13 julho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, data irrelevante,

Meu querido Fábio,

Embora tenhas acesso ao meu diário, estou certo de que não lerás esta carta, porque o respeito que me tens to impede. Gostas de mais de mim para ocupares a tua mente com perguntas do género: o que faz ela num estabelecimento chamado Lanterna Vermelha e que oferece ilusão a troco de dinheiro?

Começo esta página do meu diário sob o signo da interrogação. Escreverei sobre o quê? Quem será, das raparigas ou dos clientes, que me reterá a atenção neste dia. Que pormenor mais sórdido, que passado mais misterioso ou que presente mais triste me iluminará a inspiração, me atirará com furor criativo para uma página de um caderno? De facto, meu querido Fábio, companheiro de alegrias e tristezas, nada me inspira neste momento.

Perguntarás se tenho falta de assunto. De todo! Tenho muito por onde escrever, mas pouca paciência para o fazer. Sabes, ele há dias assim, em que o nosso horizonte visual é o que é, mas também poderia ser outra coisa. Tanto faz ser um deserto ou um mar encapelado; poderia ser uma vista de África ou do Árctico. Tudo é indiferente, porque não há, aparentemente, ligação estabelecida entre mente e braço. À parte do corpo humano que é responsável pela escrita - na sua forma física - não chega estímulo. Quando isso acontece, faz-se o quê? Nada. Deita-se a caneta na secretária e volta-se a vontade para outras coisas.

Graças a Deus não tenho ninguém que me leia regularmente. Felizmente não tenho leitores que me perguntam religiosamente à 2ªfeira: então, não se escreveu nada hoje? Se os tivesse sentiria que os defraudo. Mas escrevo para mim, principalmente, e para ti, querido Fábio, que me lês sempre, mesmo quando não há nada para ler.

Não estou demasiadamente triste nem excessivamente alegre. Sinto apenas um vazio criativo, como se o estabelecimento onde trabalho tivesse encerrado para férias, para descanso do pessoal, para mudança de um ramo qualquer, para auditorias ou inspecções. Como se as operárias que aqui trabalham estivessem todas fora, a banhos.

Olha, Fábio, não sei o que te diga. Fica o meu beijo, na certeza de que gostarás de mim na mesma.

Amália

Lanterna Vermelha

O que seria a Lanterna Vermelha em versão chinesa?

MTS

Alerta

Motivos importantes levam a que o Lanterna Vermelha de hoje - ou o que se publicar em sua vez - saia um pouco mais tarde. Talvez fim da manhã, em não havendo imprevistos adicionais.

JdB (editor e dono do estabelecimento) e MTS (cronista de serviço)

12 julho 2009

Chamamento e missão

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Leio o Evangelho de hoje e assaltam-me duas ideias. É verdade que há o carácter universal das coisas (os doze apóstolos a representarem as doze tribos de Israel), ou o sentido de comunidade (o facto dos apóstolos partirem dois a dois); há ainda as instruções sobre como se devem comportar os apóstolos perante a hospitalidade que lhes é proporcionada (a demora para a formação da comunidade). Pese embora a importância de tudo isto, a mente e o coração atiram-me para duas ideias chave: chamamento e missão.
Nem todos somos chamados ao sacerdócio ou a qualquer outra forma de vida consagrada, mas, estou certo, somos todos desafiados ao exercício da santidade: nas nossas vidas comezinhas ou influentes, na forma como nos relacionamos com colegas, empregados, amigos, família. Acima da competência que pomos nas coisas que fazemos está a diferença que marcamos relativamente a um mundo egoísta, demasiado competitivo, esmagador, privilegiador do ter em vez do ser, onde a compreensão, a tolerância e o sentido de justiça se arriscam a ocupar lugares raros.
Somos, de facto, chamados a ser santos. A nossa missão também é essa.

EVANGELHO – Mc 6,7-13
Naquele tempo,
Jesus chamou os doze Apóstolos
e começou a enviá-los dois a dois.
Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros
e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho,
a não ser o bastão:
nem pão, nem alforge, nem dinheiro;
que fossem calçados com sandálias,
e não levassem duas túnicas.
Disse-lhes também:
«Quando entrardes em alguma casa,
ficai nela até partirdes dali.
E se não fordes recebidos em alguma localidade,
se os habitantes não vos ouvirem,
ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés
como testemunho contra eles».
Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento,
expulsaram muitos demónios,
ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

11 julho 2009

Eterno Jackson em uma piada negra


A esta hora a tua voz suspirada e doce enche a sala e danças num monitor de computador. Ao lado, um miúdo roda as músicas e constrói as tuas coreografias. Não podes supor o lume que tens atiçado por este mundo fora. Há um bando de crianças a gritar o teu nome, a perguntar por ti, a ouvir-te pela primeira vez, a imitar-te os passos escandalosamente bem. Michael Jackson, tantos anos sem te ver e agora levas os dias em minha casa. Ainda choro com “Heal the World", danço com “Billy Jeane” excedo-me em “Beat It” e não posso, que atraso o expediente. Sabes que me incomoda toda a forma de gozar o fraco, mas esta aposto que vais adorar. Michael Jackson fez nova plástica na semana passada. Esticou o pernil! Não é de morte baby-boy? Oh-Oh-Oh
Já tinhas ouvido? We love you more.

DaLheGas

10 julho 2009

ao amanhecer

ao amanhecer
dirás de volta aos braços que te esmagam:
nenhum tirano me seduzirá,
nenhum ouro me atropelará,
nenhum homem será meu senhor.

ao amanhecer
as nuvens, à distância de um céu, falam:
nenhum erro te matará,
nenhuma falha te desviará,
nenhuma mulher calará esse teu amor.

ao amanhecer
conhecerás a matéria do poema:
a virtude que te é exacta,
a dor que tem que acontecer,
a mais sublime inclinação.

ao amanhecer
conhecerás a tua última essência,
a que escondes nos fundos
dos teus tortuosos mundos
em todos os segundos:

- seguir o coração, joão.


gi

09 julho 2009

Coisas que não sabemos que não sabemos


Esta frase demorou-se mais de um quarto de hora à janela da biblioteca do ISCTE, a mais agradável para se estar neste dias ladrões da razão. O espaço da quinta-feira estava à disposição de umas linhas sobre a Universidade, ou outra coisa qualquer, se a vontade para aí estivesse virada. Universal, se me é permitida a ousadia de falar por toda a gente, é a vontade de fazer destes dias amolecidos ao sol aquilo para que eles são perfeitos, abrandar a vida e dedicar umas horas ao cultivo da boa disposição, com quem de direito.

Sou estudante, é o meu ofício e a minha idade na vida, estou sentado na carruagem certa para descarrilar sobre tudo o que, por afinidade ou por sangue, diz respeito à Universidade, coisas tantas que me demorariam, além dos quinze minutos da primeira frase, umas quantas tardes pachorrentas, se sobre elas me pusesse a conversar, na diagonal. Uma contextualização rápida e relativamente precisa diria que eu não estou, nem no curso certo, nem na faculdade adequada mas, com rapidez e com relativa precisão, não se contextualiza convenientemente nada de semelhante complexidade. De qualquer forma, assim fica justificada a escola da minha Universidade, aquilo que eu escolho como peça central do texto ao desafio, as pessoas.

Estes últimos e privilegiados anos têm sido um despertar para toda a riqueza que são os outros, os que já conheço, os que vou conhecendo e os que não sei quem são.

Todos os dias são, invariavelmente, uma escola, numa infinidade de momentos distintos dos quais se tira sempre a mesma lição, saber viver. A minha Universidade ensinou-me que viver é, sobretudo, não estar só e, mais importante que isso, ensinou-me a não esquecer o que aprendi ao primeiro desatino, à primeira curva do caminho. A minha Universidade ajudou-me a descobrir pormenores essenciais, que não sabia que não sabia.

Zé-do-Telhado

Sons (geniais) dos tempos que correm

Pode haver quem queira passar ao lado deste movimento composto por um génio. Fica o meu pedido: a resistência humanamente possível - e desejável - até ao instante 2'14", momento no qual tudo cresce no domínio do não explicável. Apenas no domínio do audível.

JdB

2/7


Os oboés dão o tom. Lá maior. O maestro volta-se para a direita e, lentamente, com um golpe de pulso, acena aos violoncelos. Estes expõem o tema. Apenas as linhas gerais, o fio condutor.

O resto da orquestra está suspensa, muda. Os violinos, impacientes, preparam o arco. Encostam-no às cordas. Com o apontar da batuta, estas vibram em coro.

O céu começa a fechar-se. As nuvens juntam-se em cores de tempestade.

A primeira secção de violinos recomeça o tema inicial sobre os graves dos violoncelos. O tempo é mais rápido e o instrumento apresenta os capriccios próprios.

Entra agora a segunda secção. Complementa a primeira. Enche, a contraponto, os espaços que esta vai deixando vazios. Sobem os arcos de uma, descem os da outra.

O ar começa a escurecer, o vento sente-se. As nuvens, cada vez mais escuras, enrolam-se sobre elas próprias.

O primeiro violino toma o seu lugar. Eleva-se, sozinho, acima do resto. O vibrato agudo, cristalino, sobrepõe-se a qualquer outro som da orquestra. O maestro, com movimentos curtos e precisos, dirige os instrumentos. Com a batuta ordena que os violoncelos subam de intensidade.

Os graves são o suporte para todos os outros sons, são o chão onde caem.

A segunda secção de violinos, regida pelo maestro com gestos secos da mão esquerda, acompanha os violoncelos nesta escalada, num diálogo que, pouco a pouco, vai subindo de volume.

Um a um, os violinos que seguiam o tema acompanham o primeiro na escalada sobre o resto da orquestra. Camada sobre camada, agudo sobre grave, o quadro acabou de ser pintado.

A tempestade desdobra-se impaciente para trás e para a frente.

O céu abre-se em dois com o estrondo dos tímbales. O chão estremece a cada vibração da corda dos contra-baixos. Foge debaixo dos pés.

Um, um dois três, um.

As madeiras rangem, os metais brilham, os arcos retesam-se.

Os violinos, em voo rasante, numa ventania fria, puxam os cabelos de trás do pescoço. Elevam-se no ar, em rodopio, e caem no chão, em estilhaços.

A chuva dos violoncelos cai, numa dança furiosa com o vento. É atirada contra as paredes, contra o tecto, contra o chão.

Os metais polvilham o quadro com reflexos de ouro. Relâmpagos rasgam o ar, iluminando à sua passagem.

Os contra-baixos trovejam, graves, assustadores, a fazer tremer por dentro. As cordas grossas soltam, em estrondos, trovões curtos. Em simultâneo com os relâmpagos. A tempestade atinge o seu pico.

Dois minutos e cinquenta e dois segundos depois já se pode respirar outra vez.

SdB (III)

08 julho 2009

Largo da Boa-Hora

“Eu e Tu”, “Tu e Eu”.

O ser e acontecer de cada um é, do ponto de vista da relação com o outro, confrontado com distintas atitudes e posturas desse outro, cuja natureza e consequências julgo merecerem alguma reflexão.
Nas acções ou omissões do outro temos vários graus de intersecção e / ou comparticipação que formam um largo espectro que me proponho evidenciar. (Aplicável, como todo o texto que segue, desde a relação amorosa à familiar, incluindo a de amizade e as de mero conhecimento ou de índole profissional).
Percorramos, pois, um breve itinerário das atitudes distintas perante o “ser e acontecer “ do outro.
Instrumentalmente, ficciono esse itinerário como uma escada cujos degraus ascendem da indiferença à cumplicidade, que são os extremos do espectro considerado.
No primeiro degrau da ligação ao ser e acontecer do outro, temos a ignorância, a indiferença, o alheamento. É ser-se cego, surdo e mudo.
No segundo degrau, assume-se a postura de mirone. Espreitamos o que acontece, de relance, com um ânimo de olhar sem registar, sem querer recordar, recusando outro efeito em nós que não distrair, apenas como paisagem banal e irrelevante que vai desfilando na estrada que vamos percorrendo, e que se apaga pela sucessão da próxima curiosidade.
No terceiro degrau, consideramo-nos testemunhas. Presenciamos o desenrolar do outro, com observação, com atenção, com interesse em ver e registar. Não somos neutros perante o acontecimento, queremos percepcioná-lo e aplicamos as nossas faculdades cognitivas a essa aquisição de conhecimento. No final, sentimo-nos habilitados e autorizados a discorrer e contraditar sobre os factos sucedidos, legitimados pelo “trunfo” de termos fotografado o evento.
No quarto degrau, entramos no ser e acontecer de outrem como conhecedores. Neste patamar interagimos com o outro, porque acresce, à qualidade de testemunha, a disponibilidade, interesse, vivência do acesso e conhecimento concreto das motivações, causas, efeitos, circunstâncias que são inerentes ao sucedido. Aceitamos a partilha de todo o mundo subjacente ao evento material. Passamos aos bastidores da obra apresentada, acedendo a todas as vicissitudes ocultadas do público em geral. Quando falarmos, poderemos narrar, tanto o “quê”, como o “porquê” do evento.
No quinto degrau, a atitude passa a ser de comparticipação. Deixa, pois, de ser acrítica, como nos degraus anteriores. Neste patamar assumimo-nos como tolerantes. Acresce, relativamente ao quarto degrau, uma reacção nossa de aceitação, de admissão, de conformismo, com o ser e acontecer do outro. Passamos de um "non facere" para um “facere”, que importa uma reacção nossa perante a acção do outro, ou seja, além de conhecer o acto, facto ou omissão, conferimos-lhe a nossa bênção, o nosso acolhimento.
No sexto degrau, a nossa intervenção sobre o outro cresce de importância, passamos a apoiantes. Neste estádio, afirmamos a nossa adesão, concordância, beneplácito ao ser e acontecer do outro. Sustentamos o seu devir com toda a disponibilidade para ajudar, auxiliar, viabilizar, concorrer para o evento. “Fazemos figas” para o sucesso, lançamos os foguetes, e, muito importante, estamos igualmente irmanados para a eventualidade do fracasso, da derrota, do infortúnio que ocorra no final. Estamos, para o bem e para o mal, companheiros de caminho, solidários e indefectíveis.
No sétimo degrau somos mais interventivos. Agimos a nível prévio da acção do outro, somos instigadores. Incitamos, estimulamos, induzimos o outro a ser e acontecer de certa e específica forma, premeditada também por nós. Queremos que as coisas sejam assim, e intervimos para a resolução do outro que seja necessária. A decisão é também nossa e, consequentemente, a acção, porque intencionalmente o determinámos ou concorremos para essa determinação. O evento que aconteça neste quadro de instigação é da autoria dele, mas tem a marca indelével da nossa força motriz que o animou.
Por fim, no oitavo degrau somos cúmplices do outro. A cumplicidade é ser-se co-autor do sucedido, é ter-se tomada como própria a acção do outro, é a fusão de vontades e de execuções que tornam o evento numa amálgama em que é impossível distinguir, entre ambos, quem fez, porque fez e como fez.
Trata-se da unicidade de vontades e agires que anulam a distinção das individualidades que antes se destrinçavam. O que está feito não foi feito por ambos, mas feito por um ente que é a soma, melhor, a fusão dos dois.
A cumplicidade é a hábil transformação dos “laços” em “nós górdios”
A cumplicidade transforma egoísmos compatíveis em altruísmos abnegados.
A cumplicidade é, pois, a linha no horizonte que sucede no crepúsculo, e em que é impossível saber que parte da claridade vem do sol que nasce, e que parte vem da lua que adormece, ou vice-versa. É, pois, o abraço dos astros, que nem as estrelas deslindam, quanto mais os homens.
Temos assim identificados, pelo menos, oito degraus de acção e reacção, perante o ser e o acontecer do outro, todos eles enunciados pelo respectivo verso, quando podiam (deviam) também ter sido feitos pela referência ao respectivo inverso, o que só tornaria este texto inaceitavelmente longo, já que o contrário de cada degrau enunciado também é, evidentemente, uma opção e, pelo que a seguir direi, crítica e fundamental.
Conhecidos os degraus, reputo de fundamental para uma relação consciente, séria, construtiva, verdadeira, e com futuro, que cada um, em todas as ocasiões, em que o outro “é” e “acontece” lhe comunique, o faça interiorizar, consciencializar, sem dúvidas ou incertezas, qual é a acção / reacção com que conta e que lhe dá.
Sem erros nem equívocos, no nosso ser e agir todos temos o direito de saber com o que contamos do outro, se com o degrau um se com o dois o três… ou o oito.
É um dever de quem nos partilha e, na iminência do suceder a nossa opção e vivência, ou até nesse sucedimento, sabermos qual o papel (degrau) que o outro quer desempenhar nesse tempo, espaço e acontecimento, sem reservas, nem cautelas, com verdade, lealdade e coragem.
A tripulação de cada viagem conta-se à largada do navio.
É pois egoísmo, cobardia, má-fé, desamor e desinteresse por pessoas e projectos, não intimar o outro com a afirmação do degrau em que nos posicionamos à largada do navio: somos adeus no cais, visita de desembarque antes da partida, privilegiados com barco de apoio para fuga, passageiros de bilhete comprado e salvação assegurada, tripulantes, ou companheiros de campanha até ao fim, se for o caso.
Entenda-se aqui o direito / dever à oposição, que deve ser exercido no tempo e modo convenientes, com franqueza, firmeza, e fiabilidade. Dizer não, se é não. Quantos Alcácer -Quibir colectivos e pessoais teriam sido evitados…
Mas, e como corolário, se ousámos, livre e conscientemente, firmar-nos nos degraus mais elevados da comparticipação (quinto, sexto, sétimo, oitavo) então, em caso de borrasca e até de naufrágio, é pura indignidade abandonar o navio, como os ratos o fazem na iminência da desdita.
Tudo visto, numa relação temos o direito e o dever de nos posicionarmos no degrau que entendermos mais adequado, justo, possível, desejado, conveniente, e tudo o mais, numa perspectiva do interesse próprio, do interesse do outro e do interesse comum.
Mas, concluído esse posicionamento é de honra transmiti-lo.
E, de dever sagrado cumpri-lo.
O mais é desdenho e traição.

ATM

06 julho 2009

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há 15 anos.

Nasceste num dia de Verão e tinhas a completa aparência de um bebé igual a tantos outros. Olhámos-te com os olhos da cara e não do coração, ainda que esse olhar fosse ampliado pelo amor que sempre devotamos a um filho que nos cai nos braços pela primeira vez. Cedo desconfiámos de que não nos pertencias totalmente, porque algo em ti, e na forma como te encarávamos, revelava ao mundo uma dimensão misteriosa para uma existência que só aparentemente parecia vulgar.

Hoje, porque te vimos nascer, crescer e partir, temos a certeza de que és um anjo, porque é isso que aprendemos em crianças, ao colo dos nossos Pais, deitados numa cama a ouvir histórias de encantar ou de mãos postas, rogando por alguém que nos guarde a alma de noite e de dia. Estamos todos errados, minha querida, porque quando vieste a este mundo já vinhas vestida de anjo, com uma missão importante de que só tu conhecias os pormenores.

Por teres esse mistério que só nós acabámos por ver é que escrevemos muito sobre o que tinhas vindo cá fazer, o verdadeiro propósito da tua chegada – sobretudo a razão da tua partida. Por ti inventámos o sopro do anjo, o pó do amor, um anjo chamado Éz, uma terra chamada Litores. Criámos personagens, gente que se chamava Quatro Letras, Estrela da Sabedoria, Madame Pena. Estamos certo de que lá em Cima onde moras agora, rodeada de uma felicidade cuja dimensão nos transcende, te rirás connosco da simplicidade das nossas histórias, ou estenderás uma mão pequena para agarrar uma lágrima teimosa de um fim mais comovente.

Todos os dias nos lembramos de ti, te pedimos para nos ajudares, nos iluminares, nos mostrares o caminho certo. Sabes, nem sempre a vida nos correu como queríamos. Não somos perfeitos, cometemos erros, falta-nos o amor e o perdão em doses suficientes para agarrarmos a felicidade mais elevada, aquela que se aproxima do Céu. Aí, nesse lugar de uma beleza sem par, vives uma dimensão diferente. Os teus dias não têm a duração dos nossos e, mesmo na inocência da tua idade, já sabes, de certeza, que Deus não é senão amor. Não conheces o orgulho, a raiva, o rancor ou a desilusão. Aí, onde percorres um tempo que não sabemos medir, nada é senão amor.

Temos saudades tuas, sabes? Umas saudades que o tempo vai suavizando, vai transformando numa coisa mansa que vive em permanência dentro de nós, a respirar ao compasso do nosso coração. Sabemos que estás bem, que nos olhas com uma ternura de tal modo infinita que afasta todas as decepções. Talvez, por mais estranho que pareça, derrames sobre nós um olhar de mãe, quando já tiveste um olhar de filha. E uma mãe verdadeira compreende os seus filhos a quem ama incondicionalmente. E uma mãe verdadeira vela por eles até ao fim, estendendo-lhes uma mão que eles nem sempre conseguem vislumbrar.

Como escrevemos uma vez, mais importante do que questionar porque partiste é indagar o que vieste cá fazer, o que nos quiseste ensinar. Apesar de todas as curvas no caminho, todos os desvios que parecem errados, todas as lombas que vão surgindo, continuamos a perseguir o trilho da felicidade. Apesar de todas as lágrimas e de todos os soluços e de todos os risos, continuamos a olhar para um ponto no infinito que pensamos ser o autêntico. É lá que tu estás, temos a certeza. Sabemos para onde queremos ir, só nos falta descobrir o caminho.

Hoje, como há 15 anos, continuamos a cantar para dentro as seis linhas que te oferecemos. O fado é teu, como a nossa vida é tua:

Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu

Foi hoje, mas há 15 anos.

JdB

05 julho 2009

A imposição das mãos

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Olho para a semana que passou com a mesma intensidade com que olho para a que agora entra. Nem tudo me é indiferente, mas a vida forçou-me a relativizar as coisas, os dramas, os problemas. Deus queira que seja diferente com as alegrias, e eu consiga manter o olhar de contentamento espantado para o que de bom me acontece, como se fosse uma criança a quem oferecem um gelado surpreendente no calor do Verão.
Nunca me conseguirei habituar à modernidade do viver o dia a dia, como se a eternidade se resumisse às próximas vinte e quatro horas. Preciso de objectivos, projectos, lutas, pensamentos que se lançam para lá do comezinho (digo eu...) do dia de hoje. É este, também, o reverso de uma medalha que me oferece tempo, um dos bens mais escassos da nossa modernidade.
Em muitos aspectos da minha vida atento no que está por diante e vejo uma parede que se ergue intransponível. Há assuntos que nos esmagam, futuros que se adensam, luzes que se apagam. Tenho dificuldade em encontrar sentido para muitas coisas, não vislumbro o sossego de quem acredita que tudo tem um motivo para acontecer. Cada um tem a sua cegueira, esta será a minha.
Ontem, pessoa a quem me liga uma amizade militante falava-me de equilíbrio e aceitação perante os temporais que nos assolam. Olho-me ao espelho e sou tentado pelo pecado da vaidade: independentemente de tudo o que me aconteceu (fosse ou não responsabilidade minha) há uma paz que me invade, impedindo a entrada de raivas, azedumes, rancores. Há um sentimento de libertação e despojamento que pode ser difícil de explicar. Estou certo de que a Fé e a espiritualidade me têm ajudado fortemente, mais ainda do que posso descrever em palavras.
Leio o Evangelho de hoje e retenho, como sempre, um ou dois pormenores que me tocam particularmente. Escolho a imposição das mãos. Talvez não seja o mais importante, mas traz-me lembranças fortes e marcantes.

EVANGELHO – Mc 6,1-6
Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se à sua terra
e os discípulos acompanharam-n’O.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam:
«De onde Lhe vem tudo isto?
Que sabedoria é esta que Lhe foi dada
e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é ele o carpinteiro, Filho de Maria,
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»
E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes:
«Um profeta só é desprezado na sua terra,
entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre;
apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente.
E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.


JdB

04 julho 2009

Outra Vez Eu?

O Adeus sem pressas, um rádio entre os escolhos de obras, o cheiro a tinta, um disco de palma que alguém gravou há dias. Jorge Palma. Sucumbo todas as vezes a esta música. Que boas letras para o seu piano, para as nossas vidas. Que genial, ser escritor-compositor. Até se podem escrever balelas. Não gosto de escrever balelas, embora haja umas bem boas. E já me cansa esta forma escrita que nunca passa da primeira pessoa. Eu, eu, eu, tanto eu. Logo o meu. O que hão-de pensar. E esta preguiça que predomina. Continua eivado dela, militante. Não tem emenda. Quando há que pensar pasma no escuro, sem um esforço para derrubar o muro. É que é escusado. Fia-se que cai do céu. Teima e não quer falar dos outros. Pergunta quem é para tecer a cousa alheia. Diz que ninguém. E das cousas, poucas lhe interessam. Foi almoçar aqui há dias com uma gente que era agradável juntar. Sabem o que disse? Que merda é esta? Literalmente. Estás-te a passar? Trazes-me aqui sem fim específico ou assunto que se aprofunde, sem uma léria que se apresente ao mundo. Tudo a falar ao mesmo tempo, em prosa ó calha, numa corrida. Vimo-nos. Ah, viram-se. Tem sim senhor, a sua graça. Vá lá! Desta respeita, sem a preguiça à espreita. Deve entender de imediato que entre balelas ainda há a carne e o osso. Mas isto vai ter que acabar. Quem? A preguiça? Não. Esta escrita sempre na tua pessoa.

DaLheGas

Músicas dos dias que correm

Porque buscar a terra é ter falhado o céu...

03 julho 2009

todos os dias a mesma meticulosa rotina: levantar às 6.30, esticar as pernas, ainda sentado na cama de corpo e meio, abrir o olhar. de chinelos e ainda em pijama, tratar da higiene matinal com garbo e mão firme. barba finamente escanhoada, a água de colónia importada do oriente - hábito que ficou de outra vida -, o cabelo impecavelmente alinhado. o rosto de clark gable sem o sorriso, poderia quase dizer-se (e diziam-lhe, não raro, nos botecos que frequentava e, ainda mais recorrentemente, nos corredores das bibliotecas). o café e a meia-torrada, preto aquele, quase loura esta. a pouca manteiga e sempre e só manteiga. a colher de açúcar medida com olho clínico, os comprimidos para manter calado o médico amigo. escolher o fato, sempre o fato, entre os 12 naipes escuros possíveis - o preto em todas as suas gloriosas cambiantes, melhor dizendo. as camisas brancas, entre o algodão mais comum, a fina mistura de fibras naturais comprada em londres, o linho solar e setentrional, resquício das antigas índias. gravata escura. sapatos finos e engraxados, polidos, daquela forma que já só as estrelas de cinema usam. um passeio a pé, esticar outra vez as pernas, aquela meia-hora das 7h30 às 8h00, em que a noite passa o testemunho ao dia. voltar a casa, à pequena garagem, resplandecente nos detalhes de limpeza maníaca. sentar, ajustar espelhos e bancos, pela trigésima vez no mês de 30 de dias. dar à chave, acelerar suavemente, confirmar que a mecânica ainda cumpre as leis que a sustentam nos livros técnicos. dar vida ao velho ford galaxy, reluzente como se acabasse de sair de um museu onde fosse estrela maior, e assim merecesse todos os cuidados. navegar pela cidade, o tempo suspendido, o 'suspension of belief' activo (aquele mecanismo que no cinema nos permite acreditar e, assim, sentir o que estamos a ver, sem estarmos sempre a pensar nos inescapáveis mecanismos de simulacro). conduzir com souplesse. imaginar sair da mulholand drive directamente para os altos e baixos de são francisco, daí passar para as curvas do mónaco, para o ruído geométrico de nova iorque - e algures cruzar o rio de janeiro, ali mesmo, do outro lado do rio tejo. a geografia também suspensa. navegar, o acelerador impassível, a caixa de velocidades por usar, o trânsito desviando-se a cada cruzamento, as auto-estradas libertas. olhar pela janela a meia-haste, o rádio obsoletamente belo, sempre na estação certa. a música a meia-voz, a constante adequação da banda sonora ao estado de espírito de cada lugar já lá atrás.. rasto de luz e som, nitidez contra fundo difuso, graciosidade cinematográfica, poetry in motion, como naquela canção antiga do cliff richard ainda jovem e ainda não sir (sim, mais vale ser-se um senhor intenso que mais um sir por extenso - sorrir com o naif humor interior). pelo caminho, reparar nos que choram. e são tantos, tantos. dar novos usos à álgebra, querer ser o senhor da subtracção ou, pelo menos, da mais justa e talvez possível divisão. oferecer o perfil, no fato lustroso e elegantemente escuro, a quem olha de fora aquele carro como nenhum outro. aquele carro - sussurra-se - que navega as ruas, as estradas, sem uma oscilação, uma hesitação, um gesto mecânico brusco. todo ele é continuidade, serenidade, um flow ininterrupto. abrandar nos semáforos, soprar e pegar-lhes as cores do arco-íris, fazer deles uma coisa outra. voltar aos que choram e estender a mão, ainda dentro do carro, curando-os de si próprios. fazer da rotina uma missão, transformar a banalidade na excepcionalidade, fazer, dia após dia, florir os milagres em cada esquina - fazer disso normalidade. conduzir de volta a casa, àquela garagem exacta, à casa frugal. passar na biblioteca ou na universidade ou no boteco - declinações de uma única e mesma coisa. cumprimentar os amigos, os companheiros de rotinas materiais e afagos existenciais. de volta a casa, despedir-se do fiel ford galaxy dos anos sessenta, acariciar o seu corpo encerado, dizer obrigado por nunca me falhares, nem nos dias feriados e nas cinzentas tardes de domingo. entrar em casa, fazer a lida necessária, preparar o jantar, por entre bach e miles davies. na mesa de mistura - discreta marca de modernidade num tempo há muito sem calendário operativo -, criar uma música nova, talvez a voz de Deus. olhar os livros em volta, a segurança dos livros em volta. fechar os olhos, fumar um cigarro aromático como já só no sri lanka se encontra. imaginar mundos. e pensar: se isto não fosse possível, como seria feia a vida. nesse mundo alternativo, haveria talvez um ford galaxy moderno, de novíssima geração. e fatos coloridos, de fibra sintética. haveria música? haveria café forte e preto? haveria aquele tabaco chegado de outros impérios? haveria a frugalidade como verbo? haveria milagres, como os que, dia após dia, acontecem? seria possível curar os outros de si próprios? a resposta, as respostas, nunca as conheceria - sabia isso muito bem. afinal, esse mundo que dentro da sua mente congeminava, era mera especulação. nunca o saberia. mas não se importava, viveria sem nada, em qualquer sítio e em qualquer tempo. aos demiurgos improváveis apenas uma coisa pediria: que não lhe tirassem o velhinho ford galaxy, companheiro de todas as horas. sem ele, como poderia fazer os meus milagres? até sem milagres ele viveria. mas.. e os outros.. mas.. e os outros?adormeceu em paz.

02 julho 2009

A História de um Chapéu (última parte)

No meio de toda esta festa o chapéu passou por todos. Do padre ao barman, não esquecendo as tias velhas e os sobrinhos mais novos. Curiosamente, mesmo antes de se ir embora, o noivo deu com o chapéu do Avô Fausto em cima da sua cabeça. Engraçado as voltas que as coisas dão. Este chapéu, tal como ele, já tinha passado por tanto. Momentos de maior loucura, momentos de grande medo e desespero, momentos em que se sentia perdido, o momento em que decidiu assentar com a sua mulher e finalmente aquele momento. O mais importante de todos. O momento em que finalmente estava em paz consigo mesmo, com o seu destino, com toda a sua vida. O momento em que se casava e partia para uma vida feliz e menos atribulada.

Tinha sido uma longa viagem. Quer para ele quer para o chapéu do Avô. Mas a vida é assim. Nem nunca se sentiria completo se não tivesse passado por tudo o que passou. Mas o que se seguia agora? Para ele, uma vida nova ao lado da sua mulher de quem tanto gostava. Tinha medo de voltar atrás. De sentir falta das noites desvairadas e dos copos com os amigos. Dos namoros de adolescente que pareciam sempre tão reais e importantes. De se descubrir a si próprio. Ia certamente sentir falta dos primeiros anos de namoro... Mas agora entrava numa nova era. Numa fase nova. E quando chegou a esta conclusão olhou para baixo.

Reparou num miúdo novinho. Era um dos seus primos mais novos. Não tinha mais que uns dez ou onze anos. E olhava para ele com uma espectativa enorme. Não. Não era para ele... Era para o chapéu do Avô Fausto. No meio de tanta confusão o pobre míudo ainda não tinha pegado no chapéu. Ele até já era crescido. Já tinha idade para experimentar o chapéu. Aquele chapéu esquisito que o seu Avô tanto gostava. Que o tinha acompanhado por tantas aventuras...

E foi aí que eu recebi das mãos do meu primo o chapéu do meu Avô. O velho chapéu de aba preta do Avô Fausto. Já está muito velhinho. Não o levo para todo o lado como o meu Avô fazia. Mas sempre que quero pensar um bocadinho sobre o que hei-de fazer da vida, ponho o chapéu do meu Avô. Afinal de contas, este chapéu já tinha sido testemunha das coisas mais extraordinárias. Se ele falasse as histórias que contaria... Histórias de coragem, amor e tristeza. Histórias para rir e histórias mais sérias. Histórias boas e histórias menos boas... Mas esta história não é sobre todas essas histórias. Esta história é a história de um chapéu. Um chapéu de aba preta, muito velho e usado. O chapéu do Avô Fausto...

BG

01 julho 2009

Largo da Boa - Hora


Fascinam-me os móveis contadores, com as suas dezenas de pequenas gavetas alinhadas simetricamente na frontaria, adivinhando mistérios e memórias guardados nesses sacrários.
A minha imaginação transporta-me para o interior de cada gaveta, que sei ao alcance de um gesto, cuja memória fechada posso desvendar num suave deslizar da cada uma, bisbilhotá-la, absorvê-la, e voltar a devolvê-la à quietude do silêncio, resguardo e perenidade pelo gesto inverso.
Este poder de abrir, conhecer, e, depois de saciado, devolver ao tempo o que por instantes detive, faz-me sentir amo da História.
A curiosidade em abrir cada uma das gavetas transtorna-me e envolve-me num frenesim compulsivo de percorrer todas e cada uma delas, na busca de encontrar tudo o que quero saber, conhecer ou rever.
Cada gaveta deste meu contador é uma lâmpada de Aladino que me basta afagar para libertar a vida que nela foi encerrada e adormecida até este dia de revisitação.
Este “meu” contador é um desvario no qual ficciono que cada gaveta contém os dados de cada etapa da minha vida, da minha história, dos meus passados e memórias, dos meus sucederes e aconteceres.
Como bom e sólido contador, este móvel que me "guarda" tem tantas gavetas quantos os tempos que a minha vida foi tendo ao longo daquilo que já passou.
Todavia, e ao contrário de um negligente baú, o contador "arquiva" cada tempo acontecido de forma sistemática, ordenada e cronológica, de modo que não se encontra uma amálgama indistinta e desordenada de informação, mas antes, em alinhamento perfeito e por gaveta, tudo quanto releva em cada ciclo vivido.
Abrir cada gaveta é, pois, mergulhar num tempo e num espaço bem delimitado e preenchido com aquilo a que cada fase do vivido corresponde, sem misturas com o antes e o depois dessa vivência.
Esta segregação, por gaveta, de cada fase da vida, não é mais do que um método certo de arquivo do passado, não "se pronuncia" sobre as causas dos eventos guardados e, muito menos, nega a evidente relação de continuidade, de causa efeito, que sempre sucede nos factos que, encadeando-se uns nos outros, são interdependentes, e que no seu conjunto formam a "vida" de cada um, como um único e complexo trajecto percorrido.
O contador e as suas gavetas encerram, de modo ordenado e estanque, ciclos, etapas. São arquivo, e não fonte de explicação dos porquês do que guardam, dos seus circunstancialismos, causas e efeitos. São "museu" e não "História".
Cada passo que damos é marcado pelo passo anterior que demos, e é influenciado por aquele outro que queremos dar. Todos têm de ser vistos em conjunto para avaliar a caminhada, mas cada passo é também, por si só, um instantâneo com vida própria que merece ser destacado, guardado e, sendo caso disso, revisto.
Voltemos, pois, às gavetas.
O primeiro espanto vai para o número de gavetas com que me confronto no "meu" contador. Não tinha ideia de ter vivido tantos ciclos, tantas etapas, tantas épocas susceptíveis de serem compartimentadas para efeitos de arquivo e revisitação.
Estou estupefacto, como seguramente qualquer um ficará quando olhar para o "seu" contador e vir as gavetas que a sua vida gerou.
Amores, amigos, locais, hábitos, pensamentos, convicções, ambições, desejos, interesses, ocupações, hobbies, coisas, casas, viagens, lazeres e actividades profissionais e culturais, entre tantos outros, dão lugar a tantas gavetas no contador, porque nasceram, viveram e desapareceram, formando, por isso, um ciclo específico susceptível de ser guardado numa gaveta própria como passado, vencido por novas vivências substitutivas ou modificativas.
As vidas cumulam variações radicais, a par, naturalmente, de constâncias e perpetuidades.
É espantoso o que ao longo de uma vida vai mudando, como se sucedem os epicentros da nossa existência, os focos da nossa concentração, os espaços e modos do nosso estar, as nossas inspirações e aspirações, as prioridades e urgências, as adaptações e aceitações ao que vai surgindo e o conformar com o que vai desaparecendo.
Em suma, o firmamento de cada um é povoado por muitas estrelas cadentes.
Não existe valoração negativa nesta modificação permanente, de que só nos consciencializamos olhando para o nosso contador e vendo as gavetas alinhadas que guardam cada fase.
A vida é mesmo assim: na aparente continuidade de um repetido quotidiano, vão-se imperceptivelmente tecendo as malhas de um novo destino, de um novo estar e ser, de modificações profundas que só a respectiva consumação e exercício as torna, então, perceptíveis e dominantes.
Mas o espanto não se esgota no número de gavetas; a maior surpresa é, na verdade, o conteúdo de cada gaveta.
De facto, quando de memória, por retrospectiva sensorial, revemos o ciclo contido em cada gaveta, surge-nos uma imagem, uma visão desses tempos e acontecimentos, que é completamente distorcida relativamente à "verdade" que está encerrada e que é libertada quando abrimos o espaço em que foi fechada.
A gaveta guarda o "filme" da realidade, e esse não é coincidente com a imagem recordatória que hoje temos.
As "coisas" não foram assim, não aconteceram do modo que as percepcionamos hoje.
As "coisas" foram como estão guardadas na gaveta que encerra a verdade, porque aí estão fixadas as circunstâncias de tempo, modo, lugar em que ocorreram, as causas e os efeitos, os estados de vida, de alma, os sentimentos e emoções vividos realmente.
Sem a gaveta, ou seja, de memória, distorcemos o passado, porque o observamos com os olhos do hoje, cedendo a parcialidades, conveniências, desejos, interesses, conformando esse passado a uma realidade histórica pretendida – hoje – e não coincidente com aquela que realmente foi e aconteceu.
Idealizamos o passado – convenientemente – exaltando o banal, menosprezando o excepcional, lembrando o acessório, esquecendo o principal, extremando ora o bem ora o mal, protagonizando quando fomos figurantes, secundarizando quando fomos decisivos, absolvendo culpados e condenando inocentes, relativizando o crucial e sublimando o indiferente, imputando à sorte ou má fortuna o que ao mérito ou demérito pertence, vendo direito no que foi dádiva, ou conquista no que foi graça, omitindo e esquecendo culpas e erros próprios, recordando e enfatizando os dos outros (reais ou imaginários), negando ou afirmando o contrário.
Em resumo, reescrevemos para sustentar e credibilizar o hoje que pretendemos, o que não é o mesmo que revisitar o passado como ele sucedeu.
Essa revisitação só é possível abrindo cada gaveta do "contador" de cada um. Por isso, aliás, é que ele se chama "contador".
Aqui chegados, concluo: há muitas vidas na vida de cada um, o passado que esteja e fique na gaveta de cada contador para revisitação objectiva, e não se use a traiçoeira e tendenciosa memória para justificar o presente, ou para limitar a esperança e confiança no futuro.

ATM

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