06 junho 2018

Vai um gin do Peter's?

A VERSÃO PACÍFICA, À PORTUGUESA, DOS GUERREIROS DE TERRACOTA CHINESES

A feliz comparação com as admiráveis esculturas de terracota da China antiga (séc.III a.C.), em tamanho natural, veio de um bloguista de referência(1) para assinalar a monumentalidade das 1587 figuras de barro, que recriam a versão mais faustosa da procissão lisboeta do Corpo de Deus, recuando ao reinado de D.João V (1689-1750). Por comparação com os congéneres do Império do Meio, aplicam-se aos nossos “guerreiros” os lemas dos anos 60: «road to peace», «power-flower», «love, not war».

«Em 1944, alimentando um sonho vindo de 1939, Diamantino Tojal reconstituiu
a versão joanina da Procissão do Corpus Christi feliz»
(http://malomil.blogspot.com/2017/09/corpus-christi-procissao-do-corpo-de.html)

O conjunto está em exposição, até 1 de Julho, no antigo Convento da Graça, em Lisboa:
«Corpus Christi: A procissão do Corpo de Deus, por Diamantino Tojal».

As miniaturas moldadas em barro não-cozido, pelo empresário Diamantino Tojal (1901-1980), em 1944, traduzem a mansidão dos portugueses, que preferem um cortejo de paz e gáudio a paradas militares intimidatórias. Mesmo no decurso da Segunda Guerra Mundial. O cortejo escolhido soma oito séculos de existência, atravessando a história de vários povos e de toda a Cristandade, ano após ano. Na origem da Festa, conhecida por Corpus Christi, estiveram fenómenos sobrenaturais ocorridos no século XIII, entre visões místicas e um milagre portentoso confirmado pelo teólogo e artista que reabilitou o lugar de Aristóteles na Filosofia ocidental – S.Tomás d’Aquino. 

Na cidade italiana onde se deu o milagre – Orvieto – a magnífica catedral continua a celebrar, inclusive pela sua beleza, o fenómeno testemunhado pelo padre Pedro de Praga, no segundo quartel do século XIII, ao ver a hóstia ganhar corporalidade com sangue vivo, para lhe provar que Cristo se tornará (e torna) presente na hóstia consagrada. Daí, o termo técnico para referir a mudança de substância que se opera durante a Consagração, quando um pedaço de pão se «transubstancia» no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo. 



Logo na altura, o dito milagre deu pretexto a uma encomenda do Papa Urbano IV ao Santo-filósofo e poeta d’Aquino para compor os hinos da nova festa. Assim surgiram «Tantum Ergo Sacramentum»(2) (Tão Sublime Sacramento), «Lauda Sion Salvatorem»  (Louva, ó Sião, o Salvador) ou «Adoro Te Devote», que continuam a ser entoados em qualquer procissão do Corpo de Cristo.  
Em Portugal, esta solenidade tem sido festejada por pintores, escritores, artesãos, reis e o grande povo anónimo, desde que D.Dinis a oficializou, em 1282.  
A primeira alusão vinha da época do seu pai – D.Afonso III – depois de as visões (1243) de Santa Juliana de Cornillon serem validadas. Além de as reconhecer, o Papa Urbano IV quis oferecer aos fiéis uma festa comemorativa da misteriosa presença de Cristo na hóstia consagrada. Em 1264, o dia foi fixado na Quinta-feira a seguir ao Pentecostes, em alusão ao dia da Ceia Pascal. O rito processional foi instituído mais tarde (1317). 

Amadeo de Souza Cardoso ficou de tal modo impressionado com a procissão a que assistiu em Braga, que lhe dedicou uma tela: 

«Procissão Corpus Christi», Amadeo de Souza-Cardoso, 1913.
Colecção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1955, Martins Barata também trabalhou o tema em dois painéis, situando-os no tempo do Mestre de Avis: 

1º Vista da procissão à saída da Sé;  2º Momento da chegada ao Rossio. Sob o pálio, está D. João I.

Alexandre Herculano descreveu-a ao detalhe, qual cronista, no seu romance «O monge de Cister», inspirando-se nos arquivos do séc.XV. À época, a dimensão religiosa coabitava com a profana: 

«(…) Danças d’espadas, danças mouriscas, danças de péllas (…) tudo, emfim, quanto se possa imaginar de caricatura, de burlesco, de doudejante servia de moldura a este quadro singular, em cujo topo figuravam alguns magistrados municipaes, e sobre o qual flutuavam dezenas de pendões, bandeiras e guiões variegados. Como contraste a estas visualidades heteroclitas, a esta espécie de sonho de pesadello, seguiam-se as communidades monasticas, mancha escura no dorso daquella imensa cobra, que se estirava pelas ruas de Lisboa: (…). Depois, um sem numero de cavalleiros de Christo, do Hospital, d’Aviz, de Sanctiago, precedidos dos respectivos mestres e commendadores e seguidas dos freires leigos e serventes d’armas. Depois, os magistrados da côrte, os oficiais da corôa e o próprio monarcha rodeavam a hostia triumphante nas mãos do bispo de Lisboa, e sustentavam as varas de riquissimo pallio.» (Herculano, 1847, pp. 83-85) »

Outro cronista de setecentos, identificado como I.B. Machado(3), tem registos igualmente coloridos. Foi nele que se baseou Diamantino Tojal para reconstituir a procissão: «Começou pois esta tão luzida, como assombrosa Procissão, ou Triunfo do Sacramemto, pelas bandeiras dos Officios mecânicos. (…) Immediato aos trombeiteiros se via hum Cavalleiro vestido, e calçado de ferro com viseira, e colete, montado em hum cavallo acobertado. (…) E para que tão grande concurso não degenerasse em alguma desordem, se dispoz, que todos caminhassem de dous em dous, com pausa, e modéstia. (…) Debaixo deste Palio hia o Eminentissimo, e Reverendissimo Patriarca com o Santissimo Sacramento na Custodia.» (Machado 1759, pp. 167-168, 186, 191-192).

Mal pôs termo às ofensivas castelhanas, D.João I conferiu à procissão um cunho bem nacionalista (1387), colocando-a sob os auspícios de S.Jorge guardador da pátria, cuja devoção fora trazida pelas tropas inglesas e por sua mulher – Filipa de Lancastre. Assim, acrescentou-se ao pálio com a custódia sagrada, a figura imponente do santo combatente a cavalo, com armadura de ferro, perseguindo um enorme dragão domado pela sua espada. No século XVIII, D.João V aumentou o aparato religioso e retirou de cena as figuras alegóricas. Naquele desfile majestoso, exibiam-se as múltiplas Ordens, Confrarias, Irmandades, os vários Regimentos militares e toda a espécie de corporações do reino, em traje de gala. Por tradição, o soberano assumia a primeira vara do lado direito.  

O último rei, D.Manuel II, cumpriu a sua parte na procissão do ano 1908 (ou 1909). Aqui, com o uniforme de Marechal-General e o manto da Ordem de San’Tiago, de que era Grão-Mestre. Atrás, no lugar de Príncipe Real, segue o Infante D.Afonso, Duque do Porto. Desde o séc.XVI que estas procissões se tornaram palco de intentonas falhadas contra o monarca. Assim aconteceu com D.João IV, no exacto local onde a rainha D.Luísa de Gusmão mandou erigir um convento de carmelitas (Lg do Carmo) a que chamou de Corpus Christi. Também D.Manuel II foi visado, quando a procissão estava a meio da rua do Ouro. 

Noutras paragens, os pintores esmeraram-se a imortalizar o esplendor das festas a que tinham assistido, antecipando-se às reportagens fotográficas: 

ITÁLIA: Procissão do Corpo de Deus na Piazza de S.Marcos, Gentile Bellini, 1496.
(Galleria dell'academia, Veneza)

FRANÇA: «La procession de la Fête-Dieu à Toulouse»,
Escola de Santa Cecília, 1700.

ESPANHA: «Procissão na Catedral de Sevilha», por Genaro Pérez de Villaamil
(1807-1854).

ALEMANHA: «Procissão de Corpus Christi», Carl Emil Doepler
(1824-1905)

Em 2018, recuperámos o essencial, com simplicidade mas igual fé. Após os cavaleiros da Guarda Nacional Republicana, um cortejo sóbrio abre o caminho ao pálio, a que preside o Cardeal Patriarca de Lisboa, acompanhado pelo clero da cidade e por milhares de gente anónima que se junta à procissão da actualidade. À nossa maneira, continuamos a cumprir o legado herdado de 1264, pois move-nos o mesmo princípio: «LOVE, not war». Curiosamente, em carne-e-osso, mantemos a versão conciliadora à portuguesa, que também visa o sentido protector dos tais guerreiros de terracota, só que percorrendo o caminho oposto, sem belicismo. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
___________________________________

(1) http://malomil.blogspot.com.
(2) Canto gregoriano, com tradução do latim para português: 



(3) Ref. bibliográfica: Machado, I. B. (1759). «Historia critico-chronologica da instituiçam da festa, procissam, e officio do Corpo Santissimo de Christo […]»,  Lisboa, Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno.

05 junho 2018

Duas Últimas

Gosto de Monica Bellucci, uma das mais bonitas actrizes do meu tempo. É de uma beleza serena, que não cansa, que fica bem, muito bem, numa fotografia a preto e branco, a grande mãe de todas as artes fotográficas.

Gosto de Ennio Morricone, um autor musical responsável pela banda musical de muitos e bons filmes, dos quais destaco o Cinema Paraíso.

Gosto, por último, de algum cinema italiano. E sublinho o algum porque não sou cinéfilo, sou apenas atraído - nestes filmes de que gosto - por alguma aura de tristeza, de melancolia ou nostalgia. São filmes que ficam bem a preto e branco, que poderiam ter sido filmados em Portugal, ou com gente portuguesa  

Não vi Malèna por inteiro. Vi partes: a viuvez triste dela, a paixão humanamente arrebatadora de um rapaz jovem, o olhar devorador e pecaminoso dos homens da terra, a inveja transformada em puritanismo das mulheres locais. 

Deixo-vos com quatro minutos de sossego belíssimo, ou de beleza tranquilizadora. Vale a pena ver e ouvir com atenção.

JdB

04 junho 2018

Textos dos dias que correm

A criança que dorme

«Se andássemos no mundo com o descuido da criança, que adormece no meio da multidão, o mundo não conseguiria perturbar o nosso coração mais do que quanto pode influenciar a respiração ampla e leve da criança que dorme.»

Esta imagem criada pelo escritor francês Christian Bobin apresenta-se não raramente diante de quem, no meio da multidão no metropolitano ou numa praça, se detém a observar os rostos.

As crianças adormecidas ao peito da mãe, enquanto que no exterior há barulho, gritaria, agitação, não fazem inveja só a quem precisa para adormecer, como eu, de muita espera e situações propícias.

Há uma inveja mais santa e profunda que já o salmista tinha representado com a mesma cena: «Estou tranquilo e sereno como criança saciada aos braços da sua mãe, como uma criança saciada está a minha alma» (131, 2).

Conseguir conservar a paz no turbilhão do mundo, no esgotamento causado pelo frenesim, na tensão e na tentação incessante do fazer, possuir e conquistar, é um dom divino.

É a necessidade de redescobrir a quietude do silêncio no meio da excessiva palraria, a quietude do repouso para além das paragens cansativas dos fins de semana, prolongados como este, a capacidade de meditar, contemplar e rezar juntamente com o agir, o calcular, o intervir.

A «respiração ampla e leve» da criança é a da alma que sabe respirar em sintonia com o sopro de Deus, isto é, com o seu Espírito. É o bater da consciência em harmonia com o sussurro do coração de Deus.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 01.06.2018

03 junho 2018

IX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 2,23–3,6

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Passava Jesus através das searas, num dia de sábado,
e os discípulos, enquanto caminhavam,
começaram a apanhar espigas.
Disseram-Lhe então os fariseus:
«Vê como eles fazem ao sábado o que não é permitido».
Respondeu-lhes Jesus:
«Nunca lestes o que fez David,
quando ele e os seus companheiros
tiveram necessidade e sentiram fome?
Entrou na casa de Deus,
no tempo do sumo sacerdote Abiatar,
e comeu dos pães da proposição,
que só os sacerdotes podiam comer,
e os deu também aos companheiros».
E acrescentou:
«O sábado foi feito para o homem
e não o homem para o sábado.
Por isso, o Filho do homem é também Senhor do sábado».

Jesus entrou de novo na sinagoga,
onde estava um homem com uma das mãos atrofiada.
Os fariseus observavam Jesus,
para verem se Ele ia curá-lo ao sábado
e poderem assim acusá-l’O.
Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada:
«Levanta-te e vem aqui para o meio».
Depois perguntou-lhes:
«Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal,
salvar a vida ou tirá-la?».
Mas eles ficaram calados.
Então, olhando-os com indignação
e entristecido com a dureza dos seus corações,
disse ao homem:
«Estende a mão».
Ele estendeu-a e a mão ficou curada.
Os fariseus, porém, logo que saíram dali,
reuniram-se com os herodianos
para deliberarem como haviam de acabar com Ele.

02 junho 2018

Pensamentos Impensados

Casamentos irreais
À atenção da Rainha Isabel II: D. Afonso Henriques nunca autorizaria um neto a casar com uma americana.

Anacronismo
Moisés é sempre representado com as tábuas dos mandamentos com numeração romana.
No tempo de Moisés nem sequer havia romanos.

Povos
Os primeiros Sumérios, por serem poucos, chamavam-se Sumários.

Asseios
Porca, a baleia que não toma banho.

Comes e bebes
As refeições são energias renováveis.

Viandas
Comi peito de peru; não sabia que essa ave era mamífera; de qualquer maneira era uma carne seca, sinal de que já não tinha leite.

Vozes
Méééé... quem fala assim não é gato.

Pilosidades
Sempre que se penteava vinham montes de cabelos; um dia, não podendo mais, gritou: pára pente!

SdB (I)

01 junho 2018

Poemas dos dias que correm

Escárnio

O meu amor anda em fama.
Mesmo assim lhe quero bem.
Cegueira? Seja o que for!
Os olhos do meu amor
Não os vejo em mais ninguém.

Tentaram deitá-lo à rua,
Mas abri-lhe a minha porta,
E a minha mão, toda nua,
Varreu toda a noite morta.
Porém, mil vozes, medonhas
Como pedaços de lama,
Segredaram-me vergonhas
Do meu amor que anda em fama.

Ai! a dor! — casa florida...
Ai! o amor! — casa cercada.

Há-de-se acabar a vida
Com a última pedrada!..

Pedro Homem de Mello, in "Bodas Vermelhas"

***

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles, in 'Canções'

31 maio 2018

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

EVANGELHO – Mc 14, 12-16-22-26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

No primeiro dia dos Ázimos,
em que se imolava o cordeiro pascal,
os discípulos perguntaram a Jesus:
«Onde queres que façamos os preparativos
para comer a Páscoa?»
Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes:
«Ide à cidade.
Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água.
Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa:
«O Mestre pergunta: Onde está a sala,
em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?»
Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior,
alcatifada e pronta.
Preparai-nos lá o que é preciso».
Os discípulos partiram e foram à cidade.
Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito
e prepararam a Páscoa.
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão,
recitou a bênção e partiu-o,
deu-o aos discípulos e disse:
«Tomai: isto é o meu Corpo».
Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho.
E todos beberam dele.
Disse Jesus:
«Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança,
derramado pela multidão dos homens.
Em verdade vos digo:
Não voltarei a beber do fruto da videira,
até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus».
Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.

30 maio 2018

Textos dos dias que correm

Desporto e fé: O jogo que a Igreja não pode perder por falta de comparência

O fenómeno do desporto

A atividade desportiva, presente desde os alvores da história da humanidade, assumiu no nosso tempo, e como nunca antes, o caráter de um fenómeno de massa consolidado e invasivo capaz de envolver à escala planetária enormes multidões, superando barreiras geográficas, raciais, sociais, culturais, religiosas, políticas e económicas.

O nosso tempo é marcado pela omnipresença do desporto: o desporto é um ruído de fundo planetário, para outros uma música, que condiciona a perceção da realidade e de nós próprios. O desporto deve ser considerado, de facto, como uma nova referência antropológica, um persistente poder espiritual planetário, um modelo inspirador e metodológico para todos os âmbitos da realidade.

Apenas um exemplo: nas escolas universitárias a prática desportiva, dentro e fora da instituição de ensino, é hoje considerada uma experiência significativa para a aquisição das denominadas "soft life skills", ou seja, as competências para a vida, um conjunto de capacidades humanas adquiridas através de ensinamento ou experiência direta que são usadas para gerir problemas, situações e questões comummente encontradas na vida do dia a dia. Bastaria isto para reconhecer ao desporto um papel educativo.


O desporto, religião do nosso tempo

O desporto tem no espírito olímpico a sua matriz e referência mais relevante. Que valor podemos dar ao artigo 2 da Carta Olímpica? «O "Olimpismo" é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto harmonioso as qualidades do corpo, a vontade e o espírito. Aliando o desporto com a cultura e a educação, o "Olimpismo" propõe-se criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e respeito pelos princípios éticos fundamentais universais.» O desporto, nas intenções de Pierre De Coubertin, não assume só um papel ao educar os jovens com a atividade motora, mas assume a conotação política de um utopista projeto de educação para a paz dos povos, das nações, de toda a comunidade internacional.

E sem meias palavras o desporto acentua também uma conotação religiosa, quando Coubertin afirma: «A primeira característica do desporto olímpico antigo como o do moderno é ser uma religião». Um conceito confirmado em 1972, durante os Jogos de Munique, por Avery Brundage, então presidente do Comité Olímpico Internacional: «Talvez o desporto, religião do século XX, com a sua mensagem de lealdade e retidão, tenha sucesso [relativamente à construção da paz e da harmonia entre os povos] onde outras instituições falharam».

O desporto surge hoje como a caricatura mercantil de uma religião universal: os seus acontecimentos mais emblemáticos assumem o caráter de uma celebração litúrgica diante de uma assembleia planetária. Foi sempre assim, desde os seus alvores nas Olimpíadas de Atenas até hoje: basta pensar na cerimónia de acendimento do sagrado fogo olímpico ou na publicidade da Liga dos Campeões em futebol. Manuel Vazquez Montalban, escritor espanhol e grande adepto do Barcelona, chegou a afirmar: «Numa época em que é evidente a crise das ideologias, em que é claro o redimensionamento da militância política, e onde até as atitudes religiosas sofrem de falta de perspetiva, o futebol é a única e grande religião praticável. Há neste desporto uma dimensão financeira, mediática, publicitária, mas não menosprezarei o seu lado litúrgico». O tema "desporto à luz da fé" arrisca-se a ser superado pelo conceito "desporto: nova expressão de fé laica".


O jogo, essência do desporto

Mas porque é que as pessoas gostam tanto do desporto? O desporto é uma evolução do jogo, e o jogo é uma experiência natural, instintiva, extremamente envolvente e fascinante. Johan Huizinga, no seu "Homo ludens", escrevia que o jogo é mais antigo que a cultura, é uma função que contém um sentido: no jogo manifesta-se um elemento imaterial na sua própria essência. O jogo é uma necessidade inata, faz evoluir as capacidades motoras, cria um ambiente desinibido e distendido, melhora a imagem corpórea, aumenta o sentido de segurança e a auto-estima, produz socialização e adaptação, faz nascer e desenvolver o uso da regra através de experiências diretas, regula o comportamento em relação aos outros, permite uma comunicação pessoal, restabelece o equilíbrio afetivo, permite experimentar papéis diferentes, facilita a tarefa do educador, que descobre estilos e modelos de comportamento da criança. «Pode descobrir-se mais de uma pessoa numa hora de jogo do que num ano de conversa», escrevia Platão.

«Quer eu jogue com outra pessoa ou sozinho, verifica-se uma interação recíproca. Sou eu o protagonista do jogo, mas o resultado do jogo surpreende-me. No jogo recebo um novo eu próprio», explicava o bispo Klaus Hemmerle, fundador, com Chiara Lubich, da Escola Abbà, o centro de estudos do Movimento dos Focolares. «O jogo é mais alta forma de pesquisa» (Albert Einstei); «O homem é inteiramente homem só quando joga» (Friederich Schiller); «O jogo não leva a lado nenhum; quem joga já chegou» (Rubem Alves); «O homem não para de jogar quando envelhece, mas envelhece quando para de jogar» (G.B. Shaw); «A vida é muito mais que um jogo e jogar é uma bela maneira, divertida e apaixonante, para aprender a vivê-la a sério», escreveram, no livro sobre a filosofia do râguebi, intitulado "Olhar para a frente, olhando para trás", Mauro e Mirko Bergamasco.

A bola pode ser vista como o emblema do jogo. Dorothee Solle, socióloga e teóloga alemã, assim exprimiu, de maneira eficaz, a procura da felicidade: «Como explicarei a uma criança o que é a felicidade? Não lhe explicarei: dar-lhe-ei uma bola para o fazer jogar».


O valor biológico do jogo

Os comportamentos lúdicos devem oferecer vantagens do ponto de vista biológico, de outro modo a seleção natural tê-los-ia eliminado. Há várias teorias que explicam a utilidade biológica do jogo: "válvula de escape" das energias em excesso (um contrassenso); robustecer-se para treinar-se para a vida adulta (em contradição com o facto de que o jogo decresce na aproximação à idade adulta e os estímulos são insuficientes para esse propósito); treinamento para as dificuldades (o jogo não é a cópia em tamanho pequeno dos comportamentos adultos).

Sabemos que o tempo dedicado ao jogo é diretamente proporcional às dimensões cerebrais do animal e inversamente proporcional à sua especialização. Não existe na natureza um animal que dedique tanto tempo ao jogo como o ser humano, o animal mais imaturo ao nascimento do ponto de vista neurológico: este aspeto aparentemente limitador toma o nome de neotenia. O ser humano é o desajeitado cósmico, o desajeitado da criação: tendo um cérebro "incompleto", precisa de um suplemento de jogo, e o jogo é o meio mais poderoso para fazer amadurecer e adaptar o cérebro neoténico imaturo ao ambiente, selecionando as conexões, as sinapses, que garantem esquemas motores e comportamentos eficazes para adaptar-se ao ambiente. Através do jogo, uma desvantagem imediata para o indivíduo, como a neotenia, que o torna dependente e frágil, torna-se uma vantagem a longo prazo.

Mesmo do ponto de vista biológico, podemos por isso afirmar que a atividade motora e desportiva representam uma experiência formativa, um percurso que se funda não sobre o introduzir, mas sobre o e-ducar (e-ducere), sobre o fazer florescer o que vive na pessoa.


Jogo, desporto e corporeidade

O ponto de vista da biologia abre o olhar à corporeidade e ao seu valor, a que fazemos apenas um aceno, ainda que seja precisamente o crescente, e muitas vezes distorcido - valor dado ao corpo que tornou tão difundida e popular a atenção à atividade física. «O ser humano - escreveu o cardeal Danneels, de Bruxelas - não é um fragmento de "corporeidade", habitado por um momento por uma centelha espiritual. Ele é antes de tudo espírito, pessoa única e livre, e é através do corpo que o seu espírito abre um caminho na matéria e na história. (...) Assim o corpo humano torna-se a exteriorização da alma. Algo que é completamente diferente de uma roupa que se veste». «O desporto consiste em delegar ao corpo algumas das mais elevadas virtudes da alma», escrevia Jean Giraudoux, escritor francês.

A manifestação ritualizada e organizada da expressões do espírito na corporeidade é o desporto, definido como «jogo locomotivo para orientação motivacional intrínseca», ou seja, experiência que procura e desenvolve competências físicas, psicológicas e relacionais fundamentais para a formação da personalidade. Nesta perspetiva o desporto é "askesis", é experiência ascética, isto é, exercício de transformação do corpo e da alma. E é "paideia", quer dizer, educação global. Vitórias, medalhas e dinheiro vêm depois.

Esta sua natureza deveria tutelá-lo "a priori" de qualquer instrumentalização. O desporto esforça-se para ser, ou para aparecer, como realidade em si mesma, sem ligações de fé religiosa, de interesses económicos e políticos. De facto, pelo menos ao nível das altas prestações, subjaz a estas interferências. As económicas e mediáticas são conhecidas: o desporto é hoje o negócio mais florescente do mundo e o produto que melhor se vende. Da instrumentalização do desporto para fins ideológicos está a história chega: do "panem et circenses" para distrair as multidões ao nazismo e ao fascismo, da ditadura argentina dos mundiais de futebol aos direitos humanos na China das Olimpíadas, da cisão da ex-Jugoslávia ao Qatar destes meses.


O desporto à luz da doutrina cristã

Os pensadores cristãos não se concentraram tanto na relação entre fé e desporto, mas sobretudo nas questões éticas entre mansidão cristã e a dimensão competitiva da prática desportiva. As referências à primeira carta de Paulo aos Coríntios oferecem interessantes pontos de reflexão, mas não podem esgotar a nossa aproximação ao desporto.

Original e estimulante é a perspetiva oferecida pelo pastor anglicano Lincoln Harvey de desporto como «celebração da nossa contingência», isto é, do sentido fugaz e, ao mesmo tempo, eterno do nosso ser criatura.

O ponto de vista do papa Francisco do desporto enquanto «metáfora da vida» abre certamente interessantes pontos de reflexão. A passagem das competências sobre o desporto do Conselho Pontifício para os Leigos para o Conselho Pontifício da Cultura é uma mensagem clara, uma inversão de rota que abre interessantes e, até agora, inexplorados horizontes. O congresso sobre desporto e fé "O desporto ao serviço da humanidade", que teve lugar no Vaticano em outubro de 2016 (...), representou uma pedra angular neste sentido. O evento ocorreu pouco tempo depois da primeira participação do Vaticano, através de uma delegação, não de atletas, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Foi, como desejava o cardeal Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, uma ocasião de encontro, para debater juntos, crentes e não, os grandes desafios da sociedade contemporânea, os interesses partilhados das comunidades desportivas e religiosas do mundo.

A missão foi clara: «Lançar um movimento que inspire a pensar e agir segundo a "Declaração dos Princípios do Desporto ao Serviço da Humanidade", um conjunto de valores orientadores que articulam a influência combinada de desporto e fé». Compaixão: partilhar o poder e as vantagens do desporto para dar força àqueles que são pobres e desfavorecidos. Respeito: respeita os teus adversários, compreende-os e à sua cultura mais profundamente. Condena a violência no desporto, dentro e fora de campo. Amor: amar o desporto, o desporto é para todos; ajuda todos a participar no desporto, permite a todos competir em condições iguais. Iluminação: o desporto tem o poder de transformar a vida e construir o caráter. Equilíbrio: em cada fase da vida joga por divertimento, pela saúde, pela amizade. Alegria:  o desporto, antes de tudo, é alegria. Há muito mais na prática desportiva do que no vencer, mas quando estás em competição dá sempre o melhor que podes.

Emerge como evidente que chegou o momento, em particular para quem é cristãmente inspirado, de realçar e promover a beleza do desporto, a sua "estética", antes ainda que a sua ética, contexto ao qual durante demasiado tempo o pensamento foi relegado (ou se relegou). Certo é que o desporto é um fenómeno com o qual não é possível não se confrontar. As perguntas, para os cristãos, estão sobre a mesa: que valor deve ser reconhecido ao mundo do desporto? Como relacionar com os praticantes a atividade desportiva, da atividade juvenil ao profissionalismo? Quais são as expressões fé no desporto? Há desportistas cristãos? Como explicar manifestações de fé, superstições e exorcismos presentes no desporto? Há uma fé incarnada no desporto: quais os pressupostos?


Paolo Crepaz
Médico de equipas nacionais de Itália, professor universitário
Fonte: Sportmeet (Movimento dos Focolares)
Trad.: SNPC
Publicado em 28.05.2018

29 maio 2018

Do sublime

Muitos à volta da mesa da sala de aula disseram o mesmo: até frequentarem aquele seminário específico a palavra sublime não fazia parte do vocabulário, embora (digo eu) todos usassem expressões mais vulgares como bonito, muito bonito, maravilhoso... Mas o desafio era encontrarem o sublime nos edifícios. Quais eram, para nós, exemplos de edifícios sublimes [segundo a concepção descrita em "Do Sublime"(do qual retiro um pequeníssimo excerto*), atribuído a Dionísio Longino (séc. I)]. 

Seguem abaixo, alguns edifícios / obras que naquela sala, naquele dia se consideraram sublimes. Sobre os motivos falarei um dia destes.

* "[...] Quase por natureza, a nossa alma, diante daquilo que é verdadeiramente Sublime, eleva-se e, levada por uma orgulhosa exaltação, enche-se de uma alegria soberba, como se ela própria tivesse gerado o que ouviu [...]"

JdB

Av. 9 de Julho (Buenos Aires)

Metéora (Grécia central)

Capela Bruder Klaus (Mechernich, Alemanha)

Ruínas do Convento do Carmo (Lisboa)

Somerset House (Londres)

Igreja de S. Domingos (Lisboa)

Catedral de S. Pedro (Vaticano)

Ópera (Ljubljana)

Opéra (Paris)

Piazza Navona (Roma)

Igreja da Sagrada Família (Barcelona)

Terreiro do Paço (Lisboa)

28 maio 2018

Das sesimbras e do tempo de cada um

Sesimbra nunca me disse nada. No meu imaginário pouco mais era do que nome de praia. Na minha vida real era local onde fora três vezes - todas elas breves: com colegas de faculdade, numa reunião profissional, com gente próxima. Nada de relevante me ficou na memória. As visitas foram curtas, e eu, em todas estes momentos, via menos do que vejo agora.

Voltei lá na semana passada, para outra estadia muito breve. Sesimbra não acrescentaria nada à minha existência não fosse uma frase e uma conversa com quem lá passou muita infância e muita juventude, onde se fez rapaz ou jovem adulto, onde conheceu as artes da pesca e as pessoas locais, onde teve uma liberdade de movimentos e de olhar que não teria noutro sítio, com as mesmas pernas e os mesmos olhos. A frase foi nostálgica, a conversa foi nostálgica. A Sesimbra que foi já não é e, se acreditarmos no que nos dizem, não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Para este meu amigo, Sesimbra foi um passado marcante, feliz, cheio, irrepetível, que provoca dor, como provoca tudo aquilo que desaparece por arrancamento da memória.

Nunca tive Sesimbra, mas tenho as minhas sesimbras: locais repletos de cores, de cheiros, de pessoas, de sons, de rotinas; locais onde fui imensamente feliz, e que já não existem na forma primitiva que foi garante de uma satisfação de alma que me acompanha até agora. Desapareceram pessoas, ainda que existam as mesmas paredes. Alguns cheiros - os da natureza - permanecem; outros, mais domésticos, foram destruídos pela luz eléctrica inodora e imediata, onde se liga aquilo que nos liga ao mundo; as cores mantêm-se e os meses, apesar das alterações climáticas, ainda se sucedem na mesma rotina. Talvez, então, só tenha mudado eu e a forma como olho para as coisas: não com os olhos irrequietos que eram os meus, mas com os olhos que se foram desanimando com o tempo, com a aprendizagem da vida, com esta espécie de experiência que mata o fascínio e o gosto da primeira vez. 

Sesimbra estará diferente, como a Cascais da minha infância está diferente, apesar de não ser aqui, nesta vila tão bonita e tão destruída pelo progresso inevitável, pelo mau gosto e pela corrupção, que vou buscar a felicidade da primeira juventude, das primeiras paixonetas, das mãos dadas, das cartas escritas. Sesimbra tem uma parte nova (todos estes locais têm partes novas) - e estas partes novas dos locais das nossas infâncias são tantas vezes excrescências, tumores acrescentados pela mão humana que destroem a geografia da nossa circulação passada, que nos fazem dizer frases carregadas de uma nostalgia que recusa o crescimento, a passagem do tempo e o desaparecimento de épocas superlativamente felizes, como só podem ser as da juventude: já não conheço nada disto, no meu tempo isto não existia. O nosso tempo é o nosso tempo, aquela janela de oportunidade para se viver despreocupado e cheio, livre e repleto de desejo e espanto.

***

Em Sesimbra sento-me numa esplanada enquanto o sol se põe e o frio da noite vai caindo. À minha frente, no passeio marítimo que contorna a praia, um casal caminha de braço dado. Vejo-os subir, vejo-os descer na mesma passada vagarosa e morna de quem conversa sem a pressa da decisão. Não são, na verdade, um casal: são uma metáfora para o tempo lento, para o tempo sossegado e partilhado, um tempo não esmagado pelo prazo ou pela eficiência. Este é, também, o meu tempo. Sesimbra deu-mo na semana passada, trazido por um casal que passeava de braço dado. 

JdB

27 maio 2018

Solenidade da Santíssima Trindade

EVANGELHO – Mt 28,16-20

Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram-n’O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou-Se e disse-lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e fazei discípulos de todas as nações,
baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

26 maio 2018

Pensamentos Impensados

Descoberta macabra
O morto estava com aspecto de cadáver, estava estável e nu do pescoço para cima.

Reuniões secretas
Vejo na TV qualquer coisa relacionada com os pensadores portugueses, e eu não sou mencionado; inveja ou ignorância?
Tirando o consagrado Dalai Lima, quem  é que publicou mais de 3000 pensamentos? Eu, que penso o pior disto tudo.

Solitudes
Adão: Mãe há só uma.
Deus: Voltaste a beber!

Erupções
O vulcão mais activo do Mundo, no Havai, deveria chamar-se Marcelo.

Classificações
Conheço uma pessoa de apelido Mil Homens; deve ser uma Pessoa Colectiva.

Cabeças
O senhor Enve Lopes foi o inventor do sobrescrito.

Provérbio futebolista
A trave pode ser um entrave.

SdB (I)

25 maio 2018

Textos dos dias que correm

Monsaraz, Abril 2018


O nada e o tudo

«As crianças encontram o tudo no nada; os homens o nada no tudo.» O "Zibaldone" de Giacomo Leopardi (1798-1837) revela a genialidade absoluta deste poeta italiano. Basta apenas permanecer por um instante numa frase fulgurante como a que citamos hoje.

Ao pequeno é suficiente um cabo de vassoura para criar um cavalo, um pouco de areia para conceber um castelo, uma folha branca para evocar o céu e a terra.

Tornado adulto (ou feito adulto já desde pequeno com os inapropriados jogos eletrónicos a ele impingidos pelos pais), nunca ficará satisfeito com nada, mesmo que possua palácios, viaje pelo mundo ou tenha tudo o que deseja.

Esta é uma variante daquela lei que Jesus formulou assim: «Que vantagem terá o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?» (Mateus 16, 26).

Sem alma, o tudo torna-se nada, o possuir é vazio, a existência é vã, o mundo é uma realidade insignificante. É também por isso que Jesus nos repete: «Se não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mateus 18, 3).

É preciso, portanto, reencontrar o gosto do deslumbramento, a capacidade de descobrir num grão de areia um microcosmo, na flor a beleza, na vida um sentido, nas coisas um estigma do infinito, nas horas uma semente de eternidade.

É esta a função da poesia, da arte, da música. Mas esta é sobretudo a missão da fé que em cada instante te faz intuir a presença de Deus que te interpela e te chama a uma tarefa gloriosa.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 24.05.2018

24 maio 2018

Poemas dos dias que correm

esta manhã, tropecei num poeta fulminante.
li milhares de poemas, fui milhares de poetas,
e aparece do nada, vindo de outro século,
um homem que escreve sobre outra cidade,
e que, contudo, escreve com a minha exacta mão,
estes meus olhos, a totalidade do meu coração.
pensava numa só palavra*, ao lê-lo.
e eis que, nem duas páginas à frente, 
me assalta um poema intitulado "home".
homens esperam, em todos os sítios,
pelo amor de jovens eternas raparigas.
e de cidades que os encham de ternura,
mais bruta ou mais gentil ou algo a meio,
em finos teatros e em tugúrios perdidos.
uma vez na vida, se tanto, encontram-no/a,
mas seguem > seguem > seguem > seguem,
cegos pela maquinal rotina que os devora.
cidades, mulheres, estrelas - quem as vê?
quem captura, para a fugidia posteridade,
a verdadeira essência do rio colectivo,
onde cada partícula é, ao mesmo tempo,
o universo todo - e vice-versa?
ergo o olhar, ajoelho, saúdo-te: Carl Sandburg.
estejas onde estiveres, olhes-me de onde olhares,
és a mão que escreve estes versos.

(* a palavra era: casa.)

gi.

23 maio 2018

Vai um gin do Peter's?

SÓ ESCHER PARA JUNTAR BACH E PINK FLOYD;  COM OBRA EXPOSTA EM LISBOA

Até ao próximo Domingo, 27 de Maio, decorre no Museu de Arte Popular, junto ao Padrão dos Descobrimentos, a mostra de 200 gravuras do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher(1) [1898-1972], cujo surrealismo marcou o mundo da cultura, alargando-se à matemática, psicologia, alta costura, publicidade, etc. Basta descobrir a sua obra para perceber como continua a ser glosado. Até a publicidade do IKEA foi contagiada pela Eschermania, conforme se prova no final do circuito expositivo.   

O acervo exposto provém da Fundação Escher[http://www.mcescher.com/] e da colecção do italiano Federico Giudiceandrea, contendo algumas das litografias mais emblemáticas de padrões geométricos que se metamorfoseiam ad infinitum ou as construções impossíveis que continuam a maravilhar o mundo. 

Em 1969, os Pink Floyd conseguiram uma capa para o seu disco «Yet another movie»; mas Mick Jagger viu recusado o pedido para a capa do «Let it bleed», em 1968. Nessa década do Flower Power , a nova geração intuía com lucidez o vanguardismo de Escher, defensor de ideias arrojadas e carismáticas como: «Só quem tenta o absurdo, consegue o impossível». 

A exposição segue um rumo cronológico, evidenciando as diversas etapas do seu percurso artístico, começando pela Arte Nova e os efeitos de ilusão óptica. Da infância, conta que ficou marcado pelos trompe d’oeil pintados no tecto da casa dos pais. 


«Ondas», 1918. Aguarela em cinzentos e vermelhos.

Nos estudos, o mestre holandês de grafismo Samuel Jessurun de Mesquita (1868-1944) guiou-lhe os primeiros passos, incutindo-lhe um rigor que conferiu maior substância à criatividade de Escher, invulgarmente esmiuçada ao pormenor. Sempre agradecido, Maurits dedicou-lhe uma obra, quando soube que tinha morrido em Auschwitz, simplesmente por ser judeu (de provável ascendência portuguesa). 

Entre 1921 a 1936, vagueou por Itália, apaixonado pelo país e também por Jetta Umiker – filha de um empresário suíço, que ali conheceu e com quem veio a casar. Maravilhou-o a beleza da paisagem e a beleza da arquitectura, o extraordinário equilíbrio dos volumes, no fundo, muito ousado e difícil de alcançar. Em Roma, privilegiou as observações nocturnas para se poder concentrar melhor no esqueleto arquitectónico. Costumava dizer: «Quem se maravilha com alguma coisa, descobre que [essa atitude] é uma maravilha em si mesma».


«Catedral Submersa», 1929

«Roma e o Grifo Borghese», 1927.
Bastavam-lhe linhas rectas e curvilíneas para tecer um entremeado denso,
que reproduzia na perfeição a realidade observada.

A partir de 1936, a ferocidade explícita do regime de Mussolini, conduziu-o a outras paragens europeias, em especial a Suíça e a Bélgica (até 1940). É também desta fase a descoberta da beleza geométrica dos monumentos muçulmanos do sul da Europa. Alhambra (1238-1492) inspirou-lhe 17 estudos sobre modalidades de preenchimento, a partir de formas simples como triângulos, quadrados e círculos, em tesselações que usavam o contraste para obter novos efeitos e produzir novas percepções. Além da diferenciação por contraste, jogava também com a semelhança gradual, até à fusão das formas, quando se rompia o estaticismo dos dados iniciais e estes deslizavam para outros formatos, gerando movimento. O conjunto final acabava por impor uma nova leitura, que mal deixava adivinhar os elementos primários que o compunham. À regularidade da arte maometana, Escher acrescentou figuras, replicando-as com a mesma técnica padronizada. Curiosamente, esta é também a génese da azulejaria portuguesa. 

«Progressivamente menor», 1956

A partir dos anos 40, a busca de novos universos, capazes de estimular novas percepções, passou a marcar a sua obra, explorando incessantemente modos inovadores de cruzar e entrelaçar elementos simples. Jogava, sobretudo, com o branco e o preto, que baralhavam o cérebro humano: «Os nossos olhos estão habituados a fixar objectos específicos».

«Metamorfose I», 1937.
A mais conhecida das «Metamorfoses» é a III, datada de 1967 –
concebida para a sede dos Correios holandeses, em Haia.

A posterior investigação do espaço, levou-o ao estudo exaustivo da matriz dos cristais e das superfícies topológicas, como as fitas de Möebius, evoluindo para uma etapa mais abstracta e de base matemática. Mergulha, então, no zoom; no quadro-dentro-do-quadro repetido exaustivamente como bonecas-matrioskas; na deformação das formas como se fossem moldáveis; nas imagens distorcidas quando reflectidas em superfícies espelhadas convexas ou côncavas; nos paradoxos, antecipando-se a Magritte; por junto, no constante ludíbrio que procurava atirar a realidade conhecida para um patamar onde adquiriria novo visual e só na aparência era regido pelas leis do planeta Terra. 

«Encontro», 1944

«Três esferas», 1945.
Distorções intencionais destinadas a explorar novos paradoxos geométricos.

A invulgaridade de Escher está na origem desta busca insaciável, alimentada pela sua especial afeição pela realidade, nomeadamente pela riqueza infinita do mundo natural, à primeira vista simples e monótono. Cedo percebera a incomensurabilidade que se esconde na mais ínfima expressão da natureza, a começar pelas tramas esfarrapadas de musgo ou pelo rendilhado semi-oculto da folha de árvore mais banal: «Desejo encontrar a felicidade nas coisas pequenas, num bocado de musgo (…), copiar estas coisas infinitesimalmente pequenas, com tanta precisão quanta é possível». Por isso, encontrou terreno fértil tanto no micro como no macrocosmo, ali desbravando modelos para reformular e reinventar as matrizes conhecidas. 

«Gota de orvalho», 1948

«Dia e Noite», 1938.
Recorre às leis da percepção – o gestaltismo («psicologia da boa forma») –
para nos ludibriar com reflexos e “clonagens” em movimento,
numa viagem às infinitas recomposições das formas.

Conseguiu também impregnar de humor as acrobacias matemáticas das suas produções surrealistas, embora não o movesse o mero sentido lúdico. Era sobretudo animado por uma curiosidade perscrutadora, semelhante à do cientista, rigorosa até ao mais ínfimo detalhe. Uma vez processados os dados, propunha-se esticar a lógica até ao impossível, qual filósofo. Dizia: «A ordem é a repetição da unidade. O caos é a multiplicidade sem ritmo.» Nas suas descobertas sobre a organização do cosmos, irritava-o a falta de originalidade das construções humanas, escusadamente espartilhadas em banais ângulos rectos. 

«Mãos a desenhar», 1948


Chanel adorou e replicou a elegância das suas geometrias harmoniosas e bem dispostas. Empresários e magnatas encomendaram-lhe, ano após ano, cartões de aniversário e convites para festas privadas. 



Nos anos 50, Escher movia-se com incrível naturalidade por entre estruturas impossíveis, que mantinham um nexo lógico a equivocar o cérebro, tornando as suas obras intrigantes. 

«Relatividade», 1953.
Escadas impossíveis de usar com figuras sujeitas a forças de gravidade
desencontradas, apesar de coabitarem espaços contíguos e aparentemente interligados.
Desta forma, visava libertá-las da lei da gravidade. 

Especificamente, na «Galeria da Gravura» (1956), o holandês preferiu deixar em branco o ponto de fuga. Essa lacuna entusiasmou uma equipa de matemáticos, liderada por Leustra, que quis resolver o enigma lançado por Escher. Demorou meses até apresentar uma solução de preenchimento do espaço em aberto (2003), conforme se vê na exposição. 

Espantoso um artista fã de Bach apaixonar os rockers com idade para serem seus netos! Espantoso o alcance da sua arquitectura do absurdo demonstrar a validade dos diferentes pontos de vista de cada observador, que podem chegar a resultados opostos. Espantosa a sua ânsia de infinito, representando-o em formas inéditas que desejavam suplantar as possibilidades oferecidas pelo mundo visível. 

No fundo, percebe-se por que a genialidade meticulosa de Escher aguentou tão bem o exigentíssimo teste do tempo, catapultando-o para a intemporalidade. 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_________________________
(1) http://escherlisboa.com/ .  Horário – Todos os dias, das 10h00 às 20h00, mas a última entrada é às 19h00, hora em que encerra a bilheteira. Tel. para info sobre bilhetes e reservas – 21 034 30 80.

21 maio 2018

Duas Últimas

No que diz respeito às minhas escolhas musicais, grande parte das vezes sou um homem precocemente velho; grande parte das vezes sou um homem triste. Talvez na totalidade das vezes - embora a equação matemática esteja completamente errada, porque a soma das partes não pode ser maior do que as partes juntas - eu seja um homem velho e triste. A música feliz não me contenta, a música triste não me entristece. 

O momento mais alegre do casamento real foi protagonizado pelo coro que cantou Stand By Me em versão gospel. Não gostei, não porque fosse alegre ou fosse um gospel, mas porque o ritmo me pareceu pouco gospeliano. Faltava-lhe ali, na minha opinião, um ritmo mais acentuado. No sentido oposto, o momento mais triste foi magnificamente protagonizado por um jovem violoncelista, um absoluto talento da Serra Leoa, por aquilo que li. Será visita do estabelecimento, um destes dias.

Na minha cabeça musical de velho e triste há uma solenidade / espiritualidade / recolhimento num casamento daquele tipo que tem de ser dado por um ritmo que seja igualmente solene, espiritual e propício ao recolhimento. Nesse sentido a selecção musical merece nota máxima. 

Deixo-vos com um canto muito bonito, não triste, mas propício à elevação. O coro é magistral, as filmagens idem idem aspas aspas. Talvez haja gente com ar maçado no casamento, como haverá gente com ar maçado que parará a música 30 segundos depois dela ter começado. É assim - caso eu quisesse maior unanimidade ia para a Coreia do Norte.

The Lord Bless You and Keep You. Um bom desejo para quem casou este sábado, ou para quem casou ontem mas há dois anos, ou para quem casou há mais tempo ou para quem vive tempos mais difíceis ou mais felizes. No fundo no fundo, para todos.

JdB

Da água, do sporting e do casamento real

Nota prévia: este post estava escrito na minha mente desde sábado à tarde, pelo que os infaustos acontecimentos de ontem no Jamor nada têm a ver com o texto. 

***

Num passado menos recente alguém levou uma porção de água ao frio. Assim que o líquido solidificou, isto é, se tornou gelo, fez-se um risco numa régua. Estava definido o ponto de congelação: 0ºC. Depois, esse mesmo alguém agarrou em porção semelhante de água e levou-a ao calor. Logo que esta levantou fervura, fez-se outro risco na régua. Estava definido o ponto de ebulição: 100ºC. 

***

Durante os últimos dias segui com um interesse mórbido e masoquista a novela protagonizada por esse homem perigoso e doente chamado Bruno de Carvalho. Segui nos jornais, vi na televisão, ouvi aquela voz que, por trás de uma aparente calma, revela um mente absolutamente incapaz para gerir um clube de futebol que se pretenda digno. Como sportinguista - embora pouco ferrenho e pouco interessado - tive vergonha. Como português que percebe quem está à frente dos três maiores clubes de futebol tive vergonha. O futebol é uma associação de malfeitores e, neste momento, Bruno de Carvalho é o mais proeminente de todos. A minha indignação nada tem de original.

***

Sábado, em directo e em diferido, segui o casamento do príncipe Harry e de Meghan, a mulher que ele escolheu para o acompanhar na vida. Não vou tecer muitas considerações sobre o facto de ela ser quem é, ter o passado que tem, o enquadramento familiar que é o seu. Desejo que sejam felizes e que o afecto que ele demonstra claramente por ela seja correspondido. Vi tudo com atenção, embora não me prenda a pormenores que a outros interessam muito: o custo de tudo,  o vestido dela, os chapéus dos convidados, o conto de fadas. Interessa-me a organização, a tradição, o rigor, a atenção ao pormenor, a estética da igreja e da escolha das músicas, os pequenos pormenores que revelam que nada é deixado ao acaso.

***  

O que liga o Sporting - neste caso corporizado por Bruno de Carvalho - e o casamento real? A mesma coisa que liga uma água gelada a uma água fervente: ambos os estados são os extremos de um contínuo; entre um e outro há uma convenção de 100ºC de diferença. Bruno de Carvalho é tudo o que não queremos ser de indignidade, de achincalhamento a uma história clubista longa e honrosa, ainda que manchada aqui e ali. O casamento representa o outro extremo deste contínuo que é a vida - ou que é a minha vida: o respeito pela tradição, a ousadia do rompimento, a actualização da modernidade sem esquecer os séculos precedentes. Entre um extremo e outro o conjunto intersecção só existe porque existem pessoas numa e noutra realidade. Ver Bruno de Carvalho a destruir um clube enoja-me; ver uma cerimónia como aquela que vi no sábado é o elixir que limpa o palato do sabor a vómito.

***  

Alguém me dizia, sábado de tarde, que a homilia do casamento real não tinha sido muito apreciada. Ouvi toda e percebo que não tenha sido apreciada. Na realidade, há uma espécie de actuação teatral pouco comum aos costumes ingleses. Mas vale a pena ouvir os primeiros 5 minutos e deixar o tema a ressoar dentro de nós: o amor consegue tudo. Não perceber isto é não perceber algumas coisas importantes da vida. Não o amor de conto de fadas que está a encantar meio mundo, mas o amor entrega, sacrifício, dádiva, conquista, construção, partilha. 

JdB

20 maio 2018

Solenidade do Pentecostes

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

19 maio 2018

Pensamentos Impensados

Cópias
Se eu der quatro espirros, três são plágio.

Repouso
Os espanhóis criaram a sesta, os americanos o sábado e Deus o domingo.

Vozes
O contralto tem  quase voice male.

Frases ocas
É um diamante em bruto, precisa ser lapidado, é uma frase lapidar.

Morfeu
Leio no CM que um tipo dormiu com 2.000 homens depois de mudar de sexo. O que ele tinha era sono...

Amizades
O Alexandre  dumas era amigo, doutras nem por isso.

Deslarga-me
A nossa sombra é a coisa mais maçadora que existe: não nos larga, copia tudo o que nós fazemos. Mas que falta de imaginação!

SdB (I)

18 maio 2018

Declarações dos dias que correm *

Cuidar até ao fim com compaixão – declaração inter-religiosa

O debate em curso na sociedade portuguesa sobre a realidade a que se tem chamado “morte assistida” convoca todos a realizarem uma reflexão e a oferecerem o seu contributo para enriquecer um processo de diálogo que necessita da intervenção da pluralidade dos atores sociais. As Tradições religiosas são portadoras de uma mensagem sobre a vida e a morte do homem, bem como sobre o modelo de sociedade que constituímos, e é legítimo e necessário que a apresentem, com humildade e liberdade.

Agora que a Assembleia da República vai discutir e colocar em votação propostas de uma eventual lei sobre a eutanásia, nós, as comunidades religiosas presentes em Portugal signatárias, conscientes de que vivemos um momento de grande importância para o nosso presente e o nosso futuro coletivo, declaramos:

1. A dignidade daquele que sofre

Acreditamos que cada ser humano é único e, como tal, insubstituível e necessário à sociedade de que faz parte, sujeito de uma dignidade intrínseca anterior a todo e qualquer critério de qualidade de vida e de utilidade, até à morte natural. A vida não só não perde dignidade quando se aproxima do seu termo, como a particular vulnerabilidade de que se reveste nesta etapa é, antes, um título de especial dignidade que pede proximidade e cuidado. Assumimos que todo o sofrimento evitável deve ser evitado e, por isso, estamos gratos porque o desenvolvimento das ciências médicas e farmacológicas alcançou um tal patamar de desenvolvimento que permite o eficaz alívio da dor e a promoção do bem-estar. Contudo, não ignoramos o carácter dramático do sofrimento e a dificuldade de que se reveste a elaboração de um sentido para o viver. Sabemos que a religião oferece uma possibilidade de sentido a quem acredita, mas sabemos também, pela experiência do acompanhamento de tantos que não são religiosos, que não depende de o ser a possibilidade de encontrar sentido para o próprio sofrimento. Com esses aprendemos, aliás, que nesta tarefa reside uma das maiores realizações da dignidade pessoal. A dignidade da pessoa não depende senão do facto da sua existência como sujeito humano e a autonomia pessoal não pode ser esvaziada do seu significado social.

2. Por uma sociedade misericordiosa e compassiva

O sofrimento do fim de vida é, para cada pessoa, um desafio espiritual e, para a sociedade, um desafio ético. Comuns às diferentes Tradições religiosas, princípios como a misericórdia e a compaixão configuraram, ao longo da história da civilização, modelos sociais capazes de criar, em cada momento, modos precisos de acompanhar e cuidar os membros mais frágeis da sociedade. Hoje, o morrer humano é um dos âmbitos em que este desafio nos interpela. O que nos é pedido não é que desistamos daqueles que vivem o período terminal da vida, oferecendo-lhes a possibilidade legal da opção pela morte, à qual pode conduzir a experiência do sofrimento sem cuidados adequados. Esse é o verdadeiro sofrimento intolerável, que cria condições para o desejo de morrer. Nasce de uma sociedade que abandona, que se desumaniza, que se torna indiferente. Confirma-nos nesta convicção a experiência de que quem se sente acompanhado não desespera perante a morte e não pede para morrer. O que nos é pedido é, pois, que nos comprometamos mais profundamente com os que vivem esta etapa, assumindo a exigência de lhes oferecer a possibilidade de uma morte humanamente acompanhada.

Acreditamos que os cuidados paliativos são a concretização mais completa desta resposta que o Estado não pode deixar de dar, porque aliam a maior competência científica e técnica com a competência na compaixão, ambas imprescindíveis para cuidar de quem atravessa a fase final da vida. A verdadeira compaixão não é insistir em tratamentos fúteis, na tentativa de prolongar a vida, mas ajudar a pessoa a viver o mais humanamente possível a própria morte, respeitando a naturalidade desta. Os cuidados paliativos fazem-no, valorizando a pessoa até ao seu fim natural, aliviando o seu sofrimento e combatendo a solidão pela presença da família e de outros que lhe sejam significativos. Interpelamos a sociedade portuguesa para corresponder à exigência não mais adiável de estender a todos o acesso aos cuidados paliativos e assumimos a disponibilidade e a vontade de fazermos tudo o que esteja ao nosso alcance para participar neste verdadeiro desígnio nacional. E não podemos deixar de interrogar se a presente discussão, antes de realizado este investimento, não enfermará de falta de propósito.

As Tradições religiosas professam que a vida é um dom precioso e, para as religiões abraâmicas, um dom de Deus e, como tal, se reveste de carácter sagrado; mas este apenas confirma a sua dignidade natural, da qual derivam a sua inviolabilidade e indisponibilidade intrínsecas, que, portanto, não dependem da fundamentação religiosa. Mas a religião confere à vida um sentido, uma esperança, uma outra possibilidade de transcendência. As sociedades precisam desta visão do humano ao lado de todas as outras.

Nós, comunidades religiosas presentes em Portugal, acreditamos que a vida humana é inviolável até à morte natural e perfilhamos um modelo compassivo de sociedade e, por estas razões, em nome da humanidade e do futuro da comunidade humana, causa da religião, nos sentimos chamados a intervir no presente debate sobre a morte assistida, manifestando a nossa oposição à sua legalização em qualquer das suas formas, seja o suicídio assistido, seja a eutanásia.


Por isso assinamos em conjunto a presente Declaração.

Lisboa, 16 de maio de 2018


Aliança Evangélica Portuguesa: Pastor Jorge Humberto, em representação do Presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, Dr. Pedro Calaim

Comunidade Hindu Portuguesa: Sr. Kiritkumar Bachu

Comunidade Islâmica de Lisboa: Sheik David Munir

Comunidade Israelita de Lisboa: Rabino Natan Peres

Igreja Católica: Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente

Patriarcado Ecuménico de Constantinopla: Arcipreste Ivan Moody

União Budista Portuguesa: Eng.º Diogo Lopes

União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia: Pastor António Carvalho, em representação do Presidente da União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia, Pastor António Amorim

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* retirado daqui

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