Segundo pinturas, desenhos, esculturas, etc, Nosso Senhor Jesus Cristo aquando da subida ao Calvário transportou uma cruz: está errado pois os condenados só transportavam um madeiro (aquele onde as mãos eram pregadas ou atadas); o madeiro vertical já lá estava.
Como se chamavam os dois madeiros?
Fiz uma sondagem para saber quais os melhores bifes e as respostas foram: bifes do cacém, bifes da vazilha e bifes de alcantara.
Quando dizemos "temos o caldo entornado" não estamos forçosamente a referir-nos a um fenómeno meteorológico.
Os flambeados também se podem fazer com aguardente; neste caso chama-se lume brandy.
Numa entrevista é raro não se fazer uma pergunta calista: o que faz nos tempos livres? A pergunta é estúpida pois se se fizer alguma coisa o tempo deixa de estar livre.
No assunto imediatamente atrás, foram usadas, seguidas, duas palavras iguais se.
Venho pôr à vossa consideração uma frase em que a palavra se aparece três vezes seguidas; digam-me se está correcta ou é mais uma patetice.
"Caros audiophiles, this week I wish to add to recent posts by JdB and PCP by also commemorating John Lennon.
Millions of words have been spoken and written about him and I cannot really add anything more inspired.
A few years ago I happened to be in New York on an anniversary of his death, not a particular one like the 30th just passed, and so decided on that cold winter evening to walk along Central Park to the Dakota building where he had lived and to look for the Strawberry Fields garden memorial nearby. I did not expect that there would be much activity, perhaps a few admirers, some bouquets of flowers, some messages of love and thanks. But actually there were at least 300 people, some with guitars singing together, some holding candles, praying, remembering, bringing a heart-warming sense of communion and community. I suppose I should not have been surprised, especially in the city where he made his life after The Beatles and where he was killed.
The Beatles had been a phenomenon, still remain so. But John Lennon tried to burst the balloon of this global mania, to claim that they were just four ordinary but talented guys from Liverpool who had been very very lucky. He wanted to move away from this thing called "The Beatles" constructed around them. And so, it seems to me, after the Beatles, he came back down to earth, to find a life more personal, more spiritual, yet still using his influence to try to fight for the things he believed in.
This capacity for reflection and rebellion was already apparent during The Beatles in songs such as Help and Revolution, and the first song I choose is In My Life which he himself considered to be his first serious song, a meditation on his past life experiences, which of course now sounds a little fatalistic and most poignant in the light of his own death.
I think John Lennon's sincerity, his willingness to express his own feelings into his songs (whereas Paul McCartney prefers to create abstract stories), his rebellious spirit and his humanity are the characteristics which make him so loved, as a human being as much as for his music.
Elton John composed a wonderful eulogy to his good friend, which captures the essence of the man and our sense of loss:
And finally, since Christmas is around the corner, here is John Lennon's eternal Christmas wish for love and peace in our hearts and around the world:
Filme. Fui ver Dos Homens e dos Deuses, já comentado magistralmente aqui no Adeus... pela Maria Zarco (6 de Dezembro).Gostei muito e recomendo que seja visto, se não no cinema, talvez mais tarde em vídeo.Não me alongarei em comentários que seriam redundantes face ao que já aqui se publicou. Talvez resumisse o que me ficou na alma através de duas citações – uma do filme e a outra de um amigo, esta última proferida em circunstâncias diferentes. Num dos diálogos entre Christian e o monge-médico, com o ataque que se pressente muito próximo, este diz-lhe com uma tranquilidade cheia de confiança: estou preparado para morrer; sou um homem livre.Agora mesmo, ao escrever este post, e recordando o filme,veio-me à memória algo que me disse um amigo e que, embora num outro contexto, é totalmente replicável para o filme: é difícil resistir-se a quem gosta muito de nós. Dos Homens e dos Deuses fala de fé, de entrega, de paz, de próximo, de vários alguénsque perderam a vida para ganhar o mundo inteiro. Fala, sobretudo, de Amor. E a esse Amor resiste-se com dificuldade.
Lugares-comuns. Quase todos os dias a vida me brinda com o reforço desta certeza tão lapaliciana: a inteligência não é uma virtude, a falta dela não tem de ser um defeito.
Wikileaks. Saem notícias a conta-gotas relativamente ao nosso estimado país: disponibilidades banqueiras para espiolhar a finança iraniana, a necessidade de acarinhar o ministro Amado, comentários vários sobre os nossos políticos desinteressantes – alguns deles dinossáuricos -, observações incómodas sobre a visão da diplomacia quanto ao caso Maddie. Estamos no domínio dos assuntos públicos, pelo que estou resguardado. Temo, no entanto, que quando se esgotarem estes temas - ou se calçarem uns sapatos de betão ao senhor Assange - entrem pela devassa privada, pelo que faço, desde já, a minha confissão pública: beijei uma menor num vão de escada e havia pessoas ao lado a assistir. Para esvaziar uma potencial acusação de convite ao voyeurismo com quem não tinha a idade mínima, alego em minha defesa: éramos ambos menores e ela era profundamente feia. Estou perdoado?
Igreja. Já o devo ter dito aqui: até ao fatídico ano de 2001, a minha vida espiritual tinha o brilho das coisas baças. Limitava-me a respeitar os Domingos e dias santos de guarda (parece-me que a fórmula era esta) e pouco mais. Quando começou o vendaval, algo interno me levou a estar atento às homilias e às leituras.Por vezes era agarrado por uma frase apenas, um pensamento simples, uma luz diferente que se derramava sobre algo rotineiro. Era o bastante, e tentei passar este desafio a outras pessoas: fixar um conceito, uma ideia, um alinhamento de poucas palavras que eu sentisse serem ditas ou terem sido escritas exclusivamente para mim. De repente, tudo à minha volta ganhou um estatuto de diminuta importância: a incoerência entre o que os outros dizem e fazem, as pessoas que vão para ver e ser vistas, as mãos que se batem no peito próprio quando lá fora batem na vida alheia. Mesmo no meio de uma multidão, mesmo sentado por trás do crucifixo que ladeia o altar, sentir que Aquele olhar se voltava para mim era uma alegria imensa. Presunção ou conforto?
Música. Apenas nove minutos e seis segundos. Depois podem regressar ao que estavam a fazer que, estou certo, era infinitamente menos inspirador.
Volto de uns dias fora de Lisboa, passados numa Vila onde a maioria das pessoas se conhece pelo nome, pelo que facilmente se imagina a dimensão e o número de pessoas do local. Gostava de partilhar dois pensamentos sobre o tempo que lá passei.
Pensamento #1
Acabo de almoçar e vou ao café, três portas ao lado. 'Churrasqueira Xico: comida take-away', anuncia uma faixa em letras grandes e orgulhosas. Sentados na esplanada estão dois senhores de alguma idade a olharem atentamente, quais falcões em busca da presa, para uma estrada deserta.
Entro e sou atendido pelo homem, atrevo-me até a dizer a lenda, que dá o nome ao estabelecimento. O Xico apresenta-se sorridente, com uma t-shirt que realça (e deixa um pouco a descoberto) uma barriga que chega a qualquer lado com alguns segundos de avanço. A testa está ligeiramente lustrosa e os cabelos de lado molhados. Enquanto os mecânicos comprovam, com as manchas de óleo, que estiveram a trabalhar num carro, os donos das churrasqueiras apresentam o suor como prova do calor das frituras.
Depois da conversa 'então, tudo bem?' inicial, faço o meu pedido. Era um café cheio e um copo d'água, se faz favor. Agora vai ter de esperar um bocadinho, que está na hora do meu, responde-me o Xico, enquanto se senta. Bebe o seu café, fuma o seu cigarro, conversa com o companheiro de mesa sobre cheiros. O tema pareceu-me apelativo, mas infelizmente não consegui ouvir o conteúdo da discussão.
Passados dez minutos, depois de ter bebido, fumado e espreguiçado, dirige-se calmamente para dentro. Põe o chapéu de cozinheiro com muito cuidado, fazendo lembrar os preparativos dos cirurgiões antes de entrarem no bloco operatório. Depois dessa cerimónia, lá atende o meu pedido.
Isto sim!, é o verdadeiro café (no sentido de local, não da bebida). Não são cá esses estabelecimentos que a maioria das pessoas costuma frequentar, onde são servidas logo que se sentam.
Acabei por lá voltar antes de me ir embora, mas desta vez depois de uma análise cuidada das horas. Não queria interromper nenhum ritual pós-jantar ou a novela da noite.
Pensamento #2
Durante estes dias aproveitei para ler. Adorava dizer que devorei um enorme carregamento de livros, mas o pouco tempo em que lá estive deu apenas para um. "Aprender a rezar na Era da Técnica", do Gonçalo M. Tavares, que recomendo vivamente.
Como disse na introdução, a Vila é muito pequena, com pouca gente, por isso presume-se que também com muito silêncio. Mas não é isso que se verifica. A vista da casa onde fiquei é aberta e desafogada sobre o rio, mas tem algo deste género que perturba o equilíbrio. E o barulho que faz é tão agressivo / incomodativo como a imagem.
É por isto que nestes dois dias em que lá estive faria muito mais sentido se o livro se chamasse "Aprender o silêncio na Era da Técnica".
Fazendo a contabilidade de algumas “ coincidências “ que ocorreram durante a governação Socrates, chega-se a alguns factos:
. Armando Vara, que começou a carreira como balconista da CGD, salvo erro em Vinhais, filia-se na JS, é candidato a deputado nas listas socialistas em 1987 e chega a ministro em 1999. Depois de envolvido no escândalo da Fundação da prevenção rodoviária, é forçado a demitir-se pelo Presidente Sampaio. Encontrando-se na situação de desempregado, é contratado para integrar o conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos durante o consulado de Carlos Santos Ferreira.
Depois de sucessivas quedas do CA do BCP, o Partido Socialista toma de assalto o banco fundado por Jardim Gonçalves e, em lista única, consegue a eleição do “ seu “ Conselho para o BCP, encabeçado por Santos Ferreira e Vara. Tratou-se do maior acto de politização de um grupo económico depois do PREC.
Em meados de 2009, quando começa a descrever as escutas do processo Face Oculta, o semanário Sol (que tem o BCP na estrutura accionista) começa a sofrer discriminações na publicidade encomendada por empresas públicas. Foram, certamente, tudo coincidências.
. Manuela Moura Guedes (TVI), Mário Crespo (JN), José Manuel Fernandes (Público), João Miguel Tavares (CM), Marcelo Rebelo de Sousa (TVI). Todas estas personalidades, que ocupavam um espaço na comunicação social, e todos opositores de Socrates, abandonaram os seus postos entre 2009 e 2010. Foram, certamente, tudo coincidências.
O tempo de Advento, é um tempo de preparação. As pessoas ficam mais solidárias, surgem movimentos de ajuda por todo o lado, damos gorjetas maiores ou passamos a dar gorjetas a quem nunca demos, o 'pobrezinho' passou, de repente, a ser meu irmão, as noites enchem-se de luzes, os rostos de sorrisos, os corações enchem-se de compaixão, ouvem-se cânticos natalícios, as casas enfeitam-se, as lojas vendem, as pessoas pululam, os centros comerciais transbordam ….. e quê?
Dou comigo a pensar: preparação para quê?
Quando se fala em preparação, em qualquer circunstância, pressupõe-se uma ante-acção, uma ante-visão de algo que se vai concretizar. Tal como a palavra insinua, pressupõe uma pré-paragem, na qual possamos analisar os prós e os contras, o activo e o passivo, as ferramentas de que dispomos, para que então possamos avançar.
Também o Advento deveria ser o tempo de preparação espiritual para o novo ano que vai entrar. Mas, ao invés, dá-me a sensação de que a preparação tornou-se um fim em si mesma; somos todos muito cristãos durante o mês de Dezembro e depois, nos outros 11 meses, quépasa? Onde andam os nossos corações, para onde olham os nossos olhos, com quem nos preocupamos, que esforço fazemos para ir mais além ? Desculpem lá este desabafo. Hoje estou um bocado sarcástica, mas confesso que não lido bem com estes (alguns) “falsos” beneméritos … onde eu própria também me encaixo, não pensem que não! Claro que todas estas acções, todos estes gestos sazonais são importantes, até porque é Natal e Natal é tempo de alegria. Mas não nos deixemos ficar pela preparação, passemos também à acção durante o resto do ano. Advento é abrir o coração e deixar que Cristo lá ponha uma semente que germine ao longo do ano.
Domingo, Se Fores à Missa …….. Lembra-te Que o Ano Tem 12 Meses !
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus
Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele». Palavra da salvação.
Não sei nada de desporto, não pratico desporto, mas apetece-me falar de desporto; deve ser por causa dos políticos, que não sabem de política mas vão para a política. Preocupo-me, sim, com a língua portuguesa tão maltratada pelos comentadores.
Num jogo Sporting / Guimarães, um jogador do Sporting foi expulso; passado pouco tempo, ouço o comentador dizer que o Guimarães estava a jogar com mais um jogador. Fiquei perplexo! Seria possível estarem 12 jogadores em campo? Depois percebi; o que ele queria dizer era que o Sporting estava com menos um jogador.
Golos provenientes de lances de bola parada
Já me referi a linguagens bizarras dos comentadores de futebol; acho estranho golos provenientes de bola parada; não estou a ver a bola parada e a baliza a sair do seu lugar e vir abraçar a bola. No começo (ou recomeço) de qualquer jogo a bola está sempre parada. Já tem acontecido começar um jogo e, cinco segundos passados, haver um golo; é considerado golo proveniente de bola parada?
Projecto de novo desporto olímpico
Os concorrentes atiram o dardo, o martelo ou o disco, e, imediatamente correm atrás do objecto lançado tentando agarra-lo antes de cair; o que ficar mais perto ganha. Se algum concorrente consegui apanhar o objecto lançado, ganha as 3 medalhas. Este desporto tem a vantagem de os atletas não ficarem aos saltinhos, num pé só, em desequilíbrio, tentando não pisar o risco.
NOTA: eu percebo os comentadores; assim eles percebam o que eu quero dizer.
Achei este texto tão bonito que não resisto a publicá-lo. Não é da minha autoria - I wish! - mas isso não constitui um problema num blogue aberto e eclético como este. Por isso leiam, se quiserem, e deixem-se embalar pela Sonata de Outono do Padre Tolentino de Mendonça e pela extraordinária Dinah Washington.
Sonata de Outono
E o Outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas árvores, as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em incríveis tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes daqueles que se saboreiam no verão.
Lembro-me de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como uma pequena sonata de Outono:
O que é bonito neste mundo e anima / é ver que na vindima / de cada sonho / fica a cepa a sonhar outra aventura... / E que a doçura que se não prova / se transfigura / numa doçura / muito mais pura / e muito mais nova
Neste arranque de Outono, deixo-me demorar nas palavras: "a doçura que se não prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de muitas pessoas, sei que esta não é uma questão que se possa iludir. Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida em que nos sentimos mendigos de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu.
Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tectos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um romance autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde de mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso se diz que não dependem propriamente da idade os Outonos interiores que atravessamos.
Existem é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo, nos é tão intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse é o olhar mais necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se transfigura numa doçura/muito mais pura/e muito mais nova».
O Outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é sim um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a "transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso trabalho interior.
Dá-nos Senhor, neste Advento, a coragem dos recomeços. Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi: dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é. Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história, pois a priva de surpresa e de esperança. Torna-nos atónitos como os seres que florescem. Torna-nos inacabados como quem deseja. Torna-nos atentos como quem cuida. Torna-nos confiantes como os que se atrevem a olhar tudo, e a si mesmos, de novo pela primeira vez.
[Recebido há pouco por correio electrónico vindo de mão amiga]
(Desenho: Rui Aleixo Texto: José Tolentino Mendonça)
Hoje. Corria o ano de 1646. Nas cortes celebradas em Lisboa, D. João IV declarava a Virgem Nossa Senhora da Conceição Padroeira do Reino de Portugal, prometendo-lhe, em seu nome e no dos seus sucessores, o tributo anual de 50 cruzados de ouro. Agradecendo à Virgem a especial protecção dispensada na nossa luta pela independência, ofereceu-lhe a coroa real que, desde essa data, mais nenhum rei ou rainha de Portugal usaram. Prometeu ainda, solenemente, “tomar por Padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, (...) confessar e defender, até dar a vida, sendo necessário, que a Virgem Senhora Mãe de Deus foi concebida sem pecado original...”.
Do Evangelho de hoje. Maria disse então: "Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."
Ontem. Bênção dos presépios, enquadrada numa noite de oração. Retomo um tema: há um desafio – talvez não tão óbvio – em pertencer-se à Igreja (melhor: de ser-se igreja) numa paróquia com elevados índices de riqueza, escolaridade, cultura, lado a lado com uma pobreza que vai desaparecendo de uma forma mais óbvia, mas que subsiste. Olhava à minha volta. A tentação de se descortinar a hipocrisia em quem nos rodeia é fácil: jovens aparentemente em êxtase, gente de meia idade com um ar devoto, caras serenas de quem sente uma proximidade própria com o altíssimo. Por trás desta imagem de (im)perfeição humana, há seres ostensivamente egoístas, incongruentes, pouco atentos ao próprio, com uma língua viperina e fácil. A irritação com esta falsidade é fácil e escancara-nos a porta. Como nos impedimos de a franquear? A certeza metafórica de que a igreja é como um ginásio: vamos para estar em forma, não porque estamos em forma. Há ainda a sabedoria popular: cada um sabe de si, Deus sabe de todos. E sobra a pergunta para prémio gordo: sou melhor do que os outros?
Ontem ainda.O prior percorre o corredor central da igreja benzendo os presépios ou imagens que cada um trouxe. Quase a assomar ao altar, já no regresso, apercebo-me de uma senhora provinda de um local mais recuado na ala lateral, e que agita os pés como quem peregrina apressadamente. Estende o seu presépio até ao limite do tamanho dos braços e percebo-lhe a angústia. No local onde estava, nenhum pingo de água benta humectou as suas mãos nervosas ou o Menino na sua manjedoura, pelo que, em bom rigor, não sentiu a bênção. Imagino-lhe o pedido: o senhor prior importa-se de agitar o hissope com mais energia?Quer que lhe ateste a caldeirinha?
De hoje, mas há 30 anos. John Lennon seria assassinado no dia de hoje, mas em 1980. Quis postar, da discografia dos Beatles, uma das músicas de que mais gosto: while my guitar gently weeps. Certo da dúvida sistemática, ligo ao meu filho que profere a resposta demolidora: George Harrison. Numa conversa (a dele) de amigos (também dele) interrompida para minudências, duas palavras de um jovem deitam por terra as poucas ilusões que tinha quanto à minha cultura. Num assomo de magnanimidade e compaixão com que muitos olham os indigentes, sugeriu-me esta música:
A maioria das crianças são todas iguais no que toca a jogos. Eles brincam com carros, pistolas, aos índios contra cowboys, polícias e ladrões. Elas brincam com serviços de chá de plástico, bonecas e vestidos, aos pais e às mães. Neste aspecto, são pouco originais.
Mas existe uma minoria. Esses sim, são diferentes. Lembro-me de um professor contar que, aos 13 anos, construíra um foguetão às escondidas dos pais e fugira de casa para o lançar na praia. Aos 13 anos, o meu expoente máximo no campo da engenharia era fazer torradas.
Existe também o caso de um senhor chamado Daniel Barenboim. Não sei ao certo a sua história, mas vou tomar a liberdade de criar um cenário hipotético.
A criança Barenboim nasceu e cresceu. O primeiro brinquedo que pediu aos pais foi um piano. E os pais puseram-lhe à disposição uma pianola velha, desafinada e suja. Ao contrário da maioria das crianças que, quando se deparam com um piano, o martelam com uma cara mais furiosa que curiosa, o pequeno Daniel tocava nas teclas uma a uma, e ficava a olhar para o ar, escutando o som que ia saindo.
Aprendeu a tocar e, eventualmente, percebeu que só um piano não lhe chegava. Decidiu enveredar pela carreira de maestro. Assim podia brincar com dezenas de instrumentos ao mesmo tempo! Foi evoluindo na carreira até chegar à Orquestra Filarmónica de Berlim.
E com este brinquedo, todas as brincadeiras com que sonhara durante a vida tornaram-se possíveis. Era maestro da orquestra. Depois de ensaiar os espectáculos obrigatórios podia fazer o que lhe apetecesse. Isto é o equivalente a um piloto que acaba por chegar à Ferrari, na Fórmula 1, mas cujo divertimento não se esgota nos circuitos. Depois das corridas e dos contra-relógios pode levar o carro para casa para continuar a andar nele.
Esta abordagem de brincadeira que o pequeno Daniel tinha em relação à música transportou-a até ser o ancião Daniel, já de cabelos brancos e idade respeitável. E deu-nos pérolas como as seguintes:
É sabido que entre a legião de milhares de leitores do blogue, talvez mesmo milhões, está a nata dos intelectuais e artistas, tanto a nível nacional como internacional. Há, por isso, uma forte possibilidade do próprio ler as três linhas que escrevi sobre ele. Se não gostar, então perdón Maestro!
Depois de tanto já ter sito dito sobre o filme DOS HOMENS E DOS DEUSES(1), maximamente interpelativo e merecidamente premiado (candidato a Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011), vou deter-me numa ária da espantosa banda sonora e, a partir daí, desfiar um pouco a trama de vidas apanhadas nos agitados anos 90 da guerra civil argelina, sem quebrar o suspense.
No momento clímax da película há duas novas personagens presentes num jantar histórico e derradeiro, no mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, onde se cruzam todas as cumplicidades. Ali convergem os esforços de sobrevivência dos religiosos franceses. Ali se corrobora, pela amizade profunda que dispensa palavras, a decisão individual mas comum a todos, partindo de pontos tão distintos quanto as suas diferentíssimas personalidades. A perseguição fora-se adensando! Vivia-se, literalmente, ao fio da espada. De uma espada sedenta de sangue. As sortes pareciam estar lançadas…
Mas, estranhamente, não há nada de negativo nem de estéril na forma como vivem o cerco que se vai cerrando à sua volta. Um cerco a que não se esquivam por máxima generosidade pessoal ao pedido da pequena aldeia muçulmana, que se sentia protegida pela fé bondosa que irradiava do mosteiro. Sim, não há a mais leve apologia do martírio ou alguma vaga decepção com a vida, género capitulação passiva. Até nisso, é de uma grandeza incrivelmente saudável!
O monge-médico com os seus amigos doentes
Nessa última ceia, uma das duas novas personagens é o monge itinerante (talvez um dos superiores daquela ordem francesa(2)), que furara as várias barreiras militares ao longo do caminho, esgueirando-se até ao mosteiro incrustado nos contrafortes do Atlas argelino. Vem carregado de presentes, em boa verdade destinados, sobretudo, aos aldeãos paupérrimos que os monges cuidavam.
A segunda personagem, à Victor Hugo, é a célebre ária do Lago dos Cisnes, prenunciadora do final de um conto que Tchaikovsky escrevera e compusera para a sua irmã mais nova, inicialmente com happy-end. Só depois da morte do compositor, a peça musical –ainda pouco reconhecida pelo público– adquiriu um desfecho negativo, tornando-se de imediato um êxito de bilheteira. E foi na versão negra que entrou para a história das grandes composições orquestrais para ballet, somando duas expressões artísticas onde os russos são magistrais.
Curiosamente, a metamorfose do Lago dos Cisne – sonhada para ser uma narrativa infantil benigna e q.b. aventurosa, onde tudo deslizaria em sonoridades diáfanas– de algum modo, parece ter-se tornado a própria metáfora da vida dos monges radicados no Magrebe profundo. À obra musical houvera a intenção expressa de conferir dramaticidade, aproximando-a da vida. Esse o motivo por que se introduziu uma nota discordante e de repercussões indomáveis no curso da história, convertendo-a em tragédia.
Para os monges houvera apenas a intenção de corresponder ao papel que os vizinhos de Tibhirine lhes atribuíam, enquanto guardiães da aldeia, o ramo onde eles (aldeões) podiam pousar, com confiança, no dizer de uma local… Sempre reinara a paz e a amizade com a comunidade islâmica, que tinha crescido graças ao mosteiro. A nota discordante fora introduzida por elementos estranhos à aldeia, que grassam na desordem, dominam pelo terrore são insaciáveis a reclamar sangue… alheio, claro! De preferência, dos mais frágeis, dos desarmados. As suas reivindicações vêm sempre mascaradas de justiça, embora redundem numa farsa para branqueamento de imagem perante terceiros, a quem um dia poderão ter de prestar contas. Sim, quase sempre estas hostes de desordeiros cruéis planeiam o futuro ao milímetro (à sua maneira) e são mais calculistas do que uma certa imagem de idealistas espontâneos possa fazer crer… Ainda assim, são memoráveis alguns dos diálogos entre os guerrilheiros e os monges, num dos raids ao mosteiro, onde o superior demonstrou uma dignidade heróica, sem se deixar intimidar pela lei da bala. E isso permitiu uma conversa muito autêntica, que sensibilizou um coração até ali entorpecido pela supremacia da pólvora mortífera.
O monge Christian C. e um dos terroristas
É espantosa a mensagem deixada escrita pelo superior do mosteiro (Christian de Chérgé, a assinar em árabe!) pedindo às gerações vindouras para reconhecerem a inocência do povo argelino – que os monges tanto amam – e do próprio islamismo, no crime que os espreita. Até aos assassinos irá perdoar por antecipação!
No filme, o Lago dos Cisnes como que entra em cena a par de duas garrafas de vinho para, em conjunto, abrilhantarem a festa. Foram pousadas, suavemente, na longa mesa conventual pelo monge-médico: um bondoso velhinho, cheio de salero, que não hesitava em descompor os terroristas, mas brincava com as crianças e era incansavelmente meigo com os doentes desvalidos que acorriam ao seu consultório como à casa de um avô sábio.
O brinde decorre com sobriedade, em ambiente de imensa alegria e fraternidade, também regada com lágrimas, comovidos pelo pressentimento da hora que festejam por inteiro, em jeito de hino à Vida, sem negar tudo o que ela envolve – morte incluída, como condição incontornável da humanidade. Aclamam a Vida com a mesma grandeza com que acolhem tudo o que lhes toca viver, até mesmo um final injusto e vil. O medo, tão humano, não lhes ensombra aquele momento de máxima união entre os nove, como um grupo de alpinistas a partilhar a conquista do cume, em grupo! Um feito desbravado através da amizade e da entreajuda.
Significativamente, um dos títulos de um artigo sobre o filme realçava: «A beleza do humano». A mim, ocorre-me dizer: Dos homens que viraram deuses. Porque ficam tingidos de divindade todos quantos entregam a sua vida em favor dos pobres, que imploraram a sua presença… até ao último respiro. Os monges não conseguiram faltar-lhes. Sempre tinham aceite os convites dos seus amigos muçulmanos: para as festas locais, para a partilha do dia-a-dia, proporcionando óptimas conversas, simplesmente para serem um com eles. Deixara de haver espaço para recusar partilhar – em igualdade de circunstâncias com os mais frágeis – o tsunami devastador que ia alastrando pela região.
Sabemos, nos últimos minutos do filme, que dois monges sobreviveram, tendo assim podido assegurar maior fiabilidade às imagens sobre a realidade monástica e a guerrilha.
Testemunhos sobre o filme:
- Do próprio realizador, Xavier Beauvois, que se auto-descreve como um não-crente em busca: «Estou a envelhecer. Reflicto sobre o sentido da vida. Este projecto chegou em boa altura. Documentei-me muito sobre eles, tentei saber quem eles eram. Ao descobri-los fui ficando seduzido, apaixonado por eles. E em seguida toda a equipa, de actores a técnicos, viveu estes mesmos sentimentos… Dantes pensava que nada podia ser mudado, os irmãos de Tibhirine ensinaram-me que não é assim.»
- Do actor que interpreta Christian no filme, Lambert Wilson: «A simplicidade é um dom… Creio que a simplicidade e a santidade são uma e a mesma coisa. Uma coisa é certa: Tibhirine era um local de simplicidade!»
- De Jean-Marie Rouard, membro da Academia Francesa, ao Paris Match (30.Set.2010): «É como se os monges nos tivessem despertado de um sono prolongado. Como se a sua morte nos fizesse pressentir a existência de uma outra vida... Estes monges de um convento do Atlas argelino abriram(-nos), de repente, uma porta para um infinito que ninguém supunha possível… aumentaram aquele capital anímico sem o qual a humanidade se arrisca a asfixiar. Graças a eles podemos voltar a respirar. Legaram-nos um bem sumamente precioso: a sua esperança.»
Elenco:Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach
Fotografia: Caroline ChampetierSom: Jean-Jacques Ferran e Éric Bonnard Montagem: Marie-Julie MailleProdução: Why Not Productions e Armada Films Duração:2h02Origem: França.
Distribuidor em Portugal:ZON Lusomundo.
NOTA SOBRE A HISTÓRIA – os factos ali reportados respeitam à guerra civil dos anos 90, na Argélia, que opôs as tropas do governo a grupo islâmicos fundamentalistas.
Presença em festivais: - Festival de Cinema de Cannes (2010) – Grande Prémio - Festival de Cinema de Munique (2010) - Festival de Cinema de Karlovy Vary (2010)
Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de católico.
O texto abaixo fala-nos de conversão. Ontem, na homilia de um casamento a que assisti, ouvi aquilo que me pareceu ser a palavra-chave: acolher. E lembrei-me de uma história dos meus tempos de ministro da comunhão num lar de idosos. Durante meses a fio, o Sr. Fernando, um rádio-amador simpático mas quezilento, dizia-me com uma constância quase teimosa:
- Gostava de ter a sua fé, Sr. João. Mas o facto é que não tenho...
E eu, com uma constância teimosa de sinal contrário, respondia-lhe:
- Mas não feche a porta à fé, Sr. Fernando, que ela um dia pode querer entrar.
Nos últimos tempos da sua permanência naquele lar, o Sr. Fernando, quando me ouvia entrar, descia as escadas quase de escantilhão para ouvir o evangelho, escutar meia dúzia de palavras a seguir - e comungar como tantos outros ao lado dele. Ao fim de alguns meses, o Sr. Fernando tinha acolhido.
Quando falamos de conversão não nos referimos à conversão a uma religião qualquer - a não ser a religião do Amor. Quando falamos de conversão falamos de mudança do nosso íntimo, da nossa maneira de ser, da forma como olhamos o nosso próximo, como estendemos a mão a quem mais precisa, como olhamos na direcção dos mais necessitados; falamos da forma como erradicamos o orgulho da nossa maneira de pensar e agir, como perdoamos e pedimos perdão, como usamos de forma elevada expressões como compaixão e caridade.
Mais do que a expressão bonita Ama e faz o que quiseres (usada pela última vez neste blogue pela mão da PCP) gosto da expressão O amor vence tudo. E esta palavra amor - usada de modo superior em ambas as frases, é o desafio último da nossa caminhada. Um Amor total e radical.
Passarei o dia de hoje com a palavra acolher na mente. A ver vamos o que consigo mudar dentro de mim.
Bom Domingo para quem me lê.
JdB
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
Ernâni Lopes. Morreu esta semana, e não me espraio (mais) nos elogios merecidos com que o país o brindou. Prefiro lembrar uma palestra proferida pelo ex-ministro, talvez em 2006, na empresa onde eu trabalhava na altura. Perante uma audiência de algumas dezenas de quadros médios e superiores, o economista falou durante duas horas, talvez. Quem visita este espaço e também esteve presente corrigir-me-á se eu estiver enganado. O facto é que não me lembro de ter ouvido falar de números, não recordo ter visto tabelas ou gráficos. Durante duas horas Ernâni Lopes falou, ao nível mais elevado, de ética, de motivação, de correcção nos negócios, de caminhos possíveis, sem falar de taxas de juro, inflação, indicadores macro-económicos. Já no fim - e percebendo-se a doença que o atacava - disse mais ou menos o seguinte: olho para as minhas filhas, para os valores que transmitirão a quem vier depois delas e percebo que fiz o meu trabalho e que posso ir-me embora. Já só faço rendilhados...
Funchal (I).Há uma semana estava no Funchal. Fui conhecer o núcleo da Acreditar, aproveitando um fim de semana de turismo. Estive com Pais no hospital de dia, pais esses que perderam filhos e que voltaram àquele espaço pela segunda vez desde os tempos fatídicos. Conviver com uma associação que lida com crianças que passaram pelo cancro depois da doença nos ter levado as nossas é tarefa árdua. Para uns é uma espécie de redenção, para outros é dose demasiada.
Funchal (II). Fui Domingo, primeiro do Advento, à missa na Sé do Funchal. Alguns minutos antes uma senhora devota ensaia, ao órgão, as músicas que acompanharão a liturgia. Dos fiéis, apenas um se presta ao sacrifício. A organista lamenta: a minha voz não estava muito boa, talvez possamos repetir. O fiel emudece compreensívelmente... Estou um pouco surdo e o padre era madeirense. Prefiro reconhecer ambos os factores a pensar que, na homilia, o sacerdote mencionou o advento como um tempo de mortificação. Talvez ele tivesse dito purificação e a surdez me atraiçoasse. Ou talvez tivesse ouvido os minutos de ensaio. Estou impertinente mas continuo com uma fé inabalável. Será a hérnia discal que me está a perturbar?
Televisão. Deitei-me a fazer zapping - actividade recomendada pelo médico para evitar a paralisação precoce do polegar - e um dos canais, que sempre me pareceu apresentar programas científicos, falava de rabos (há uma expressão mais bonita?): formas, representação artística, tipos, etc. Algumas imagens roçavam uma espécie de pornografia dos anos vinte. Saí e fui comer um bodião devidamente escalado com milho frito e batata doce (infelizmente não havia vaginhas...). Regressei passado hora e meia e retomei o zapping, porque a actividade do polegar é por demais importante. Voltei a ver os rabos, as nádegas, a pornografia ao som do charleston... Alguém me explica o que se está a passar e que me tenha falhado?
Música. Há alguns anos passou nos cinemas o filme Os Coristas (teria preferido a tradução Os Coralistas mas penso ser demasiado neologista...). Quem viu o filme fixou, seguramente, a beleza da história. Fica aqui um trecho musical para deleite de alguns e indiferença de outros...