21 julho 2015

"O Fado, Canção de Vencidos"

O raciocínio é demasiado ligeiro para ser tomado excessivamente à séria, mas não deixa de ser curioso: num site com inúmeras informações sobre fado - letras, músicas, repertórios, etc., há 100 fados que têm saudade no título, 51 fados que têm triste e 2 que têm alegria. O fado é nosso, e é isto que somos... 

"Francisco Radamanto é o nome pelo qual ficou conhecido Francisco Duarte Ferreira [1908 - 1972], talentoso poeta popular, jornalista e, especialmente, temível polemista em defesa do fado. Teve na mocidade uma vida atribulada, com passagem, até, pelas cadeias de Monsanto e do Limoeiro, facto que nunca ocultou, pois nos versos que enviava para a Guitarra de Portugal, jornal em que sempre colaborou, indicava constantemente o estabelecimento prisional onde se encontrava." (Poetas Populares do Fado Tradicional, Daniel Gouveia e Francisco Mendes, 2014).

JdB 

***

Orfãzita

Ficara triste a orfãzita
Triste sete anos de vida
Tão airosa e tão bonita
Toda de luto vestida

Mas disse-lhe um dia o pai
Vives aqui tão sózinha
E o teu paizinho vai
Dar-te uma outra mãezinha

Outra mãe não pode ser
Nós temos uma só mãe
Morreu e se outra vier
Eu quero morrer também

Um dia, a outra chegou
Toda a gente em festa linda
Só a pequena chorou
Sózinha, mais orfã ainda

E triste, devagarinho
Sem dizer nada a ninguém
Foi procurar um cantinho
Na sepultura da mãe




***

Praga

Por ter no peito uma chaga
E na alma a cicatriz
Dum amor desventurado
Vou-te rogar uma praga
Deus te faça tão feliz
Quanto eu sou de desgraçado

Foste má, foste ruim
Não se perdoa, portanto
Tão ingrato proceder
Vocês são todas assim
Desprezam quem lhes quer tanto
Amam quem as faz sofrer

Mas se alguma vez na vida
Te sentires arrependida
Entregue à tua saudade
Vem, que eu faço o que puder
Não por amor, podes crer
Apenas por caridade.


20 julho 2015

Da morte

Sábado estive num casamento. Na minha ronda social conversei com uma amiga antiga cujo marido passou por um delicado momento de saúde há alguns meses. Ambos são rapaziada da minha idade. Percebi que quis conversar sobre o tema - os pormenores, o impacto na família, a confidencialidade que quiseram manter, a recuperação, a forma como todos se uniram para dar a volta à situação, a sorte de terem encontrado a gente certa no momento certo. Falámos também da fragilidade da vida - a diferença entre estar vivo e morto (e a frase pode ser metafórica) que pode ser uma fracção de instante. Falámos da relativização das coisas e também da minha própria história de vida. A dado instante, no seguimento de uma ideia expressa, perguntou-me: tem menos medo da morte? 

Ontem de tarde, no remanso do meu domingo, telefona-me um amigo próximo: era para te dizer que morreu a AR. A pessoa em questão era muito minha amiga na fase dos 18 anos, por aí. Nascêramos no mesmo ano e socializávamos no mesmo grupo de amigos, alguns dos quais ainda mantenho, outros que encontro menos mas gosto sempre de rever. A vida da AR e das pessoas mais próximas tem contornos de menor felicidade. A saúde degradou-se, e talvez ela tenha contribuído para isso. O que quer que seja, foi minha amiga e era do meu ano. Desaparece a alguns meses de cumprir os 57.

Não sei qual a idade certa para se morrer, nem sequer sei discutir esta hipótese aparentemente absurda. Há quem diga que não quer viver sem autonomia, dependente dos outros para se vestir, andar, cumprir as necessidades mais básicas. A AR, por aquilo que ia sabendo, que não a via há uns bons anos, talvez não fosse dependente, mas talvez não fosse totalmente autónoma. O que é que isso nos diz? À distância nada. Apenas que morreu antes de tempo para as pessoas que gostavam dela.

Um escritor russo dizia que os Homens não receiam a morte, mas o instante antes dela. O que nos faz ter menos medo da morte (ou do instante prévio)? Uma experiência difícil? A ideia de relativização das coisas? Uma fé enorme? Para mim, e escrevi-o, pelo que não revelo nada de confidencial, é saber quem tenho à minha espera: alguém em que penso todos os dias, a todos os momentos. É essa certeza.

JdB 

19 julho 2015

16º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 6,30-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

18 julho 2015

Pensamentos Impensados

Medidas de coação
Não percebo porque é que o grande compositor Bach nunca esteve em casa com pulseira electrónica; houve sempre perigo de fuga.

Lutas
Ouvi na TV: CDS aprova combate à pobreza e ao ensino.
Deve ser o maior combate de século.

Aragens
O leque pode ser considerado um terno ventilador.

Bruxos
Meteorologista lança-se nas Letras ao escrever Amor de Previsão.

Fim
Expirar é deixar de expirar.

Gordas
As rotundas não são uma invenção portuguesa; já Rubens pintava mulheres rotundas.

Alma até Almeida
Os gregos não têm um tostão furado mas patrocinam todos os noticiários da televisão,

Dietas
Os gregos são especialistas em iogurtes magros.

SdB (I)

17 julho 2015

Poesia dos dias que correm

Tenho a Certeza de que Entre Nós Tudo Acabou

Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
Deixal-o!
Bemdita seja a tristesa!
- Não ha bem que sempre dure
E o meu bem pouco durou.

Não levantes os teus braços,
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te... vou partir.

E se um dia te lembrares,
Dos meus olhos côr de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade,
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
N'aquella tarde cinzenta...

Adeus!

Quem fica soffre bem sei;
Mas soffre mais quem se ausenta!...

António Botto, in 'Canções'

***

Não Sei se Isto é Amor

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

16 julho 2015

Histórias dos dias que correm *

Bernardo Maria despedira-se do último convidado. Cinco minutos depois, encostado à ombreira da porta da sua casa do Restelo, olhara com uma ternura indisfarçada para a sua filha Carmo, vendo-a a afastar-se de braço dado com Tiago, o seu marido. A festa do 10º aniversário do casamento de ambos fora um sucesso.

No quarto do primeiro andar, Carlota, a sua mulher de há mais de 30 anos, sentara-se ao toucador frente a um espelho, a uma fotografia emoldurada do Pai com o Prof. Marcello Caetano e a uma saudade de um tempo fagueiro que não voltaria. Quedou-se com um boião de creme na mão, enquanto a mente deambulava pelo dia em que recebera a notícia do casamento da filha.

Oh minha querida! Fico tão satisfeita.

Enquanto isso, no seu escritório, Bernardo Maria escutava o ruído decrescente de uma casa que se vai arrumando aos poucos. A empatia pelo genro nascera com o primeiro aperto de mão entre ambos, talvez há 20 anos.

Olá Tia, olá Tio. Entrem, se faz favor, que os pais estão lá dentro.

As relações entre as pessoas nem sempre são classificáveis por palavras certas, disponíveis nos manuais da especialidade. Bernardo Maria tinha-se-lhe afeiçoado, se bem que não soubesse caracterizar como. Afinal, enquanto Tiago saía com a sua própria filha, ele alimentava uma clandestinidade com a mãe do rapaz, que fora votada a um abandono sexualmente injusto e financeiramente confortável, por um marido empresário e passageiro frequente.

Um dia, escrevera no seu livrinho de capa preta que o acompanhava há alguns anos:

Ana Sofia, 15 de Janeiro. Casa bonita, cama larga, música suave. Sexo óptimo; mulher experiente e ágil; criativa e com iniciativa. A repetir e a manter.

Bernardo Maria sorrira ao deambular pelo livro, um verdadeiro who’s who da sua vida paralela.

Irene, 18 de Agosto. Mulher poderosa e esgotante. Pouco versátil, agarrada a fórmulas certas. A espaçar devido à exaustão física que me provoca.
Anabela, 1 de Novembro, dia de Todos os Santos. Mulher pequena mas proporcionada, obediente. Sugeri-lhe operação estética aos seios. Dava-lhe outro impacto. Casa pequena, com um cheiro permanente e adocicado que é estranho mas agradável.
Dulce, véspera de Natal…
Andreia, 1 de Fevereiro, dia do regicídio…
Ana Sofia, 2ªfeira de Carnaval. Tiago muito simpático, enternecido pela companhia quinzenal que faço à mãe na ausência do pai. Sexo extraordinário de arrojo, resistência e inovação. Este dia, então, foi de ir às nuvens. Pateta do António, que deixa aquela mulher sem dono.


Bernardo Maria voltou a sorrir, cheio de um encantamento por uma vida secreta e estimulante, repleta de aromas, de posições, de certezas, ausente de remorsos. O sorriso ainda não se desvanecera quando viu, a um canto do escritório, um caderno igual ao seu, mas onde vislumbrou a caligrafia do genro.

Miss X. 15 de Janeiro. Indescritível de ternura, sofreguidão e desejo. Terminou a chorar.
Irene, 20 de Agosto. Já vi mais criatividade, mas é um género. Se não fosse a minha preparação física, talvez não aguentasse.
Anabela, 3 de Novembro. Gosto daqueles seios pequenos . Quer ser operada e discordei. Casa com cheiro enjoativo.
Dulce, 26 de Dezembro…
Andreia, 3 de Fevereiro…
Miss X. 2ªfeira de Carnaval. Como se descrevem duas horas de pleno gozo? O riso final foi o de um sorriso que findara. Chorou.


Bernardo Maria sentiu que ficava sem sangue. Olhou em frente, para uma árvore genealógica onde os seus antepassados se cruzavam com as elites merecidas ou nascidas e não viu orgulho de gente antiga, presunção de mais valor, sangue medieval. Só conseguiu ver uma filha atraiçoada vezes sem conta, um genro que o seguia nas capelinhas do desejo, parando com uma exactidão de complô nas mesmas estações e apeadeiros. Antes de se deixar cair num sofá ainda teve forças para uma última pergunta, gritada para o andar de cima:

Carlota! Lembras-te do que fizeste na 2ªfeira de Carnaval?


JdB


* publicado originalmente a 8 de Fevereiro de 2010

15 julho 2015

Pensamentos Impensados

Cirurgias
Sempre pensei que a Operação Marquês era o espectáculo folclórico/exótico montado pelo Benfica no Marquês de Pombal quando ganham o campeonato de futebol. 
Afinal, parece que também inclui salto com vara.

SdB (I)

Duas últimas

Já aqui postei uma definição de tango: un pensamiento triste que se baila. Nada me parece mais esteticamente verdadeiro. Gosto de tango e a tristeza não me provoca urticária. Faz parte da vida, como a alegria. Fugir com horror daquela, para só pensarmos nesta, parece-me descuidado. Afinal, precisamos da tristeza para apreciar a alegria, como precisamos da escuridão para apreciar a luz ou o silêncio para apreciar alguns sons. Por isso precisamos de una tarde gris para apreciar a outra que vier a cores.

Diego el Cigala já foi visitante deste estabelecimento, seja sozinho ou acompanhado por Bebo (ou Chucho) Valdes. Neste caso específico, a fazer algo que faz bem - cantar tango. Para os mais arrojados, segue também uma versão bem mais antiga, cantada por Julio Sosa.

JdB (lamentavelmente com pouca inspiração...)




14 julho 2015

Dos clubes ingleses e dos estatutos

Um clube ao estilo inglês - isto é, só de homens - é uma agremiação que permite, entre uma infinidade de outras, três coisas: (i) dizer mal das esposas, (ii) contar anedotas ordinárias e (iii) falar brejeiramente sobre mulheres, esses seres sem os quais, dizia o Herculano, o mundo seria um ermo melancólico. Talvez não se usem nunca essas prerrogativas e, no entanto, elas estão disponíveis, o que faz toda a diferença. A satisfação do clube - mas também pode ser um trio de cavalheiros (atenção à potencial entropia dos quartetos) que se juntam para repastos regulares - está na possibilidade do benefício, não na utilização do benefício. Até porque, em bom rigor, o limite aceitável para uma anedota ordinária - para qualquer anedota, aliás - deveria ser 1. Tudo o resto é uma ameaça à riqueza das nações, ao frágil equilíbrio de humores internos, ao são convívio entre seres da mesma espécie.

Perdi-me, sigo por outro caminho.

Há anos, perante uma constatação lamentosa, um amigo proferiu uma frase certeira: as mulheres estão programadas para nos ver sair de lancheira de manhã para o trabalho. A expressão "lancheira" era uma alusão datada, mas veio a ser estranhamente premonitória dada a profusão de trabalhadores que, face à exiguidade dos recursos e aos 23% de IVA sobre a vitela à Lafões, acomodam uma costeleta da véspera num recipiente de plástico com paredes adiabáticas. O homem sai de lancheira, como já saiu de mala de cabedal, como saiu com uma lança ou uma arma de fogo para prover o sustento da família. O homem sempre saiu, é isso que se espera dele. É isso que ele espera de si próprio. Homens e cães fora de casa, diz a sabedoria popular.

O estatuto profissional dos homens veio-lhes via empresa onde se tornaram gestores, chefes de departamento, líderes de topo com ambições a reuniões regulares em salas almofadadas e de madeiras exóticas. O estatuto caseiro veio-lhes via tradição, alcandorando-os a chefes de família com autoridade para decidir os caminhos (eles é que sabiam onde andava a caça...). Os outros estatutos chegaram-lhes via agremiações, igrejas, jogos de golfe, carros com motores ronronantes e carroçarias aerodinâmicas. O estatuto, sempre o estatuto.

A crise (e outras circunstâncias) alterou esta realidade. Muitos homens viram-se remetidos ao desemprego, às falências, às ausências de promoção, aos trabalhos menos vistosos. O estatuto profissional evaporou-se, o caseiro seguiu o mesmo caminho, os outros idem idem aspas aspas. Muitos homens combateram simultaneamente em várias frentes: o descaminho dos gozos mundanos, as carências financeiras, as opções de vida que fecham portas, as perdas disto e daquilo. Acima de tudo tiveram de lutar contra o desaparecimento (inconsciente, por vezes) de estatuto, algo que pode ser mais mortificante do que uma redução de 50% no vencimento. O estatuto é uma gaita. Podemos já não o querer porque existe a idade, outras satisfações ou prioridades, blábláblá. Mas ele - o estatuto - martiriza-nos, leva-nos a pensar que somos olhados de uma forma especial, conduz-nos ao embaraço, ao incómodo, às refeições tensas feitas de assunções erradas, às explicações exaustivas que nunca ninguém pediu. 

A vida moderna fez incidir um peso demasiado sobre o sucesso: o carro, os fringe benefits, o ordenado, as reuniões de alto nível. Ninguém nos pergunta - a nós, homens - se somos felizes, se a nossa existência toca a vida dos outros, se é fonte de gozo, de paz, de  exemplo. Talvez o estatuto que advém da imaterialidade, da intangibilidade (porque a paz e a felicidade nossa ou dos outros não se palpa) devesse ser mais valorizado. Talvez muitos homens merecessem esse descanso, para seu bem e das famílias que os rodeiam.

Comecei a falar de clubes ao estilo inglês e já não me lembro porquê...

JdB    

13 julho 2015

Vai um gin do Peter’s?

Num artigo recente, um professor do Técnico trouxe a lume o caso insólito de um negativo muito anterior à invenção da fotografia que data de meados do século XIX. Ora este negativo conta com 2000 anos. Como se fosse pouco, ainda soma a proeza de continuar a sobreviver ao tempo, incólume, o que não acontece com muitos dos que têm perto de 100 anos.
Sabemos que há casos por desvendar no património histórico e artístico da humanidade, como as gigantescas estátuas da Ilha de Páscoa ou os geoglifos do deserto de Nazca no Peru, igualmente desmesurados. Só que o tal negativo com vinte séculos mantém uma estranha actualidade, interferindo com o dia-a-dia de muita gente, como atesta o testemunho postado no final deste gin, de uma iraquiana de apenas 10 anos, acolhida num campo de refugiados.  
Começando pelo artigo, gentilmente cedido pelo autor, José Maria André recorda um fenómeno com características únicas e algo insólitas:

Uma fotografia com 2000 anos


Existe na cidade de Turim um grande lençol com uma imagem em negativo. Há 20 anos atrás, ninguém se admiraria com isso, porque era comum as máquinas fotográficas tirarem a fotografia em negativo e depois esse negativo ser passado para papel, produzindo o negativo-do-negativo, ou seja, a fotografia positiva, a preto e branco. Hoje em dia, só os idosos se lembram dos negativos. As fotografias digitais já não passam por essa etapa intermédia e os mais novos só conhecem imagens negativas obtidas no computador. Na história da humanidade, a época dos negativos fotográficos durou apenas uns cem anos. Até há pouco mais de um século, ninguém tinha visto um negativo e, actualmente, os negativos voltaram a ser raridades.

O curioso é que o grande lençol de Turim tem muitos séculos. A maior parte dos especialistas atribui-lhe 20 séculos e o mínimo de idade que lhe atribuem é 10 séculos. Como é que alguém se lembrou de fabricar uma imagem em negativo há tantos séculos atrás?
Outra característica pouco vulgar do lençol é ser uma imagem a preto e branco. Tirando os painéis de azulejo, as pinturas são quase sempre coloridas. Porque é que alguém fez uma pintura em tons de cinzento, em vez de um quadro a cores?

O lençol de Turim tem ainda outras complexidades. É quase uma pintura abstracta, não uma pintura decorativa, mas um amontoado de manchas que não se percebe bem à primeira vista. Arte semi-abstracta há 20 séculos?

A imagem do lençol de Turim não tem sinais de pincel ou de tinta, é um conjunto suave de manchas, como as fotografias. Que técnica de pintura tão estranha, há 20 séculos, que hoje ainda não se consegue imitar!

Além disso, o lençol está sujo de sangue. Alguém usou o lençol para limpar o sangue de uma pessoa ferida? Se é uma imagem tão valiosa, guardada com tanto cuidado, durante tantos séculos, porque é que nunca lavaram o lençol?

As investigações sobre este lençol destacaram muitas outras particularidades. As fibras de linho são típicas da Palestina de há 20 séculos e o entrançado do tecido é característico dessa região. Por entre as fibras, encontraram-se poeiras e grãos de pólen sobretudo de plantas típicas da Palestina e de algumas outras terras por onde o lençol andou.

Há documentos muito antigos que contam que aquele lençol envolveu o corpo morto de Jesus Cristo e por essa razão, embora não seja um tecido rico, foi guardado com tanto cuidado até hoje. Ao longo destes séculos, o lençol passou por diversas mãos e atravessou o Mediterrâneo até se fixar em Turim: uma sequência de peripécias, que poderiam ter arruinado aquela mortalha, se não tivesse havido um empenho tão grande em a preservar.

Pouco mais havia a dizer, durante muitos séculos. As pessoas continuavam a guardar aquele pano com grande devoção, porque os documentos asseguravam que tinha estado em contacto com o corpo morto de Jesus Cristo, mas não sabiam mais dessa relíquia. É certo que a guardavam num estojo muito rico, lhe construíram uma capela valiosa, numa igreja deslumbrante, mas apenas por causa destas notícias, transmitidas de geração em geração. Aquele pano sujo de sangue não parecia acrescentar mais informação.

No último século, a técnica fotográfica revelou o que ninguém tinha imaginado antes. Ao tirar uma fotografia (em negativo), verificou-se que o negativo aparecia como um positivo. Isto é, o lençol era uma imagem negativa! A imagem quase abstracta tornou-se perfeitamente clara, na fotografia. O interesse cresceu, multiplicaram-se as investigações e, agora que a imagem fazia mais sentido, empregaram-na para reconstruir as feridas e as feições de Jesus. Por todos os sinais, conseguiu-se perceber como é que tinham decorrido a flagelação, a coroação de espinhos e a crucifixão. Quando os especialistas em medicina legal reconstituíram estes factos, os historiadores ficaram assombrados, porque os pormenores coincidiam exactamente com os hábitos romanos de crucifixão da época de Jesus.

Regularmente, este lençol de Turim, conhecido como «Sudário», é exposto para ser visto de perto pelos fiéis (sobretudo fotografado, porque é na fotografia que a imagem se revela melhor). Neste momento, está acessível na catedral de Turim, que o Papa Francisco irá visitar no próximo Domingo 21 de Junho.

Um dos secretários do Papa, o padre egípcio Yoannis Lahzi Gaid, publicou recentemente um livro(1) contemplando a Paixão de Jesus com base na imagem do Sudário. Como o Pe. Gaid tem o Papa à mão (privilégios de secretário), conseguiu que ele lhe escrevesse o prefácio do livro. O texto do Papa Francisco é uma meditação maravilhosa sobre Jesus, em tom de oração: «Faz, Senhor, que eu Te possa ver hoje nos rostos desfigurados, nos corpos sofredores de todos os tempos, nas pessoas descartadas, marginalizadas e esmagadas pelo peso das suas cruzes (…) Faz, Senhor, que eu seja uma imagem de Ti, o teu Sudário, para testemunhar aos homens do nosso tempo o abraço do teu amor inefável!»
Pormenor do Sudário: a imagem negativa aparece como positiva.

José Maria André
 7-VI-2015
Publicado nos jornais «Correio dos Açores»,
«ABC Portuguese Canadian Newspaper» e «Verdadeiro Olhar»

Vem a propósito deste misterioso negativo, demasiado antigo para os conhecimentos humanos, a entrevista(2) a Miriam, uma criança do Iraque que teve de fugir ao ataque devastador dos fanáticos do Daesh, aqui a falar com  uma serenidade e sabedoria de vida extraordinárias, muito para lá das possibilidades de um QE fabuloso! Tudo com um sorriso meigo, como se a condição de refugiada fosse fácil. Só a resposta que dá ao entrevistador sobre a forma como encara os seus cruéis perseguidores por quem reza a Deus para que lhes perdoe, já se percebe que está noutro campeonato! Claro que ela lhes perdoou, como diz tranquilamente, a dada altura. Até o entrevistador fica atordoado, insistindo com a miúda, para perceber se teria bem a noção do que estava a afirmar. O olhar lúcido e a escolha certeira das palavras não deixam margem para dúvidas, transmitindo uma paz imensa, que rasa o inexplicável. Sim, é ela que nos pacifica. Poderíamos ficar-nos por lhe reconhecer uma maturidade muito acima dos 10 anos. Mas haverá alguma idade em que uma reacção desta grandeza e fé seja comum? Convenhamos que tudo o que Miriam diz e é, suplanta a escala da maturidade.

https://m.youtube.com/watch?v=_ige6CcXuMg

Fica-se sem palavras depois do testemunho desta criança inspirada e de uma bondade transparente.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1)  Título do livro de meditações do padre egípcio de rito copta: "Via Crucis dalla Bibbia alla Sindone" (Via Sacra, da Bíblia ao Sudário)

 (2)  Postado a 26 de Fevereiro de 2015 no Youtube, remetendo para o site http://www.wazala.org/2014-02-letters-from-egypt/ com relatos e entrevistas a vítimas do DAESH (ISIS). 


12 julho 2015

15º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios,
ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

11 julho 2015

Pensamentos Impensados

Gestos
Perguntei à grande astróloga, Luiza Azancot, se antes de escrever sobre signos se persignava. Riu-se.

Libações
Seja responsável, beba álcool puro, não beba álcool adulterado.

Cerimónias
Enquanto vivo, vestia arminho; quando morreu, foi de armão.

Super-estições
Gato chamuscado de tradições tem medo.

Reviravoltas
Aquando da ressurreição de Lázaro, diz alguém que estava presente:
a morte já não é o que era.
Diz outro:
a morte foi à vida.

Areia por assim dizer
A área tem duas dimensões; já a ária... depende do cantor.

Muito riso...
Farto-me de ver fotos dos ministros gregos a rir-se. Quando era rapaz, dizia-se uma frase a propósito
não sei de quê: o gajo a rir-se e o pai às beatas.

De...leites
Amigos do peito? Só se forem os mamíferos.

Acções musculadas
Ronaldo, no Japão, mostra os abdominais; foi uma acção abdominável face aos pequenos japs.

SdB (I)

10 julho 2015

Interpretações interrogadas


Diz-me o meu amigo JMAC, o homem de Azeitão, que estas fotografias que me enviou são da Ogilvy. Por falta de tempo não fui investigar o contexto. Vou presumir que não são de uma campanha a estimular a utilização do telemóvel. Se assim for, estou mais burro do que pensava...

Não sabendo, repito, o que está por detrás destas imagens, dou-me ao luxo de todas as interpretações, mesmo as mais provocadoras. Então é assim: na imagem de cima há um casal deitado na mesma cama. O que os separa fisicamente? Um telemóvel. Quem olha para o aparelho? A mulher. Na imagem de baixo uma mãe e uma filha sentadas no mesmo sofá. O que as separa fisicamente? Um telemóvel. Quem olha para o aparelho? A mulher. A criança está aparentemente entretida com os seus brinquedos, o homem com os seus pensamentos, a mulher... com o telemóvel.

A quem se destina esta campanha, caso seja uma campanha? Às mulheres, por utilização excessiva de telemóveis? Não me parece, a não ser que para os lados do Oriente a realidade seja essa. Por aquilo que vejo no meu mundo social e familiar, a utilização excessiva é mais masculina do que feminina. Conheço gente mais nova do que eu, profundamente bem educada a uma mesa de jantar, por exemplo, que não se coíbe, num fase mais descontraída do repasto, em utilizar o telemóvel. Para uma urgência? Não. Para ver notícias, abrir mails, responder a sms. Mais eles do que elas, à medida que "envelhecem".

Se quiserem interpretar digam-me. Talvez sorteie algo para a melhor ideia. Ou não, não sei. Tudo depende.

JdB

09 julho 2015

Efeméride dos dias que correm

S. Miguel, Açores, Maio de 2015


Soube esta 3ªfeira, por mão amiga, que tinha morrido Alberto Vaz da Silva.

Sobre ele só poderei escrever petits riens, porque mal o conheci. Há uns anos inscrevi-me num curso de grafologia no Centro Nacional de Cultura. Fi-lo por um gosto antigo e nada trabalhado de olhar para a caligrafia do próximo mas, também, por quem ministrava o curso – Alberto Vaz da Silva, de quem ia lendo coisas.

Como em muitas ocasiões – e partilhei a impressão com o meu amigo ATM, a tal mão amiga – o curso foi feito antes de tempo. Era ao fim do dia e eu ainda me constituía como empregado fabril. Por outro lado, o meu tempo cerebral ou emocional ainda não estava orientado para aquele curso, ocupado a resolver outros assuntos. Olho para trás e lamento não ter aproveitado mais.  

Sobre ele escreveu, no Expresso, o Pe. Tolentino Mendonça:

Ele vislumbrou uma nova relação com o real, feita já não de oposições e distâncias, como se a vida não fosse um mistério único, mas sublinhando corajosamente os traços de união, os hífens inesperados, as continuidades. E assim nos mostra que não há pequeno ou grande, não há cósmico nem quotidiano, não há interno ou exterior: por todo o lado e em todas as coisas está, pelo contrário, latente a mesma espantosa proposta que a vida em si mesma é.

Em Dezembro do ano passado, Laurinda Alves entrevistou-o para o Observador (de onde também retirei a citação acima).

Vale a pena ouvir, até porque são seis minutos, parece-me: fala de cosmos, de luz interior, da procura do “eu”, da justificação do divino e das possíveis mudanças. E fala de silêncio interior, algo que me foi - e é ainda - tão caro.

Os desgostos da vida ensinam a arte do silêncio, diria Séneca.

JdB

08 julho 2015

Texto para os dias que correm*

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso. Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta. Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco. Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. 

Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar! Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é. A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.

Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana. Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano. O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. 

Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro. Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe". Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

Bento XVI (2007?)

***

* Publicado neste estabelecimento em 3.08.08

07 julho 2015

Pensamentos Impensados

Grécia
Ministro das Finanças demite-se.
Ministro das Finanças admite-se.

PS: por que é que Finanças, na Grécia, se escreve com maiúscula?

Reverendo
E o SIM? NÃO!
E o NÃO? SIM!

Poderosa vírgula
A seguir ao referendo, qual vai ser a frase chave?
Não pagamos
ou
Não, pagamos

SdB (I)

Duas Últimas


Hoje, para aqueles que me lerem antes das 18.30h, apresento este livro da minha amiga Luiza Azancot. 

Terminei-o no sábado. Estava no remanso de uma tarde quente quando cheguei ao Capricórnio, o meu signo. Depois de me rever muito nalguns aspectos e menos noutros - o que me parece ser totalmente natural - fui rever as sugestões musicais para o meu signo, como já tinha feito - nesse caso pela primeira vez - as sugestões para os outros signos. Há coincidências no mínimo curiosas: a primeira sugestão para o signo Capricórnio é o 5º Concerto para piano e orquestra de Beethoven. Durante muitos anos elegi o 2º andamento como a peça mais bonita da história da música clássica, classificação que foi substituída pelo Requiem de Mozart, obra pela qual tenho um apreço militante. 

A 2ª sugestão era uma ária da ópera Don Carlo, de Verdi - "Tu che la vanità" (e cito a Luiza) cantada por Isabel à noite, junto à campa de Carlos V, exprime o peso do dever, a responsabilidade das realidades políticas: "Adeus, adeus aos sonhos de ouro, ilusão perdida! O nó rompeu-se, a luz perdeu o seu esplendor! Adeus verdes anos". Como não conhecia a peça em questão, fui ouvi-la. Seleccionei uma versão cantada por Maria Callas. A primeira que me apareceu foi uma de 1958, curiosamente o ano em que nasci. Ele há coisas.

Oiçam a Maria Callas e venham ouvir a Luiza ao fim da tarde. Os registos são diferentes, a magnificência é a mesma.

JdB

06 julho 2015

Hoje, mas há 21 anos

Music Making Angels - Peter Paul Rubens

Nasceste hoje, mas há 21 anos.

Todos os anos acrescentamos um ano à tua memória, à saudade da tua existência. Para o ano usaremos a mesma fórmula, actualizando o número de anos. Nada cresce, nada decresce - há apenas uma matemática que se acerta ao ritmo de um sossego que se instalou.

Hoje é claro aquilo que foi há 21 anos, que se repete em todos os pais que o passam a ser naquele momento, mesmo que já o tenham sido por duas vezes: a alegria, o espanto, a emoção. Talvez, aqui e ali, numa ou noutra pessoa, a dúvida: serei capaz de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para proteger esta criança? Nunca sabemos, só podemos ambicionar. A vida é um livro demasiado fechado para lhe vermos as páginas do meio, quanto mais a página onde se escreve fim. A vida é uma surpresa, tantas e tantas vezes cheia de trevas, sendo que o nosso desafio é o de encontrar e fazer vingar a luz.

Em sete anos foste tudo, deste tudo, transformaste tudo. Em sete anos que começaram hoje, mas há 21 anos, mostraste-nos o céu, a eternidade, as estradas que se bifurcam para que possamos escolher o caminho a seguir, o Deus que não é senão amor, a diferença entre as coisas perenes e as que o são apenas temporárias, a luz, o sentido da vida. Deste-nos a certeza de podermos não rezar por ti, mas rezar contigo, para que intercedas por nós. E o o pó do Amor, sempre o pó do Amor.

JdB (em nome de todos os que estiveram presentes, qualquer que fosse a forma, no dia de hoje, mas há 21 anos. E em nome de todos os que apareceram depois, que enchem todos os outros sete anos que nos esperam até ao encontro de todos os encontros)  

05 julho 2015

XIV Domingo do Tempo Comum

@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se à sua terra
e os discípulos acompanharam-n’O.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam:
«De onde Lhe vem tudo isto?
Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é Ele o carpinteiro, Filho de Maria,
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»
E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes:
«Um profeta só é desprezado na sua terra,
entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre;
apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente.
E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

04 julho 2015

Pensamentos impensados

Queixinhas
Para se constituir queixoso é preciso ser-se prognata?

Casos notáveis da divisão
De há uns meses a esta parte, o número 44 é apenas divisível por um.

Drogas
A cocaína vende-se ao peso, daí ser considerada uma droga pesada.

Arquinhos e balões
Napoleão mandou construir, em Paris, o Arco do Triunfo: é o arco do ego.
Em Lisboa temos o Arco do Cego.

Publicidades
Alguns jornais têm uma secção que bem poderia chamar-se meninas e armadilhas.

Barulhos
O zumbido que temos no ouvido deve-se às abelhas a produzir cera.

Baixezas
As peúgas são roupa de baixo.

Oliúde
Nas cenas perigosas dos filmes usam-se duplos que são pessoas singulares.

SdB (I)

03 julho 2015

Convites dos dias que correm


Já fui a vários lançamentos de livros, sobretudo da Rita Ferro, que tem uma produção de muita qualidade regularmente invejável. Fui ao lançamento do meu próprio (e da Rita Jonet) como é óbvio..., e convidámos a Laurinda Alves. Fui também a um ou outro mediático. Em todos, parece-me, há uma figura de proa a apresentar o livro - um político, um escritor, um jornalista de renome, um cineasta, um diplomata, um humorista, um gestor... É gente que em princípio sabe falar, sabe raciocinar, mobiliza gente, tem interesse.

A Luiza Azancot, que durante muito tempo abrilhantou quinzenais 4ªs feiras neste estabelecimento, lança um livro no próximo dia 7 de Julho, conforme imagem acima. A lógica mandava que convidasse alguém sonante para lhe apresentar o livro. A prudência mandava o mesmo. Eu, que sou muitas vezes lógico e prudente, disse-lhe isso. Pois ela, ao contrário dessas virtudes, decidiu convidar-me a mim... O gesto sensibiliza-me porque, presunção minha, sei de uma parte dos motivos para o convite. O gesto preocupa-me, porque tenho de estar à altura do acontecimento. Sou um homem alto e de peso, mas não chega. 

Perguntam-me os prudentes: já sabes o que vais dizer? Tenho uma noção, mas ainda não redigi o escrito. À medida que vou lendo o livro (e comprem-no, porque vale a pena) vou arrecadando ideias. Como estou com a cabeça cansada, não as fixo... Ao contrário da Luiza, que assentará a sua confiança no "discurso" num misto de trabalho e pensamento, eu assento a minha confiança na fé - domingo virá a inspiração, 2ªfeira agarro-a como se não houvesse amanhã, 3ªfeira passo tudo a limpo...

Apareçam. Não para me ouvir a mim, que não tenho qualquer interesse, mas para ouvir a Luiza, dona de uma cultura invejável, de uma inteligência que me esmaga, de um olhar sobre o mundo que me encanta por ser, numa determinada área, tão diferente do meu. A amizade que ela me tem  - e que demonstrou no convite - enche-me de satisfação. É sinal de que muito depois dos 50 anos (meus, que ela é uma jovem) ainda se conseguem fazer amizades que perdurarão.

Até 3ª, para os que puderem e quiserem ir.

JdB

PS: e o sítio do lançamento, hein? 

02 julho 2015

Textos dos dias que correm

Como a mim mesma

Já lá vai o tempo em que o amor me preocupava, agora penso.
Ganho, perco, poupo tempo a pensar.
Olho o lago e o cisne e a flor, e digo: nunca me bastaram.
Olho as pessoas e as coisas, e digo:  nunca me bastaram.
Olho-me e digo:  nunca me bastei.
De que precisaria, então, para me bastar?
Para fruir a saúde, os outros, a vida?
Que me faltou, quem me impediu?
Quem me ensurdeceu à própria voz?
Porque não escutei o meu  grito de socorro?
Não me estendi a mão?
Me deixei cair, despenhar?
Quem, além de mim, posso culpar?
Às vezes, digo:  foi esta vontade de ser amada
Esta servidão à vida e aos outros
Esta mendicância de mimos, de palmas
Este sol, esta luz, este vinho 
Estes pães-de-ló da minha infância
Este pai, esta mãe, estes meus irmãos
Este País ajoelhado, esta poesia queixosa, esta saudade trágica!
Esta, sobretudo esta, inferioridade!
Outras vezes, penso:  foi pena.
Ninguém me ter dito que era a mim que eu deveria beijar.
Amar, perdoar, mimar.
Foi pena ninguém me ter dito que não era com os outros, mas comigo, que eu teria de viver.
Mais.
Sempre.
Inescapavelmente.
Até que a vida, enfim, me separe.
O corpo da alma, os outros de mim.
Pois não há moeda.
Poder.
Divórcio, viuvez.
Não há, sequer, invalidez.
Que nos aparte, nos desmembre.
Nos liberte de nós.
Nascemos ao mesmo tempo.
Morremos ao mesmo tempo.
Eu e eu.
Os meus talentos, os meus aleijões.
Os meus lamentos, as minhas pulsões.
Que aprenda, então, a viver comigo.
A seduzir-me, a saborear-me.
Para que a minha companhia me compraza sempre.
Que, na dificuldade de me odiar, aceite amar-me.
E que, desse amor, possa nascer um novo fruto.
Um novo eu.
Um novo gosto em estar comigo!
Não é, aliás, facultativo.
Se o fosse, não estaria aqui.
Viver comigo é longo, interminável.
Imposto, indeclinável.
E as fugas a mim mesma têm custo.
Um custo em euros:  viagens, restaurantes, farpelas, piscinas.
Um custo em vida: vícios, neurastenias, miomas, manias.
Não basta o sangue, o mesmo sangue.
É preciso amizade.
Uma grande e superior amizade.
Despede-se um conhecido, derrota-se um inimigo.
Não nos livramos de nós.
Só com uma grande e superior amizade nos suportamos.
Nos resignamos, nos perdoamos.
É preciso, pois, fomentar um sentimento.
Siamês, visceral.
Uma robustez marsupial.
Para carregar o mesmo corpo, a mesma casa.
A mesma carne, o mesmo Deus.
Pecados, corrupções. Anticlerical anticlerical
Batotas, desilusões.
E nunca o eu se zangar comigo.
E nunca o eu se fartar de mim.
Por estar preso, cravado.
Sobreposto, agrilhoado.
Condenado a si mesmo e àquilo a que chama solidão.
Solidão?
Nunca estou só, estou a meu lado!
E deveria bastar viver assim.
Permanentemente acompanhado, apaixonado:
- Amo-me. Amo-me tanto!
Sozinho, é quem se cansa de si mesmo.
Se sente um desprazer, uma doença.
Preciso, então, urgentemente, de me amar.
Tanto, tudo.
Assolapada, veementemente. 
Para que enfim me baste, me desprenda.
Não precise, não dependa.
E que o outro não seja, afinal, mais do que eu.
Que seja incógnita. Que seja novidade.
Que seja pista, luz, alternativa.
Menos, tanto, mas nunca mais.
Já lá vai o amor em que o tempo me preocupava, agora amo-me.
Se nada nem ninguém me bastou o que me faltou fui eu.

Rita Ferro

01 julho 2015

Luxúria *

António Maria passava férias no Mónaco, hóspede frequente e requisitado de amigos ricos para quem a palavra tristeza (como outras) tinha uma conotação muito própria, porque algumas pessoas usam as palavras dando-lhes sentidos específicos:

Estou triste, sabes? O Dow Jones fechou em queda e o Euronext não está a ajudar. Não achas uma tristeza?

Mas a tristeza bolsista era secundarizada pelos barcos manobrados por mãos hábeis que aproveitavam o vento brando e a rotina mansa das marés, pelas tripulações vastas, almoços surpresa, camas abertas, gin and tonic ao fim da tarde, roupas bonitas e corpos bem tratados.

Em Portugal era conhecido em S. Carlos onde era frequentador assíduo, assim como na Gulbenkian, nos leilões de arte, nos melhores restaurantes, nas festas mais deslumbrantes, nas famílias mais finas, nas revistas mais cor-de-rosa, nos casamentos mais luxuosos.

Tinha uma casa com uma vista deslumbrante sobre o Tejo, cuja decoração tinha sido facilitada por uma imensidão de quadros herdados e mobílias compradas, tapeçarias adquiridas após negociações criteriosas onde a dureza e a educação caracterizavam por igual o seu estilo.

Dizia quem tinha passado pela sua cama de solteirão inveterado que o sexo era magnífico. Atento aos ritmos de quem estava consigo, era virtuoso, criativo, ágil, aberto a novas experiências, demorado quando necessário, rápido quando exigido. Acendia velas, punha uma música suave e que se ouvia o bastante para não incomodar, e a noite acabava com o raiar do sol, com um pequeno-almoço de hotel de luxo e uma olhar burguês sobre os cacilheiros.

Porque o destino nos faz trilhar caminhos que se suporiam vedados ao estilo de vida que cada um escolhe, António Maria veio a apaixonar-se. Não por uma baronesa, mas pela Adélia, uma estudante de Engenharia do Ambiente e monitora do curso de boleros que o gestor decidira frequentar para satisfazer o capricho de uma advogada, rapariga da baixa nobreza do Liechtenstein, por quem se apaixonara ao assistir ao Anel dos Nibelungos. Adélia tinha uns olhos escuros, um corpo esquivo e um nariz ligeiramente levantado. O artista cantava


e Adélia encostava-se, colava-se num requebro permanente, e o aluno sentia o peitinho dela a estremecer por baixo de um vestido de lycra que revelava formas escaldantes. Acabou por levar a dançarina a sua casa. A professora fascinou-se com as velas, os quadros, as tapeçarias, a temperatura ambiente, a cozinha, a organização dos armários, a vista sobre a outra banda onde vivia desde que nascera.

Sabe, doutor António

diria ela, estirada numa cama com duzentos anos, revelando uma nudez juvenil, firme, sem pudores nem receios. E ele, o gestor herdado que desenvolvera a fortuna e semeara contactos nos vários cantos do mundo, beijava-a ao de leve pelo corpo todo, como quem descobre, reconhece, regressa e descansa.

Diz, Adelita

Aprecio esta luxúria em que vive.

Luxúria? Eu acho que é luxo, não é luxúria...

E não é a mesma coisa? Olha, achei que era... A sério que não é?

JdB

* publicado originalmente a 12 de Abril de 2010

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