25 março 2020

Vai um gin do Peter’s ?

VPV PÕE O DEDO NA FERIDA SOBRE A GUERRA NA SÍRIA

Se a nós, ocidentais do dito ‘primeiro mundo’, nos custa os estragos provocados pelo COVID-19, primeiro como calamidade sanitária, depois como hecatombe económica, o que dizer das vítimas da longa guerra na Síria, agora também atingidas pelo coronavírus?

Talvez uma comparação mínima entre a situação de uns e de outros, ajude a dar a medida do sofrimento das vítimas de um conflito armado sanguinário, bem mais letal do que as perdas pesadas desta pandemia. Por exemplo, como explicar, a quem corre o risco de ter a casa bombardeada, os nossos problemas (legítimos, à nossa escala) para repor a despensa? Como comparar algumas aflições no acesso à net, fundamental para o teletrabalho, com o drama dos que estão sujeitos a longos períodos sem electricidade nem água potável? Como encarar o problema dos pais e filhos pequenos apertados num apartamento, face a quem vive em roleta russa sem saber se se sobrevive mais um dia? O que dizer do drama dos nossos hospitais sobrelotados e dos profissionais de saúde em burnout, à vista dos hospitais sírios também sobrelotados e em constante risco de serem alvejados por morteiros?

Entre 2015 e 2017, Vasco Pulido Valente (VPV), com o olho clínico dos bons historiadores, denunciou algumas das causas menos faladas da Guerra contra Assad, um tirano pouco recomendável mas que não justifica o preço de uma sangria inumana:



«À NOSSA PORTA

–  17.JAN.2016 –


As fronteiras do Médio Oriente foram impostas, como toda a gente sabe, pelo acordo Sykes-Picot no fim da I Guerra Mundial e tentavam equilibrar as pretensões da Inglaterra e da França. As fronteiras da África do Norte são a consequência de uma guerra de conquista, que começou em meados do século XIX com o último rei de França, Luís Filipe, e em que pouco a pouco se envolveram a Inglaterra, a Itália e mesmo a Alemanha de Guilherme II. Nenhuma destas divisões e redivisões considerou a religião ou a afinidade tribal da gente que ia dispersando pelo mundo a régua e a esquadro, como se ela não valesse mais do que peças sem valor num jogo que não podia de toda a evidência jogar. As coisas correram bem até à guerra contra Hitler e à emergência do petróleo como a principal fonte de energia do Ocidente.   
Dali em diante as grandes potências tiveram de evacuar, a bem ou mal, do Médio Oriente e da África do Norte e deixaram para trás países sem qualquer espécie de viabilidade como o Iraque, ou a Líbia, geralmente governados por velhos funcionários do colonialismo ou por indígenas de confiança, que acabaram por ser submersos por uma civilização primitiva, dirigida pelo fanatismo e pela violência. Hoje, o Médio Oriente é o campo livre para as guerras religiosas do islão e naturalmente as facções detestam a interferência do Ocidente em querelas para que o dito Ocidente não é chamado, que não percebe e que vem sempre perturbar com a sua superioridade económica e militar.  Os terroristas de Nova Iorque, de Londres, de Copenhaga ou de Paris querem ficar sozinhos para se exterminarem em paz.
Hoje as duas maiores potências regionais deslizaram para uma situação de guerra não declarada, mas que está em perigo de se tornar uma catástrofe para o Médio Oriente, para o Norte de África e para o mundo. Ora a Europa não tem meios para reagir a essa ameaça. Se o choque entre o Irão (xiita) e a Arábia (sunita) não for evitado, acabará por se estender da Turquia a Marrocos, e provavelmente à Índia e à Ásia central, e não existe força alguma capaz de o sufocar ou reter. Em Portugal, […] consciente ou inconscientemente, sofreremos como o resto da Europa as consequências do conflito que vai crescendo à nossa porta.

HÁBITOS QUE NÃO PASSAM

–  15.NOV.2015 –

O Ocidente, por razões que variaram com a época e o país, sempre se achou dono da África do Norte e do Médio Oriente. A impotência de Istambul tornava o imenso território do Império Otomano em terra de ninguém e de toda a gente, que os diplomatas da “civilização” dividiam e redividiam a régua e esquadro. Mesmo a Rússia perdeu a sua única guerra – na Crimeia, com a França e a Inglaterra – por causa de uma querela com a Igreja Católica em Jerusalém. O canal de Suez, caminho para a “jóia da coroa” e para o Oriente, e a seguir o petróleo prolongaram até hoje o longo envolvimento da Europa e da América em questões que não lhes diziam respeito. […] Sobretudo para a França que se continua a considerar tutora e protectora das suas velhas colónias.
A situação do Norte de África e do Médio Oriente é agora uma situação de guerra religiosa entre sunitas e xiitas (e as várias seitas de cada lado) e também, em certos países, de guerra entre islamitas e secularistas. Não ocorreria a nenhum estrangeiro de senso intervir neste caldeirão, como não ocorreria a um budista, por muita força e apetite que tivesse, intervir na “Guerra dos 30 Anos”. Mas nem o Ocidente nem a Rússia hesitaram um segundo em tomar partido pela palavra e pela bomba na região inteira. Julgavam que nenhum muçulmano se atreveria a transportar as suas sujas questões para o continente da liberdade e da tolerância. Um erro primário. […] As relações entre o Ocidente e o islão deviam ser mínimas e estritamente materiais: petróleo por tecnologia – e acabou. Fora isso, o terrorismo vai continuar e aumentar, quer a “grande” França queira, quer não.


O OCIDENTE E O MUNDO MUÇULMANO

– 23.ABR.2017 –

Dar um pontapé num formigueiro é uma estratégia? Em princípio, parece que não é. Mas que tem feito o Ocidente, senão isso? E, quando falo do Ocidente, falo da Inglaterra, da França e da América. Desde a primeira invasão do Iraque à chamada “Primavera Árabe” as velhas potências coloniais e a nova potência “global” não perdem uma oportunidade para influenciar, ou mesmo dirigir, o mundo islâmico. Ora esse mundo islâmico, de fora tão simples, está em guerra consigo próprio, para defender ou fortalecer as suas posições em África e no Médio Oriente e por razões religiosas que, às vezes, não se distinguem muito de razões políticas e militares. 
E por isso o Ocidente não sabe ao certo quem são as suas vítimas e menos quem a prazo vai beneficiar ou prejudicar. Não admira que quase todos os grupos de muçulmanos odeiem imparcialmente a Europa e a América e uma civilização inconciliável com a deles. […] 


O OCIDENTE E O ISLÃO

– 10 JUN.2017 –

O terceiro atentado terrorista em Inglaterra desde Março produziu os lugares comuns do costume. […] Mas como sempre ninguém tentou explicar politicamente o que sucedera. Porquê? Porque ninguém se atreve a revelar as verdadeiras causas desta violência contra sociedades [ocidentais] à superfície pacíficas. As causas são claras. Em primeiro lugar, a América estabeleceu uma base na “terra santa” da Arábia e a seguir começou duas guerras em países muçulmanos: no Iraque e no Afeganistão. Esta criminosa estupidez está em grande parte na origem da violência que veio depois. Bush, Blair e os governos que na Europa lhes deram apoio militar e diplomático não conheciam nem se interessavam pelas condições no terreno ou pela natureza do seu inimigo, historicamente dividido em dois ramos inconciliáveis e em dezenas de seitas e organizações.
O islão é um mundo em crise, um mundo imerso numa guerra religiosa, que se confunde, como invariavelmente sucede, com a luta pela hegemonia de um bilião de muçulmanos. Qualquer intervenção de fora implica duas consequências. Por um lado, favorece uma facção ou facções dos beligerantes. Por outro, leva a América e as potências da Europa a conduzir elas mesmas uma guerra por interposta pessoa. A Síria é um bom exemplo. Não admira por isso que o ódio gerado no islão transborde para Nova York, Paris, Marselha, Manchester ou Londres, que os jihadistas compreensivelmente consideram parte do seu campo de acção.
A única maneira de acabar com ataques terroristas ao Ocidente seria que o Ocidente se retirasse por completo do islão, o que implicaria o fim da mais leve presença militar, económica ou política e mesmo de alianças formais com qualquer Estado muçulmano. Para nossa má sorte, […] basta olhar à volta para perceber até que ponto o dinheiro do islão ou, pelo menos, de uma fracção dele penetrou nas sociedades em que vivemos.



                     
Vasco Pulido Valente em crónicas do PÚBLICO


Aplica-se a esta hora algo quaresmal e insólita das nossas vidas (para lá de a quarentena não ser custosa para todos) a resposta visionária de uma alta patente do recém-derrotado exército japonês, no final da Segunda Guerra Mundial na frente do Pacífico. Perguntaram-lhe até que ponto o Império do Sol Nascente tinha soçobrado à superioridade bélica norte-americana. Ele retorquiu, sem hesitar: o verdadeiro vencedor desta guerra será o povo que melhor se reerguer no day-after. A sua capacidade de focar o olhar acima dos escombros e de apontar ao futuro, foi correspondida pela maioria da população nipónica, permitindo uma reconstrução em tempo recorde e até ascender ao pequeno núcleo das economias mais pujantes do mundo – o G7. Naturalmente, que o Japão também contou com o forte apoio do vencedor directo daquela guerra – os EUA, à data, o país mais visionário, a par da Grã-Bretanha! De igual forma, após este combate contra o vírus, enfrentaremos outro tsunami, não menos feroz, no plano económico e bem podemos começar já a preparar o futuro. A falência de inúmeras micro-empresas, depois desta paragem técnica, fará disparar o desemprego.

O busílis está, sobretudo, na brusquidão das mudanças em curso, muitas delas irreversíveis, deixando multidões à margem da revolução digital já a rolar. Sem folga mínima para se adaptarem, arriscam-se ao empobrecimento por exclusão. O filme com mais Óscares, em 2020  – «PARASITAS», de realizador sul-coreano –  explica bem o sub-mundo de pobreza que coabita, quase invisível, semi-clandestino, com bolsas de riqueza e de bem-estar pacatamente egocêntricas e mimadas. Apenas curtem a dolce vita, sem reparar naqueles sobreviventes, até o limite da humilhação e da frustração ser ultrapassado e esses frágeis extravasarem em explosões de violência imprevisíveis. É um facto que a ferida das desigualdades acompanha a história humana, desde os primórdios, mas assume contornos muito diversos conforme a reacção dos dois segmentos. Há uma diferença abissal entre a dupla do rico e de Lázaro (em parábola, que parte de situações reais) e os grupos que se cruzam na ficção cinematográfica premiada por Hollywood, certeira a retratar realidades do nosso presente, sem cair no estereótipo reducionista e ideológico da luta de classes.

No lado positivo do pós-Covid19 está o provável reforço de novos hábitos como o teletrabalho e uma melhor gestão do tempo, menos poluição e menos stress nas idas para e vindas do trabalho. Na mesma senda, fecharam-se as Igrejas, mas a oração universal ganhou força e visibilidade; a generosidade de muitos crentes saiu para a rua e tem inspirado conversões nos lugares onde faz mais falta levar a paz e algum sentido de vida. Assim tem acontecido no desespero dos hospitais italianos, onde também se multiplicaram os gestos heróicos, como o do sacerdote de setentas e tais, que dispensou máscara para que não faltasse ao rapaz novo ao seu lado. O novo salvou-se e o mais velho partiu para o céu, com a maior serenidade, marcando muitos em seu redor. Hoje mesmo, o Papa Francisco pediu para o mundo rezar em conjunto o Pai-nosso, às 12h (de Roma, 11h de Portugal continental).  Outras ideias criativas pairam sobre os céus de Roma…

Religiosas romanas fizeram terços gigantescos, de 21m de comprimento, com balões azúis e brancos. Presos a uma varanda, vêem-se de toda a cidade e, de quando em vez, são soltos para subirem até às estrelas. A ideia original veio da Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus.

Algumas vozes portuguesas, lembram brechas que podem ter aberto bons trilhos para um futuro melhor:

No semanário SOL – edição de 21 de Março de 2020.

Do Turismo de Portugal chegou uma mensagem de esperança para este difícil contra-relógio de contenção da insidiosa pandemia. De certo modo, já aponta e contribui para o day-after:



Citando um amigo divertido, é hora de desejar a todos a continuação de uma santa quarentena.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

1 comentário:

Anónimo disse...

Depois do seu trabalho acerca do dez anos de quarentena na Síria, vou ler isto com todo o cuidado e atenção.

Acerca de mim

Arquivo do blogue