29 setembro 2008

Cartas à minha madrinha

Madrinha, adorada madrinha,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.

Escrevo-lhe hoje sobre fusões. Sim, querida madrinha, adivinho-lhe o ar de espanto com pinceladas de indignação

O menino está doido? Quer matar-me? Acha que me interessam essas minudências do mundo dos negócios? Sou de um tempo em que não se falava de dinheiro. Ou se tinha, ou não se tinha. Mas não era tema de conversa.

Descanse, madrinha e tome o seu chá. Esta fusão é especial, tem contornos vinícolas e abrange, em simultâneo, países e pessoas. Quando chegar ao fim dir-me-á de sua justiça.

Sabemos bem, porque vem nos livros, que numa fusão a expressão todos é algo de vago e potencialmente equívoco. Na realidade, numa operação desse género, há o nós e o eles, sendo que estes são os fracos e aqueles os fortes. Só na teoria, no imaginário fantasista, enganoso e charlatão do mais forte é que se poderão desenhar contornos de todos felizes, todos mais fortes, todos entusiasmados. Nas empresas, nas companhias, é assim que se passa. Todos se querem fundir uns com os outros, porque acreditam nas fábulas que garantem que unidos venceremos. Ora essa frase poderá não ser mais do que o nome de uma escola de samba. A verdade nua e crua é que há uns que saem fundidos pelos outros.

Pessoa sábia e diplomata, com berço em terras estranhas à nossa, garantiu que tudo isto se passou com as duas alemanhas aquando da reunificação. Em nome da língua comum, do deustschland über alles, quiseram juntar-se, crescer, dominar aquela facção de mundo que as estimula. Mas a verdade é que o oeste fundiu o leste. Segue-me madrinha?

Fui convidado para mais um wine tasting, desta vez em casa de diplomata teutónico, que oferecia aos seus convivas produtos vinícolas alemães, todos brancos (havia, naquele repasto, uma clara supremacia branca, sem que ninguém se tivesse apercebido desse pormenor) produzidos pela sua família com o amor legítimo de algumas gerações. Poupo-a, madrinha, aos pormenores do processo em si. Já sabe que começo a confundir aromas, que as minhas papilas gustativas estão de rastos, que irei pedir um transplante de nariz porque não me posso pavonear pelos salões mais nobres com um emplastro nasal claramente cirrótico e que ri em permanência dados os eflúvios aspirados em profusões obscenas.

Foi um exercício interessante mas, antes de continuar para a temática das fusões e aquisições, queria relembrar com ternura a forma como um diplomata presente, claramente comovido pelo riesling e pelo mosel, se despediu calorosamente de mim, na minha língua pátria. Apertou-me ambas as mãos, olhou-me nos olhos com a franqueza dos puros e disse-me: estamos juntos. Vim a saber que tinha estado em Angola, o que explicará muita coisa, ainda que não tudo.

O diplomata anfitrião é um homem da noite, habituado a circular pela escuridão do basfonds com mulheres elegantes – que não a sua. Tem, na infidelidade, uma visão democrática da vida, não seguindo os ditames do famigerado ku klux klan. Chega ao seu castelo, uma casa elegante em Harare com laivos de portuguesismo algarvio, e a feliz coabitação dos povos remete-se para a garagem. Em casa ele é o Oeste e ela é o Leste. Segue-me, madrinha? Ele é do lado que fundiu o outro, e, no remanso do lar, do idílio amoroso que se imagina portas adentro, não há reunificação, porque se juntam duas alemanhas que estavam separadas pelo muro.

Ela não é a ingrid que eu imaginei há algumas semanas, embrulhada de formas volumosas num palheiro com cheiro a feno. Ela é uma rapariga elegante porém frágil, bonita porém potencialmente triste. O marido é ocidental, ela cresceu a falar russo, em Leipzig. Num gesto de anfitriã cordial para com este que lhe assina a carta, conversou comigo sobre a sua música, a minha estadia, o tecto da casa que lhe lembra uma igreja, os filhos pequenos que lhe ocupam tempo e que a vedam do piano, onde tocaria Bach com um ar melancólico. Ao jantar deu-me a graça da sua direita, e conversámos sobre os caminhos do mundo, sobre o after taste, o tanino e o xisto; circulámos pela Beira, pela geografia das estradas, pelas velocidades elevadas que a assustam, pelo Índico que a fascina. Falámos de Siracusa a propósito do teorema de Pitágoras. O marido, todo ele informação vinícola e olhar de águia para a jovem esposa, não se terá apercebido de que a sensualidade é incompatível com as fórmulas matemáticas e que catetos ao quadrado não conferem erotismo ao diálogo luso – alemão. Adivinha-se o ciúme, vislumbra-se o todos ausente daquela fusão. Há o ocidente que fundiu o leste. A casa dele, no fundo, segue a tendência corporativa. E a jovem esposa, na sua fragilidade, levanta-se, circula mais um riesling, abafa uma saudade naquele seu peitinho de rola adoentada.

Despedi-me de ambos. Ele enlaçava-a pela cintura, num misto de afirmação de propriedade, talvez amor, quem sabe se preparação para mais uma noite tardia, com o cabelo que chega a casa impregnado dos cheiros locais. Ela sorriu, gentil, e vislumbrei-lhe três golpes ligeiros na arcada supraciliar. Gente portuguesa experiente, com quem almocei no dia seguinte, garantiu-me ser moda nas camadas jovens. Mas eu, madrinha, sou mais cauteloso. Adivinho violência doméstica. Na realidade, como sabe, há o nós e o eles. Numa operação financeira deste tipo há sempre alguém que é fundido.

Perdoe-me a lentidão da descrição, a exaustão do pormenor. Mas era importante, para que se enquadrasse.

Abraço-a firme, na certeza da saudade, na esperança do regresso, na comoção do reencontro.

28 setembro 2008

Hoje é Domingo, mas...

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Se as prioridades estão definidas tão quanto possível na minha cabeça, o facto é que a logística das coisas nem sempre permite o alinhamento perfeito. Assim, a minha crónica domingueira normal foi sabotada por programação mais ligeira, numa dimensão de importância diferente.

Dentro de momentos a Bunny, uma enóloga elegante filha de uma Rodésia que ainda não desapareceu, virá buscar-me para mais um wine tasting envolvendo, desta vez, uma visita a uma vinha. Comecei o fim de semana com actividade semelhante na residência do número 2 da embaixada alemã (crónica a sair brevemente). Hoje mais uma...

Confesso, queridos leitores, que o meu nariz está pré-cirrótico. As minhas papilas gustativas estão num frenesi identificador de aromas. Os meus olhos estrabizam-se na demanda obsessiva das cores, das transparências. No disco rígido - de pouca capacidade, reconheço... - tudo se confunde: o shiraz com o pinotage, o riesling com o monte da ravasqueira, o mosel com o cheiro a citrinos, a África do Sul com a Alemanha, a ciência dos vinhos com a Ingrid que, ao meu lado, se ria em alemão com o teorema de Pitágoras em versão viagem à Beira.

Saio de cá um homem mais rico de cultura, de contactos amigáveis, de conhecimento do mundo. Saio, também, um enólogo, um escanção, um expert em vinhos - tudo em versão aspirada. Não li um folheto, não assisti a uma análise química. Identifico o feno e o petróleo nos vinhos, sei distintamente a que cheira o sulfito. Entrou-me toda esta sapiência pelo nariz, sairá ao menor espirro outonal.

Tenho a enóloga à espera no seu mercedes automático, metalizado, elegante, de última geração. Gostava muito de me quedar convosco nesta charla, but first things first.

Adeus, até ao meu regresso... Espera-se que sóbrio.

27 setembro 2008

ABC da contagem decrescente - chego de hoje a uma semana

Pessoal da chancelaria: para além da Manuela Chaby, já referida, merecem um destaque especial as duas outras colaboradoras da chancelaria: a Bela e a Cristina. Foram sempre de uma extrema amabilidade comigo, resolvendo problemas de voos ou de viagens com um sorriso e uma disponibilidade que me apraz registar. Last, but no the least, uma palavra para o Carlos Antunes, nº 2 da embaixada e que larga o lugar no dia em que sai este post. O Carlos foi um excelente companheiro de noitadas - no karaoke, na boite congolesa, no night-club Monaco e é um manancial de informação sobre Harare by night.

Pessoal da residência: é da mais elementar justiça destacar também o Vice e o Joe, o cozinheiro João - responsável por tantas iguarias -, o motorista Moffat e o jardineiro David. Levo comigo a educação e a simpatia, para além de outras mordomias de que fui beneficiário.

Portugueses - encontrei aqui meia dúzia de portugueses que me fizeram o gosto de convidar para as suas casas, me levaram a fazer bons negócios, me honraram com a sua simpatia. É uma gente despretensiosa que nos recebe como se fossemos convidados antigos, que se nos dirige sem a formalidade do senhor. Fica a referência à Teresa Chaby (que me oferece favas exactamente hoje) e à sua filha, que abriu portas para a resolução do meu computador e com quem cantei um dueto de karaoke; ao Alberto Correia Mendes e à Ana, que nos brindaram com um almoço tipicamente português e assassino de dietas ajuizadas; ao Toni Simões e à Sílvia, donos do Coimbra, um dos mais afamados restaurantes da capital e onde quererei ir antes de partir. Foi também com o Toni que fiz um bom negócio de esculturas shona, que não mostro porque embarcam hoje mesmo no vapor da madrugada.

Potencialidades. Não sou um visionário, não tenho jeito para o negócio. Mas, estou certo disso, o Zimbabué é um país cheio de potencialidades. Uma terra fértil, com água, uma possibilidade de turismo fora de série, um povo afável, uma capital das mais bonitas de África, segurança que não se compara com outros países vizinhos, uma memória da antiga Rodésia que muitos não querem perder. Tudo está suspenso por questões políticas. Talvez a pacificação abra portas ao investimento, ao desenvolvimento, ao bem-estar da população, à actividade económica.

Quando. É uma boa palavra para tantas interrogações. Quando toma posse o novo governo? Quando começam as novas reformas? Quando é que Robert Mugabe desaparece do cenário político? Quando é que as pessoas começam a ver a luz ao fundo do túnel? Quando é que a inflação desce dos 3500% ao mês? Quando é que há bens de primeira necessidade nos supermercados? Muita gente faz estas perguntas entre conversas, copos de cerveja, jantares animados, refeições difíceis e escassas. A resposta é mais ou menos consensual...

Recepções – Fruto da minha estadia na embaixada, tenho sido convidado para algumas recepções ou jantares mais ou menos diplomáticos. O JdC tem sido criteriosamente perfeito naqueles em que acha que a minha presença faz sentido e naqueles em que acha que não. Algumas pessoas têm sido insistentes na minha presença, o que me honra. Hoje teremos uma festa de aniversário surpresa para a qual também fui invitado. O convite, na forma impressa em papel de qualidade, referia o senhor embaixador de Portugal e madame

Regresso - Quando volta cá?, é uma pergunta que me fazem de quando em quando. A razão diz-me que deveria regressar dentro de três anos, a tempo de apanhar o actual embaixador e usufruir da hospitalidade, a tempo, também, de ver as eventuais mudanças que se produziram nesse país. África é um continente perfeitamente deslumbrante. Ainda na semana passada conheci uma rapariga brasileira que está cá de férias há mais de um ano, e que passou os últimos três meses a viajar sozinha por países vizinhos. Conto ter um texto dela em próximos posts. Hei-de regressar, se Deus quiser e as condições se ajeitarem.

25 setembro 2008

Missa local na Beira





Hoje não é Domingo, mas eu não quero esquecer a minha condição de católico.

Passámos o último fim-de-semana na Beira, e quisemos ir à Missa. Indagámos horas e locais e foi-nos dito, com o espanto de quem vê ignorância injustificada à sua frente, que a cerimónia se realizaria - pois está claro - no Clube de Golfe local, pelas 9 horas da manhã. À hora marcada lá estavamos, tendo realizado o porquê da missa campal: celebravam-se os 20 anos da visita de João Paulo II a Moçambique, em plena guerra civil.

Quem esteve em África, ou passou, mesmo em Portugal, por comunidades africanas, sabe o que é a missa deles: música alegre e ritmada ao som (também) de batuques, danças, cor, despretensão, fé. Já tinha assistido em Harare a uma missa celebrada em shona, o dialecto local maioritário, e apercebi-me disso mesmo, ainda que a cerimónia tivesse tido lugar dentro de uma igreja.

Aqui na Beira, debaixo de umas núvens que nos protegeriam de um sol potencialmente incomodativo, um coro de afinação irrepreensível entoava músicas no dialecto local, fáceis de interiorizar ao fim de alguns segundos - ainda que não percebessemos as palavras, apenas o sentido - agitando-se levemente numa simultaneidade sem desvios.

À frente dos fiéis, um corpo de baile composto por raparigas e senhoras (talvez fossem solteiras e casadas...), com panos tendo imagens alusivas à presença do Papa, ensaiava uma coregrafia perfeita, leve, elegante. Por alturas do Ofertório constituíram ainda um cortejo que levou bens de natureza vária ao altar, situado numa pequena elevação.

Compromissos inadiáveis obrigaram-nos a sair a meio da cerimónia que já ia longa, sobretudo devido à homilia lenta e demorada que se estendeu por mais de 45 minutos. Se todos aqueles que falam para público de qualquer género tivessem um dipositivo indicador do nível de atenção de quem os ouve, talvez algumas coisas fossem mais rápidas.

Saímos do recinto, e eu ainda olhei para trás, para um último relance daquela cerimónia tão invulgar para mim. Um grupo de quatro amigos, semi-isolados da multidão, dançavam alegremente ao som de uma das músicas, enquanto as senhoras se dirigiam ao altar. Ligeiramente ao lado, uma rapaz novo agita-se com um frenesi que acharíamos estranho numa eucaristia.

As missas em Harare - sejam em shona, sejam em inglês - demoram mais de uma hora. Em Portugal, se ultrapassarem os 45 - 50 minutos há comentários menos agradados: homilías arrastadas, coros lentos... Ali já íamos nas duas horas e ninguém saiu. Só nós. Culturas...

ABC da contagem decrescente - faltam 10 dias

Libertação – Há, no exercício da humildade, na eliminação de toxinas nocivas ao nosso relacionamento equilibrado com os outros e na paz de espírito que estabelecemos com o nosso mundo uma dimensão de enorme libertação. Cada um terá o seu método e nenhum é melhor do que o outro – todos são bons desde que conduzam ao fim esperado e não pisem ninguém. Atingir este estado de sossego, de um enfrentar calmo das quezílias que permite desvalorizar algumas coisas também é, para os crentes como eu, dar os primeiros passos na estada que nos levará ao Céu. Depois ainda falta tudo…

Longe – os africanistas já o sabem: aqui parece não haver longe nem distância. Sete horas de carro para ir à Beira – e sete horas que não são de auto-estrada – não parecem ser muito, faz-se num instante. Fazer 1200 km para ir a outro lugar pode ser mais complicado, mas não é nada em que não se possa pensar.

Luz – Desaparece quando menos se espera, quando se está a trabalhar ou a usar a internet, quando se assiste a notícias fascinantes e aditivas da realidade que se vive em Portugal. Aqueles três segundos entre o desaparecimento da rede e o surgimento do gerador são terríveis, obrigam a reiniciar o computador, a televisão. Nada de dramático, mas não estamos habituados a isto na Europa rica e obesa…

Manuela Chaby – um nome recorrente neste blogue, mas não podia ser de outra forma. Profissionalmente haverá quem lhe reconheça a competência. Eu agradeço a disponibilidade permanente, a boa vontade enfeitada com um sorriso, o conhecimento de Harare posto à disposição do que eu precisava, desde o computador à camisola, passando pelos câmbios, pela marcação do corte de cabelo, pela busca de souvenirs, pela excelente companhia em almoços ou jantares de confraternização. Parece haver uma fonte inesgotável de amabilidade e prontidão de resposta.

Mar – estarei dois meses sem ver o mar que me é familiar. Estive no lago Kariba que pela sua dimensão (80 por 120 km) dá a sensação de ser oceano, e tomei banho na Beira, no Índico. Mas não chega – falta-me a visão da Baía de Cascais, o paredão com as caras habituais, a ronca do nevoeiro, o cheiro a maresia, a rotina das marés. Respiro, em Harare, um ar que será bom, até porque a ausência de actividade económica não polui o ambiente. Mas dava-me jeito ver o Atlântico… Talvez dia 6 de Outubro, bem de madrugada.

Mugabe – Camarada Robert Mugabe, o líder deste país à beira da falência. Provavelmente já falido (não ele, o país).

Nada – o produto mais disponível em Harare, no Zimbabué inteiro. Podemos ir a inúmeras lojas, estabelecimentos comerciais de vários tipos. Se perguntarmos o que existe, somos confrontados com a resposta: nada! Perguntar-me-ão como vivem as pessoas com ordenados de 1 dólar americano, com preços elevados, com regras absurdas de limites de levantamento de dinheiro. Os zimbabueanos desenvolveram a técnica do expediente (já o Camões falava na necessidade que aguça o engenho). Têm um expediente para subsistir à falta de comida, de dinheiro, de matéria-prima para alimentar os restaurantes. Tudo se vai conseguindo de uma forma pacífica – e expedita.

Ngomakurira – a montanha sagrada nos arrabaldes de Harare. A visão do pôr-do-sol que aqui retratei (não, não é uma nódoa na imagem…) perdurará no meu pensamento durante muito tempo. Foi um dia cheio de sortilégios: a paz interior que me invadiu ao ser confrontado com toda aquela imensidão, o encanto de uma actividade física estimulante (eu que sou pouco dado a ginásticas), o cruzar-me com uma pessoa que me abriu a porta da ala das crianças com cancro, a descida numa noite escura de lua nova tendo como companhia os meus próprios pensamentos.

Once you taste chocolate you won’t have vanilla anymore.
Once you go black you never come back.

24 setembro 2008

Poemas dos dias que correm


Caminante no hay camino


Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca perseguí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar:
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse, le vieron llorar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.


(Antonio Machado, 1875 - 1939)

22 setembro 2008

Ir à Beira e voltar

Eram 6 da manhã quando nos atirámos à estrada para a Beira. A vegetação para aquelas bandas do Zimbabué continua a ser deslumbrante, embora já com alguma elevação - são as montanhas do Vuma! Mas o encanto mantém-se: as cores secas, a desorganização esplêndida, a imensidão do olhar.
A passagem da fronteira para Moçambique não é muito diferente de exercício semelhante para a Zâmbia, cruzada há algumas semanas: confusão, filas intermináveis, o exercício de privilégios, o preenchimento de impressos desnecessários (à entrada do Zimbabué, no regresso, fui registado como João Maria, Portugal), a desorganização da divisão de tarefas, a entrega de 25 dólares americanos para o visto, a devolução do troco em meticais que não chegaram para o que seria correcto. Ficou o sorriso do funcionário da alfândega aberto numa barba por fazer e numa boina semi-militar escarranchada no alto da cabeça.
Passamos a fronteira e mudamos de país, no sentido mais amplo do termo: a língua é diferente, a vegetação é diferente, a natureza oferece-se de forma diversa. Por mais bonito que seja o campo moçambicano, nada se compara, para já, ao do Zimbabué. Enquanto do lado de cá viajamos quilómetros sem ver vivalma, do lado de lá há uma sucessão permanente de aglomerados de cubatas e um corrupio ininterrupto de pessoas na beira da estrada, como se se deslocassem em peregrinação a um local qualquer. Em Moçambique vê-se ainda agitação económica, o que é hoje uma raridade no país de Mugabe.

Descrever a Beira talvez seja falar – por mais disparatado que isto possa parecer – no que imagino ter sido a cidade antes da independência. Agora é uma metrópole suja, mal conservada, estragada, mostrando a face visível do que são as consequências de uma guerra civil prolongada e as quezílias partidárias levada ao extremo.
Imagino a Beira de há 34 anos, sem que esta descrição tenha o que quer que seja de um saudosismo colonialista, já que é a primeira vez que visito este país.
Talvez o comércio fervilhasse, talvez a zona do Macuti (que garantem locais e estrangeiros ser a mais bonita da cidade) estivesse pejada de gente passeando ao calor da noite, comentando os dias que passavam, sentando-se numa esplanada a comer camarões, a beber cerveja, a rir e a gozar uma vida diferente, um clima diferente. Imagino as crianças na praia banhada pelo Índico – nalguns casos a dez passos de suas casas – a correrem inocentes atrás dos caranguejos, num cansaço que não vinha, mesmo depois das aulas de natação no Clube Náutico.
Agora já nada disso existe. As casas de algumas famílias felizes que por lá passaram deram lugar a orfanatos de crianças com futuros improváveis, a terra batida que separa as vivendas do areal parece um trilho do mato, as árvores que debruam a praia do Náutico afiançam-me estar quase secas, o tecido habitacional da cidade carece de uma operação plástica urgente – ainda que não profunda.


Fica, como manifestação saudável de uma lusitanidade orgulhosa, a satisfação de perceber que é o portugês que se fala para que as pessoas se entendam entre si. Em todo o lugar se ouve a língua pátria - nos cafés, nas compras de rua, no barco para atravessar o Savane, na missa de ontem que comemorava os 20 anos da visita de João Paulo II.

Cumprindo um dos objectivos que cá nos trazia, partimos na demanda do bacalhau, do camarão e do caranguejo. Guiados pelos olhos de quem sabe os recantos onde o negócio é vantajoso, fomos sempre bem servidos, com simpatia e educação.
Retenho e partilho com os meus fiéis leitores a compra de 20 kg de caranguejo ao preço obsceno de 1 dólar americano o quilo, e que foi ensacado vivo à nossa frente. Como as patas se agitassem num frenesim de sobrevivência e fossem provocar danos na integridade da ráfia, foram partidas e arrancadas sem dó nem piedade, sem que os animais deixassem de se mexer num estertor de morte próxima.



Estar na Beira um fim-de-semana, como eu estive, com o Cônsul de Portugal, José Menezes Rosa, e a mulher, Cristina, não é estar acompanhado de quem conhece os cantos à casa, de quem oferece uns caranguejos de entrada que nos levam ao olimpo, sabe do melhor restaurante (o Solange, diga-se a propósito, onde comi um magnífico peixe papagaio), identifica as rotundas e dá informação privilegiada sobre a geografia política da região. Estar com ambos é estar com a simpatia, a educação, a disponibilidade, a conversa fácil, os temas de que se compõe o quotidiano de cada um. Estar com ambos é estar em casa longe de casa – e isso merece um agradecimento especial.

Foram eles que nos levaram à praia do Savane, assim chamada (presumo eu…) por ficar junto ao rio que tem o mesmo nome. O carro fica numa das margens e uma embarcação semelhante a uma chata leva-nos à outra. Ali, cruzado um aldeamento com restaurantes e parques e algum equipamento de pernoita, enfrentamos o Índico e a praia que por ele é banhada. Um areal a perder de vista, quilómetros infindos de uma areia branca e limpa, sem ninguém. Durante muito tempo fomos os únicos utentes da praia, com excepção de uma comunidade de pescadores a cerca de dois quilómetros. Para o outro lado, o vazio humano. O mar esperava por nós – agitado, com ondulação variada mas segura, com uma temperatura de cerca de 26ºC, segundo a nossa sensibilidade, ideal para banhos prolongados, o corpo todo imerso na água, as conversas demoradas e interrompidas apenas por uma onda mais alta.


O regresso a Harare fez-se ontem de manhã. Parámos no Chimoio, antiga Vila Pery onde, segundo amiga minha que por lá passou há muitos, muitos anos, se comia o melhor gelado do mundo. Não tendo encontrado tal estabelecimento, quedámo-nos pelo Restaurante Concorde para almoçar, tendo sido travado o seguinte diálogo com o empregado:
- Posso comer a sopa de legumes?
- Eh, eh, eh. Isso é que não. Já não tem sopa, não tem nada…
- E como é o bife à Concorde?
- Eh, eh, eh, o bife à Concorde… Pois o bife à Concorde…
- E traz ovo?
- Eh, eh, eh. Há-de trazer, pois há-de trazer…
- Então trago-o bem passado, se faz favor…

Se passarem no Chimoio, optem pelo gelado de morango, é o que eu lhes digo.

21 setembro 2008

Hoje é Domingo

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico...

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe:
‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
'Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho.Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?
’Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

Não tenho sabedoria para comentar qualquer evangelho que seja, e há textos que não carecem de palavras adicionais, que são auto-explicativos. Ler estas linhas é interiorizar a necessidade da humildade, de não me achar mais do que ninguém por causa daquilo que faço. O caminho da justiça e da rectidão não é, com toda a certeza, um caminho de negociação em que a recompensa tem de ser proporcional ao esforço. Nos dias de hoje, perceber-se isto é um desafio.

20 setembro 2008

Fui-me embora, estou na Beira

À hora em que me lerem os que resistem ao passar dos dias estarei na Beira, em Moçambique. Na realidade, já parti ontem, 6ª feira, de madrugada, como o vapor.

Redijo este post na 5ª feira, alimentado por um pensamento antecipado. Há quem me leia alegremente, curioso, preocupado, desinteressado de uma actividade que só é boa quando a alternativa não é melhor. O Outono, ao que sei, instala-se para satisfação de uns e desespero de outros.

Eu, queridos amigos e / ou leitores, devo estar a banhos no Índico, oceano que nunca pisei (vale a liberdade criativa). A bem dizer, também só me banhei no Atlântico, mas isso é um pormenor de somenos importância.

É isso, no fundo: praia, caranguejo para o jantar, a visão de uma cidade pujante que se destruiu devido a desentendimentos da democracia moçambicana.

Tenho-os a todos no pensamento mas, se não se importam, vou ali dar um mergulho e já volto.

Desafios

Há alguns tempos publiquei um post, exactamente com este título, no qual desafiava os meus queridos leitores a publicarem aqui, no Adeus... um texto sobre África. Pensava, sobretudo, nos que por cá passaram, mas também naqueles que têm uma visão sobre o que é este continente.

Recebi duas contribuições (DaLheGas e Xiu - este último com um quadro) que muito honraram e abrilhantaram o meu blogue.

O desafio mantém-se. Os potenciais interessados que avancem ao reconhecimento, sans peur et sans reproche.

Este blogue é um albergue espanhol: são todos benvindos desde que tragam farnel.

19 setembro 2008

Cartas à minha Madrinha

Minha querida madrinha,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
Hesitei muito em escrever-lhe esta carta. Não é falta de conteúdo, é preocupação pela minha segurança e dos que me estão próximos. Harare é uma cidade que dizem ser segura – não tenho razão de queixa, note-se, mas há muitos candeeiros tombados, buracos na estrada, acácias floridas e jacarandás que despontam. E se toda esta panóplia de elementos da criação divina e do homem alberga um microfone, um dispositivo que filma os nossos humores e acções ao abrigo da penumbra?
Tenho de partilhar consigo uma história verdadeira, com contornos de tragicomédia. Muitos saberão do que se trata, dos why, what, where, who com que se escrevem as notícias em Inglaterra. O que lhe conto, depois de terminadas as introduções
(a madrinha sabe que sempre tive dificuldade em conjugar o verbo sintetizar)
é cochichado pelos salões, entre uma cerveja que se bebe fresca, um deambular precavido sobre a assinatura do acordo tripartido, um perorar interessado sobre a savana e o grau alcoólico do vinho sul-africano. Antes de lhe reportar este acontecimento consultei as partes interessadas: um advogado grego sobre uma possível acção em tribunal; um médico jugoslavo sobre a disponibilidade de reconstruções faciais; gente local e amiga sobre a possibilidade de me esconder numa arrecadação, sobreviver à maneira da resistência gaulesa na França ocupada. Avancemos.
Vive aqui determinada pessoa que era casada com outra determinada pessoa. A primeira é do sexo masculino, a segunda é do sexo feminino
(percebe, madrinha, o porquê da escrita meia dissimulada? Não queremos a presença no tribunal, o ajeitar de um nariz que ficou irremediavelmente esmagado, o queijo bolorento com a malga de sopa fria)
Ora, esta determinada senhora foi a banhos à sua terra natal; o cavalheiro com quem partilhava sonhos e fracassos, leito e televisão quedou-se por aqui, no cumprimento dos seus deveres profissionais. Ter-se-ão despedido no aeroporto, escondendo uma furtiva lágrima por trás de uns óculos escuros de marca. A senhora partia de férias, o senhor trabalhava o que entendia. As mãos que se deram e que se afastaram para a passagem da fronteira permaneceram estendidas, num final prolongado (tal e qual como o shiraz australiano).
Passou-se algum tempo e a senhora não voltava. Sim, está de férias; sim, está tudo bem; sim, as saudades corroem; sim, a vida está pela hora da morte; sim, a cebola está que não se pode. O facto, madrinha, é que a cebola aumentava, a hora da morte prolongava-se e a dama não regressava.
Indaguei, pois indaguei. Certamente que o fiz, preocupado pelo cavalheiro cujas olheiras aumentavam ao ritmo de uma inflação de 3500%, o tremor na voz era mais frequente do que os ciclones em Miami.
Sabe o que aconteceu, madrinha? A dama em questão (talvez seja exagerado falar em dama, mas o advogado grego, assim como o médico jugoslavo, recomendaram-me sigilo quanto a nomes. A violência, os juízes, a anestesiazinha na sua idade, um nariz tão bonito…) repito, a dama em questão tinha-se mantido serena na sua terra natal, inundada de uma felicidade extrema, agarrada ao seu prévio marido. Trocou, a bem dizer, o número dois pelo número um. Não há amor como o primeiro, diz-se. Um regresso às origens, a uma terra conhecida, a um porto que se terá visitado pela primeira vez. O número dois (ela era para ele a número três) está devastado, com uma neura de primeira e uma qualidade de vida de segunda.
(está confusa, madrinha?)
Até aqui a história tem o seu quê de banal. Afinal, todos nós estamos habituados a trocas. O mundo do matrimónio está como a contratação de jogadores: há o mercado de Verão, o de Inverno, o defeso… Só que, madrinha, o determinado senhor tinha uma cunhada, irmã da determinada senhora. Esta jovem tinha vindo cá para visitar o seu sangue, contar histórias de infância, recordar o peru que o pai trinchava enquanto a mãe preparava sandes de pepino.
Vê-se agora sem irmã – que se lançou em braços já conhecidos – e com um cunhado que está ávido de afecto familiar. Na ausência da sua legítima, corre nos meandros de Harare que o abandonado procura conforto na cunhada, usando de uma insistência que poderá parecer chocante. Ela refugia-se (dizem…) por trás de uma porta fechada à chave.
O dito cavalheiro está destroçado – e não é para menos, sentir-se trocado pelo anterior, por quem o precedeu na descoberta dos caminhos que depravam o homem mais puro. Tem dois pensamentos principais (a parte profissional estará pelas ruas da amargura): a legítima – e solicita uma corda para se enforcar; a cunhada – e roga-lhe um pouco de carinho, em nome da família.
No serviço militar, se o oficial de dia não estivesse, avançava a reserva. Aqui não sei como será, porque há pessoas que não têm o verdadeiro sentido do dever.

Fique bem, madrinha, neste amplexo ternurento com que me despeço



18 setembro 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 17 dias

Gente. As pessoas do Zimbabué são afáveis, simpáticas, educadas, cordatas, pacíficas, com um nível de escolaridade elevada. Independentemente de todos os erros cometidos, ninguém merece viver nesta miséria extrema, neste pouco mais do que sobrevivência. Encontrei estas características basicamente em todas as pessoas que encontrei – brancos e pretos. Fui apresentado a rodesianos que me trataram imediatamente pelo nome próprio, conversaram comigo, interessaram-se pelo que eu fazia, quanto tempo estaria, manifestaram vontade de me rever.

Gestão. Não falo de finanças nem de recursos humanos. Falo da gestão das expectativas, da gestão das frustrações, da forma como lidamos com os insucessos e os fracassos, mas também da maneira como vivemos as vitórias, tudo aquilo que de bom nos acontece. É preciso dar um sentido às coisas, não deixar que os ups and downs se passeiem pela nossa existência sem que lhes demos a atenção devida.

Harare. A minha primeira cidade conscientemente africana. Estranhou-se, entranhou-se. Uma cidade de que vou ter saudades: pela segurança de que ainda goza, pelo encanto que se vai descobrindo, pelas ruas debruadas a jacarandás (que florescem agora) e a acácias, pelo cheiro permanente e suave a terra queimada Não vou ser ridículo ao ponto de me dizer que me afligirá a pequenez das nossas ruas, mas terei saudades desta largueza, deste desafogo.

História. Como convivemos com a história da nossa vida? Onde arrumamos os personagens que participaram na peça de teatro que representa o que vivemos até agora? Em que local da sala de espectáculos que todos nós temos colocamos os que desempenharam um papel importante no nosso caminho? Como convivemos com as memórias, as saudades, a necessidade de substituir gente por outra gente, para não pararmos, não cristalizarmos num passado imobilista e imobilizante? Como resolvemos o dilema de alguém que tem de passar à história mas que faz parte da nossa história?

Incapaz. De perceber o que vem abaixo…

Inflação. Galopante como se fosse um cavalo de corrida, desenfreada como se cheirasse a estábulo, incontrolável, ao que parece. Não sei o que são 3500%, mas consigo perceber porque não aceitam cheques – num dia o cheque vale o número que lá está, quando se credita na conta vale o seu peso em papel…

Irritação. Tive-a quando cheguei ao ver a minha mala desaparecida e surgida de um túnel 24 horas depois, esventrada como se fosse um queijo da serra na mão de famintos. Nunca mais me irritei com nada. Ou poucas vezes o fiz… Será da altitude?

JdC. Merecerá, repito, post futuro e exclusivo.

Karaoke. O que dizer desta invenção do século? Já escrevi, já partilhei, resta-me gozar as suas memórias. Onde há Karaoke no Monte Estoril? Alguém tem a caridade de me dzer?

Kidzcan. A associação local que lida com o drama das crianças com cancro. Ainda que contornos diferentes da nossa Acreditar – devido a circunstâncias próprias – a missão é a mesma, as tristezas e alegrias serão vividas, seguramente, de forma semelhante. A sua existência é uma prova viva do esforço, da dedicação, do espírito de missão num país com tantas dificuldades. Comigo vão memórias que perdurarão com a minha consciência das coisas: o ordenado dos pediatras, o abraço da responsável da associação, os olhos da criança de quatro anos cujo futuro é improvável.

17 setembro 2008

Aviso, alerta, pedido de paciência

Queridos leitores,

Um bom dia para todos.

6ª feira - Pointe's, karaoke (já relatado)
Sábado - almoço em casa de amigos portugueses; 10 ou 12 pessoas à volta de uma mesa a falar a língua pátria e a comer bacalhau, leitão e feijoada; noitada no Monaco, night-club de Harare;
Domingo - dia de descanso e de intensidade por motivos pessoais;
2ª feira - muito trabalho.
3ª feira - muito trabalho, jantar num restaurante coreano com a Daisy e Connie, ambas raparigas locais, com conversa interessante que proporciona boa companhia.
4ª feira - muito trabalho, compra de vinhos sul-africanos, jantar de anos de CA;
5ª feira - muito trabalho, jantar com duas amigas brasileiras;
6ª feira de madrugada - partida para a Beira.

Entre o que fiz, tenho de fazer, prevejo que seja feito, esta semana arrasou-me.

O post de hoje é isto, na partilha total - tanto quanto possível - da minha vida.

Voltem mais tarde, nunca se sabe se não aparecerá alguma coisa mais interessante do que a minha vida pessoal.

Façam o favor de ser felizes - e desculpem qualquer coisinha.

16 setembro 2008

A saúde que não se deseja

O cancro pediátrico é um drama em qualquer parte do mundo: o confronto com uma doença que se julga de velhos, o desconhecimento dos seus efeitos numa criança, o choque e o horror da palavra que se conjuga com a antevisão de um luto, as estatísticas lidas desequilibradamente em função do estado de espírito, a sensação de impotência, o pânico da dor e do sofrimento, a certeza obsessiva da incapacidade do sistema de saúde, a procura desesperada de alternativas supostamente mais eficazes e menos nocivas, o vocabulário técnico e de compreensão difícil, as noites em claro, as lágrimas que correm até ao limite da resistência, a esperança e a descrença lado a lado.

Falo do que sei por experiência própria e por aquilo que vou vendo, sabendo, intuindo. Com o diagnóstico que se ouve a nossa boca abre-se de espanto, de pavor, de incapacidade de soltar uma frase. Começa então uma aventura com um final imprevisto, porque não há autor da história para decidir o destino dos personagens: umas vezes o herói vai ao encontro do pôr-do-sol com um sorriso nos lábios, outras fica no local da batalha, porque a vida e o mundo estão longe de ser o paradigma da justiça.

Ser-se criança no Zimbabué é difícil – porque é difícil ser-se o que quer que seja neste país, se exceptuarmos os poderosos. Ser-se Pai (no duplo sentido da maternidade / paternidade) é um desafio, porque as dificuldades com que se luta diariamente são de monta: a escassez de bens essenciais, a fome (não se imagina o que se deve passar nas zonas rurais), um sistema financeiro incompreensível para qualquer doutorado, uma inflação de 3500% que destrói qualquer vislumbre ingénuo de planeamento caseiro, ordenados mensais inferiores à moeda que damos aos arrumadores de carros.

Hoje estive num hospital grande de Harare, onde visitei a ala das crianças com cancro. Era dia de chegada de novos doentes, e imaginei o que ia na cabeça daquelas mães para quem tudo isto é de uma violência sem nome, porque não têm apoios, o serviço de saúde não funciona, não têm dinheiro para utilizar num sistema de transportes que de qualquer forma é inexistente. Falei com dois médicos novos, pediatras, cujo salário mensal ronda o equivalente aos três dólares mensais. Como sobrevivem? Fazendo biscates por fora, envergando a camisola da missão que se escolhe, não do emprego que se tem.

Neste hospital funciona uma escola. As fornadas de licenciados são lentas, não por dificuldade intelectual de quem aprende, mas pela inexistência de gente que ensine. Os salários são tão baixos que os profissionais desertam. É por isso que a ala de que falo não tem oncologista pediátrico – está na Pensilvânia a trabalhar.

A falta de dinheiro sente-se em tudo: no gabinete do pediatra a quem ainda não deram um telefone nem uma linha de internet; no líquido desinfectante dos médicos que vem numa garrafa de 33 cl e é doseado pela tampa; na ausência de idas ao estrangeiro para assistir a uma conferência, tomar contacto com o outro mundo; na ausência de reagentes, o que torna o diagnóstico um exercício de adivinhação; na inexistência de drogas para o cumprimento dos protocolos de quimioterapia; na incapacidade de retenção de pessoal técnico qualificado; no desaparecimento de amostras para exames; no sonho ingénuo de ter exames básicos – ressonâncias magnéticas, TACs, etc. A falta de dinheiro sente-se ainda no resultado de tudo isto: crianças que morrem, devido, exclusivamente, à ausência de tratamentos adequados mínimos. Eu conheci um potencial exemplo: rapariga, quatro anos, leucemia, uma cara de chocolate a olhar para a mãe com uns olhos mansos e redondos, sentada numa cama sem perceber o que se estava a passar.

Conheci também a Kidzcan, uma organização zimbabueana ligada à Igreja (de Inglaterra / Escócia, presumo) que faz o impossível e o errado: substituir-se ao Estado. Quais as prioridades? Arranjar os medicamentos (uma actividade exercida no máximo sigilo e segurança para que nada aconteça), apostar no diagnóstico correcto (a ausência de diagnóstico precoce aumenta brutalmente a mortalidade infantil), apoiar as crianças. Paralelamente a isto ajudam os médicos no que podem, fazem angariação de fundos num país cujo tecido empresarial é inexistente ou mais frágil do que um pergaminho, garantem o transporte das crianças para os tratamentos. Como não há dinheiro, ou a criança fica abandonada no hospital porque os pais fogem espavoridos, ou regressa num estado terminal, quando pouco mais há a fazer do que garantir a qualidade na morte.

Peço desculpa pela dimensão do post de hoje, sobretudo não tendo a criatividade ligeira das noites de karaoke ou a descrição paisagística dos safaris em reservas. Quem teve a coragem e a paciência para chegar aqui, pode imaginar o que foi a minha manhã. Tudo foi compensado com a ternura da responsável da Kidzcan (uma sobrevivente) que, ao terminar a reunião nas instalações da associação (um cubículo com 15 metros quadrados), fez questão de me abraçar fortemente, agradecer a minha visita e dizer:

- You’re an angel ...


14 setembro 2008

Festa da Exaltação da Santa Cruz

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem,
humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte
e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, neste dia em que somos convidados a contemplar a cruz de Cristo, um passo em frente no difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?
O exemplo de Cristo garante-nos que o caminho da cruz, da entrega, do dom da vida não é um caminho de "perdedores" e de fracassados: o caminho do dom da vida, conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.
Comentários acima tirados do sítio Agência Ecclesia, comentários às leituras.

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