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07 março 2022

Da oncologia pediátrica na UcrÂnia

A Ucrânia está na hora do dia. Nada que possamos ter vivido nos faz imaginar o que é a angústia e as dificuldades da população, o nível de ansiedade e de preocupação por um futuro que, em sendo optimistas, é interrogado. Os pessimistas - ou os realistas? - saberão o que vai passar-se: uma desgraça em tempo real, sem que o mundo ocidental faça nada - porque não pode ou porque entende que não deve.

Por razões óbvias acompanho o drama da comunidade da oncologia pediátrica: crianças que fazem quimioterapia nas caves dos hospitais ou nas estações de metro, tratamentos que se atrasam com consequências potencialmente dramáticas, falta previsível de medicamentos, diagnósticos que se farão demasiadamente tarde. A acrescer a isto, os pais destas crianças na guerra, as mães a aguentarem tudo sozinhas, a tomar conta de outros irmãos ou de gente mais idosa que também sofre e tem limitações.

Pela primeira vez na vida acompanhei de perto as estratégias para minorar o sofrimento destas crianças: grupos de trabalho que se reunem diariamente para actualizar informações, para identificar corredores humanitários negociados com governos, para reportar o sucesso de transportes aéreos específicos ou a capacidade instalada para receber estas crianças. 

Não falamos de milhares de crianças; não falamos de gestos heróicos ou de movimentações secretas. Falamos apenas de dedicação, de colaboração, de partilha de informação, de pessoas dos Estados Unidos, da Polónia, da Áustria, de Inglaterra ou de Portugal, que se reunem para garantir que ninguém fica para trás, que cada criança ou adolescente que morrerá - e nunca saberemos o número de crianças que morreu por falta de tratamento atempado - é o regresso à barbárie e à escuridão da alma. Provavelmente, à hora a que este grupo se reune, reunem-se outros grupos para tratar de outras comunidades de gente vulnerável. 

No fim de Spanish Train, de Chris de Burgh, o narrador diz:

And far away in some recess
The Lord and the Devil are now playing chess
The Devil still cheats and wins more souls
And as for the Lord, well, he's just doing his best

O mundo é este spanish train, onde o melhor da humanidade se confronta com o pior da humanidade. Espero que consigamos fazer mais do que apenas o nosso melhor...

JdB 

22 outubro 2021

Do cancro nas crianças com que me cruzo

 Afazeres do meu voluntariado internacional invadiram a minha agenda. Organizado como sou (ou como tento ser) atribuí cores aos meus compromissos - beatério, doutoramento, profissional, voluntariado internacional e nacional, reuniões via zoom (ou plataforma semelhante). Até há um ano a minha agenda era um tutti-frutti de cores. De Outubro para cá foi-se acentuando o azul claro (voluntariado internacional) e o rosa (reuniões via zoom que registo porque requerem sossego e banda larga...). A minha agenda está quase bi-cromática, o que me tem impedido de outras actividades.

Há alguns meses cruzei-me pelo telefone com um rapaz (40 anos, talvez) que tem um filho de 11 com cancro. A situação era complicada mas registou melhorias. Fui conversando com ele via telefone. Um dia, pelo fim de Setembro, telefonou-me: o rapaz tinha feito análises e não havia nada a fazer. Fui beber uma cerveja com ele sem o conhecer fisicamente e sem saber o que se diz a um homem que foi informado que não há nada a fazer pelo filho, que ainda vai à escola com alguma regularidade.

Ontem telefonaram-me da Acreditar. Uma rapariga de 11 anos, também diagnosticada com cancro, tem um futuro por concluir, já que, dizem à mãe, não há nada a fazer. A mãe quer levar a criança para Paris e perguntam-me se tenho conhecimentos lá. Fiz o que devia e podia e disse a quem me ligou: se a mãe da criança quiser falar comigo dê-lhe o meu contacto.

O que se diz a este pai e a esta mãe? O que respondo ou sugiro a um homem que, à minha frente, bebe uma cerveja nervosa e só murmura isto é muito complicado, isto é muito complicado. Abraço-o à despedida e ele agradece, porque sabe que comigo pode falar, enquanto sente que os outros não são parceiros elegíveis. Eu sou, porque me aconteceu o que aconteceu. E ele pede desculpa por me obrigar a reviver coisas.

E de que forma é que um médico diz a um pai / mãe que nada há a fazer pelo seu filho / filha? Que sabe desta "psicologia" uma médica com 25 anos, acabada de formar e a trabalhar na oncologia pediátrica?

Nos últimos dois anos, nem isso, cruzei-me com vários casos de pessoas que eu conhecia (ou de pessoas que conheciam pessoas que eu conhecia) que se confrontavam com crianças com cancro. Foram mais os casos que conheci estes dois anos do que aqueles que conheci em 20. Não sei o que isto significa. Talvez nada - apenas o destino.

Que tudo corra bem para estes Pais, o que quer que isso seja para eles. 

JdB

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