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30 abril 2021

Das estranhas desconformidades

Nota prévia: algum do raciocínio subjacente a este post deriva de uma conversa havida sobre o tema, pelo que nem todo o raciocínio é meu.

***

No final dos anos 60, António dos Santos (1919 - 1993) grava um fado (talvez balada...) intitulado Partir é morrer um pouco, com música sua e letra de Augusto Mascarenhas Barreto.    

Partir é morrer um pouco

Adeus, parceiros das farras
Dos copos e das noitadas
Adeus sombras da cidade
Adeus langor das guitarras
Canto de esperanças frustradas
Alvorada de saudade

Meu coração como louco
Quer desgarrar-me do peito
Transforma em soluço a voz
Partir é morrer um pouco
A alma de certo jeito
A expirar dentro de nós

Voam mágoas em pedaços
Como aves que se não cansam
Ilusões, esparsas no ar
Partir é estender os braços
Aos sonhos que não se alcançam
Cujo destino é ficar

Deixo a minh'alma no cais
De longe, canso sinais
Feitos de pranto a correr
Quem morre, não sofre mais
Mas quem parte é dor demais
É bem pior que morrer

Embora para algumas pessoas ouvir António dos Santos seja um exercício penoso, é vital ouvi-lo para se perceber do que falo. 


Em 2021, António Zambujo integra no seu último disco (Voz e Violão) um fado intitulado Adeus parceiros das farras, com música de António dos Santos e versos de Augusto Mascarenhas Barreto. Apesar da dupla António dos Santos / Mascarenhas Barreto ser responsável por outras composições (Fado é Canto Peregrino ou Gaivotas em Terra, por exemplo) falamos do fado Partir é morrer um pouco, cujo título Zambujo alterou, substituindo-o pelo primeiro verso  


Dizer que as interpretações são diferentes está no domínio do lugar-comum, porque os cantores são diferentes e Zambujo não é imitador. Em primeiro lugar, porquê substituir Partir é morrer um pouco por Adeus parceiros das farras? Terá Zambujo decidido gravar esta música, como me aventaram por graça, após cinco dias de farra com amigos? E será que António dos Santos já pensava na morte que, afinal, só chegaria 25 anos depois?

Conheço muito bem a versão original do fado, pois gosto muito de António dos Santos. Na verdade, encontro-lhe uma gravitas (no sentido original do termo, que era peso) que aprecio, apesar da toada repetitiva dos seus fados. Porém, ao ouvir a versão original é isso que fica: uma voz grave, acompanhada pelo ritmo grave da viola, a cantar um poema grave. A versão de Zambujo é ligeira, porque a própria voz do cantor se proporciona a isso - não há gravitas, talvez haja, numa ou noutra música dele, a nostalgia das grandes paisagens.

Há, na versão actual de Partir é morrer um pouco, uma certa desconformidade, apesar da interpretação ser irrepreensível do ponto de vista musical. Onde está, então, a desconformidade? Não sei, talvez esteja no timbre de voz, na diferença abissal, na ideia de que partir é morrer um pouco não é a mesma coisa que adeus parceiros das farras, apesar do poema ser o mesmo. 

JdB

22 fevereiro 2021

Duas Últimas

Gosto de António dos Santos, penso que já o disse aqui há bastante tempo. Um dia "apresentei-o" aos meus filhos que, penso, terão tido o que poderia ser um refluxo gástrico de tão espantados ficaram com um homem cuja batida da viola é sempre igual, com aquela voz grave e dolente que afugenta os mais precavidos. 

António dos Santos cantou versos muito bonitos, nomeadamente de Mascarenhas Barreto. Não são esses que trago. O que apresento ao meus fiéis leitores tem letra (e música) dele. Porquê este? Talvez para que André Ventura perceba que a guerra aos ciganos (parece que agora se diz 'comunidade cigana') já provocou muita infelicidade, nomeadamente ao malogrado fadista. Basta atentar na letra.

JdB


 

Ilusão Perdida

Amei uma vez na vida,
Mas não pude ser amado
Por uma formosa cigana;
Era de raça diferente,
Diferente a sua cor
E tinha uma lei tirana.

Disse-me um dia, a chorar,
Essa linda ciganita:
"Perdoa-me, meu amor!
Jamais poderei ser tua
Porque só posso casar
Com alguém da minha cor!"

A soluçar, concordei,
Enchi-lhe a boca de beijos,
Foi a nossa despedida;
E com a raiva nos olhos
Vi partir a caravana
Que levava a minha vida.

Não mais a tornei a ver,
Não sei se vive, se é morta,
Se anda pelo mundo fora;
Se lá longe, muito longe,
Me tenta agora esquecer
Como eu a recordo agora.

Nunca mais amei no mundo
A ninguém um só momento;
Já pouco me importa a vida:
Sou monge, um vagabundo
Encerrado no convento
Da minha ilusão perdida.


18 fevereiro 2014

Duas Últimas

Travei conhecimento com o António dos Santos há muitos anos - muitos, mesmo - embora nunca o tivesse visto. Havia lá em casa dois ou três discos de 45 rpm (ou talvez fosse apenas um) com interpretações dele. Ouvi, voltei a ouvir - e fiquei a gostar.

Se eu admito que não se goste de fado - porque é deprimente, dá neura, o que quiserem - ainda mais admito que não se goste do António dos Santos, que parece tocar sempre com a mesma toada, a mesma batida na viola, a mesma tristeza na voz. Visto de longe parece uma sopa da Bimby - tendencialmente sabem todas ao mesmo, qualquer que seja o mix de legumes atirado para a cuba.

Deixo-vos ainda com Marta Pereira da Costa, aqui postada uma vez. É uma rapariga bonita e, para além disso, é a primeira mulher a tocar profissionalmente a guitarra portuguesa. Não opino sobre a qualidade dela, porque não sei, e porque desconheço se a guitarra não é instrumento demasiadamente violento para uma mulher. Mas enfim, foi a isto que ela se atirou. É provável que vá vê-la e ouvi-la um destes dias no auditório da Boa Nova, onde se fará acompanhar por outros músicos.

Ainda que correndo o risco de ser um post pouco popular (pelo António dos Santos), do qual apetece fugir, aqui ficam dois artistas portugueses. Oiçam, apreciem ou indignem-se. Se assim for voltem cá, que haverá sempre quem faça melhor do que eu...

JdB




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