20 abril 2014

Domingo de Páscoa

Um Santa Páscoa para todos. Obrigado pelos votos que aqui foram deixando.

JdB


Resurrection of Christ and women at the tomb, 1440-41, Fra Angelico (1387-1455)


EVANGELHO – Jo 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

19 abril 2014

Pensamentos impensados

Pintura de Manet. Imagem tirada da net

Neste Sábado os meus pensamentos estão voltados para todos os frequentadores deste estabelecimento, e suas famílias, a quem desejo uma Feliz Páscoa.

SdB (I)

18 abril 2014

17 abril 2014

Colar de pérolas (18)


Sabes que devagar se vai ao longe, decerto. O que talvez não saibas é que devagar também se apaga um coração. Ou que devagar também se incendeia um mundo. Há aquele filmezinho português que ninguém viu e que diz assim: "um passo, outro passo e depois". Como se a lentidão fosse, afinal, tão letal como a velocidade com que nos embriagamos de modernidade. Se, ao menos, pudesses parar o que velocidade não tem. Mas que mata, de tanta e tão gloriosa vida.

gi.

16 abril 2014

Das (in)existências

Fotografia sem título de JMAC, o homem de Azeitão


Fernando Pessoa não existe, propriamente falando (Álvaro de Campos).

Só a morte permite imobilizar uma pessoa na nossa memória. Só quando essa pessoa cessa de existir é que permite que a conheçamos tão bem quanto é possível à inteligência humana, porque só a partir de então é que a possibilidade de mudança lhe está vedada. Olhar um cadáver, ou uma piedosa pagela que nos lembra um desaparecimento, é fixar mais do que uma ideia, é esculpir na pedra uma convicção. É dizer que fulano era assim, e saber que fulano não nos atraiçoará, mudando de comportamento, de hábitos, quem sabe se de feitio. 

Se acreditamos que a nossa verdadeira identidade é definida pelos outros, também teremos de acreditar que temos tantas identidades quantas as pessoas que se cruzam connosco. Rosa Montero, a escritora chilena, dizia mais ou menos isto: sabes lá tu quantos somos dentro de nós. Já quando nos olhamos ao espelho metafórico das nossas introspecções vemos vários, porque as circunstâncias em que vivemos são várias. Alguém me dizia, um destes dias, que eu sou a escrever o que não sou a falar, que o que observo e digo não é o que observo e escrevo. Jorge Luís Borges afirmava ser os seus personagensKirkegaard diria que não era responsável pelo que escreviam os seus pseudónimos, uma espécie de companhia de autores dentro do mesmo fato.

Em que é que nos afecta esta ideia de não existirmos, propriamente falando, de sermos o que os outros fazem de nós ou dizem de nós ou vêem de nós? Tira-nos personalidade ou, pelo contrário, oferece-nos uma multiplicidade delas? Tudo seria mais fácil se reduzíssemos a nossa rede de intimidade - ou, pelo menos, de alguma proximidade - a uma pessoa única? 

Nos últimos dois dias troquei alguma correspondência com o meu querido amigo ATM, que este estabelecimento já recebeu. Falámos das naturezas para chegarmos a um qualquer âmago: quem somos e como somos vistos? E eu continuo a série infindável de interrogações: revelamos a nossa verdadeira essência ou somos aquilo que os outros vêem? E mostramos sempre o que gostaríamos que os outros vissem em nós? E como nos condiciona isso a forma como somos vistos?

Já uma vez aqui escrevi do fascínio que é ver o exercício das inteligências alheias. E lembro-me de alguém que, inteligente, com uma cultura focada, com espírito de atenção, observação e intuição, prefere dar publicamente de si uma imagem bastante generalizada de um interesse inferior ao que tem. E também sei das pessoas que em grupo ou em individual são personagens diferentes, se transformam no olhar, nas fixações, nas necessidades. Como conciliamos, dentro de nós e do próximo, esta espécie de ambivalências?

Existimos, propriamente falando?

JdB   


15 abril 2014

Duas últimas

Regressamos ao fado, após algumas semanas de ausência.

Gisela João parece estar na moda, pelo melhores motivos. Ganhou recentemente, por unanimidade, o prémio José Afonso, conferido pela Câmara Municipal da Amadora, cujo júri afirmou: talvez não seja exagero considerar Gisela João a melhor voz que já apareceu depois de Amália. A mim talvez pareça exagero, mas cada um dirá de sua justiça.

Deixo-vos então com a fadista de Barcelos, nunca aqui postada, em dois fados. Para vossa delícia, ou para incentivo a mudarem de estabelecimento.

é lucidez, desatino
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte...

JdB




14 abril 2014

Vai um gin do Peter’s?

Em palco e a contar estórias, os brasileiros fazem a diferença. Comunicar é com eles.
A recente readaptação ao cinema do livro de José Mauro de Vasconcelos «MEU PÉ DE LARANJA LIMA»(1) por outro brasileiro, Marcos Bernstein, deu num filme bem gostoso, que é um hino à amizade. A mais improvável, entre uma criança de 6 anos, paupérrima e um português com idade de avô, radicado no Brasil profundo.


Sem ser uma obra-prima da Sétima Arte, oferece-nos uma visão espantosa sobre os efeitos do bom entendimento entre seres humanos, capaz de curar as feridas de alma mais fundas. Inclusive de dissipar a tentação de pôr fim a uma existência próxima do insuportável. O ponto de observação é insuspeito pois baseia-se na perspectiva da vítima – a criança através de quem nos chega um mundo perpassado pelo olhar infantil. Autobiográfico e intencionalmente subjectivo.

A história do menino pobre, do interior do subcontinente sul-americano, filho de pai desempregado e de mãe ausente, a trabalhar para uma família numerosa que sobrevive a custo, tinge-se da imaginação fulgurante de um miúdo vadio, que nos vai desfiando as memórias agridoces de uma infância dificílima, onde alguns bons encontros fizeram tudo valer a pena. Por isso, a memória daquele passado merece ser partilhada. Zezé escreve relembrando as boas pessoas, ou os bons momentos de pessoas, quando estava à mercê de adultos severos e violentos. É uma questão de lealdade e, em boa verdade, até terão acabado por ser quase todos, nalgum instante, ainda que breve. Escreve homenageando os que lhe fizeram bem e lhe incutiram esperança no meio da espessa escuridão diária. Escreve agradecido aos amigos, sobretudo ao que lhe abriu o futuro, quando o presente lhe soava a triste e insustentável. Desse, guardou a caneta dourada, o melhor símbolo do que a vida lhe reservaria.  

A sua criatividade transbordante permitia-lhe evadir-se do ambiente feio e desfalcado onde morava. Sonhando acordado, Zezé acrescentava ao seu dia-a-dia sombrio uma segunda existência, vivida com tal entusiasmo e realismo que, nalgumas ocasiões, terá sido bem feliz, entretido nas cavalgadas do puro-sangue que o ramo mais robusto de seu pé de laranja lima lhe sugeria, ou nas explorações ao resort selvagem que a caniçada tropical das traseiras do seu casebre lhe inspirava, ou nos voos rasantes que o planador desenhado na areia das redondezas lhe proporcionava, co-pilotado pelo irmão mais novo. 

O lado censurado do seu temperamento riquíssimo pagava-o bem caro, como rapazinho indomável, sempre a magicar novas tropelias. Exasperante, a mania de armar em campeão dos disparates, forjados pelas suas grandes qualidades. Muito irónico que tantas aptidões se voltassem contra ele, convertendo-o no provocador-mor da família. Era especialmente penalizado pela nobreza de carácter, em estado cru e exacerbado pela tenra idade, a resultar numa afronta constante a um pai depressivo e enredado numa revolta surda. Bem nos antípodas do pobre do Zezé, que de tudo sabia fazer uma festa e até ganhar uns trocos.

Era bem rápido a meter-se em sarilhos, mas também q.b. inventivo para alterar as circunstâncias (as possíveis) a seu favor. Não precisou de aulas de marketing para vender os CD passadistas do cantor da velha carripana. Nem de frequentar academias militares para nunca se furtar às adversidades, dando sempre luta. Até demais! Nem de aulas de psicologia para perceber que não estaria preparado para a despedida tão comovida do avô – o único adulto da família com quem se conseguia entender – descobrindo maneira de abreviar aquela hora difícil. Nem de aulas de civilidade para saber agradar à professora que os outros ignoravam mas a quem estava híper agradecido, pois geria a única actividade onde a sua cabeça fervilhante de ideias – das boas às asneirentas – encontrava interesse e potencial para progredir.


Alguma frieza que se pudesse antever neste episódio,
esclarece-se depois ser pura delicadeza de sentimentos.
Porque a obsessão de Zezé era ir ter com o avô, à cidade, embora
o tenha omitido ao próprio para não pesar mais, na separação.


Quis repor a injustiça, a seus olhos, de ser a única mestre
com a jarra sempre vazia, em cima da secretária. 

Para os mais velhos, sobretudo para uma certa autoridade clássica, Zezé tinha um temperamento mal calibrado, com excesso de potência e clara falta de freios para conseguir crescer positivamente sem castrar a sua natureza exuberante e desafiadora. No fundo, carente de interlocutores! Dotado de uma imaginação sem barreiras, apanhava-se impreparado (aos 6 anos) para o contexto áspero que lhe calhara em sorte. Agravado por uma coragem desmedida. Mais uma inteligência arguta mas sem os filtros da experiência, que só o tempo proporciona. Ou uma audácia perigosamente inflacionada pela falta de realismo. Nem o coração de ouro servia de contrapeso, a tal ponto estava camuflado pela catadupa de asneiras em que se tinha especializado, viciado em curtir a vida de cara levantada e sem se privar de nada. Até a avidez pela aventura atiravam-no para perigos tremendos. Ultrapassava sistematicamente os limites, pois nunca os concebera como sinalizações saudáveis da faceta benigna da realidade, protecções vitais contra os espinhos! E eram tantos.

Só o amigo, bastante mais velho, o fez descobrir este segredo inacessível aos pequeninos, que detectar no grande mapa da vida os caminhos seguros, identificando com rigor as bermas e demais paisagem onde tudo pode correr mal, não tolhe a liberdade. Antes a amplia e viabiliza! Mas apenas numa voz Amiga se pode reconhecer autoridade para dar corpo a uma mensagem de aparência desinteressante, que uma criança aceitará por extrema confiança, sem idade para a perceber. Um desafio afectivo, portanto. Para um coração imenso como o de Zezé, só uma amizade à escala poderia responder-lhe. E respondeu, num jorro de bondade de quem menos esperava.   

O primeiro embate entre os dois foi péssimo, pois o colegial teve o topete de saltar para o pára-choques do carro lindo do português, sujeitando-se depois a uma tareia em frente aos colegas. Claro que ficaram inimigos! P’ra sempre, garantiu o patifezinho, com ameaças de vingança feroz. Valeu que o português não era de rancores e fez questão em dar boleia ao insubmisso, quando o viu a coxear a caminho da escola. A custo, o miúdo rendeu-se à insistência de Manoel Valadares, apesar de não ser menino para se deixar comprar por boleias no bólide mais fantástico das redondezas. Nem mesmo arrastando um pé ferido. Mas felizmente que cedeu e desistiu da inimizade a que se votara, permitindo que nascesse ali uma relação maravilhosa, ainda que curta (mas marcante, como o prova esta narrativa), pois a vida também prega partidas. Até por ser fugaz. Arriscadíssimo deixar para amanhã…   


O Citroën Traction Avant é o célebre modelo fabricado entre
1934 e 1957, na vanguarda tecnológica, já com tração dianteira  
e carroceria em monobloco, depois muito popularizadas.

A riqueza afectiva do pequeno contador de histórias pontua a sua biografia, desde que nos aparece no ecrã, a peregrinar até a uma capela a quilómetros de sua casa, para negociar com Deus o aliviar da indigência da família, de sabor mais amargo num Natal sem presentes. Para a árvore-arbusto que ficou ao seu cuidado – o pé de laranja lima – desencantou um nome único «Minguinho», passando longas horas à sombra da folhagem rala e desproporcionada, sonhando e desabafando. Ao mano mais novo, que o seguia com enorme devoção, fazia as confidências mais luminosas, acabando por lhe passar o passarinho amoroso que guardava no peito – um presente valiosíssimo. À irmã que o tentava proteger da violência que todos lhe granjeavam, em casa, cansados das suas travessuras, dava conselhos de adulto para a ajudar a crescer, esclarecendo que as suas viagens magníficas eram pura fantasia. Mas o melhor de Zezé despontou com a paternidade do Portuga, ao ritmo da cumplicidade que se estabeleceu entre os dois.

É tocante a facilidade e felicidade com que um insubmisso se deixa conduzir por Manoel – como se fosse dócil (afinal sabia ser) – sentindo-se protegido e inspirado pela ternura que aquele avô tinha por si. Estimulado para dar o máximo, mostrou-se incrivelmente sociável, até com graúdos, incansável em tudo, de uma honestidade desconcertante, mesmo que o desfavorecesse. A boa sintonia entre um e outro, percebendo-se quanto Zezé se sentia amado e único, produziu um milagre (como sempre!) na difícil, agora fácil, educação de um fedelho rebelde. Nem um mal-entendido sequer turvou a relação com o recém-desconhecido, apesar de ser pão de cada dia, em casa, onde era suposto conhecerem-no desde bebé. Misterioso e significativo, tanto mais que o português lhe punha limites, embora com subtileza e modos meigos, tornando evidentes as boas intenções que o animavam.

De facto, transfiguradora a amizade que motivou Zezé a acompanhar as passadas de maturidade do crescido, dando saltos de leão, até nos modos, à mesa, como brincava Manoel. Tempo para estar juntos revelou-se no maior antídoto contra o sofrimento brutal a que o pequenino estava sujeito. A ponto de se ter tornado no melhor passatempo do rapaz crescer com e ao lado de um adulto.  



Se dúvidas tivéssemos sobre o alcance do Amor, a experiência de Mauro de Vasconcelos seria eloquente, até por testemunhar, na primeira pessoa, a alegria imensa que aquela afeição lhe trouxera. Mudara-o para sempre! Repercutiu-se, inclusive, nos pais, que intuíram a urgência em corrigir a maneira de lidar com o filho. Percebe-se por que é considerado a grande prioridade no desenvolvimento e na realização do ser humano, desde o primeiro minuto. O desafio está em conseguir ser-se o Manoel para um Zezé, ou vice-versa. Isto não vai lá sem o “sim” de cada um, pois só cada um pode escolher fazer a diferença.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_________________
(1) FICHA TÉCNICA do filme, inspirado na obra homónima de José Mauro de Vasconcelos, publicado em 1968 e dos maiores sucessos de venda no seu país:



Título original:
MEU PÉ DE LARANJA LIMA
Título traduzido em Portugal:
MEU PÈ DE LARANJA LIMA
Realização:
Marcos Bernstein
Argumento:
Marcos Bernstein e Melanie Dimantas
Produzido por:
Katia Machado
Produção:
Passaro Films
Fotografia:
Gustavo Hadba, ABC
Banda Sonora:
Música original de Armand Amar
Duração:
99 min.
Ano:      
2012
País:
Brasil
        Elenco:

João Guilherme Ávila (o Zéze)
José de Abreu  (o Portuga)
Eduardo Dascar (o pai)
Fernanda Vianna (a mãe)
Caco Ciocler (José Mauro de Vasconcelos)
Eduardo Dascar (Paulo Vasconcelos)
Pedro Vale (Totoca)

Local das filmagens:

Brasil: zona da Mata Mineira, cidade de Leopoldina.


13 abril 2014

Domingo de Ramos

EVANGELHO Mt 21, 1-11


@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus



Quando se aproximaram de Jerusalém
e chegaram a Betfagé, junto ao monte das Oliveiras,
Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes:
«Ide à povoação que está em frente
e encontrareis uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho.
Soltai-os e trazei-mos.
E se alguém vos disser alguma coisa,
respondei que o Senhor precisa deles,
mas não tardará em devolvê-los».
Isto sucedeu para se cumprir o que o Profeta tinha anunciado:
«Dizei à filha de Sião:
‘Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro,
humildemente montado num jumentinho,
filho de uma jumenta’».
Os discípulos partiram e fizeram como Jesus lhes ordenara:
trouxeram a jumenta e o jumentinho,
puseram-lhes em cima as suas capas,
e Jesus sentou-Se sobre elas.
Numerosa multidão estendia as capas no caminho;
outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão.
E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus
como as que O seguiam,
diziam em altos brados:
«Hossana ao Filho de David!
Bendito O que vem em nome do Senhor!
Hossana nas alturas!».
Quando Jesus entrou em Jerusalém,
toda a cidade ficou em alvoroço.
«Quem é Ele?» – perguntavam.
E a multidão respondia:

«É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».

***

A Páscoa em nossa casa

Jesus vai entrar em Jerusalém e manda um discípulo ter com alguém com esta ordem, que é mais do que uma indicação: “É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos”.
Assim, através deste Evangelho, neste princípio da Semana Santa, o Senhor está-nos a dizer que quer celebrar estes dias em nossa casa – no nosso ambiente (no espaço onde vivemos e convivemos com as pessoas que nos são mais próximas), mas também e mais profundamente na casa do nosso coração. E o que nos exige? Como é que o Senhor Jesus quer passar a Páscoa com cada um de nós? Nos sinais da sua presença! Por exemplo, a sua Palavra. Receber a Palavra de Jesus, acolhê-la em nós, lê-la, ouvi-la nas celebrações e guardá-la no nosso coração e na memória é receber Jesus em nossa casa.
Depois, podemos acolher Jesus nos sinais sacramentais: no sacramento da Penitência ou Reconciliação (a Confissão); na comunhão eucarística. No sacramento da Baptismo, porque todos nós na Páscoa renovamos o nosso Baptismo. Temos de renovar essa pertença a Jesus, essa habitação do Espírito em nós. Finalmente, podemos acolher Jesus na caridade. Jesus não adia o seu encontro connosco; Ele vai entregar-se inteiramente nestes dias e, por isso, quer que Lhe patenteemos verdadeiramente as portas da nossa casa.
Então abramos o nosso coração para termos a Semana Santa, a semana preenchida de Deus… Deus está à nossa porta e bate!

D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor. Cascais: Lucerna, 97-99.

12 abril 2014

Pensamentos impensados

Papelaria
Mãe, há só uma. Folhas A4.
 
Virose
O Ébola está de volta; já há muitos anos Luis Piçarra cantava: não sei o que tenho em Ébola.
 
Ingrês
Assunto, em inglês, diz-se meta.
Vergonha, em inglês, diz-se achei-me.
 
Efemérides
Faz hoje anos que faltavam 5 meses para eu nascer.
 
Estatísticas
O Governo está preocupado com a natalidade em Portugal.
Falem com o Zezé Camarinha.
 
Engenhocas
Qualquer aparelho tem 2 anos de garantia. É miserável!. A minha garantia é vitalícia. O pior é se não duro 2 anos.
 
Patrona
Os pianos têm padroeira; é a Santa Tecla.

SdB (I)

11 abril 2014

Colar de pérolas (17)



A gola da velha gabardina subida, contra o frio que te gela os ossos. Caminhas. Páras, à porta de uma velha mansão e atravessas o portão que balouça ao vento, perdido o orgulho dos tempos em que era ainda esbelto ferro. Bates à porta, ninguém te responde. Entras, porta adentro. Nas escadas, os degraus parecem-te um decrépito teclado de piano - ou uns dentes de velho, irregulares e estragados. A lua, pela janela, acompanha-te. Lembras-te dos tempos em que a casa estava habitada. Dos dias em que a habitavas. De quando a casa te habitava. Estancas o passo. Em silêncio, dás meia volta e sais, atravessando, em sentido inverso, o pequeno jardim, e passas o portão. É já quase manhã e as lágrimas secas que te cortam o rosto são enxugadas pelos mesmos pássaros que tem embalavam em menino, na árvore em fronte à janela do teu quarto. Quando tudo arde, restam-te os pássaros, rapaz. E as memórias.

gi.

10 abril 2014

Dos nossos panteões pessoais

iClouds, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Levy Strauss, nos Tristes Trópicos, cita Chateaubriand, mais ou menos assim - que a precisão não me acompanha hoje: 

Todos carregamos em nós um pequeno mundo composto por tudo o que vimos e amamos, a cujo santuário constantemente recolhemos, mesmo quando cruzamos e parecemos habitar um mundo estranho.

Cada um de nós tem os seus heróis - reais ou fictícios, que também com ficções se formam mentes. São pessoas que apreciamos, amamos, valorizamos, por quem temos apreço. São os escritores, os personagens mais marcantes da banda desenhada, os santos, os mártires, os amigos desaparecidos prematuramente, os músicos. Por outro lado, cada um de nós tem os locais das suas memórias, os livros, os cheiros. São, como já aqui escrevi um dia, as nossas famílias artificiais.

Beethoven, Bach, Eça, Mandela, Jesus Cristo, Corto Maltese, Santo Agostinho, João Paulo II, Vítor Damas, Yazalde, Melanie Safka, Janis Joplin, Amália e alguns poemas, o meu primeiro chefe na Lever, os padres que me ouvem, os amigos que me aconselham, os próximos que permanecem; rio de janeiro, praga, londres, áfrica, áfrica, áfrica, os açores; os grandes silêncios, as grandes conversas; o choro desinibido, a adolescência revisitada; os livros que me emocionam, as músicas que me elevam, a bondade que me comove.

O que une Beethoven, Corto Maltese e João Paulo II? Como junto pessoas que viveram em épocas diferentes, em realidades diferentes? No meu panteão pessoal. É nesse local que eles ganham uma importância semelhante, é lá que são verdadeiramente iguais, se irmanam num desiderato comum: fazer de mim uma pessoa melhor. Ali, nesse meu panteão, as diferenças não só se diluem, como potenciam a força que une estes e outros heróis. Ali nenhum é melhor do que o outro, porque são todos importantes. Por mais estranho que este raciocínio possa parecer.

Danielle S Allen, politóloga e escritora americana, escreveu muito sobre sociedade - sobre o que ela entendia ser uma connected society. Para ela há dois tipos de ligações: as bridging ties, que ligam pessoas diferentes, quer profissional, étnica, sócio-económica ou religiosamente, e as bonding ties, laços familiares, mais fáceis, que nos ligam à família e à comunidade imediata. E concluiu de forma evidente: as sociedades com mais sucesso são aquelas em que as principais instituições - escolas, universidades, empresas, órgãos políticos - promovem as bridging ties. Parece-me óbvio.

Os nossos panteões pessoais são micro-sociedades de sucesso, porque à volta de uma mesma mesa se junta a disparidade - Bach, Mandela, Santo Agostinho. Como poderíamos transformar estas micro-realidades em macro-realidades? De que forma o nosso panteão - todos os panteões juntos - tornaria as sociedades mais justas?  

Na minha mesa de cabeceira virtual está uma mala com as famílias artificiais que me compõem: o silêncio dos açores, o cosmopolitismo de londres, o requiem de mozart, o novo testamento, o logotipo da acreditar, o retrato dos meus mais próximos, o so long marianne do leonard cohen, o bom ladrão que pede para não ser esquecido. É lá que me recolho em tempos de borrasca interior.

Ver as famílias artificias dos outros pode ser um exercício de conhecimento alheio, mais do que de voyeurismo. Um activista anti-gay tem oscar wilde no seu panteão? Um fundamentalista religioso tem jesus cristo no seu panteão? Um pato-bravo da construção tem os açores como família artificial?

Para que serve este texto?

JdB   

09 abril 2014

Diário de uma astróloga – [75] – 9 de Abril de 2014


Simplicidade à volta do zodíaco

Há dias o dono deste estabelecimento abordou o tema de “ser ou não simples”. Tema interessante e nada simples. Perguntei a várias pessoas o que significava “simples” para cada uma delas e obtive respostas muito diferentes.

Aqui estão algumas:
·      Contrário de complicado, conceito que ninguém tem dificuldade em definir.
·      Oposto de atravancado, de carregado com excessivos adornos ou acessórios.
·      Sem sobressaltos e sem grandes ambições – “uma vida simples”.
·      A capacidade de apreciar coisas elementares como um copo água.
·      Equacionada com “pobres de espirito” do Sermão da Montanha.

Fiquei baralhada. Por isso virei-me para a astrologia cujo prisma me ajuda a compreender o mundo. E simplesmente falando, “simples” significa coisas diferentes para cada um dos signos do zodíaco. Recorri a citações para ilustrar essas diferenças:

Confúcio devia ter sido Carneiro que é um signo directo e decisivo porque disse “A vida é realmente simples, mas insistimos em complicá-la.”

Henry David Thoreau era Touro, signo sempre preocupado com os recursos, por isso aconselha “A nossa vida é desperdiçada por detalhes… simplifique, simplifique”.


O arquitecto Frank Lloyd Wright, como bom Gémeos, introduz na sua definição o processo mental “Pense simples… …o que significa reduzir o todo de suas partes em termos mais simples, voltando aos primeiros princípios".


Casa concebida por F.L. Wright

O Caranguejo / Câncer relaciona-se com o mundo através das emoções e na sua melhor expressão, usando grande doçura. Benjamin Hoff, um autor americano, recomenda “Desfrute do simples, do natural e do básico. Junto com isso vem a capacidade de fazer as coisas de forma espontânea e vê-las funcionar”.

E.F. Shumacher, um influente economista britânico, era Leão, signo com tendências dramáticas e exageradas mas também criativas e expressivas, afirmou “Qualquer tonto inteligente consegue fazer coisas maiores, mais complexas e mais violentas. É preciso um toque de génio... e muita coragem para ir na direcção oposta.” E ele foi porque um dos seus livros chama-se “Small is Beautiful”.

Virgem, se bem que de aparência humilde e modesta, gosta de resolver problemas o que nos ajuda a compreender o pensamento de H.L. Menken, o sábio de Baltimore, “para cada problema há uma solução que é simples, limpa e … errada”. Se fosse certa não haveria nada para resolver J

O compositor Frederic Chopin era Balança / Libra e definiu simplicidade em termos estéticos e artísticos que são áreas regidas pelo seu signo “A simplicidade é a realização final. Depois de se tocar uma grande quantidade de notas e mais notas, é a simplicidade que emerge como a recompensa suprema da arte.”

O Escorpião na expressão mais positiva está interessado em integridade no sentido do que não foi corrompido e é puro. A companhia canadiana “Pure + Simple” vende produtos de beleza biológicos http://www.pureandsimple.ca/ e os seus fundadores têm de certeza a energia deste signo.

Bruce Lee, Sagitário, ícone das artes marciais usa palavras fortes e deliberadas como ele para aconselhar simplicidade “Não é um aumento diário, mas uma diminuição diária. Rache, corte e deite fora o que não é essencial”.

Por outro lado Isaac Newton era Capricórnio, o signo da ordem, da estrutura, da perfeição e do sucesso. Foi um grande físico, matemático, astrónomo e alquimista, e por isso não devemos duvidar da sua afirmação “À Natureza agrada a simplicidade”.

O Aquário não é uma energia que se relacione bem com a simplicidade pois procura objectividade e novas perspectivas de forma intelectual afastada de ligações emocionais, muitas vezes de uma forma fria. “Estou a começar aprender que são as coisas simples, doces na vida que são finalmente as mais reais” são as palavras de uma aquariana, Laura Ingalls Wilder,  que foi ganhando novas perspectivas que a levaram a uma carreira de sucesso como escritora!



"Posses, sucesso material, publicidade, luxo... para mim têm sido sempre desprezíveis. Acredito que uma maneira simples e despretensiosa de viver é melhor para todos, melhor para o corpo e a mente. " Estas são as palavras de Albert Einstein, Peixes, signo que deseja transcender o material e unir-se com a Deus, com a Natureza e neste caso com o Cosmo.

Conclusão: O que parece mais ou menos certo é que a simplicidade é um destino mas a jornada é complicada!



Luiza Azancot

08 abril 2014

Pensamentos impensados


Belenenses não vencia há sete jornadas. 
No passado Domingo averbou numa vitória consecutiva. 

SdB (I)

Duas Últimas


Se há album que me acompanha há longos anos, é seguramente "Goodbye Yellow Brick Road", agora de novo reeditado. Um album "mítico", como lhe chama um jornal destes dias.

Se tivesse de escolher um top 5 de albuns, não duvido que este o integraria. E Elton John também está entre os meus músicos a solo preferidos (ia a escrever preferidíssimos...).

Curiosamente foi um primo do meu amigo e dono deste estabelecimento que me tornou desperto para EJ. E também para Dylan, outro que continuo a ouvir sem descanso nem critério.

O album é do ano, já algo longinquo, de 1973. Anterior portanto à nossa também já longinqua última revolução declarada, cujas consequências, boas e más, continuam afinal a fazer-se sentir nos nossos dias. A respeito das más, diria que se fazem sentir particularmente em Abril, por motivos que se percebem mas se deseja passem rápido.

Do album em apreço, escolhi uma faixa que não é das mais conhecidas,  mas que me sempre foi uma das minhas favoritas, antes do mais talvez por motivos instrumentais.

Espero que a escolha vos traga boas lembranças, como traz a mim.

fq


07 abril 2014

Fórmula para o caos

Avaliando os recentes discursos dos responsáveis governativos, bem como as declarações dos parceiros europeus, parece cada vez mais provável que Portugal irá optar, à semelhança do que fez a Irlanda, pela saída limpa – financiar-se nos mercado sem qualquer seguro – do programa da Troika. A acontecer, trata-se de um ganho, em termos políticos, por parte do executivo, ficando o benefício financeiro extremamente difícil de antecipar. Apenas após a primeira emissão de dívida a 10 anos se poderá julgar o mérito da decisão.
No entanto, secundarizando as variáveis política e financeira em não accionar o programa cautelar, torna-se deveras preocupante a retórica que se escuta a propósito da recuperação da soberania orçamental. Antes de mais, total soberania não irá ser uma realidade nos próximos anos. Não antes do reembolso de 75% da dívida aos credores institucionais. Mas, sobretudo, causa perplexidade observar que quem defende a saída limpa fá-lo com o propósito de aliviar a austeridade. Será que, mesmo depois de todas as evidências empíricas, ainda não há a percepção colectiva que o modelo de desenvolvimento praticado nos últimos 15 anos, assente no crédito e na desorçamentação, foi a principal causa da crise que nos assola? Esses tempos, de riqueza artificial e sucessiva perda de competitividade, não mais poderão voltar, sob pena de Portugal se tornar num caso esquizofrénico de recessões permanentes e constantes falências do Estado. No futuro, a eliminação do défice deverá merecer o rótulo de prioritário, sendo esta uma obrigação a que os partidos responsáveis deveriam estar vinculados.
Obviamente que seria positivo um consenso entre os partidos com aspirações ao poder acerca das linhas mestras a serem seguidas pelo Estado no período que se seguirá ao fim do programa. Porém, para nosso infortúnio, o calendário eleitoral reduz essa possibilidade a uma mera miragem.
No fundo, PS e PSD, apenas se entendem quando está em causa alguma medida popular, que traga, no curto prazo, subidas nas sondagens para ambos, como foi o caso da recente polémica sobre a prescrição de processos de fraude bancária. Apesar de ser um caso dotado de extraordinária complexidade, que carece de rigorosos estudos a serem elaborados por técnicos especializados, os dois partidos não perderam tempo a proclamar banalidades e, como sempre acontece, a clamar por nova legislação. Se ao invés de estarem, de forma sistemática, a cavalgar a onda do imediatismo, talvez devessem dedicar-se a encontrar formas de consenso sobre o funcionamento da Justiça e a promover a estabilidade do sistema fiscal. Visto não estar em causa qualquer matéria que mereça “insanáveis” divergências ideológicas, não existe qualquer razão plausível para que não o façam.

Pedro Castelo Branco

06 abril 2014

5º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Jo 11,1-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.



***


“Jesus Chorou”!

O Deus dos cristãos é um Deus que se abeira dos homens, que se comove e que se perturba. Jesus, diz o Evangelho, “comoveu-se profundamente e perturbou-se”. Isto é fundamental, porque nós, muitas vezes, não nos convertemos porque temos uma ideia errada de Deus. Como é que nós nos podemos converter a um Deus alheado, a uma Deus abstracto, a um Deus “pensamento puro” que não está em lugar nenhum?!...
Nós cristãos não nos convertemos a um Deus assim; provavelmente, ninguém se converte a um Deus assim! Jesus, o Emanuel, é Deus connosco; Deus que se comove connosco, que se perturba connosco e que chora…Deus comove-se! É isso que nos converte!

Desta comoção vai nascer a ressurreição de Lázaro e nasce a ressurreição de todos nós, que ainda é maior que a de Lázaro, porque é a nossa vida ressuscitada na misericórdia de Deus.

Hoje, o Evangelho revela-nos que a ressurreição pela misericórdia de Deus é o que Cristo traz e continua a oferecer a cada um de nós.


D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Cascais: Lucerna, 79-80.

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