10 fevereiro 2013

5º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Talvez há muitos anos, quando escutei pela primeira este evangelho com ouvidos de ouvir, tenha pensado que se referiria muito, nos dias de hoje, não só aos missionários, mas ao apostolado a que somos todos desafiados. Seria esse o significado de pescadores de homens e a eles se exigia uma acção positiva, activa, como aos homens da faina do mar se espera que vão à pesca.

Anos passados, e alguma meditação sobre o que é a vida, arrisco-me a estender esta ideia. Há homens que nos pescam, não porque nos atirem com uma metafórica rede, mas porque a simples existência deles nos chama ao caminho que acreditamos ser o da Verdade. Poderia referir-me a pessoas gigantes do nosso tempo, como João Paulo II ou Madre Teresa, ou mesmo, num âmbito diferente Nelson Mandela. Seria errado, no entanto, pensar que só estes vultos do século XX têm verdadeira dimensão de exemplo. É verdade que o são, mas para o mundo inteiro. E no nosso pequeno mundo?

Sou amigo de um homem cuja vida profissional sofreu uma reviravolta profunda. Em meia dúzia de meses perdeu emprego, regalias, rendimento financeiro confortável. De onde saiu não trouxe indemnização nem subsídio de desemprego, porque as regras são assim. Ao contrário de mim, que reduzi qualidade de vida ao sair da Lever, porque fiquei com menos rendimentos, este meu amigo perdeu tudo. Com a idade que tem (e não é novo...) tem de reconstruir uma actividade a partir do quase zero. 

Obviamente que o mérito não está na perda, mas na forma como reagimos à perda. Habituados a ouvir lamentos em quem perdeu pouco, pasmo-me com quem perdeu muito - mesmo muito - e encara essa realidade com um aparente sossego que constitui sempre um desafio. Ao partilhar discretamente a história deste meu amigo - que me conta tranquilamente o que a vida dele mudou - partilho uma pedagogia, não uma fofoca. A relativização das coisas é importante - muito importante numa altura em que tantas casas sofrem alterações dolorosas e profundas. Pensar que há gente pior do que nós não é um pensamento bonitinho para se ter ao domingo na missa nem uma frase irritante que nos impede o lamento. É uma necessidade constante que nos ajuda a sair do centro do nosso mundo e a olhar, com olhos de ver, o mundo dos outros, tantas e tantas vezes pior do que o nosso.

Todas estas pessoas que souberam dar uma volta interior são pescadores de homens. Mesmo que o meu raciocínio seja teologicamente uma aberração...

Bom Domingo para todos.

JdB


EVANGELHO – Lc 5,1-11
Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
estava a multidão aglomerada em volta de Jesus,
para ouvir a palavra de Deus.
Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré
e viu dois barcos estacionados no lago.
Os pescadores tinham deixado os barcos
e estavam a lavar as redes.
Jesus subiu para um barco, que era de Simão,
e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.
Depois sentou-Se
e do barco pôs-Se a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão:
«Faz-te ao largo
e lançai as redes para a pesca».
Respondeu-Lhe Simão:
«Mestre, andámos na faina toda a noite
e não apanhámos nada.
Mas, já que o dizes, lançarei as redes».
Eles assim fizeram
e apanharam tão grande quantidade de peixes
que as redes começavam a romper-se.
Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco
para os virem ajudar;
eles vieram e encheram ambos os barcos
de tal modo que quase se afundavam.
Ao ver o sucedido,
Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe:
«Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador».
Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele
e de todos os seus companheiros,
por causa da pesca realizada.
Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu,
que eram companheiros de Simão.
Jesus disse a Simão:
«Não temas.
Daqui em diante serás pescador de homens».
Tendo conduzido os barcos para terra,
eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

09 fevereiro 2013

Pensamentos impensados

Ar livre
Como se chama uma pessoa que faz um pic-nic?
Piqueniqueiro, piqueniquista, pequenicante ou piquenicador?
 
Ano zero
As crianças que nasceram no mesmo dia que Jesus Cristo, nasceram no no ano zero antes de Cristo, ou no ano zero depois de Cristo?
 
O valor do L
Clock-wise significa no sentido dos ponteiros do relógio; tirem-lhe o "L" e fica galo esperto.
 
Azares
Os historiadores ainda não arranjaram uma explicação para o Rei D. Afonso Henriques ter ido a Badajoz; comprar caramelos ou gasolina mais barata? O certo é que veio de lá com ossos partidos e foi obrigado a usar umas muletas chamadas canadianas.
 
Mais aborto
Vi escrito fatura.
Não sei porque hei-de abrir o primeiro "A" se não abro em datura (planta), madura, matura e satura.

SdB (I)

07 fevereiro 2013

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, during this past month three pairs of my friends, in London and Lisbon and Barcelona, have each experienced the nervous excitement of the birth of their first baby daughters. Two pairs have become parents for the first time.

So I thought it would be nice to celebrate these happy events with songs that capture the amazing wonder of a new life.

A song I immediately considered was Stevie Wonder's "Isn't She Lovely", written about the birth of his own baby daughter. It is indeed very lovely and uplifting and joyfully exuberant.
But, with apologies to Stevie, I have chosen two other beautiful songs with more reflective lyrics.

The first is "The Things We've Handed Down" by Marc Cohn. He is best known, perhaps only known, for "Walking In Memphis", but he deserves more recognition. In this song he reflects as a parent about his new baby in the final moments before he/she is born:
What will he/she look like, what personality will manifest, and what will be their relationship, what will he/she become in the future?




Don't know much about you
I don't know who you are
We've been doing fine without you
but we could only go so far
I don't know why you chose us
Were you watching from above?
Is there someone there that knows us who
said we'd give you all our love?

Will you laugh just like your mother?
Will you sigh like your old man?
Will some things skip a generation
like I've heard they often can?

Are you a poet or a dancer
a devil or a clown?
Or a strange new combination of
the things we've handed down?

I wonder who you'll look like
Will your hair fall down and curl?
Will you be a mama's boy or daddy's little girl?
Will you be a sad reminder of what's been lost along the way?
Maybe you can help me find her in the things you do and say

And, you know, these things that we have given you
They are not so easily found
But you can thank us later
for the things we've handed down

You may not always be so grateful
for the way that you were made
Maybe some feature of your father
that you would gladly sell or trade
And one day you may look at us
and say that you were cursed
But over time that line has been
extremely well rehearsed
by our fathers, and their fathers
In some old and distant town,
From places no one here remembers
come the things we've handed down.


The second song is "The Greatest Discovery" by Elton John. He of course needs no more recognition, but perhaps this song from his first album in 1970 is not so well known. Written from the perspective of a wide-eyed curious young child, it is Elton's lyric partner Bernie Taupin's reflection about his surprise first encounter with his new baby brother.




Peering out of tiny eyes
The grubby hands that gripped the rail
Wiped the window clean of frost
As the morning air laid on the latch

A whistle awakened someone there
Next door to the nursery just down the hall
A strange new sound you never heard before
A strange new sound that makes boys explore

Tread neat so small those little feet
Amid the morning his small heart beats
So much excitement yesterday
That must be rewarded must be displayed

Large hands lift him through the air
Excited eyes contain him there
The eyes of those he loves and knows
But what's this extra bed just here?

His puzzled head tipped to one side
Amazement swims in those bright green eyes
Glancing down upon this thing
That make strange sounds, strange sounds that sing

In those silent happy seconds
That surround the sound of this event
A parent's smile is made in moments
They have made for you a friend

And all you ever learned from them
Until you grew much older
Did not compare with when they said
This is your brand new brother.

To new parents Mat & Ailsa & baby Amelie, and to new parents Ana & Rui & baby Isabel, and to experienced parents Isabel & Simon & baby Lola a surprise companion for her brother Simon: Congratulations and Best Wishes for a wonderful family life together.

To everyone: Hope you enjoy!

A proxima.

PO

05 fevereiro 2013

Moleskine

Pós-graduação. À luz do que (não) sei hoje, já devem ter sido lançadas as notas relativas ao 1º semestre. Tive um feedback longo e importante do professor de Arte e Ensaio durante uma conversa em que se falou de muita coisa, nomeadamente do meu futuro académico. Neste momento está em cima da mesa uma primeira hipótese: mestrado em estudos portugueses. Terei de investigar se é esse o mestrado que me é mais apropriado, porque a única certeza que tenho é a de querer continuar a estudar, assim o possa fazer em termos financeiros e de tempo. Do feedback ao ensaio sobre a santidade retiro muito, sobretudo as oportunidades de melhoria, que sempre são algumas, ou não estivesse eu a aprender... 

Fim de tarde. Reid's, no Funchal, ao fim da tarde. Um Earl Grey (chá perfumado com bergamota, o que faz dele o rei dos chás); uma fatia de bolo de mel com uma colher de gelado de canela, harmoniosamente colocados num prato; ao lado, dois casais ingleses sem sotaque cockney nem vislumbre de tatuagens nos braços; um piano a proporcionar um fundo musical agradável; pela frente uma vista deslumbrante, um fim de tarde a provocar inveja; por dentro, a certeza de que mesmo num Funchal democraticamente estragado, amplamente cimentado em nome do turismo de massas, há sítios requintados onde o ruído, que a ciência designa como som indesejável, ainda não tem lugar. Reid's, ao fim da tarde.

  

Doenças. Todos temos defeitos, herdados, ou adquiridos de outra forma. Há os egoístas, os ciumentos, os avarentos, os orgulhosos, os rancorosos, os preguiçosos, etc. Há também os defeitos que serão o negativo das qualidades levadas a um excesso: o excesso de generosidade, o excesso de discrição, o excesso de humildade... Durante o dia de sábado, por um motivo que não vem ao caso, alimentei a ideia de que sofria de uma patologia específica que havia sido diagnosticada a uma pessoa de quem sou amigo, e se pensa ser parecida comigo. Achei plausível. Na tarde de Domingo pesquisou-se na net o que era esta patologia. Na dúvida, porque os sinais eram contraditórios, enviei um sms a quem me conhece bastante bem tecnicamente. A pergunta era simples: sofro de patologia da...? A resposta foi imediata e taxativa: absolutamente não! Alguns mails trocados durante a noite revelaram que afinal tenho uma pitada (sic) de um transtorno de... Sim, é verdade que terei, reconheço-o. Há, em todo este processo, dois aspectos a tomar em consideração. O primeiro tem a ver com auto-conhecimento. É bom que eu saiba o que tenho para poder corrigir, assim como é bom que quem vive mais próximo de mim o saiba também, para me perceber e ajudar. Mas há outro aspecto mais humorístico, que é o encanto de se sofrer de uma patologia de..., ou de um transtorno de... (ainda que na forma feliz de pitada) em vez de ter um defeito. No fundo, como se nos referíssemos a um qualquer e, em vez de afirmarmos que é um grande maçador, devêssemos dizer que sofre de síndrome de seriedade obnóxia...  

Livros . No remanso do Funchal atiro-me com deleite qb - e nas horas vagas, que não estou de férias -  a Mel, de Ian McEwan, uma história passada nos Serviços Secretos ingleses em meados dos anos 70. Boa leitura, fluida, um dos livros classificados por vários jornais/blogues como um dos melhores de 2012. No continente deixei duas obras que, lidas paralelamente, revelam um pouco do sol e sombra que somos todos. Nem só o corpo, nem só a alma...


Nota: é a segunda 3ªfeira que não posto música, desrespeitando o meu compromisso do Duas Últimas com o meu amigo fq. Curiosamente, é-me mais fácil escrever um moleskine do que discorrer sobre uma música específica. Comprometo-me para amanhã, e penalizo-me perante o homem de Murfacém. 

JdB

04 fevereiro 2013

Fórmula para o caos


1. A multinacional canadiana Research in Motion lançou, na passada sexta-feira, o Blackberry 10. Ao ver-se confrontada com a abrupta perda de quota de mercado para as concorrentes Apple e Samsung, a RM opta por lançar um novo produto, mais inovador e moldado aos interesses dos consumidores. Não, o estado canadiano não subsidiou a empresa. Ao invés, a estrutura directiva decide competir e esperar uma resposta positiva do mercado. O mesmo mercado que preferiu, em termos de escala, o Iphone e o Android. Foram as escolhas dos consumidores que definiram as posições de mercado, volume de negócios e margens de lucro das companhias deSmartphones.
É por isso que o Canadá ocupa o 6º lugar do Index of Economic Freedom 2013 da Heritage Foundation.

2. O futebolista inglês David Beckham terminou o contrato que o ligava aos LA Galaxy e assinou até ao fim da época com os franceses do PSG. Num inédito e virtuoso gesto, o Spice Boy anunciou que doaria a totalidade do seu futuro salário a instituições de caridade. Porém, uns dias depois, Beckham choca de frente com uma lei sindical que obriga os jogadores de futebol a auferirem um salário mínimo para que possam obter licença de trabalho em França. Assim sendo, o futebolista receberá dinheiro de que não necessita, e perdem as pessoas carenciadas que iriam usufruir da solidariedade do reforço do PSG. Assim actuam os sindicatos em território gaulês.
É por isso que a França ocupa o 62ª lugar do Index of Economic Freedom 2013 da Heritage Foundation.

Pedro Castelo Branco

03 fevereiro 2013

Domingo ….. Se Fores à Missa!


Nem sempre a inspiração vem quando precisamos.  E nem sempre o comentário ao Evangelho tem de ser assunto sério. Por falta da dita (inspiração), deixo aqui alguns Anúncios Paroquiais que são, simplesmente, hilariantes (adorei o último !)


» Para os que, de entre vós, têm filhos  e não o sabem, temos um espaço preparado para as crianças.
» Recordai na oração todos aqueles que estão cansados e desconfiam da nossa paróquia.
» O torneio de basquet das paróquias continua na próxima quarta-feira à tarde: vinde animar-nos, enquanto procuramos  derrotar Cristo-Rei.
» Por favor, metei as vossas ofertas dentro de um sobrescrito, juntamente com os defuntos que quereis fazer recordar.
» O pároco acenderá a sua vela na do altar. O diácono acenderá a sua na do pároco e, voltando-se, acenderá um a um todos os fiéis da primeira fila.
» O custo da participação na reunião sobre "oração e jejum" inclui as refeições.
» O grupo de recuperação da confiança em si mesmos reúne-se na quinta-feira, às 7 da tarde. Por favor, usai a porta de trás.
» Na sexta-feira, às 7 da tarde, as crianças do Oratório representarão "Hamlet" de Shakespeare, no salão da igreja. A comunidade está convidada a tomar parte nesta tragédia.
» Queridas senhoras, não esqueçais a venda de beneficência ! É um bom modo de vos libertardes das coisas inúteis que estorvam em casa. Trazei os vossos maridos.
» O coro das pessoas de sessenta anos dissolver-se-á durante todo o Verão,com o agradecimento de toda a paróquia.
» Na quinta-feira, às 5 da tarde, haverá uma reunião do grupo das mamãs. Roga-se a todas as que queiram fazer parte das mamãs que se dirijam ao pároco no cartório paroquial.
» Tema da catequese de hoje: "Jesus caminha sobre as águas". A catequese de amanhã: "À procura de Jesus".

Domingo,  Se Fores à Missa …..  Ri-te !

MAF

Evangelho segundo S. Lucas 4,21-30.

Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré dizendo: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»
Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?»
Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: 'Médico, cura-te a ti mesmo.' Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.»
Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria.
Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra;
contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon.
Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.»
Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor.
E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo.
Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu-o seu caminho.

02 fevereiro 2013

Pensamentos impensados


Politiquice
No meio da trapalhada em que se encontra o PS, alguém anda a jogar pelo seguro.
 
Culinária
As tripas à moda do Porto vão passar a pagar-se em duodenos.
 
Contemplação
A Pátria honrai, que a Pátria vos contempla, frase da autoria de Mendes Leal, significava, nesses tempos (1863), que a Pátria olhava por nós.
Agora significa que olha para nós.
 
Fatum - Destino
E agora, Senhoras e Senhores, uma criação de Amália Rodrigues, com letra de Vítor Gaspar e música de Passos Coelho: não é desgraça ser pobre.
 
Inglês macarrónico
Acquired dice.
Dado adquirido.

SdB (I)

31 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm


Crónicas de um universitário tardio

Ad honorem Sanctae et Individuae Trinitatis, ad exaltationem fidei catholicae et vitae christianae incrementum, auctoritate Domini nostri Iesu Christi, beatorum Apostolorum Petri et Pauli ac Nostra, matura deliberatione praehabita et divina ope saepius implorata, ac de plurimorum Fratrum Nostrorum consilio, Beatum N. Sanctum esse decernimos et definimos, et Sanctorum Catalogo adscribimus, statuentes eum in universa Ecclesia inter Sanctos pia devotione recoli debere.

Foi com esta fórmula, proferida pelo Papa aquando da proclamação de um novo santo, que dei início ao meu ensaio intitulado: A Santidade, ou a perfeição dos dias quotidianos. Está entregue, e será o último que partilho (partes, apenas) com os meus queridos e inesperados fiéis leitores, que as crónicas de um universitário tardio já deram, por agora, o que tinham a dar. A citação de Sophia de Mello Breyner encerra o ensaio.

(...) 
Até há bem pouco tempo vivíamos num mundo de apelo ao consumo, à imagem, ao ter mais do que ao ser, ao sucesso, aos sinais exteriores, ao prazer, ao calcorrear sem fim das ruas dos centros comerciais para comprar mais um artigo. A crise mundial, com reflexos penosos em Portugal, alterou esta realidade – se não por via da vontade de rever modos de vida, talvez pela via da necessidade de alterar modos de vida. Hoje há mais desemprego, mais fome, há famílias abaixo do limiar da decência humana, há horizontes sombrios, amanhãs que já não cantam, um imenso mês que sobra quando o salário – ou a generosidade alheia – chega ao fim. Hoje há ruínas, falências, humilhações, dívidas,  impostos,  abandonos. Hoje há um muro que tapa a palavra esperança, e todas as forças individuais se concentram na defesa do presente porque o futuro, até prova em contrário, existe cada vez menos.

Vivemos um tempo em que não há tempo, um momento dolorosamente duradouro das nossas vidas em que o arsenal que nos resta de energia e resistência interior está voltado para a subsistência, para a sobrevivência, para a dignidade da vida própria, para a manutenção dos limites que cada um define como sendo os mínimos que não o aviltem. Em cada casa de família há desemprego, verba escassa para a faculdade, emigração, crises afectivas que a luta diária potenciou. Em muitos recantos escondidos e envergonhados há choros, olhos cavados por noites insones, mãos inquietas devido à inexistência de soluções.

Neste cenário de desesperança, o que significa ser-se santo? O que significa, na verdade, a perfeição das vidas quotidianas, quando a nossa procura é, cada vez mais, a da satisfação das necessidades mais básicas onde o transcendente tem pouco lugar?

(...)
Enquanto houver alguém que se disponha a lutar pela reposição da justiça, que perdoe ofensas, que rasgue um pouco do seu manto para cobrir a nudez do outro, que se sinta desafiado à entrega gratuita e voluntária aos outros, que não desvie o olhar perante a miséria que confrange ou que chore com a morte injusta, então o milagre e o heroísmo conviverão connosco de mãos dadas. Enquanto houver alguém ao nosso lado que teime em levantar o céu, no significado feliz que lhe dá o Prof. José Mattoso, que encontre no seu sofrimento um sentido para a vida, que saiba oferecer uma palavra a um velho abandonado ou uma mão a uma criança doente ou que arrisque a sua vida pela vida dos outros, então a esperança de um mundo melhor mantém-se viva. Enquanto houver alguém assim, por menor que seja o número desses alguéns na multidão anónima de egoísmos, prepotências, comodismos, indiferenças, não perderemos a esperança, e assumiremos a santidade - ou a perfeição dos dias quotidianos - como uma possibilidade ao virar de uma esquina, numa fábrica, numa vizinhança, num escritório, num hospital, numa escola, numa família.

Negar este caminho é abdicar de uma vida grande, de uma vida maior do que nós, para abraçar um mundo pequeno onde só cabe o eu que nos afasta do próximo, que nos cega de orgulho, que nos ilumina a vaidade com uma luz efémera, que nos faz negar esta ideia salvadora que nenhum dos nossos talentos é verdadeiramente nosso, apenas nos foi disponibilizado para o  serviço de um bem comum. Negar o caminho da perfeição ou, melhor, o caminho da procura da perfeição, é viver num mundo estreito, triste e sombrio, porque só se ilumina de uma vida própria e egocêntrica. Um mundo que será sempre pequeno de mais.  

***
[A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.][1]

JdB


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Retrato de Mónica (Contos Exemplares) 

30 janeiro 2013

Diário de uma astróloga – [44] – 30 de Janeiro de 2013


O trio Aquário, Urano e Prometeu 

Quando perguntam à astróloga “o meu signo é bom ou mau?”, respondo que todos os signos podem ser expressos de forma positiva ou negativa, e não há um melhor do que outro. Mas eu, Luiza, tenho preferências: gosto imenso do Aquário. Ainda bem, porque o Sol está nesse signo desde 19 de Janeiro e até 18 de Fevereiro.

A necessidade arquetípica do Aquário é de liberdade e de obter novas perspectivas com mudanças e progresso. Está ligado às invenções e à tecnologia. As personagens aquarianas são de uma certa forma rebeldes, revolucionários, têm espírito aberto e poucos preconceitos. Tanto podem ser altruístas e humanitários como originais e excêntricos ou acumulando ambas facetas.

O símbolo de Aquário parece uma corrente eléctrica e a imagem clássica ligada à constelação representa uma figura humana canalizando a sabedoria do céu para a Terra



O planeta Urano regente de Aquário foi descoberto em 1781 por Sir William Herschel. Foi o primeiro planeta descoberto através da tecnologia de ponta da altura – o telescópio. Há milénios que não se baptizava um planeta e dar-lhe nome foi um processo complicado. Herschel quis baptizá-lo com o nome do rei George III, Georgium Sidus, ou com o seu próprio nome. Os outros astrónomos não acharam bem. O astrónomo alemão que estudou a órbita deste novo planeta, Johann Bode (um Aquário nascido a 19 de Janeiro) sensatamente sugeriu Urano, nome do deus que na mitologia reinava sobre o céu e era pai do deus Saturno. Em 1789 foi descoberto um novo elemento baptizado “urânio” e a partir daí, Urano foi a denominação mais usada por astrónomos e astrólogos e, desde 1850, a única. 



Em termos físicos, o planeta Urano revela excentricidade (característica de aquário) porque a sua inclinação é superior a 90°. Isto é, gira sobre si mesmo na horizontal e não na vertical, como todos os outros. Em termos astrológicos começou a verificar-se também uma anomalia: ao contrário dos outros planetas, cuja energia se assemelha à mitologia do deus respectivo, a energia do planeta Urano, sincrónica com o comportamento humano e assuntos mundanos, nada tem a ver com a mitologia de deus do mesmo nome. 


Em 1978, Richard Tarnas, psicólogo, historiador, astrólogo e filósofo americano, tem uma inspiração e propõe a mitologia de Prometeu para a compreensão do Urano astrológico. Mais tarde escreve uma monografia “Prometheus, the Awakener”, que aconselho a todos os estudantes de astrologia.

O titã Prometeu era um herói que se rebelou contra os deuses e lhes roubou o segredo fogo para o dar à raça humana, permitindo assim o seu progresso e civilização. Foi o primeiro humanitário! Zeus, furioso, castigou Prometeu, aprisionando-o contra um rochedo onde todos os dias uma águia gigante lhe ia comer um bocadinho de fígado. Este martírio durou até que Hércules o libertou e matou a águia.

Tarnas não liga muito à parte sangrenta do mito, mas sim ao lado rebelde e humanitário e aponta, cheio de razão, que a energia de Urano também coincide com a do período em que foi descoberto: a primeira revolução industrial, a revolução francesa e a declaração da independência dos Estados Unidos.

Olhando para fenómeno cultural dessa época, o Romantismo (1770 – 1840), constato que o mito de Prometeu aparece na obra literária de expoentes do espírito romântico,  tendo alguns deles fortes qualidades aquarianas e/ou uranianas.

  •       Goethe com Urano em Aquário oposto a Mercúrio escreve o poema “Prometheus” em 1774 mas só publicado em 1789.
  •    Lord Byron nascido em 1788 com Sol, Vénus, Saturno e Plutão em Aquário escreve “Prometheus” em 1816.
  •     Mary Shelley nascida em 1797 com o Sol conjunto a Urano publica Frankenstein em 1818 com o subtítulo “The Modern Prometheus”.
  •    O seu marido, Percy Shelley, nascido em 1792 e também com Sol conjunto a Urano escreve “Prometheus Unbound” em 1820. Os seus escritos foram tão revolucionários que Gandhi afirmou ter sido influenciado por ele.

Estes sincronismos levam-me a acreditar que Richard Tarnas tem toda a razão, e que a mitologia de Prometeu é essencial na compreensão de Aquário e Urano.  



O mito e a sua ligação à energia aquariana estava bem vivo quando, um século mais tarde, John D. Rockefeller Jr., nascido a 29 de Janeiro de 1874 com Sol, Vénus, Mercúrio e Saturno em Aquário em oposição a Urano, escolheu, como símbolo de progresso para o seu moderníssimo Rockfeller Center em Nova Iorque, a escultura de Prometeu, que muitos dos meus leitores já admiraram.  Agora olharam com novos olhos!




No próximo post falarei dos meus Aquários favoritos.

Luiza Azancot
www.astrocape.com

29 janeiro 2013

Fotografias dos dias que correm

Enviada por mão amiga

Crónicas de um universitário tardio

6ª feira passada entreguei o meu trabalho de Poéticas Contemporâneas, cuja nota ainda não sei. Partilho uma parte com os resistentes que quiserem chegar ao fim...

***


o panoptismo e a fábrica do futuro
ou
como reduzir os níveis de entropia nos sistemas produtivos


1. Introdução
Uma fábrica rege-se por princípios económicos fundamentais e comuns a todas as organizações com fins lucrativos.  Não obstante as preocupações de ordem social, de valorização da pessoa, do respeito pelo seu crescimento como ser humano e como trabalhador, o seu objectivo poderia resumir-se, numa versão forçosamente redutora, a algumas ideias chave: redução de custos, aumento de competitividade, maximização dos recursos, rentabilização do equipamento, flexibilização.  Se o apego ao sintético nos obrigasse a usar uma palavra só, escolheríamos esta: eficácia. Paralelamente a estes factores há, obviamente, a qualidade do produto fabricado, o cumprimento das normas do ambiente, da segurança e da saúde no trabalho, o estabelecimento de parcerias com fornecedores e clientes, a formação dos colaboradores, a actualização tecnológica, o respeito pelas partes interessadas
Tudo isto concorre, no fundo, para que a fábrica, no seu sentido lato de organização com fins lucrativos, seja competitiva, ganhe quotas de mercado, ambicione a exportação, a internacionalização, crie um nome que seja respeitado num mundo global onde as fronteiras se esbateram, numa Europa que vê o seu parque industrial reduzir-se lentamente, como uma folha de papel que se esboroa exposta aos ventos de mudança.
Uma fábrica é apenas, na maioria das vezes, uma espécie de braço armado de uma empresa mais vasta onde convivem o Marketing, a Contabilidade, os Recursos Humanos, as Vendas, etc. Para efeitos deste trabalho não nos interessa se a fábrica é um centro de custo, se gera lucro, qual as regras financeiras ou contabilísticas que se lhe aplicam. O que nos interessa é uma visão simples desta realidade: uma fábrica é uma unidade, composta por pessoas e máquinas, que tem de produzir com a máxima qualidade e segurança, no menor tempo possível, com uma flexibilidade total.

2. Conceitos
2.1. Fábrica e linhas de montagem
Diz-nos uma definição que uma fábrica é uma empresa destinada à transformação ou conservação de matérias-primas ou à transformação de produtos semifinais em produtos finais.
Por outro lado, uma linha de montagem é um espaço onde se executa um conjunto de operações elementares distintas, tendo em vista a montagem de um ou vários produtos. Estas linhas são compostas por um conjunto de postos de trabalho ligados entre si.
A produção em fluxo contínuo é a chave de todos os sistemas de organização do trabalho numa instalação fabril.  A cadência, a entrada e a saída são os pilares da linha de montagem, cujas vantagens são:
  •  resultados muito eficientes;
  •  menores custos de manipulação do material;
  •  operações muito simplificadas, que permitem a utilização de mão-de-obra pouco qualificada (barata);
  •  pequenos stocks intermédios;
  •  simplificação do controlo da produção (o sequenciamento baseia-se quase só́ na definição de uma taxa de produção).

2.2. A entropia e as equipas
Na termodinâmica, a entropia está vulgarmente associada à quantidade de ordem, desordem e/ou caos num sistema.  Por outro lado, a entropia, que pode reduzir-se por acção externa, é (também) uma medida da desordem no sistema; quanto maior a entropia, maior a desordem. De acordo com a 2ª lei da termodinâmica, a entropia do Universo tende para um máximo.
Paralelamente, em termos de gestão de recursos humanos (e lembramos que o âmbito deste trabalho é uma fábrica, uma unidade fabril, um microcosmos no mundo laboral actual) tem sido de alguma forma evidente que alguns sistemas humanos, deixados em roda livre, isto é, sem controlo ou disciplina, tendem para o caos, para a desordem. No fundo, como se uma linha de montagem fosse a replicação, a uma escala miniatural, do Universo.
Obviamente que esta ideia-chave não se aplica a toda a realidade humana de uma unidade fabril onde coexistem técnicos ligados ao desenvolvimento de novos produtos, ao controlo da qualidade, à reparação dos equipamentos indispensáveis à boa fabricação dos produtos acabados, à monitorização da saúde dos colaboradores. Para estes, ainda que enquadrados por regras e princípios, a liberdade existe, isto é, há alguma amplitude na forma como entendem gerir o seu tempo, organizar o ritmo/posto de trabalho.
Ora, muitas destas áreas são serviços de suporte, existem com o objectivo de apoiar o coração deste corpo produtivo. Poderíamos chamar a este órgão fulcral e determinante o departamento de produção – não mais do que o conjunto de pessoas a quem é atribuída a responsabilidade de fabricar, de acordo com instruções claras e inequívocas em termos de especificação do produto, prazos de execução e quantidades planeadas, o que é necessário para abastecer o mercado, seja o mercado do consumidor final, seja o mercado da organização que se situa a jusante.     
Apesar da sofisticação mecânica de muitos sistemas produtivos fabris, o facto é que a mão-de-obra humana ainda desempenha um papel importante. A automação das várias tarefas é, para uma enorme quantidade de unidades fabris, uma relativa miragem. Com as actuais exigências de redução de custos, aumento de competitividade, maior flexibilidade, etc., a autonomia das equipas/grupos de trabalho, tão em voga nos últimos anos com os conceitos de lean manufacturing, TPM (Total Productive Maintenance), toyotismo, é menor.  Por outro lado, a equipa ou grupo de trabalho (pessoas que realizam em conjunto tarefas ou  missões concretas) não são, ao contrário da família, da pequena comunidade aldeã, ou do grupo étnico, equipas naturais, mas artificiais. Como conseguir, então, um nível de produtividade e de eficácia nestas equipas multidisciplinares, artificiais?
Citemos uma frase, de cujo autor falaremos mais adiante: as disciplinas são técnicas para assegurar a ordenação das multiplicidades humanas.

3. O mundo de hoje
Em meados do séc. XX, George Orwell publicaria Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Em Airstrip One, uma província de Oceânia, e local principal onde se desenrola a história, uma profusão de posters invade a cidade. Neles, o retrato do líder vem acompanhado da frase Big Brother is watching you.
O mundo de hoje é orwelliano, ainda que nem sempre saibamos quem é o Big Brother, ou o conceito se divida por uma quantidade imensa de pessoas ou organizações que nos vigiam. Entre a saída de casa e o regresso, doze horas depois, somos observados em permanência: numa bomba de gasolina, numa rua, num banco, num parque de estacionamento. Em qualquer estabelecimento podemos ser confrontados com a frase que nos sugere que sorriamos, porque estamos a ser filmados, frase que denota um olhar invisível pousado em cada um de nós. Mesmo que não saibamos quem nos observa, temos a consciência dessa possibilidade, e o nosso comportamento molda-se a essa hipotética certeza. Esta possibilidade impressiona mais a imaginação do que os sentidos.   
O conceito de privacidade desfaz-se nos dias de hoje  A nossa intimidade é revelada nas redes sociais – em particular no facebook. Esta exposição é irreversível e as nossas actividades profissionais ou de lazer, os amores e desamores, os gostos e as preferências, os conhecimentos e fotografias ficarão para sempre num mundo etéreo, acessível a pessoas cujos rostos não conhecemos mas que nos conhecem, porque tiveram acesso aos nossos passos, à nossa intimidade revelada. Apesar desta exposição, que atingiu já o ponto de retorno, o facebook tem um tremendo sucesso, remetendo os não aderentes para uma espécie de infoexclusão.
Noutra dimensão, centenas de candidatos perfilaram-se num balcão, ao longo dos últimos anos, para se inscreverem num programa onde são filmados 24 horas por dia, expostos aos olhos de uma multidão anónima que liga as televisões num voyeurismo obsessivo.  Hoje, ao contrário do 1984 de George Orwell, os vigilantes somos todos nós, que espionamos os passos dos participantes anónimos. O que antes era temido – o controlo e a vigilância – e também o que era protegido – a privacidade e a intimidade – tornam-se objectos de fascínio. Trocou-se a privacidade pela fama. A sociedade de hoje, subordinada ao conceito do sou visto, logo existo, é dominada por um olhar omnividente, que vai da proliferação dos programas televisivos de voyeurismo explícito à epidemia da vigilância que multiplica as câmaras encontradas a cada passo que damos. Vive-se hoje numa sociedade escópica que tem como espectáculo a disciplina e o controlo. O olho que vigia e pune é o mesmo que possibilita a fama.
É com esta realidade que olhamos para os sistemas produtivos, em particular para as fábricas, onde uma miríade de pessoas, artificialmente agrupadas, transformam matérias-primas em produtos acabados. É preciso disciplinar esta heterogeneidade humana, criar condições para que a sua eficácia se eleve a níveis de excelência. É preciso organizar esta multiplicidade de gente que já vive e convive com uma sociedade distópica e controlada, gente que é observada sem o querer, mas que também se expõe voluntariamente à observação. É preciso organizar esta diversidade de gente que se perfila numa linha de montagem para fabricar ou transformar produtos, que se organiza para satisfazer critérios de produtividade, de rentabilidade, de eficácia, de serviço ao cliente.
Que ferramenta temos ao nosso alcance para organizar esta força de trabalho que, deixada em roda livre, tenderá para a desordem, para o caos? Qual o modelo que leva um operário de uma linha a sair de sua casa e a entrar na sua fábrica e a perceber que esta não é mais do que a extensão daquela, que não há ruptura, não há diferença substantiva na forma de viver, de pensar e de agir, que a única evidência visível de mudança está na eventual existência de um uniforme...
Este modelo, que é a chave para o imbróglio humano, chama-se panóptico

...

8. Conclusão
Poder ver tudo, ter a sensação de se ser visto em permanência. Paredes transparentes, em vidro, que nada escondem, tudo revelam. Por trás, câmaras ou pessoas, pouco importa. A sensação da observação num hipotético sentido biunívoco, porque não sabemos nunca se observamos mais do que somos observados, ou, se ao observarmos os outros, nos observamos a nós próprios. Uma vida feita de dias iguais, sem ruptura de ambientes, a conviver com um dispositivo incorpóreo, virtual, insinuante, que torna o exercício do poder mais rápido, mais leve, mais eficaz. A disciplina, essa técnica para assegurar a ordenação das multiplicidades humanas, a vencer o caos, a desordem, a artificialidade das equipas. A disciplina ao serviço da eficácia da unidade, de um todo que é maior do que a soma das partes.  A disciplina que faz crescer as aptidões de cada um, que as coordena, que multiplica a capacidade produtiva, que alarga - sem enfraquecer - as frentes de ataque. A disciplina como tecnologia.
O panóptico...

JdB

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