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02 setembro 2024

Dos Setembros da minha juventude

 

September

The sun shines high above
The sounds of laughter
The birds swoop down upon
The crosses of old grey churches
We say that we're in love
While secretly wishing for rain
Sipping coke and playing games 

September's here again
September's here again

* música partilhada ontem no Linkedin pelo meu amigo João Silva, e que eu não conhecia.

***

Em Julho de 2016 escrevi um texto para a Raquel, mulher do JdC, texto esse que girava à volta de uma história passada com ela em Moçambique: os miúdos apareciam-lhe em casa e, quando lhes era perguntado o que queriam, respondiam kungokhala (uma palavra que em Chichewa quer dizer só ficar) . 

Fui repescar uma parte desse texto (quem quiser ler o post completo pode fazê-lo aqui) porque fala dos Setembros da minha juventude, e a lembrança desses tempo é uma espécie de regresso a casa. É um texto saudosista, eu sei, mas, como digo sempre, o passado é certo, o futuro não existe até prova em contrário. 

Dino Meira compôs uma música a que chamou O meu querido mês de Agosto, Ruy Belo escreveu um poema que intitulou Como se estivesse em Agosto. Para mim, e roubando o título de uma crónica antiga de João Bénard da Costa, os dias de Agosto são dúbios. Certos, certos, como o são as minhas memórias, são os meses de Setembro. Eis, pois, o excerto que fala dos Setembros da minha juventude. Para algumas pessoas, a juventude é um local imaterial de refúgio para momentos atribulados. 

***

Penso que já terei escrito algo sobre este aspecto das minhas férias de juventude: durante alguns anos, talvez dos 13 até aos 24 ou 25 passei férias regulares em casa de amigos e primos no Alentejo. Era Setembro, e a casa enchia-se de gente, do cheiro a petróleo que substituía a electricidade, da emoção dos cigarros fumados às escondidas, do odor a sopa de cação ou de beldroegas, da música ouvida num pick-up a pilhas ou dos devaneios adolescentes de uma ida a Badajoz. Lembro-me de me perguntarem o que fazíamos lá durante um mês. A minha resposta repetia-se com a monotonia que advém das convicções: nada! E é por isso que é tão bom.  

De facto, não havia grandes actividades, para além do pingue-pongue, dos jogos de gamão ou das idas à terra local ver a novela ou passear um bocado, das excursões a Vila Viçosa pendurados na boleia que substituía os carros inexistentes. Usando uma conjugação verbal já aplicada neste estabelecimento, estava-se. No fundo, ficávamos, e nada havia de mais feliz nessa dimensão de aparente inactividade. Não estávamos obrigados à agitação, não queríamos agitação para além daquela que já tínhamos. Queríamos algo que não se ligasse obrigatoriamente ao frenesim, à necessidade de programas diários, à agitação do corpo ou da mente. Estávamos,  e isso dava-nos - ou dava-me, pelo menos - uma tranquilidade enorme e uma felicidade cujas razões só tarde percebi. Queríamos estar, porque encontrávamos nessa realidade aquilo que cada um precisava, ditado pela ingenuidade ou pela necessidade do subconsciente. Aquela casa era o nosso mundo. Ou era o meu mundo. 

***

Já no final do poema referido, e referindo-se ao seu Agosto, diz Ruy Belo: 

Agosto não é a pura palavra não é determinada designação para um tempo
onde cada uma dessas coisas anualmente se encontra comigo
Agosto são talvez estas palavras todas onde me perco onde procuro pôr os meus passos
onde afinal penso que permaneço um pouco mais do que no frágil edifício dos dias

Subscrevo tudo, se o poeta, lá na eternidade onde vive, me deixar substituir Agosto por Setembro

Setembro começou, para mim, em 1971. Se à chegada àquele meu Alentejo me tivessem perguntado o que é que eu queria, a resposta seria óbvia: kungokhala. Bom Setembro para todos.

JdB 

02 setembro 2021

O luto de uma vida não cabe em 5 dias

Setembro é, um pouco por todo mundo, o mês de sensibilização para o cancro pediátrico. Em Portugal a Acreditar decidiu lançar uma petição que pretende aumentar o período de licença por luto parental de 5 para 20 dias. Sim, perceberam bem: há anos (sei lá quantos) que o Estado dá 5 dias de nojo a quem perde um filho - o mesmo que para Pais e Sogros. Poderia discorrer aqui sobre o assunto, mas talvez seja preferível deixar um texto escrito na página da Acreditar, um link para um texto da Lusa publicado no Observador (pode ler aqui) e um link para a página onde poderá assinar a petição e obter mais informações e testemunhos. 

Assinem e divulguem, já agora.

JdB

O luto de uma vida não cabe em 5 dias

Dedicamos este Setembro Dourado - mês internacional de sensibilização para o cancro pediátrico, aos cuidadores.

Na Acreditar acompanhamos milhares de pais que se confrontam com a doença oncológica dos seus filhos, um percurso de uma exigência tremenda para a família.

Porque a taxa de sobrevivência ainda é de 80%, é também nossa missão apoiar e defender os direitos dos pais que perdem os seus filhos.

Lançamos agora a petição que propõe o alargamento do período de luto pela perda de um filho para 20 dias, sendo que a legislação prevê actualmente apenas 5 dias consecutivos.

Mesmo quando o retorno à vida laboral é um contributo positivo para o processo de luto, este período não chega. O luto parental é uma das experiências mais traumáticas, um processo intenso, complexo e que pode durar uma vida.

5 dias é um tempo manifestamente insuficiente para se fazer o luto de uma vida.

Uma sociedade mais solidária e justa tem de dar tempo aos seus. 5 dias é pouco.

https://www.peticaolutoparental.com/



03 setembro 2019

Dos setembros

Desde 1971 - ou 72, talvez - que o mês de Setembro me é favorável, afectivamente favorável. Já lá vão quase 50 anos mas, na verdade, não tenho uma profusão imensa de acontecimentos setembrinos a reportar. Tenho, isso sim, momentos - episódicos ou continuados - muito marcantes. Eu conto brevemente, para não afugentar os meus benevolentes leitores.

Entre os 13 e os 25 anos, talvez, passei grande parte do mês de Setembro no Alentejo, em casa de parentes e amigos. Desse tempo recordo muita coisas: a ausência de luz eléctrica, o cheiro dos candeeiros a petróleo, a rotina de acendê-los, a ausência de televisão, os cigarros às escondidas, a mata (uma vegetação verdejante mas estranha, dado o facto de se estar no coração do Alentejo) e o adro - sobretudo o adro - onde tanta coisa se passava, sem que nos mexêssemos muito. Era um tempo familiar - e era ali que me sentia em família, por motivos que não vêm agora ao caso. 

Os setembros alentejanos eram tempos lentos, demorados. Uso estes dois adjectivos porque tenho vindo a ler livros sobre a aceleração do mundo, a rapidez da vida, a hiper-conectividade, e o que isso tem de implicação para um determinado modelo de vida. Qual o antídoto? A lentidão, a demora, tudo o que permita fugir-se ao ruído, a uma sociedade sonoramente desorganizada que não permite a contemplação das coisas. Aqueles setembros eram lentos - o tempo ainda era lento. Foram tempos muito felizes e os meus anfitriões daqueles dias sabem que lhes devo isso.

A alegria do setembro continuado está explicada acima. Porém, hoje, mas há 11 anos, eu subia ao monte sagrado de Ngomakurira, nos arredores de Harare. Poucos episódios instantâneos (no sentido de se terem verificado num dia) me causaram uma impressão tão duradoura. (Poderão ler a crónica aqui) Eu sei que o meu estado de espírito naquele tempo era propício, mas nada me tinha preparado para aquele dia - a caminhada, a vista, a comoção da beleza, o sossego interior; e ainda, porque não há coincidências, o facto de ter conhecido uma pessoa que não mais voltei a ver, e que numa conversa de 15 minutos me levou a falar de crianças com cancro e me mostrou a ala pediátrica local.  

Montanha sagrada de Ngomakurira, 3 de Setembro de 2008

Os supermercados estão cheios de regresso às aulas, campanha que faz sentido agora. O meu regresso é outro, ainda que com encanto semelhante, para quem gosta de voltar à escola.

JdB

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