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11 outubro 2021

Música e poema para o dia de hoje

 


À Minha Filha

Vejo em ti repetida,
A anos de distância,
A minha própria vida,
A minha própria infância.

É tal a semelhança,
É tal a identidade,
Que é só em ti, criança,
Que entendo a eternidade.

Todo o meu ser se exala,
Se reproduz no teu:
É minha a tua fala,
Quem vive em ti, sou eu.

Sorris como eu sorria,
Cismas do meu cismar,
O teu olhar copia,
Espelha o meu olhar.

És como a emanação,
Como o prolongamento,
Quer do meu coração,
Quer do meu pensamento.

Encarnas de tal modo
Minha alma fugitiva,
Que eu não morri de todo
Enquanto sejas viva!

Por que mistério imenso
Se fez a transmissão
De quanto sinto e penso
Para esse coração?

Foi como se eu andasse
Noutra alma a semear
Meu peito, minha face,
Meu riso, meu olhar...

Meus íntimos desejos,
Meus sonhos mais doirados,
Florindo com meus beijos
Os campos semeados.

Bendita é a colheita,
Deus confiou em nós...
Colhi-te, flor perfeita,
Eco da minha voz!

Foi o amor, foi o amor,
Ó filha idolatrada,
O sopro criador
Que te tirou do nada!

Deus bendito e louvado,
Ó filha estremecida,
Por te cá ter mandado
A reviver-me a vida!

Alberto de Oliveira, in "Lar"

02 setembro 2010

Deixa-me rir...

Desconhecia Sam Taylor-Wood até ter estado em Londres. Lembro-me que na altura, 2004-2005, aparecia muito nas revistas sociais inglesas, sempre sorridente e triunfante (venceu dois cancros), ao lado do seu marido, agora ex-marido, Jay Jopling, o dono da famosa http://www.whitecube.com/

Certo dia, vi num qualquer jornal londrino, já não me lembro qual, que Sam tinha inaugurado uma exposição de fotografia, precisamente na White Cube, sob o título Crying Men. Fiquei curiosa. Quis ver, in loco, a qualidade e a força (porque tinham necessariamente de ter força!) das ditas fotografias reunidas sob um nome tão curioso! Bem como a beleza dos homens retratados, já agora: entre eles, Jude Law, o homem com o sorriso mais bonito do planeta...

E assim foi. Pus-me a caminho, numa tarde chuvosa e cinzenta, para o East End londrino. Comigo iam alguns amigos, uns curiosos como eu, outros talvez porque não tinham nada de especial para fazer nesse sábado à tarde…

E aí, ao entrar nesse pequeno espaço que é a White Cube, percebi a razão de ser de tanto sururu. Realmente não é comum depararmo-nos com um conjunto de magníficas e sobredimensionadas fotografias em que homens famosos põem a nu a sua sensibilidade, chorando desconsoladamente. Foi muito estranho estar no centro daquela sala despojada, de um branco imaculado, e sentir-me uma espectadora da dor de outros. Ainda por cima da dor masculina, que não estamos propriamente muito habituados a presenciar.

Não posso dizer que tenha ficado particularmente em choque ou emocionada... não, acho que até me centrei mais nos aspectos “técnicos” das fotografias! Gosto de apreciar o enquadramento, a qualidade da imagem, as cores, os ângulos, as luzes e sombras, os detalhes... mas era, de facto, uma dor muito bem retratada, muito expressiva, muito pungente até.

Sei que as sessões fotográficas foram muito duras para os retratados, e que envolveram, nalguns casos, várias horas para conseguir chegar ao tipo de dores que Sam queria retratar: as dores mais “esquecidas”. Sessões que puseram os retratados a chorar para a fotografia e, em vários casos, a continuar a chorar demoradamente (dito pela artista em entrevista). Isso, sim, impressionou-me muito, esse prolongar da dor, essa dificuldade em estancar o sangue duma ferida aberta…

E por isso vos deixo com este pequeno vídeo que dá uma panorâmica geral do trabalho duma fotógrafa com bastante interesse. Não necessariamente pela série Crying Men, que é abordada neste vídeo, e que provavelmente nem agrada aos leitores deste blogue (terá algo de sádico este trabalho?) mas pelo que faz no geral. Como podem ver, fez e faz muitos outros trabalhos. Sou particularmente fã do filme do prato de fruta a apodrecer. Está na Tate Modern.




E agora a música. Um clássico lindíssimo que pode, também, fazer chorar. Porque todos temos, ou já tivemos, alguém de unforgettable na nossa vida.



PCP

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