30 junho 2009

Músicas (e sobretudo letras) de todos os tempos

História à chegada

Se o amor nos visse assim,
se agora, quando chegássemos,
à espera na estação,
entre beijos, abraços e apitos,
estivesse o amor
a ver-nos assim chegar,
cansados,
sobraçando malas,
mão na mão
e braço dado,
se, de repente, nos visse assim o amor,
que farias tu
com as tuas asas?

JCN

29 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de S. Bernardo de Mentone, padroeiro dos alpinistas.

Relembro páginas do meu diário:

Georgette, uma das nossas operárias, é uma francesa lindíssima e elegante. Com mais de 1,80m, tem uma pele clara, muito clara, por vezes tão transparente que se lhe vêem as veias. Podia facilmente ter sido modelo, encantando as passerelles com vestidos bizarros de tules transparentes, uns cabelos pretos e longos, um nariz fino, duas maçãs do rosto ligeiramente salientes e um corpo de fazer inveja aos mais sadios. Optara, no entanto, por terminar os seus estudos na Sorbonne com um trabalho intitulado “A prostituição na epistolografia Portuguesa”, e decidira vir a Portugal fazer aquilo a que chamou, metaforicamente, um estágio.

Ao início mostrou-se algo relutante em diversificar a clientela mas, fosse por questões económicas ou desejo de levar a sua aventura para lá do Cabo das Tormentas, o facto é que foi preenchendo o seu carnet com marcações variadas. Confiava em absoluto na Dra. Clara para lhe escolher o cliente mais interessante – ou o mais aventuroso.

- Tu sais, Amalie, l’ aventure c’est tout. Il n’y a rien que celá. Et je crois que le mot aventure est français...

Recebeu o cavalheiro ao fim da noite de uma 4ªfeira gelada e chuvosa, filha de uma meteorologia própria da geografia montanhosa. Encostou-se ao meu balcão – fui confrontada, mais uma vez, com a sua altura - e, num português ainda afrancesado, revirando uns olhos de gozo e espanto, contou-me a sua hora.

- Sabes, Amália, o Sr. Marcolino é um homem extraordinário. Pediu-me para me deitar e deixar que fosse ele a agir sempre. Assim fiz. Recostei-me vestida na cama e fechei os olhos. O cliente pediu-me que não abandonasse nunca aquela posição. Acedi, sem saber se era uma espécie de fetiche, ou qualquer coisa do género. O Sr. Marcolino beijou-me longamente, ao início com ternura, avançando depois num crescendo de erotismo. Entreabriu-me os lábios e ali se demorou uma eternidade. E que bem que ele beijava... Oh, la la!

Seguidamente começou a despir-me. Peça a peça, fecho a fecho, botão a botão. Com vagar, como se não houvesse necessidade de cumprir uma hora de marcação, como um alpinista que sabe que a montanha está ali, e que só o prazer da lentidão lhe proporcionará o gozo final. Volta e meia perguntava-lhe se ele não queria que eu fizesse alguma coisa. Respondeu-me sempre que não, que o chefe da equipa era ele (e ria, quando dizia isto), que ele faria tudo, e que eu o seguisse, confiante da sua experiência de escalador. Sorria, e era mais uma peça que desaparecia; piscava os olhos e era uma mão a percorrer-me o corpo, encontrando nas neves altas, em que eu me tornei metaforicamente, um prazer ilimitado e próprio.

Percebi que os pés lhe diziam alguma coisa, porque foi lá que o Sr. Marcolino iniciou aquela subida de prazer. Massajou-os, beijou-os, sei lá mais o que fez. Depois foi por ali acima, lentamente, muito lentamente, como quem sobe a um pico de montanha consciente do cansaço - ou da estratégia. Demorou-se em todos os pontos, estabelecendo uma espécie de campos intermédios antes da arrancada final. Assim se passaram 50 minutos, porque, de facto, sempre tenho mais de 1,80 m, tu comprends… Beijos, afagos, mãos, língua, dedos. Uma técnica irrepreensível ao serviço do erotismo, da sensualidade, da atenção ao pormenor. Um verdadeiro alpinista com quilómetros de prazer nas suas botas fiáveis.

Os últimos 10 minutos… Enfim, acho que não preciso descrever-te o que foram, pois não? O Sr. Marcolino tinha terminado a sua escalada e respirava um oxigénio puro, abundante, revigorante, cravando o seu estandarte no ponto mais alto. Sentou-se ao meu lado na cama e voltou a mirar-me de alto a baixo, um verdadeiro sherpa que atenta na cordilheira que acaba de transpor. E sorriu.

Ai, Amalie, Amalie…

Georgette regressou ao quarto derramando, do alto de uma altura verdadeiramente obscena, uma elegância que esmagava. Da obra em frente, que teima em persistir até às calendas - ou até às próximas eleições - as melodias de sempre davam um ar da sua graça.

Lisboa não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que idéia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós

Cumpriu-se mais um dia. Mas é importante referir que o Sr. Marcolino, alpinista de uma montanha chamada Georgette, é anão.

MTS

28 junho 2009

Senhora da Boa Nova

Hoje, mas há uma semana, rezava-se missa no Santuário da Boa Nova, no Estoril, com a presença do Cardeal Patriarca. Durante as duas horas que durou a cerimónia pensamos em tudo. Em mim germinou a carta que escrevi ao prior, e de que partilho a maior parte.

Sentei-me Domingo, eram 10.40h, na Igreja da Senhora da Boa Nova. Ocupei, com o meu filho Segismundo, dois lugares anónimos no meio de muita gente. Neste dia especial não tinha nenhuma responsabilidade a não ser rezar pelos outros, pela nossa Igreja, pela força e discernimento que não nos devem abandonar nunca. Ali, frente a uma parede branca e nua, onde Nossa Senhora velava por nós, dei por mim a pensar. Olhei para Cristo crucificado e confirmei uma ideia importante: onde outros vêem uma morte dolorosa, alguns vislumbram um amor limite. E dei por mim a pensar. E à medida que olhava para os lados, para a frente e para trás, e que via uma multidão de gente com a qual nunca me teria cruzado, dava por mim a pensar que, de facto, há coisas que são maiores do que nós. Durante duas horas fui um fiel desconhecido no meio de fiéis desconhecidos. Durante duas horas ninguém me reconheceu como o homem que lê, que acolita, que ajuda a distribuir a comunhão. É uma perspectiva diferente, mas é uma perspectiva importante.

Ao olhar para o altar, reconheci dois dos três priores de Santo António do Estoril que tive o gosto de conhecer. Ambos, à sua maneira, reforçaram a minha fé e ajudaram-me a repetir em voz alta, mesmo que fosse para o meu interior, palavras-chave na nossa deambulação pela Terra: tolerância, serviço, dedicação, altruísmo, próximo, fidelidade. Serei um mau aluno, seguramente, e é por isso que continuo a repetir as palavras… Talvez um dia venha a conhecer um quarto prior, e um quinto, frutos do dinamismo próprio da Igreja. Olharei para todos com a certeza de que acrescentaram valor a algo que nasceu antes de nós e morrerá muito depois. Tão depois que não conseguimos vislumbrar.

Do anonimato daquele meu lugar comecei por mim, olhei em volta, e vi o protagonismo, a necessidade de evidência, o desejo de poder, a pedra que estamos prontos a atirar ao outro. Mas, do anonimato daquele lugar, vi também a entrega a uma causa, a vontade de deixar obra, o anseio de um caminho de melhoria. No fundo, do anonimato daquele meu lugar olhei em volta e vi a igreja, com todas as suas fraquezas, mas com todas as suas vocações de santidade. E senti-me bem porque, de facto, encerro em mim, também, o melhor e o pior. E é esta Igreja, imperfeita e humana, que me tem ajudado. E é a esta Igreja, incompleta e esforçada, que eu agradeço aquilo que sei agradecer, mais o resto, tanto, que nem eu sei exprimir.

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico. Talvez o início do Evangelho de hoje (de que copio dois excertos) fosse a minha leitura preferida e esperançada há oito anos. Agora, olho para trás e vejo que há outros milagres, porque não tive a sorte de Jairo, um dos chefes da sinagoga. Há o espanto e acontecimentos relevantes a marcarem a minha caminhada de lá para cá.

Naquele tempo,
depois de Jesus ter atravessado de barco
para a outra margem do lago,
reuniu-se grande multidão à sua volta,
e Ele deteve-Se à beira-mar.
Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo.
Ao ver Jesus, caiu a seus pés
e suplicou-Lhe com insistência:
«A minha filha está a morrer.
Vem impor-lhe as mãos,
para que se salve e viva».

(...)
***
(...)
Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga,
Jesus encontrou grande alvoroço,
com gente que chorava e gritava.
Ao entrar, perguntou-lhes:
«Porquê todo este alarido e tantas lamentações?
A menina não morreu; está a dormir».

De facto, há crianças que não morreram, adormeceram algures mas mantêm-se vigilantes, atentas, presentes, como uma luz que nos ilumina sempre, mesmo na maior das negritudes. Mesmo nessa, ou sobretudo nessa.

JdB

27 junho 2009

Informação

Tal como já tinha sido anunciado, aos sábados escrevo no blog Porta do Vento. Se tiverem paciência vão lá visitar-me.

JdB

Amanhã é dia de Feira


Na pequena freguesia de São Pedro de Sintra, a Feira realiza-se ao segundo e quarto domingos de cada mês. Os devotos são muitos, os feirantes sempre os mesmos e os produtos da melhor categoria. Nada como domingar, feirando.
“Quem não sabe é como quem não vê.” Aplica-se muito na vida. No caso da feira, quem não vê, é que nunca há-de saber. Nem que leia, nem que lhe contem, nunca saberá o gosto que é sentir o prenúncio deste acontecimento. As três primeiras horas da manhã nada têm a ver com as restantes da coisa, porque a partir do meio-dia, tudo muda.
Nove horas da manhã. Não há trânsito. Frente ao “Ramalhão” a polícia está serena. Alguns carros preenchem a alameda de acesso a São Pedro mas há espaço para andar e nem se dá por ser dia de feira, confinada que está ao Largo D. Fernando II, lá em cima ao pé da curva. As famosas e bonitas antiguidades do Largo do Fetal ainda estão fechadas (muitas nem abrem neste dia), os cafés também, o ar corre fresco, o chão limpíssimo e a nuvem cinzenta detém-se na torre do Palácio da Pena. Por uma pena... ou por ordem do Padroeiro. São Pedro é muitas vezes o último lugar ensolarado a Este da bela Sintra. Principalmente nos domingos de feira, como convém à “geral”.
No alto da Praça o frenesim é maior: mais pernas, cabeças e burburinho. Cheiros fortes, frescos e já esquecidos injectam no ar energias capazes de chamar a freguesia. Para trás ficou a evidência aromática da barraca das pipocas, enfeitada com malinhas de plástico, cada uma sua cor, atestadas de “pipoca de baunilha”, “pipoca de morango”… Ah, novidades: malinhas, baunilha e morago! À direita, frente ao portão da Quinta D. Diniz, há poucos clientes para as árvores de fruto e de jardim. Pelo contrário, as duas mulheres que lado a lado vendem a horta já criada, não têm mãos a medir. O cebolo está na berra. Os molhos voam para dentro das sacas e é só receber, receber, despachar, despachar. Vale a pena apreciar a maneira como se protegem as raízes recém-nascidas no alfobre, para plantar. Seja alface, tomate, pimento, manjerico, couve coração ou portuguesa, cravos ou amores perfeitos, ligam-se com fetos, couves velhas ou mesmo erva daninha, apertados num cordel, para manter a humidade. Dá que fazer esta vinda à feira prò render da produção. É bom, ó “dona”? É tudo bom, eu esto-lh’a dizer: quem compra uma vez, quer vir cá mais vezes. Um euro o molho. O sector hortícola é o mais efémero do mercado. Em duas, três horas, foi-se quase tudo. Já as árvores e as plantas, os prontos a consumir – legumes, enchidos, queijos, ovos, pão, bolos “saloios”, sementes, frutos, mel, vinho e azeite – e os animais, saem lentamente, ao correr das horas. A componente alimentícia da feira, que é sem dúvida a mais vincada e importante desta praça, dá-se durante a manhã. Quem vem a ela, vem cedo, para não arriscar ir mal servido.
Sem bons ou maus momentos vão trabalhando os três fornos do pão com chouriço que irradiam lá do canto do rossio. Pão quente, as almas gostam sempre. “Papa pãozinho, tem chixa”, ouve-se dizer às crianças. Para os turistas, radiantes, este é um lugar de fascínio absoluto. E aquelas mulheres amassam, botam chouriço, deitam ao forno, atendem a freguesia, é um regalo. Euro e meio cada, um riso, um obrigada e siga. Papo cheio, estômago às voltas com o enchido de fraca rês, vai-se calçada abaixo com sete olhos. Se eu quisesse enumerar objectos interessantes... Jesus, muito há que comprar. Neste tempo o recinto é uma sombra só. Os plátanos estão em bom vigor vegetativo. Nos domingos quentes ser feirante é duro e as crianças pequenas padecem nas horas longas em que os grandes vendem, cirandam e trazem que comer. Dormir entre as “t-shirts”, o pregão e os fregueses – nada vence aqueles bebés.
Este mercado acontece aqui desde o século XII, com origem nos tempos da “Gafaria”, o hospital dos leprosos que funcionou em São Pedro. Era prática corrente proceder-se à venda ao público dos haveres dos doentes, na sua maioria roupas, como contrapartida pelo internamento e apoio dado pela instituição. Aproveitando uma via movimentada junto à Gafaria, ao pequeno mercado dos leprosos juntaram-se outros comerciantes, e a sua feição alargou-se, resultando nesta que é há muito a feira mais característica dos arredores de Lisboa. Além de roupas parolas, sapatos que se vêem à légua, imitações bestiais de marcas famosas, restos de colecções ao preço da chuva, utensílios para a casa, tapeçaria, ferramentas, antiguidades e louças, ainda há galinhas, patos, perus, pássaros e coelhos. E novos feirantes: chineses, indianos e andinos sul-americanos. Trazem quinquilharia e engenhocas, tapeçaria e electrodomésticos, artesanato de diferentes materiais e música tradicional, no caso dos andinos, que trajam sempre as suas peles de franjas sobre tecidos de tear a cores garridas que sobressaem nos cabelos pretos, lisos e compridos. É a honesta sobrevivência dos povos emigrantes no nosso País.
A freguesia de São Pedro de Penaferrim é praticamente um arrabalde de Sintra. Vê o Palácio da Pena, goza o ar da serra, tem casas lindas e preservadas, uma bonita igreja do século XV, muitos restaurantes onde os pratos regionais abundam, lojas com coisas espantosas e pastelarias bem decoradas, com os melhores bolos do mundo para uma clientela de anos, assídua e amiga íntima.
Erguei-vos cedo, bloyeurs, e ide, depois de lerdes o Evangelho do JdB, é claro.

DaLheGas

26 junho 2009

barcelona 2 - j.b. football club 0

que a vida é imprestável e a poesia para nada serve, já ambos o sabíamos.
conhecíamos de cor os fados todos - à cabeça, os mais sombrios -
e Fátima ficara lá para trás, havia já muito tempo.
agarrados ao futebol e à língua franca em que agora escrevinhamos
estes versos - torpes, brancos-detergente, pobres -
nada nos preparara, contudo, para essa quase noite de cinzas.
de um lado, a poderosa armada britânica, ostentando o título
(todos os títulos passados e futuros - 'in my dreams' - e mais alguns);
do outro, a esquadra 'contender', capitaneada por um rapaz baixo,
promitente herdeiro alvi-celeste dessoutro deus, Dieguito de seu nome.
sentados desajeitadamente no sofá, a luz da tarde a esvair-se,
misturávamos Português, Inglês e Alemão, numa cacofonia irrepreensível
(semiótica pura e sinal dos tempos - Erasmus na Torre de Babel).
na televisão, o nosso príncipe quase perfeito afundava-se,
com aquele espanto próprio dos que se julgam omnipotentes
- o príncipe e toda a sua ínclita e mui britânica geração.
disfarçavas, amigo meu, o melhor que sabias, o melhor que podias,
o abismo que me abraçava, os fantasmas nas vidraças, os abutres à espreita.
por entre minis mal bebidas, o sabor amargo das minhas lágrimas
era já, como dizer, o tom dominante, anunciando impiedosamente
mais uma balada triste, daquelas onde se misturam enxofre, melancolia,
um eterno desespero, todo o desamor do mundo.
noventa minutos, sem direito a prolongamento ou penalties,
uma derrota sem redenção (se fora boxe, dir-se-ia por knock-out),
a súbita máscara da dor, irmanando, em cores baças,
aqueles onze guerreiros do apocalipse moderno, em calções,
tu, meu amigo, fazendo das tripas coração por mim (eu sei que sim),
e eu, perdido em campo, perdida mais uma vez a vida feliz,
chorando a distância obscena que vai das honrarias ferrugentas
ao ferrete interno de nos sabermos eternos 'has been'.

morreste-me durante uma partida de futebol, meu amor.


gi

25 junho 2009

A História de um Chapéu (parte II)

Foi aí que comecei a reparar mais neste estranho chapéu... Era como se ele tivesse uma vida própria. Saltava de pessoa para pessoa com uma graça e precisão que me deu que pensar... Comecei a dar atenção quando o padrinho de casamento resolveu fazer um brinde. Pôs-se de pé, arrancou o chapéu ao noivo e pousando-o na cabeça pediu a atenção de todos. O padrinho era um tipo engraçado. Vistaço, era mesmo o estéreotipo do eterno solteirão. De copo na mão falava sobre tudo o que tinha feito com o noivo, de todas as suas conquistas e de todas aquelas coisas que se dizem nestas alturas para nos envergonhar. Sentadas na ponta da mesa estavam um grupo de raparigas que lhe faziam olhinhos. Já tinha namorado todas. E hoje estava confiante que arranjaria uma diferente. Mas apesar de todas as mulheres, bebedeiras, aventuras e histórias que tinha para contar este padrinho estava muito infeliz. Porque é que não podia ser ele ali sentado a ouvir os seus amigos a contar histórias sobre ele? Porque é que não podia ser ele que finalmente encontrava as mulher da sua vida? Naaa... Estava muito melhor assim. Sem mulher e preocupações. Em vez de uma que o prendia, tinha várias diferentes que lutavam por ele. Isso sim era vida...

Nisto levanta-se o sogro. E também ele tira o chapéu para si e coloca-o na cabeça. O sogro naqueles longos discursos enfadonhos e cheios de significado que só os sogros sabem fazer, falava muito sobre o seu eterno amor com a sua mulher. O que é curioso é que tanto ele como a sua mulher eram os dois infelizes. Aparentemente tinham tudo. Uma filha bonita que agora se casava, o amor um do outro. De que mais precisavam? Secretamento ambos desejavam espaço para respirar. Descanso um do outro. Mas o medo de se perderem era tanto que se agarravam com unhas e dentes e não se largavam à coisa de 25 anos... Já nem sequer era um casamento saudável.

Depois do seu discurso o sogro arrastou a sua enorme barriga de volta para o seu lugar e deixou o chapéu do Avô Fausto em cima da mesa. Nisto aparece um sujeito com um ar esquisito e põe o chapéu na cabeça. Avança para o microfone e também ele começa a falar. Era um dos primos mais afastados. Daqueles que nunca ninguém se lembra bem do nome. Nem ele próprio sabia muito bem o que estava ali a fazer... Mas a sua mãe, coitadinha estava doente em casa, pedira-lhe para ler umas palavritas. E assim lá foi ele. Meio encolhido e envergonhado, sempre a sentir-se um bocado a mais. Verdade seja dita, ninguém ligou nenhuma ao que tinha a dizer. Mas ele fez a vontade de sua mãe, e meio desorientado tentou encontrar outra vez o caminho de volta para a sua mesa.

E assim se passou o jantar, os brindes e o bolo. Estava na hora da dança. O chapéu continuava a saltar animadamente de convidado para convidado. Até já havia um primo da noiva que se declarava à prima do noivo com o chapéu na cabeça. Ai se o Avô tivesse visto isto... Ele de joelhos muito corado, dizia-lhe o quanto gostava dela. E para seu próprio espanto ela pregou-lhe um beijo e arrastou-o para a pista de dança. Era a última vez que ele se declararia a alguém. Mal sabia na altura que ela era a mulher da sua vida. Que iria casar e ter uma batelada de crianças com ela. Mas era normal. Já estava a entrar na idade de arranjar alguém a sério...

(continua)

BG

24 junho 2009

Músicas dos dias que correm

Poema para o dia de S. joão

Noite de São João

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

(Alberto Caeiro)

Explicação

O Largo da Boa-Hora estará hoje fechado, reabrindo na próxima semana. Tentaremos colmatar esta falha entretendo os nossos leitores com o possível, porque o desejável, de facto, só voltará de hoje a oito dias.
Sejam felizes, apesar deste contratempo...
JdB

23 junho 2009

História de um sopro

Cerrei as mãos
uma contra a outra,
recolhi os pingos perdidos
perfeitamente redondos
de fazerem reflexos
na luz espalhada
pelo teu corpo
e reguei num sopro
o Deus que em ti reconheci.

JCN

22 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os encontros.

Pouco passava do meio-dia quando a Joana Maria me veio entregar uma carta para ser posta no correio.

- Importas-te, Amália? É para o meu Pai...

Naquele preciso instante entrou o carteiro com uma carta para a Joana Maria.

- Sabes, Amália? É do meu Pai...

A minha espinha foi percorrida por um frio. O meu balcão, onde recebo clientes e os entrego nas mãos das raparigas para horas de volúpia e luxúria, foi palco de uma coincidência extraordinária – duas cartas entre um pai e uma filha, mandadas e recebidas sem que receptor e emissor, que eram, em simultâneo, receptor e emissor, o soubessem. Tremi e circulei os envelopes, como quem circula energias de efeitos desconhecidos e imprevisíveis.

Meu querido Pai,

Dificilmente poderei explicar o choque que foi ver-te nesta casa. Mais a mais sabendo que não vinhas à procura de prazer, mas de mim. Não querias uma rapariga, não te querias divertir durante uma hora entregando-te aos prazeres do sexo com uma aparente desconhecida. Querias, apenas, ver a tua filha, enfrentar o demónio que é constatar a vida dupla de quem tem o nosso sangue, de alguém por quem estamos dispostos enfrentar todos os inimigos.

Durante uma hora choraste copiosamente no meu quarto, depois de teres rondado uns olhos espantados pela cama, pela cómoda, pelos quadros, pela música, como quem entra num mundo que tem tanto de extraordinário como de mau. Eu encostei-me a um canto, enroscada e transida, como um cão que é vítima de maus tratos que ninguém lhe infligiu, como um desgraçado que se envergonha de um insulto que ninguém lhe dirigiu. Nunca na minha vida me senti tão mal, tão conspurcada, mesmo sabendo que há pessoas que dignificam o trabalho que executam, por mais baixo que pareça. A tua presença no meu quarto foi como um espelho onde revi toda a minha iniquidade – não tanto por aquilo que faço, mas pela desilusão que fui para ti.

Já hoje pedi para falar com a Dra. Clara, para manifestar a minha vontade de sair desta casa. Não conseguirei estar aqui nem mais um dia, não saberei receber nem mais um cliente. Não sei para onde vou, mas estou certa de que encontrarei quem me albergue durante algum tempo. Perceberás que tenho dificuldade em enfrentar-te nos tempos mais próximos. Como te olharei, tu que estavas disposto a tudo pela minha felicidade, depois de te ter visto dobrado num choro confrangedor, num luto prematuro por uma filha viva? A vergonha e o amor afastar-me-ão da casa que foi minha e que espero volte a ser quando tivermos distância suficiente.

Um beijo da tua filha que te ama mais do que tudo,

Joana Maria

***

Minha querida Joana Maria, querida filha,

Abriu-se no meu coração de Pai uma ferida do tamanho do mundo. Todo eu urrei por dentro, como um lobo raivoso, ou como uma mãe a quem arrancam as crias. Tudo dentro de mim se desfez na visão de uma filha linda, com um futuro brilhante pela frente, entregue a uma indignidade. Ver-te naquela casa, naquela vida, com aquelas raparigas, despedaçou-me a alma, e tudo me passou pela cabeça. Enquanto eu chorava de raiva e dor só me apeteceu bater-te, castigar-te por uma coisa que não se faz a um pai que se deu na totalidade a quem era carne da sua carne.

Vi-te enroscada a um canto, esmagada pela vergonha de me encontrares, sem saberes, ao princípio, se aparecia como um cliente ou como um pai. Parecias um cão acossado, um farrapo de mulher, um quadro de miséria. Fui, naquela hora, o lugar geométrico da cólera, do desespero, da irritação, da desonra. Quis escorraçar-te da face da Terra, ver-te morta, longe da minha vista, caída numa valeta a subsistir da caridade alheia. Quando me despedi da D. Amália, e revelei o nosso parentesco, já não era um homem, mas um farrapo; já não era teu pai, mas alguém a quem arrancaram o fio de dignidade que nos permite manter sempre uma coluna direita. Quando me despedi dela, garanto-te, tudo me era indiferente na vida – até a forma de morrer naquele instante.

Pensei muito no assunto, nas tuas opções, no que te empurrou para essa escolha. Mais do que questionar ou criticar, forcei-me a pensar onde tinha eu falhado, qual tinha sido o gesto, a palavra, a frase, o olhar que tinham fechado uma porta entre nós para se abrir a porta da ignomínia. Estes exercícios são terríveis, mas libertadores. É como se algo dentro de nós nos empurrasse teimosamente para a luz, quando o nosso íntimo solicita a escuridão que se alimenta da danação. Vou imaginar que fiz uma espécie de desintoxicação, ao impor, ao meu próprio corpo, o desaparecimento das drogas que corroem o espírito e contaminam o coração.

Eis-me aqui, Joana Maria, o teu pai que te deseja mais do que tudo. O meu coração morre enquanto te imaginar nessa casa. Mas no dia em que entenderes sair, encontrarás um par de braços que se abrem para ti, um coração que rejuvenesce de alegria, uns olhos que chorarão num misto de soluço e riso, um amor que é eterno e tão incondicional quanto permite a minha fraqueza.

Perdoo-te, na esperança de que serei perdoado.

Um beijo muito grande do teu Pai

Cumpriu-se mais um dia, emoldurado por esta certeza do Amor e do Perdão.

MTS

21 junho 2009

Palavras escolhidas

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Olho para o Evangelho de hoje e, tal como o faço semanalmente, procuro palavras ou expressões chave, aquelas que me ficarão na memória depois de tudo o resto se ter esvaído. Ressalto três, que sublinhei no texto. Porquê? Porque ao longo da minha vida, sobretudo dos últimos 8 anos, foram sensações que me assaltaram: as tormentas pelas quais passei, fossem ou não responsabilidade minha; a certeza de que Alguêm lá em cima estaria sempre disposto a enfrentar comigo essas tempestades, só que nem sempre me terei lembrado de O chamar; a certeza de que a Fé foi mais do que importante, foi uma verdadeira tábua de salvação em momentos da minha existência. Não para resolver os problemas, mas para me dar força e discernimento.

Reza-se, daqui a pouco mais de meia hora, a primeira missa na Igreja da Senhora da Boa Nova, no Estoril. Mesmo que seja um lugar-comum, gosto de citar Pessoa: Deus quer, o Homem sonha, a Obra Nasce.

Um bom Domingo para os que me lêem.


EVANGELHO – Mc 4,35-41
Naquele dia, ao cair da tarde,
Jesus disse aos seus discípulos:
«Passemos à outra margem do lago».
Eles deixaram a multidão
e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado.
Iam com Ele outras embarcações.
Levantou-se então uma grande tormenta
e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água.
Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada.
Eles acordaram-n’O e disseram:
«Mestre, não Te importas que pereçamos?»
Jesus levantou-Se,
falou ao vento imperiosamente e disse ao mar:
«Cala-te e está quieto».
O vento cessou e fez-se grande bonança.
Depois disse aos discípulos:
«Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?»
Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros:
«Quem é este homem,
que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

20 junho 2009

Noite, noite...

Como eu hoje te esperei. Como queria as tuas horas, tão diferentes das dos dias. Sabes lá o que elas são. Nem sequer te vou contar. Esperei tanto que viesses, que me visses. Vês-me, noite? Eu aqui à tua beira, debaixo do teu nariz? Pára de me atirar estrelas, que me estragas o vestido. Gostas dele, noite? Que beleza tens trazido. Já ontem te calculei. Toda a semana desconfiei. Sabia. Era hoje que te via. Até o passei a ferro. Noite, noite, fica noite até ser dia. Com as tuas horas sem pressa, sem que nada lhes aconteça. Lentas, mudas, belas, surdas. És um presente do céu. O melhor que alguém me deu. Sabes noite, o que eu gostava? Ao teu colo voava, no prenúncio da aurora. Sim. De ir aos lugares onde te metes. Por aí fora. Saudades? De noite não se é o mesmo. Pensei que sabias isso. Na noite, noite, pouco ou nada quer o dia.

DaLheGas

19 junho 2009

18 junho 2009

A História de um Chapéu (parte I)

Era uma vez um chapéu. Um chapéu normal. Preto com abas largas. Não era tão imponente como uma cartola, mas também tinha mais carácter que um simples chapéu de côco. Este chapéu estava gasto e usado. Já tinha visto muitos anos e passado por muitas cabeças. Já estava um bocadinho desbotado e as suas costuras já tinham visto melhores dias. É preciso ver que este chapéu já tinha muitos anos. Já tinha sido testemunha de revoluções e ditaduras, de casamentos e divórcios. Já tinha passado por gerações e gerações que via todos os dias caminharem para o seu fim. Pode se dizer que este chapéu teria muitas coisas para contar. Oxalá os chapéus falassem. Teria tantas histórias... E que histórias! Histórias de coragem, amor e tristeza. Histórias para rir e histórias mais sérias. Histórias boas e histórias menos boas... Mas esta história não é sobre todas essas histórias. Esta história é a história de um chapéu. Um chapéu de aba preta, muito velho e usado.

Este chapéu, o chapéu do Avô Fausto como lhe chamavam os netos, estava na família há anos e anos sem fim. Já ninguém se lembrava bem de onde vinha, nem como tinha vindo. Mas o que todos sabiam era que o Avô Fausto não ia a lado nenhum sem ele. Passava os dias sempre com o seu chapéu. Os seus amigos e filhos até gozavam com ele. Mas ele não queria saber. Gostava do chapéu e pronto! Era prático, confortável, dava com tudo e não era como esses chapéus novos, muito pomposos e cheios de pretensiosismos. Enfim, o Avô e o seu chapéu eram famosos entre a família e amigos.

O Avô, tal como o seu chapéu, já estava muito velhinho. O tempo foi passando e passando até que chegou a sua hora. O Avô partiu mas o chapéu ficou. Ao fim de tantos anos o chápeu era atirado para dentro de uma caixa de cartão como se de uma simples peça de roupa se tratasse. Fechado num armário não voltaria a ver a luz do dia por muitos e muitos anos.

E passaram-se os anos. Primeiro um, depois outro, finalmente já tinham passado 20 anos quando o armário foi aberto. Qual não foi o espanto de todos quando ao abrirem uma caixa velha e coberta de pó encontraram lá dentro o chapéu! Todos se lembravam tão bem. Nessa noite sentaram-se à mesa (com o chapéu), a contar histórias sobre o Avô. Tantas contaram que os mais novos adormeceram à mesa. E foi aí que o neto mais velho, que já tinha casamento marcado, pediu aos pais para guardar o chapéu do Avô de quem gostava muito. Todos concordaram...

Qual não foi o espanto de toda a gente quando este neto brincalhão apareceu no seu próprio casamento com o chapéu do Avô na cabeça! Todos os primos se riram, todos os tios gostaram, todos os convidados comentaram e até aquela tia mais velhinha e taralhoca o confundiu com o seu Avô. Não podia ter feito maior sucesso. Depois do casório o chapéu acompanhou-o para a festa. E foi aí que ele brilhou. Foi a alma da festa! Tudo e todos queriam experimentar o chapéu do Avô Fausto. Dançavam com ele, comiam com ele, houve mesmo um parzinho que tentou fugir com o chapéu para um cantinho mais escuro.

(continua)

BG

Explicação que peca por tardia

Quando iniciei esta nova fase do Adeus, até ao meu regresso... as 5ªs feiras eram pertença da Mónica Bello. Por motivos que se prendem, sobretudo, com a sua vida profissional do momento, a Mónica não tem podido colaborar. Assim, decidi criar uma espécie de dia de fado vadio ou, na gíria utilizada em bares com música ao vivo (e que o meu filho me ensinou) open mic night.

Até que a bloguista desaparecida entenda voltar, este dia continuará a ser aberto a quem se oferece, ou que eu convido. É gente com gosto pela escrita, gente nova (já tivemos uma jovem que termina agora o 9º ano), gente com experiência de vida. No fundo, gente que sente este desafio do alinhamento das palavras e nem sempre tem palco onde representar.

Tal como disse relativamente a outro blogue, o Adeus... é como um albergue espanhol. São todos bem-vindos desde que tragam farnel.

JdB

17 junho 2009

Largo da Boa-Hora

Como vem sucedendo em todos os anos, passei os feriados de Junho numa estância balnear a desfrutar a família, os amigos, a praia, o sol e o mar.
Dias magníficos de descanso, distracção e renovação.
Mas o que me inspira esta crónica não é a exaltação da “vida de praia”, que é essência de mim, mas uma constatação que me surpreendeu e que, de certa forma, me perturbou.
Ao longo da vida, estes lugares de férias, frequentados sazonalmente com fidelidade, adquiriram uma “mística” própria e exclusiva que os identificava e distinguia dos outros congéneres.
O lugar de veraneio que ao longo dos anos fosse o nosso, era percepcionado, sentido e vivido como um espaço “próprio”, constitutivo da nossa entidade, integrante do nosso mundo. A universalidade desse local formava um todo que nos pertencia e ao qual nós pertencíamos, numa relação de posse e propriedade, constantemente afirmada e confirmada ao longo dos anos.
Com o “sítio” eleito estabelecia-se uma relação de essência, de intimidade, de identificação, que o tornava coisa fraterna, preferida, única e exclusiva.
O “eu “ e o “sítio” eram companheiros e amigos, em anos e anos seguidos de fidelidade, de encontros religiosamente repetidos, com separações por tempo e razões sabidas e certas.
Ao “sítio” o “eu” dava a presença, a acção da sua vida, o percurso do seu crescimento e amadurecimento, deixando espalhado pelas calçadas, areais, ondas do mar, banhos de lua, esplanadas, e por todo o espaço e tempo, os sonhos, os amores, as alegrias, as esperanças, os feitos e as glórias, os insucessos e os falhanços, o riso e o choro, o encontro e o desencontro. Em suma, o “sítio” recebia e guardava do “eu” a memória de um tempo que ia passando no acontecer de uma vida.
Em cada verão, e num ápice, o “sítio” acolhia as confissões do inverno que ficara para trás, e sustentava os ideais, sonhos e projectos para o tempo vindouro. Logo nos primeiros dias, o passado era absolvido e o futuro prometido, senão mesmo garantido, ficando então o presente para ser vivido nesse enlevo com o “sítio”.
O “sítio” era o guardião da vida passada, a génese do optimismo para o futuro e o palco da felicidade presente. Tudo, pois, azul.
E o “sítio”, o que dava ao “eu” em contrapartida do que este lhe entregava?
É na conclusão desta contrapartida que me emaranho em análises e vejo e revejo tudo, para concluir que essa retribuição, em que se alicerçava e que permitia a relação estabelecida, era afinal muito simples, mesmo muito simples.
O recebido pelo “eu” era a perenidade, a constância, a imutabilidade do sítio.
Em cada reencontro ele estava como fora deixado a cada partida, tudo na mesma para viver o mesmo.
Cada reencontro era um voltar para o colo protector, para o regaço de uma mãe eterna, que sempre estava e estaria à espera, para um acolhimento de consolo, de mimo, de paz e tranquilidade, para serenar e animar.
Este sentir uma terra como colo materno provinha de, ao chegar, sentir estar-se a alcançar quem espera, sem se modificar, sem se transfigurar, para ser logo reconhecida e querida, para desde longe correres sem hesitações para os seus braços por reconheceres todos os traços desse regaço desejado.
As mesmas ruas, casas, igreja, monumentos e jardins, as mesmas lojas, praia, doca, barcos. O sol, o mar e o céu de sempre
Os sons, os cheiros, as cores, os ventos e aragens, as sombras e os soalheiros, sempre conformes com aqueles que a memória chamava nos momentos de saudade.
As pessoas de lá (habitantes, transeuntes, comerciantes, artífices, pescadores e gentes de docas, banheiros, e vizinhos) sempre os mesmos, sempre idênticos, sempre reconhecidos e que nos conheciam. Lá, as crianças permaneciam crianças, os jovens mantinham-se jovens, e os velhos estavam somente um pouco mais velhos, mas tudo com ínfimas variações que não afectavam o quadro de conhecimento, intimidade, reciprocidade, cordialidade e simpatia, caldeado por anos de contacto e companhia.
As pessoas veraneantes formavam uma “tribo” que se identificava e reconhecia como tal e agia em ritos de grupo, em matilha, numa partilha de espaços, tempos e modos de acontecer que fraternizava a relação grupal.
Essa perenidade, estabilidade, durabilidade, previsibilidade do “sítio”, conferia ao “eu” inestimável segurança, serenidade, equilíbrio, calma e, sobretudo, paz.
O reencontro no presente com o que foi o nosso passado gerava a tranquilidade de se ser e pertencer a algo que nos surgia eternamente nosso, disponível, hospitaleiro e desejado.
Nada pacificava mais do que ocupar o mesmo pedaço de areia na praia, olhar à volta e ver os mesmos de antes, conhecer cada canto e recanto do lugar e das pessoas que o animavam; numa síntese: poder não privar com ninguém e com todos falar, poder andar sem dinheiro e tudo comprar, poder andar sem chaves e em todo o lugar entrar.
Pois é, mas esses “sítios” acabaram, perderam-se, deixaram, pura e simplesmente, de ser assim.
Numa voragem tudo se perturbou, corrompeu, modificou e transformou.
As casas e edificações que eram as referências passaram a blocos de apartamentos, os espaços livres foram ocupados, as ruas foram esventradas por avenidas, as lojas são de ramo ou natureza diferente, as rotinas acabaram, o toldo é chapéu-de-sol, o banheiro é nadador-salvador, o cliente é consumidor, o interesse pelos “pequenos” pela “senhora” e pelos “paizinhos”, passou à pergunta quantos são? e, sobretudo, como vai a saúde do cartão de crédito.
Num ápice, a sólida e fiável civilização ancestral (porque durou a vida do “eu”) transformou-se numa plataforma de circulação de pessoas e bens, anónimos, indiferentes, misturados, alienados, indiferentes. Tudo é, definitivamente, “pastiche”, um deambular de anónimos entre anónimos.
Os “sítios”, de tantos revolvidos e adubados de novidades, secaram, desertificaram, e hoje são pedaços na vida de alguém, mas nunca mais refúgios de essência, guardiões de memória, recantos de história.
São plataformas logísticas na indústria das férias.
Se reflicto sobre isto não é por saudosismo, não é por renegar o processo e desenvolvimento, não é por ser contra a democratização e maior acesso de todos a tudo. É apenas porque sinto e sei quanto o sítio foi importante para mim, e temo que a falta dele possa ser bem marcante e penosa para os jovens que nunca o conhecerão.
Crescer e tornar-se adulto sem “sítio” e “tribo” é um desafio imenso para a juventude. Não os invejo.

ATM

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