18 junho 2012

Vai um gin do Peter’s?

Quantas pessoas conhecemos a considerarem a festa um dos três dons da vida, neste trio: família, trabalho e festa? Claro que se devem excluir os organizadores de eventos, a começar pelos Jogos Olímpicos, o Mundial ou até o animado Rock in Rio. Assim como as fadas-madrinhas, desenhadas por Walt Disney... Conheceremos mais alguém? Já agora, com que idade?
Quantos conhecemos a achar possível o testemunho do amor vivido ter mais impacto do que as reflexões empolgantes sobre um assunto que parece ter disparado para a esfera do sonho? Ainda por cima, proliferam os comentadores de serviço, prontos a dissertar sobre tudo o que interessa (ou melhor, que seja vendável…) ao ser humano.
Quantos estão cientes de que a justiça precisa da liberdade – mais: do amor à liberdade – para cumprir plenamente a sua vocação?
Quantos ainda têm esperança de que a política possa ser «uma forma superior de amor pelas pessoas e pelo bem comum»? 
Quantos encaram a morte, tão benignamente, como «uma outra parte do mundo» onde se espera «voltar a casa», retomando os melhores momentos vividos nesta vida?
Ou quantos consideram «imortal tudo aquilo que cresce e se desenvolve nesta nossa vida de agora»? Quantos acreditam, mesmo, num amanhã com futuro?
Em tudo isto confia um venerável velhinho que, talvez por isso, tenha feito esgotar um estádio, em Milão, pejado de gente nova e de famílias, vindas das quatro partidas do mundo, para o ouvir. Ousou convidá-las a renovar a civilização do amor, pois ainda acredita que é uma meta possível, num mundo dominado por inúmeras tensões, por um mercantilismo exacerbado, além de outras manifestações de egoísmo igualmente devastadoras. O jornalista italiano, António Gaspari, escreveu sobre o ancião com este título «Quanto mais o criticam, mais as pessoas o ouvem». Que segredo moverá Bento XVI e que mistério poderá explicar o seu sucesso, apesar das vagas de críticas com que também é, periodicamente, assaltado por uma certa imprensa ideológica do Ocidente rico? 
Convenhamos que é algo irónico vir de um senhor de 85 anos a mensagem de maior empenho pelo futuro. Sabemos bem como a maioria dos chavões da moda estão totalmente fixados no presente, ignorando o dia seguinte, qual roleta russa, em que só os mais fortes ou os “bafejados pela sorte” sobreviverão… É a atitude comum da generalidade das figuras que esgotam estádio, normalmente do showbiz, e sempre super enérgicos. É o caso de um Mick Jagger ou de um Bruce Springsteen, verdadeiros acrobatas em palco, a aguentarem três horas aos pulos e a cantar, ininterruptamente. Simplesmente, parecem esgotar-se ali mesmo, acantonados numa ideia de alcance breve: sex, drugs and rock’roll. Naturalmente (talvez intencionalmente), esquecem-se de explicar que resistir a ressacas e overdoses é um luxo de um par de privilegiados! Bem podiam dar – ao menos, aos mais inexperientes e naives – os contactos das clínicas fantásticas onde (vários deles) se desintoxicam, ciclicamente, no maior dos confortos. Custa perceber uma omissão, que permitiria dar algum futuro a quem resolve levar à letra a divisa, de meio século, de muitos dos rockers de mais talento.
Começa a tornar-se raro acreditar nos novos tempos e, mais raro ainda, bater-se por eles, empenhando-se já hoje para assegurar um amanhã melhor, que possa beneficiar toda a humanidade. No mínimo, é a opção solidária e democrática, por excelência. Até por isso, vale a pena recordar as razões que fazem Bento XVI confiar no futuro, transmitidas(1)  às multidões que acorreram a Itália, há uma semanas, aqui agrupadas em cinco temáticas:

- O FUTURO ASSENTA NO BOM DISCERNIMENTO DE HOJE 
- PARA O TEMPO JOGAR A FAVOR DO AMOR  
- PARA A VIDA SER FESTA
- TORNAR ETERNO TUDO O QUE É BOM
- CARIDADE COMO VOCAÇÃO DO PODER


O FUTURO ASSENTA NO BOM DISCERNIMENTO DE HOJE  
- «(N)ão é a lógica unilateral do que me é útil e do maior lucro que pode concorrer para um desenvolvimento harmonioso, o bem da família e para construir uma sociedade justa, porque traz consigo uma competição exasperada, fortes desigualdades, degradação do meio ambiente, corrida ao consumo, mal-estar nas famílias. Antes, a mentalidade utilitarista tende a estender-se também às relações interpessoais e familiares, reduzindo-as a convergências precárias de interesses individuais...» (Homilia - 3.Junho)
- «(O)s caminhos para (a família) crescer no amor: manter um relacionamento perseverante com Deus…, cultivar o diálogo, respeitar o ponto de vista do outro, estar disponíveis para servir, ser paciente com os defeitos alheios, saber perdoar e pedir perdão, superar com inteligência e humildade os possíveis conflitos, … estar abertos às outras famílias, atentos aos pobres, ser responsáveis na sociedade civil. Todos estes são elementos que constroem a família.» (Homilia  - 3.Junho)


- «(…) A partir do século  XIX, veio a emancipação do indivíduo, a liberdade da pessoa, e o casamento deixou de se basear na vontade dos outros, e passou a assentar na decisão pessoal. (…) (Era) o modelo justo e o amor garantia, por si mesmo, o “sempre”, porque o amor é absoluto, quer tudo e, em consequência, também a totalidade do tempo é “para sempre”. Infelizmente, a realidade não é assim: vê-se que apaixonar-se é belo, mas talvez nem sempre seja perpétuo (…). É belo este sentimento de amor, mas deve ser purificado, deve avançar por um caminho de discernimento, isto é, (…) deve unir-se razão, sentimento e vontade.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)

PARA O TEMPO JOGAR A FAVOR DO AMOR   
- « A vossa vocação (de amor, em casal) não é fácil de viver, especialmente hoje, mas a realidade do amor é maravilhosa, é a única força que pode verdadeiramente transformar o universo, o mundo.» (Homilia - 3.Junho)
- «E o vosso amor (do casal) … é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação.»  (Homilia - 3.Junho)
 - «No rito do matrimónio a Igreja não diz: ‘estás apaixonado?’, mas ‘queres?’, ‘estás decidido?’. Isto é, (…) deve converter-se num amor verdadeiro… de tal modo que todo o homem (…) diz: ‘sim, esta é a minha vida.’». (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)
- «Queridos esposos, na vivência do matrimónio, não dais qualquer coisa ou alguma actividade, mas a vida inteira. E o vosso amor é fecundo, antes de mais nada, para vós mesmos, porque desejais e realizais o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar.» (Homilia - 3.Junho)

PARA A VIDA SER FESTA
- «O homem, enquanto imagem de Deus, é chamado também ao descanso e à festa.» (Homilia  - 3.Junho)
- «Família, trabalho, festa: três dons de Deus, três dimensões da nossa vida que se devem encontrar num equilíbrio harmonioso.» (Homilia - 3.Junho)
- «Queridas famílias, sois o trabalho e a festa de Deus! Reservando o Domingo para Deus, fazei festa com Deus e repousai, juntos, na Fonte donde brota a vida para construir o presente e o futuro. As forças divinas são muito mais poderosas que as vossas dificuldades! Não tenhais medo!»  (Angelus -3.Junho)
- «O trabalho e a festa estão intimamente ligados à vida das famílias: condicionam as suas escolhas, influenciam os relacionamentos... A Sagrada Escritura (cf. Gn cap. 1-2) diz-nos que a família e o trabalho constituem dádivas e bênçãos de Deus para nos ajudar a viver uma existência plenamente humana. A experiência quotidiana garante que o desenvolvimento autêntico da pessoa exige quer as dimensões individual, familiar e comunitária, (…) como também a abertura à esperança e ao Bem sem limites.» (Carta a preparar o Encontro de Milão – Agosto.2010)
- «(Sermos) capazes de reflectir a beleza da Trindade e evangelizar não só com a palavra mas – diria eu – por «irradiação», com a força do amor vivido.» (Homilia -  3.Junho)


- «Sejam disponíveis e generosos para com os outros, vencendo a tentação de se colocar no centro, porque o egoísmo é inimigo da alegria.»  (Encontro com jovens, no estádio – 2.Jun.)
- «(Dons do Espírito Santo) O dom da ciência, … ensina a encontrar na criação, os sinais, as impressões digitais, de Deus e a animar com o Evangelho o trabalho de cada dia; outro dom é aquela plenitude, que mantém viva no coração a chama do amor pelo nosso Pai (…), de modo a rezar-Lhe em cada dia com confiança e ternura, como filhos amados.» (Encontro com jovens, no estádio – 2.Jun.)
- «Rezamos por vós (dirigindo-se a quem confidenciou passar privações sérias), e esta oração não é só dizer palavras, mas abre o coração a Deus e assim gera também criatividade na busca de soluções.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)

TORNAR ETERNO TUDO O QUE É BOM
- «O cristianismo não promete apenas a salvação da alma, algures no Além, onde todos os valores e as coisas preciosas deste mundo desapareceriam (…). (Mas) promete a eternidade daquilo que se realizou nesta terra.» (in “Viver a própria fé: pensamentos para cada dia”, editado em 1990)
- «É o ‘homem total’, tal como se situou neste mundo, tal como viveu e sofreu, que será um dia levado para a eternidade de Deus, e que tomará parte, no seio do próprio Deus, na eternidade.» (in “Viver a própria fé: pensamentos para cada dia”)
- «Deus conhece e ama este homem total que somos actualmente. Portanto, é imortal tudo aquilo que cresce e se desenvolve nesta nossa vida de agora. É através do nosso corpo que sofremos e amamos… É, pois, imperecível aquilo em que nos tornámos no nosso corpo, aquilo que cresceu e amadureceu no coração da nossa vida, em ligação com as coisas deste mundo.» (in “Viver a própria fé: pensamentos para cada dia”)
- «Penso frequentemente nas bodas de Cana. O primeiro vinho é muito bom: é o apaixonar-se. Mas não dura até ao fim, deve vir um segundo vinho … um amor definitivo que se converte num ‘segundo vinho’…, melhor que o primeiro vinho.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)
- «Aqui também é importante que o eu não esteja isolado, o eu e o tu… Só assim, (na) participação de toda a comunidade, dos amigos, … do próprio Deus, brota um vinho que dura para sempre.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)

CARIDADE COMO VOCAÇÃO DO PODER (não será para todos, achar possível…)
- «A primeira qualidade de quem governa é a justiça, virtude pública por excelência, porque diz respeito ao bem da comunidade inteira  (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)
- «‘Aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo. Nada é mais útil do que fazer-se amar’ (Sto. Ambrósio, De officiis, II, 29). Por outro lado, a razão que, por sua vez, move (o poder) e estimula a vossa (actividade)… só pode ser a vontade de vos dedicardes ao bem dos cidadãos e, por conseguinte, (…) (ser) um sinal evidente de amor. Assim, a política é profundamente enobrecida, tornando-se uma forma elevada de caridade.» (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)
- «…Uma verdade central sobre a pessoa humana, que é o fundamento sólido da convivência social: nenhum poder do homem pode ser considerado divino, e portanto nenhum homem é dono de outro homem. (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)
- «O tempo de crise que estamos a atravessar precisa, para além de corajosas escolhas técnico-políticas, de gratuidade, como tive ocasião de observar: ‘A “cidade do homem” não é promovida apenas por relações feitas de direitos e deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão.’ (Enc. Caritas in veritate, 6).» (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)

A CONCLUIR EM FESTA - UM MOMENTO MUSICAL  NOS  E.U.A.

Envio da forma que me chegou, como presente, o tributo a Paul McCartney, decorrido no Kennedy  Center (será que já foi postado neste blog?...). É daqueles concertos em que as actuações superam – diria – as do ex-Beattle. Tudo com mais fibra. Claro que só podia terminar com toda a sala a cantar e a dançar ao som dos intérpretes dos hits do famoso britânico, a começar pelo casal Obama, mesmo ao lado do homenageado: 



Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
Note-se que para várias das citações aqui postadas, recorreu-se a outras traduções portuguesas dos originais italianos, podendo assim haver algumas variantes formais, mas que não interferem com o conteúdo da mensagem de Bento XVI. 

17 junho 2012

11º Domingo do Tempo Comum

Enquanto houver sobre a terra alguém que procure levantar o Céu, quer dizer, implantar um pouco de bondade sobre a Terra, restabelecer equilíbrios, perdoar ofensas, respeitar o "Céu", renunciar ao poder, plantar uma árvore e regá-la todos os dias, vibrar com uma cantata de Bach, arriscar a vida para matar a fome a alguém, comover-se com o riso de uma criança, sentir-se interpelado pelo mistério de Jesus Cristo no Getsémani como Aquele que carrega os pecados do mundo - enquanto houver alguém que teime em entregar-se à vida, sem pensar em si mesmo, mas tendo em mente os seus semelhantes - não é insensato manter a esperança. (José Mattoso, in Levantar o Céu).

Li este texto, que faz parte do prefácio da obra citada, ainda no Funchal. À minha frente apenas mar e, ao fundo, um pouco de terra com um casario a escorrer pela encosta. Na vastidão do oceano, tal como estava ilustrado na fotografia que publiquei na terça-feira, um homem sozinho praticava windsurf. Li este parágrafo e parei. Partilhei-o alto com quem estava comigo e talvez não tenha lido mais, para que tudo isto - a beleza do escrito, a confiança do homem e a grandeza do mar - ficassem cá dentro a enviar-me mensagens que nem sempre consigo decifrar, quanto mais explicar.

Sexta-feira, ao redigir este post, cruzei-me com o comentário de um dos padres da minha paróquia ao evangelho dominical. E começa assim: a parábola é um convite à esperança, à confiança e à paciência. Se eu tivesse pensado que deveria ter paciência, que mais cedo ou mais tarde as sensações daquele momento teriam uma qualquer revelação, talvez encontrasse uma série de coincidências significativas, mesmo que elas só tivessem lógica dentro de mim.

A semente de que fala o evangelho de hoje cresce e desenvolve-se fruto da sua dinâmica própria, desconhecida para o homem que mantém as suas rotinas diárias. O reino de Deus cresce e desenvolve-se dentro de nós apesar dos dias fagueiros ou turbulentos, no silêncio confortante ou no ruído inquietante com que nos defrontamos. O Seu tempo não é o nosso, porque os Seus critérios não são os nossos. A nós cabe-nos a esperança de que falava José Mattoso, a confiança metafórica do homem isolado no mar, a paciência compensadora de quem, num momento, vê clarificado um pensamento desconexo.   

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

JdB



EVANGELHO – Mc 4,26-34
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos


Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«O reino de Deus é como um homem
que lançou a semente à terra.
Dorme e levanta-se, noite e dia,
enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como.
A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga,
por fim o trigo maduro na espiga.
E quando o trigo o permite, logo mete a foice,
porque já chegou o tempo da colheita».
Jesus dizia ainda:
«A que havemos de comparar o reino de Deus?
Em que parábola o havemos de apresentar?
É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra,
é a menor de todas as sementes que há sobre a terra;
mas, depois de semeado, começa a crescer,
e torna-se a maior de todas as plantas da horta,
estendendo de tal forma os seus ramos
que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra».
Jesus pregava-lhes a palavra de Deus
com muitas parábolas como estas,
conforme eram capazes de entender.
E não lhes falava senão em parábolas;
mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.


16 junho 2012

Pensamentos impensados


Passagens
Se, por absurdo, se se visse o Dr Cavaco Silva a passear sozinho, poderia pensar-se que era passagem de Aníbal sem Guarda.

Traduções MY WAY
I go to bassoon of you.
Vou-te aos fagotes.

Penhores
Paulo Bento prometeu empenho da Selecção; Ronaldo disse que a Selecção estava empenhada. Empenhado está Portugal e não é pouco.

Estória (palavra que uso só para piadas)
Na História da milenar China houve um período muito mau...Tsé Tung.

Beetles (carochas)
Ouvi uma vez uma canção dos Beatles transformada em Oh Leonilde is love.

SdB (I)

14 junho 2012

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles,

I know that Portugal commemorates its National Day on 10th June. And yesterday the 13th was the feast of S Antonio in LIsbon, when some years ago I spent a fun night with friends singing and drinking our way through Alfama. And yesterday also the Portuguese football team defeated Denmark and managed to keep their hopes alive until at least the final group match in the Euro Championships.

So...I'm guessing there must have been much celebration and dancing in the streets.

Which reminds me of this really 'cool' song by Marshall Hain from the summer airwaves of 1978, when happy innocent days were dominated by Grease and disco nights by Saturday Night Fever, when I had just left school and was soon to begin university and experience living in a city.





A proxima.
PO

13 junho 2012

Ponto de Vírgula


Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(...)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

"Santo António", Poesia de cariz popular, Fernando Pessoa

  

Sardinhas no forno com ervas aromáticas

12 sardinhas limpas
2 colheres (sopa) de azeite
1 colher (sopa) de oregãos
1 colher (café) de sal
1 ramo de salsa
1 ramo de manjericão
Papel de alumínio para forrar

Aqueça o forno a 200º C. Forre o tabuleiro do forno com papel de alumínio. 
Seque bem as sardinhas coloque dentro de cada uma um pouco de orégãos, salsa e manjericão.
Tempere com sal, coloque-as sobre o tabuleiro e regue-as com o azeite.
Leve ao forno durante 15 minutos. Decorrido esse tempo, retire as sardinhas e acompanhe-as com
legumes cozidos e pão de milho.

MFM

Poema para o dia de hoje

Passeio de Santo António


Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.
.
Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…
.
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.
.
Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
.
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.
.
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…
.
O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
.
- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas…
........................E abalaram pró convento.


Augusto Gil

Dia de Santo António

(Imagem de Santo António exposta na Igreja do mesmo nome, no Estoril. Fotografia retirada daqui)  





12 junho 2012

Duas últimas

Cheguei 6ª feira ao Funchal para aqui passar alguns dias. A ilha da Madeira, ao contrário das açorianas não será, na generalidade dos casos, um sítio convidativo à introspecção, ao recolhimento, ao silêncio (em bom rigor também não era isso que me trazia...) mas a vista desafogada da varanda onde estou dá-me uma dimensão de vastidão notável. Pas mal, convenhamos... 


É a terceira vez que venho à Madeira, mas a primeira em tempo primaveril. O tempo ameno - talvez 26ºC de máxima - convida aos banhos de mar. Ironicamente, acontece que essa actividade não é fácil por aqui. Embora a casa que me alberga esteja, em linha recta, a poucas centenas de metros do mar - se tanto - não lhe posso chegar devido às construções e acessos privados. Em pagando tudo se torna mas fácil. Se for de borla (das expressões preferidas dos portugueses) podem esquecer...

Anteontem fomos a uma praia artificial - a da Calheta. Para alguém que vive no Monte Estoril é como ir à Caparica (em termos de distância) e encontrar Pedrouços (em termos de qualidade). O mar, no entanto, está a poucas centenas de metros da casa... Ontem, para variar, deslocámo-nos à Ponta Gorda, um complexo veraneante de qualidade, com duas piscinas (uma das quais quase natural a que jovens locais chamaram poço) e um acesso ao mar. O banho é magnífico - uma água limpa, relativamente batida, a temperatura amena. Cinco euros de acesso por pessoa mais o parque de estacionamento e cadeiras (fundamental, porque o chão é de betão)/chapéus de sol. Estamos num ilha, rodeados de mar ao qual não conseguimos chegar...

Gosto de vir ao Funchal por todas as razões. Para além das afectivas que me trazem há o bulício, a simpatia da gente, a beleza da paisagem, a amenidade climática, a possibilidade do silêncio, o olhar distante que se encontra numa ilha, o esplendor dos banhos de mar. Mas, cada vez mais me convenço, a Madeira é um destino de Inverno, porque a actividade banhística é difícil - sobretudo para quem não fica num hotel com acesso ao mar. Não sei se é só a mim que se afigura bizarro...

Deixo-vos, numa onda nostálgica mas também solidária com a ilha da Madeira, com o Conjunto Académico João Paulo, aqui nascido no início dos anos 60. Quem quiser pode dizer mal, que eu reencaminho para quem sugeriu a banda nativa...

JdB


11 junho 2012

Fórmula para o caos


Em Portugal, sempre que há um determinado tema na roda do dia, logo surgem diversos pseudo-especialistas a comentar o que se passou, a explicar o que se passa e a prever, com uma certeza de fazer inveja aos bruxos, tudo que se vai passar, como consequência do que se passou. Falam de Economia, Saúde Pública, Justiça, Desporto, etc.

Mas, de facto, a economia é o departamento em que os especialistas mais aparecem e mais comentam na actualidade. Porém, como nem tudo é mau, ainda há verdadeiros especialistas. Aqueles que realmente sabem do que falam e só falam do que sabem. Não têm pretensões a falar de culinária e desporto com o mesmo grau de exactidão. De entre esses, destaco Tavares Moreira (ex-governador do Banco de Portugal). Como tal, deixo aqui umas linhas sábias sobre o PIB grego, publicadas no blogue Quarta República.

Pedro Castelo Branco


Grécia destrói riqueza? Como assim?

1. Num dos mais lidos e especializados jornais económicos “on line” editados em Portugal, li há pouco o seguinte comentário “ A Grécia continua a ser palco de forte destruição de riqueza”.

2. Este comentário, de sabor futebolístico (a moda assim o exige?), feito a propósito da notícia de que o PIB na Grécia tinha contraído 6,5% no 1º Trim/2012 por comparação ao 1ª Trim/2011 (variação homóloga), revela que quem o escreveu não tem a menor noção do que é o PIB: o valor daquilo que uma economia acrescenta (fluxo), num dado período, à riqueza nacional existente (stock) no início desse mesmo período. Ou, tendo essa noção, resolve escrever o que lhe vem à cabeça, pouco se importando se isso está certo ou errado.

3. O facto de o PIB do 1º trimestre deste ano ser inferior ao do 1º trimestre do ano anterior - em 6,5% ou noutra qq % - não significa que o próprio PIB seja negativo: significa apenas que o valor acrescentado do período considerado foi inferior ao do período de comparação...mas ser inferior não é o mesmo que ser negativo...

4. Assim sendo, não houve nenhuma destruição de riqueza, o que houve foi um acréscimo menor de riqueza do que aquele que se tinha verificado um ano antes...

5. Mas é através deste tipo de falsas ideias fabricadas à pressa pelos media, que os cidadãos vão consolidando a sua ignorância sobre estes assuntos, acabando por não ter a menor noção daquilo que se discute: todos têm a mesma razão, digam o que disserem, ninguém tem razão no final...

6. Não admira, pois, que este ambiente de confusão seja propício para os Crescimentistas difundirem as suas fantasiosas teses sobre o crescimento a “todo o vapor”, sem a menor preocupação quanto aos pressupostos desse mesmo crescimento...

7. Quem diz que a Grécia está destruindo riqueza pode dizer, com a mesma facilidade e convicção, que essa história da correcção dos desequilíbrios da economia é uma obsessão dos neo-liberais... e o que se impõe é dar toda a prioridade ao crescimento (como, é detalhe que pouco importa). 

Tavares Moreira

Acerca de mim

Arquivo do blogue