24 junho 2012

Domingo, Se Fores à Missa...


Hoje celebra-se o nascimento de S.João Baptista.  João Baptista foi enviado por Deus para anunciar os caminhos de Jesus.

O profeta é um instrumento simples, limitado e frágil, através de quem Deus age no mundo. O profeta é alguém chamado a testemunhar Deus no meio dos homens, mesmo quando os homens preferem ignorar Deus. João Baptista, o profeta, assumiu plenamente a missão de testemunhar Deus: convocou os homens para o encontro com o Deus incarnado, convidou os homens a despirem o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, a violência, a ganância, e a preparar o coração para acolher a proposta de salvação que Deus veio fazer, em Jesus.

Esta definição de “profeta” leva-me a pensar que nós, católicos, temos por missão ser profetas. Não precisamos de grandes feitos ou milagres ou sapiência. Basta sermos seres frágeis e simples e deixarmos que Deus aja através de nós. O nosso exemplo de conduta de vida, a nossa alegria, o comportamento perante os outros,  a justiça no local de trabalho, a tolerância com os que são diferentes, o respeito pela vida, o conceito de família, tudo isto faz de nós “profetas” para um mundo novo e melhor. Temos de ter a coragem da diferença. Num mundo, numa sociedade em que os valores estão todos up-side-down, nós, profetas católicos, continuamos a marcar pela diferença. João Baptista andava meio nu, comia gafanhotos, falava de coisas, muitas vezes, incompreensíveis para a generalidade da população. Era sem dúvida diferente! Também Jesus, tantas vezes, chocou os seus conterrâneos e contemporâneos com comportamentos fora do comum. 

Nos dias de hoje, ser diferente é ser “freak”,  “neird”, “betinho”, etc…. e também é ser católico!!

Domingo, Se Fores à Missa …….   Sê Diferente!

MAF

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
chegou a altura de Isabel ser mãe e deu à luz um filho.
Os seus vizinhos e parentes souberam
que o Senhor lhe tinha feito tão grande benefício
e congratularam-se com ela.
Oito dias depois,
vieram circuncidar o menino
e deram-lhe o nome do pai, Zacarias.
Mas a mãe interveio e disse:
«Não, Ele vai chamar-se João».
Disseram-lhe:
«Não há ninguém da tua família que tenha esse nome».
Perguntaram então ao pai, por meio de sinais,
como queria que o menino se chamasse.
O pai pediu uma tábua e escreveu:
«O seu nome é João».
Todos ficaram admirados.
Imediatamente se lhe abriu a boca
e se lhe soltou a língua e começou a falar,
bendizendo a Deus.
Todos os vizinhos se encheram de temor
e por toda a região montanhosa da Judeia
se divulgaram estes factos.
Quantos os ouviam contar
guardavam-nos em seu coração e diziam:
«Quem virá a ser este menino?»
Na verdade, a mão do Senhor estava com ele.
O menino ia crescendo
e o seu espírito fortalecia-se.
E foi habitar no deserto
até ao dia em que se manifestou a Israel.

23 junho 2012

Pensamentos impensados


Relações em público
São cada vez mais os casais que em público se abraçam, se beijam, etc. 
Será isto relações públicas?

Ciência
Hipotálamo não é tão complicado como os médicos querem fazer crer.
Hipo-tálamo não passa da cama do cavalo.

Literatura
Júlio Dinis, como médico, não era mais natural ter escrito As Pílulas do Senhor Doutor?

Sonho da selecção de futebol
Tenho umas meias tão velhas, tão cheias de buracos, que vou deitá-las para o lixo. 
São meias finais.

Traduções MY WAY
Cake of we.
Bolo de noz.

SdB (I)

22 junho 2012

Friday is a great day to fall in love


“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.” Miguel Esteves Cardoso

21 junho 2012

Onde e quando gostaria de ter vivido?

Por uma ou outra vez, em conversa com outros ou comigo próprio, surgiu esta pergunta: se me fosse possível escolher, em que país e época gostaria eu de ter vivido? Desde que me lembro que a resposta foi sempre uma: na Rússia dos Czares, no fim do século XIX, início do seguinte.  Mais correctamente, na Rússia com os Czares.

Este jogo – se é que assim se pode chamar – é totalmente lúdico, sendo que expurgo considerações de justiça social ou outras. Obviamente que sei do despotismo, da miséria, da fome, das assimetrias. Nada disso é relevante, porque a minha escolha não se baseia em aspectos políticos ou económicos - ou mesmo humanos, no seu sentido mais nobre.

Perguntar-me-ão, os que mantêm a teimosia de me ler, o que me levou a esta escolha? Em bom rigor não sei. Nunca fui à Rússia, embora esteja nos meus planos de médio prazo. No que diz respeito ao cinema, vi o “Doutor Jivago” e fixei a beleza da Julie Christie. Há muitos anos vi o “Como matei Rasputine” e dele fixei, sobretudo, o difícil que foi assassinar-se o místico russo que tanto influenciou a czarina Alexandra: ingeriu veneno, deram-lhe tiros, foi castrado, a tudo sobreviveu. Acabou afogado no rio Neiva... Li poucos autores russos, não conheço a poesia, gosto dos compositores clássicos (cronologicamente terminando em Rachmaninoff), nada sei sobre pintura.

No entanto, e apesar deste meu conhecimento vago e menor da cultura russa, há algo que me fascina naquela época e naquele país. Sinto-lhe grandiosidade, mais do que requinte. Imagino-lhe a lareira que protege do frio, mais do que o calor que suscita o jardim. Se a Rússia fosse um cão, sê-lo-ia de uma raça grande – talvez um galgo com mais volume – e nunca um cãozito franzino a ladrar alto num tom de soprano lírico. Derrotaram os franceses (se bem que no início do séc. XIX), o que não me parece despiciendo, e classifico a música que conheço (que me perdoem os musicólogos) como volumosa, mais do que palaciana, sendo de realçar os cânticos ortodoxos. E o caviar, que não deve ser desmerecido, que se deveria comer naqueles salões às pazadas... Há algo de imponente, majestoso, orgulhoso, grande, bonito, grave, profundo, que me interessa.

Poderia espraiar-me em mais considerações, mas temo afugentar os resistentes. Ficam evidências culturais do que me atrai, porque o resto é (bastante) inexplicável dentro de mim.

JdB




(...) Um dos textos mais impressionantes sobre o valor da escuta é o conto “Tristeza” de Tchékov. Conta a história de um cocheiro, Iona, que perdeu um filho e não encontra, entre os humanos, ninguém disponível para o amparar. «Precisa contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... Precisa descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... Precisa falar sobre ela também...», mas ninguém o ouve. O cocheiro volta-se então para o seu cavalo e enquanto lhe dá aveia começa a expor-lhe, num longo e dorido monólogo, tudo o que viveu. E as últimas palavras do conto são estas:
«O cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo».

(Texto já publicado neste estabelecimento e retirado daqui)


Ivan Kramskoy (1837-1887) [imagem retirada daqui]

20 junho 2012

Diário de uma astróloga – [28] – 20 de Junho de 2012

Fernando Pessoa e M.C. Escher – expressões “gemiais”

Há muitos anos morei numa casa com uma entrada comprida onde pendurei um poster longuíssimo do artista gráfico holandês M.C. Escher. Atraiu-me o aproveitamento total do plano e a mutabilidade das formas.

Metamorphosis II (1939-1940)


Nessa mesma época vivia na minha mesa-de-cabeceira, para facilitar a leitura diária, um livro castanho em papel bíblia: Obras Completas de Fernando Pessoa. Nunca questionei o porquê destas escolhas – gosto e pronto. Só mais tarde, com conhecimentos astrológicos, percebi o porquê: tanto Pessoa como Escher são Gémeos como eu e, a um nível psicologicamente profundo, identifico-me com os princípios que definem as suas obras e que são fundamentais à compreensão deste arquétipo.

Gémeos como eu… é uma presunção porque nasceram num período muito mais geminiano do que eu. Os ciclos entre planetas ajudam a compreender esta afirmação. O mais curto é entre a Lua e Sol (29 dias) contado da Lua Nova, momento em que se juntam no mesmo grau de longitude celeste, até à Lua Nova seguinte. O mais longo é o ciclo entre Neptuno e Plutão que dura aproximadamente 500 anos.  Estes dois planetas juntaram-se pela última vez em 1892 em Gémeos, conjunção activa desde 1888 a 1900 pelo menos. Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888 e Escher a 17 de Junho 1898, por isso seus temas reflectem a energia Gémeos a nível de geração, através da conjunção Neptuno – Plutão, e a nível pessoal, através do Sol e Vénus no caso Fernando Pessoa e Sol, Mercúrio e Lua no tema de Escher.

A dualidade é fundamental no arquétipo Gémeos. Muitas das obras de Escher têm títulos como “Dia e Noite”, “Concavo e Convexo”, “Alto e Baixo. Além de dualismos são interrogações sobre onde começa um mundo e acaba outro. Como os irmãos Castor e Pólux de mãos dadas que não podiam viver um sem o outro (ver post anterior), assim no “Céu e Água”, pássaros e peixes não só coexistem como são essenciais à génese do outro, apesar de separados pelo meio onde vivem.

Sky and Water I (1938)


Esta gravura faz-me lembrar uma frase do Livro do Desassossego: "Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu." 

Escher declarou que achava o conceito de duas dimensões muito aborrecido. Por isso fugiu dele. Possivelmente foi também para evitar o aborrecimento que Fernando Pessoa procurou outras dimensões de si próprio nos alter egos que criou. "Com uma tal falta de gente coexistível, …, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?" Na recente exposição da Gulbenkian dei-me conta do grande número de heterónimos que têm sido descobertos nos seus escritos, para além dos mais conhecidos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Obviamente faltou a Fernando Pessoa gente coexistivel e, na ausência de irmãos de espirito, inventou-os, não fosse aborrecer-se. 

No post anterior afirmei que Gémeos é o malabarista do zodíaco. Gosto mais da palavra inglesa “trickster” para definir esta faceta. Trickster é aquele que faz truques, pequenas partidas maliciosas, na fronteira entre a ilusão e o logro. No seu poema Autopsicografia (1931), Fernando Pessoa identifica-se como um fingidor.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
….
Uma analise encontrada aqui http://novosnavegantes.blogs.sapo.pt/12284.html sugere que na segunda estrofe há referência a quatro dores diferentes, duas do autor e duas do leitor. Que multiplicidade!

Se Fernando Pessoa usa truques de palavras e de sentimentos, Escher usa truques de ilusão óptica, perspectivas impossíveis que enganam e surpreendem, um trompe l’oeil com múltiplos logros. Falando em multiplicidade, em “Relativity” há três fontes de gravidade no mesmo espaço, seis escadas e cada uma é usada por pessoas que pertencem a fontes de gravidade diferentes. Assim, por exemplo, na escada superior duas figuras lado a lado e movendo-se na mesma direcção fazem crer que um sobe e o outro desce.

Relativity (1953)


Fernando Pessoa aprovaria ….  “As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.”

Ambos tinham uma enorme sede de conhecimento. Escher estudou a fundo matemática e geometria  e Pessoa astrologia e ocultismo. Não admira, porque Gémeos é o signo regido por Mercúrio, que na Grécia se chamava Hermes, deus do conhecimento e da invenção … e é dele que deriva a palavra hermético.

No último dia em que o Sol está no nosso signo aqui fica a minha homenagem à genialidade de dois Gémeos.

Luiza Azancot

19 junho 2012

Duas últimas

No espaço exacto de um mês (16 de Maio a 16 de Junho) escrevi três mails a três pessoas diferentes, pelas quais nutro amizades com graus diferentes, sobre temas diferentes. Em comum apenas isto, até porque as pessoas não se conhecem entre si: por um motivo ou por outro havia, na engrenagem que rege os meus sentimentos (ou na engrenagem que lê os sentimentos alheios) um pequeníssimo grão de areia, algo que provocava um desvio infinitesimal na suave rotina das marés ou na regularidade sossegada dos dias. Perante três possíveis hipóteses - não fazer nada, falar ou escrever - escolhi a última. Tudo me correu bem, felizmente. 

Não escondo que, durante o acto de pensar no que diria aos destinatários (normalmente nos meus passeios muitíssimo matinais no paredão) me lembrei de um post da nossa astróloga residente (que pode ser relido aqui) sobre Vénus retrógrada e a possibilidade de, neste tempo, se poderem esclarecer algumas coisas com terceiros (passe a explicação simplista). Tenho com a astrologia uma relação indefinível, igual, talvez, à de muitas pessoas: não sou um crente total, não sou um descrente em igual medida. Para a parte de mim que ouve e interioriza algumas coisas muito contribuiu a amizade recente com a Luiza Azancot que, com a sua inteligência e cultura, me proporcionou uma explicação para algumas interrogações. Terei escrito aos meus interlocutores porque Vénus estava retrógrada ou são puras coincidências? Pois não sei...

No outro dia, num blogue que frequento amiúde, alguém escrevia que tinha queimado todas as cartas que recebera, porque entendia que essa parte da vida era exclusivamente sua, e que o tempo não se consegue, nem se quer, agarrar com escritos pessoais. Comentei discordando - e estive sozinho na discórdia. Sinto a falta de receber e de escrever cartas. Sinto falta do papel, da caneta, da caligrafia, do exercício da decifração. Guardo quase todas as que me escreveram, por mais ingénuas, alegres ou tristes que possam ser. Um dia, quem sabe, os meus descendentes pegarão nos envelopes e sorrirão, pensando como era um tempo que não é o deles, imaginando o que terá motivado aquela carta que eu recebi, conhecendo partes da vida que eu entendo não serem exclusivamente minhas.

Deixo-vos com o tema cartas, numa outra romagem nostálgica. Dantes guardavam-se numa caixa e rasgavam-se com raiva ou desespero. Agora guardam-se num pen que faz anúncio a uma oficina de automóveis e prime-se a tecla delete...

JdB

     


18 junho 2012

Vai um gin do Peter’s?

Quantas pessoas conhecemos a considerarem a festa um dos três dons da vida, neste trio: família, trabalho e festa? Claro que se devem excluir os organizadores de eventos, a começar pelos Jogos Olímpicos, o Mundial ou até o animado Rock in Rio. Assim como as fadas-madrinhas, desenhadas por Walt Disney... Conheceremos mais alguém? Já agora, com que idade?
Quantos conhecemos a achar possível o testemunho do amor vivido ter mais impacto do que as reflexões empolgantes sobre um assunto que parece ter disparado para a esfera do sonho? Ainda por cima, proliferam os comentadores de serviço, prontos a dissertar sobre tudo o que interessa (ou melhor, que seja vendável…) ao ser humano.
Quantos estão cientes de que a justiça precisa da liberdade – mais: do amor à liberdade – para cumprir plenamente a sua vocação?
Quantos ainda têm esperança de que a política possa ser «uma forma superior de amor pelas pessoas e pelo bem comum»? 
Quantos encaram a morte, tão benignamente, como «uma outra parte do mundo» onde se espera «voltar a casa», retomando os melhores momentos vividos nesta vida?
Ou quantos consideram «imortal tudo aquilo que cresce e se desenvolve nesta nossa vida de agora»? Quantos acreditam, mesmo, num amanhã com futuro?
Em tudo isto confia um venerável velhinho que, talvez por isso, tenha feito esgotar um estádio, em Milão, pejado de gente nova e de famílias, vindas das quatro partidas do mundo, para o ouvir. Ousou convidá-las a renovar a civilização do amor, pois ainda acredita que é uma meta possível, num mundo dominado por inúmeras tensões, por um mercantilismo exacerbado, além de outras manifestações de egoísmo igualmente devastadoras. O jornalista italiano, António Gaspari, escreveu sobre o ancião com este título «Quanto mais o criticam, mais as pessoas o ouvem». Que segredo moverá Bento XVI e que mistério poderá explicar o seu sucesso, apesar das vagas de críticas com que também é, periodicamente, assaltado por uma certa imprensa ideológica do Ocidente rico? 
Convenhamos que é algo irónico vir de um senhor de 85 anos a mensagem de maior empenho pelo futuro. Sabemos bem como a maioria dos chavões da moda estão totalmente fixados no presente, ignorando o dia seguinte, qual roleta russa, em que só os mais fortes ou os “bafejados pela sorte” sobreviverão… É a atitude comum da generalidade das figuras que esgotam estádio, normalmente do showbiz, e sempre super enérgicos. É o caso de um Mick Jagger ou de um Bruce Springsteen, verdadeiros acrobatas em palco, a aguentarem três horas aos pulos e a cantar, ininterruptamente. Simplesmente, parecem esgotar-se ali mesmo, acantonados numa ideia de alcance breve: sex, drugs and rock’roll. Naturalmente (talvez intencionalmente), esquecem-se de explicar que resistir a ressacas e overdoses é um luxo de um par de privilegiados! Bem podiam dar – ao menos, aos mais inexperientes e naives – os contactos das clínicas fantásticas onde (vários deles) se desintoxicam, ciclicamente, no maior dos confortos. Custa perceber uma omissão, que permitiria dar algum futuro a quem resolve levar à letra a divisa, de meio século, de muitos dos rockers de mais talento.
Começa a tornar-se raro acreditar nos novos tempos e, mais raro ainda, bater-se por eles, empenhando-se já hoje para assegurar um amanhã melhor, que possa beneficiar toda a humanidade. No mínimo, é a opção solidária e democrática, por excelência. Até por isso, vale a pena recordar as razões que fazem Bento XVI confiar no futuro, transmitidas(1)  às multidões que acorreram a Itália, há uma semanas, aqui agrupadas em cinco temáticas:

- O FUTURO ASSENTA NO BOM DISCERNIMENTO DE HOJE 
- PARA O TEMPO JOGAR A FAVOR DO AMOR  
- PARA A VIDA SER FESTA
- TORNAR ETERNO TUDO O QUE É BOM
- CARIDADE COMO VOCAÇÃO DO PODER


O FUTURO ASSENTA NO BOM DISCERNIMENTO DE HOJE  
- «(N)ão é a lógica unilateral do que me é útil e do maior lucro que pode concorrer para um desenvolvimento harmonioso, o bem da família e para construir uma sociedade justa, porque traz consigo uma competição exasperada, fortes desigualdades, degradação do meio ambiente, corrida ao consumo, mal-estar nas famílias. Antes, a mentalidade utilitarista tende a estender-se também às relações interpessoais e familiares, reduzindo-as a convergências precárias de interesses individuais...» (Homilia - 3.Junho)
- «(O)s caminhos para (a família) crescer no amor: manter um relacionamento perseverante com Deus…, cultivar o diálogo, respeitar o ponto de vista do outro, estar disponíveis para servir, ser paciente com os defeitos alheios, saber perdoar e pedir perdão, superar com inteligência e humildade os possíveis conflitos, … estar abertos às outras famílias, atentos aos pobres, ser responsáveis na sociedade civil. Todos estes são elementos que constroem a família.» (Homilia  - 3.Junho)


- «(…) A partir do século  XIX, veio a emancipação do indivíduo, a liberdade da pessoa, e o casamento deixou de se basear na vontade dos outros, e passou a assentar na decisão pessoal. (…) (Era) o modelo justo e o amor garantia, por si mesmo, o “sempre”, porque o amor é absoluto, quer tudo e, em consequência, também a totalidade do tempo é “para sempre”. Infelizmente, a realidade não é assim: vê-se que apaixonar-se é belo, mas talvez nem sempre seja perpétuo (…). É belo este sentimento de amor, mas deve ser purificado, deve avançar por um caminho de discernimento, isto é, (…) deve unir-se razão, sentimento e vontade.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)

PARA O TEMPO JOGAR A FAVOR DO AMOR   
- « A vossa vocação (de amor, em casal) não é fácil de viver, especialmente hoje, mas a realidade do amor é maravilhosa, é a única força que pode verdadeiramente transformar o universo, o mundo.» (Homilia - 3.Junho)
- «E o vosso amor (do casal) … é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação.»  (Homilia - 3.Junho)
 - «No rito do matrimónio a Igreja não diz: ‘estás apaixonado?’, mas ‘queres?’, ‘estás decidido?’. Isto é, (…) deve converter-se num amor verdadeiro… de tal modo que todo o homem (…) diz: ‘sim, esta é a minha vida.’». (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)
- «Queridos esposos, na vivência do matrimónio, não dais qualquer coisa ou alguma actividade, mas a vida inteira. E o vosso amor é fecundo, antes de mais nada, para vós mesmos, porque desejais e realizais o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar.» (Homilia - 3.Junho)

PARA A VIDA SER FESTA
- «O homem, enquanto imagem de Deus, é chamado também ao descanso e à festa.» (Homilia  - 3.Junho)
- «Família, trabalho, festa: três dons de Deus, três dimensões da nossa vida que se devem encontrar num equilíbrio harmonioso.» (Homilia - 3.Junho)
- «Queridas famílias, sois o trabalho e a festa de Deus! Reservando o Domingo para Deus, fazei festa com Deus e repousai, juntos, na Fonte donde brota a vida para construir o presente e o futuro. As forças divinas são muito mais poderosas que as vossas dificuldades! Não tenhais medo!»  (Angelus -3.Junho)
- «O trabalho e a festa estão intimamente ligados à vida das famílias: condicionam as suas escolhas, influenciam os relacionamentos... A Sagrada Escritura (cf. Gn cap. 1-2) diz-nos que a família e o trabalho constituem dádivas e bênçãos de Deus para nos ajudar a viver uma existência plenamente humana. A experiência quotidiana garante que o desenvolvimento autêntico da pessoa exige quer as dimensões individual, familiar e comunitária, (…) como também a abertura à esperança e ao Bem sem limites.» (Carta a preparar o Encontro de Milão – Agosto.2010)
- «(Sermos) capazes de reflectir a beleza da Trindade e evangelizar não só com a palavra mas – diria eu – por «irradiação», com a força do amor vivido.» (Homilia -  3.Junho)


- «Sejam disponíveis e generosos para com os outros, vencendo a tentação de se colocar no centro, porque o egoísmo é inimigo da alegria.»  (Encontro com jovens, no estádio – 2.Jun.)
- «(Dons do Espírito Santo) O dom da ciência, … ensina a encontrar na criação, os sinais, as impressões digitais, de Deus e a animar com o Evangelho o trabalho de cada dia; outro dom é aquela plenitude, que mantém viva no coração a chama do amor pelo nosso Pai (…), de modo a rezar-Lhe em cada dia com confiança e ternura, como filhos amados.» (Encontro com jovens, no estádio – 2.Jun.)
- «Rezamos por vós (dirigindo-se a quem confidenciou passar privações sérias), e esta oração não é só dizer palavras, mas abre o coração a Deus e assim gera também criatividade na busca de soluções.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)

TORNAR ETERNO TUDO O QUE É BOM
- «O cristianismo não promete apenas a salvação da alma, algures no Além, onde todos os valores e as coisas preciosas deste mundo desapareceriam (…). (Mas) promete a eternidade daquilo que se realizou nesta terra.» (in “Viver a própria fé: pensamentos para cada dia”, editado em 1990)
- «É o ‘homem total’, tal como se situou neste mundo, tal como viveu e sofreu, que será um dia levado para a eternidade de Deus, e que tomará parte, no seio do próprio Deus, na eternidade.» (in “Viver a própria fé: pensamentos para cada dia”)
- «Deus conhece e ama este homem total que somos actualmente. Portanto, é imortal tudo aquilo que cresce e se desenvolve nesta nossa vida de agora. É através do nosso corpo que sofremos e amamos… É, pois, imperecível aquilo em que nos tornámos no nosso corpo, aquilo que cresceu e amadureceu no coração da nossa vida, em ligação com as coisas deste mundo.» (in “Viver a própria fé: pensamentos para cada dia”)
- «Penso frequentemente nas bodas de Cana. O primeiro vinho é muito bom: é o apaixonar-se. Mas não dura até ao fim, deve vir um segundo vinho … um amor definitivo que se converte num ‘segundo vinho’…, melhor que o primeiro vinho.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)
- «Aqui também é importante que o eu não esteja isolado, o eu e o tu… Só assim, (na) participação de toda a comunidade, dos amigos, … do próprio Deus, brota um vinho que dura para sempre.» (Festa dos Testemunhos - 2.Junho)

CARIDADE COMO VOCAÇÃO DO PODER (não será para todos, achar possível…)
- «A primeira qualidade de quem governa é a justiça, virtude pública por excelência, porque diz respeito ao bem da comunidade inteira.»  (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)
- «‘Aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo. Nada é mais útil do que fazer-se amar’ (Sto. Ambrósio, De officiis, II, 29). Por outro lado, a razão que, por sua vez, move (o poder) e estimula a vossa (actividade)… só pode ser a vontade de vos dedicardes ao bem dos cidadãos e, por conseguinte, (…) (ser) um sinal evidente de amor. Assim, a política é profundamente enobrecida, tornando-se uma forma elevada de caridade.» (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)
- «…Uma verdade central sobre a pessoa humana, que é o fundamento sólido da convivência social: nenhum poder do homem pode ser considerado divino, e portanto nenhum homem é dono de outro homem. (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)
- «O tempo de crise que estamos a atravessar precisa, para além de corajosas escolhas técnico-políticas, de gratuidade, como tive ocasião de observar: ‘A “cidade do homem” não é promovida apenas por relações feitas de direitos e deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão.’ (Enc. Caritas in veritate, 6).» (Discurso às autoridades civis – 2.Junho)

A CONCLUIR EM FESTA - UM MOMENTO MUSICAL  NOS  E.U.A.

Envio da forma que me chegou, como presente, o tributo a Paul McCartney, decorrido no Kennedy  Center (será que já foi postado neste blog?...). É daqueles concertos em que as actuações superam – diria – as do ex-Beattle. Tudo com mais fibra. Claro que só podia terminar com toda a sala a cantar e a dançar ao som dos intérpretes dos hits do famoso britânico, a começar pelo casal Obama, mesmo ao lado do homenageado: 



Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
Note-se que para várias das citações aqui postadas, recorreu-se a outras traduções portuguesas dos originais italianos, podendo assim haver algumas variantes formais, mas que não interferem com o conteúdo da mensagem de Bento XVI. 

17 junho 2012

11º Domingo do Tempo Comum

Enquanto houver sobre a terra alguém que procure levantar o Céu, quer dizer, implantar um pouco de bondade sobre a Terra, restabelecer equilíbrios, perdoar ofensas, respeitar o "Céu", renunciar ao poder, plantar uma árvore e regá-la todos os dias, vibrar com uma cantata de Bach, arriscar a vida para matar a fome a alguém, comover-se com o riso de uma criança, sentir-se interpelado pelo mistério de Jesus Cristo no Getsémani como Aquele que carrega os pecados do mundo - enquanto houver alguém que teime em entregar-se à vida, sem pensar em si mesmo, mas tendo em mente os seus semelhantes - não é insensato manter a esperança. (José Mattoso, in Levantar o Céu).

Li este texto, que faz parte do prefácio da obra citada, ainda no Funchal. À minha frente apenas mar e, ao fundo, um pouco de terra com um casario a escorrer pela encosta. Na vastidão do oceano, tal como estava ilustrado na fotografia que publiquei na terça-feira, um homem sozinho praticava windsurf. Li este parágrafo e parei. Partilhei-o alto com quem estava comigo e talvez não tenha lido mais, para que tudo isto - a beleza do escrito, a confiança do homem e a grandeza do mar - ficassem cá dentro a enviar-me mensagens que nem sempre consigo decifrar, quanto mais explicar.

Sexta-feira, ao redigir este post, cruzei-me com o comentário de um dos padres da minha paróquia ao evangelho dominical. E começa assim: a parábola é um convite à esperança, à confiança e à paciência. Se eu tivesse pensado que deveria ter paciência, que mais cedo ou mais tarde as sensações daquele momento teriam uma qualquer revelação, talvez encontrasse uma série de coincidências significativas, mesmo que elas só tivessem lógica dentro de mim.

A semente de que fala o evangelho de hoje cresce e desenvolve-se fruto da sua dinâmica própria, desconhecida para o homem que mantém as suas rotinas diárias. O reino de Deus cresce e desenvolve-se dentro de nós apesar dos dias fagueiros ou turbulentos, no silêncio confortante ou no ruído inquietante com que nos defrontamos. O Seu tempo não é o nosso, porque os Seus critérios não são os nossos. A nós cabe-nos a esperança de que falava José Mattoso, a confiança metafórica do homem isolado no mar, a paciência compensadora de quem, num momento, vê clarificado um pensamento desconexo.   

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

JdB



EVANGELHO – Mc 4,26-34
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos


Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«O reino de Deus é como um homem
que lançou a semente à terra.
Dorme e levanta-se, noite e dia,
enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como.
A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga,
por fim o trigo maduro na espiga.
E quando o trigo o permite, logo mete a foice,
porque já chegou o tempo da colheita».
Jesus dizia ainda:
«A que havemos de comparar o reino de Deus?
Em que parábola o havemos de apresentar?
É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra,
é a menor de todas as sementes que há sobre a terra;
mas, depois de semeado, começa a crescer,
e torna-se a maior de todas as plantas da horta,
estendendo de tal forma os seus ramos
que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra».
Jesus pregava-lhes a palavra de Deus
com muitas parábolas como estas,
conforme eram capazes de entender.
E não lhes falava senão em parábolas;
mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.


16 junho 2012

Pensamentos impensados


Passagens
Se, por absurdo, se se visse o Dr Cavaco Silva a passear sozinho, poderia pensar-se que era passagem de Aníbal sem Guarda.

Traduções MY WAY
I go to bassoon of you.
Vou-te aos fagotes.

Penhores
Paulo Bento prometeu empenho da Selecção; Ronaldo disse que a Selecção estava empenhada. Empenhado está Portugal e não é pouco.

Estória (palavra que uso só para piadas)
Na História da milenar China houve um período muito mau...Tsé Tung.

Beetles (carochas)
Ouvi uma vez uma canção dos Beatles transformada em Oh Leonilde is love.

SdB (I)

14 junho 2012

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles,

I know that Portugal commemorates its National Day on 10th June. And yesterday the 13th was the feast of S Antonio in LIsbon, when some years ago I spent a fun night with friends singing and drinking our way through Alfama. And yesterday also the Portuguese football team defeated Denmark and managed to keep their hopes alive until at least the final group match in the Euro Championships.

So...I'm guessing there must have been much celebration and dancing in the streets.

Which reminds me of this really 'cool' song by Marshall Hain from the summer airwaves of 1978, when happy innocent days were dominated by Grease and disco nights by Saturday Night Fever, when I had just left school and was soon to begin university and experience living in a city.





A proxima.
PO

Acerca de mim

Arquivo do blogue