ideia do que gostam fazer e aqui vai disto…. Perdem a noção de limites, tornam-se mais arrojados e, se outros aspectos da carta assim indicam, sobreavaliam as suas capacidades.

A única resposta possível para o adulto é estar vigilante para intervir quando os limites da segurança estiverem prestes a ser ultrapassados, mas mesmo assim convém ter água oxigenada e adesivos à mão. Não vale a pena dar lições de moral sobre o excesso de optimismo, porque o próximo ciclo planetário se encarregará disso mesmo.
  
3. Quadratura de Saturno – entre os sete e oito anos – O Tomás e o Teddy estão nesta fase. Saturno, o planeta da realidade, dos obstáculos, da responsabilidade faz o primeiro ângulo significativo consigo próprio. Adeus às facilidades de Júpiter, aqui está a energia oposta, Saturno. A escola não é só uma brincadeira, há que fazer os trabalhos de casa, a vida torna-se mais difícil e ainda por cima os dentes de leite caem. Deixam de ser “amorosos”, a noção de que as coisas não duram para sempre começa a entrar nas suas cabecinhas e também a noção de consequências: o que está feito, está feito, e é preciso encarar os resultados. Nesta época ouve-se muito a frase “mas não é justo…” ou no caso dos meus netos anglófilos “it is not fair…”. Pois não, mas a vida é assim. 

Como adulto ajude a criança a enfrentar a vida como ela é e ensine-lhes que o esforço é premiado, que ter objectivos e conseguir cumpri-los é importante, quer seja praticar 10 minutos de violino por dia (Teddy) ou acabar a cidade de Legos (Tomás).

O Zach (6 anos), ao qual não se aplica nenhum destes ciclos,  porque Júpiter já passou da oposição e Saturno ainda não entrou na quadratura,  temo que se vá juntar ao grupo dos super confiantes  uma vez que tem o trânsito de  Júpiter em conjunção com o Sol natal.

Vou comprar mais adesivos!
  
Luiza Azancot

17 julho 2012

Duas últimas


Desde que me lembro, sempre fui bastante regrado e propenso a rotinas, pessoais e profissionais, que cumpro com rigor e denodo. Se por infeliz acaso as ditas me começam a falhar, seja por que motivo for, logo se instalam a desorientação e o nervosismo, para meu mal e daqueles que me têm de aturar. Só há descanso quando a ordem normal das coisas é restabelecida. E verifico com algum temor que, com o passar dos anos, a evolução nesta matéria não me parece animadora!

Há naturalmente regras e regras, rotinas e rotinas. Há aquelas de cujo eventual incumprimento não virá grande mal ao mundo e as que, nessa infeliz eventualidade, nos podem trazer grandes amargos de boca e outras consequências que tais. Há as que cumprimos com prazer e demora e as que ansiamos por que se cumpram depressa e se possível bem e sem repetição. E as que temos de cumprir sozinhos, quantas das vezes em penoso sofrimento, e aquelas em que podemos contar com uma ajudinha alheia sempre bem vinda.

E, mais a sério, há que manter e desenvolver “regras de vida”, meios de aperfeiçoamento da pessoa, procurando no quotidiano combater defeitos, mudar atitudes e hábitos arreigados e cultivar virtudes em que tantas vezes não passamos da intenção, contribuindo para um maior bem estar e felicidade, desde logo do próprio e em consequência daqueles que lhe estão mais próximos, para assim, acredito, melhor responder à vontade de Deus. Claro que esta é matéria difícil em que falho todos os dias. Tenho no entanto o privilégio de ter quem regularmente me vai lembrando estas coisas e, por isso, também menos espaço para desculpas…

A regra que vos apresento hoje é de somenos: sair depois do jantar para um passeio de 20 minutos no bairro de ruas empinadas e mal calcetadas onde moro, pois é sabido que sem corpo são nada feito. Procuro “arrastar” a minha cara-metade nestas andanças, mas nem sempre os meus argumentos são mais convincentes do que aqueles que lhe dizem para ficar por casa. Em resumo, muitos passeios começam e acabam à conversa com os botões próprios. Num deles, numa praça próxima numa noite de Junho, deparei-me com este grupo.

Simpatizei com o vocalista, excelente comunicador, gostei do ritmo e achei as letras engraçadas e apropriadas para os tempos que vivemos. Por tudo isso, aqui estão 2 músicas dos Anaquim, que espero que também apreciem.


fq






16 julho 2012

Vai um gin do Peter’s?

Já a pensar nos preparativos para férias, há um livro do António Pinto Leite que poderá ser útil entrar na bagagem, nem que seja pela originalidade do tema: «Amor como Critério de Gestão»(1). Editado, há dias, pela Principia, soma a vantagem do tamanho pocket. Antes de saltar para os Monty Python, no final do gin, explico melhor o interesse do livro: 
Convenhamos que o amor até joga bem com bastantes temas, mas esticará até ao mundo empresarial? E logo como critério  de gestão? Bom, se nos lembrarmos que no âmago da gestão encontramos pessoas, talvez comece a fazer, vagamente, sentido. O mais curioso, ainda assim, é a postura arejada e profissional do autor, que não desvaloriza nada a importância dos resultados, i.e., da produtividade e dos lucros, compatibilizando-os com a realização pessoal de cada colaborador. Mais: concebe-os como objectivos convergentes e complementares. Numa entrevista dada por ocasião do Congresso da ACEGE (1-2 de Junho), Pinto Leite lança o mote da tese desenvolvida no livro e amplamente debatida naquele encontro(2) sobre esta invulgar, mas possível e desejável, conciliação de propósitos.


Consciente da ousadia da proposta, o entrevistado explica o seu ponto de partida: «(O amor) é o critério de liderança mais exigente que conheço, para o próprio líder e para os outros. (…) Pessoas felizes fazem empresas produtivas, empresas produtivas fazem uma economia competitiva e uma economia competitiva é a base de uma sociedade justa. O amor não é um intruso na competitividade empresarial, é o seu maior aliado.»

Não hesita em expor as vantagens:
- «Falamos de amor para tornar a economia mais competitiva e a sociedade mais justa.»
- «(O amor na gestão) prevalecerá como critério facilitador das decisões empresariais e profundamente pacificador para tantos homens e mulheres de boa vontade que empreendem e têm responsabilidades nas organizações. (…) A novidade desta reflexão é trazer os concorrentes para dentro da nossa responsabilidade.»
- «(A) vocação central dos homens de boa vontade deve ser o acolhimento recíproco e a compreensão de que o amor é o ponto de encontro que a todos permite contribuir para o bem comum, caminhando cada um no silêncio do seu mistério.»
- «Temos ainda dois factores a nosso favor para resistir com esperança e pensar positivo: primeiro a globalização (…) oportunidade espantosa para um pequeno povo que fica com o mundo inteiro à sua disposição.»

Também não se esquiva às óbvias resistências e objecções que o tema provoca:
- «Falar de amor no mundo dos negócios pode parece de um idealismo vão, ridículo ou inoperacional. Mas não é. Significa tratar os outros como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles.»
- «O confronto do amor com a economia e com, as empresas é um confronto improvável. (…) Ainda bem que (o tema) traz consigo um ideal do Homem, um ideal de empresa e um ideal de vida. Um dos males do mundo é, precisamente, o excesso de objectivos e a escassez de ideais».  



Não se pense que as ideias aprofundadas no Congresso vaguearam num limbo sonhador e idealista, onde é fácil esgrimir chavões pueris e algo deslocados da realidade. Curiosamente, esboçaram-se soluções concretas, como por exemplo o pagamento atempado dos serviços adjudicados a terceiros. Bem sabemos quanto estes atrasos são mortíferos para a maioria das PME. O antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, chamou-lhe, sugestivamente, «A ética de quem honra compromissos», para acentuar a urgência em injectar valores humanos na economia.


Lapidares também, as palavras dirigidas por A.P.Leite ao Primeiro-Ministro, no discurso de abertura do Congresso: «O Senhor tem um grande povo atrás de si. Não somos gregos com mais juízo, nem queremos ser alemães com menos método. Somos Portugal, uma nação que quando se concentra e se organiza, vence sempre e sempre mais depressa do que os cépticos profetizam.»
Até se arriscou a ampliar o amor a outras áreas, onde parece não ter lugar – na política: «Mais impressivo do que os políticos não falarem de amor aos seus povos, é os povos terem interiorizado que não é suposto serem amados pelos políticos que escolhem para os governar. É uma patologia profunda da democracia moderna…»
Os títulos apelativos de várias das intervenções explicam bem a atitude positiva de muitos dos empresários participantes: «O valor económico do amor», «Desenvolvimento humano integral com base na verdade», «O homem, ‘uma razão dilatada’ que decide», «O homem, ‘um coração que vê’», «Uma economia aberta ao princípio da gratuitidade», «Da fraternidade ao bem comum».

UM OUTRO DESAFIO, q.b. NA ORDEM DO DIA

Numa disputa de ideias igualmente inovadoras, os fantásticos Monty Python propõem um ajuste de contas com a história, através de um despique delicioso entre dois tempos e duas mundividências. De um lado, a Antiguidade Clássica helénica. Do outro, o período áureo do Iluminismo e da Revolução Industrial. Uma personificada pela Grécia antiga. A outra pelo rol de grandes filósofos germânicos, desde o século XVIII até ao limiar do XX. O palco é o relvado verde do futebol, num estádio vibrante de fãs, para um derby antológico: Germany vs Greece.
Entre os treinadores, fiscais de linha e outros agentes do mundo do futebol, aparecem outros filósofos de referência, como Confúcio, Sto. Agostinho ou S.Tomás de Aquino.  A entrada em campo da equipa ateniense, com as longas vestes do tempo de Platão e Aristóteles, soleniza lindamente o momento marcante que ali se vive. Mas as peripécias sucedem-se: os jogadores germânicos entram em campo de cartola na mão, o reivindicativo Nietzsche recebe um cartão amarelo por ser impertinente com Confúcio, Kant alega que tudo apenas existe na imaginação, Marx faz uma entrada triunfal, a meio do jogo, para substituir Wittgenstein. A expectativa suscitada pela chegada espalhafatosa deste gigante com cabeleira de Sansão, dá um retrato perfeito de tantos políticos da actualidade, supostamente carismáticos e pomposos, de quem se tende a esperar mundos e fundos. Um puro equívoco, a mais das vezes. 
Claro que o actual desaguisado entre a Merkel e a Grécia tem feito correr este sketch na net, tentando lembrar os méritos da cultura helénica para a Europa. Mas esquecem-se que o filme foi uma encomenda alemã, de 1972… Repetiu-se a mesma azáfama na net, durante o Euro, a propósito do jogo entre a selecção alemã e a grega, novamente a desvalorizar a origem do filme, concebido para as Olimpíadas de Munique, em 1972, onde foi visionado, fazendo prevalecer, simpaticamente, a nação de origem dos Jogos, enquanto se parodiava com a nação-anfitriã, nos anos 70. Quem diria que a história daria tantas voltas… e as disposições de há 40 anos tinham feito uma inversão de 180º para tanta gente!



THE PHILOSOPHERS’ FOOTBALL MATCH

Concluir com os Monty Python é dos melhores arranques para férias.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
________

(1) 

(2) Seguem-se citações da entrevista e do discurso proferido por Pinto Leite na abertura do Congresso. No site da ACEGE podem ser consultadas várias das apresentações: http://www.acege.pt/index.aspx.

Acerca de mim

Arquivo do blogue