31 julho 2009

oração pagã

se é obra tua,
que assim seja.
publica-a onde o vento a leve.
não sejas lenta nem rápida,
não sejas longa nem breve.
deixa-te fielmente acontecer.
despede-te, depois, de ti,
renasce outra vez,
com palavras fortes e cheias
feitas de marés e luas mansas.
e de tudo o mais que em ti falta,
e de tudo o mais que de ti sobeja.

volta atrás,
despe-te agora do artifício,
reiventa o deserto em cores impossíveis,
e simples.
faz o milagre acontecer em tua casa.
sê árvore, ave, gota, filamento.
levanta de ti mesmo vôo.
faz deste lugar a hora suprema,
agarra com limpidez, ternura e febre
este outro tu - puro e sedento -
escuta o tempo e o que ele te diz:
é este, para sempre, rapariga,
o teu único e verdadeiro momento.

gi

30 julho 2009

Quem és tu, ó Morte ?


Falar da morte não é fácil, por várias razões. É um tema ainda tabu, na nossa sociedade e levianamente associado a bruxarias, espiritismos e afins. É uma realidade que todos sabem existir, mas ninguém conhece de facto, uma realidade da qual ninguém pode falar com conhecimento de causa. É um tema triste, inquietante, profundo, sobre o qual se fazem inúmeras conjecturas. É um tema que desperta raivas e revoltas, quando a morte surge inesperadamente, extemporânea. Paradoxalmente, a mesma morte pode trazer alívio e libertação.

É algo para o qual o ser humano, simplesmente, nunca estará preparado. A nossa essência é viver, é dar e receber vida, é mantermo-nos agarrados ao sopro da vida, mesmo quando esse sopro balança, trémulo, como uma fina teia de aranha.

Dizemos, repetidamente, tenho medo de morrer, não quero morrer.

Esvaziamo-nos com a noticia de uma morte próxima. Rezamos, choramos, imploramos para que a morte de um ente querido não chegue e, quando chega, todo o nosso mundo desaba, como se tudo o que houvesse estivesse dependente dessa vida que agora parte.

Revoltamo-nos contra Deus, contra os políticos, contra os médicos e contra a natureza sempre que a morte nos aparece de forma injusta, imposta, sofrida ou violenta. Revoltamo-nos contra nós próprios porque não previmos a sua chegada. Revoltamo-nos contra a própria morte, pelo simples facto de existir. Sempre este sentimento de revolta, de não aceitação, de espanto, de knock-out, Será que, alguma vez, o ser humano conseguirá olhar para a morte e aceitá-la sem qualquer revolta ?

Quem és tu ó Morte, que tanto poder trazes em ti ? Nos atormentas, nos desinstalas, nos intoxicas, nos violentas, nos atravessas as entranhas, sem dó, sem piedade. Vens cheia de ti própria, convicta da tua autoridade, destrois sonhos, divides famílias, espezinhas esperanças ... e afinal, quando te queremos ver, quando te queremos palpar, quando te queremos cheirar... que encontramos? Um grande NADA. Um buraco negro. Um vazio. Algo que realmente não existe. A morte, por si só, não existe. Se a morte é o oposto da vida e a vida é para nós tudo, então, aquela é nada.

Enquanto que a vida, por si só, existe e é real - podemos ver, palpar, cheirar uma criança que acaba de nascer - a morte não tem cor, não tem rosto, não tem cheiro; em última instância, podemos afirmar que o poder da morte revela-se na medida da importância que lhe dermos. Podemos olhá-la e deixá-la apoderar-se de nós, das nossas emoções, da nossa sanidade, da nossa espiritualidade ou podemos enfrentá-la, numa atitude sobranceira e distante, e dizer-lhe: reduz-te à tua insignificância, o teu poder vem de mim, só és forte se eu te der importância.

Ao longo da minha vida, vivi a partida de cinco ou 6 familiares, três dos quais muito chegados a mim. A forma como vivenciei essas mortes, desde os meus 17 anos aos actuais 50, ilustra bem aquilo que acabo de escrever e quem, nos dias de hoje, me conhece, sabe bem que consigo dizer à morte “reduz-te à tua insignificância”, porque, afinal, aquilo que eu julgava ser um Adeus é, antes, um Até Breve.

maf

29 julho 2009

Et maintenant

Há algumas semanas falava com o meu querido e estimado amigo ATM sobre a existência do blogue durante o período de Verão, em que o País vai a banhos. No decurso da conversa, contou-me que tinha ouvido uma entrevista na telefonia (já não é assim que se diz, pois não?) durante a qual se tinha falado nesta música. Alguém, a quem a vida tinha corrida ao contrário do que desejaria, revia-se fortemente na letra.

Aqui fica, por isso, o grande Gilbert Bécaud. Para os nostálgicos da boa música francesa, mas também para os nostálgicos da vida, que se olham ao espelho onde vêem uma interrogação: e agora...?



Et maintenant que vais-je faire /De tout ce temps que sera ma vie / De tous ces gens qui m'indiffèrent / Maintenant que tu es partie

Toutes ces nuits, pourquoi pour qui / Et ce matin qui revient pour rien / Ce cœur qui bat, pour qui, pourquoi / Qui bat trop fort, trop fort

Et maintenant que vais-je faire / Vers quel néant glissera ma vie / Tu m'as laissé la terre entière / Mais la terre sans toi c'est petit

Vous, mes amis, soyez gentils / Vous savez bien que l'on n'y peut rien / Même Paris crève d'ennui / Toutes ses rues me tuent

Et maintenant que vais-je faire / Je vais en rire pour ne plus pleurer / Je vais brûler des nuits entières / Au matin je te haïrai

Et puis un soir dans mon miroir / Je verrai bien la fin du chemin / Pas une fleur et pas de pleurs / Au moment de l'adieu

Je n'ai vraiment plus rien à faire / Je n'ai vraiment plus rien ...

28 julho 2009

História para pintar – V

O vê dos patos acaba a tarde num silêncio leve.
As árvores quietas
espalmam sobre o rio o lado errado
e o sol pôs-se, mais uma vez, a divagar
entre o laranja, o violeta e o encarnado.

JCN

27 julho 2009

Músicas dos dias que correm

Adeus: alerta, anúncio, aviso

Durante as próximas semanas - seguramente até ao início de Setembro - o Adeus, até ao meu regresso... mantém-se aberto, mas algumas das suas rúbricas poderão surgir irregularmente. O Largo da Boa-Hora, por exemplo, encerrou para gozo merecido de férias.
Vão aparecendo, porque haverá sempre qualquer coisa para animar as hostes.
O editor e dono deste estabelecimento agradece a preferência dos seus leitores.

JdB

26 julho 2009

XVII Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Ao preparar mentalmente as poucas linhas - e certamente pouco inspiradas, também - que escreveria para este post, ocorreram-me dois pensamentos que não terão, provavelmente, muito a ver com o Evangelho de hoje. Mas fui assaltado por uma onda de alguma simplicidade, porque a vida é feita, muitas vezes, de trivialidades.
Vou olhando para a minha existência e para a dos que circulam em meu redor, e gosto de relembrar algumas palavras que, bem conjugadas, farão uma boa redacção do que deveria ser a nossa caminhada: amor, perdão, tolerância, solidariedade, caridade, atenção, compreensão, fidelidade, princípios, humildade, despojamento. Eu sei, eu sei... Só a dactilografia destas virtudes é que é um exercício simples. A sua aplicação prática é mais complicada - ainda que não impossível. É um exercício diário, porque a procura da santidade não obedece a sazonalidades nem ao conceito de semana inglesa.
Numa dada altura da minha vida falava a noivos que estavam prestes a casar. Tenho pouco a ensinar aos outros, porque em muitos casos nem para mim sei, mas gostava de olhar para eles e imaginar-lhes licenciaturas, profissões liberais, cargos de chefia, carreiras promissoras. E durante a minha intervenção referia - entre outros - dois pontos, que a minha experiência sabia serem certos:
- não detemos nada; tudo o que temos e somos nos foi cedido para o pormos ao serviço do bem comum, do nosso próximo, dos mais necessitados;
- o mundo está cheio de advogados, engenheiros, médicos, professores competentes; o que os distingue dos outros é a forma como exercem o seu mister, como se relacionam com colegas, chefes, subordinados, fornecedores ou clientes. O mérito não está só na competência, mas no modo como a aplicamos.

EVANGELHO – Jo 6,1-5
Naquele tempo,
Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia,
ou de Tiberíades.
Seguia-O numerosa multidão,
por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte
e sentou-Se aí com os seus discípulos.
Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos
e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro,
Jesus disse a Filipe:
«Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
Dizia isto para o experimentar,
pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Respondeu-Lhe Filipe:
«Duzentos denários de pão não chegam
para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro:
«Está aqui um rapazito
que tem cinco pães de cevada e dois peixes.
Mas que é isso para tanta gente?»
Jesus respondeu: «Mandai sentar essa gente».
Havia muita erva naquele lugar
e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães, deu graças
e distribuiu-os aos que estavam sentados,
fazendo o mesmo com os peixes;
E comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados,
Jesus disse aos discípulos:
«Recolhei os bocados que sobraram,
para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos
com os bocados dos cinco pães de cevada
que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera,
aqueles homens começaram a dizer:
«Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei,
retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.


JdB

25 julho 2009

Até à morte, Dr. Joaquim Teixeira de Vasconcelos?

Teria sido um erro. A inaptidão para os números, o tédio das ciências exactas, o horror às fórmulas. Trabalhar na terra, cumprir a lavoura, olhar os campos cultivados, esperar as colheitas. Catar cães e gatos, vigiar o gado, ir aos ovos, acarinhar uma ninhada, tirar o leite, rachar lenha. Adubar, sulfatar, sachar, regar. Era a minha vida, mas teria sido um erro. A agricultura precipitou-se, afinal, no abismo e morreu. O canudo de nada serviria. Foi duro apartar-me das pulgas e das ervas, e apanhar o comboio. Na cidade, novas colheitas e outros trabalhos, nunca desataram o nó. E o tempo trouxe-me um sonho, mais e mais persistentemente sonhado. Gostava que os homens do meu País me dessem o braço, erguessem os canudos, e voltassem a lavrar os campos, a ver crescer o pão, a comer o que é seu, a amar a terra abandonada.

Jamais esquecerei o momento em que um novo personagem quer substituir-se à nossa pessoa verdadeira. É o momento em que nos separamos da Natureza e nos adaptamos à sociedade. Essa transição do natural para o artificial é uma tragédia em certos temperamentos enraizados no âmago da terra. É uma tragédia que vai até à morte.

Teixeira de Pascoaes, in LIVRO DE MEMÓRIAS

DaLheGas

24 julho 2009

as manhãs de lisboa

eram oito e cinquenta e nove desta manhã
quando o polícia de giro descruzou a perna
para melhor simular a sumptuosa autoridade
de quem faz rimar ao acaso pistola e taberna.

esta manhã, pelas oito e cinquenta e nove,
de perna já descruzada e sorriso engatilhado,
o polícia de que falávamos faz alto a um táxi
e apruma a autoridade, por si mesmo deslumbrado.

juro que eram oito e cinquenta e nove, juro,
quando o polícia surpreende - e logo surpresa xxl.
ajuda uma velhinha a entrar no táxi lá de trás
- onde se lia pistola, leia-se agora favo de mel.

oito e cinquenta e nove minutos - já vos disse?
era vê-lo, todo garboso e finamente aprumado,
despedindo-se da velhinha com uma continência
e dando ordem de 'siga', ao taxista embasbacado.

pela última vez: oito e cinquenta e nove da manhã,
vi com estes olhos que tão mal sabem por vezes ver:
ainda há esperança para a tão pitoresca polícia,
pelo menos enquanto em lisboa não amanhecer.

percebem agora as oito e cinquenta e mesmo nove?
(one minute to nine, yes it could be said that way)
afinal um minuto depois eram já umas exactas nove,
do polícia, taxista e velhinha não mais se soube,

mas deixaram-nos uma coisa que só eu sei..

gi

23 julho 2009

Carta ao presidente Obama

Já sabemos que a internet dá a volta ao mundo. Mas eis o próximo desafio: ir à Lua!
Siga a pista aqui, no site do i.

Mónica Bello

Natureza

O dono deste estabelecimento pediu-me que escrevesse um texto sobre aspectos menos turísticos da Suécia, país que visitei recentemente em férias. A título de enquadramento, por definição generalista, começaria por dizer aquilo que toda a gente já sabe ou imagina: que é um país lindíssimo, cheio de gente bonita, loira e esguia, bebés de revista, água por todo o lado e verde a perder de vista. Barcos à vela, design e mais design, casinhas de madeira todas iguais, em tons de vermelho escuro, branco ou amarelo pintaínho, supermercados recheados de bons produtos orgânicos e salmão fumado, muita ordem, ruas imaculadas, céu cinzento ou azul suave e fotografias dos Bernardotte por todo o lado…

Não posso dizer que tenha delirado com o país. O sol faz-me falta. Mais pessoas, o barulho e uma certa desordem também …. Mas lembro-me de estar sentada num banco de madeira em Visby (capital da ilha de Gotland), a olhar o mar muito azul nesse dia, um azul já quebrado por um fim-de-tarde de nearly mid-Summer, e sentir intensamente, mesmo intensamente, que a Paz não é uma abstracção ou um sonho irrealista, mas sim uma pura e total realidade. A corroborar os meus pensamentos mais íntimos diz-me uma amiga minha, sentada ao meu lado: aqui se vê a obra do Criador.

É nestas alturas em que estamos sós, perante a beleza e a tranquilidade da Natureza, em paz connosco e com o mundo (talvez porque o deixámos para trás!..), que sentimos que a guerra não faz sentido e que não viemos a este mundo para estragar o que nos foi oferecido para usufruirmos em conjunto. É nestes minutos de absoluta quietude, em que a beleza nos entra pelos sentidos e por todos os poros, que realizamos o quão estúpidos, comezinhos e inúteis tantos dos confrontos e atritos do nosso dia-a-dia são. Nestes momentos sentimos que a Vida é um dom, que a Paz é uma realidade que está dentro de nós, e que precisamos de muito pouco para sermos felizes. É nestas alturas de contemplação e beleza que o sentir se sobrepõe ao pensar.

Sentir engloba, pensar separa. É pois assim, através deste sentir que tudo agrega, une e amplia, que “vemos” mais longe e que conseguimos chegar a “paragens” que nos estão vedadas habitualmente, porque, pura e simplesmente, nos deixamos enrolar nos afazeres do dia-a-dia e não deixamos que este Vazio salvífico aconteça.

Um amigo meu diz-me, já há muitos anos, que fica “curado” ao fazer a Marginal todas as manhãs. E que a Natureza é fundamental para o seu equilíbrio. Tenho vindo a aperceber-me disto nos últimos anos (será da idade?...). A Natureza cura. Da mesma maneira que há amores que curam mágoas e feridas profundas, também a Natureza, talvez porque espelhe o Amor do Criador, tem esta capacidade de suavizar o nosso choro.

Adoraria ser poeta. Mas como não tenho essa habilidade de transformar o meu sentir em palavras comoventes e universais, prefiro socorrer-me de três apaixonados pela Natureza que, melhor que eu, pensaram e reproduziram o seu sentir para nosso deleite.

No dia em que o homem compreender ser filho da Natureza, irmão dos bichos da Terra, dos pássaros do Céu e dos peixes do Mar, nesse dia ele compreenderá sua própria insignificância e, realista, será mais humano, mais simples e mais solidário. – Oscar Niemeyer

O Inverno ia terminar. Os ventos eram ainda frios, por vezes; a brisa quente da nova estação soprava bruscamente do sul e o céu tornava-se azulado; depois de um longo silêncio ouvia-se novamente o som das flautas e a música da aldeia. Os barqueiros deixavam ir os barcos ao sabor da corrente, paravam de remar e entoavam cânticos a Krishna. Era a Primavera. – R. Tagore.

Sou um guardador de rebanhos / o rebanho é os meus pensamentos / e os meus pensamentos são todos sensações / penso com os olhos e com os ouvidos / e com as mãos e os pés / e com o nariz e a boca. / Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / e comer um fruto é saber-lhe o sentido. / Por isso quando num dia de calor / me sinto triste de gozá-lo tanto / e me deito ao comprido na erva / e fecho os olhos quentes / sinto todo o meu corpo deitado na realidade / sei a verdade e sou feliz. – F. Pessoa.

PCP

22 julho 2009

Hier encore, no Largo da Boa-Hora

Há momentos na vida de cada um de nós que são um frágil equilíbrio entre o estar e o não estar, entre o sossego e a inquietude, entre a serenidade e o espanto. Tudo apontava para que o Largo da Boa-Hora abrisse hoje ao público antes de rumar a férias. Uma sucessão estatisticamente improvável de eventos impede essa abertura. Como editor e dono deste estabelecimento cabe-me satisfazer, com o maior gosto, o pedido do bloguista das 4ªs feiras. E por isso vos apresento Monsieur Charles Aznavour cantando Hier Encore.
Aos dois minutos e nove segundos o arménio que quis ser francês canta assim:

Hier encore
J'avais vingt ans
Je caressais le temps
Et jouais de la vie
Comme on joue de l'amour
Et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours
Qui fuyaient dans le temps

Fica aqui o abraço com que envolvo o Largo da Boa-Hora.

JdB

21 julho 2009

História com restos de vida – V

Ficou no espelho vazio
um nome estranho.

Redimo numa consolação
o desencontro:
ás vezes a verdade
trai a falta de jeito
para os tempos tristes.

JCN

20 julho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia mundial da previsão meteorológica,

A menina do boletim meteorológico já tinha alertado, apontando, com um ar sabedor, as isóbaras e os anti-ciclones que se deslocavam no ecrã a uma velocidade perturbadora, enrolando-se sobre si próprios como um bichinho de conta; os jornais enchiam primeiras páginas com títulos a negrito e corpo de letra grande e ameaçador, entrevistando especialistas na matéria e reproduzindo artigos científicos publicados nas maiores universidades; os ministros da tutela afadigavam-se em conferências de imprensa a horas certas, revelando, com orgulho, a acção atempada do governo. O tom era grave, a voz séria, o semblante carregado.

Por todo o país – das grandes empresas à pequena indústria, dos impérios financeiros às lojas de bairro – a preocupação era una e inequívoca. Pela primeira vez desde o Euro de Scolari, a nação irmanava-se num desígnio colectivo, como se entre o Minho e o Algarve (considerando que Timor já pertencia a outro campeonato) se juntasse o povo todo no cais das colunas a soprar na direcção das velas que se enfunam.

De norte a sul, das Câmaras Municipais às paróquias, passando por seitas religiosas, ONG’s, instituições de solidariedade social, clubes desportivos, a linguagem era uma só, com uma gravidade inequívoca, abordando o tema que abria telejornais e provocava o encerramento tardio dos matutinos.

Por aqui e por ali, empreendedores perspicazes reuniam-se para explorar nichos de mercado, oportunidades de negócio, novos canais de distribuição. O país andava e repousava ao ritmo de uma informação forte, pesada, preocupante, tórrida:

Espera-se, nos próximos dias, uma vaga de calor invulgar, que obrigará a cuidados especiais em grupos de maior risco, nomeadamente a camada da população mais sensível e fragilizada, os velhos e as crianças.

Aqui, nesta fábrica da ilusão, o prenúncio de temperaturas raras e profundamente incomodativas também se fez sentir, porque o calor não só dilata os corpos, como preocupa as mentes. As meninas, estas operárias do prazer, deitaram-se mais amiúde aos banhos, como se a transpiração fosse consequência, também, daquilo que se imagina. Reforçou-se o stock de águas e de gelo, escreveram-se normas de execução permanente relativamente à higiene de uma actividade deste género, fizeram-se recomendações várias e precisas. De dentro do seu gabinete, numa labuta avaliadora dos potenciais efeitos da vaga de calor no negócio da Casa, a Dr.ª Clara gritou, num exercício de autoridade e previdência que não deixava margem para dúvidas:

- Amália! Chame-me a empresa do ar condicionado para uma revisão urgente da instalação.

O dia seguinte amanheceu quente, não augurando frescura pela tarde. Talvez já fosse a tal vaga a invadir o país, secando fontes e enchendo praias. A revisão dos aparelhos começou de manhã cedo, desalojando as meninas que se agitavam num frenesim enervado. A Dr.ª Clara distribuía ordens para a esquerda e para a direita, retirando-me do sossego da recepção e obrigando-me a coxear numa maratona dolorosa.

Quando cheguei ao fim do dia, exausta da cabeça e do corpo, olhei para a rua onde estava a carrinha da empresa de manutenção. Não consegui deixar de sorrir perante o anúncio que enfeitava a lateral da viatura. Numa associação mental excepcionalmente rápida para o cansaço em que me encontrava, fui à procura do técnico. Vi então um homem novo, invulgarmente bonito, com um corpo que faria inveja a qualquer atleta, e um cabelo impecavelmente penteado para o lado. Sorriu-me e despediu-se, estendendo-me uma mão forte, mas bem tratada. Olhei para o corredor que dava acesso aos quartos e tenho a certeza de ter visto algumas raparigas com um ar particularmente bem-disposto. Riam, cochichavam, empurravam-se umas às outras. Talvez fosse do calor, não sei.

Lá fora, a carrinha desaparecia numa curva, revelando, ainda, uma frase no mínimo curiosa – ou elucidativa.

Na ar condicionado Baptista, cada técnico é um artista

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

19 julho 2009

XIV Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Vão perdor-me os meus fieis leitores, mas, em dia de desinspiração, nada como dar a voz a quem sabe. Comentários retirados daqui.

A comoção de Jesus diante das “ovelhas sem pastor” é sinal da sua preocupação e do seu amor. Revela a sua sensibilidade e manifesta a sua solidariedade para com todos os sofredores. A comoção de Jesus convida-nos a sermos sensíveis às dores e necessidades dos nossos irmãos. Todo o homem é nosso irmão e tem direito a esperar de nós um gesto de bondade e de acolhimento. Não podemos ficar no nosso canto, comodamente instalados, com a consciência em paz (porque até já fomos à missa e rezámos as orações que a Igreja manda), a ver o nosso irmão a sofrer. O nosso coração tem de doer, a nossa consciência tem de questionar-nos, quando vimos um homem ou uma mulher (nem que seja um desconhecido, nem que seja um estrangeiro) ser magoado, explorado, ofendido, marginalizado, privado dos seus direitos e da sua dignidade. Um cristão é alguém que tem de sentir como seus os sofrimentos do irmão.

EVANGELHO – Mc 6,30-34
Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

18 julho 2009

Um dia um homem também chora

A tua guerra, essa luta que travas contra mim, contra todos a quem chamas oponentes, é só tua. Começou, eras menino. Houve uns olhos que te olharam e a denunciaram, um coração em desespero que a partilhou contigo, uma boca que não conseguiu calar a voz amargurada da angústia. Há muitos homens em combate como tu. Que arremessam pedras, disparam tiros e põem bombas durante uma vida inteira. Cegos de raiva. Em toda a esquina topam o inimigo, em cada alma auguram o traidor. Carregam desde meninos a dor de alguém que amaram e que os amou, devolvem-na ao mundo, espalham-na à sua volta, sem nunca duvidarem do que sentem. Erguem o indicador sobre quem estiver à mão, em pequena ou grande falha, ignorando que nesse gesto outros quatro dedos apontam, na sua própria direcção. Não reparam, ocupados que estão na sua douta opinião. “Estarei equivocado?”, é questão que não reclama naquelas mentes. As guerras vêem de longe, sim. Destroem o teu mais intenso amor, a tua paz, a fraternidade que tantas vezes apregoas. Há muito, muito tempo, eras tu tão pequenino, e foi profundamente injusto, insano, inconsequente.

Homens, procurem a origem do vosso inferno. Persigam a razão da vossa guerra. Revejam, tim-tim por tim-tim, o que assistísteis quando meninos. De que misérias fostes vós testemunhas caladas entre os jogos de bola, o caminho da escola, os fins de tarde, as manhãs de sábado, os passeios de domingo, a ida à missa? No vosso quarto, à mesa de jantar, no silêncio aterrador da madrugada? Do que sentistéis, talvez não tereis lembrança. Ou surgirão vagas recordações de uma criança simplesmente amedrontada. Mas ficai certos: dentro de vós, como num papiro milenar, se guardam tais vivências descritas ao milímetro. Têm a forma de terríveis consequências e poder sobre a vossa condição. Desabrocham como ervas daninhas entre as vossas opiniões, acções, reflexões. Toldam o timbre das vozes e manipulam os gestos mais naturais. Homens, não se detenham. Procurai a origem do vosso inferno, a razão de toda a guerra, e voai, sem medo.

DaLheGas

17 julho 2009

os poetas dos 30 anos

dizem aqui ao lado, que digo?, zombam,
que a poesia é matéria ilusória,
não sacia a fome, não mata a sede e,
se porventura formos metafóricos,
mesmo o espírito é discutível, menina.

dizem aqui ao lado, que digo?, rosnam,
que a poesia é altamente perigosa,
ilusão alienante que faz lembrar
aquela matéria que nas bds da infância
se chamava o ouro dos tolos, menina.

dizem aqui ao lado, que digo?, cospem,
que a poesia e os seus promitentes poetas
são uma cambada de vencidos da vida
frequentadores de modernos pardieiros estéticos
à falta de trabalho e melhor ocupação, menina.

dizem aqui ao lado, que digo?, hesitam,
que o problema é afinal outro:
- poesia? nada contra, menina.
o problema é já 'não se ser menina',
o problema é chegarmos aqui,
trinta anos, umas assoalhadas algures,
trinta e um anos, um carro vistoso,
trinta e dois anos, um emprego bafiento,
trinta e três anos, a idade de Cristo..

a partir daqui, menina,
já estamos a mais.
a partir daqui, menina,já somos a menos.
finam-se as possibilidades surreais,
enterram-se os sonhos de grandeza,
louvam-se as minúsculas alegrias,
cultivam-se as rimas que não riem
e os risos que não rimam.

o problema da poesia é simples:
não serve para nada, é dandismo puro,
devaneio de quem pode pensar em algo mais
que a bucha e os trocos do dia.
neo-realismo pós-moderno,
manuel de freitas, sem profundidade,
josé miguel silva, sem latitude,
dizem aqui ao lado, que digo?, acusam.

tristes patetas,
e, o pior de tudo, impotentes
estes poetas dos trinta anos.

ontem, liguei a televisão,
espreitei a selecção da albânia,
pensei no que seria se tivesse nascido em tirana.
vi o nosso treinador perdido,
impotente,
sem saber o que fazer.
(aposto que é rapaz para mais de trinta anos).

desligar a televisão,
desligar dos jornais,
desligar a rádio,
desligar o mundo.ir treinando, em vida, em jogo,
eles e nós,
a não qualificação.

o problema da poesia, vendo bem,
não é ser nada.
o problema da poesia
é dizer o nada,
na esperança louca e fugidia,
de que o extremo exercício da beleza*
seja, afinal,
uma janela.

passado, presente e futuro,
guarda de honra e exército,
puros-sangues,
galgos por inventar,
cores impossíveis,
uma saída.

mas há uma saída, menina?**


* verso adaptado de Herberto Helder, com profunda admiração.
**verso adaptado de Rui Pires Cabral, com profundo respeito.

gi

16 julho 2009

Encantamento

Mais que o sorriso de uma criança a brincar,
Ou o olhar enternecido da Mulher que se fez Mãe;
Mais do que o choro de um bebé, ao nascer,
Ou o abraço apertado daquele que vai partir ...
Tu me encantas, meu Amor

Mais do que a aurora resplandecente no horizonte
Do que o fogo vivo do pôr do sol.
O verde dos prados que de orvalho se cobrem
Ou a suave frescura da chuva a cair ...
Tu me encantas, meu Amor

Tu me encantas meu Amor, com os teus gestos delicados
Teu sorriso de menino, teus olhos enamorados;
Braços teus que me enlaçam num abraço profundo e terno
E este corpo que era meu ...
Já não me pertence; para sempre fundiu-se no teu.

Mais do que a semente que brota da terra
E em flor germina, viçosa, colorida.
Mais do que o toque suave das suas pétalas
Ou o perfume inebriante que lhe dá vida ...
Tu me encantas, meu Amor

Mais do que a força impiedosa dos oceanos
Ou a tranquila ondulação da maresia;
O reflexo da lua num mar que se faz prata
Ou o grito longínquo da baleia e sua cria ...
Tu me encantas, meu Amor

Tu me encantas meu Amor, com palavras de doçura
Invades o meu coração nesta paixão que é loucura;
Braços teus que me envolvem, me elevam aos Céus
Neste voo sufocante que me aperta, me asfixia
E num esforço derradeiro de um último sopro meu
Descubro que o ar que respiro era, afinal, o teu.

Mais do que o espectro de luzes que dá vida ao arco-íris
Do que o esplendor de um raio que, do Céu, se vê rasgar.
Mais do que o brilho alvo e puro, translúcido, do diamante
Ou mil feixes de luz à deriva no mar ...
Tu me encantas, meu Amor

Tu me encantas meu Amor, com o teu beijo sensual
O teu toque delicado, o teu jeito sedutor;
Braços teus que me amparam como se fosse uma flor
E nesta sede de paixão, nesta ânsia de prazer
Os nossos corpos se unem, numa entrega inadiável
Marcando p'ra todo o sempre este amor inevitável.

maf

15 julho 2009

Outro olhar

Prendo o meu olhar no passado. É verdade, este não é extenso e, logo, a minha experiência de vida não é longa. No entanto, não considero esta desvantagem como algo que invalide a essência dos meus sentimentos.

Invocando o exemplo de uma criança, deparo-me com uma realidade assustadora: os seus sentimentos são tão mais simples, tão mais inocentes, mas tão mais puros do que os dos adultos. E desenganem-se: esta realidade não está associada à falta de experiência de vida ou à ingenuidade características. Apenas acontece porque as crianças olham o mundo de uma forma simples e fácil.

É tempo de voltar a pousar o olhar no passado. Já fomos todos crianças, já vivemos todos o maravilhoso tempo que é a infância, e já olhámos todos o mundo de outra forma, com um olhar tão diferente.

No entanto, a vida encarrega-se de afogar toda esta pureza, colocando-nos obstáculos no caminho que nos obrigam a fechar os olhos. Mas, quando os abrimos, tudo está diferente, com tons acinzentados e escuros. A nossa visão é mais negra.

Ou porque conhecemos a maldade, o desgosto, a traição, a desconfiança ou a mentira, os nossos olhos já não mais encontram a verdadeira essência de cada coisa que nos rodeia. É como um manto escuro, que sufoca qualquer visão relativa à verdadeira beleza, à beleza simples, à beleza primária. Assim, tal como os olhos se habituam à claridade, reagem rapidamente com naturalidade às visões maldosas e julgadoras com que se deparam.

E é aqui que a nossa intervenção, enquanto seres humanos, é fundamental e imprescindível. Um marinheiro não pode ficar imóvel perante um possível naufrágio do seu barco e, assim, também nós não podemos assistir à nossa mudança de uma forma impávida e serena. Temos que fazer mais do que isso, ir mais além. Aqui, apelo a uma recordação do passado como forma de ganharmos força e coragem para esta luta contra nós próprios.

O chilrear de um pássaro, a beleza de fazer um amigo na praia, as pétalas de uma flor, o murmurar das ondas ou um “amo-te” proclamado pelas nossas mães não eram coisas pequenas que nos faziam sentir enormes? Mas, com o tal manto preto a encobri-las, já não conseguimos ver a sua beleza, apenas maldizê-las e desconfiar.

Então, não era tudo mais bonito e puro com a nossa visão de crianças? Era, mas não quero conjugar este verbo no passado. É. Cabe-nos a nós decidir como queremos olhar o mundo. Basta rasgar o manto negro, e conseguimos apreciar a verdadeira beleza das coisas, a essência das suas origens e a pureza de cada ser.

Assim, garanto-vos, seremos felizes.

MTM

Explicação

Quem, como eu, é crente, acredita que há uma eternidade à nossa espera, uma espécie de infinito do lado de lá da curva do caminho. Mas não precisamos de fazer esse caminho para nos perpetuarmos. Basta, tantas vezes, olhar para quem nos sucede na continuação de uma família, de um nome, de um gene. Quando pegamos um filho nos braços pela primeira vez, os nossos olhos alcançam o invisível, vêem para lá de uma cortina de desfocado onde se queda o que é imediato e comezinho. De alguma forma não existimos por nós próprios - recebemos de quem nos antecedeu, entregamos a quem vem a seguir a nós. É nesta dádiva que se cumpre, tantas e tantas vezes, um destino, porque o resto é efémero, transitório, consumível. Há dias em que pegamos na caneta com que escrevemos as primeiras histórias e a colocamos numa mão mais frágil, menos calejada, mas em cujas veias percorrem fluidos que dominamos, porque são também os nossos. Há dias em que nos ocorre uma frase para justificar uma ausência:

- Vai. Hoje é o teu dia.

JdB (editor e dono deste estabelecimento) que sabe do que escreve.

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