12 maio 2014

Vai um gin do Peter’s?

Uma pequena mostra do tesouro acumulado pela corte dos Romanov (a partir de 1613) e da dinastia de Rurik que os precedeu, está patente na Gulbenkian, até 18 de Maio: «OS CZARES E O ORIENTE: Ofertas da Turquia e do Irão no Kremlin de Moscovo»(1).


As 66 peças em exposição são expressivas do gosto de duas das grandes civilizações orientais: a Otomana e a Persa no período safávida, nos séc.XVI e XVII, onde o relacionamento com a Rússia era cultivado ao detalhe para contrabalançar o relacionamento tenso e conflituoso com a Europa, sobretudo pelo lado da Turquia. Nada como as trocas comerciais para aproximar os povos e criar um clima amistoso. O intercâmbio de presentes entre as várias cortes imperiais, as visitas de cortesia dos Embaixadores para selar as alianças político-económicas deram origem à colecção de preciosidades, disponíveis aos milhares nos depósitos do Museu do Kremlin. A Portugal foi cedida uma parcela ínfima. Parece que quem da Gulbenkian se deslocou a Moscovo para ver a totalidade do património, ficou maravilhado e, simultaneamente, atordoado com a arrumação densíssima das peças, mal deixando reconhecer a beleza individual de umas e de outras.

Em contrapartida, na Fundação, gozam de condições expositivas excepcionais, com um enquadramento arquitectónico a fazer sobressair cada obra, per se, deixando-a respirar. O jogo de espelhos, a transparência das vitrinas de vidro no meio da sala, as paredes em redor vazias e em negro para criar um fundo neutro de realce dos muitos brilhos dos artefactos expostos, ou os focos luminosos a incidir apenas sobre o que está exposto, produz um efeito esplendoroso, como se tivéssemos entrado no interior de um estojo de jóias gigante. 

Tecidos, armas, ourivesaria, objectos e vestes de aparato, utensílios do quotidiano da vida cortesã dão uma ideia da magnificência das civilizações a que pertenceram. Vários dos têxteis provêm da Colecção Gulbenkian, como a capa de cavalo turca, posteriormente bordada na Rússia e exposta no átrio do Museu.

As 4 mini-secções temáticas ajudam a caracterizar os 200 anos em foco. Mal se mergulha na penumbra da sala, somos surpreendidos pelo ícone de Nossa Senhora do Leite (séc.XIV), cravado de pedrarias lindas sobre um revestimento de ouro a contornar a imagem da Mãe com o Menino ao colo. São sempre uns Meninos muito acordados os que posam na iconografia ortodoxa.


Note-se que «Icon of the Mother of God» é a tradução directa da denominação russa, menos dada às invocações marianas e aos títulos particulares que proliferam nas figurações ocidentais. 

I – HORDA DE OURO
Reúne peças de épocas mais recuadas, dos séculos XII e XIII, trazidas da Mongólia para a Rússia, na vaga de conquistas do Grande Khan. «Horda de Ouro» corresponde à expressão russa para referir a sumptuosidade da tenda onde se abrigava o quartel-general itinerante do conquistador. A ofensiva mongol acabou por aglutinar um vasto território de principados russos, dos búlgaros do Volga, dos persas e dos gregos, convertendo-se depois, habilmente, em plataforma mercantil entre o Extremo Oriente, a Ásia Menor e o Ocidente. A prosperidade económica da região favoreceu a simbiose entre as culturas orientais em contacto, como o demonstra a mistura de estilos nas peças emprestadas a Portugal.

II – IRÃO NO PERÍODO SAFÁVIDA
Confirmando os interesses comerciais comuns na partilha das rotas do Mar Negro ao Cáucaso, do Volga ao Cáspio, as embaixadas entre a Rússia e o Irão multiplicavam-se, recheadas de tesouros para selar as alianças estratégicas das potências asiáticas, muito ciosas a demarcar a sua zona de influência face às soberanias europeias, a iniciarem a constituição dos impérios ultramarinos. 
Gerindo equilíbrios mais amplos, russos e iranianos procuravam também manter uma convivência cordial com o Ocidente, evitando o empobrecimento das posições isoladas no xadrez geoestratégico global. 


Mini reportagem da SIC Notícias com entrevistas à Directora do Museu do Kremlin e à Comissária da exposição na Gulbenkian:


III – A TURQUIA OTOMANA
Desde os primórdios da formação do estado turco, no final do século XV, que a Turquia valorizou sobremaneira as relações diplomáticas com o seu grande vizinho euro-asiático, organizando visitas de Estado com poderosos séquitos compostos por representantes das finanças e do comércio e os altos dignitários religiosos com a presença dos próprios patriarcas ortodoxos, para além dos líderes políticos. Assim, os Czares foram obsequiados amiúde com ricas manufacturas preparadas nos melhores ateliers da capital – Istambul – ao longo dos séculos XVI e XVII. O facto é que durante aquele período, a Rússia recusou sempre integrar as alianças europeias anti-turcas, que bem a assediavam para obter os seus favores.

Nos objectos expostos, curiosamente, o relógio de bolso com esmalte e embutidos, datado de seiscentos, reveste um mecanismo de Genebra, provando o notável avanço do Ocidente a nível tecnológico.
Mecanismo relojoeiro suíço (séc. XVII) enriquecido por invólucro turco com ouro e gravuras em esmalte

O Império otomano apreciava enormemente as artes, mantendo uma vida cultural intensa, igualmente benéfica para a ourivesaria e joalharia, muito do gosto turco. As diferentes etnias reunidas no território do novo Estado contribuíram também para a diversidade do estilo artístico nacional.   

Objectos vindos da Turquia, usados pelo Kremlin como adornos nos actos oficiais,
em cerimónias religiosas e em campanhas militares.


Eloquentes do requinte dos ourives turcos. 

Peças de aparato para exibição do poderio bélico em paradas militares.

IV – A RÚSSIA DOS CZARES
As mercadorias e as ofertas turcas e persas sinalizam os tempos de intercâmbio pacífico e fecundo com Moscovo, influenciando a arte russa e consolidando as políticas de cooperação. Vários dos originais que chegavam aos domínios dos Czares eram, depois, enriquecidos pelos artífices dos Romanov, acrescentando a uma base já de si minuciosamente trabalhada e cintilante, o fulgor sofisticado da corte russa. Sobretudo nos têxteis e tapeçarias as apropriações e personalizações foram frequentíssimas.

Nada como uma boa exposição para viajarmos no tempo, explorando épocas remotas que, através da arte, melhor nos cativam e interligam com outras gentes, proporcionando uma comunhão incrível entre gerações de séculos e geografias bem distantes.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________

 (1) http://www.gulbenkian.pt/Institucional/pt/Agenda/Exposicoes/Exposicao?a=4668

11 maio 2014

IV Domingo da Páscoa

EVANGELHO Jo 10, 1-10

@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta,
mas entra por outro lado,
é ladrão e salteador.
Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
O porteiro abre-lhe a porta
e as ovelhas conhecem a sua voz.
Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora.
Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem,
caminha à sua frente
e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz.
Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele,
porque não conhecem a voz dos estranhos».
Jesus apresentou-lhes esta comparação,
mas eles não compreenderam o que queria dizer.
Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo:
Eu sou a porta das ovelhas.
Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores,
mas as ovelhas não os escutaram.
Eu sou a porta.
Quem entrar por Mim será salvo:
é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.
O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.
Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida
e a tenham em abundância».


***



Comunicar a vida que vem de Cristo

Nestas palavras, Jesus resume a sua vida: “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância” – não uma vida qualquer ou uma vida que acaba, mas uma vida abundante…uma vida preenchida pela vida de Jesus oferecida por todos e por cada um. É uma alusão magnífica que nos deve levar a reflectir sobre o que é a catequese. A catequese não pode reduzir-se a uma transmissão quantitativa de conhecimentos de natureza religiosa e bíblica. A catequese é uma transmissão de uma vida oferecida! A catequese pode traduzir-se por “eco”. Existem dois momentos na transmissão desta vida que vem de Cristo. O primeiro momento corresponde sempre àquilo a que os primeiros cristãos chamam de “anúncio”, ou seja, o anúncio essencial sobre da Páscoa de Cristo: Jesus venceu a morte! Mas este anúncio tem de ecoar, precisa de ser desdobrado num segundo passo… nessa altura, surge a catequese. A catequese é fundamental, por isso mesmo, como eco de uma vida! A grande catequese é a vida recebida de Jesus e depois transmitida.


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 120-122.

10 maio 2014

Pensamentos impensados

Daltonismo?
...o alvo a abater era um preto.
Mau, em que ficamos? Era preto ou era branco?
 
Grossuras
Vi na TV um documentário sobre elefantes embriagados.
É o que se chama caça "grossa".
 
Jornalismo
Os media, na altura, diriam: Caim, alegadamente, matou Abel.
 
Linguajares
O Brasil não é PALOP é PALAP, ou seja, País Americano de Língua Artificial Portuguesa.
 
É grave
Odeio a gravidade; está sempre a tirar-me coisas da mão com a única finalidade de as atirar ao chão.
 
Poesia
Tudo leva a crer que foi Adão o autor do tocante verso Quem não tem mãe não tem nada.
 
E345 E267 E232 è de cetra
Há montes de "alimentos" com sabor a.
Que saudades do pão com sabor a pão.

SdB (I)

09 maio 2014

Crónica de um amor quase perfeito



Isto podia ser uma crónica,
Um texto,
Um tempo verbal,
Um história,
Um amontoado de conjugações em pretérito mais que perfeito que explicassem o nosso quase beijo,
O nosso quase amor,
A nossa fotografia não revelada,
A nossa quase história.
Não tive a valentia de ser por inteiro,
Dei-te metade de mim,
Só metade.
Fica esta música como memória de um amor que quase fomos,
Subimos uma montanha a meio,
Atravessamos um rio sem chegar à outra margem.
Fica uma música sem refrão,
Um conto sem fim,
Um era uma vez sem história.
Quem sou eu para julgar-te,
Se fomos só um quase.

(Fotografia e texto de TdB)

08 maio 2014

Dos desequilíbrios

Póvoa e Meadas, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

O mundo não é mais do que o equilíbrio, temporariamente instável, de acções e reacções, de forças contraditórias e opostas, sendo que tudo se anula para que a esfera terrestre continue levemente achatada nos pólos, com partes desiguais de água e terra. O grande desafio é acreditarmos que o mundo se traduz, numa escala infinitamente mais pequena, naquilo que nós somos. Mesmo que não saibamos o número de forças que se digladiam internamente, há quem creia que ele é em número par, para que todas as nossas descompensações se ajustem. Há vidas globalmente equilibradas mas feitas de desequilíbrios – humores, feitios, opções, caminhos traçados. Há os excêntricos, os fora de centro, nos quais se nota essa desarmonia. Qual a diferença entre uns e outros? Não o número de forças que cada um contém dentro de si, mas o facto de serem em número impar ou em número par.

Alfredo Macuti in Fragmentos (não publicado)

***


O texto acima revela-nos uma premissa errada, ao afirmar que somos o reflexo do mundo. O que falha na frase? O alinhamento das palavras, mais coisas menos coisa. Em bom rigor, o mundo é o reflexo do nosso corpo e alma, é uma consequência da humanidade e da sua generosidade, cobiça, sentimentos de ira ou de pacificação, invejas e criatividades artísticas. Mas o mundo é também um reflexo menos óbvio das nossas lutas interiores que geram terramotos, chuvas ácidas, tempos amenos, outonos nostálgicos, vendavais ou nevões ou secas persistentes. A Terra não é mais do que o Homem, na sua composição dual de matéria e espírito, elevado a uma potência enorme. O mundo nas suas guerras, meteorologias, influências clientelares, generosidades imensas, disparidades é, de facto, o melhor espelho do ser humano.

Na termodinâmica, a entropia está vulgarmente associada à quantidade de ordem, desordem e/ou caos num sistema; quanto maior a entropia, maior a desordem. Diz a 2ª lei da termodinâmica: a quantidade de entropia de qualquer sistema isolado termodinamicamente tende a incrementar-se com o tempo, até alcançar um valor máximo. A conclusão é imediata: a entropia do universo tende para um máximo. Podemos criar ordem num certo ponto do universo mas, para que o equilíbrio global se mantenha, a desordem surgirá noutro ponto.

Recuperemos então o raciocínio inicial: o mundo é o espelho do ser humano, pois cada um de nós é um universo: gente gorda, elegante, de cabelos ruivos ou asa de corvo, com apetência para as matemáticas ou para as artes, generosos ou violentos, com apreço pelas novelas ou pelo novo cinema turco, por Eça ou Corin Tellado, pela companhia das índias ou naperons bordados a três dimensões. E só existe entropia no mundo porque existe entropia no nosso interior – vísceras e coração. O mundo, na sua imensidão geográfica, meteorológica, humana, é uma cópia ampliada do camponês da tundra, do lorde inglês, do rapaz maubere, da mulher casaque, do índio quechua. Todos eles, na sua diversidade de línguas e hábitos, tendem para a entropia máxima.

Retomemos o excerto de Alfredo Macuti. O nosso desafio individual é o de identificar os desequilíbrios internos. Mais do que saber quais, é saber quantos. Mais do que reconhecer o gosto desmesurado pelo jogo ou pelas substâncias nocivas, a facilidade do grito ou do estalo, o excesso de dispêndio financeiro ou a sua inversa, cabe-nos o exercício da contabilidade mais comezinha: qual o número daquilo que em nós é excesso?

Não me havendo atirado nunca à estatística ou análise mais detalhada destas coisas, arrisco uma certeza: todos os nossos desequilíbrios são em número impar, pelo que volto a discordar do texto com que arranca esta divagação. Se dizemos de nós próprios que somos excessivamente avaros e excessivamente humildes e que, com esse deve-haver nos equilibramos, é porque estamos desatentos e nos falta o discernimento sobre o terceiro. A seca na Bolívia não se equilibra com a chuva persistente na Ucrânia, pela simples razão de que houve um terramoto na Islândia que não foi equilibrado com algo de sentido contrário no ponto inverso do mundo.  

Estamos assim num permanente desequilíbrio – como está o mundo, afinal. As forças que se digladiam dentro de nós são imorredouras enquanto nós o formos também. Acompanham-nos na singeleza da nossa vida diária, nas grandes opções que duram uma vida, na forma como olhamos para os outros e lhes estendemos uma mão aberta ou um punho fechado. Por mais que pensemos e desejemos, achando que um pensamento profundo afecta uma existência, somos sempre um número impar em nós. Cabe-nos descortinar o único artifício gratuito, eterno, inesgotável que torna tudo par. Já o encontrei, falta-me apenas tudo o resto.

JdB   

07 maio 2014

Diário de uma astróloga – [77] –7 de Maio de 2014


Cerimónia da Pedra Angular  

Pela primeira vez na vida vamos construir uma casa. O meu marido e eu remodelámos e fizemos obras em diversas casas, mas construir num terreno vazio é uma experiência nova para ambos.

Na segunda-feira passada, dia 5 de Maio, às 9h e 30m, assinalámos o início da construção da nossa futura casa com uma cerimónia de colocação da primeira pedra, ou pedra angular, para a qual convidámos alguns amigos, o arquitecto, o construtor e outros colaboradores deste projecto.

O dia e a hora foram escolhidos astrologicamente. A Lua estava em Caranguejo, signo que mais se identifica com a noção de casa, de lar. Júpiter, o planeta da facilidade e da expansão está também no mesmo signo (26/7/2013 – 16/07/2014), mas a hora revela o aspecto mais importante para o simbolismo do momento: Júpiter estava prestes a erguer-se no horizonte.


Esta cerimónia de colocação da primeira pedra tem origens na Antiguidade mas tem sido regularmente utilizada em certas culturas, sobretudo nos edifícios religiosos e públicos. Talvez a mais famosa tenha sido a que se realizou a 18 de Setembro de 1793, quando George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos da América e Grão Mestre da Maçonaria, colocou a pedra angular no edifício do Capitólio na cidade de Washington.


A nossa casa não tem semelhanças nenhumas com o Capitólio, a não ser o simbolismo astrológico do momento escolhido. Nesse dia e a essa hora, também Júpiter estava a erguer-se no horizonte. 

Como se vê no quadro que imortaliza o acontecimento, os três ajudantes, vestindo o avental “maçon”, têm na mão os elementos que vão ser utilizados na cerimónia: cereal, vinho e azeite.

Além da pedra e destes três produtos cuja escolha tem origem romana e que representam a subsistência essencial à vida, juntámos uma concha branca de uma vieira que, na tradição dos Orixás da Baía, significa serenidade espiritual.


A pedra e estes produtos foram enterrados no canto nordeste do terreno. A nossa intenção ao escolher este canto é unir o Norte com o Leste, a direcção onde o Sol nunca se encontra com a direcção que o vê nascer, a escuridão com a luz.

Mas a nossa intenção principal é honrar o momento, prestar homenagem à nossa vida de casal que nos permite estar juntos neste projecto e também invocar as melhores energias para a sólida construção da casa e para os anos que hão-de vir a ser vividos dentro desta morada.

Luiza Azancot

06 maio 2014

Duas últimas

Domingo de tarde fui com família e amigos ver o Estoril - Belenenses, tendo ambas as equipas empatado a um golo. Penso que à equipa de Belém, numa angústia de descida de divisão, só a vitória interessava. Estiveram perto: a ganhar por um a zero, e a jogar contra dez, falharam um penalty e a desmoralização invadiu e minou o garbo azul. Num instante estavam empatados, reduzidos também a dez unidades, na iminência de sofrer mais um. 

Dois factores importantes me impedem de classificar o futebol jogado: não percebo nada da poda e sou muito amigo de alguns adeptos do clube do Restelo. Restou-me, durante os noventa minutos em que estive cara al sol a ver vinte e dois cavalheiros atrás de uma bola, fixar os aspectos sociológicos de uma partida de futebol: as transfigurações dos espectadores, o palavreado, as instruções que se gritam para campo numa esperança vã de obediência do médio-ala, a gesticulação, a partilha de opiniões e, por fim, a irmandade no infortúnio e a concordância na irritação. Os insultos variaram, proferidos entre gente que me é próxima, entre o ca**** e o mentecaptos

De noite jantei (também) com brasileiros, e falou-se da Argentina, das rivalidades vizinhas, da presidente da república, do facto de não valer muito a pena ir agora a Buenos Aires que tudo está pela hora da morte. Falei de tangos - e tive saudades de tangos, un sentimiento triste que se baila.

Deixo-vos com uma milonga e um tango. Apreciem e digam-me se não é a melhor música do mundo. Se é para dizerem que não, mais vale estarem sossegadinhos no vosso silêncio.

JdB

     


05 maio 2014

Textos dos dias que correm (ainda actuais)

Acho que sobrevivi à vaga celebrativa dos '40 anos' que quer fazer do golpe de Estado do MFA e da balbúrdia que se lhe seguiu uma espécie de nova Revolução Francesa de gloriosas proporções. Para alguns - pasme-se - o maior acontecimento da história de Portugal!

Talvez porque o estado crítico do país não justifique celebrações, os partidários e simpatizantes de Abril esforçaram-se ainda mais por enaltecer-lhe os méritos: além de demonizarem o 'fascismo', procuraram exaltar os sucessos da III República, que só não irá tão bem - é a mensagem subliminar ou expressa - por causa da austeridade imposta pelos 'governos de direita', oportunamente assimilados ao 'fascismo', derrubado há 40 anos.

Além de não se poder abrir uma gazeta sem deparar com legiões de antifascistas das mais legítimas e variadas cepas e com uma vaga editorial requentada de petite histoire revolucionária, alguns capitães ressuscitaram dos almoços da Associação do 25 de Abril, para lembrar que são os donos da revolução, da democracia e do regime.

Mais subtis e modestos, outros patriotas sublinham a liberdade como o produto da efeméride. A liberdade e a democracia seriam os frutos de Abril, os únicos.

Pois que sejam. Mas não foi bem assim, ou não foi logo assim: as decisões mais importantes e condicionantes do futuro do país foram, há 40 anos, tomadas por colectivos pretorianos anónimos e pelos seus inspiradores e cúmplices civis, sem qualquer consulta popular ou deliberação democrática.

A descolonização não passou de um abandono puro e simples que vitimou não apenas os portugueses de África, mas também os povos que os governos provisórios de Lisboa deixaram herdeiros de longas guerras civis.

As nacionalizações de Março de 1975, que socializaram arbitrariamente a economia nacional, contribuíram para a ruína das empresas e do país.

Entre o 25 de Setembro de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, muitas centenas de cidadãos, designados pelos comunistas e seus aliados do MFA como suspeitos, foram detidos e perseguidos sem qualquer culpa formada. O pacto MFA-Partidos instaurou uma tutela pretoriana sobre o país e o sistema político e excluiu a direita.

O regime derrubado há 40 anos não se proclamava democrático nem fingia sê-lo. Justificava-se como reacção à 'ditadura de rua' dos democráticos, pelo anticomunismo e pela defesa do Império. Eram argumentos de um Estado autoritário que, por isso mesmo, era marginalizado pela Europa democrática.

A esquerda revolucionária de 1974-75 - comunistas, maoístas e civis e os seus aliados e instrumentos militares - também negou a liberdade aos que considerou 'inimigos do povo'. Os brandos costumes nacionais, as regras de Ialta e a resistência popular no Norte e no Centro, impediram consequências mais graves. E, em 25 de Novembro, os Comandos de Jaime Neves tiveram mais força que os esquerdistas da PM e de Tancos.

É bom que se lembrem estas coisas, até porque foi delas - e não do 25 de Abril - que resultou a liberdade.

Sol, 30 de Abril, 2014
Jaime Nogueira Pinto

04 maio 2014

III Domingo da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Dois dos discípulos de Jesus
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a duas léguas de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou-lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?».
Pararam, com ar muito triste,
e um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou nestes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?».
Responderam-Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo
nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Alguns dos nossos foram ao sepulcro
e encontraram tudo como as mulheres tinham dito.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse-lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na sua glória?».
Depois, começando por Moisés
e passando pelos Profetas,
explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?».
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão. Palavra da salvação.

*** 

Reconhecer Jesus

Esta é a frase central do Evangelho de hoje. Tudo o que aqui está descrito – “tomar o pão, recitar a bênção, partir, entregar” – é a Eucaristia. Assim, a Eucaristia está aqui, logo no primeiro dia cristão, o dia da Ressurreição! Isto quer dizer – e para nós é extremamente importante – que o reconhecimento de Jesus está dependente da repetição do seu gesto agora na Igreja e por parte da Igreja. O reconhecimento da presença de Jesus agora faz-se na repetição dos seus gestos pela Igreja, em relação a todos: não só em relação àqueles que fazem já parte da comunidade eclesial, mas em relação a todos.
No entanto, o reconhecimento de Jesus dá-se quando essa Palavra se faz gesto nos gestos e nas atitudes da Igreja; quando essa vida repartida de Jesus continua na vida repartida da Igreja. A palavra ganha rosto. A promessa faz-se atitude. Assim, os olhos hão de abrir-se e Jesus será reconhecido. 


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 116-117.

03 maio 2014

Pensamentos impensados

Futeboladas
O Benfica derrotou os jumentos.

Trabalhos forçados
Ser guarda-nocturno, nos Pólos, é trabalho sazonal.

Fluidos
O primeiro homem a pisar a Lua, precisou de assoar-se, mas não o fez pensando o meu ranho não é deste mundo.

Contratos
O casamento é uma prisão efectiva ou afectiva?

No dentista
Usa fio dental?
Não, senhor doutor, uso ceroulas.

Frases célebres
O que vamos fazer, Sherlock?
Alimentar, meu caro Watson.

Aventuranças
Bem aventurados os pobres, porque os ricos já o são.

Xausinho
As vacas inglesas, quando se despedem, dizem good boi.

SdB (I)

02 maio 2014

Pouco barulho*

Cartuxa. Fotografia de Eduardo Gageiro (tirada da net)

Há dias falava de palavras, do estardalhaço ininterrupto que fazem dentro de nós, dos estragos capazes de provocar. Há-de ser assim com todos, fazendo menos mossa a uns, que as gerem melhor, mais a outros, que sufocam se lhes não dão primazia, andamento e caminho visível. Tempos houve em que me acalorava a conversa, a comunicação, a fala, o desabafo, as ideias. Hoje, nada disso me interessa como outrora. Chego a ter saudades do silêncio. Palavras leva-as o vento, estrebucha o ditado em mim. Estafam-me conversas sérias, cansam-me as opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Os porquês disto e daquilo, que se exigem a ferro e fogo, servindo umas poucas de inverdades e loucuras. Encantam-me os que sem abrir boca dizem tudo. E vou à lua com os que teimam fazer com o gesto o seu discurso, a sua declaração de amor. Hoje, percebo uma série de homens calados que havia antigamente. E as mulheres que agora me dizem “fazes-me rir”. Conversas, de facto, só para rir. Para chorar, para ensinar, para guardar, escrevam. Mergulhem no silêncio, oiçam-se e escrevam como souberem. Nas mãos, nas paredes, nos panos da loiça. De resto, poupem-se. Senão um dia ninguém vos ouve.

DaLheGas

(* publicado originalmente neste estabelecimento em 16 de Maio de 2009).

01 maio 2014

na livraria


estou de visita à grande família,
esta catedral de vivos e de mortos,
bem mais palpável de resto
que a vida civil que me veste fato e gravata.

penso em metal e melancolia,
em punk-rock e em poesia,
contra toda a violência 
da hiper-realidade.

gi.

1 de Maio, dia de S. José Operário

S. José operário. Infância de Jesus. 1620. Gerritt van Honthorst

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