12 janeiro 2011

Moleskine

Numerologia. Ontem o dia poderia ter-se escrito 11.1.11. Uma capicua. Mão amiga escreveu-me lembrando a data – em tamanho 111. Dizem que o número 11 tem significados importantes sobre os quais a minha vasta ignorância nada sabe. De facto, o que não sei encheria várias bibliotecas. Se alguém quiser iluminar-me agradeço. Lembro que ensinar os ignorantes é uma obra de misericórdia.

Texto. Várias mãos amigas mandaram-me um texto do Padre Tolentino Mendonça sobre o tempo. Retiro um excerto (bolds no original): Nós dizemos, repetindo um provérbio que os latinos já usavam, que o tempo voa (tempus fugit). De facto, tudo o que é humano é feito de tempo, mas a experiência que mais vezes nos ocorre é a de não termos tempo. «Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante para ti», explicou a raposa ao Principezinho. Há uma qualidade de relação que só se obtém no tempo partilhado. Por alguma razão, esse raro Mestre de humanidade chamado Jesus, disse: «Se alguém te pede para o acompanhares durante uma milha, anda com ele duas». Só com tempo descobrimos tanto o sentido e a relevância da nossa marcha ao lado dos outros, como o da nossa própria caminhada interior. Sem tempo tornamo-nos desconhecidos. Sem tempo falamos, mas não escutamos. Repetimos, mas não inventamos. Consumimos, mas não saboreamos. É verdade que mesmo num rápido relance se pode alcançar muita coisa, mas normalmente escapa-nos o detalhe. E Deus habita o detalhe.

Festa. Sábado à noite, num espaço do Estoril. Por trás do balcão, dois cavalheiros mascarados de gueixas, abanando um leque displicente; em cima de umas colunas, jovens esculturais, aladas de luto, oferecem aos convidados umas flutes de champanhe pretas, sem base, com um pé em forma de estilete que, nas mãos do manequim de Cantanhede, vazariam uma vista. Num âmbito diferente, desde o karaoke no Pointe de Harare que não via uma misturada tão grande de pessoas: orientais, negros, judeus, gente de calças de ganga lado a lado com smoking e vestido comprido, o ilustre desconhecido ao lado da gente chique de Cascais; Nova Iorque, Londres e, quem sabe, Atibá em alegre confraternização. O mundo social não pára de me surpreender ou, numa visão mais realista, sou pouco mais do que um saloio.

Pensamentos. Nas últimas semanas almocei com primos com quem raramente estou, mantive longas e interessantes conversas de volta de um cigarro alheio, perdi e ganhei à mesa de cartas, conheci gente nova que espero se mantenha por aí, vi outros que se transfiguraram num encontro casual e que poderia ter sido fugaz; estive com pessoas de quem me considero amigo, que fecham um ano profissional e afectivo particularmente difícil, mas que não transgridem com a ética, reforcei ligações afectivas de ontem e de hoje. Gosto de olhar para tudo isto, minúscula amostra do que me é relevante, e realizar que a vida, apesar de tudo, tem sido generosa comigo. Qual o interesse deste parágrafo? Nenhum, provavelmente, para a maioria de quem me lê. São importâncias para mim, editor e dono deste estabelecimento.

Músicas. sete minutos e trinta e um segundos de contacto com o sobrenatural. Fechem os olhos, respirem e gozem. Se isto não é Beleza não sei o que é.



JdB

10 janeiro 2011

Hiper-Espaços

Desde 2008 que, durante cinco dias, Nova Iorque é palco de uma série de palestras, conversas, discussões e exposições. Este certame tem o nome pomposo de World Science Festival.

Durante cinco dias as ciências, desde a física até à biologia, passando pela matemática e pela neuro-biologia, são o tema em foco. No site pode ler-se que a missão deste World Science Festival é to cultivate and sustain a general public informed by the content of science, inspired by its wonder, convinced of its value, and prepared to engage with its implications for the future.

O site disponibiliza alguns vídeos e até algumas palestras completas. Uma das que podemos ver do princípio ao fim tem como título Hidden Dimensions: Exploring Hyperspace. E sim, o conteúdo é tão complexo como o título sugere. Durante os primeiros vinte minutos senti-me um potencial Einstein, mas depois dessa sobrecarga o meu cérebro voltou ao normal, e o resto do tempo foi passado a abanar a cabeça e a fingir um ar entendido e convencido, como se os oradores convidados me pudessem ver do outro lado do ecrã.

Nesta palestra pretendia discutir-se a possibilidade (ou facto confirmado, fiquei sem perceber muito bem) de existirem mais dimensões do que as três a que estamos habituados. Já não basta a altura, largura e profundidade, ou x, y e z, numa notação mais matemática, temos ainda mais uma série de dimensões que estão escondidas e não conseguimos ver.

O orador comparou depois estas dimensões adicionais, estes hiper-espaços, a uma obra musical que, confesso, eu não conhecia. Disse que, tal como as notas desta obra, os hiper-espaços se tentam soltar da matemática para dar sentido às teorias propostas. Mexem-se de um lado para o outro, dão cotoveladas, saltam, fazem força, empurram. Tentam sair. Tentam fugir. E é muito fácil entender esta comparação se ouvirmos a obra em questão.



Muitos dos cientistas que iniciaram estas teorias são considerados visionários, pessoas que, com o pouco que se conhecia na altura, olharam e viram muitos anos à frente. Depois destes oito minutos, é seguro dizer que também Beethoven era um visionário na sua ciência.

SdB (III)

Fórmula para o caos

Passados 15 dias desde a última referência, a campanha presidencial segue o seu caminho decadente, inócuo e desprestigiante para a democracia portuguesa.

Em lugar de se discutir os problemas do país e apresentar propostas para os resolver, são dois bancos (por sinal, falidos) que dominam a actualidade e o dia-a-dia dos candidatos. Tendo entrado como um outsider na corrida a Belém, foi Defensor de Moura quem despontou todo este frenesim à volta de uma compra de acções por parte de Cavaco Silva. Pode-se concordar ou não ideologicamente com o Cavaco, pode-se estar frontalmente desiludido com o seu primeiro mandato, pode-se criticar o seu artificial distanciamento da actividade política, mas a sua honestidade e seriedade é inatacável!

Desde que se deu a conhecer ao país como ministro das finanças de Sá Carneiro, e já lá vão mais de 30 anos, nunca surgiu um caso polémico que envolvesse o ex-líder do PSD.

Ao meu juízo, considera-se bem mais gravoso o discurso encetado por Alegre na noite de Sábado. O candidato apoiado por BE e PS disse : "A abstenção que fique à direita, porque neste lado é hora de unir, de somar e de mobilizar à esquerda". Mesmo que tenha sido o desespero eleitoralista o motor desta afirmação, fica claro que o

poeta de Águeda nunca poderá ser o presidente de todos os portugueses, mas apenas dos que se situam no seu espectro político, que é bastante à esquerda do actual PS. Para Alegre, a abstenção à direita é um dado positivo.

Não deixa de ser irónico que tenha sido o próprio Manuel Alegre quem acusou Cavaco de representar uma minoria Liberal-Conservadora e não os globais interesses nacionais.

E como esta nova moda politiqueira de vasculhar os baús poderá seguir um caminho perverso, e contrário ao esperado pelos iniciadores da dita moda, fica aqui um texto escrito em 1970.

A solidariedade de que os movimentos de libertação nacional carecem é do mesmo género da que é prestada pelos Estados imperialistas ao Governo Português, é uma solidariedade concreta e material, é o fornecimento de pelo menos uma arma de fogo a cada combatente, de munições a cada guerrilheiro, de uma cama de hospital para cada ferido, de livros e cadernos para cada estudante.
Não basta reconhecer sem ambiguidades o direito dos povos africanos sob o domínio colonial português à independência nacional imediata e incondicional. Na nossa boca de portugueses isso representaria ainda menos do que as boas palavras daqueles que limitam a reconhecer-nos o direito de nos batermos contra o fascismo e o capitalismo em Portugal para construirmos o socialismo no nosso país, sem nada fazerem para nos ajudarem a atingir esses objectivos.
(…) O nosso dever de fazermos no nosso país a verdadeira revolução: a revolução nacional anti-fascista; anti-colonialista e anti-imperialista, que apenas poderá realizar-se, se for, ao mesmo tempo, uma revolução socialista
Argel, 23 de Junho de 1970
Manuel Alegre e outros membros da Direcção da FPLN


Para complementar estas elucidativas palavras sovietizantes, ficou-se a saber que o candidato Coelho, apesar de representar o PND (partido de Direita) na ALM, foi militante do PCP e em 1981 deslocou-se à URSS para ser agraciado com um prémio.
A este circo, todos os palhaços são bem-vindos.

Pedro Castelo Branco

09 janeiro 2011

Domingo .... Se Fores à Missa ! (post sui generis)

Jesus, sendo Rei, Filho Unigénito de Deus, confunde-se com os pecadores do Seu tempo e submete-se ao baptismo de penitência de João, num gesto de humildade, que enche de admiração o Seu Pai. O Pai glorifica-o, proclamando que ele é o Seu Filho muito amado.

A leitura de hoje fala-nos de uma das qualidade mais difíceis (a meu ver) de manter nos dias de hoje : a Humildade.

Estas duas linhas de texto são tudo o que sobrou de um outro texto, com 30 ou 40 linhas (que eu acabara de escrever, com todo o carinho e empenho para o Adeus) e que, por razões informáticas que nem me atrevo a tentar perceber, misteriosamente, desapareceu do meu ecrã. Podem imaginar a raiva, a irritação, a frustração. Tinha eu acabado de redigir um verdadeiro ensaio sobre a humildade, a tolerância, a arrogância, a vaidade e afins ….. e eis senão quando zasp trazp catruz zzzzt…… escafedeu-se o dito. Passei as 2 horas seguintes, feita louca, a procurar o ficheiro nos meandros mais recônditos deste bicho assassino chamado computador. Descobri-lhe caminhos, sub-caminhos, vielas e ruelas que nunca tinha visto. Buscas automáticas, pesquisas avançadas, reciclagens, caixotes de lixo, tudo passei a pente fino e nada, nicles, batatoides. Já perto da meia-noite desisti das buscas e aceitei o inaceitável: o ficheiro tinha-se perdido para sempre e se o quisesse reconstituir teria de pensar e reescrever tudo.

Acredito na máxima: “nada acontece por acaso” e também sou daqueles que acredita que a crise traz oportunidades. Por isso, passada aquela primeira fase de irritação misturada com incredibilidade, pensei que, se calhar, poderia aprender qualquer coisa com a perda do ficheiro. Com esse pensamento na mente, fui-me deitar serenamente, passei o dia de hoje sem stress embora várias vezes me tenha lembrado do (raio) do ficheiro e do facto de ter de preencher este espaço de Domingo. Mas, estranhamente, consegui lidar com isso sem ansiedade e sem irritação.

À hora que escrevo estas linhas ainda não percebi bem qual terá sido a aprendizagem, salvo o facto de ter descoberto, em mim própria, uma maior capacidade de tolerância aos contratempos. Ou então, talvez não haja nada a aprender e, ironia das ironias, este texto simples e sem grande conteúdo, que estou a escrever, expressa muito melhor o tema de hoje – humildade – do que as 300 palavras eruditas e intelectuais que compunham o ficheiro apagado.

Domingo, Se Fores à Missa …… Faz ‘Save’ da Homilia (não vá ela perder-se durante a semana)

Maf

Evangelho segundo S. Mateus 3,13-17.

Então, veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João, para ser baptizado por ele.
João opunha-se, dizendo: «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?»
Jesus, porém, respondeu-lhe: «Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça.» João, então, concordou.
Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado.»

08 janeiro 2011

O musical Wojtyla

O musical WOTJYLA nasceu integrado num projecto de homenagem ao Papa João Paulo II, desenvolvido pela Paróquia de Cascais, por ocasião do Ano Sacerdotal. Este grupo nasceu com o objectivo de produzir e realizar um espectáculo musical com fins beneméritos. Teve a sua estreia no dia 18 de Maio de 2010, no Estoril, e esteve em cena durante 7 dias, sendo que dois destes dias foram sessões extras a pedido do público.

Dado o enorme impacto que o musical causou, aliado ao facto de termos tido variados pedidos para repor o espectáculo, pouco hesitámos ao avançar para a reposição quando a ATT (Associação para Tratamento das Toxicodependências) nos lançou o desafio. Assim surgiu, de novo, o musical WOJTYLA.

O espectáculo é cantado e dançado ao vivo.

(Mais informações aqui)

Pensamentos impensados

Crime com dolo chama-se doloso; já crime com dólares é doloroso.

Músicos que toquem um requiem têm de estar afinados, quando não é toque a finados.

Não sei se em Itália há presidentes de câmara; o Berlusconi é presidente de cama.

Qualquer programa de televisão é patrocinado.
Sugiro o seguinte programa: Orçamento do Estado latrocinado pelo Ministério das Finanças.
O filme Morte em Veneza terá sido patrocinado por alguma agência funerária?

What's in a name
Nasceu numa família pobre e cedo foi engrossar as hostes do trabalho infantil; começou como trolha, depois tornou-se pedreiro e o lógico passo seguinte foi ascender a pato-bravo.
Quando nasceu e o registaram puseram-lhe o nome de Henrique Cimento.

Inglês outra vez
Take the little horse out of the rain - tira o cavalinho da chuva
Wind the little shoes - dá corda aos sapatinhos.
Come to timber and meet Albert J. Garden - Venha à Madeira e encontre-se com Alberto João Jardim.

Ouvi num canal de TV falarem em novas tradições; acho graça mas não percebo; deve ser qualquer coisa do género saudades do futuro a que também acho graça mas não percebo.

SdB (I)

07 janeiro 2011

the 2010 literary supplement - os meus livros do ano

ficção:
inverness, ana teresa pereira
franny e zooey, j.d. salinger
pergunta ao pó, john fante
os objectos chamam-nos, juan josé millás
um repentino pensamento libertador, kjell askildsen
correios, charles bukowski

poesia:
o mundo não acaba no frio dos teus ossos, rosa alice branco
o pajem formidável dos indícios, alberto de lacerda
riscava a palavra dor no quadro negro, luis quintais
erros individuais, josé miguel silva
mulher ao mar, margarida vale de gato
novas memórias de ansiães, a.m. pires cabral
disse e repito, antónio manuel couto viana
restos de quase nada e outras poesias, antónio manuel couto viana
a última porta (colectânea selectiva), manuel de freitas
santo súbito, miguel-manso
matriohskas, carlos contreras elvira
lo más importante es saber atravesar el fuego, charles bukowski
arder en el agua ahogar-se en en fuego, charles bukowski
um circo no nevoeiro, renata correia botelho

ensaio:
ó, nuno ramos
ágape, agonia, william gadis
aula de poesia, eduardo pitta
joão césar monteiro, as folhas da cinemateca

literatura de viagem:
morte na pérsia, annemarie schwarzenbach
paris, julien green
o japão é um lugar estranho, peter carey
disse-me um adivinho, tiziano terzani

indefinido:
des histoires vraies, sophie calle

memórias / autobiografia:
navegação ponto por ponto, gore vidal

técnico:
como recuperar empresas em dificuldades ('turnaround' em portugal), rogério ferreira do ó

desenho:
diários de viagem - desenhos do quotidiano, 35 autores contemporâneos (organização de eduardo salaviza)


..e os
PRÉMIOS 2010 vão para..

título do ano
riscava a palavra dor no quadro negro, de luis quintais

ovni(s) literários do ano
ó, de nuno ramos
des histoires vraies, de sophie calle

desconforto(s) do ano
morte na pérsia, de annemaria schwarzenbach
as recensões críticas de
meridiano de sangue, de cormac mccarthy (quanto mais o livro..)

personagem de ficção 'bigger than life' do ano
arturo bandini, brilhante, comovente, inesquecível criação (e alter-ego) de john fante

prémio 'perfect-as-perfect-can-be' do ano
o conto franny, de j.d. salinger, umas dezenas de páginas cujo grau de excelência pertence ao domínio do maravilhoso e do sublime..

o que não li e que gostaria de ter lido
pão com fiambre, de charles bukowski
a beleza e a tristeza, de yasunary kawabata
depois da chuva, de william trevor
uma antologia de poesia chinesa, na tradução de gil de carvalho
as aventuras de augie march, de saul bellow


e, finalmente, os
GRANDES PRÉMIOS do meu 2010 literário..

livro(s) do ano (ex-aequo)
pergunta ao pó, de john fante

disse-me um adivinho, de tiziano terzani


ó, de nuno ramos

gi

06 janeiro 2011

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, I hope you are not too disappointed if you were expecting another wonderful article by PCP. Normal service will resume next week.

Today I wish to commemorate Scottish singer-songwriter Gerry Rafferty who sadly died on Tuesday. Probably his name rings a distant bell to many of you but maybe you cannot link him with particular songs. However, I am certain that all of you will know the classic Baker Street for which he will always be remembered. For he was one of those unassuming, faceless artists who detested fame and the music "business" and wanted to be respected only through his music. Unfortunately he struggled personally to deal with this "business" and became a rather sad and lonely alcoholic for the last years of his life. Fortunately for us, with his distinctive voice and his ear for beautiful melodies and sophisticated production, he has left a legacy of wonderful songs. .As he himself said, whatever's written in your heart is all that matters.



From the same City to City album came his beautiful gospel influenced ballad Whatever's Written In Your Heart:



Finally, a song that should touch with cold fingers the soul of anyone who procrastinates. A good resolution fot the New Year: Don't go through life waiting, act now. Better to do something than nothing. There is no such thing as "the right moment"...



A proxima.
PO

05 janeiro 2011

Moleskine (II)

Enviado por mão amiga e muito a propósito destes tempos em que ainda podemos desejar Bom Ano. A partir de Domingo é outra fase...

Moleskine

Pensamentos peregrinos. Quando comecei a discernir sobre as coisas, os velórios eram cerimónias pesadas, que se arrastavam durante a noite num silêncio só vencido pela ladainha dos terços. Agora, passados tantos anos sobre esse discernimento, percebo que os velórios são curtos ao limite da legislação, as pessoas riem de volta do finado e as avé-Marias (rezadas pelas tias que sobram) são abafadas, num desrespeito quase herege, pelas conversas circundantes. No outro dia, num jantar de amigos, questionava-me: daqui por 30 ou 40 anos ainda haverá velório ou, neste horror que temos à morte, os cadáveres seguirão directamente do hospital para o crematório, passando apenas pelo facebook para condolências?

Livro. Leio Ó, de Nuno Ramos (Livros Cotovia, 2010), oferecido por mão amiga e entendida na matéria. Cito: Admiro quem responda à pergunta fatídica O que é que você tem feito? com um Não sei ou um Nada, e mais ainda quem nem sequer responda, entretido com a longa fila de formigas ou as espirais de fumaça de algum veículo.

Música. Lembro o jantar que mencionei no início. Fala-se de crooners, do seu significado, deste e daquele cantor. Menciono Tony de Matos com um dos nossos maiores, e a minha devoção patriótica é recebida com uma gargalhada alvar de desprezo vendido ao anglo-saxonismo da canção moderna. Não me rendo e defendo a minha dama (passe a expressão). O gargalhar não diminui mas eu venço, porque sou o editor e o dono do estabelecimento.


04 janeiro 2011

Janeiro

Não, não sou subversivo, revoltado ou adiado, muito menos pseudo-indie ou neo-espertalhão e, ainda que claramente lúcido sobre a surpresa que será o meu tom de hoje, não hesito em presentear os ávidos leitores com algumas declarações de soberba má vinha. Não gosto do corrente mês nem pintado de ouro e defendo firmemente que Fevereiro vem a seguir a Janeiro, não porque quer, mas porque, sendo o mais pequeno, foi obrigado pelos grandes a sentar-se ao pé dele.

Janeiro cansa-me até à exaustão, ano sim, ano também e chegar ao fim do primeiro mês de todos é, geralmente, sinónimo de férias curtas que azedaram antes de serem comidas. Prefiro não fazer uso deste espaço para, numa catarse abrutalhada, discorrer sobre o meu mau perder e a minha vontade de, nada metaforicamente, esganar um mês. Por isso, e ainda que sejam perfeitamente razoáveis, as minhas motivações não se vão tornar domínio público.

De qualquer forma, e para que ninguém se equivoque, eu, mansinho de nascença, mordo em Janeiro. E não, não é da lua.

ZdT

03 janeiro 2011

Explicação e desejos

Já terão reparado na evidente desformatação de alguns textos que são aqui publicados no Adeus... Os mais desinteressados não ligarão; os mais críticos referirão a baixa qualidade do blogue em questão; os mais curiosos indagarão do porquê deste fenómeno. Responderei aos últimos: não sei. Não sei se é do texto original, da forma como arrasto ou copio e colo, se uma embirração pessoal do (ou da?) blogspot. Lamento, mas não sei fazer melhor. Aceito que me expliquem, mas não estou em condições de pagar as explicações. O IVA já subiu e a crise, sabem...

Aproveito para renovar, aos que nos lêem e aos que aqui escrevem, os desejos de um Bom Ano Novo.

JdB (o editor e dono do estabelecimento)

Vai um gin do Peter’s ?

Se hoje Gaspar, Melchior e Baltazar quisessem descobrir o Menino que uma boa estrela lhes anunciava, como fariam?

Um divertido filme (numa simplificação que lembra ligeiramente os fantásticos Monty Phython) propõe-se recontar essa história memorável, em versão tecnologicamente actualizada, à base de google, facebook e milhões de tiques e truques do nosso dia-a-dia… Quem não se reconhece nestas mensagens meias stressadas a organizar agendas e a promover eventos em grande aceleração?




Um outro filme, destinado a espectadores dos 8 aos 80, entrou em cartaz para a época do Natal – a última Crónica de Nárnia, baseado em mais um conto do grande escritor britânico (nascido na Irlanda do Norte), C.S. Lewis, muito amigo do autor da trilogia «Senhor dos Anéis» (J.R. R.Tolkien).

C.S. Lewis (1898-1963), nascido na Irlanda do Norte

«As Crónicas de Nárnia: A Viagem do Caminheiro da Alvorada»(1) é exaltado pelo próprio marketing por nos abrir à esperança: «return to hope, return to magic, return to Narnia». É o que se chama um «filme com alma», como disse o realizador, Michael Apted. Por isso vem tanto a propósito nesta época do ano. É assim a terra do grande leão Aslan, o país das crianças, antecâmara do mundo real (esse outro feito à medida dos adultos, inquinado por combates capciosos, encapotados, turvos). É na terra de Aslan que os mais novos se preparam para mais tarde reconhecer o seu amigo leão, com outro rosto! «Agora, é a altura de se reaproximarem do vosso mundo

«Mas como poderemos viver sem te voltar a encontrar?» Lucy a Aslan.

«Vão voltar a ver-me. (…) Só que ali tenho outro nome. Precisam de aprender a reconhecer-me por esse outro nome. Foi essa a razão por que vieram a Narnia, para que conhecendo-me melhor aqui, me possam reconhecer melhor na vida (real)

As empolgantes aventuras da valente tripulação do galeão do Príncipe Caspian são, sobretudo, uma demanda profunda pelo sentido da vida, pelo crescimento em conjunto, pela busca da identidade individual. Mas sempre sob o lema um por todos, todos por um, incluindo os mais desengraçados e até sabotadores. É expressiva a aula de esgrima que o sábio rato Reepichee dá ao chatíssimo e presunçoso primo de Lucy e Edmund – o irritante Eustace. Ele é o protótipo de uma certa abordagem fria e pragmática, cínica e muito céptica, atarracada e algo calculista, defensiva e q.b. mesquinha, individualista e obviamente egocêntrica – igual a um daqueles adultos desencantados da vida, só que em ponto pequeno. Nada recomendável mas, infelizmente, bastante comum. Apanágio de todos os sobreviventes. A sua deixa favorita era exigir a presença do Cônsul Britânico para o resgatar do estranho destino a bordo de um navio onde um minotauro ocupava lugar de destaque na tripulação! Convenhamos que para um rapazinho pouco adepto de fábulas e de contos infantis, tudo aquilo era um verdadeiro excesso.




Um dos diálogos finais explica bem a atitude de vida mais saudável, nos antípodas do Eustace da fase em que ainda se levava muito a sério:

- «Bem-vindo, Príncipe», saudou Aslan, «Sentes-te apto para ser o Rei de Nárnia?»

- «Eu, Sir, não me parece…», assumiu Caspian, «sou apenas uma criança

- «Óptimo», retorquiu Aslan, «Se te sentisses capaz, era a prova de que não serias.»

O mais espantoso de tudo é a generosa pedagogia de Aslan, magnânimo a prodigalizar novas oportunidades para recuperar os mais renitentes. A fé na possibilidade de cada um é tão extraordinária, que só isso nos reconcilia com a raça humana.

Bondosamente, Aslan vem em socorro de Lucy, quando ela entra numa alucinação autodestrutiva, pura miragem: «Lucy, que fizeste, filha?» – ajudando-a a acordar do pesadelo em que se deixara enlaçar – «… Só tens de ser tu própria!». Um chamamento confiante (na voz poderosa de Liam Neeson), como só um pai sabe fazer, que lhe inspira coragem para aceitar a sua personalidade única. Um apelo de vida, de sobrevivência na acepção mais profunda, que a reabilita da ruptura infligida pela sedução escorregadia e oca que a consumia desde há muito:

Lucy e Aslan olham-se através das suas imagens reflectidas no espelho mágico, que transportara a adolescente para a sua aspiração mais secreta e perigosamente alheada da realidade, ameaçando comprometer-lhe o futuro e devorar a própria “sonhadora”.

De facto, o mal está longe de se restringir a seres maléficos, exteriores ao ser humano. A sua origem está, para cada um, dentro de si próprio. A aproximação da ilha negra, envolta em brumas mortíferas, tornava-lhes claro o diagnóstico do risco mais feroz que teriam de enfrentar, como desabafaram Caspian, Edmund e todos:

- Preparem-se porque vamos ao encontro dos nossos piores pesadelos.

- Dos nossos desejos mais obscuros.

- Das tentações mais ínvias e obstinadas, que ocupam os nossos pensamentos.

Nunca a magia e o encantamento são vias de escapismo à realidade, mas antes metáforas pedagógicas sobre o significado profundo da vida e do que nos move, enriquecendo esta viagem de auto-conhecimento. Os jogos de espelhos são frequentíssimos como duplo reflexo do que somos, por um lado, e limiar de um outro nível de existência, como no tal pesadelo de Lucy. Os efeitos de projecção repetem-se também para nos ensinar, através dos erros dos outros, o desfecho indesejável de opções de aspecto apetecível… até porque muito do que viam luzir era mesmo ouro. Como recomendava Eleanor Roosevelt: aprenda com os erros dos outros, porque a vida é demasiado curta para aprender tudo à sua própria custa! No efeito reflexo, o mais transfigurante, pela positiva, passa pelo grande Aslan, a presença primordial da Humanidade, que nos devolve a identidade, como aconteceu no intrincado processo de crescimento de Eustace.


O Caminheiro da Alvorada através do olhar regenerante de Aslan, onde o efeito de espelho consegue o desejado upgrading

No encontro final, depois de suplantarem os vários patamares de tentações que aprenderam a enfrentar, o Príncipe Caspian assume corajosamente: Tenho-me preocupado mais com o que perdi (do Reino de Narnia) do que em saborear e melhorar o muito que me foi dado!

Vem a propósito lembrar um pensamento sugestivo de Agostinho de Hipona (354–430, doutor da Igreja) sobre esta passagem pela vida desbaratando o bem mais precioso que é o tempo:

«Os homens viajam para conhecer os píncaros das montanhas, a crista das ondas colossais, o longo curso das águas dos rios, a imensidão dos oceanos, o movimento circular das estrelas; e passam pela vida sem se conhecerem a si próprios

Também Chico Buarque lança um alerta semelhante, dito pelo avesso da questão:

«Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.»

Foi a nascente que surgiu a estrela dos Magos. Foi também no Mar do Oriente que o navio de Nárnia, o «Caminheiro da Alvorada», navegou em busca dos 7 fidalgos do Reino. Mas em 2010 foi bem a Ocidente que o espírito de Natal inaugurou os festejos, quando num fast-food de um Centro Comercial do Canadá um grupo coral surpreendeu o público com um momento musical glorioso. Aquela hora de almoço do Sábado, 13 de Novembro, entrou para a história. No Youtube já é dos vídeos mais vistos, a ponto de a soprano que inicia a música, simulando falar ao telemóvel – Stephanie Tritchew – se ter convertido em celebridade no curto espaço de um mês, graças à net:





Sob o efeito da surpresa, os clientes daquele fast-food nem se lembraram de seguir a tradição e ouvir de pé o Aleluia do «Messias» de Händel, como ficou consagrado na estreia de Londres, a 11 de Dezembro de 1742, quando o rei Jorge II se levantou e, com ele, toda a corte, mal o coro iniciou a polifonia apoteótica: «Hallelujah, hallelujah… King of Kings, forever and ever hallelujah hallelujah / And lord of lords forever and ever hallelujah hallelujah ...»

Votos de Feliz Ano de 2011, luminoso e cheio de novas e óptimas aventuras,


Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda-feira)

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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: THE VOYAGE OF THE DAWN TREADER ~

Titulo traduzido em Portugal: As Crónicas de Nárnia: A Viagem do Caminheiro da Alvorada

Realização: Michael Apted

Produção: Mark Johnson, Andrew Adamson, Philip Steuer

Elenco
GEORGIE HENLEY (Lucy)
SKANDAR KEYNES (Edmund)
BEN BARNES
(Caspian)

Will Poulter (Eutace)

LIAM NEESON (voz de Aslan)
Estúdio 20th Century Fox/Fox Walden.

Duração: 127
País: ESTADOS UNIDOS
Site official - http://www.narnia.com/


02 janeiro 2011

Solenidade da Epifania do Senhor

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.
Talvez muitos de nós tenham crescido na tradição de perguntar às crianças: o que pediste ao Menino Jesus? O que te deu o Menino Jesus? Quanto ao Pai Natal, cada um gere a sua existência de forma própria. Aos meus filhos, porque numa dada altura trabalhava na logística de uma multinacional, dizia-lhes que era apenas o transportador. Outros afirmavam ser o ajudante ou o criado do Menino.
Os Reis Magos foram a Belém oferecer ouro, incenso e mirra. Quanto a mim, ainda não foi este ano que rompi com o consumismo; neste ano, ainda, a angústia da falta de criatividade venceu o gosto da dádiva. A maioria de nós vai aos centros comerciais, às lojas, às feiras; esquecemo-nos de comprar presentes para o Menino Jesus, porque crescemos na ideia de que é ele que nos oferece coisas. Esquecemo-nos de que já recebemos o maior presente de todos: o próprio Menino Jesus.
O Evangelho deveria ser um convite à reformulação da pergunta que fiz acima, sobretudo para aqueles que encontram o verdadeiro espírito do Natal no despojamento de uma manjedoura. Acima de tudo, a pergunta deveria ser: o que ofereci eu o Menino Jesus?
Bom Ano para quem me lê. Que a crise de 2011 seja uma oportunidade para nos recentrarmos no que é verdadeiramente importante: o presépio.

JdB

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, caindo de joelhos,
prostraram-se e adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

01 janeiro 2011

Pensamentos impensados

Resposta à pergunta da semana passada

O comum dos mortais, quando morre fica voltado para o altar, ou seja para o crucifixo, pois está a prestar contas a Deus. Já o Papa, Pontífice, ou seja a ponte entre Deus e a humanidade, fica voltado para o público pois tem de prestar contas aos Homens.

Pergunta da semana

Num romance português pode ler-se: Bela mulher...mas ancas secas, e aposto que não tem nádegas.
Quem escreveu e como se chama o livro?

Agora os disparates

Os engarrafamentos de trânsito poderão fazer com que aumente a taxa de alcoolemia?

O filho de um português e de uma francesa é luso-gaulês, se for de 2 portugueses é luso-português.

Um português, no Japão, desatou a gritar que havia um terramoto, o que não se verificou.
Era apenas um bêbado com "delirium tremens".

Há tempos, uns comerciantes decidiram pôr nas montras dos seus estabelecimentos as dívidas dos caloteiros; eram facturas expostas.

Pedro era poeta; a sua especialidade eram versos delicodoces,por isso era chamado Pedro Homem de Mel.

A exemplo de alguns colaboradores e comentadores deste blog vou escrever em inglês.
Plus thing less thing - mais coisa menos coisa
By the yes by the no - pelo sim pelo não.
Gives cape of me - dá cabo de mim.
For give me that straw - por dá cá aquela palha.
That is that is that - essa é que é essa.

E já agora...GOOD PARTIES (BOAS FESTAS)

SdB (I)

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