20 maio 2012

Solenidade da Ascensão

Mais do que comentar o evangelho do dia, lanço-me a uma partilha sobre a qual não sei se serei clarividente. Uma coisa é termos a noção interior de que a questão é esta, outra é saber explicá-la. Por último, falta-me sempre a convicção de que estou certo na minha análise.

Em bom rigor, nunca saí da igreja católica. Fui cumpridor por obrigação de educação e, quando chegou a altura da liberdade de escolha, nada me fez sair, quaisquer que fossem os motivos que me mantivessem lá dentro. A partir de 2001, por motivos sabidos da maioria dos que me lêem, olhei para o mundo com os olhos da fé, tentei relacionar-me com os outros à luz do que ia ouvindo e interiorizando. Isto é, a minha ideia é que a vida de igreja (mais do que a fé, que o tema pertence a outro campeonato) foi um ponto de partida. Talvez ao contrário de outros que, por motivos diversos, encontraram a igreja depois de uma qualquer procura. Faz sentido ou estou a ler mal o enunciado?

Há tempos, por cauda deste artigo, falava com quem me é próximo sobre o tema da paz interior e da relação com os outros. Vinha isto a propósito, também, do meu post sobre a metáfora da ilha do corvo e a explicação dada pela Luiza Azancot, que foi completada posteriormente com uma conversa a três. Diziam-me mais ou menos isto, numa tarde de Primavera enquanto fumava um charuto oferecido pelo meu querido amigo ATM: há quem procure a paz dentro de si próprio para depois a encontrar na sua relação com os outros, há quem a procure na relação com os outros para depois a descobrir dentro de si próprio.   

Seja qual for a fórmula escolhida (não sei, sequer, se há uma fórmula certa...) o importante para cada um de nós, católicos, é sentir-se enviado, ir para todo o mundo e pregar os valores em que acreditamos - a paz, o amor, a caridade, a ausência de orgulho, a temperança. E tantos outros. 

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

JdB
   

EVANGELHO - Me 16,15-20
Naquele tempo,
Jesus apareceu aos Doze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo
e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado.
Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome;
falarão novas línguas;
se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal;
e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».
E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.
Eles partiram a pregar por toda a parte
e o Senhor cooperava com eles,
confirmando a sua palavra
com os milagres que a acompanhavam.


19 maio 2012

Pensamentos impensados


Poesia (?)
O tempo passa num instante
'Inda ontem era antes de ontem
E já hoje é amanhã
E não sendo em si bastante
Não é provável que contem
Com inusitado afã.
 
NA - Isto saiu-me de rajada, não sei é o que quer dizer.
 
Escrita em dia
Na escrita semítica escreve-se de Paulo Portas para Jerónimo de Sousa.
Na escrita latina escreve-se de Francisco Louçã para Passos Coelho.
Eu explico: na primeira escreve-se da direita para a esquerda, e na outra da esquerda para a direita.
 
Paraíso não fiscal mas fiscalizado
No princípio o Paraíso era só Adão e erva; mais tarde Deus deu-lhe uma companheira e uma macieira mas, incompreensivelmente, proibiu Adão de comer maçãs. Mesmo assim, Deus não foi muito severo, pois podia ter obrigado Adão a fazer voto de castidade.
Pensando bem no assunto, acho que como ainda não se tinha dado a cena da Torre de Babel, Deus não sabia falar inglês e não conhecia a frase an apple a day keeps the doctor away.
Já agora, que língua falaria Deus? Esperanto?

SdB (I)

18 maio 2012

Friday is a great day to fall in love







"Era uma vez um passado e talvez
Fosse então fruto da recordação
Sol e avidez, areais, ombros nus,
Em cada chão sementes de Verão

Au revoir lividez, tristes tigres da tez
Tenra idade, o fruto da vontade
À esperança que vês, não lhe chames prenhez
Na verdade são sementes da saudade"


TdB

17 maio 2012

pequena reflexão sobre a insensatez da sensatez




é vero que a poesia lixa-nos a cabeça e o coração,
diz-me junto ao ouvido uma querida amiga querida,
não de todo desprovida de uma considerável razão.
(mas falta-lhe responder: e fazemos o quê da vida?)


gi

16 maio 2012

Ponto de Vírgula

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(...)


Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.



"Dobrada à moda do Porto", Álvaro de Campos


Dobrada à moda do Porto

Ingredientes:
1 kg de feijão branco
1 orelheira
2 kg de dobrada
1 mão de vaca grande, chouriço de colorau
1 salpicão, tira média de toucinho fresco
4 pés de porco
1/2 frango
250 gramas de carne de vaca
1 chouriço de sangue
1 tira de bacon, linguiça, presunto
1 toco de porco fumado
2 tomates maduros, salsa, cebola média, 3 alhos
colorau, pimenta, sal, azeite

Preparação:
Coza o feijão e aproveite a água. Coza a orelheira, os pés de porco e a dobrada e o toco em águas diferentes. Faça um refogado com a cebola, os alhos, os tomates, o colorau e a salsa.
Refugue aqui o chouriço de colorau, o presunto e o frango. Parta as carnes que cozeu e a dobrada aos bocados e acrescente ao refugado.
Junte e feijão branco já cozido e coloque o chouriço de sangue por cima para não se desfazer. Deixe refogar lentamente para engrossar o môlho.
Veja os temperos e ponha a pimenta. Quando pronto sirva com arroz seco.

Nota: receita tirada daqui

MFM

15 maio 2012

Duas últimas


Estando a terminar os campeonatos nacionais de futebol, vulgo ligas, da maior parte dos países europeus, aproveito o momento propício e as possibilidades de escrita que este blogue me vem dando para aqui prestar a minha singela homenagem ao português José Mourinho, treinador de futebol de profissão.

Escuso de frisar, pois é do conhecimento quase universal, que se trata de personagem controverso e dado à polémica, que se adora ou se detesta. Com ele não há meio-termo, no remoque irritante e provocatório, na ambição desmedida ou na ânsia ganhadora que tem como reverso um mau perder que lhe tem custado muitos amargos de boca. Confesso que nunca fui um indefectível do homem, muito pelo contrário, apesar da sua afirmação de que “ foi criado entre Setúbal e Belém” (por causa do pai, guarda redes no V. Setúbal e no Belenenses) me dever levar a ter por ele uma certa simpatia, pois sou e serei sempre adepto deste último clube, pelo menos enquanto existir (!).

Mas não, fui tendo para com ele uma irritação crescente, que se agravou quando entrou no Real Madrid, porque no país vizinho sempre preferi o Barcelona. Sentimento em que alguns, muito poucos, dos meus amigos me acompanharam. Já a família, pelo contrário, segue o sentimento dominante, vendo nele um pequeno herói vitorioso em terras estrangeiras.

Agora, que se tornou campeão no 4º país diferente – neste caso de Espanha batendo uma equipa que os sábios deste desporto consideravam pouco menos que imbatível – está na hora de, para lá das antipatias, reconhecer mais este feito notável, bem como a tenacidade, competência e espírito ganhador de que voltou a dar sobejas provas. Bem ajudado, no campo, por alguns jogadores portugueses, sobretudo Ronaldo, e fora dele por uma equipa de adjuntos toda ela portuguesa.

Trabalho bastante com espanhóis. Tirando os adeptos do RM, não gostam dele, porque o invejam e porque não gostam de ver um português ganhar na terra deles. Tal como sucedeu com os ingleses há uns anos. Mais uma razão para escrever este texto. Sem patriotismos ridículos, até porque me conheço e sei que, por estranho que pareça, para o ano lá estarei a torcer para que seja o Barça a ganhar o campeonato espanhol!

Porque o tema foi à volta do futebol, escolhi esta interpretação do Rod Stewart, fanático adepto do Celtic, clube dos católicos de Glasgow.    

Espero que gostem.

fq


14 maio 2012

Concertos dos dias que correm


Fórmula para o caos

A Premier League pode não ter equipas ao nível de Real Madrid e Barcelona, que desde há 3/4 anos ocupam os lugares cimeiros dos rankings internacionais, a uma larga distância da concorrência. Contudo, apenas a Premier Legaue pode proporcionar momentos como os de hoje, na cidade de Manchester, em que Man. City estava afastado do titulo aos 91 min de jogo. Vejam o vídeo, vale a pena!


Pedro Castelo Branco 

13 maio 2012

Domingo ... se fores à Missa!


O Evangelho de hoje fala-nos de Amor;  de todos os sentimentos, este é sem dúvida o mais cobiçado, o mais falado, o mais “googlado” nos dias de hoje (886.000.000 resultados para a palavra amor, no google).

Deus não é senão amor. Ele revelou-Se como tal, principalmente ao dar-nos o seu Filho, Jesus, como nosso Salvador. A Igreja, que é o corpo de Jesus e a sua presença sobre a terra, tem como lei fundamental a lei do amor; tendo amor uns aos outros, os cristãos manifestam em si a própria mensagem de Jesus, ao mesmo tempo que a comunicam.

Quando vivemos em amor e por amor, parece que tudo tem outra cor; o medo desaparece, a alegria permanece, a coragem fortalece. Quem, como nós cristãos, tem a graça de conhecer e experimentar o Amor de Deus vivo nas suas vidas, sabe bem do que estou a falar. Não há porta que se feche e não se abra logo uma janela. Não há queda que não seja seguida de crescimento. O amor dá-nos alento para continuar, para ir mais além, para não temer e ousar. O amor de Deus é incondicional e total, enquanto que o nosso amor é cheio de “ses” e “mas”, é cheio condicionantes e negociações mas, mesmo assim, é ele a base de sustentação das nossas vidas. Não há maior tristeza no mundo, do que aqueles que vivem em desamor; amor é harmonia, é dádiva, é aceitação, é a mais sublime forma de entrega.

Porque será que temos tanto medo em dizer aos outros: amo-te!  Será porque pensamos que amar significa perder liberdade? Significa espirito de sacrificio, tal como Jesus fez por nós? Ou será porque o nosso coração, estando tão cheio de outros sentimentos inúteis e destruidores, verdadeiramente, não consegue sentir esse amor?

Esta semana, desafio-os a fazer um pouco de introspecção no vosso coração e tentar perceber em que “prateleira da vossa despensa guardam a caixa do amor”.

Domingo, Se Fores à Missa ...........  Ama, sem medos!

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.
 Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei.
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça.
E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

Palavra da salvação.

12 maio 2012

Pensamentos impensados


Natureza
Na natureza também se usa a barriga de aluguer. O cuco põe os ovos nos ninhos de outras aves.
 
Obras públicas
As capelas imperfeitas, no Mosteiro da Batalha, têm maus acabamentos.
 
Virtudes
D. Maria é virtuosa.
D. Maria é casta.
D. Maria é casta de uvas.
 
Dinheiro
Tenho uma má quina de fazer notas falsas, mas está obsoleta: só faz escudos.
Pelo sim, pelo não, vou guardá-la.
 
Crise
Os portugueses devem fazer o possível para ajudar Portugal a sair da crise antes que o hino nacional passe a ser Nação valente e mortal.

SdB (I)

11 maio 2012

enquanto escuto a Glória, segundo os Sétima Legião




nesses dias
ainda estávamos
todos vivos.

(um poema sem metáforas
é sempre
um bom poema.

a vida
é que é
má poesia.

faz uma certa diferença
- não faz?)


gi

10 maio 2012

Moleskine


Educação, sempre. Imprescindível a simpatia. Talvez simplicidade, que não deve confundir-se com simplismo. A certeza de que um apelido ou um berço nos dão deveres, mais do que direitos. Com o mesmo à-vontade comer codornizes no seu sarcófago com um príncipe e migas gatas com um trabalhador do campo.

Matilde explica tudo isto a uma sobrinha usando uma voz serena sem ser paternalista, convicta sem ser irredutível. Compõe o vinco de umas calças elegantes, para que fique rigorosamente paralelo à canela,  e roda no dedo um bonito anel que lhe foi oferecido por uma avó, tinha ela 18 anos. Agora, passados quase 40, a jóia mantém a sua elegância discreta, sinal da intemporalidade de algumas coisas. E continua, para explicar o que é, no seu entendimento, frisa, ser-se educado e, além disso, ser-se fino, um conceito que ela usa como o cardamomo – com parcimónia. 

Uma vida discreta, sem alardes do que se tem ou faz. O pudor na revelação pública da sua vida, mantendo dentro de casa o que deve estar dentro de casa. Saudar quem está à sua frente segundo os hábitos do outro. Não evidenciar a diferença que diminui. Ser elogioso sem ser bajulador. Perceber a diferença entre requinte e ostentação, porque até na humildade se pode ser requintado. Vestir-se sobriamente, o que não é contraditório com elegância. O tom de voz certo e uma linguagem adequada, que não ofenda pela vulgaridade nem pela sobranceria.

Matilde é dona de um antiquário que herdou e desenvolveu. Quando está na loja recebe qualquer cliente com uma amabilidade e um sorriso genuínos. Usa o mesmo tom de voz para explicar quem eram os bons gravadores, a impossibilidade de se encontrar uma Nossa Senhora de Fátima do século XVIII, o menor valor dos retratos (mesmo sendo um Columbano), ou que não há tamanho abaixo quando se fala de vasos chineses da dinastia Ming... A vida corre-lhe bem, financeiramente desafogada, socialmente rica, dentro dos parâmetros que ela tão claramente – sem notas de imposição – explicou à sobrinha.

Uma vez por mês Matilde agarra no carro – um Mercedes discreto, preto – e segue para fora de Lisboa. A empregada da loja informa que a Sra. D. Matilde foi tratar de assuntos profissionais e por aí se fica, até porque não sabe mais. No entanto, foi-lhe explicado o valor da sobriedade comercial, porque a aquisição de antiguidades é feita, muitas vezes, à custa da debilidade financeira de famílias que acabaram em apartamentos modestos, cartões de crédito sucessivos, noites agarradas ao ferro, memórias de palacetes e criadagem emolduradas em casquinha nacional. Matilde é recatada, porque ser-se educado é não comentar  a desgraça alheia.

Ao fim do primeiro dia Matilde está em Toxofal de Baixo, nas proximidades da Lourinhã. Estaciona o carro na garagem de um prédio e entra discretamente, resguardada por trás de uns óculos escuros de marca. Utiliza o elevador para subir ao 3º esquerdo, toca à campainha que imita um gongo oriental e entra, depois de se assegurar que não foi vista. Dez minutos depois está vestida com uns hot pants vermelho sanguíneo, um top cor-de-rosa com um decote de uma generosidade que já não se usa, e um anel grande numas unhas tingidas de azul turquesa. Faz amor com Abílio, um empregado de café que ostenta um bigode preto fino, umas patilhas bem aparadas e um problema sério de joanetes. Matilde grita muito, porque gosta de verbalizar o prazer que recebe. Depois, deitada na cama e revelando uma nudez onde a expressão pudor não tem lugar definido, responde a perguntas que ela própria fez, para uma revista social (O Toxofal Elegante) que ela inventou. O Abílio é o homem da minha vida; agora sim, estou feliz; estamos a amadurecer a nossa relação mas há uma cumplicidade muito grande; o Abílio ajuda muito em casa, cozinha com muita paixão..

O sol põe-se em Toxofal de Baixo. Matilde veste um fato de treino, calça umas havaianas e avança para a cozinha, porque é dia de bola e alguém tem de lavar a loiça da semana. Restam-lhe dois dias, e há tanto amor para fazer... Não sabe se voltará mais, porque há um presságio de morte na sua relação com Abílio. Tudo começou com umas aulas de kuduro nos bombeiros locais e com a professora, vinda expressamente  de Luanda, cuja generosidade de nádegas levou o empregado de café a revirar os olhos. E isso, no fundo, é o princípio da lascívia e da traição. 

A menina pode ter fetiches à vontade. Não pode é falar neles, porque as pessoas finas não falam dessas coisas...

JdB

09 maio 2012

Diário de uma astróloga – [25] – 9 de Maio de 2012


Os Nós Lunares

Há um ano, o dono deste estabelecimento convidou-me para contribuir para o blog escrevendo sobre astrologia, que é simultaneamente a minha profissão e a lente através da qual tento compreender o mundo, os outros e, sobretudo, eu própria. Tem-me dado imenso prazer escrever estes posts e procurar exemplos ou imagens certas para ilustrar os textos que escolho, olhando para uma lista preliminar de assuntos e, depois, deixando que a inspiração, as datas do calendário ou um comentário ocasional ditem a ordem pela qual que eles têm aparecido.
Foi justamente um comentário aqui publicado que me indicou que era a altura de falar dos Nós Lunares. São os pontos de intersecção da órbita da Lua com a órbita aparente do Sol (a elíptica). São dois pontos opostos no espaço que distam, por isso, 180º entre si. O ponto de passagem da Lua de uma latitude sul para a latitude norte chama-se Nó Lunar Norte, e vice-versa, e são calculados para o momento do nascimento.

Os nós lunares não são planetas e, por isso, não representam energias específicas ao nível da personalidade mas, por integrarem toda a órbita do Sol e da Lua, os nossos luminários, são a simbologia mais parecida com “alma” que a astrologia pode fornecer. O eixo dos nós lunares é o resumo, ou a fotografia do nosso percurso evolutivo. O nó lunar sul representa os processos a que estamos habituados, os que nos são mais familiares, talvez por termos sido condicionados por experiências anteriores - de onde viemos. O nó lunar norte representa aquilo que temos que conquistar para nos sentirmos plenamente realizados – para onde vamos. É evidentemente o ponto de maior resistência, que requer esforço porque descobrir e cumprir a nossa missão não é tarefa fácil.
A astrologia chinesa refere-se a estes pontos como Cauda do Dragão e Cabeça do Dragão. Antigamente o Ocidente usava a mesma designação, em latim naturalmente. Nas pinturas e frescos renascentistas vêm-se representações de Cauda Draconis e Caput Draconis. Por exemplo, esta cabeça de dragão é um pormenor que faz parte do tema astral pintado no tecto do Castelo Sforzesco, em Milão, que data de 1474.


Lamento que o mundo ocidental tenha eliminado as referências à cabeça do dragão porque sugere com muita clareza a dificuldade, a conquista, o desafio. É com certeza mais ilustrativo do que Nó Lunar Norte.
Na semana passada, num dos seus belos textos, o JdB entregou-me de bandeja a oportunidade de falar sobre os nós lunares. Impressionou-me pela clareza com que definiu o que o eixo dos nós lunares representa em termos de escolhas e desejos. Com a sua autorização passo a citar e a comentar:

A parte mais saudável de mim é gregária. A parte mais lúcida de mim é gregária. Apesar disso, nas profundezas do que sou há algo que pensa na ilha do Corvo, no silêncio, na interiorização, na vontade de escrever em frente ao mar, na contemplação das ondas, na vastidão da paisagem, na parcimónia dos sons, num minimalismo existencial, no isolamento que favorece a espiritualidade. Demasiados factores me prendem ao inverso de tudo isto: a família, as relações afectivas, o medo, a (quase) certeza do que sou, a convicção do que é saudável, os projectos, as pessoas que me são imprescindíveis, o gosto por uma vida mundana, a dúvida sobre a validade de alguns desejos.

Para quem, como o JdB, tem consciência do seu percurso evolutivo, é importante perceber que a Ilha do Corvo é a sua cabeça do dragão, é a parte de si que precisa de conquistar, que é normal que seja menos lúcida porque vem, exactamente, das profundezas que eu chamaria a voz da alma. Mas os nós lunares constituem um eixo; há o outro lado, o lado oposto a puxar ao contrário, com o chamamento do que é familiar, do que é mais fácil: demasiados factores me prendem ao inverso
A experiência que tenho, comigo própria e com os meus clientes, ensinou-me que esta evolução requer equilíbrio. Para chegar onde devemos ir não podemos ignorar de onde viemos. Não é uma corrida onde viramos as costas ao ponto de partida com os olhos só na meta. É uma estrada que se vai construindo feito de escolhas e oportunidades, e muitas delas vêm ao nosso encontro quando menos se espera. Recentemente, numa consulta, discuti com uma cliente como a compra de um armazém velho, coisa que lhe apareceu “por acaso”, se encaixa perfeitamente no significado da sua Cabeça de Dragão.
O eixo dos nós lunares, o retrato no nosso propósito de vida, é diferente para cada um de nós pelo signos que ocupam (sempre em signos opostos), pelas casas em que estão localizados (sempre opostas) e pelos planetas que mais os influenciam.
Aqui fica a imagem dos símbolos usados no horóscopo, caso queiram consultar o vosso tema natal e aprofundar esta questão. Ao JdB espero que a visão astrológica o ajude no seu percurso de auto-conhecimento e de cidadão do mundo.



Luiza Azancot

08 maio 2012

Duas últimas

Tomei conhecimento do Quarteto em Cy quando estive no Brasil no ano do verão quente. Tinha comprado uma cassette (sim, sim, o tempo era dessas modernices) com músicas do Ary Barroso e elas interpretavam No rancho fundo (parece-me) com uma limpidez de voz que me encantou. Infelizmente não encontrei esse vídeo na Internet.

Eu tinha 17 anos e começava a viajar sozinho, embora tivesse guarida amiga no destino. Atravessar o atlântico num Boeing 747 (TAP) - e em primeira classe - é uma experiência que devia estar vedada a jovens imberbes como eu. Não apreciei metade do que me foi dado experimentar: aviões bastante vazios, uma farpela melhor que se punha para voar, um atendimento de cinco estrelas, vinhos das melhores proveniências (escolhi cerveja para o jantar e estou convencido que a hospedeira se revolveu de nojo contido), queijos que nos eram disponibilizados em tabuleiros, como se estivéssemos num restaurante. Em turística tudo era bastante pior mas, mesmo assim, havia guardanapos de pano, ementas de papel para se escolher entre carne e peixe, um nível de serviço dificilmente comparável noutras companhias aéreas. Luxos que, tal como os 13º e 14º meses para a função pública, não voltarão mais, porque viajar é um desporto de massas, e esse conceito é incompatível, a um certo nível, com pormenores de sofisticação.

Não vale a pena descrever a beleza do Rio de Janeiro. Todos conhecemos, quer de lá ter estado, quer de fotografias. Mas nessa altura a cidade era bem menos perigosa do que será agora. Na praia as roupas ficavam na areia enquanto tomávamos banho, porque lá estariam quando regressássemos; bebíamos chá mate fresquinho, estendidos ao sol do Leblon; comíamos sandes de ovo na lanchonette Bob's ao fim da tarde; à noite saíamos e regressávamos de autocarro, sem problemas de maior. Dessas minhas duas idas guardo gratas recordações. Voltei lá com a família, quase 30 anos depois, para reforçar o sentimento: em termos de beleza natural, dificilmente se bate a Cidade Maravilhosa.

Deixo-vos com o Quarteto em Cy. Quem está em climas mais outono/invernosos poderá sentir uma ligeira e alegre primavera interior. Quem está em terras de clima mais ameno (e há quem esteja, com certeza) sorrirá de comodismo egoísta, porque há o mar, as amplitudes térmicas reduzidas, o calorzinho que convida à manga curta...

Façam o favor de ser felizes.

JdB      



07 maio 2012

Especial eleições


Já aqui manifestei a minha repulsa pelo sufrágio universal.
Ontem, mais uma vez, se assistiu ao espectáculo ridículo de dois candidatos a presidente a república no acto de votar. Estariam a votar em quem? No Tio Patinhas? Nos 3 mosqueteiros? Na abelha Maia? Felizmente ninguém perguntou em quem tinham votado, pelo que não se ouviu o que já ouvi a Cavaco Silva: o voto é secreto (secretos bons são os de porco).
As Monarquias podem ter muitos defeitos, mas os Reis não votam.

SdB (I)

Vai um gin do Peter's?

Estamos pouco habituados a ver filmes portugueses premiados. Menos ainda com sucessos de bilheteira. Pois o realizador de «TABU»(1)  somou os dois feitos. Já no filme anterior – «Aquele Querido Mês de Agosto» (2008) – tinha conquistado o público.  
Em 2012, Miguel Gomes (M.G.) foi mais longe e, quase em despique com outro filme de êxito, a preto-e-branco («O Artista»), TABU também dispensou a cor e até as falas, ficando-se pela voz-off, em toda a segunda parte. Repare-se que a ausência de cor neste filme pouco tem a ver com a película francesa, de revivalismo puro dos anos 20. É um facto que M.G. também se reporta ao tempo do cinema-mudo, mas nem tanto para o recriar (como o galardoado dos Óscares deste ano), se não como homenagem à genialidade do grande realizador do início do século XX: F.W. Murnau. Inspira-se, sobretudo, na última realização deste cineasta, também passada em África. Além disso, adopta para nome da protagonista o título do filme mais famoso do alemão – «Aurora». 


Como em Murnau, a fotografia é de uma beleza extrema, permitindo fixar objectos e paisagens quase elevados a co-personagens da trama em curso. A árvore magnífica, de copa majestosa e uma profusão de ramos escultural, poderia evocar a árvore da vida, ou a metáfora bíblica sobre a árvore pré-figurativa do Reino dos Céus, onde todas as aves se vêm abrigar. Aqui, é a sombra salvadora dos calores asfixiantes da savana e a marca mais digna e senhorial da presença humana no seio da natureza, verdadeiro ex-libris das grandes fazendas coloniais.

Na ironia saudável do realizador e co-argumentista de TABU, a mesma árvore é igualmente filmada num episódio cómico, como cenário da capa de disco de uma banda dos anos 60, com as poses ridículas e incrivelmente artificiais da era do vinyl. Cada cantor, de fato branco e gravata, aparece pendurado no seu galho: ora hieráticos como se estivessem num salão, ora de braços abertos num suposto acolhimento, totalmente despropositado no meio da folhagem. É de gargalhada, mas sem resvalar para a piada corrosiva. Este género de cenas são recorrentes, embora sem afectar a profundidade da narrativa contada em off.
A comicidade de M.G. é dos seus pontos fortes, conseguindo um equilíbrio bem hábil no saber expor e assumir maximamente, sem humilhar ou apoucar o próximo. De facto, os seus filmes estão impregnados de humanidade, de respeito pelo outro, pelo mais diferente – único, de uma diversidade utilíssima e de uma riqueza impossível de abarcar na totalidade. Daí a vastidão do horizonte narrativo (lembrando Manoel de Oliveira), assim como alguns traços de grandeza nas suas personagens, apesar de todos os óbvios paradoxos e fraquezas de cada um (lembrando Camilo). Não há mesquinhez, ainda que haja um par de atitudes repugnantes. Respira-se! Porque há noção do valor das pessoas, criticando-se sem contaminar tudo de um desdém arrogante e julgador. Até os momentos cómicos ajudam a desmascarar os erros. Mas resiste-se à desqualificação simplista e moralista das personagens. Exemplo disso é o sonho alucinado da velhinha, para explicar por que voltara a torrar euros no Casino… Ou a insistência ainda mais alucinada, da mesma velhinha, a alertar contra um jacaré que ameaçava morder um Gianluca, a soar a galã de ficção. Ou a solução engenhosa, a contento de várias partes, para branquear um disparo precipitado e mortífero, no Norte de Moçambique, numa observação mordaz às habilidades dos políticos e à pouca fiabilidade dos supostos registos históricos… Numa palavra: lucidez. Uma lucidez temperada pela compaixão, porque se baseia na busca ousada para sintonizar com o outro, colocando-se nos seus moucassins, segundo um provérbio índio. A partir da perspectiva de vários outros, franqueiam-se novos olhares sobre a realidade. Esta multiplicidade de ópticas evoca a prodigalidade de heterónimos de Fernando Pessoa (em exposição na Gulbenkian, até ontem), sedento por explorar novos pontos de focagem do universo, qual camera-man
Percebemos, na segunda parte, muito do que nos parecera deslocado e febril na velhinha da primeira parte. Inspirado em Murnau, M.G. quis jogar com os contrastes – um processo narrativo invulgar no cinema actual. Vida e morte, anciania e juventude, cidade e campo, trivialidade e aventura, abandono e paixão fogosa confrontam-se em directo, em sentido cronológico inverso, i.e., dos últimos momentos de uma longa vida, para o fulgor dos primórdios da idade adulta. Saltamos do isolamento e inadaptações de uma anciã (Primeira Parte – “Paraíso Perdido), para o início da gloriosa década de 60, em que vivia numa fazenda gigantesca do sudeste africano, no sopé do monte Tabu (Segunda Parte: “Paraíso”).


A vida alegre e faustosa da África portuguesa não esconde, ali, o atordoamento de vários meninos da cidade, perdidos numa vastidão ecológica, sob um sol tórrido, onde as excentricidades são dos poucos entreténs que lhes emprestam alguma adrenalina. Aí entra um jacaré pequenino, chegado num vasto alguidar transportado por dois negros, ao som de um batuque tribal. Aí entram também inúmeros aventureiros, com espaço para as suas experimentações existenciais, livres da pressão das sociedades pequenas. Aí entram os sonhos de uma jovem (igual a tantas outras) a quem nada parecia faltar… para além de alguma noção do quotidiano – que é a forma mais concreta de se tocar a realidade. Ou não. O que a muitos faltava em sentido de vida, sobejava-lhes em tempo, meios, hobbies e um horizonte de capim a perder de vista, onde animais e caçadores costumavam brincar às escondidas.



O texto em off é riquíssimo, ajudando-nos a viajar por um mundo aparentemente longínquo da nossa condição. E que julgávamos enterrado, desde que os últimos colonos brancos se deixaram de sentir os anfitriões do continente verde.


Um guarda-roupa impecável, bem caracterizado, a evocar aquele Portugal transplantado para o Ultramar, que parecia viver num Verão infindo, equivalente a férias eternas. Piscina ou praia, bicicleta, jipes, barcos, jardins colossais, courts de ténis, caçadas, festas ao ar livre ponteavam a existência daquela elite vinda da metrópole. Aliás, sua ilustre representante. No entanto, os anseios e sentimentos de cada um moldavam mais os comportamentos e as opções de vida do que as próprias circunstâncias. Por mais irreais que fossem.


Ainda assistimos ao regresso (1975) atabalhoado de Aurora a Lisboa, sob os disparos da guerra que se seguiu à descolonização. E inicia-se, então, uma segunda existência, diametralmente oposta, confinada aos pequenos andares de uma malha urbana, densa em betão e stress.



Aurora na primeira parte de «Tabu» e segunda da sua vida,

mantendo inúmeras ligações a África: visíveis e invisíveis


Deparamo-nos ainda com uma escolha afectiva imprevista, a privilegiar uma solução mais austera, por não ter querido renegar todo o alcance do que antes vivera, em especial dos atropelos. Escolhera resgatá-los, ao menos simbolicamente. Desta vez não haveria branqueamentos condescendentes do passado. Embora até fossem compreensíveis. Mas se encararmos os factos com a frontalidade da velhinha…    
A originalidade deste grande contador de histórias rodadas em filme, vale bem o galardão atribuído a Miguel Gomes no Festival de Berlim e prova quanto a escassez de meios não tolhe o talento. Antes o aguçará. Nos seus filmes, toda a equipa técnica se desdobra em múltiplas funções, de figurantes a produtores da banda sonora, ajudantes de cenógrafo, etc. Claro que a falta de condições complicará o trabalho. O próprio Michelangelo demorou muito mais tempo (no seu padrão) para esculpir o célebre David, por só dispor de uma pedra com um enorme buraco. Talvez isso justifique a posição original da mega escultura de Florença. Mas ocorre pensar que há males que vêm por bem, quando uma matéria-prima especialmente inóspita faz o artista superar-se, beneficiando a obra e cada um de nós!




Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
TABÚ
Realização:
Miguel Gomes
Argumento:
Uma equipa humoristicamente chamada de “Comité Central”, com Miguel Gomes e Mariana Ricardo nos papéis principais.  
Produzido por:
Luís Urbano e Sandro Aguilar
Fotografia:
Rui Poças
Som:
Vasco Pimentel
Duração:
118 min.
Ano:      
2012
País:
Portugal, Alemanha, Brasil e França

        Elenco:

Laura Soveral (Aurora sénior)
Ana Moreira   (Aurora em nova)
Carloto Cotta  (Gianluca Ventura em novo)
Henrique Espírito Santo (Gianluca em mais velho)
Ivo Müller        (marido de Aurora )
Teresa Madruga (Pilar, vizinha da velha Aurora)
Isabel Muñoz Cardoso (Santa, a empregada africana)
Manuel Mesquita (Mário)

Local das filmagens:
Portugal-Lisboa, Moçambique.
Site oficial:

http://www.osomeafuria.com/films/3/35/

Prémios  da Crítica e Alfred Bauer no Festival de Berlim’ 2012

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