24 abril 2018

Duas Últimas

Atiro-me ousadamente a um post que os mais distraídos poderão ver como político. Não é, porque a batalha política não tem lugar especial neste estabelecimento. No entanto, hoje, para uma certa franja histórico-intelectual, foi o último dia de vida para a ditadura fascista / salazarista / exploradora da classe operária. Amanhã tudo cairia, dando lugar ao que se tem visto nos últimos 44 anos - do melhor e do pior. 

Ora, caindo o fascismo - e não vou discutir se havia fascismo em Portugal ou não, não interessa para o caso - nada como dar uma espécie de festa de despedida. Assim, sem conhecer nada, a não ser a participação portuguesa, fui ao youtube procurar música de (extrema) direita: italiana, espanhola, portuguesa. A ideia foi comparar "toadas", porque letras é mais difícil. O ritmo militar da italiana e portuguesa não surpreendem.

Aqui fica, para a curiosidade de quem a tiver. Volto a dizer: este post não é político. Para o provar nunca se sabe o que publicarei no 1 de Maio...

JdB

     



23 abril 2018

Poemas dos dias que correm

(In)definição

poeta: 
uma formidável máquina de sentir o pensamento.
e de pensar o sentimento.

***

Um Postal do Exílio

na foto, em contraluz, recortando as ruínas,
um escorrega de brincar jaz silencioso,
esperando a criança que por ele desceu,
nesses dias em que tudo era ainda tanto,
nesses dias em que todos eram ainda.

Deus meu, há fotografias fulminantes,
onde aquele que fomos nos pergunta,
como se um directo de direita
seguido por um directo de esquerda:
rapaz, rapaz, por onde andas tu?

tão fraco poema para tão forte punchline.
e o poeta desaba chão adentro.

gi.

22 abril 2018

4º Domingo da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus.
«Eu sou o Bom Pastor.
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.
O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas,
logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge,
enquanto o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário não se preocupa com as ovelhas.
Eu sou o Bom Pastor:
conheço as minhas ovelhas
e as minhas ovelhas conhecem-Me,
do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai;
Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil
e preciso de as reunir;
elas ouvirão a minha voz
e haverá um só rebanho e um só Pastor.
Por isso o Pai Me ama:
porque dou a minha vida, para poder retomá-la.
Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente.
Tenho o poder de a dar e de a retomar:
foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

21 abril 2018

Pensamentos Impensados

A dar horas
A fome pode ser um sinal interior de pobreza.

Esbanjador
Fazia tantas perguntas que esgotou os pontos de interrogação que tinha herdado.

Cargas
À carga fiscal prefiro uma carga policial.

Astrofísica
Os astronautas, quando em órbita, praticam a interrupção voluntária da gravidade.

Voltas do vira
Leio no CM: diz que ficou gay depois de tomar analgésico. É natural, só não sei o que quer dizer gésico.

Inconcebível
Adão era de uma família mono-parental e foi despejado. Inconstitucional.

Pernas para que te quero
Os golos de Ronaldo são autênticos jet leg.

SdB (I)

20 abril 2018

Textos dos dias que correm

Alfie Evans: Quando a lei não sabe nada do amor

Os acontecimentos extremamente dolorosos de Alfie Evans e dos seus pais são um convite a alargar a nossa reflexão para além da resposta emotiva mais imediata. Com efeito, é um caso que abre interrogações a diversos níveis, todos muito complexos. Menciono apenas alguns: a legitimidade da interferência "pública" na relação entre pais e filhos; a relação entre os pais e um filho gravemente doente; o escândalo do sofrimento inocente.

O que está por trás de todos estes questionamentos, unindo este caso ao de Charlie Gard, bem como a outros anteriores, é a disponibilidade ou indisponibilidade da vida humana e o direito de estabelecer-lhe o valor com parâmetros denominados de "objetivos". No desafio que esta história representa, quero no entanto centrar-me brevemente na reflexão sobre a ligação misteriosa que intercorre entre os pais e um filho doente ou deficiente, realidade que encontrei muitas vezes na minha profissão.

[Antes de prosseguir, o contexto: Alfie Evans tem 23 meses e está em estado semi-vegetativo num hospital britânico, em Liverpool, desde dezembro de 2016, devido a uma doença neurológica degenerativa que os médicos parecem desconhecer. Na passada quarta-feira um tribunal decretou que o hospital pode desligar o suporte que garante a vida do bebé. A sentença foi suspensa depois de um pedido de "habeas corpus", indeferido na segunda-feira. Resta o recurso ao Supremo Tribunal, mas as esperanças de sucesso são muito baixas. Entretanto, mais de 250 mil pessoas assinaram uma petição para salvar a criança. Vários hospitais na Alemanha e Itália - nomeadamente o Bambino Gésu, em Roma, ligado ao Vaticano -, ofereceram-se para acolher Alfie. O papa Francisco, que no início do mês se referiu, no Twitter, à situação, recebeu hoje o pai do bebé, antes da audiência geral, durante a qual afirmou: «Quero sublinhar e confirmar com firmeza que o único dono da vida, do início ao fim natural, é Deus. E o nosso dever, o nosso dever é fazer tudo para proteger a vida».]

Quem se ocupa de crianças que nascem com graves dificuldades é inevitavelmente atingido por uma inegável evidência: uma vez entrada no mundo, a vida concreta do filho - ainda que profundamente ferida - assume para os seus pais um valor indiscutível, antes imprevisto e por vezes até imprevisível.

Uma consideração hipotética, abstrata da perspetiva de uma criança que vai nascer com uma grave doença ou uma deficiência só pode ser uma ideia que assusta. Todas as mulheres grávidas vivem como um pesadelo essa possibilidade, e a multiplicação das perguntas e exames médicos na gestação responde a esse profundo medo. Mas quando nasce um bebé doente, a dor indizível e a revolta que a acompanha unem-se quase sempre a outros sentimentos de sinal diferente: contraditórios, difíceis de descodificar com clareza até para os próprios protagonistas, estes sentimentos exprimem todavia a ligação indissolúvel que os pais - sobretudo a mãe - têm como o seu filho.

Quando dá à luz, a mulher passa sempre através de uma luta de alto valor simbólico: reter e deixar ir são os dois movimentos opostos do parto, e são os mesmos que caracterizam toda a sua vida de mãe, sempre combatida entre o manter o filho perto de si e o impeli-lo a tornar-se protagonista da própria vida. Se o filho que nasce é demasiado frágil, a luta entre o manter e o distanciar-se assume conotações dramáticas que servirão de cenário de toda a relação futura. A mãe, que perceciona o filho em continuidade consigo, torna-se como uma leoa que defende a sua cria: lutará por ela, multiplicará os esforços quer para a proteger quer para a apoiar. A mãe terá de testemunhar ao mundo o valor daquela vida que não sabe testemunhá-la por si própria. A necessidade do filho, a sua absoluta vulnerabilidade, comportam a intensificação da ligação e a tendência a excluir qualquer outro da relação entre ambos.

O filho gravemente doente é um desafio absolutamente particular para o pai. Menos implicado diretamente na ligação que a criança tem com a mãe, menos envolvido nas necessidades primárias de cuidado, encontra-se perante a tarefa de o legitimar e reconhecer como dom da própria mulher, que teme, por seu lado, tê-lo gravemente desiludido: só assim poderá ajudá-la a tratar a ferida profundíssima de ter dado à luz um filho "imperfeito" e apoiar a coragem de que precisa para tomar conta dele e defendê-lo. Reconhecer e legitimar um filho com uma doença grave ou deficiência é uma assunção de paternidade "alta", a que nem todos sabem responder.

Mas quanto isso acontece, quando o pai apoia a mãe e a mãe aceita partilhar com ele a ferida e a tarefa, a relação reforça-se de modo particular, e ambos aumentam a capacidade de amor: amor recíproco e amor pelo filho. Encontrei muitos pais de crianças com deficiência ou doença grave: nenhum deles alguma vez me expressou o desejo de se libertarem delas, e nenhum, ainda que sofredor e desafiado, me expressou arrependimento por tê-las posto no mundo. Todos, indistintamente, lutam: estão no presente, no aqui e agora de uma realidade por vezes muito difícil, mobilizados junto à vida frágil dos filhos sem nunca duvidarem de que aquela vida tem valor.

Quando encontram o médico pedem-lhe acompanhamento, suporte, solidariedade; pedem que faça o que pode ser feito para aliviar o sofrimento do filho e para promover-lhe as competências remanescentes, por pequenas que sejam. Não pedem milagres. A força deste laço pode fazer medo a quem o observa de fora, pode parecer irrazoável, irracional. Contrasta com a ideia tão comum e falsa de que o ser humano é capaz de amar só quem que lhe pode dar gratificação: um filho são, inteligente, se possível belo. Tornou-se hoje muito difícil compreender a ideia de que a vida se justifica só com a vida, que pode justificar-se por si mesma, sem condições. Aquilo que talvez nos deve fazer refletir é o facto de que quem duvida do valor destas vidas "difíceis" não são quase nunca as pessoas afetivamente mais próximas: são sobretudo os estranhos, pessoas que raciocinam em abstrato.

A forte solidariedade que a vida de Alfie está a suscitar diz-nos algo de muito importante: esta não é uma batalha abstrata, não é um batalha de princípios. É, antes, a expressão da solidariedade concreta por uma vida concreta, é a proximidade real de um uma dor real. Às considerações abstratas e hipotéticas da lei respondem espontaneamente todas as pessoas que se identificam com a vivência real e as exigências concretas de uma mãe e de um pai. Exigências que se exprimem, hoje, numa só: o respeito "sem se e sem mas" pela vida frágil e real do seu filho, ao qual querem poder permanecer até quando parar espontaneamente de lutar.


Mariolina Ceriotti Migliarese
Neuropsiquiatra infantil
In Avvenire
Trad./edição: SNPC
Publicado aqui em 18.04.2018

19 abril 2018

Pensamento Impensado

Gaffes
Vejo numa fotografia Marcelo a fazer uma festinha na mão da Rainha Letizia. É lamentável esta intimidade com as pessoas da realeza. O Rei Felipe devia ter dito: tira a mão da popeline.

SdB (I)

Duas Últimas

Sem pretender fazer concorrência ao dono deste estabelecimento, partilho convosco que também eu fui ao encontro do silêncio num destes últimos fins-de-semana, participando com a minha mulher, em Fátima, num retiro espiritual realizado segundo o método de Santo Inácio de Loyola, vulgo Exercícios Espirituais.

Foram dois dias diferentes que pouco mais de vinte pessoas ali passaram, em ambiente de silêncio, mesmo (principalmente) às refeições, sob a orientação de um Padre Jesuíta experiente e sabedor.

Os temas lançados para reflexão eram actuais, exigentes e bem pensados, com uma boa simbiose entre uns mais teóricos e outros mais práticos, e foram de uma maneira geral superiormente comentados pelo orientador do retiro.

O silêncio que por ali reinou praticamente sem falhas foi naturalmente fulcral para que os objectivos pretendidos - resumidos na frase " retirar-nos serve sempre para voltar melhor para a vida" - possam ser atingidos, gerando descanso ("só avança quem descansa", lema de uma conhecida reflexão), calma e o consequente enfoque no que a vida tem de mais importante, no que podemos fazer para melhorar a nossa forma de vida e a dos que nos estão próximos.

Vim melhor, mais "cristão", espero que se mantenha. Procurarei não me esquecer de fazer por isso, é difícil mas vale bem a pena.

Entretanto, deixo-vos com a lisboeta Ana Bacalhau, conhecida sobretudo dos Deolinda mas aqui a solo, com uma música cujo nome tem alguma coisa a ver com o que fui ouvindo e refletindo no retiro.

Espero que apreciem.

fq

18 abril 2018

O Sagrado e o Profano (ou crónica de um peregrino no Alentejo II)



As fotografias acima são da Igreja de Santa Maria Madalena, em Olivença. Curiosamente, o côr-de-rosa, mais dominante na fotografia de baixo, é quase uma ilusão de óptica, pois o tecto está pintado de branco. A tonalidade deriva do facto da luz atravessar um vitral em tons de azul e amarelo.

***



O restaurante: Adega do Cachete, em S. Pedro do Corval (Reguengos). Falamos de uma sopa de cação, perfumada com poejos e coentros, e uns secretos de porco que se desfaziam na boca, acompanhados de um esparregado pecaminoso. Antes vieram uns torresmos, sobre os quais não há vocabulário...

***

O sagrado e o profano, nesta peregrinação por terras de Reguengos.

JdB

17 abril 2018

Crónica de um peregrino no Alentejo



Estou em Monsaraz. Podia falar dos pezinhos de coentrada que provei e cuja consistência me suscitou desinteresse; podia falar do vinho, do bom tempo, do fim de tarde glorioso, da antevisão de uma ida a Olivença, aquele enclave luso em terras castelhanas. Mas o que fixo é isto: o silêncio, a lonjura, o infinito, um ou outro regresso a uma adolescência feliz, a calma. Acima de tudo o silêncio, esse bem escasso nas sociedades modernas. 




Alentejo


A luz que te ilumina,

Terra da cor dos olhos de quem olha!

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha

Condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar!...   

   

Miguel Torga, 1974, in "Antologia Poética"





16 abril 2018

Dunning-Kruger

havia sempre qualquer coisa que não,
como uma equação que ficasse por resolver,
um cubo mágico resistente à perícia.

ele: um marechal-general no seu labirinto,
jogando xadrez e alta estratégia,
com o seu irmão-espectro-fantasma.

pena o curso interrompido,
quando descobriu os romances de cavalaria,
abandonando a grande escola prática.

talvez tivesse ido às aulas de psicologia,
talvez tivesse estudado o efeito de Dunning-Kruger,
talvez não tivesse falhado a vida
- ou a mais simples pontaria.

gi.

15 abril 2018

III Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Lc 24,35-48

Naquele tempo,
os discípulos de Emaús
contaram o que tinha acontecido no caminho
e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto diziam isto,
Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco».
Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito. Disse-lhes Jesus:
«Porque estais perturbados
e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo;
tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos,
Como vedes que Eu tenho».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração,
não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes:
«Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado,
que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois disse-lhes:
«Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco:
‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’».
Abriu-lhes então o entendimento
para compreenderem as Escrituras
e disse-lhes:
«Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia,
e que havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas de todas estas coisas».

14 abril 2018

Pensamentos Impensados

Realidades
Sophia é Rainha e é uma Senhora.
Letizia é uma Rainha mas não é uma senhora.

Descarto-me
Mais uma vez aqui venho discordar do sucesso da frase penso, logo existo. É uma frase duma total vacuidade, ou como diria Hermann José, sem substrato. Proponho eu pago impostos, logo existo.  Tem conteúdo. Enfim, a patetice é livre e foi para isso que se fez o 25 de Abril.

Portas abertas
Há uns bons 50 anos eu e o mesmo primo que me acompanhou  na visita a S. Miguel de Odrinhas, fomos visitar o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães. Nesse tempo julgo que não havia Guias e as visitas eram conduzidas por um porteiro ou contínuo. A visita fez-se com o "guia" a debitar frases do género: este quadro representa Fulano, nesta cama dormiu Beltrano e nesta cadeira sentava-se Cicrano. A dada altura disse: Coisas dos tempos dos Condes e dos Marqueses. E assim acabou a visita.

Suspensões
Lula da Silva talvez não tivesse sido preso se tivesse pedido o Habeas Corpus da Sophia Loren.

Votações
Só lhe faltavam 80% dos votos para atingir a unanimidade.

Regras
Aquilo que no futebol se chama descontos devia chamar-se acrescentos.

SdB (I)

13 abril 2018

Encontros dos dias que correm


9ª Conferência Europeia da Childhood Cancer International

Enquanto entidade organizadora, a Acreditar acolhe em Lisboa, entre os dias 13 e 15 de Abril, 120 representantes de congéneres europeias bem como membros da Sociedade Europeia de Oncologia Pediátrica.

Sob o lema Fit for the Future (Preparar o Futuro), as associações europeias representantes de pais de crianças e jovens com cancro e sobreviventes vão falar do futuro do cancro pediátrico em todas as suas vertentes: o apoio aos doentes e famílias, as novas terapias, passando pelas questões da sobrevivência. 

Sobre a Childhood Cancer Internacional: organização que congrega associações de pais de crianças e jovens com cancro e sobreviventes de todo o mundo. Foi criada em 1994, tendo a Acreditar sido um dos membros fundadores. É actualmente constituída por 183 associações de pais e doentes de cancro infantil que representam, no total, 310 associações, espalhadas pelos cinco continentes.

12 abril 2018

Contos dos dias que correm

Esta Noite em Samarcanda

Uma manhã, o califa de uma grande cidade viu chegar o seu primeiro vizir num estado de grande agitação. Perguntou as razões desta aparente inquietação e o vizir disse-lhe:

- Suplico-te, deixa-me sair desta cidade ainda hoje.

- Porquê?

- Esta manhã, ao atravessar a praça para vir ao palácio, senti que me batiam no ombro. Voltei-me e vi a morte que me olhava fixamente.

- A morte?

- Sim, a morte. Reconheci-a logo, toda vestida de negro com um xaile vermelho. Está cá e olhou para mim para me meter medo. Procura-me, tenho a certeza. Deixa-me sair da cidade neste mesmo instante. Levo o meu melhor cavalo e posso chegar esta noite a Samarcanda.

- Seria mesmo a morte? Tens a certeza? 

- Absoluta. Vi-a como te vejo a ti. Tenho a certeza de que tu és tu e tenho a certeza que ela era ela. Deixa-me partir, peço-te.

O califa, que tinha afecto pelo seu vizir, deixou-o partir. O homem voltou a sua casa, selou o melhor dos seus cavalos e transpôs a galope uma das portas da cidade, em direcção a Samarcanda.

Um pouco mais tarde, o califa, atormentado por um pensamento secreto, decidiu disfarçar-se, como por vezes fazia, e sair do seu palácio. Sozinho, dirigiu-se à grande praça. No meio dos ruídos do mercado, procurou a morte com o olhar e avistou-a, reconheceu-a. O vizir não se tinha enganado. Tratava-se realmente da morte, alta e magra, de negro vestida, o rosto meio dissimulado sob um xaile de algodão vermelho. Ia de um grupo para outro, no mercado, sem que dessem por ela, aflorando com um dedo o ombro do homem que montava a sua tenda, tocando no braço de uma mulher carregada de hortelã, evitando uma criança que corria para ela.

O califa dirigiu-se à morte. Esta reconheceu-o imediatamente, apesar do disfarce, e inclinou-se em sinal de respeito.

- Tenho uma pergunta a fazer-te – disse-lhe o califa, em voz baixa.

- Escuto.

- O meu primeiro vizir é um homem ainda novo, de boa saúde, eficaz e provavelmente honesto. Porque é que esta manhã, quando ele vinha para o palácio, lhe tocaste e o assustaste? Porque o olhaste com um ar ameaçador?

A morte pareceu ligeiramente surpresa e respondeu ao califa:

- Não queria assustá-lo. Não o olhei com ar ameaçador. Simplesmente, quando chocámos por acaso na multidão e o reconheci, não pude esconder o meu espanto, o que ele deve ter tomado por ameaça.

- Espanto porquê? - perguntou o califa.

- Porque – respondeu a morte – não esperava vê-lo aqui. Tenho um encontro com ele esta noite, em Samarcanda.

In Tertúlia de Mentirosos, colectânea de contos compilada por Jean-Claude Carrière

11 abril 2018

Vai um gin do Peter's?

HÁ 500 ANOS, OS MERCADORES ITALIANOS VIAJARAM COM A MADONNA DI LORETO 

É conhecida a frase de Darwin sobre o trunfo dos animais que melhor sobreviveram à turbulência climática e geológica do planeta. Primeiro, o investigador desfez o equívoco do costume: não foram as espécies mais inteligentes, nem as mais fortes, maiores e/ou majestosas. Os campeões tinham sido os mais versáteis, pela destreza em adaptar-se às novas condições de vida, suplantando dificuldades e ameaças.   

Três séculos antes de Charles Darwin, os mercadores italianos(1) provaram a validade da sua tese, ao desencantarem uma resposta à altura do rombo comercial provocado pela chegada de Vasco da Gama à Índia, na Primavera de 1498. 

Viagem das 3 naus com um navio de abastecimento.
Lisboa - 8.Jul.1497 »»  Calecute - 17.Maio.1498

Já em 1453, a conquista de Constantinopla pelos otomanos tinha aberto brechas irreversíveis no monopólio das especiarias, tornando arriscada a rota do Mediterrâneo. No entanto, a estocada final deu-se com a inauguração da via marítima Atlântico-Índico, que desviou para o Tejo o poderoso circuito comercial das preciosidades exóticas orientais. 

Com enorme diligência e esforço, considerando a precariedade dos meios de transportes quinhentistas, inúmeras famílias de Florença, Veneza, Génova, Cremona e Piacenza decidiram instalar-se em Lisboa. A rapidez e radicalidade do transplante poderá ter sido influenciado por inside information sobre a revolução comercial iminente causada pelos portugueses, uma vez que muitos dos especialistas estrangeiros contratados pela coroa nacional para preparar a navegação em oceano, vinham de Itália. Por iniciativa do Infante D.Henrique, Portugal transformara-se num laboratório científico e tecnológico, onde se apuravam as técnicas de marinharia(2) através dos progressos registados na matemática, na astronomia, na construção naval, ou no equipamento náutico, para permitir navegar em alto mar – um meio infinitamente mais hostil do que as águas seguras e conhecidas do Mediterrâneo.  

Duas décadas depois do desembarque em Calecute, o grupo de italianos radicados em Lisboa já se impunha em número e importância. A capital portuguesa convertera-se numa metrópole rica e fervilhante de europeus e gentes de outras raças, entre curiosos, cientistas, espiões, navegadores, mercenários, comerciantes, artesãos, artistas e imigrantes.

À época, Lisboa podia orgulhar-se de ser a única capital europeia, onde se passeavam transeuntes africanos, como o ilustra a pintura flamenga «Chafariz D’El Rei», datada entre 1570 e 1619 pelas duas prestigiadas especialistas britânicas neste período – Annemarie Jordan e Kate Lowe.
Actualmente, pertença da colecção Berardo.

Ciosa das suas raízes, a comunidade da língua de Dante tratou de angariar fundos para comprar um terreno junto à muralha fernandina, onde veio a ficar a torre Norte da Porta de Santa Catarina, para ali erigir uma igreja dedicada à Madonna di Loreto. A italianidade impregnou a obra, sob a batuta do arquitecto Filippo Terzi. A própria independência territorial também ficou assegurada, com a integração do novo templo na paróquia mais importante de Roma, situada a 1.800 kms de Lisboa: S.João de Latrão! Ainda hoje mantêm o vínculo directo à Santa Sé, sob a gestão da ordem missionária Dehoniana (desde 1953). 

Recuando 500 anos, até ao dia 8 de Abril de 1518, dava-se a inauguração do espaço sagrado que os lisboetas conhecem por «Igreja dos Italianos». Logo na fachada exterior principal, que ainda é a original (séc.XVII), o nicho alto ostenta uma imagem de Nossa Senhora do Loreto com o menino, trazendo para Portugal a devoção já muito popular em Itália, desde o século XIV. Sobre a porta, persistem as armas pontifícias ladeadas por dois anjos, do escultor Borromini. Nos nichos laterais há duas estátuas de estilo italiano, mas atribuídas a um escultor francês. 



A segunda imagem do Loreto encontra-se na capela-mor, também conhecida pela sua abóboda de berço e pelo retábulo de mármore policromado italiano. Esta devoção evoca a forma milagrosa como a casa da Sagrada Família, em Nazaré, escapou aos saques dos sarracenos e foi transportada por anjos desde a Terra Santa até à Europa. Começou por “fazer escala” na Croácia mas, pouco depois, “aterrou” na povoação italiana de Loreto, onde se mantém, continuando a atrair peregrinos dos lugares mais recônditos. Não por acaso, foi escolhida para Padroeira da Aviação, aludindo ao modo como chegou à costa norte da bacia mediterrânica.  



Na decoração interior da Igreja predomina o mármore italiano, numa disposição em nave central com doze capelas laterais, intercaladas pelas grandes pinturas murais dos doze apóstolos a parecerem esculturas portentosas, a par das imagens dos evangelistas em pedra. 

As vicissitudes por que passou, consumida violentamente por dois incêndios – em 1651 e no terramoto de 1755 –, não atrapalharam a comunidade italiana de Lisboa que, no espaço de 2 décadas, se lançou nas obras de reconstrução, quase de raiz. O segundo projecto já tem cunho português, num projecto neoclássico de Joaquim António dos Reis Zuzarte, depois concluído por José da Costa e Silva.

Na fachada ocidental, o tom pastel em azul-esverdeado,  deu maior sofisticação à Praça Camões

A anteceder as comemorações do quinto centenário, houve novo restauro, terminado em vésperas do Natal de 2017. Mal os andaimes foram retirados, a nova iluminação suspensa do tecto trouxe à luz a variedade dos murais, a beleza das imagens e dos painéis do revestimento superior (séc.XIX), além de realçar as telas sobre os altares laterais. A Igreja renasceu com um interior festivo e colorido, até ali escondido sob um pó escuro, que lhe dava um aspecto triste e empobrecido. 

O painel central é da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho (1810) e a parte periférica do tecto, além dos murais com os 12 Apóstolos, são de Cirilo Volkmar Machado (1823). A soberba elipse suspensa, repleto de focos luminosos cirurgicamente apontados, veio de Espanha.  

A sacristia também vale uma visita, para se apreciarem os azulejos do ceramista espanhol Gabriel del Barco e as pinturas de António Machado Sapeito. Outra das preciosidades escondidas desta Igreja é o arquivo histórico luso-italiano, que preserva documentos de origem, um deles do século XV.  

As comemorações do quinto centenário envolvem um programa intenso de concertos, conferências, visitas(3), que darão pretexto a redescobrir a nova decoração do Loreto, consistentemente italianizada. 

Quem conheça bem o Chiado e esta Igreja, saberá que um dos seus carismas, invulgar na Lisboa de hoje, é a confissão, num horário alargado, 360 dias por ano com raras falhas. Nem ali falta o sotaque e o salero italianos, a fazer jus ao cunho original da primeira comunidade de expatriados vindos das belíssimas cidades, que só se reuniram sob a mesma bandeira em 1870. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

(1)  Como país unificado, Itália data de 1870.
(2)  Os dois gins dedicados à exposição da Gulbenkian «360º Ciência Descoberta» focam-se nesta convulsão da arte da navegabilidade: sobretudo 20 de Maio de 2013; parcialmente também 22 de Abril de 2013. 
(3)   Site da Igreja: http://igrejaloreto.wixsite.com/lisboa e dois artigos muito elucidativos da RR:   http://rr.sapo.pt/noticia/110191/500-anos-igreja-do-loreto-lanca-programa-de-comemoracoes; 


10 abril 2018

Duas Últimas

Aviso à navegação: este post não é para gente que queira coisas contentinhas pela manhã.

O Eça falava no som triste do oboé mas eu tenho para mim que som triste mesmo é o do violoncelo. Talvez não haja instrumento tão triste, mesmo quando (e não é este o caso) toca uma música agitada. Há no som do violoncelo uma nostalgia, uma gravidade e uma tristeza bela que são independentes, quase, daquilo que interpretam. 

O violoncelo não é, digo eu que nada sei, um instrumento de Primavera, menos ainda de Verão: é outonal, sobretudo: reflexivo, convidando à interioridade, ao dobrar-se sobre si mesmo para efeitos de protecção do que agride e que vem do exterior, que por vezes não é mais do que o interior que parece que vem de fora. 

Talvez este canto dos pássaros que aqui vos trago não seja o que os traz para cá, mas o que os leva para fora. É um movimento de partida, porque outonal, porque acompanhado pelos dias que encurtam e que convidam à memória - esse refúgio que todo o homem procura em tempos de intempérie.

E talvez este cinema paraíso seja todo ele feito de preto e branco, de lembranças, de beijos roubados e de fogos que tudo levaram, menos aquilo que nenhum fogo consome.  

Não é, repito, um post para gente contentinha. Para isso há estabelecimentos melhores.

JdB




09 abril 2018

Dos adjectivos e das acções *

Emma Woodhouse, handsome, clever, and rich, with a comfortable home and happy disposition, seemed to unite some of the best blessings of existence; and had lived nearly twenty-one years in the world with very little to distress or vex her.

É assim que começa o romance Emma, de Jane Austen. De alguma forma seria assim – obviamente com outros adjectivos que completassem o quadro – que descreveríamos muitos dos nossos amigos: egoísta, generoso, atento, irascível, avaro, orgulhoso, simples, discreto, corajoso, divertido, inteligente.

Obviamente que só poderemos classificar os nossos amigos desta forma depois de os termos vistos em acção. Quando eles nos chegam ao contacto são uma folha em branco – ou uma folha semi-preenchida por terceiros. Nada sabemos deles e aceitarmos o que deles nos dizem está numa dimensão de confiança, ou de credulidade, sempre afectada por uma expectativa. Afinal, cada um vê o que vê, o que para si é importante ou tem mais impacto. Ser-se generoso requer demonstração, a entrega de uma certa evidência; classificar alguém de irascível só é justo se o tivermos visto exercer a sua irascibilidade; só se é corajoso em face de uma situação de risco. Não sabemos o que somos até agirmos.

Imaginemos, então, que nos era pedido para descrevermos um amigo muito próximo. Mas, em vez de usarmos adjectivos – orgulhoso, vaidoso, culto, egocêntrico – estávamos obrigados a referenciar situações. Isto é, não dizer que fulano é generoso, mas que fulano, num determinado dia, prescindiu do seu almoço para dar o dinheiro aos pobres. Não dizer que fulano é inteligente, mas que numa determinada situação – ou continuidade de situações – consegue discernir, encontrar ligações, ver mais além.

Há diferença na abordagem? Há seguramente. Qual é a diferença? Não tenho bem a certeza. Mas fico com a sensação de que é mais justo – ainda que potencialmente mais maçador. Obriga-nos a um exercício de memória que é uma retribuição nos casos positivos: não falar das virtudes com um ar vago mas identificá-las, e ser isso que caracteriza uma pessoa. Nos casos negativos a coisa fia mais fina, e não sei o que dizer... A vida das pessoas é muito mais do que aquilo que elas são. É também, ou sobretudo, o que elas fizeram.


JdB

* publicado originalmente em 12 de Novembro de 2014

08 abril 2018

2º Domingo da Páscoa

EVANGELHO – Jo 20,19-31

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram-lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu-lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois,
estavam os discípulos outra vez em casa,
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou-Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete-a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu-Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse-lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

07 abril 2018

Pensamentos Impensados

Predestinado
Nasceu no dia 25 de Dezembro na cidade de Natal; chamava-se Natalino.

Nos braços de Morfeu
Dormiu bem?
Não sei, estava a dormir.

Ataques súbitos
O sexo, na Natureza, nem sempre é de comum acordo; muitas vezes é precedido de coices, dentadas
e patadas.  Isto é que é assédio sexual.

Quedas
Decadente - Diz-se de quem lhe caiu o décimo dente.

Impostos
O marido contratou um capanga para lhe matar a mulher.
O alegado homicida não sabe em qual alínea do IRS deve declarar o dinheiro recebido.

Nobiliarquia
Rainha Isabel cria novo título de nobreza: "Sir" Ampo.

Armas brancas
Fui ao talho; o ambiente era de cortar à faca.

SdB (I)

05 abril 2018

Poemas dos dias que correm

O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

***

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

04 abril 2018

Pensamento Impensado

Bis...cicleta
Juventus vai protestar o jogo contra o Real Madrid, alegando que Ronaldo marcou um golo montado numa bicicleta.

SdB (I)

Pensamento Impensado

Pato bravo
Nos  Estados Unidos é raro o dia em que não há uma trampalhada.

SdB (I)

Duas Últimas

Uma ronda cuidada pelas letras de tudo o que se escreveu em Portugal (ou no mundo sobre Portugal) para ser cantado revelaria certamente muitas comunalidades. Se é fado é saudade, triseza, ciúme, guitarra. Se sairmos do fado pode ser tudo: cavalos de corrida, cartas de amor, anel de rubi. Do que se escreve sobre Portugal não sei - mas imaginaria Amália, Eusébio, Ronaldo, Mourinho, talvez obrigado, bom dia, adeus, marisco.

Carlos Cano compôs esta música - Maria la Portuguesa - em homenagem a Amália. Gosto da música (embora não sei bem que tipo de música é) mas nem sempre tenho castelhano suficiente para perseguir o que o cantante diz. Mas fixo palavras curiosas, que elevam o reino dos algarves a uma nível diferente, porque constante de letras internacionais que falam de Vila Real e Faro (também Ayamonte, que é um pouco nosso por via das compras). 

Fado, Amália, Maria a Portuguesa, Faro e Vila Real. Talve se fale de Albufeira e Armação de Pera ou Zézé Camarinha, mas já lá não chego. Brincadeiras à parte, aqui ficam duas versões da música que Carlos Cano compôs em homenagem à fadista. Música de que gosto muito. Afinal é um ritmo latino e eu, sei lá porquê, é disto que gosto...

JdB 



03 abril 2018

Das relíquias

A minha relação com as relíquias religiosas só não é mais queiroziana por algum respeito pela Igreja e manifesta falta de rasgo literário da minha parte. Sendo A Relíquia um dos meus livros de eleição, é nele (também) que vou buscar citações que me divertem com quem as sabe - o meu Pai ou o meu querido amigo fq. O Raposão traria uma relíquia da Terra Santa (e lembremo-nos que Jerusalém era, para o Alpedrinha, pior que Braga, irra!) que provocaria êxtases à Titi - nada mais nada menos do que a coroa de espinhos com que Cristo foi crucificado. Veio, afinal, a camisa de noite da Mary - a Maricoquinhas. Do odor de santidade ao odor de sensualidade foi um instante que marcou a perdição do devasso. 

***

Durante séculos a Igreja e as relíquias viveram excessivamente perto uma da outra. Supostamente provenientes de um santo, um dedo era objecto de veneração, um dente idem idem, uma tíbia em bom estado ou um perónio semi-carcomido pelos vermes e pelo tempo suscitavam uma hiper-ventilação devota. Há relíquias expostas em igrejas mas não lhes encontro mais do que uma porcaria morta, putrefacta, feia, susceptível de crendices e tratadas como se fossem uma preciosidade. Que não são.

Para efeitos do que aqui me traz, o dedo de S. Francisco Xavier é tão relevante para a História da humanidade como o dedo de Isaac Newton ou do merceeiro do meu bairro. A tíbia do Padre António Vieira não faz mais pela salvação das almas do que igual osso do pai do soldado desconhecido, sendo que não se sabe quem é um ou outro (o soldado e o pai...).  Um dedo é um dedo, um osso é um osso, e não consigo perceber por que motivo devemos acarinhar estas ideias peregrinas da importância das relíquias. S. Francisco Xavier foi importante pelo que fez, e a santidade está nele, não num dedo gangrenado e preto colocado numa caixa de madeira nobre. O que os santos fizeram e que devia ser motivo de exemplo ou inspiração não se vê numa tíbia, numa caveira, num cabelo conservado por artes humanas. O importante neles é o testemunho, não a anatomia. Cultivar a devoção à relíquia é cultivar o direito à fezinha, ao meu santo antoninho, ao meu querido s. judas tadeu. Um santo é aquilo que pensou, escreveu, fez. E isso não se vê num fémur - que nem se sabe se é de quem se pensa que é.

Vem este arrazoado cansado e invernoso a propósito do Santo Sudário. Falou-se nesse tema há umas semanas, num almoço de amigos, a propósito de uma conferência. Voltei a ler sobre isso este sábado, no Observador. Vivia com a impressão que já se tinha provado que aquele pano não era do tempo de Cristo; fiquei depois com a impressão que sim, que é. Confesso que não sei bem o que pensar - e não sei se quero pensar muito. Uma parte do sudário é uma relíquia -  um osso, um prego que cravou Jesus Cristo, a coroa de espinhos que o Raposão traria à Titi, uma madeirinha (ou tabuinha?) aplainada por S. José. Uma parte do sudário é, repito, um objecto de devoção que não percebo bem, embora seja evidente a diferença relativamente ao eventual polegar de Santa Escolástica. A importância está em Jesus Cristo, não no que ele usou, mesmo que fosse naquilo que nos redime - a Cruz, a sepultura, a ressurreição.

Ora, há uma diferença no Santo Sudário. Um dedo é um dedo, um osso é um osso, um cabelo é um cabelo e, nesse sentido (e nesse sentido apenas) um cravo seria um cravo, uma madeirinha uma madeirinha. Porém no Santo Sudário há uma diferença substantiva: a manifestação de uma ciência que só poderia ser divina. Jesus Cristo, presumo eu, não foi pintado antes de ser sepultado. Ora, nesse sentido, não há razão, à luz da ciência, para que o corpo de Cristo ficasse marcado (talvez pintado seja demasiado profano...) naquele tecido que o envolveu. Houve uma explosão qualquer - uma libertação de energia, um milagre, algo não explicável à luz do conhecimento actual. É fácil cortar-se  uma falangeta, arrancar uma mecha de cabelo, rapar um bocadinho do madeiro onde Cristo agonizou. Mas ninguém sabia fazer aquilo com o Santo Sudário. É por isso, e só por isso, que eu gostaria que o Santo Sudário fosse verdadeiro. Era o sinal do celeste, do espantoso - de tudo o que está acima da nossa compreensão e que nos remete a uma pequenez saudável. 

Estarei demasiado irreverente?

JdB  

01 abril 2018

Do controlo da imperfeição *

Fiat lux. Depois disto, e ao longo de seis dias, tudo se criou: a separação da terra e das águas, a verdura, a erva com semente, as árvores de frutos; a tarde e a manhã, ao terceiro dia; os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem na água, e todas as aves aladas; depois os animais domésticos, os répteis e os animais ferozes. Por fim, o ser humano, a quem foi dado tudo o que havia sido criado nos dias antes. O Homem agarrou então naquilo que existia em seu redor e na inteligência com que tinha sido bafejado e criou as coisas científicas: a roda, as válvulas, a máquina a vapor, o pressóstato, a electricidade, o bico de bunsen, os computadores, a placa de petri, a gasolina, o óleo lubrificante, o viscosímetro e o jacto de tinta. 

Assim como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem criou a técnica à sua imagem e semelhança. No entanto, enquanto Um desejou a permanente perfeição, o outro contentou-se com a eterna imperfeição. A consciência da imperfeição é um princípio de sabedoria, talvez o ponto mental mais chegado ao absoluto primor de que o ser humano é capaz. E por isso tudo é inventado, não pelo esmero das coisas, mas por uma espécie de quase oposto. Não se inventa a perfeição, mas o controlo da imperfeição. Porque se inventou o pressóstato? Para manter constantes as pressões dos fluidos. O que motivou Petri a inventar a placa? A dominação do crescimento microbiano. Para que serve o óleo lubrificante? Para reduzir o atrito.

A imperfeição é o apelido pelo qual todos os homens se tornam iguais, membros de uma mesma congregação - que mais não é do que uma família que se entende pelo jargão. É por isto que o homem não consegue dominar uma certa vida própria dos fluidos, a assepsia nos ambientes, a fricção entre materiais que gemem e aquecem de dor. Dar como supérfluo a existência de alguns equipamentos, imaginar-lhes obsolescência face à perfeição que se deseja é ambicionar em cada rosto frágil o olhar de Deus sobre o mundo, é usurpar o trono onde Ele se senta com um amor que não o é senão. Só o inacabado é nosso, cabe nas nossas mãos, circula livremente pela nossa mente. Por isso a placa, o lubrificante, tudo o resto. A perfeição não nos pertence - apenas somos donos do caminho que a tem como destino nunca alcançado.

Só a guerra é nossa, que a paz é coisa do Céu. Talvez por isso o homem tenha inventado os acordos, que mais não são do que o pressóstato das pessoas que respiram.

JdB     

* publicado originalmente em 20 de Fevereiro de 2015

1º Domingo da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

31 março 2018

Pensamento (im)Pensado

Aleluia
Pensamentos Impensados deseja a todos os seus leitores uma Santa Páscoa.

SdB (I)

30 março 2018

6ª Feira Santa

"O homem é um aprendiz, a dor o seu mestre:
ninguém se conhece a si próprio até que sofra."

"Nada nos torna tão grandes como uma grande dor."

Alfred de Musset in Noite de Outubro




ORAÇÃO

Ouvi a Tua voz – que Te buscasse,
Que eras vida e caminho ardente e santo,
Aqui me tens, Senhor, beijando-Te na face,
Mordido de vergonha, angústia e pranto.

Cruz, lança, espinhos, pregos, fel, vinagre,
Não são adereços para um corpo humano.
Faze em mim, meu Senhor, o Teu milagre:
Sofrer, morrer e ressurgir em cada ano.

Perdoa à minha carne o desejar sem norte,
Porque vivo no mundo e sou pecado.
E recebe-me puro, quando a morte
Me levar p’ra o Teu lado.

(Um Cristo de perdão,
Sereno como é fria a madrugada,
Veio cravar-me, por amor, no coração,
Uma nova espada.)

António Manuel Couto Viana

29 março 2018

Vai um gin do Peter's?

COMO A CATEDRAL SURFOU MODAS E REVOLUÇÕES

Reviravoltas de regime, modas e revoluções deixaram marca na Catedral de Estrasburgo – ex-libris da capital da Alsácia-Lorena. Situada num enclave especialmente rico e erudito da Europa ocidental, cidade e templo apanharam-se no epicentro da rivalidade franco-alemã, em zona de fronteira demasiado elástica, reivindicada à espada por germânicos e franceses.

O exemplo mais caricato do choque de poder com ecos na Catedral de Estrasburgo ocorreu durante a Revolução Francesa. Naqueles anos de terror e mortandade sem freios, os republicanos gritavam por «igualdade, liberdade e fraternidade», enquanto se afanavam em usar a guilhotina, massificando o homicídio. Especializados em destruir, propunham-se fazer tábua rasa do património histórico e artístico de França, derrubando estátuas, rasgando telas, queimando palácios e igrejas, ou reduzindo-os a funções menores, humilhantes.

Demasiado visível e imponente no planalto fronteiriço, a Catedral alsaciana transformou-se em alvo a abater. Consideravam-na o expoente da sobranceria e uma afronta ao igualitarismo, com aquela torre octogonal muito esguia – a mais alta do mundo, até meados do séc. XIX.


A parte superior da catedral é visível a kilómetros de distância

Ao saber que o templo encabeçava a lista negra, o hábil mestre serralheiro Stultzer conseguiu convencer a turbamulta de que seria mais útil aproveitar a altura da torre para mostrar aos estrangeiros os méritos da Revolução, uma vez que era avistada de território germânico. A proposta foi bem acolhida, tendo ficado decidido enfiar no campanário um gigantesco barrete frígio, em cor púrpura, a replicar o dos revolucionários. 

Medalha da revolucionária Marianne com o gorro frígio

Durante nove anos, a ridícula cobertura manteve-se em posto, entrando de imediato para o anedotário dos locais, que o cognominaram em língua ininteligível para os republicanos: «Kaffeewärmer» (abafador de cafeteira/bule). Sabendo-lhes a pouco, em 1793, transformaram-na em «templo da deusa da razão». Ainda saquearam inúmeras imagens e fundiram os metais para fabricar canhões, que depois serviram às tropas napoleónicas. Só em 1801 voltou ao culto católico, recomeçando o restauro, em 1813, até cair em mãos alemãs, a mando de Bismarck – 1870.

Os mistérios que rondam a catedral, estendem-se à inexistência de uma segunda torre; à coqueluche tecnológica instalada logo na primeira construção gótica – o gigantesco relógio astronómico; à riqueza acumulada nos cofres da pequena e poderosa Capela de Nossa Senhora durante o primeiro quartel do séc. XV; à longevidade invulgar dos vitrais da rosácea na fachada ocidental – jóia do arquitecto mais antigo de Estrasburgo que apaixonou Goethe e Claudel – Erwin (séc. XIII). Nem um toque isotérico lhe falta, por causa de um misterioso raio verde, que aponta à uma imagem do Crucificado num dos púlpitos, duas vezes ao ano, nos equinócios de Março e de Setembro, pouco depois do meio-dia. A pontualidade do feixe verde surpreende, percebendo-se que emana do pé da figura de Judá pintada num vitral. Só não é certo se o efeito era intencional ou feliz coincidência. 


O feixe dos equinócios da Primavera e do Outono

O Cristo iluminado pelo reflexo verde

Além do divertido raio verde, há outras notas de humor como os cães esculpidos em nichos estratégicos ou monstros exóticos em poses desconcertantes, que não chegam a assustar.

O sentido cívico dos estrasburgueses perpassa na escolha das figuras homenageadas nas estátuas gigantescas, que não privilegiou reis nem conquistadores, mas os maiores obreiros da Catedral. Excepção para o libertador de Estrasburgo – Rodolfo de Habsburgo (1218-1291) –, que lhe concedeu o estatuto de «Cidade Livre». O grande arquitecto Erwin até mereceu ter a sepultura num patamar intermédio da torre, para espanto de Goethe, que o elegeu como seu herói medievo.


Das poucas rosáceas originais que ainda se preservam, em França.

Num gesto de precocidade democrática, desde o séc. XIII que a administração da catedral passou a ficar confiada a um leigo, incumbido de prestar contas, regularmente, ao conselho dos cidadãos. Era recrutado com critérios de alguma meritocracia, pelos dotes artísticos e aptidões na gestão e na contabilidade, conforme reza nos documentos de época. Curiosamente, enquanto na catedral mandava um leigo, a autoridade máxima do município era exercida pelo Bispo. 

Sucederam-se 3 relógios astronómicos, todos eles proezas tecnológicas e artísticas do seu tempo: o da fundação; o do matemático Conrad Dasypodius (1570); e o que persiste, desde 1842, mantendo o invólucro do quinhentista repleto de imagens que se movem a horas determinadas. O seu mecanismo astronómico permitiu prever o eclipse de 2006

Se a sofisticação cultural e tecnológica da cidade impregnou a Catedral até ao âmago, como o demonstra o extraordinário relógio astronómico, também os preconceitos e segregações ressoaram templo adentro. Descontando o vandalismo dos exércitos conquistadores que não poupavam a Catedral, é lamentável a tradição anti-semita, que recorria a um dos 16 sinos – em geral, o que também tocava às 10h da manhã – para avisar a comunidade judaica da hora de abandonar a cidade, mal o sol descia. A cada poente, o repique metálico soava por más razões, que se prolongaram por longos séculos, até ao último quartel do séc. XVIII. Também uma imagem feminina representativa da Sinagoga, aparece de olhos vendados e posição curva, espelhando como se encarava o judaísmo.

Antes de concluir, uma referência ao enigma da torre única: quando a catedral gótica começou a ser erigida sobre um antigo templo românico (início séc.XIII), inspirou-se na Notre-Dame de Paris, absorvendo o novo estilo pontiagudo, de arcos quebrados, fachadas gigantescas com grandes rosáceas, frestas avantajadas para entrar a luz, abóbadas, colunatas, naves. Os trabalhos de aperfeiçoamento estenderam-se por três séculos, acompanhando as últimas modas, a ponto de ficar conhecida por «laboratório artístico» do Ocidente. Nesses primórdios, teve duas torres de tamanho médio que, por motivos de segurança, foram absorvidas por um módulo central a preencher o intervalo entre as duas. A meio do séc. XIV, houve a intenção de abrilhantar a fachada demasiado quadrangular, dotando-a de novas torres descomunais. A encomenda dada ao alemão Ulrich d’Ensingen resumia-se a «transparence et jusqu’au sommet». Numa acrobacia arquitectónica e de engenharia, o mestre edificou a altíssima torre octogonal, depois terminada por Jean Hültz, em 1439. Entretanto, veio a Reforma, a conquista de Luís XIV, a Revolução, o I Reich e uma segunda torre tornou-se inviável. Até por este handicap, a Catedral manteve-se fiel a coleccionar singularidades.     


O maior desafio e segredo do sucesso da torre residiu na distribuição do peso colossal

Quando as armas foram depostas e a bandeira suástica banida, Estrasburgo e a sua catedral respiraram, finalmente, em paz. Num gesto generoso e pleno de simbolismo, o Conselho da Europa fez questão de contribuir para o restauro do templo, oferecendo-lhe (1956) o vitral de Nossa Senhora, incrustado na fachada oriental. Um carisma especial, a Catedral ter conseguido acumular sete séculos de presentes… em pedra rendilhada, vidrilhos coloridos, pinturas murais, tapeçarias e peças decorativas em metais nobres. 

«Vierge en majesté», de Max Ingrand, rodeada dos Apóstolos no mural a nascente
Votos de Santa Páscoa a todos, com um presente muito europeu, inclusive na sua fragilidade!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

28 março 2018

Duas Últimas

A revolução de Abril de 74, que vivi quando já era grandinho, teve naturalmente aspectos positivos e outros que Deus meu. Ampliados ad nauseam, os primeiros, estrategicamente silenciados, os segundos. O que também acaba por ser natural, pois sabemos que a história são os vencedores que a escrevem. "Ai dos vencidos", como disse o velho chefe celta, o que no caso até deve ser parcialmente relativizado, pois que efeitos sérios e deixando sequelas foram sobretudo os sentidos no sul do País e no Ultramar.

Os músicos que hoje aqui trago, Mariza e Miguel Gameiro, nasceram por altura do 25/4. Ela em Moçambique, filha de português e moçambicana, donde regressou a Portugal muito pequena - uma vítima da descolonização exemplar - ele em Lisboa.

Miguel começou a sério com os Polo Norte, que de facto são de Belas, e lançou-se a solo em 2010. Além de músico, ouvi por aí, mas sem conseguir provar, que é também um excelente cozinheiro.

Mariza aprendeu com o pai, grande apreciador de fado, e cresceu no Sr. Vinho. Geralmente não gosto muito das suas interpretações, embora não ponha em causa a qualidade da voz, mas neste dueto acho que vai muito bem.

Espero que também gostem da escolha.

fq

27 março 2018

Das forças iguais e opostas

O diabético tem diabetes. Sabe que os tem, sabe o que tem de fazer para os contrariar ou, na pior das hipóteses, para não os agravar. Sabe o que lhe está proibido, o que lhe é permitido. Tudo nele - a sabedoria, a informação, o conhecimento mais equilibrado de si - vai no mesmo sentido. Ter diabetes e não injectar a insulina quando deve injectar-se é como querer andar-se de carro em contramão - pode fazer-se, mas é insensato. 

O raciocínio acima pode replicar-se para um sem fim de situações: o preguiçoso que sabe que é preguiçoso, o alcoólico que sabe que não pode beber álcool, o violento que sabe o que nele faz disparar um potencial ataque de violência, o asmático que desconfia muito certamente que a poeira lhe provocará incómodos. Tudo isto vai num mesmo sentido, que é saber-se o que provoca alterações e contrariá-las. Diabético -> insulina; violento -> trigger.  Podemos andar em contramão, mas sabemos que estamos a andar.

Há uma situação em que os raciocínios acima não funcionam, como se a contramão não fosse bem a contramão. Falo do convicto equilibrado. Este tipo de pessoas, cuja raridade só advém de um potencial déficit de auto-conhecimento, vivem uma contradição. Por um lado, estão certas, estão convictas de uma determinada posição. Por outro lado, embora saibam que sabem, têm consciência de que pouco sabem. Em que ficamos, então? Sabem ou não sabem? E chega dizer que sabem pouco?

O convicto equilibrado pode entender, muito sábia e correctamente, que tem razão numa discussão. Porém, como é equilibrado, sabe que pode não ter razão. É plausível que não tenha. Ora, nesse aspecto, tem duas convicções contraditórias: sabe que tem razão mas sabe que pode não ter razão. No fundo como se o diabético soubesse que não precisa de injectar insulina mas que precisa de injectar insulina. Não se trata de quanta insulina nem com que frequência. Não se trata de saber se tem muita razão ou pouca razão: há uma contradição insanável no convicto equilibrado: a certeza que tem e a certeza que não tem é uma tragédia no sentido aristotélico do termo, porque há duas forças em oposição. A tragédia, no sentido real do termo, é que as forças são iguais e de sentidos opostos, suscitando uma impossibilidade.

Aquele que sabe que nada sabe levou uma vida para perceber isso. A sabedoria advém-lhe da consciência da ignorância. Acontece o mesmo com o forte que pede ajuda e só é forte porque pede ajuda. O convicto equilibrado pode ser um lúcido com anos de estudo de si próprio. Ao fim de anos, especialista credível na leitura da vida, sabe que tem razão na forma como olha para um problema. Mas sabe que pode não ter razão, porque tem consciência da sua falibilidade sobre as coisas não exactas.

Este raciocínio, tal como a poesia, faz bem. Não percebi ainda bem a quê...

JdB     

26 março 2018

Poema para a semana que entra

As armas de Jesus são essa penúria,
E essa carne expostas à intempérie,
E os cães devoradores e a matilha boquiaberta;

As armas de Jesus são a cruz de Deus,
Ser um vagabundo que se deita sem fogo e sem lugar,
E as três cruzes levantadas e a sua ao meio.

As armas de Jesus são essa pilhagem
Do seu pobre rebanho, essa lotaria
Do seu pobre enxoval às mãos dum soldado;

As armas de Jesus são essa frágil cana,
E o sangue que corre do seu lado como um rio,
E o antigo lictor e o antigo feixe;

As armas de Jesus são esse escárnio
Aos pés da cruz, são esse zombar
Aos pés da cruz e a brusquidão

Do algoz, da tropa e do governo,
São o frio do sepulcro e o enterro,
As armas de Jesus são o desarmamento,
A injúria e a afronta, eis o seu engenho,

A cinza e as pedras, eis o seu minifúndio
E os seus aposentos e o seu ducado;
As armas de Jesus são o tenro arbusto
Entrançado sobre a sua bela fronte como uma frágil rede,

Selando a sua realeza com um selo de paródia;
Os discípulos covardes, eis a sua confraria,
Pedro e o canto do galo, eis a sua senhoria,
Eis a sua tenência e capitania.

Charles Péguy, Oitavo dia de La Tapisserie de sainte Geneviève et de Jeanne d’Arc, 20 de novembro de 1912

Retirado daqui

25 março 2018

Domingo de Ramos

LEITURA II – Filip 2, 6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

24 março 2018

Pensamentos Impensados

Sar...coisices
A propósito da detenção de Sarkozy, aqui vai um pensamento com muitos anos: por princípio, os políticos devem ser considerados culpados até que se prove a sua inocência.

Novo acordo
Há patos mudos e foram eles os percursores do pato de silêncio.

Sustos
Adão, quando viu Eva pela primeira vez, assustou-se e pensou que era uma alma do outro mundo.

Do contra
Os anarquistas deviam dar, no teatro, bons contra-regras.

Restauração
Meia dose é uma medida de colação.

Dá-dos
Oiço dizer "tratamento de dados"; deve ser qualquer coisa relacionada com dados viciados.

Oh Dores!
Vai ser lançada uma linha de desodorizantes para lagosta suada.

Pavilhões
Vejo barcos com a bandeira helvética; estão a preparar-se para descobrir o caminho marítimo para a Suíça.

SdB (I)

23 março 2018

Poemas dos dias que correm

Elegia a uma pequena borboleta


Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!


Cecília Meirelles, in Retrato natural

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