10 abril 2014

Dos nossos panteões pessoais

iClouds, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Levy Strauss, nos Tristes Trópicos, cita Chateaubriand, mais ou menos assim - que a precisão não me acompanha hoje: 

Todos carregamos em nós um pequeno mundo composto por tudo o que vimos e amamos, a cujo santuário constantemente recolhemos, mesmo quando cruzamos e parecemos habitar um mundo estranho.

Cada um de nós tem os seus heróis - reais ou fictícios, que também com ficções se formam mentes. São pessoas que apreciamos, amamos, valorizamos, por quem temos apreço. São os escritores, os personagens mais marcantes da banda desenhada, os santos, os mártires, os amigos desaparecidos prematuramente, os músicos. Por outro lado, cada um de nós tem os locais das suas memórias, os livros, os cheiros. São, como já aqui escrevi um dia, as nossas famílias artificiais.

Beethoven, Bach, Eça, Mandela, Jesus Cristo, Corto Maltese, Santo Agostinho, João Paulo II, Vítor Damas, Yazalde, Melanie Safka, Janis Joplin, Amália e alguns poemas, o meu primeiro chefe na Lever, os padres que me ouvem, os amigos que me aconselham, os próximos que permanecem; rio de janeiro, praga, londres, áfrica, áfrica, áfrica, os açores; os grandes silêncios, as grandes conversas; o choro desinibido, a adolescência revisitada; os livros que me emocionam, as músicas que me elevam, a bondade que me comove.

O que une Beethoven, Corto Maltese e João Paulo II? Como junto pessoas que viveram em épocas diferentes, em realidades diferentes? No meu panteão pessoal. É nesse local que eles ganham uma importância semelhante, é lá que são verdadeiramente iguais, se irmanam num desiderato comum: fazer de mim uma pessoa melhor. Ali, nesse meu panteão, as diferenças não só se diluem, como potenciam a força que une estes e outros heróis. Ali nenhum é melhor do que o outro, porque são todos importantes. Por mais estranho que este raciocínio possa parecer.

Danielle S Allen, politóloga e escritora americana, escreveu muito sobre sociedade - sobre o que ela entendia ser uma connected society. Para ela há dois tipos de ligações: as bridging ties, que ligam pessoas diferentes, quer profissional, étnica, sócio-económica ou religiosamente, e as bonding ties, laços familiares, mais fáceis, que nos ligam à família e à comunidade imediata. E concluiu de forma evidente: as sociedades com mais sucesso são aquelas em que as principais instituições - escolas, universidades, empresas, órgãos políticos - promovem as bridging ties. Parece-me óbvio.

Os nossos panteões pessoais são micro-sociedades de sucesso, porque à volta de uma mesma mesa se junta a disparidade - Bach, Mandela, Santo Agostinho. Como poderíamos transformar estas micro-realidades em macro-realidades? De que forma o nosso panteão - todos os panteões juntos - tornaria as sociedades mais justas?  

Na minha mesa de cabeceira virtual está uma mala com as famílias artificiais que me compõem: o silêncio dos açores, o cosmopolitismo de londres, o requiem de mozart, o novo testamento, o logotipo da acreditar, o retrato dos meus mais próximos, o so long marianne do leonard cohen, o bom ladrão que pede para não ser esquecido. É lá que me recolho em tempos de borrasca interior.

Ver as famílias artificias dos outros pode ser um exercício de conhecimento alheio, mais do que de voyeurismo. Um activista anti-gay tem oscar wilde no seu panteão? Um fundamentalista religioso tem jesus cristo no seu panteão? Um pato-bravo da construção tem os açores como família artificial?

Para que serve este texto?

JdB   

8 comentários:

Anónimo disse...

Ę por estas e por outras que JdB está no meu panteāo e nāo é propriamente na prateleira do fundo, mas sim bem å māo de semear , que ele faz sempre falta e jeito.

Anónimo disse...

JdB uma mas suas muitas artes é tornar vivo o que está dentro de muito de nós.
Nunca pensei que podia ter um panteão ou mesmo um santuário onde me recolhia. Esta verdade tão diluída é um facto. Sim um facto e não uma verdade, porque de verdades vive o mundo e é com a nossa verdade que vamos cimentando os pedestais de cada um dos nossos heróis panteónicos.
Dei por mim a tentar identificar os meus heróis e a reconstruir a minha cabeceira virtual e percebi que recheio esse imaginário de entidades distantes, divinizadas por méritos subtis e incorpóreos.
Não está lá um irmão que nos ensinou a fazer a primeira fisga, uma mãe que nos deu o primeiro beijo e que nos levou à primeira depilação. Não está lá o pai do nosso primeiro filho, não está lá a professora que nos ensinou a primeira letra, nem o merceeiro a quem roubámos a primeira pastilha pirata e onde comprávamos o fiambre de que a mãe se tinha esquecido.
E porquê, se foram estes próximos que nos alimentaram diariamente que nos acompanharam no caminho da vida? Talvez por isso, talvez pela prevalência, pela resistência e pela proximidade. A proximidade que mata, que faz com que distância da pele lisa de uma modelo barrada de Photoshop, um pensamento brilhante de um filósofo compenetrado, a melodia de um músico transatlântico ou até o poema de um escritor esquizofrénico, nos toque com a suavidade de um momento, libertando-nos do quotidiano, da rotina e da estridência das vozes dos que nos rodeiam habitualmente.
É justo? Não.
Por isto lhe agradeço infinitamente, depois deste seu texto remodelei o meu panteão.
Agora sim, sinto-me uma pessoa melhor.

Anónimo disse...

Estou sem palavras.
Pelo texto e pelos dois comentários.
Não sei se é do mestrado (tardio ou nem por isso) mas parecem-me que os seus textos se tornam mais profundos de dia para dia. E mais claros, porque não dizê-lo. Como se antes andasse um bocado a tatear diferentes ideias num mesmo texto enquanto agora se consegue concentrar melhor numa certa ideia, que percorre uniformemente todo o texto.
Digo eu que não percebo nada de literatura ... peço que releve. Mas é o que me parece.
E os comentários também, estão mais em sintonia, menos dispersos. Como uma dança mais apertada.
Quanto ao panteão em particular e à sua pergunta se um pato bravo levava os Açores para o dito do panteão, em particular, duvido muito. Talvez levasse o Algarve em Agosto, mas os Açores, como muito bem sabe quem gosta e volta (que é diferente do que gostar mas não gostar o suficiente para voltar ...) os Açores são bom gosto e beleza no estado bruto. E se gosta dos Açores ... já foi às Flores? É longe, eu sei. É cara a viagem. É uma última paragem para coisa nenhuma... mas ... mas.... Ou talvez seja melhor não ir: pode não querer voltar.

v

p.s. so long Marianne, sim, sim. E a Suzanne ? que sonho de canção!!

LA disse...

Este texto serve para atraves do teu exemplo e das tuas palavras enriquecer a vida dos outros. A minha enriqueces-te muito hoje porque me deste um conceito onde posso por a emocao da primeira vez que atravessei Park Avenue e a emocao da frase final Le Chateau de Mere de Marcel Pagnol que reli ontem Obrigada por me dares um monumento imaginario ... e evidente assunto par um post astro!

Anónimo disse...

silêncio:
na ravina inacessível
o prado em flor.

josé tolentino mendonça


(gi)

Anónimo disse...

''Como poderíamos transformar estas micro-realidades em macro-realidades? De que forma o nosso panteão - todos os panteões juntos - tornaria as sociedades mais justas?''

Há mais 'ties' a juntar a essas duas que menciona.
Creio que se juntarmos alguma ligação que transcenda a família pessoal, a família artificial e a família social e as reúna numa só, a universal, poderemos encontrar e ser juntos, mais reais e muito mais justos.

Não vejo disparidade, onde a encontra. Apenas formas de expressão e vidas distintas.
Mas algo as une, não?
E não falo daquilo que as une em particular a si.

Porque elas vivem e têm importância e são verdadeiramente iguais, independentemente da importância que(se)lhes atribui.
Ver nelas igualdade, sem ser pelos seus feitos, ou pelo que vibram em si, poderá ser interessante.

E transpôr a igualdade que lhes vê no seu panteão, para fora dele, também.

Seja como for, de que forma for, se o seu panteão, contribui para ser uma melhor pessoa, cumpre bem a sua função.
E ao verbalizá-lo, começou um efeito 'rippling', tocou e atingiu mais pessoas.

Que continue pois, a alargar esses santuários particulares, para seu bem e de muitos.

a.

ACC disse...

estou "felecíssima" como diria uma grande amiga.
Belíssimos textos, belíssimos comentários e quem sabe um "good tip" para o alinhamento editorial. Que querem os seus leitores, que mais os move, que os retira da preguiça da leitura passiva, que que que...
Boa malha JdB e reforçando o que todos sublinharam:
- mais coerência,
- mais uniformidade e consistência argumentativa
- mais leveza e habilidade em usar o conhecimento adquirido
mas isto sou eu armada em "expert" quando não sei escrever uma palavra, quanto mais um texto como o seu cheio de notas musicais.

JdB disse...

Agradeço a todos os comentários seguramente imerecidos, mas motivadores.
Serei honesto: quando terminei o post pus aquela frase interrogativa porque, de facto, achei que havia ali uma misturada de conceitos, até porque o post só deveria ter saído hoje, pelo que estava pouco burilado. Ainda bem que não lhe mexi mais - estragaria o que estava bem feito, presumindo que lago havia que estava.
Renovados agradecimentos - por este e por todos os comentários que confortam este estabelecimento e que me obrigam a pensar.
JdB

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