14 maio 2009

O azul dos dias tristes

A noite, à primeira vista igual a tantas outras que já tinha passado na rua, tinha hoje um frio diferente. Chegava aos ossos. Puxava-os e estilhaçava-os sem cerimónia. Enrolado sobre si mesmo, não conseguia ver o fim da rua devido ao vapor que lhe saía da boca. As pontas dos dedos tinham uma cor estranha, parecida com o azul cinzento do ocaso dos dias tristes.

Puxava para cima um pedaço de pano que mal lhe tapava os ombros, na esperança que dali viesse um calor que queimasse o nariz e as orelhas. Mas não vinha, e o frio crescia cada vez mais à sua volta.

O único conforto que tinha era a companhia do cão. Para além de dormir sempre na rua, ele era a única constante na sua vida. Nunca o tinha abandonado, por maior que fosse o desconforto, por mais intolerável que fosse o frio ou por mais desesperante que fosse a fome. E ele não se esquecia disso. O pano tapava-os sempre aos dois, e o pão de cada dia era dividido irmãmente. Falava com ele, e tinha a certeza de que o cão ouvia e percebia cada palavra que lhe confiava. Nas horas em que o desespero lhe apertava mais o coração, em que a solidão tinha na alma o peso do mundo, era o fiel cão que lhe lambia as lágrimas que desciam pela cara.

Mas, naquela noite mais fria que todas as outras que já dormia, nem o focinho húmido do cão lhe conseguia oferecer qualquer conforto. Parecia uma estátua, imóvel e gelado como a pedra sobre a qual dormia. Ele puxou-o mais para si, pô-lo ainda mais debaixo do pano que o cobria.

Desde sempre que o seu lugar de sono era a pedra do átrio de uma velha Igreja. Estava abandonada, entregue a si própria. Nunca tinha visto ninguém ali deixar uma Ave-Maria ou um Pai-Nosso. O Santíssimo não morava no tabernáculo que encimava o altar. Esse estava sempre despido, vazio. As velas já tinham todas ardido até aos pés, e os santos, de olhos fechados, dormitavam cada um no seu nicho.

As únicas orações que a velha Igreja ouvia eram as dele. E mesmo essas, sabe Deus, apenas eram feitas em alturas de maior aperto. Balbuciadas entre dentes, sem qualquer organização ou verdadeiro sentido. Mas, nessa noite fria, sentiu que o que rezava tinha outro fervor

Ave-Maria,
Cheia de graça...

‘Talvez hoje Nossa Senhora me oiça’, pensou ele.

A cruz que lhe servia de cabeceira erguia-se, mais alta do que nunca, até ao céu. Deitado não lhe conseguia ver o fim... Tal como a noite que o levava, parecia não mais acabar.

Os anjos que decoravam o exterior da igreja olhavam-no de soslaio. Os que o conseguiam olhar, porque o tempo não tinha sido meigo com alguns. As feições redondas que os caracterizavam tinham sido apagadas a pouco e pouco, e sobravam agora na cara apenas uns ossos saídos e uns olhos encovados, sem vida.

Mas outros, mais escondidos da fúria do vento e das chuvas, tinham conservado toda a vida e todo o brilho, e os olhos despertos observavam atentamente tudo o que se passava de volta. Era a esses que pedia que o embalassem, que lhe secassem as lágrimas que caíam, geladas e pesadas, pela cara.

Sentia as forças transformarem-se em vapor a cada respiração, cada vez mais a custo. O calor do sangue tinha sido todo substituído por um frio cortante. Os dentes já tinham deixado de bater, e o resto do corpo, tendo-se apercebido da impossibilidade de se tentar aquecer, deixara de tremer. Jazia, imóvel, no frio das lajes que lhe serviam de colchão e de almofada.

Olhou para o cão adormecido a seu lado. Tentou chamá-lo, mas este não o ouviu. Abanou-o e ele não respondeu. O focinho húmido estava agora frio e sem vida. Os olhos estavam fechados, e já não os abria mais.

Sentiu, pela primeira vez, o peso esmagador da solidão e não tinha quem o aliviasse. Deixou-se adormecer, tal como o cão. E nesse momento, viu os anjos voltarem-se para ele. Sentiu uma asa tapá-lo. Não de pedra, mas uma leve e quente. E pôde, por fim, fechar os olhos, e adormecer embalado pelo bater da asa.

π

13 maio 2009

Explicação

Devido a razões ponderosas, o Largo da Boa-Hora estará hoje encerrado, reabrindo para a semana. Estou certo de que por trás de motivos sólidos está também a gentileza subliminar do ATM - que agradeço profusamente - que me quis dar espaço de antena neste dia marcante.

JdB

Fátima, ontem e há oito anos

Cada um dos meus colegas bloguistas que aqui escreve deixa um bocado de si. Escrevemos para nos entretermos, para partilharmos, para nos revelarmos, para aprendermos, para rirmos, para chorarmos, para tudo nos ser indiferente ou nos tocarmos com as palavras dos outros. Hoje escrevo, sobretudo, para mim, e para aqueles que, mais íntimos, me conhecem o suficiente para perceberem o que está por detrás deste texto.

***
Ontem, há oito anos, ia pela primeira vez ao 12 de Maio em Fátima. 2001 foi um tempo intenso - o ano de todas as tristezas, de todos os sufocos, de todas as angústias. Mas, também, de todas as revelações e de todas as esperanças. Ontem, há oito anos, erguia uma vela igual à que ergui agora. Apesar de todas as diferenças, saíu-me da alma o mesmo fervor: rogai por nós, que recorremos a vós. Ontem, há oito anos, mas também ontem, simplesmente, houve algo que se renovou cá dentro, como se se desse início a uma nova paz, sincera e duradoura, que nos abre mais uma porta para o lado luminoso da vida.

***

(...) A quinze metros de mim, não mais, um grupo de peregrinos, tão igual e tão diferente de tantos outros, chamou a minha atenção. Eram pessoas relativamente novas, dos seus quarenta e poucos anos, com crianças de várias idades. Dei por mim a fixar a vista num pai que levava uma filha aos ombros. Porquê, não faço ideia. Não havia nada naquele quadro que merecesse uma atenção especial ou mais demorada. Um olhar farol sobre o recinto mostraria com certeza inúmeros pais com filhos ao colo, aos ombros, às cavalitas. Porquê aquele, meu Deus? Enfim, mistérios da mente para os quais nem sempre temos explicação. Alguém que estava ao meu lado apercebeu-se da minha curiosidade e murmurou-me ao ouvido, entre duas Ave-Marias, a história daqueles personagens anónimos. Confesso que fiquei perturbada. Não só porque a minha cabeça, dos milhares e milhares de peregrinos que ali estavam, se fixou especificamente naqueles – que quem estava comigo conhecia -, mas também pela própria história. Na realidade, há acasos na vida de uma pessoa que, de tão extraordinários, mais vale ficaram sem um entendimento lógico que lhes tire o encanto.

O terço continuava, rezado em várias línguas, dez ou doze nacionalidades irmanadas na mesma fé que não olha a fronteiras nem a classes sociais. Deixei-me ir embalada naquela ladainha, mistério após mistério, Ave-Maria, Pai-Nosso, um sem fim de orações com os dedos a percorrerem lentos as contas do Rosário. A minha mente era uma confusão de sentimentos, as ideias como bolas percorrendo anarquicamente uma mesa de bilhar. Era a angústia devido ao estado de saúde do Joaquim, o pensamento desesperado ‘faço tudo o que for preciso para o salvar’, lado a lado com uma imensa perturbação por não saber com exactidão o que ali estava a fazer, as dúvidas de fé a contribuírem para o desassossego do espírito.

Findo o terço começou a procissão da velas, um dos momentos altos da Fátima do 13 de Maio. O andor continuava o seu percurso pelo recinto e, ao som de cada refrão, os peregrinos sentiam seguramente o mundo inteiro mais iluminado, vela ao alto, corações ao alto, os olhos postos no andor e a alma no Céu. Entrei mais uma vez naquele ritual de fé, como se quisesse mostrar a Nossa Senhora que eu estava ali, que precisava dela, sem na realidade ter uma opinião muito definida do seu verdadeiro poder e da sua influência na minha vida. ‘Rogai por nós que recorremos a vós’.

A minha atenção dividia-se de uma maneira quase ostensiva entre o ponto onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora e aquele quadro familiar que, indiferente ao meu olhar e à minha curiosidade, prosseguia a sua jornada de devoção. O pai mantinha a filha aos ombros, esquecendo possivelmente o esforço físico, subjugado por um peso muito mais difícil de suportar. Mesmo na escuridão da noite iluminada por uma miríade de velas, consegui olhar ambos nos olhos. Surpreendeu-me como lhes consegui ver – no mesmo instante - o sofrimento e a esperança, a angústia e a confiança. Uma mistura de sentimentos que eu admitia não conseguir vislumbrar em toda a sua dimensão faltando-me, claramente, a experiência da maternidade para sentir o que é o verdadeiro amor por um filho. Naquela imagem tão singela estava o esplendor e a miséria das nossas vidas, o princípio e o fim de tudo. ‘Ave, Ave, Ave Maria’, pai e filha elevavam os braços e imagino que ambos gostariam, na diferença do entendimento de cada um, que o andor se voltasse para eles, que Nossa Senhora lhes desse um sinal – ainda que imperceptível para todos os outros – que os tinha visto e que tomaria conta deles. Para sempre.

Impressionou-me este encontro. Os olhos mareados de dor e esperança do pai, o olhar espantado, confuso e fascinado da criança agarrada com determinação a quem a suportava, como se quisesse imortalizar aquele abraço, validá-lo pela presença da Mãe de Cristo. (...)

(Excertos do livro Deus pregou-me uma partida, do editor e dono deste estabelecimento e de Rita Jonet, Edições Lucerna, 2005)

12 maio 2009

Até já...


História com restos de vida - II

Decifro nos jornais
que me deixaste ao tempo
o que riscaste.
Vindas de ti,
não sei se são sinais
notícias de amores banais
que sublinhaste.
Responde, meu amor:
Sobejou a palavra que invocaste
ou sobrou para nós e não ligaste
o céu que se acendeu
nos títulos que encontraste?

JCN

11 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os sonhos

É educado e simpático, mas talvez seja das pessoas mais feias que tenho visto. O Sr. Pompeu da Silva, dono de uma cadeiazita de tabacarias em vários centros comerciais, obedecendo todas ao lema

à tabacaria Pompeu, quem lá vai sou eu

é profundamente inestético. Eu explico: altura média, cabelo preto pintado, uma testa baixíssima quase integralmente tapada com uma gaforina que lhe nasce na intersecção das duas sobrancelhas, que são pouco mais do que um tufo corrido de lado a lado dos olhos, praticamente sem separação. Vítima provável daquilo que o povo chamaria bexigas doidas, tem a face marcada por pequenos sulcos, que lhe ampliam a fealdade. Porque o adágio popular

não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe

está longe de ser uma verdade permanente, tem um olho de cada cor. Os meus dois - castanhos escuros e que a terra há-de comer - ainda lhe viram duas orelhas grandes, com tufos de pilosidade que se projectam negros e compactos dos ouvidos. De facto, não é vulgar um homem concitar, em si, uma dose tão grande de feiura.

Há pessoas cuja entrada nos sítios se não faz anonimamente, mas que provocam, pelo contrário, uma onda qualquer – seja de espanto, de fascínio, ou de repulsa. O Sr. Pompeu da Silva levou, seguramente, a primeira e a terceira hipóteses: ao pasmo seguiu-se a aversão. Estou certo de que na mente de todas as raparigas perpassou uma ideia:

independente dos prémios associados à satisfação do cliente, que não me caiba a mim…

A Dra. Clara, ao contrário do que é costume, pediu-me logo:

- Amália; importa-se de encaminhar o Sr. Pompeu da Silva ao meu gabinete? E traga-me dois cafés, se não se importa. Traga também um pratinho com pastéis de nata.

Ainda não tinham passado dez minutos e já ambos saíam sorridentes, como quem encetou uma negociação curta, porque as partes se entenderam numa cordialidade que se antevia improvável. O Sr. Pompeu sacudia um pedaço de massa folhada de um casaco roxo, com fios de um doirado quase imperceptível, e sorriu à indicação que me foi dada num tom de voz afável, mas que não admitia discórdias:

- A Eduarda, se faz favor.

Vi o cliente seguir para o quarto indicado, deixando um rasto de roxo e dourado, o que não deixava de ser estranho. Uma hora depois saía de braço dado com esta operária da Fábrica da Ilusão a quem ofereceu dois beijos ternurentos e um desejo:

- Se calhar até daqui a um mês…

A Eduarda encostou-se ao balcão, passou a mão pelo cabelo e pelos lábios e percebi que se recolhia numa recordação breve.

- Digo-te, Amália. Há muito tempo que não tinha uma hora de prazer tão boa, tão desafiante, tão sensual. O Sr. Pompeu é um amante como nunca vi. Não quero entrar em pormenores, como perceberás, mas tem umas mãos mágicas, se me é permitida a expressão. Não houve sítio do meu corpo que não me tivessem afagado, não houve local que os seus dedos não tivessem percorrido, como se fossem um explorador que quer conhecer tudo de um terra desconhecida. Alternou a ternura mais suave com o desejo quase violento; as suas mãos afagaram o cristal delicado mas agarraram a rocha dura. A sua boca. Ai, Amália, nem te digo. Nunca vi nada assim, podes crer. Ainda estou a tremer… Sabes qual é o mal?

- Diz, Eduarda.

- Gostei tanto que temo achar que os outros são de menor qualidade. Vou ficar um mês desesperada à espera do cavalheiro. Será que aguento? E tu, diz-me, o que achaste dele?

Tive dois segundos para tomar uma decisão. Ou lhe emitia a minha opinião sincera - que era demolidora -, ou reforçava a convicção da rapariga. Porquê desiludi-la com um juizo cru, pouco motivador – talvez mesmo desmoralizador? A franqueza é uma qualidade ou uma característica? É para se exercer sempre, ou com parcimónia, como uma erva aromática forte e dominante?

- Olha Eduarda, deixa-me dizer-te o que penso. O Sr. Pompeu da Silva é um homem muito bonito, com charme, dono de alguma sensualidade misteriosa. De facto, olhei para a boca dele, bem desenhada, e para as mãos, que aliam a delicadeza à força, e não tive uma dúvida de que te irias encantar. Na realidade a Dra. Clara acerta quase sempre. Há nela um sexto sentido que é fundamental - para além de invejável.

- Obrigado, Amália. Foste muito simpática.

Olhei para a rapariga e pensei que nuns olhos que não vêem pode haver um coração que se fascina. Foi isso que aconteceu com a Eduarda, a única invisual a trabalhar nesta Fábrica da Ilusão.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

10 maio 2009

Pensamentos dos dias que correm



Há dias aziagos.
Há ideias e decisões que nos povoam a mente durante alguns dias: um pensamento que se quer partilhar, um propósito que é preciso fazer, algo que é necessário dizer.
Medita-se sobre a melhor forma, o timing correcto, as palavras certas. Tudo em nome da eficácia e dos princípios que nos norteiam.
All of a sudden, diriam os ingleses, há um ligeiríssimo desalinhamento dos astros materializado em algo imprevisível, como se o meio-dia chegasse alguns minutos antes, como se o sol desaparecesse, não por trás da linha do horizonte, mas na vertical do nosso lugar, como se a água fervesse a 51º.
De repente, um minúsculo grão de areia deita por terra os pensamentos, as decisões, os propósitos, a noção de tempo exacto.
De repente, tudo em nós se desarticula, range num esforço de máquina forçada, estrebucha como criança que luta contra a sesta benfazeja.
De repente, já não somos nós, mas alguém que, cá dentro, revela o pior que todos temos: a escuridão, o frio, o mal. Elementos que não existem por si, mas pela ausência do seu inverso.
Alguns dos que me lêem sabem do que falo. Assim como sabem que há duas coisas que me pacificam interiormente. Uma é a música clássica bonita, aqui expressa nesta belíssima ária de Puccini. A outra...

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

5º Domingo da Páscoa

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor.
Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto
e limpa todo aquele que dá fruto,
para que dê ainda mais fruto.
Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei.
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós.
Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo,
se não permanecer na videira,
assim também vós, se não permanecerdes em Mim.
Eu sou a videira, vós sois os ramos.
Se alguém permanece em Mim e Eu nele,
esse dá muito fruto,
porque sem Mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em Mim,
será lançado fora, como o ramo, e secará.
Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem.
Se permanecerdes em Mim
e as minhas palavras permanecerem em vós,
pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
A glória de meu Pai é que deis muito fruto.
Então vos tornareis meus discípulos».

Porque há pessoas que escrevem bem sobre aquilo que nos vai na alma, ficam os comentários do P. Vítor Gonçalves, retirados daqui:

Não seriam precisas as imagens de tantos mexicanos com máscaras a proteger a boca e o nariz (e até a de uma imagem de S. Judas Tadeu igualmente protegido!) para nos revelar como é frágil e indefesa a nossa vida. Tornámo-nos rapidamente especialistas em H1N1 mas o medo e a corrida aos medicamentos também revelaram as nossas fragilidades. A crise foi relegada para segundo plano, os salários e prémios exorbitantes de gestores foi tratado como resultado da “inveja” dos que os não têm, a odisseia de se obter uma receita médica num centro de saúde ou ter acesso a um médico de família só incomoda quem mais sofre e menos pode. Como falar de felicidade num contexto destes?
E foi mesmo a felicidade que transpareceu do rosto e das palavras de Maria José Trindade, de 85 anos, habitante de Urgueira, que uma reportagem da SIC do domingo passado trouxe até nossas casas. É uma das quatro mulheres solteiras da aldeia mas diz que sempre foi mãe: “dos meus irmãos mais novos [9] e daqueles que a não tinham”. O evangelho ecoa das suas palavras transparentes e directas: “A minha vida não foi gasta, foi vivida. Muitas vezes pergunto, até aos doutores: Quem é a pessoa mais feliz do mundo? A pessoa mais feliz é aquela que procura fazer felizes os outros. A minha vida tem sido isso. Sou muito feliz em procurar fazer felizes os outros.” Claro que estamos fartos de saber isto, mas naquela mulher grande de pouco mais de um metro de altura, não são apenas palavras bonitas, mas vida vivida.
Na belíssima parábola da videira e dos ramos que Jesus nos dá no evangelho, também os frutos são possíveis pela seiva que corre nos ramos. Há uma vida que é Deus em nós a percorrer o nosso corpo de videira. Vida que é mais nossa quanto mais chega aos outros. Não podemos guardar os nossos frutos, não nos pertencem, é o modo de ajudarmos os outros a serem felizes. Há sempre algo ao nosso alcance que pode trazer felicidade a alguém. Talvez libertando-nos da ânsia daquilo que nos falta possamos reconhecer aquilo que já temos para dar.
“Reinventar a solidariedade” é o lema do Simpósio Social que marca a celebração dos 50 anos do Monumento a Cristo-Rei e se realiza no próximo dia 15 de Maio. Para nos lembrar que Cristo é Rei porque traz a felicidade a todos os homens e mulheres de todos os tempos. Para reafirmar o que sabemos e nos custa tanto viver: feliz é quem procura fazer felizes os outros. Assim a vida não é gasta mas vivida!

JdB

09 maio 2009

Amanhã vai chover

Do Bairro Alto ao Camões, do Largo do Chiado à Rua Garrett, a todas as ruas e travessas, não há chuva ou céu de chumbo que as desarme, esbata ou deprima. Romântica, oitocentista, lavada, afrancesada, a dizer, voilá, votre Tavares! Ou vinde, vinde almoçar. E almoçar no Tavares em dia de chuva, oh, soa bem. A Sala de Chá serve almoços, num menu mais simplista mas não menos tentador. E pequenos-almoços recheados, lanches de perder a cabeça, chás oriundos das mais conceituadas colheitas do mundo. Um espaço airoso e cheio de luz, onde se goza a expressão expectante do nosso Eça, que aqui saciou estômago e ideias.

Reabriu com entusiasmo, foi notícia a encetar 2004. Andava moribundo o Tavares. Muito durara ele. Duzentos e vinte anos de vida! De vida e de história. Longa, cheia de nomes, episódios, um ror de graças e contra-graças, e a derradeira trama dos tempos e da idade, que se instalou devagar, e a modinho, atacou o espaço, o brio, as vontades, e pior, a clientela.

Quando uma bela manhã, se percebeu que havia buliço no 37 da Misericórdia, foi a machadada final. Obras no Tavares. Estava certificado o morto. Lá se vai mais uma linha da escritura do Chiado. Tudo metia o nariz na vidraça, tudo fingia abrigar-se nas varandas de barriga, só para ver, ter a certeza e poder conjecturar e ir contar que aquilo ia tudo abaixo. E ao entulho que saía, lá se vai mobília, talha, lustres, tapetes e todos os folhos do luxo que gozaram gerações, à mesa do restaurante mais chique da capital.

Mas há sortes teimosas. Assim que lhe douraram as letras, sobre a pompa alva do primeiro andar, ai Chiado, isto vai aquecer. O Tavares quer renascer. E calaram-se as ideias até que as portas já reluziam, os vidros amanheciam impecavelmente limpos, os candeeiros cristalinos pendiam acesos do tecto de oiro, entalhado, informado. E à noite, toda a Pátria viu se quis. O Tavares reabriu. O Tavares, sim, o Rico, dos intelectuais, das comezainas divinais, e outras coisas que tais.

Resistiu um emblema da cidade, interessado em receber com o melhor de Portugal, os doces mais irresistíveis, de bem feitos, que se podem comprar ao quilo. Quem reza a carta é pois o “ratinho” Avillez. Mas dizia eu que ele há sortes teimosas, e há. E se ao Tavares não lhe valeram desta vez Os Amigos de Lisboa, nem lhe deitou a mão a edilidade, personalidade alfacinha ou grupo económico de prestígio, valeu-lhe um homem de fora, advogado de Leiria, que não perdurou no sonho mas conseguiu pô-lo de pé. Nós, que contraímos a dívida da gratidão, devemos-lhe a factura. Amanhã vai chover e o Tavares está fechado. Diabos o levem!

DaLheGas

08 maio 2009

yes, i remember

lembro-me bem desse tempo sem e.mail,
computador, browser, messenger, blogs.
lembro-me bem desse tempo de papel,
desenhado a tinta com cor, cheiro, textura.
lembro-me bem do tempo em que se desenhava a palavra amor,
seus contornos, sublinhados, traços,
até das sombras e da parte escura.
lembro-me bem da fisicalidade desse escrever,
agora em que a electrónica é nossa senhora,
em que os dedos são já só bites e baites,
em que em vez das noites certas, temos só 'the right nights'.

às vezes apetecia viajar no tempo,
reaparecer numa fila dos correios
ansiosos pela espera da nossa vez,
comprar selos,
inundar os lábios de cola,
fazer da carta a semiótica de uma reencontrada pureza,
voltar são e salvo à criança que fomos (infância à mesa),
um cavaleiro reinvestido
da távola redonda que resta:
escola dos sentimentos altos,
gestos elevados, carácter nobre.
deixar para trás este futuro que anuncia 'e.ouro'
mas nunca deixa de ser moderado cobre.

tinta, papel, dedos,
coração em risco de comoção
escrever como dantes, sem medos,
arder de amor no frio
e morrer branco e puro
em cada ínfima inundação.


gi

07 maio 2009

Poemas dos dias que correm

Para ti meu amor...

não mais me conheço...
algo emana forte de dentro de mim,
algo me inquieta, explode em mil pedaços
algo que me faz correr, cegamente, para os teus braços
e numa entrega total, me rendo... enfim...

não me reconheço...
busco na minha alma e no mais fundo do meu ser
um vislumbre, um sinal, algo que me faça entender
esta doçura, esta loucura... o meu corpo fundindo-se no teu
como duas gotas entrelaçadas caídas do céu.

desconheço-me...
e numa derradeira tentativa de me encontrar
procuro a minha imagem reflectida no teu olhar...
descubro... que já não sou dona de mim,
pergunto... como é possível amar assim ?

conheço-te...
encosto a cabeça no teu ombro vigoroso
sentindo o teu abraço que me envolve... numa carícia leve
e por cada segundo que passa... eu agradeço
até que, finalmente em paz, no teu abraço adormeço.


maf
Fev.06

Imagens dos dias que correm


Jornais dos dias que correm


Finalmente chegou o dia em que sai mais um jornal. Fica o link e a lembrança para irem comprar.

06 maio 2009

Largo da Boa - Hora

Segunda de Duas

Consumiu-me uma semana completa de trabalho, mas, aqui estou, sentado no meu banco, a examinar o meu produto, precisamente o antivírus que desenhei para os “agressores” que mais comummente e danosamente afectam o sistema operativo do ser humano e que, recordo, foram: o desânimo, o pessimismo, o conformismo e o fatalismo.
Apesar de artífice amador, e porque detesto a falsa modéstia, reconheço que estou satisfeito com o meu produto, já que, apesar de rudimentar e simples, parece-me eficaz e pronto para ser testado.
A técnica que usei foi a de construir uma firewall, que funciona como uma barreira virtual que impede a entrada dos indesejados intrusos, e que, como qualquer muro, é constituída por um elemento maciço, compacto, sólido, e pela argamassa que preenche as frinchas que sempre sobram no assentamento.
O elemento maciço que é a barreira consistente e intransponível para os intrusos é a Liberdade.
Instalar a Liberdade no nosso sistema operativo e nas nossas aplicações é obrigar-nos a sermos e agirmos livremente, consoante as leis da nossa natureza, da nossa vontade e dos nossos sonhos. É recusar a coacção, as imposições, os impedimentos, os constrangimentos. É determinar a vida pelo uso da nossa razão, da nossa consciência, dos nossos sentimentos, da nossa emoção, da nossa fé.
Instalar a Liberdade obriga-nos a ser e a viver por nós próprios. Cada acção, actividade, realização que de nós dependa como autores é precedida da formação de um querer, resultado do livre exercício daquilo que realmente somos e pretendemos, e de nada mais, de modo totalmente liberto.
Este poder/dever de sermos livres e de actuarmos como tal responsabiliza-nos na maior das medidas, precisamente como criadores de nós próprios, das nossas vidas.
Somos artistas que recebemos uma tela em branco, chamada existência, para desenharmos e pintarmos, indelével e definitivamente, um quadro chamado vida. As tintas são os talentos e limitações recebidos, as oportunidades e impossibilidades surgidas, as condições e omissões proporcionadas. Os pincéis são os meios, os recursos, os instrumentos com que vamos sendo dotados ou privados. A inspiração são as pessoas, os ideais, os valores, os desejos, os factos, os actos, os acontecimentos, os surgimentos que vão povoando os nossos pensamentos, sentimentos, emoções, alma e fantasia, mas a mão que cria a obra, que a pinta, essa, é conduzida, guiada, ditada exclusivamente pela liberdade que é o supremo crivo da afirmação.
Que cada um pinte o seu quadro, mas esse quadro somente será o seu, se a mão que mistura as cores na paleta, trabalha os pincéis, desenha e colora for uma mão, indiferentemente forte ou fraca, firme ou trémula, decidida ou hesitante, mas sempre, e necessariamente, uma mão livre.
A existência (a tela) é-nos dada para nela pormos uma vida (o quadro). Tudo termina, mas só termina, quando a obra estiver acabada e cada um de nós pendurar o seu quadro na galeria da história, afastando-se o suficiente para o observar como obra completa, a sua, e depois, tranquilamente, cerrar os olhos, deixando assim o seu contributo na infinita parede desse museu onde, assim, vai ficando o percurso da humanidade.
Pintar o quadro (concluir uma vida) é, pois, um dever, uma obrigação, um necessário, mesmo imprescindível, é a superior distinção perante a bestialidade, a irracionalidade, a inutilidade.
Ninguém pode eximir-se a esse dever, e esse quadro jamais será uma obra se não for expressão de liberdade. Expurgue-se, pois, o que corrói e destrói essa liberdade, designadamente o desânimo, o pessimismo, o conformismo e o fatalismo, que são a negação, a contradição desse requisito e critério de mérito.
Todo o quadro inquinado por esses vírus não é uma obra de autor e não tem, portanto, lugar na galeria da história onde as obras de autor vão sendo afixadas desde sempre e para todo o sempre, como testemunhos da humanidade.
Como disse, a firewall é composta pela parte maciça - a Liberdade - e pela argamassa que preenche as frinchas do assentamento. Esta argamassa é muitíssimo importante, porque é indispensável para garantir a consistência e o isolamento pretendidos, sendo constituída por fragmentos devidamente tratados do sólido principal. No caso concreto, pelo uso de cada uma das letras da palavra Liberdade.
Vejamos, pois, a argamassa.

L – lealdade. Um compromisso connosco próprios, com os outros e com os nossos ideários. Cumprir a lealdade exige prestar contas, impedindo assim que a liberdade se torne arbitrariedade, discricionariedade, capricho, e vedando a entrada das nefastas patologias da alma que pressupõem, todas, um focar exacerbado do indivíduo sobre si próprio, como centro do mundo.
I - independência. A liberdade isenta, desinteressada, imparcial, que nos isola das patologias que nos querem agrilhoar a destinos predeterminados, a subserviências.
B – bondade. A liberdade exercida com uma disposição para o bem, para a compreensão, para a tolerância, para a solidariedade, e que nos isola do alheamento e da indiferença, nos impede de não sentir pelos outros e agir em sua defesa ou auxílio.
E – esperança. A liberdade para o presente, mas com confiança e projecção no futuro. Faz a ponte necessária entre o hoje e o depois, impedindo uma liberdade desanimada e irresponsável, repentista e imediatista, sorvida no ”agora e já”, e que nos isola das patologias que negam ou desprezam a possibilidade do raiar luminoso do advento.
R - redenção. A liberdade destemida, corajosa, valente porque afasta o irreversível, o definitivo, deixa espaço e cabimento ao erro, dada a recuperabilidade do passo em falso, e que nos isola das patologias que cerceiam e descrêem o recomeçar, o reerguer, o refazer.
D – dedicação. A liberdade voluntariamente vocacionada para o servir de valores, ideais, sentimentos, pessoas e obras, e que nos isola das patologias que nos conduzem ao “autismo” e desinteresse, até de nós próprios.
A – Amor. A liberdade, a verdadeira e única liberdade, já que onde existe amor jamais o prato da balança do mal prepondera sobre o prato do bem, e é tão forte que não só nos isola de todas as patologias, como nos anula tudo quanto possa haver de negro em nós próprios.
D – Determinação. A liberdade em ordem à realização, à concretização, ao conseguir, ao atingir de metas, de objectivos, a converter sonhos em realidades, projectos em obras, e que nos isola das patologias que nos reduzem a cata-ventos inconsequentes.
E – Encantamento. A liberdade dirigida ao belo, ao fantástico, ao emocionante, ao sublime, ao sonho e fantasia, ao irreal, e que nos isola das patologias que nos consomem em tédio, rotina, fealdade, desmerecimento e desencanto.

Eis, assim, apresentado o meu produto antivírus. Vou fazer o download. Haverá alguém que me acompanhe?

ATM

05 maio 2009

Músicas dos dias que correm

Porque cartas de amor, quem as não tem...

História com restos de vida - I

Subitamente
hás-de deixar-me só

e, de dentro da sombra,
surgir à lua,
pesando em cada passo semeado
o silêncio cúmplice da rua.

Cheios de vento
os cabelos brilham.

No casaco a balouçar,
restos de vida
e de luar.

JCN

04 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia do nascimento de Stanley Ho, o grande mecenas do jogo

O Dr. Guimarães e Costa é um homem educado, bonito, com uma figura que deixa marcas por onde passa: alto, relativamente magro, um cabelo castanho penteado para o lado, umas mãos esguias e finas em cujo dedo anelar desponta um anel de brasão discreto. Veste-se de uma forma impecável – não de acordo com a ditadura da moda, mas segundo um padrão clássico e intemporal.

Desde que surgiu, pela primeira vez, na Fábrica da Ilusão, que foi cobiçado pelas raparigas, que suspiraram desejos umas às outras. Dirigiu-se àquelas com quem se cruzou num cumprimento simples, despreconceituado, convicto de que por vezes é a pessoa que dignifica o trabalho. Levantou-se do sofá para saudar a Dra. Clara, não sem antes ter abotoado um casaco espinhado verde-seco que lhe assentava particularmente bem. Deu-lhe um aperto de mão forte, sorridente e genuíno.

Ao contrário do que é habitual, a Dra. Clara não indicou nenhuma rapariga. Conversaram ambos no gabinete ao som de uma música suave e de um gin tónico, enquanto o sol se punha, grande e alaranjado, com um vagar de câmara lenta.

- O Sr. Doutor volta cá para a semana. Depois falamos, Amália.

Nos corredores, pelos cantos, no resguardo dos quartos, cada uma das raparigas imaginava-se com o Dr. Guimarães e Costa, administrador de um banco privado, que ainda não chegara aos 60 anos e que descendia de uma nobreza relativamente recente, mas que lhe dera mais ensinamentos do que privilégios.

O cavalheiro regressou na data aprazada e tinha à sua espera a Joana Maria, uma rapariga lisboeta, bonita, alta e esguia, dona de uma elegância natural revelada pela forma de andar, de se sentar, de afastar os cabelos dos olhos, de conversar com os clientes. Apesar da sua licenciatura em Farmácia tinha concorrido ao Corpo Diplomático depois de meses insanos de estudo e pesquisa, persistindo contra uns pais que teimavam em deixar-lhe um estabelecimento nas avenidas novas.

- Quero conhecer o mundo, não vender aspirinas -, respondera-lhes, determinada numa independência e vontade de voar que eram incompatíveis com uma placa na qual o seu nome apareceria por baixo de uma designação importante mas limitadora: directora técnica.

O gestor chegou-se ao balcão e perguntou se podia fazer alguma coisa pelas minhas deficiências físicas – a cicatriz no olho e o defeito na perna. Fê-lo por uma mistura de educação, simpatia, vontade genuína de ajudar o próximo. Quando lhe agradeci, declinando a oferta, não insistiu, e pediu com uma voz suave e grossa:

- A Sra. D. Amália não tem por acaso cartas de jogar? Esqueci-me das minhas em casa e faziam-me falta.

Entreguei-lhe uma caixa com dois baralhos e, à medida que o via desaparecer de braço dado com a futura diplomata, dei por mim a fantasiar aquele casal, algo que nunca tinha feito. Em primeiro lugar, imaginei-os juntos, na caminhada de uma vida conjugal, a rondarem entre instituições bancárias e embaixadas asiáticas, impressionando quem os visse pela beleza do conjunto, o ar distinto de ambos, a diferença de idades a acrescentar um ar misterioso àquela relação.

Acordei deste devaneio e fixei-me naquilo que seria mais provável, e que se passaria quarto adentro entre a Joana Maria e o Dr. Guimarães e Costa. Algumas cartas numa mesa, regras bem definidas para um strip poker: quem perde a mão vai-se despindo com uma lentidão lasciva e perturbadora. Uma trinca vence dois pares e é uma camisa de que alguém se despoja, revelando a quem ali está um tronco ainda forte, resultado de jogos de ténis duas vezes por semana; uma sequência ao rei derrota uma asa de mosca e há um peito firme que se desnuda, mostrando uma pele escura que contrasta com marcas eróticas de uma brancura nívea. Mais uma mão, mais cartas que se revelam, mais vencedores e vencidos, mais risos, mais não sei o quê atirado com uma gargalhada para um canto do quarto. Um beijo aqui, um afago ali, um bluff desmascarado, dois corpos que se unem e que se agitam, sensuais, ao ritmo do desejo. Um rei, um ás, um oito, cartas alinhadas numa mesa em que o erotismo vence tudo, devora tudo, desde a dimensão da diplomacia económica ao crescimento do crédito mal parado. Mais cartas, mais mãos, mais surpresas, e uma nudez que caminha sem retorno na direcção da apoteose.

Acordei desta fantasia para receber, das mãos do distinto Dr. Guimarães e Costa, uma caixa de plástico duro com dois baralhos de cartas Kem. Sorriu-me, amável e educado como sempre, o casaco espinhado verde-seco abotoado, como mandam as regras quando um cavalheiro conversa com uma senhora:

- Sabe, Sra. D. Amália, digo isto sem qualquer espécie de vaidade pateta por quem sou, mas o facto é que não tenho dificuldade em encontrar parceiras para estas aventuras do sexo. Para um homem descomprometido e com algumas características há, de facto, algum embarras du choix. Mas a verdade é que não encontro ninguém com quem jogar crapaud suíço. A Joana Maria, para além de uma beleza elegante e sem rival, joga magistralmente. Confesso que não sei onde aprendeu. Talvez para a semana me veja obrigado a reservar duas horas, para irmos à desforra e ao desempate, se for caso disso.

Sorri-lhe e despedi-me. Senti a frustração natural de uma fantasia própria que se desfaz num vendaval de realidade. E o strip poker? E a magia da roupa que se tira ao ritmo das cartas que se voltam? E a nudez crescente, a imaginação, o fullen revestido com um aroma de volúpia?

- Está lá, Marco? Sim, sou eu, Amália. Jantas em casa esta noite? Óptimo! Levo um baralho de cartas. Vais ver que te divertes.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS


03 maio 2009

Imagens dos dias que correm (III)


Imagens dos dias que correm (II)

An Interlude, William Sergeant Kendall, 1907

Poemas dos dias que correm

Poema da Maternidade

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,

Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...
Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...
Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Jà não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!

(Fernanda de Castro)

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