sabes, carlos, hoje, em que te avisto daqui, és-me muito mais próximo do pudeste ser outrora, nos estádios improvisados da nossa infância, junto à escola, marcados na nossa imaginação como os mais perfeitos estádios de futebol.
'olha o macaco!', riam-se os petizes, enquanto te lançavam as imprecações violentas que a idade ainda desculpava. 'olha o macaco' era a expressão, carlos, com que te crismaram, padres de tenra idade, a treinar em meninos, os homens que viriam a ser, caça grossa e pontaria, toda a colossal brutalidade de que seríamos capazes.
esse 'macaco', que eras tu para eles, (que digo, para nós..), entrava em campo e, talvez fome de bola e falta de jeito, talvez fome de outras coisas que tentarei não escrever aqui à frente de ti e de todos, entrava em campo e chutava para todos os lados, na primeira direcção que o pé, desajeitado mas potente, era capaz de negociar com a bola.
não te percebíamos, na altura, e nunca te percebemos, acho eu. mas hoje, em que te avisto daqui, penso no quão certo tu estavas, infalível na brusquidão da força, impassível na violência do remate, intocado pelos dichotes da miúdagem, - como um sísifo sem patine ou caução histórica.
tentavas o teu melhor, à tua maneira, provavelmente. sabias que não nasceras com sorte, talento ou fidalguia, o que dá sempre jeito e vantagem. por isso mesmo, tentavas ser energia pura, uma possibilidade, instinto em combustão, bestialidade humana, na ponta do sapato que ardia.
hoje, carlos, 'macaco' que foste, estejas onde estiveres, vivo ou morto como eu, peço-te que me desculpes. e que do alto do sítio de onde agora me avistas, percebas que hoje eu, como ontem tu,
tentamos apenas não desistir, fazer o melhor que sabemos, apesar de sabermos que sabemos tão pouco.
Adorei o filme “Hairspray” (não gostando nada de musicais). Não sei se o viram, se passou cá em Portugal. Vi-o em Londres em 2007. É absolutamente brilhante do ponto de vista musical, coreográfico, de montagem, de ritmo … e no que transmite de boa disposição. Lembro-me de ter sorrido (e rido) do princípio ao fim do filme. Saí da sessão da noite com uma energia sem limites, com uma sensação de alegria e de gosto pela vida como não me lembro de alguma vez ter sentido ao abandonar um cinema.
Tudo se passa em Baltimore, EUA, no ano de 1962, por altura do aparecimento dos concursos televisivos. Não me lembro dos detalhes da história, confesso, mas sei que as questões do racismo e do corpo são a base do filme. Tratados, obviamente, da maneira mais ligeira possível.
Racismo porque tudo se passa numa comunidade tradicional e preconceituosa em que o “black power” se encontra em processo de afirmação (e ascenção) através da música, da dança e de uma cultura própria (não esqueçamos que se viviam os dias das conquistas de Martin Luther King). São também abordadas questões da imagem e do corpo, duas das grandes problemáticas do século XX, alimentadas à exaustão pela mítica Coco Chanel nos anos 20: ser magra é ser gira, sexy, chique e ter sucesso. Ser gorda é o oposto. Neste filme temos uma (espécie de) líder dos negros que é grande, poderosa e imponente (Queen Latifah) e uma actriz principal baixinha, gordinha e com pretensões a ganhar um concurso de dança muito popular, no qual participa também uma jovem loira, magra e atractiva, cuja mãe, a maquiavélica Michelle Pfeiffer, é esquelética e podre de chique. Adivinhem quem triunfa no fim do filme?!
No meio disto tudo vemos um John Travolta travestido de mulher, um Christopher Walken numa valsa delirante por entre lençóis estendidos ao luar, um Zac Efron a iniciar os seus primeiros passos como actor e um realizador (Adam Shankman), de quem nunca ouvi falar, mas que sabe muito bem o que faz.
Nos EUA, o sucesso do “Hairspray”, adaptado de um musical homónimo da Broadway de 2002, só foi ultrapassado pelo Grease, Chicago e Mamma Mia.
Se puderem alugar o filme, façam-no. É ideal para uma noite em família.
Há n músicas giríssimas e nem todas estão disponíveis no Youtube. Por isso vi-me mais ou menos restringida a estas duas. Vejam-nas até ao fim porque em ambos os casos há surpresas engraçadas (uma visão do John Travolta quase irreconhecível e a extraordinária mudança de ritmo, na interpretação da mesma música, ao ser cantada por brancos e pretos).
Na Casa gira do jardim das Amoreiras, onde as paredes das salas estão revestidas com as telas do casal pintor – Mª Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes – inaugurou uma exposição temporária(*) de outra pintora, amiga dos anfitriões: Mily Possoz (1888-1967).
Mily (Emília) era filha de pais belgas, mas começou a sua vida em Lisboa, antes de deambular por Paris, Bruxelas, Düsseldorf, Holanda, para aprofundar os estudos de Belas-Artes. Diferentemente de Vieira da Silva, voltou para Portugal, vivendo entre a capital e Sintra, de forma fixa a partir de 1937. Nos últimos vinte anos de vida, esteve hospedada no Hotel Tivoli, onde pagava em telas, quando havia falta de liquidez… Actualmente, o Hotel guarda um dos maiores espólios da pintora.
O seu talento – integrando o Primeiro Modernismo Português – foi cedo reconhecido, catapultando-a para a ribalta. Almada Negreiros teceu-lhe elogios rasgados! Logo em 1924, publicou um desenho na revista Athena (nº 2) com uma dedicatória muito eloquente: «Para Mily Possoz, o melhor desenhador portuguez do meu tempo.» (sic, Almada). A partir da década de 30, os seus desenhos, gravuras, óleos enchem a paisagem lisboeta e até portuguesa. Quem tenha feito a primária, antes do 25 de Abril, reconhecerá nas gravuras do Livro da 2ª Classe o traço muito rico e feliz de Mily. Na grande Exposição do Mundo Português (1940), a pintora modernista encarregou-se de inúmeras decorações, que agora se podem apreciar nos estudos para o Biombo japonês.
Talvez a temática pueril – com meninas, flores, gatos e ambientes saídos de contos de fadas – por um lado, e o gosto pelos trajes regionais portugueses, por outro, a tenham tornado numa ilustradora apetecível para o SNI. O facto é que a artista se evidenciou no antigo regime e hoje parece votada a um certo esquecimento, ficando-se pelo acervo distribuído pelo Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Hotel Tivoli e colecções particulares.
Percebe-se que, sobretudo a partir dos anos 40, para uma certa agitação de massas, urdida pelos grupos da clandestinidade política, a satisfação serena das figuras de Mily terá redundado num contratestemunho desagradável! Mas não há qualquer benefício em imiscuir as lutas político-ideológicas na livre expressão artística de cada um… Ao menos, em nome da liberdade !
Por mim, aderi logo ao traço muito sensível de M. Possoz, com extraordinário sentido decorativo, festivo e sóbrio, em simultâneo. Tudo parece simples, mas adivinha-se um trabalho intenso de desbaste, depuração e muita estilização, até atingir uma beleza hiper delicada e assim fixar os contornos das figuras. Respiram saúde e vitalidade, os meninos campinos que habitam as telas. Imanam doçura e jovialidade as meninas que posam à janela. Os olhos maravilhados com que Mily vê as minhotas, assegurar-lhes-ia um contrato imediato com a exigentíssima agência Elite! Imaginem a Giselle Bündchen de arrecadas, para terem uma ideia! Os milagres na composição da imagem, em que hoje são pródigos os fotógrafos mais cobiçados do jet-set, esbanjou a Mily, generosamente, ao retratar a gente anónima, que nada mais lhe deu senão uma torrente inspiradora para a desenhar linda e feliz.
No seu mundo pictórico reina uma alegria suave e colorida, uma bondade subtil, uma estética diáfana, atractiva, feita de harmonia. O olhar, muito aberto e expressivo das suas figuras, jorra confiança e gosto de viver. Parecem quase imobilizadas num estado de comunicação pura com o espectador, como se bastasse serem e estarem! Se há qualidade evidente nas personagens de Mily é terem “atitude” ! Transbordam de atitude! Até nesse sentido respiram modernidade.
Talvez a sobriedade pacata, aparentemente ingénua, da sua obra nos possam iludir acerca da grandeza que reconhece na vocação artística. Mas na carta que escreveu (1941) à sua amiga, Mª Helena Vieira da Silva, nessa altura a viver no Rio, deixa bem explícita a missão cimeira que atribui à arte: «Para nos compensar d’este flagello (ciclone que tinha assolado Lisboa e Sintra) tivemos agora a exposição do Almada e aproveito para lhe mandar o lindo catálogo. Foi a melhor exposição d’este anno – cheia de lições para todos – uma vida de Artista com toda a sua coragem e convicção de Arte e de verdade (…)» (**) Esta declaração rectilínea e depurada, bem ao jeito da pintora, vem ao encontro da definição de poeta, dada no estilo hiperbólico e passional de Florbela Espanca: «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens! (…) É ter cá dentro um astro que flameja, / É ter garras e asas de condor! / É ter fome, é ter sede de Infinito!»
Em Mily há zero de uma certa melancolia lusa ou de alguma insatisfação anímica, cantada nos fados, onde perpassa uma tensão trágica. Entendamo-nos que esta observação em nada diminui o fado! Apenas se visa sublinhar o estilo admiravelmente radioso dos seus desenhos, de uma leveza flutuante.
Aqui fica este aperitivo para a exposição formidável, patente na FundaçãoArpad Szenes-Vieira da Silva, com pena de não ter conseguido postar também as gravuras espectaculares dos bustos (Desenhos /Estudos académicos).
Interior de um atelier
Boas descobertas no atelier da Mily,
Maria Zarco (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(*) Patente ao público até 20 de Junho, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – Praça das Amoreiras, nº 56. Horário de Segunda a Domingo – 10h00 às 18h00. Encerra à Terça e feriados. Entrada gratuita ao Domingo de manhã: 10h-14h. (**) Excerto do original da carta, na exposição.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».
Gonçalo a rir todos os dias que se seguiram, em que a Rosa ia subindo o tom das ordens que dava, pregava-lhe um beijo na testa e saia com um séquito querido pequenino atrás a fazer barulho. Distribuía-os a todos pelos colégios e finalmente entrava no seu escritório com luzes, cheiros, linhas e cores habituais a todos que andam no mundo por aí cada dia, sempre contente por voltar à sua rotina normal e numa atitude de luta perante todos iguais. Tinha uma empresa crescente de design com um sócio e amigo, o João, com quem costumava jogar squash e almoçar sandes, saladas, sumos e essas coisas sempre saudáveis para eles e para toda aquela geração, menos para a Rosa, claro, que achava que passavam todos fome!
João Freitas era também da Cabreira e ao avô dele era o dono d’A Trombeta, o pequeno jornal semanal lá da terra sempre com notícias das pessoas que lá vivem, do dia em que fazem anos, do orfeão, do fórum e esse género de coisas. As indignações pelas soluções do trânsito, dos prédios que crescem pelos cantos, e assim! Tanto João como Gonçalo lembravam-se amiúde com ternura do velho José Freitas Júnior, avô do João, sempre curvado, pequenino e magrinho, nos últimos anos da sua vida ao volante de um enorme Ford Granada, o carro grande da terra, que veio depois do da Condessa quando este desapareceu da vida da vila. Este Ford era demasiado grande, elegante, sóbrio, austero, snob! Era usado todos os dias para ir de casa para o jornal e vice-versa, também ao fim de anos ainda estava novo e só conhecia as mãos e os pés do Senhor Freitas, sempre respeitador.
A Trombeta eram duas salas no local mais central da vila, se é que isso podia existir, cheias de pastas, papéis e livros. Máquinas de escrever todas abauladas, cheias de design, uma ainda do tempo da guerra; cheiro a pó, a respeito e a seriedade, numa atitude de defesa contra a modernidade! Também o Senhor Lopes lá andava todos os dias, empregado desde não se sabe quando, com o cabelo empastado de brilhantina, gravata sempre preta num eterno luto, mangas da alpaca e uma tristeza sem fim nos olhos. O seu destino era servir o Senhor Freitas, sempre velho de fato com colete, a corrente do relógio preponderante e um ar constante de patrão. A casa dos Freitas, por seu lado, era uma típica moradia de província construída no princípio dos anos cinquenta, com vasos sem ser preciso, porque tinha terra a rodos por todos os lados, rendas em cima da televisão e uma sala de visitas onde nunca se entrava para não sujar os couros, a ceia de Cristo e as pratas pequeninas que a vida foi dando, de comemorações e isso. A Dona Deolinda Freitas, dona de tudo e da serenidade do dia-a-dia, gorda e corada com aventais de flores e folhos, cabelo grisalho apanhado em puxo no alto da cabeça e óculos redondos sobre uma eterna cara simpática, tinha atrás um quintal com hortaliças, galinhas e algumas laranjeiras; tudo ao serviço da sua cozinha. Cozinhar bem, mais do que um ponto de honra, era um destino. A Dona Deolinda fazia parte do grupo de senhoras que todas as semanas lanchavam em casa do Senhor Abade. Mesmo depois da Condessa ter deixado de ir por estar fraca, um terço era sempre por ela, durante meses a fio, entre todas, por todas e no coração de todas.
O imponente Ford do Senhor Freitas veio substituir a grandeza do Pontiac da Condessa pelas ruas da Cabreira de casas toscas e prédios pretensiosos, todos os dias a rolar entre a Vivenda Deolinda e A Trombeta. Às terças-feiras quebrava a rotina pela porta vermelha do Abade Afonso onde descia a Dona Deolinda, sempre com as mesmas recomendações para ir devagar e com cautela, enquanto fechava a porta do carro com uma mão e segurava os bolinhos com a outra. E lá continuava o Senhor Freitas em direcção ao jornal, tipicamente curvado e de chapéu com ar zangado, como que a congeminar contra a vida e a ordem das coisas: as calças à boca de sino, a música que se ouvia aos berros, a guerra do ultramar, o preço das coisas, enfim, um rol de calamidades que tinha a missão de denunciar n’ A Trombeta. Escrevia sob vários pseudónimos para dar uma noção de mundo. Até mesmo a Dona Deolinda tinha a cargo o artigo “Culinária & Lavores” e assinava com o nome de solteira, sempre podia dar um ar mais abrangente! E sim, aquele Ford sempre ajudava a todo aquele ambiente digno, e o Senhor Freitas era considerado pelos seus iguais e respeitado pelos netos que tinha em Lisboa, principalmente pelo João, que adorava as férias da Páscoa em que se divertia à grande com o Gonçalo e em que tinham explicações de português e de matemática com a Dona Domingas, a professora primária da Cabreira tão prestável e ingénua como solteira e beata! As más notas eram mais do que inevitáveis: eram obrigatórias! Tinham um óptimo pretexto para passarem as tarde juntos a andar de bicicleta e a fumar às escondidas. Os lanches de leite e pão com manteiga em casa das avós ou tias ficaram para sempre na memória de ambos.
Já que a pequena casa onde vivia tinha sido herdada dos pais, o único grande investimento que a Dona Domingas tinha feito na vida tinha sido há trinta anos, e resumia-se ao já completamente familiar na Cabreira Simca Étoile branco que tratava com o maior esmero. Todos os dias o viam passar a ir e a vir da escola, sempre com a professora de peito encostado ao volante, com o ar responsável de quem tem na mão a educação de várias gerações de uma freguesia inteira de homens e mulheres de hoje e de amanhã. Viveu sempre com a satisfação de ter feito um bom negócio e trocá-lo estava absolutamente fora de questão, porque o velho Simca sempre se tinha portado impecavelmente bem; nunca a tinha deixado ficar mal, dizia. A professora Domingas também ia a casa do Abade Afonso às terças, claro, e o seu era o único carro que todas as outras conheciam há muito e a quem confiavam os mexericos que não podiam dizer em frente do Senhor Abade ou do sacristão ou de alguma criada enquanto ela as despejava uma a uma em casa de casa no fim do chá semanal. Trinta anos depois mantinha-se com os tampões e os cromados a reluzirem, os brancos sem uma nódoa e o motor equilibrado. Era também o cúmplice da sua solidão e da revolta nunca resolvida de Deus lhe ter levado os pais demasiado cedo, achava, apesar de terem morrido ambos depois dos oitenta. Era também eterno companheiro na sua tristeza de ter perdido um irmão na tropa em África, não por uma bala, mas para uma bifa; que nunca mais tinha dado notícias e que era toda a família que lhe restava, gente da sua gente, sangue do seu sangue. Se calhar tinha por lá sobrinhos e não sabia. Mas também essa era uma dúvida que tinha deixado de ser torturante dentro do seu peito, que tinha acalmado com o tempo e com São Cristóvão, santo da sua devoção e dos viajantes!
Ruth Breiss, uma sul-africana cheia de peito a viver num bairro caro de Joanesburgo, nos seus quarenta e muitos dentro dum saia-casaco cinzento curto, saltos altos e camisa de folhos de seda natural, pernas, decotes e boquilhas muito generosas, fechava os olhos sempre que lhe acendiam um cigarro e contorcia-se numa atitude entre o provocador, o erótico e o vendedor. Em Junho de 71 Joanesburgo era a mesma cidade transpirante de sempre lá fora, a mais parecida do mundo com Nova Iorque, mas em África, e com a força que isso lhe dava, em onda em tesão, no que fosse! No meio dos 20º andar do Hotel President o ambiente era sempre o que acompanha o imaginário de qualquer um, naqueles anos em que se usavam golas grandes, calças à boca de sino e penteados cheios de onda: alcatifas pretas de pêlo alto e maples redondos brancos e roxos, tudo muito fofo e cheio de curvas. Bares com garrafas de cores e espelhos pelos cantos e também cadeiras de verga tipo trono pelos terraços sobre as luzes e a cidade. Mesmo em Joanesburgo toda a gente ainda recuperava da estreia do Laranja Mecânica.
Ruth quando se levantava nestes sítios assim desse género, em reuniões que tinha amiúde, com o queixo para cima e as mãos a abrir em leque, com anéis caros mas discretos, adorava no fim fazer ouvir os fechos vitoriosos da sua mala James Bond, entre engravatados novinhos e desconhecidos de bancos e seguradoras, em que a sua vontade tinha prevalecido de certeza e em que também por certo tinha fechado um negócio extremamente vantajoso para a sua frota de traineiras de pesca ao largo. Pescava, congelava e exportava. Passou os olhos pelos quinze em volta da mesa, todos com olhares de respeito e impotência, e sentiu que nenhum podia atingir o mundo a que pertencia. Desceu ao piso -3 sempre com o queixo ao alto e gostou da sua sombra solene e esguia, da sua postura entre o comum dos mortais e das cores que a sua alma emanava; entre o betão e as tiras amarelas da parede da garagem e todo o universo que desafiava a toda a hora! Entrou no carro, um Datsun absolutamente novo e vermelho, chegado do Japão antes de todos os iguais, e sentiu-se uma vez mais acima de todos, como já ia sendo costume entre os negócios que fechava, a casa que tinha e os amigos que mantinha! Dirigiu-se então ao Blue Train, o restaurante mais na berra naquela época por lá, mas sem saber bem porquê, apenas sabia que era onde era normal ir downtown a meio da semana com a vida toda a correr-lhe bem. As notícias espalhavam-se depressa cidade fora, apesar de ser tão grande, da televisão ainda ser pouco eficiente e de não haver telemóveis! Sentou-se enquanto sorria e cumprimentava alguns presentes com a cabeça, e abriu o guardanapo sem vontade de comer como se o trabalho continuasse sempre. Mesmo assim acabou por pedir sopa fria de caranguejo e trufas, achou que calhava! O que queria mesmo, aqui para nós, era que o empregado giro que rondava se sentasse ao seu lado e lhe contasse uma história, lá da sua terra ou que inventasse, ou ainda fizesse qualquer coisa desde que lhe fizesse companhia pertinho, só para lhe dar calor e ouvir o som mesmo que fosse medíocre da voz dele. Já tinha claro na sua cabeça e em segredo que nada na sua vida lhe fazia sentido, assim sozinha, sem ninguém para partilhar momentos grandes que ia conquistando dia a dia! Podia sempre fazer compras depois nas lojas caras da zona ou meter-se no carro novo que acabava por dominar sempre e era lindo, lindo de morrer. Lindo também era um português do norte, da Cabreira achava, e que conheceu enquanto ele fazia a tropa em África e que nunca mais esqueceu. Sentia ainda os seus músculos e o seu peito a rebentarem camisa e o ar seguro com que a amava completamente! O calor das suas mãos nas costas e nos ombros, a sua cara pelo pescoço e pelo cabelo, as pernas de ambos cruzadas sem saberem onde começavam e acabavam, da maneira como era deitada no chão como se flutuasse. Tinha-lhe tocado completamente para sempre, até aquele ponto em que o seu corpo se confundia com o dele, mixed! Tinha-a feito sentir mulher, pertença de, como ninguém mais o tinha conseguido, até aí e a partir daí. De um momento para o outro nunca mais ouviu falar dele, nunca mais lhe tinha visto o rasto, acabou por se perder, assim de repente, em tempos confusos.
a professora sussurrou-nos, dentro da escola primária, (cheiro a lenha a arder, o aquecimento improvisado que havia) que nesse dia não irias estar connosco, que ficaras doente ou a acompanhar a tua mãe (a memória faz-me escrever viúva, mas a memória não é sempre amiga) - trabalhos do campo ou lá o que era.
no dia seguinte, voltaste à escola, frágil como quase todos os meninos e meninas desses dias, em que fazia frio em todas as casas (e fome nalgumas, mas tenho vergonha de o escrever..). voltaste à escola e a professora deu-te as boas-vindas do regresso, perguntando-te qualquer coisa, em voz alta.
lembro-me, cesário, que te levantaste do teu lugar, meio metro de gente agarrada a uma capucha que brilhava, e que disseste assim: - ontem, a minha mãe fez-me esta capucha, enquanto me pedia que rezasse um terço por ela.
acho que nunca recuperei dessa frase. tantos anos depois, décadas sem te ver, vens-me à memória, uma e outra vez, tal como essa dignidade que não sei dizer, tantos livros e tantos discos e tantos beijos depois.
eu sei, cesário, que ontem como hoje, houve meninos e meninas, naquela sala, que te esqueceram, que nem repararam na profunda beleza do que ali acontecera.
eu sei, cesário, que hoje como ontem, há meninas e meninos, que vão ler estas palavras, e seguir em frente, encolhendo os ombros e largando um 'que horror, tanto sentimentalismo enjôa..'.
- ontem, a minha mãe fez-me esta capucha, enquanto eu rezava um terço por ela.
o diabo me leve se há padre-nosso mais bonito, cesário.
* polaroids de figuras extintas (polaroids from the dead, no original) é o título de um livro do escritor canadiano Douglas Coupland (1961-), que usamos aqui com respeito e gratidão.
Caros audiophiles, this week I wish to highlight one of my favourite contemporary "indie" bands, I Am Kloot.
From Manchester, they have enjoyed a cult following for some years without achieving, or perhaps not wanting to achieve, a wider popularity.
They are friends and collaborators with their fellow Manchester band Elbow and I think deserve the same recognition that Elbow has recently experienced.
The first song I ever heard, appropriately called Untitled #1, was on an acoustic mixed artist compilation, maybe 2 or 3 years ago, and I was curious to go hear them play in concert, in a small sweaty venue in East London. The place was packed tight like sardines, so intimate, so raw, and I sensed immediately an unusual rapport between band and audience, like a shared secret among friends. In fact I felt a strange sense of deja vu, that I had met this band somewhere.This was the place to be, for the clever people, I felt like I had joined an exclusive club of cognoscenti.
Their songs are passionate, romantic in a slightly twisted way, but don't easily fit into any category for the mainstream. To borrow a comment I heard somewhere about the charismatic lead singer, he is not afraid of sentiment and so is quite unsentimental. My favourite song is Ferris Wheels, (unfortunately the video misses the final few seconds), but there are many so that I include also 2 other songs which also have interesting videos, Proof and Over My Shoulder.
Ferris Wheels: I don't know who i am, I don't know who you are, but when i touch your hand i see shooting stars i see ferris wheels curving walls of steel and light.
A long distance call over twisted wires, some lost heart-felt words caught up on the line. We speak through satellites that hang like the stars at night in the sky.
Começo esta crónica de viagem com uma nota histórica, para ver se consigo transmitir alguma credibilidade a quem me lê. A construção de Berlim foi inspirada em Paris. O arquitecto responsável pelo projecto, Sr. X (nome fictício por questões de privacidade, seguramente não por eu não fazer a menor ideia do nome do senhor), imaginou uma cidade com avenidas largas que vão dar a um ponto comum, jardins e muitas árvores. Claro que eu não sabia isto, nem sequer pesquisei na internet ou em livros da especialidade. No meio dos passeios apanhei um tour de turistas chineses e juntei-me a eles o tempo suficiente para ouvir algumas curiosidades. E curioso é também o facto de as árvores em Berlim estarem todas numeradas.
Posto isto, posso falar sobre a minha viagem. Foi de certeza muito menos intelectual do que a dos chineses acima, todos com máquinas a tiracolo e sempre a tirar fotografias a tudo o que o guia apontava. Conselho para quem viaja: sempre que precisarem de um estranho para tirar a fotografia de grupo da praxe, escolham estes amigos de olhos em bico. Dominam o aparelho com uma perícia de quem cresceu a fazer aquilo, abanam a cabeça com um ar sorridente e não querem fazer conversa, não fazem perguntas do género de ‘onde é que carrego para tirar?’, e têm uma bela noção de enquadramento. São sempre apostas garantidas.
Voltando agora à viagem em si. Acho que já esgotei todos os apartes que tinha a fazer; sigamos. Não decorei um único nome das ruas por onde passei. Para mim era tudo ‘aquela rua ao pé da filarmónica, e a outra perpendicular ao tiergarten e paralela à praça do parlamento’. Tinha dificuldade em ler os nomes das estações, quanto mais decorar palavras com oito e nove consoantes.
Impressões de Berlim? Para alguém com formação ou olho para arquitectura, a cidade deve ser única. Arquitectonicamente parece-me muito bem conseguida. Edifícios avant-garde que ligam muito bem com outros mais óbvios e tradicionais. Isto, claro, sou eu a dizer. Pode ser uma parvoíce como outra qualquer. Ainda desenho as casas da mesma maneira que desenhava na segunda classe, com aqueles telhados em perspectiva que aos 7 anos são um avanço técnico gigante. Deixo abaixo um desses edifícios avant-garde de que falei atrás e que foi, talvez, o que mais gostei - a Filarmónica de Berlim.
Diz quem lá foi que a sala principal é do calibre do edifício, e que a acústica é única. É como ouvir o concerto ao colo do maestro. Infelizmente não posso comprovar isso.
Uma das ideias com que fiquei é que Berlim é uma grande cidade para artistas ou aspirantes a. Um dos sítios obrigatórios a visitar é um prédio em ruínas que foi ocupado por várias pessoas que lá trabalham e fazem negócio. E o trabalho / negócio passa principalmente por escultura e pintura. O ambiente é estranho e pouco apelativo, mas vale a pena ir, mesmo não se gostando do que lá se vende. Tudo o que eu possa escrever é vago e não transmite o que é realmente o sítio. A fotografia abaixo faz melhor trabalho.
As pessoas que lá vi são da estranheza do sítio e dos trabalhos...
Outro ponto obrigatório em Berlim é o memorial do Holocausto. Não tem uma parede gigante com nomes, números ou outros factos da 2ª guerra. Não precisa, toda a gente conhece o que aconteceu e os números da guerra. E talvez por isso o impacto seja tão grande. A fotografia abaixo é só para dar uma ideia do que estou a falar.
E isto não faz, de todo, justiça ao original. Isto é apenas uma pequena parte do memorial. São centenas destas campas de pedra. Sem um único nome, uma única inscrição, um único número.
Como despedida, obrigado e até ao próximo destino!
Quando o Shah Jahan foi ver como estava o mausoleu que tinha mandado construir para a sua mulher Mumtaz Mahal só pensou: não `tás mal.
Os grupos excursionistas já passaram um pouco de moda; no entanto aqui vão 2 sugestões para nomes de grupos: se tiver só um membro poderá chamar-se GRUPO EXCURSIONISTA O MAIS VALE SÓ QUE MAL ACOMPANHADO. Se fôr composto por preguiçosos será GRUPO EXCURSIONISTA OS SEDENTÀRIOS.
A dança dos 7 veus (Salomé) não tem regras muito definidas; é quase tudo "ad libidum".
Era um fotógrafo de renome mas um dia sofreu um desaire:fotografou a arco-iris a preto e branco.
Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.
Gonçalo a rir todos os dias que se seguiram, em que a Rosa ia subindo o tom das ordens que dava, pregava-lhe um beijo na testa e saia com um séquito querido pequenino atrás a fazer barulho. Distribuía-os a todos pelos colégios e finalmente entrava no seu escritório com luzes, cheiros, linhas e cores habituais a todos que andam no mundo por aí cada dia, sempre contente por voltar à sua rotina normal e numa atitude de luta perante todos iguais. Tinha uma empresa crescente de design com um sócio e amigo, o João, com quem costumava jogar squash e almoçar sandes, saladas, sumos e essas coisas sempre saudáveis para eles e para toda aquela geração, menos para a Rosa, claro, que achava que passavam todos fome!
João Freitas era também da Cabreira e ao avô dele era o dono d’A Trombeta, o pequeno jornal semanal lá da terra sempre com notícias das pessoas que lá vivem, do dia em que fazem anos, do orfeão, do fórum e esse género de coisas. As indignações pelas soluções do trânsito, dos prédios que crescem pelos cantos, e assim! Tanto João como Gonçalo lembravam-se amiúde com ternura do velho José Freitas Júnior, avô do João, sempre curvado, pequenino e magrinho, nos últimos anos da sua vida ao volante de um enorme Ford Granada, o carro grande da terra, que veio depois do da Condessa quando este desapareceu da vida da vila. Este Ford era demasiado grande, elegante, sóbrio, austero, snob! Era usado todos os dias para ir de casa para o jornal e vice-versa, também ao fim de anos ainda estava novo e só conhecia as mãos e os pés do Senhor Freitas, sempre respeitador.
A Trombeta eram duas salas no local mais central da vila, se é que isso podia existir, cheias de pastas, papéis e livros. Máquinas de escrever todas abauladas, cheias de design, uma ainda do tempo da guerra; cheiro a pó, a respeito e a seriedade, numa atitude de defesa contra a modernidade! Também o Senhor Lopes lá andava todos os dias, empregado desde não se sabe quando, com o cabelo empastado de brilhantina, gravata sempre preta num eterno luto, mangas da alpaca e uma tristeza sem fim nos olhos. O seu destino era servir o Senhor Freitas, sempre velho de fato com colete, a corrente do relógio preponderante e um ar constante de patrão. A casa dos Freitas, por seu lado, era uma típica moradia de província construída no princípio dos anos cinquenta, com vasos sem ser preciso, porque tinha terra a rodos por todos os lados, rendas em cima da televisão e uma sala de visitas onde nunca se entrava para não sujar os couros, a ceia de Cristo e as pratas pequeninas que a vida foi dando, de comemorações e isso. A Dona Deolinda Freitas, dona de tudo e da serenidade do dia-a-dia, gorda e corada com aventais de flores e folhos, cabelo grisalho apanhado em puxo no alto da cabeça e óculos redondos sobre uma eterna cara simpática, tinha atrás um quintal com hortaliças, galinhas e algumas laranjeiras; tudo ao serviço da sua cozinha. Cozinhar bem, mais do que um ponto de honra, era um destino. A Dona Deolinda fazia parte do grupo de senhoras que todas as semanas lanchavam em casa do Senhor Abade. Mesmo depois da Condessa ter deixado de ir por estar fraca, um terço era sempre por ela, durante meses a fio, entre todas, por todas e no coração de todas.
O imponente Ford do Senhor Freitas veio substituir a grandeza do Pontiac da Condessa pelas ruas da Cabreira de casas toscas e prédios pretensiosos, todos os dias a rolar entre a Vivenda Deolinda e A Trombeta. Às terças-feiras quebrava a rotina pela porta vermelha do Abade Afonso onde descia a Dona Deolinda, sempre com as mesmas recomendações para ir devagar e com cautela, enquanto fechava a porta do carro com uma mão e segurava os bolinhos com a outra. E lá continuava o Senhor Freitas em direcção ao jornal, tipicamente curvado e de chapéu com ar zangado, como que a congeminar contra a vida e a ordem das coisas: as calças à boca de sino, a música que se ouvia aos berros, a guerra do ultramar, o preço das coisas, enfim, um rol de calamidades que tinha a missão de denunciar n’ A Trombeta. Escrevia sob vários pseudónimos para dar uma noção de mundo. Até mesmo a Dona Deolinda tinha a cargo o artigo “Culinária & Lavores” e assinava com o nome de solteira, sempre podia dar um ar mais abrangente! E sim, aquele Ford sempre ajudava a todo aquele ambiente digno, e o Senhor Freitas era considerado pelos seus iguais e respeitado pelos netos que tinha em Lisboa, principalmente pelo João, que adorava as férias da Páscoa em que se divertia à grande com o Gonçalo e em que tinham explicações de português e de matemática com a Dona Domingas, a professora primária da Cabreira tão prestável e ingénua como solteira e beata! As más notas eram mais do que inevitáveis: eram obrigatórias! Tinham um óptimo pretexto para passarem as tarde juntos a andar de bicicleta e a fumar às escondidas. Os lanches de leite e pão com manteiga em casa das avós ou tias ficaram para sempre na memória de ambos.
Já que a pequena casa onde vivia tinha sido herdada dos pais, o único grande investimento que a Dona Domingas tinha feito na vida tinha sido há trinta anos, e resumia-se ao já completamente familiar na Cabreira Simca Étoile branco que tratava com o maior esmero. Todos os dias o viam passar a ir e a vir da escola, sempre com a professora de peito encostado ao volante, com o ar responsável de quem tem na mão a educação de várias gerações de uma freguesia inteira de homens e mulheres de hoje e de amanhã. Viveu sempre com a satisfação de ter feito um bom negócio e trocá-lo estava absolutamente fora de questão, porque o velho Simca sempre se tinha portado impecavelmente bem; nunca a tinha deixado ficar mal, dizia. A professora Domingas também ia a casa do Abade Afonso às terças, claro, e o seu era o único carro que todas as outras conheciam há muito e a quem confiavam os mexericos que não podiam dizer em frente do Senhor Abade ou do sacristão ou de alguma criada enquanto ela as despejava uma a uma em casa de casa no fim do chá semanal. Trinta anos depois mantinha-se com os tampões e os cromados a reluzirem, os brancos sem uma nódoa e o motor equilibrado. Era também o cúmplice da sua solidão e da revolta nunca resolvida de Deus lhe ter levado os pais demasiado cedo, achava, apesar de terem morrido ambos depois dos oitenta. Era também eterno companheiro na sua tristeza de ter perdido um irmão na tropa em África, não por uma bala, mas para uma bifa; que nunca mais tinha dado notícias e que era toda a família que lhe restava, gente da sua gente, sangue do seu sangue. Se calhar tinha por lá sobrinhos e não sabia. Mas também essa era uma dúvida que tinha deixado de ser torturante dentro do seu peito, que tinha acalmado com o tempo e com São Cristóvão, santo da sua devoção e dos viajantes!
Ruth Breiss, uma sul-africana cheia de peito a viver num bairro caro de Joanesburgo, nos seus quarenta e muitos dentro dum saia-casaco cinzento curto, saltos altos e camisa de folhos de seda natural, pernas, decotes e boquilhas muito generosas, fechava os olhos sempre que lhe acendiam um cigarro e contorcia-se numa atitude entre o provocador, o erótico e o vendedor. Em Junho de 71 Joanesburgo era a mesma cidade transpirante de sempre lá fora, a mais parecida do mundo com Nova Iorque, mas em África, e com a força que isso lhe dava, em onda em tesão, no que fosse! No meio dos 20º andar do Hotel President o ambiente era sempre o que acompanha o imaginário de qualquer um, naqueles anos em que se usavam golas grandes, calças à boca de sino e penteados cheios de onda: alcatifas pretas de pêlo alto e maples redondos brancos e roxos, tudo muito fofo e cheio de curvas. Bares com garrafas de cores e espelhos pelos cantos e também cadeiras de verga tipo trono pelos terraços sobre as luzes e a cidade. Mesmo em Joanesburgo toda a gente ainda recuperava da estreia do Laranja Mecânica.
Ruth quando se levantava nestes sítios assim desse género, em reuniões que tinha amiúde, com o queixo para cima e as mãos a abrir em leque, com anéis caros mas discretos, adorava no fim fazer ouvir os fechos vitoriosos da sua mala James Bond, entre engravatados novinhos e desconhecidos de bancos e seguradoras, em que a sua vontade tinha prevalecido de certeza e em que também por certo tinha fechado um negócio extremamente vantajoso para a sua frota de traineiras de pesca ao largo. Pescava, congelava e exportava. Passou os olhos pelos quinze em volta da mesa, todos com olhares de respeito e impotência, e sentiu que nenhum podia atingir o mundo a que pertencia. Desceu ao piso -3 sempre com o queixo ao alto e gostou da sua sombra solene e esguia, da sua postura entre o comum dos mortais e das cores que a sua alma emanava; entre o betão e as tiras amarelas da parede da garagem e todo o universo que desafiava a toda a hora! Entrou no carro, um Datsun absolutamente novo e vermelho, chegado do Japão antes de todos os iguais, e sentiu-se uma vez mais acima de todos, como já ia sendo costume entre os negócios que fechava, a casa que tinha e os amigos que mantinha! Dirigiu-se então ao Blue Train, o restaurante mais na berra naquela época por lá, mas sem saber bem porquê, apenas sabia que era onde era normal ir downtown a meio da semana com a vida toda a correr-lhe bem. As notícias espalhavam-se depressa cidade fora, apesar de ser tão grande, da televisão ainda ser pouco eficiente e de não haver telemóveis! Sentou-se enquanto sorria e cumprimentava alguns presentes com a cabeça, e abriu o guardanapo sem vontade de comer como se o trabalho continuasse sempre. Mesmo assim acabou por pedir sopa fria de caranguejo e trufas, achou que calhava! O que queria mesmo, aqui para nós, era que o empregado giro que rondava se sentasse ao seu lado e lhe contasse uma história, lá da sua terra ou que inventasse, ou ainda fizesse qualquer coisa desde que lhe fizesse companhia pertinho, só para lhe dar calor e ouvir o som mesmo que fosse medíocre da voz dele. Já tinha claro na sua cabeça e em segredo que nada na sua vida lhe fazia sentido, assim sozinha, sem ninguém para partilhar momentos grandes que ia conquistando dia a dia! Podia sempre fazer compras depois nas lojas caras da zona ou meter-se no carro novo que acabava por dominar sempre e era lindo, lindo de morrer. Lindo também era um português do norte, da Cabreira achava, e que conheceu enquanto ele fazia a tropa em África e que nunca mais esqueceu. Sentia ainda os seus músculos e o seu peito a rebentarem camisa e o ar seguro com que a amava completamente! O calor das suas mãos nas costas e nos ombros, a sua cara pelo pescoço e pelo cabelo, as pernas de ambos cruzadas sem saberem onde começavam e acabavam, da maneira como era deitada no chão como se flutuasse. Tinha-lhe tocado completamente para sempre, até aquele ponto em que o seu corpo se confundia com o dele, mixed! Tinha-a feito sentir mulher, pertença de, como ninguém mais o tinha conseguido, até aí e a partir daí. De um momento para o outro nunca mais ouviu falar dele, nunca mais lhe tinha visto o rasto, acabou por se perder, assim de repente, em tempos confusos.
é sempre assim sempre assim sempre assim dizia o rapaz no banco de jardim lá em tulsa, nos states.
é sempre assim sempre assim sempre assim dizia a white-trash-radio do nosso carro negro, enquanto atravessávamos o novo méxico.
é sempre assim sempre assim sempre assim dizia o oráculo de jornal, zoroastro de meia-tigela, enquanto beberricávamos café queimado e uns quantos ovos tristes com bacon.
que diabo, praguejava eu com o circunstancial taberneiro, que diabo, atirava eu aos desvalidos companheiros de balcão. que diabo, disparava eu, por entre dentes meio desfeitos, aos meus próprios fantasmas.
é sempre a mesma coisa, em tulsa, em tucson, nos midlakes, em michigan, em boston ou cincinnati. é sempre a mesma coisa, pal.
apenas mais velhos, o que, cá entre mim e a patroa, faz a sua diferença, convenhamos.
mais velhos, trôpegos na escuridão da noite, tacteando restos de afecto que de resto não há. que nunca houve, hombre.
que diabo de espectáculo triste! - vociferou então o rapaz, do alto do seu garbo juvenil.
- cá chegarás, rosnei-lhe num silvo grave, afiando a língua como se faca. - cá chegarás..
Tinha horror à desarrumação e à desordem. A perspectiva de uma almofada fora do sítio ou a visão de uma migalha na alcatifa, impelia-a de imediato a inclinar-se para colocar a almofada junto às outras (sempre numa determinada sequência de cores e tamanhos) ou a dobrar-se até ao chão para apanhar o minúsculo pedaço de pão.
Não podia. Fazia-lhe mal aos nervos. Adorava a organização, a limpeza, o método sempre certo e igual de cada dia limpar cada divisão da casa, começando no mesmo canto e terminando no mesmo quadro pendurado na parede. Uma Mãe extremamente organizada, um Pai totalmente caótico, uma infância num colégio de freiras muito dadas aos lavores e trabalhos manuais, uma adolescência muito metida em casa e uma fraqueza extrema, tinham-na levado à humilhante condição de “maníaca das limpezas”, como era conhecida entre os seus (poucos) amigos e, infelizmente, até junto da sua própria família.
Não se conseguia controlar. Tinha tentado terapias, tomado calmantes e mézinhas várias, feito tricot a metro e desporto ao ponto de ficar à beira de uma síncope (para “afastar as limpezas do seu pensamento, minha Menina”, tinha dito o psicoterapeuta), mas o seu amor às limpezas e à ordem voltavam, após cada interrupção, com um vigor acrescido.
Era uma pulsão superior a si própria. Tinha aprendido através da terapia que tinha uma desordem nervosa com um nome esquisito, do qual aliás já nem se lembrava. E depois? As manias não se resolvem com palavras médicas nem técnicas. Resolvem-se na prática. E a prática demonstrava-lhe, vez após vez, que nada lhe solucionava o seu problema.
Até a sua vida profissional tinha ficado dramaticamente afectada. Menina estudiosa e metida consigo, de índole dócil e muito certinha, tinha ficado encantada quando lhe tinham proposto trabalhar como secretária do gerente de uma loja de confecção para senhoras. O gerente adorava a sua pontualidade, o seu rigor, o zelo que despendia no trabalho que lhe era confiado. Nunca se tinha visto uma secretária tão amável, educada e extremosa. Velava pelo patrão e pelo negócio (na parte que lhe cabia, é claro) como se disso dependesse a sua própria vida. Havia até quem dissesse – as más-línguas, claro está – que ela estava apaixonada pelo patrão.
E os dias corriam, e as semanas passavam e os meses sucediam-se numa doce e tranquila monotonia que em tudo condizia com o temperamento da Menina. Podia-se até dizer que era uma pessoa feliz (com um f pequeno, entenda-se). As horas do dia passava-as dactilografando, enviando faxes, escrevendo cartas comerciais, conferindo notas de encomenda, até tratando de alguns assuntos pessoais do gerente. As horas da noite, depois do jantar e da novela, gastava-as no habitual frenesim das limpezas, as quais, apesar de estar empregada (e supostamente cansada no final do dia), não tinham cessado nem em número nem em intensidade. As contas da luz aumentaram-lhe consideravelmente porque tinha a luz acesa quase toda a noite. Só pela madrugada, quando a luz no horizonte começava a clarear e ela se deitava para repousar da vigília a que se forçava diariamente, é que as luzes eram extintas e a casa entrava em absoluto silêncio. Silêncio esse que era depressa rompido pelo animar das ruas e o ladrar dos cães da calçada que se ía enchendo de movimento.
Mas o excesso de trabalho tem os seus custos e a erosão do tempo e do trabalho excessivo começou a fazer os seus estragos. A Menina começou a definhar. Cada dia acordava mais cansada, mais macilenta, com imensos semi-círculos roxos por debaixo dos olhos castanhos e redondos. E estava a perder peso de dia para dia. “O que se passa consigo, Menina?”, perguntara o patrão um dia que a vira cambalear junto à máquina do café. “É só uma tontura”, dissera ela. Mas as tonturas repetiram-se por mais umas semanas. Até que uma manhã foi forçada a ficar na cama. Não conseguira mesmo levantar-se. Só teve forças para pegar no telefone que repousava na mesa-de-cabeceira do lado esquerdo da cama e informar o contabilista (que morava longe e que chegava muito cedo à loja de confecções) que nesse dia não poderia ir trabalhar. “Avise o patrão, se faz favor, Senhor Silva”, pedira ela em voz sumida.
Pela tarde, depois de ter repousado um pouco mais, conseguiu pegar no telefone e falar à Mãe que, como todas as boas mães, se prontificou a ir vê-la e ajudá-la no que fosse preciso. E foi aí que a Mãe se assustou. “Não vais trabalhar tão cedo, minha filha, nem que eu tenha de te amarrar à cama”. Ficara horrorizada com a visão dos imensos braços esquálidos da filha e com a sua tosse cavernosa. É certo que a achava abatida nos últimos tempos, mas como tinha estado recentemente na terra com uma prima querida a quem tinha morrido o marido, não tinha visto a filha nas últimas semanas. “Vou pedir ao médico que venha cá ainda hoje”. O médico veio e fez o seu diagnóstico: “Esgotamento nervoso e fraqueza extrema”. O tratamento era estar deitada, a sopas e bolos, até a fraqueza se ir.
E acabou mesmo por ir. Mas muito lentamente, porque a detentora da fraqueza não conseguia estar parada. Isto é, estava parada quando a Mãe lá estava em casa. Mal ela saía, para ir fazer compras ou tratar de alguma coisa, punha-se a aspirar os sofás, a limpar o pó aos quadros, a arear as casquinhas, até a limpar com um cotonette as pregas do manto de gesso pintado da Nossa Senhora da Conceição que se encontrava na cómoda do quarto. Por isso o seu restabelecimento foi mais lento.
Dessa época dolorosa e prolongada, resultara o verdadeiro início da sua obsessão pelas limpezas. Se desde sempre se tinha preocupado com a manutenção da limpeza e ordem do seu pequeno apartamento, nunca como após a sua paragem forçada se tinha esse ímpeto manifestado com tal intensidade. Não conseguia parar. Limpava o que estava limpo, arrumava o que estava arrumado e lavava o que já cheirava a fresco. Era como se os meses em que fora forçada a parar se tivessem concentrado todos nas horas dos dias que estava agora a viver, impelindo-a, muitas vezes a contra-gosto, a tornar mais perfeita uma ordem já de si sem mácula.
Foi nessa altura que tentou todo o género de terapias e de tratamentos. Mas nada melhorou a sua condição psicológica. Por isso teve de abandonar a loja de confecção de roupa para senhora. Com grande desgosto para ela e para o patrão, que gostava muito do seu trabalho e que dificilmente conseguiria arranjar alguém tão eficiente e perfeito. Os colegas do trabalho fizeram-lhe uma pequena festa de despedida e aquela comemoração comoveu-a até às lágrimas. Mas como podia ela compatibilizar um trabalho de 8 horas diárias com o desgaste de passar noites seguidas praticamente sem dormir com a preocupação de limpar e ordenar coisas que, para qualquer pessoa, já estavam perfeitamente limpas e ordenadas?
Com o tempo, aprendeu a conhecer-se melhor e a aceitar-se mais. Vivia de uma renda de um pequeno apartamento na Graça que o Pai lhe deixara em herança e de um subsídio de incapacidade que conseguira arranjar através da Segurança Social. Os rendimentos eram parcos mas chegavam-lhe. Não era pessoa de extravagâncias e uma televisãozita a cores chegava-lhe perfeitamente. Passava os serões sózinha ou acompanhada pela Mãe. Os poucos amigos que tinha foram afastando-se à medida que a sua obsessão aumentava. Na altura em que a convidavam para sair, quando ainda trabalhava, recusava sistematicamente todos os programas porque estes lhe roubavam tempo para pôr a casa a brilhar. “Nunca mais te telefonamos”, dissera-lhe um dia uma das amigas do colégio de freiras, “Se quiseres estar connosco, telefona-nos tu”, atirara-lhe com algum azedume.
Mas ela nunca telefonou. Como podia ela telefonar se tinha tanto que fazer em casa: pôr a roupa a corar, lavar à mão as peças mais delicadas, tratar dos canteiros na varanda, fazer compotas para o Inverno (tinha conseguido pôr à venda uns boiões da sua confecção na mercearia da esquina), serzir os panos de cozinha mais antigos, encerar os móveis, limpar os vidros. Havia sempre tanto que fazer.
Mas o trabalho de que mais gostava era limpar e arrumar armários. Começava por esvaziá-los completamente, após o que, com um pano (molhado ou seco, consoante os casos) o limpava até ao mais recôndito dos cantos. De seguida, limpava-o por fora, com um trapo húmido ou com um pano embebido num produto para móveis “para lhes dar vida”, como costumava dizer. E depois era vê-la forrar o armário, colocando-lhe barras anti-traça e saquinhos de alfazema, lavando todo o seu conteúdo, secando-o e arrumando-o meticulosamente, respeitando integralmente a ordem inicial. Adorava forrar caixas e caixinhas, de tecido ou papel igual ao armário, que utilizava para arrumar todo o género de pequenos objectos e adereços.
Sentia-se realizada ao limpar o roupeiro, o armário do corredor, os armários das loiças e da cozinha, o pequeno louceiro da sala! Dava-lhe um prazer imenso criar ordem, tratar dos panos, dos linhos e das loiças! Só tinha pena de não ter uma casa maior onde pudesse ter mais armários. Era, decididamente, de todos os trabalhos caseiros, aquele que mais a completava.
E foi aí que a sua vida deu uma volta. Quando pode sair de casa, passadas as semanas de fraqueza, a Mãe pediu-lhe se não se importava de lhe forrar umas gavetas. Ficaram perfeitas. Passados dois dias, voltou a pedir-lhe se lhe dava um jeito no armário das roupas de casa, cheio a transbordar de colchas, toalhas e lençóis herdados da avó e bisavó. Com que prazer cumpriu a sua tarefa! Com que regalo seleccionou, lavou, pôs a corar, engomou e arrumou os muitos e rendados panos que já não via há anos! Sempre era uma distracção arrumar armários que não os seus!
E desta singela contribuição, nasceu a sua verdadeira vocação. Ao compreender o alento que esta simples e casual colaboração tinha dado à filha, a Mãe, feliz, aprontou-se a passar palavra às suas vizinhas de prédio, que se apressaram a dizê-lo às suas filhas e noras que, por sua vez, contaram às colegas de escritório e fábrica.
E era vê-la, satisfeita e desenvolta, de uma casa para outra, a arrumar armários, roupeiros, guarda-fatos, sapateiras, frigoríficos, louceiros, cristaleiras, estantes e todos os espaços em que era possível criar ordem. As clientes estavam felizes e a Menina nem se fala. Encontrara, finalmente, uma forma criativa de compatibilizar o seu gosto pela limpeza e pela ordem com a sua vida profissional. Isso dava-lhe tal sensação de alegria e liberdade que até lhe parecia que o coração se expandia. Ponto final nos tratamentos, nas mezinhas e nas conversas com doutores de óculos e barba aparada. Tinha a sensação que se tornara uma criadora, uma criadora de ordem e de limpeza, ao inventar novas formas de arrumar, ao escolher novas fragâncias para colocar junto à roupa lavada, ao trocar a ordem dos livros e dos retratos das estantes, ao criar, em suma. Uma forma de criação diferente das que conhecia, “menor” concerteza, mas, mesmo assim, uma forma de criação, apelativa aos sentidos e que, sobretudo, agradava imensamente às suas clientes. Sentia-se feliz (com um f quase grande).
E por isso, quando em certa tarde se sentou num banco de jardim de bairro, rodeada de verde, de flores e de pombos, não estranhou que um rapaz, de fisionomia séria e camisa muito bem engomada, se sentasse ao pé de si e, timidamente, enceta-se conversa. Falaram sobre o tempo lindo que fazia, sobre a poluição da cidade (e de como era bom encontrar, ainda, um espaço verde e limpo para descansar), comentaram a briga dumas crianças que gritavam à distância e, na sequência da conversa, tomaram conhecimento dos respectivos nomes. Ao que o rapaz, inclinando a cabeça na sua direcção e olhando-a directamente, lhe perguntou com toda a educação: “E a menina Laura o que é que faz?”. E a Menina certinha, composta e dedicada, com um novo brilho, vagamente trocista, a dançar-lhe nos olhos castanhos e redondos, respondeu-lhe: “Sou arrumadora de armários”. E sentiu-se Feliz com um f grande.
PS: ah, já me esquecia… esta é a música preferida da menina Laura.
A dica de hoje – pensando neste Inverno chuvoso e frio, que faz apetecer assistir à tempestade, lá fora, protegidos por uma janela com boa vista – é para uma tarde ou um serão de boa música, em casa (nossa ou de amigos, até porque resulta num presente bem apetecível), ao som de Chopin, tocado pelo talentosíssimo Maurizio Pollini ou pela Maria João Pires, que também tem uma interpretação magistral dos Nocturnos (*)!
Lembrei-me da sugestão, porque este Sábado Pollini tinha agendado um concerto na Gulbenkian(**), que foi cancelado por problemas de saúde do pianista... Tive assim de me desforrar nos CDs, em casa... E é isso mesmo que vos sugiro, porque um compositor que plasmou a sua alma na música que escreveu, é imperdível, creio: «I tell my piano the things I used to tell you» (sic, Chopin)
Antes de abrir mais o apetite para o músico do séc. XIX, avanço uma pequena nota biográfica sobre Maurizio Pollini: nasceu em Milão, em plena II Guerra Mundial – Janeiro de 1942 – numa Itália muito massacrada pelos combates. Oriundo de uma família de artistas – o pai arquitecto, a mãe pianista e cantora, o tio materno escultor (Fausto Melloti) – teve uma carreira fulgurante, recheada de prémios internacionais, com um repertório vastíssimo, que se estende de Bach aos contemporâneos. Não por acaso, o primeiro prémio foi ganho no Concurso Internacional de Chopin, em Varsóvia, nos tempos arrefecidos da Guerra Fria – 1960. Aliás, há quem o considere o melhor intérprete deste compositor, concorrendo com Rubinstein e outros nomes míticos do piano.
Frédéric François Chopin (1810-1849) nasceu perto de Varsóvia, mas deve o seu nome tão francófono ao pai, um francês que se radicou na Polónia como professor de liceu e tutor de famílias aristocratas, vindo a casar-se com uma polaca. Menino prodígio, aos 7 anos, Frédéric compôs as primeiras Polonaises (danças polacas), além de já actuar em concertos, onde era aclamadíssimo. Pelos 20 anos, mudou-se para Paris, tornando-se insustentável o regresso à sua terra natal, que acabava de ser invadida pela Rússia. Em Paris, integrou logo o grupo de artistas mais fervilhante da Cidade das Luzes, mentores da revolução romântica: Liszt, Berlioz, Balzac, Bellini, Victor Hugo, Schumann… Através de Liszt, tornou-se íntimo da célebre escritora, que assinava pelo pseudónimo literário, George Sand (Mme Dudevant), começando uma relação tumultuosa, marcada por fases de indigência, onde até um teclado lhe faltou. Aos 39 anos, corroído pela tuberculose, apagou-se o pianista mais venerado pelos parisienses. Ainda hoje, a sepultura é local de peregrinação, sempre coberta de flores frescas, no célebre Cemitério de Père-Lachaise, onde repousam outras figuras lendárias, como Oscar Wilde ou Jim Morrison (na sua campa, os parisienses colocam cigarros e cervejas!), Victor Hugo, Gustave Eiffel, Mme.Curie, Edith Piaf...
Honrando os seus pergaminhos, os franceses costumam ser generosos com a memória dos artistas, mais ainda se forem românticos, nostálgicos e lúcidos, clássicos mas ousados, sofisticados e maximamente universalistas. Chopin foi tudo isso! A sua música respira poesia e charme, profundidade e emoção. Nos Nocturnos como que se excede e inflama o piano, qual «Fogo que arde sem se ver», faz as teclas chorar lágrimas que nos chegam à alma como cristais de água luminosos. A declaração do compositor a um pianista sobre a desejável entrega à música é o seu auto-retrato: «Põe toda a tua alma na peça, toca-a como a sentes!»
Conta-se que o pianista italiano, Orazio Frugoni, sugeriu a uma das suas alunas, com dificuldade em executar um dos Nocturnos, que passasse mais tempo, à noite, junto à catedral de Siena: «Sim, é muito romântico. E nós impregnamo-nos destas percepções, que alimentam a nossa criatividade; e se nada acontecer, é porque não somos artistas!» Só não ficou para a história se a comunicação da arte por osmose funcionou com a aluna...
Os 21 Nocturnos, compostos entre 1827 e 1846, são quase todos dedicados a senhoras, sendo umas mais lembradas que outras… De facto, Chopin tinha uma personalidade cativante e a sua natural timidez parecia conferir-lhe um charme especial, que lhe granjeou enorme sucesso entre o público feminino e a correspondente inveja no masculino… isto contado por cronistas da época. Aliás, o seu monumento no Parque Monceau (Paris) mostra uma admiradora em êxtase devocional, enquanto o pianista vai dedilhando ao piano.
Apesar de aclamado em vida (em 1848, deslocou-se a Londres, onde foi aplaudidíssimo pela Rainha Vitória e toda a corte britânica), Chopin era de uma humildade invulgar, como o atestam os seus desabafos, alguns de uma ironia deliciosa: «Não percebo como é os alemães estão tão fascinados comigo – por mim, fico fascinado com eles por encontrarem razões para se fascinarem!» ou, na mesma linha «Sei que me falta tanto para atingir a perfeição». Talvez não se imagine que nas suas obras, verdadeiras filigranas musicais, o compositor apreciasse sobretudo a «Simplicidade (que) é o objectivo final. Depois de se tocarem quantidades imensas de notas, é a simplicidade que emerge como o maior dom da arte.» (sic, Chopin)
Testemunhos de artistas do seu tempo:
- Eugène Delacroix: «Chopin (…) é o maior artista que já conheci. (…) Às vezes, acontece entrar-me pela janela, que dá para o jardim, a música de Chopin, a trabalhar mesmo ao lado, misturando-se com o cheiro das rosas e o canto do rouxinol.»
- George Sand: «O seu trabalho criativo era espontâneo, puro dom! Brotava sem esforço nem pré-aviso… Mas depois vinha um trabalho árduo, como nunca antes tinha visto. Multiplicavam-se as tentativas (…) Fechava-se no quarto, durante dias, percorrendo-o de rés-a-lés, partindo as canetas, repetindo e modificando um pequeno trecho, centenas de vezes.»
- Franz Liszt: «Nos seus poéticos Nocturnos, Chopin cantou não apenas as harmonias, que são fonte de inefável prazer, como também a tumultuosa agitação que costumam provocar»
Bom Inverno, desejando que a chuva lá fora resulte inspiradora e… se não sintonizarem logo com os Nocturnos, experimentem passar boa parte da noite a ver os Jerónimos…
Maria Zarco (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
Sou sossegado. Coisas do feitio das pessoas, e não há nada melhor que o sossego para nos pormos a pensar nas coisas da gente. Não foi o feitio que me sentou aqui, nesta cadeira quieta, condenado à inércia do corpo. Isso foi a sorte.
Agora que penso bem no assunto, foi uma sorte eu ser sossegado, que a ser de outra maneira dava em maluco na certa.
Ter uma vida sentada não é, de todo, uma coisa ruim. Descobri uma infinidade de novidades emolduradas na vista de uma janela, e tinha uma infinidade de tempo para cada uma delas, pelo menos até se me apagarem os olhos.
Agora escuto. Todos os barulhos são diferentes, alguns completamente distintos e outros quase idênticos. Aprendi a distinguir o sussurro dos lençóis de seda, tão diferente dos estalos dos lençóis de algodão, ou do abafo dos de flanela. Sei de onde sopra o vento, ora pela corrida das tampas de plástico pelo chão, ora pelos ramos da amoreira, que quando está nortada, em vez de balançarem sozinhos, raspam no beiral de lata. Sei dos amores da Susana, pela cantiga que sai, ou não, da marquise dela. Foi uma sorte eu ser sossegado, que a ser de outra maneira, nunca era capaz de ver com os ouvidos.
Ontem à tarde pareceu-me, que a sorte ditou eu estar distraído com as lengalengas da criançada do jardim-escola, ouvir o meu coração abrandar. Não me detive muito no assunto e só lhe estou a prestar atenção porque hoje acordei muito cansado. Consigo ouvir a quietude gemida dos ossos e o arrastar de cada pulsação.
Cego, sentado e sossegado, vejo o barulho que o tempo faz quando chega ao fim da sua infinidade. Mais um bocadinho e levanto-me daqui.
Diz-se que o povo português é um povo de poetas; assim sendo, o "impensado" vai dar o seu contributo para a poesia nacional. Num sossego perturbado Duma perfeição que é tosca O ceguinho arregalado Olha guloso, enojado O parafuso sem rosca. Quem sai aos seus não degenera Quem sai aos seus não se regenera Quem sai aos seus não é de Genebra Quem sai aos seu não exagera. Mário de Sá-Carneiro escreveu um pouco mais de Sol-eu era brasa e é citado e aplaudido; vou também dizer qualquer coisa, arriscando-me a que digam apenas que sou parvo: um pouco mais de Fevereiro e eu era bissexto.
A Quaresma começou na 4ª feira passada. Perdeu-se a disciplina do jejum e da abstinência, achamos sempre que já temos dificuldades suficientes na vida para nos atermos a tradições cuja lógica não vislumbramos. No fundo, no fundo, sabemos que o importante não é o não comer carne à 6ªfeira, mas gostamos de nos agarrar a estes pequenos sem sentido dos dias de hoje para nos desinteressarmos, tantas vezes, do que é verdadeiramente importante.
A Quaresma não é uma época fácil. Não há uma alegria permanente, não há luzes a ofuscarem a macilências das vidas, não há ruídos contínuos a afugentarem o horror de um silêncio com o qual pode ser difícil conviver-se.
Como sempre vou pedindo, entre outras coisas, discernimento e força, paz para todos os que me estão próximos. Gostava de ter soluções, mas afigura-se que será pedir demasiado, e também tenho de fazer pela vida...
Boa Quaresma para todos os que me lêem.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o demónio levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.