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06 dezembro 2018

Da morte de uma prima

A 4 de Outubro deste ano escrevia um post que intitulei "Da arrumação da casa". Nele falava de uma pessoa da minha família por quem tinha uma amizade muito grande, amizade essa que sabia ser correspondida, mais por generosidade afectiva do que por meu merecimento. Nesse texto referia o facto de ter estado com ela nas vésperas de um AVC muitíssimo extenso e de lhe ter falado de assuntos práticos: contas bancárias, canos entupidos, vontades de futuro imediato. Não fui a tempo de fazer o que queria, que era conversar com ela sobre a vida, sobre o violoncelo do Pai, sobre os livros que uma Tia arrojada tinha na biblioteca ou sobre a família em geral. Morreu na 2ªfeira passada, sossegada, enclausurada num mundo próprio e desconhecido onde viveu durante pouco mais de um mês.

A morte desta pessoa provoca em mim um sentimento muito específico: é preciso notar que todos à sua volta suspiraram de alívio, estou certo, quando souberam da sua morte. Era, acima de tudo, o descanso dela, passado um mês de um sofrimento que não saberíamos avaliar e com um quadro cuja irreversibilidade era total. A última vez que a vi, juntamente com uma irmã e duas sobrinhas, foi nos anos dela. De volta de uma cama onde ela dormia sossegada, rimo-nos com histórias passadas e falámos sobre as famílias mútuas que não conhecíamos, talvez esperançados que ela ouvisse gargalhadas e identificasse vozes e, naquele casulo em que vivia, se regozijasse com isso. Só Deus sabe.

Volto ao sentimento que me invadiu com a morte dela. Todos os desgostos com mortes de pessoas que me são próximas ficam aquém do desgosto maior que já tive, pelo que me habituei a relativizar tudo, ainda que não conscientemente. Já não sei se consigo ter desgostos enormes com a morte de pessoas. Talvez sinta uma pena muito grande: pena pelo desaparecimento de uma pessoa de quem gostava e com quem me cruzei muito; pena pelo desaparecimento de uma pessoa com memória, com inteligência e mundo, com um sentido de humor por vezes cáustico e ligeiramente maldoso, que saberia contar-me coisas que ninguém me contará mais. Seguramente o desaparecimento de uma pessoa que tinha os olhos bem abertos para a vida e para as pessoas, mesmo que a sua visão das coisas fosse a sua visão das coisas. Mas até isso era uma fonte de interesse - os exageros, a ideia certa que tinha, na sua cabeça, dos comportamentos dos outros, dos romances dos outros, do feitio dos outros ou da fragilidade dos outros. Era aquele ligeiro desequilíbrio, também, que lhe dava graça e interesse. E talvez a maior pena que me invade seja a de não ter conseguido conversar mais com ela, não porque ache que as pessoas são imortais, mas porque me deixo embrenhar na confusão do quotidiano. 

Habituei-me a tentar encontrar uma história nas perdas pelas quais passo - e sei que nem sempre consigo. Um dia destes dizia a uma amiga, que passa por um momento afectivo difícil, que, se não conseguirmos construir uma história (e cada um sabe como constrói as suas), temos apenas um buraco na alma, um desgosto que nos corrói os ossos e o coração, uma corrida sem sentido para o desânimo. A pessoa de quem falo morreu numa altura estatisticamente certa da vida (se é que se pode dizer isso) pois já tinha 88 anos. Que história construo eu com o desaparecimento dela? Uma história muito simples, feita de memórias boas e divertidas, de esperança no bom entendimento de pessoas que poderiam estar mais afastadas. Acima de tudo, e de forma muito egoísta, uma história escrita por pessoas da mesma família que provavelmente nunca se cruzariam, cuja existência seria algo vago e desinteressante. 

Na sua existência acamada e silenciosa, seguramente sob o olhar atento do Deus em que ela acreditava piamente, ofereceu-me a possibilidade de conhecer família, de colar nomes a caras e a episódios. Na minha lista de agradecimentos acrescentarei isso, pois é para mim importante. Que reze por todos nós, lá no Céu onde está.

JdB

04 outubro 2018

Da arrumação da casa

Coincidências (também trágicas) do destino:

Ontem, revisitando o que se escrevia neste estabelecimento há dez anos, encontrei um post na forma de carta  para um amigo. Nessa carta falava naquilo que faria se tivesse a certeza absolutamente inquestionável que só estaria na Terra mais seis meses: entre outras coisas (talvez voltar a fumar cigarros sem filtro...) tentava deixar a casa arrumada. Tal como dizia na carta, não se trata de precaver aplicações financeiras, delinear estratégias de investimentos, deixar contas pagas. Era, sobretudo, resolver uma certa vida humana: eliminar quezílias, apagar incómodos, pedir desculpa pelas ofensas. Um amigo com quem partilhei a carta ontem dizia-me com graça: se soubesse que eram os últimos seis meses vivia a fingir, a ficcionar, que tinha a casa arrumada...

Janto com amigos em casa na 3ªfeira desta semana. Uma mensagem de telefone diz-me que fulana teve um AVC e que foi de ambulância para o hospital. A situação parece ser séria. Ontem fui visitar esta pessoa, já com oitenta e muitos anos. O episódio - extenso e grave - afectou-lhe a locomoção do lado direito mas, mais grave do que isso, "eliminou-lhe" a fala e o entendimento. Significa isto que teria de aprender a falar para comunicar com os outros, embora possa conhecer quem tem à sua frente - não consegue é falar nem perceber o que lhe dizem. No fundo, vive isolada numa espécie de país estrangeiro cuja língua desconhece na totalidade.

Mata Nacional do Bussaco, Setembro 2018

Não consegui arrumar esta parte da minha casa. Nada me indispunha contra a pessoa em questão, muito pelo contrário - gostava muitíssimo dela. Estive com ela no Domingo e perguntei-lhe por coisas práticas: dinheiros, bancos, decisões imediatas, infiltrações e canos entupidos. Disse-lhe que da próxima visita só falaríamos de outras temas: pessoas, histórias, memórias, famílias. Hoje sei onde esta pessoa tem conta, se quereria ou não fazer obras, como se chama o psiquiatra. Mas não sei aquilo que gostaria de saber e que poderia passar para os meus filhos: opiniões sobre pessoas que nos eram comuns, graças que só a família percebe, identificação de gente que morreu mas que sobrevive nas histórias e nas relações humanas do passado.

Estou arrependido de ter feito perguntas práticas? Não, não estou - eram as necessárias face às prioridades. Mas estou arrependido de não ter percebido que tudo é efémero, que investimos tempo demasiado a aconselhar os mais velhos para não comer isto ou não beber aquilo, para fazer obras ou contratar serviços de limpeza, e que nos esquecemos de perguntar, de ouvir, de rir e, com isso, construirmos a história de uma sociedade que é a nossa, de gente que partilha o mesmo sangue ou tempos de convivência.

Não arrumei esta parte da minha casa. E já não devo ir a tempo, que os tempos são de sombra.

JdB  

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