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20 agosto 2020

Do que somos e do vocabulário

Há, entre os membros de uma determinada comunidade (que pode ser um país) um vocabulário comum, constante dos dicionários mais triviais: é aquilo que nos permite, ao nível de uma sociabilidade genérica, pedir, perguntar, responder, comentar. Traduz o que aprendemos em casa, na escola primária, no liceu, na convivência com família ou amigos; é uma linguagem não técnica, um não-jargão, pese embora a possibilidade de jargões familiares. 

A escolha de uma determinada actividade (advogado, canalizador, mecânico, enfermeiro, engenheiro, doceiro) permite o acesso a um vocabulário diferente, mais alargado, porém mais específico: é o que nos possibilita manter uma conversa mais técnica entre pares, ou graças a um fenómeno a que se chama curiosidade, entre singulares diferentes: um engenheiro electrotécnico a falar de relés com um engenheiro electrotécnico, mas também um advogado a discutir travões de disco com um mecânico. 

Entre o detentor do mister e o vocabulário estabelece-se uma relação biunívoca. Por um lado, ao atingir-se um determinado patamar de experiência, alcança-se um nível suplementar de vocábulos; isto é, a prática da doçaria provê o acesso a um conjunto diferente de expressões: ponto de espadana, açúcar mascavado, massa lêveda. Ou seja, quanto mais experiente se é, mais termos se dominam. Por outro lado, a posse crescente da linguagem técnica expande uma certa consciência do indivíduo: o domínio do ponto pérola permite manter uma discussão sobre a manufactura de compotas. O mundo alarga-se por via da possibilidade de diálogo.

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O estabelecimento de uma relação entre o que fazemos e o vocabulário que utilizamos é, dir-se-ia, auto-explicativo. Parece-nos normal que um advogado utilize expressões como enfiteuse ou usucapião, mas talvez nos surpreenda ver o mesmo advogado a utilizar expressões como anisocoria ou esplenotomia, mais do domínio da prática médica. Contudo, podemos ir mais longe e procurar uma relação entre o que somos e o vocabulário que utilizamos. Somos preguiçosos, coléricos, generosos, românticos, egoístas, socialmente distantes ou com aversão ao contacto físico; gostamos de meditação, de agitação, de silêncio; somos perfeccionistas ou não queremos estar parados. 

Tudo isto, não sendo, em bom rigor, um mister, tem-lhe associado um vocabulário que, como vimos acima, é causa e consequência da influência no agente. O romântico usa expressões como amor ou quero dar-te a minha liberdade; as pessoas que se realizam a fazer coisas usam expressões como sextavado, com menos frequência grosa ou, amiúde, ainda não parei um minuto desde que acordei. Tal como o engenheiro gosta de usar expressões como indutância ou electroíman, o avesso ao contacto físico usa, sem incómodos de maior, expressões como distância ou hoje ainda não, que amanhã também tenho de levantar-me cedo.     

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O que fazemos ou o que somos configura o vocabulário que usamos, sendo que a inversa também é verdadeira: as expressões traduzem sentimentos tanto como induzem sentimentos. Assim como não podemos evitar expressões como motor ou sistema de biela-manivela se habitarmos o mundo da engenharia de máquinas, dificilmente poderemos usar a expressão amo-te se não sentirmos desejo de tocar o outro; inversamente, se tivermos um certo horror ao contacto físico dificilmente nos ocorrerá dizer amo-te, derivado a um total desfasamento entre emoção e discurso. Ao contrário do discurso técnico, o discurso afectivo é uma retórica, uma técnica antiga (para Cícero, com vista a persuadir, provar e entreter) que utiliza palavra e gesto. Perceber a coerência entre um vocabulário e um feitio não é uma perca de tempo; é descortinar uma (in)coerência que nos explica muito do outro. 

Dá-me o teu dicionário e eu dir-te-ei quem és. 

JdB

21 dezembro 2018

Do vocabulário

Ao nível do indivíduo, as diferenças de entendimento de uma mesma palavra ou de um mesmo conceito são enormes. Alguns exemplos, apenas: aquilo a que eu chamo conservação de energia outra pessoa chamará preguiça; uso muito a expressão dívida de amizade; há quem não goste da expressão, dando-lhe um carácter menos positivo. Em bom rigor, neste último caso não me sinto obrigado a nada nem a ninguém. Sinto, isso sim, que relativamente a algumas pessoas fui beneficiário da sua atenção numa altura específica, e que isso me ficou no coração. Só talvez não possa ser devedor porque não sei se conseguirei pagar a dívida... 

Por último, um dia destes dei por mim a referir-me a uma qualidade grande que certa pessoa tinha: gratidão. Esta pessoa agradece sistematicamente o apoio, atenção e confiança que determinada família lhe deu ao longo de mais de duas décadas. Simpatizo com a ideia de gratidão, embora alguém me diga que não gosta de sentir que as pessoas lhe agradecem alguma coisa. Se acharmos que os outros não devem agradecer-nos nada, será que conseguimos agradecer-lhes convenientemente?  

Num outro plano há, entre o nosso vocabulário e aquilo que somos e fazemos, uma relação biunívoca importante: a maneira como agimos afecta o nosso vocabulário, mas o vocabulário que utilizamos também afecta aquilo que fazemos. Isto é, nas palavras de um orgulhoso empedernido, a expressão perdão faz pouco sentido (e talvez ele nunca a use), mas, se utilizarmos persistentemente a expressão perdão talvez acabemos por incorporar o seu conceito no nosso léxico comportamental. 

Também pelo referido acima é importante, para quem é crente, a frequência da igreja. De tanto ouvirmos expressões como serviço, próximo, amor, compaixão, acabamos por interiorizar a necessidade de os materializarmos em actos constantes. É muito por isso que alguma abordagem actual aos problemas alheios assentam em ideias que me são desconfortáveis, porque muito voltadas para o próprio: tens de ser feliz, tens de pensar em ti, tens de olhar para o que é bom para ti. Esta atitude de pensar primeiro em nós próprios talvez só seja válida nos aviões: em caso de despressurização da cabine, só depois de colocarmos a nossa própria máscara de oxigénio é que deveremos por a de uma criança. O léxico cristão (por oposição a um certo léxico laico) usa expressões mais voltadas para o outro, para o próximo, para os que sofrem ou precisam mais. 

A bondade - no seu sentido mais genérico - não é privilégio nem monopólio dos crentes. Mas há uma importância no vocabulário que usamos no dia a dia. Será muito difícil sermos santos se nunca proferirmos a palavra; será muito difícil percebermos o conceito de ajuda se nunca a pedirmos, alegando os mais diversos motivos.

JdB

   

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