Uma mulher está, literalmente, pendurada num penhasco, a muitos metros de altitude.
Escreva, usando não mais de 400 palavras, o que está ela a pensar.
Eis a minha contribuição:
Caio ou não caio?
Grito ou reservo as forças até que alguém venha
salvar-me? Onde estarão os miúdos? E será que o Manel se lembra que a minha mãe
faz anos? Tenho de dizer à Otília para fazer a sopa de nabiças. E se eu cair? E
se eu morrer? Será que há Deus, ou até isso foi inventado pelas freiras? Sonhos que sonhei/onde estão... Que
irritação, esta música da Simone no ouvido. E Deus? E os bombeiros? É preciso
pagar o gás e o ballet da Joana.
Será que caio mesmo?
Se cair morro ou salvo-me? Será que o silicone
dos peitos aguenta? De certeza que o
seguro não cobre isto, forreta como o Manel é... E a cabra da Marília, que se
fez a ele, a achar que eu não via? Não posso esquecer-me de mandar arear as
pratas, estão um nojo. Não é para me gabar, mas o vestido de ontem ficava a
matar-me... Bastava olhar para a cara invejosa das mulheres. Horas que vivi/quem as tem. Ai a Simone
que não me sai da cabeça...
Estou quase a cair!
Espero que não esteja ninguém lá em baixo. Pendurada
e com uma saia larga é um festival para gente menos séria. E há cada vez menos
gente educada. Não que eu tenha umas pernas feias... Esqueci-me de por a novela
a gravar. E o preço da alcatra? Que horror, está tudo pela hora da morte...
Tenho de telefonar à minha mãe! E ao canalizador e à costureira. A Joana
precisa de comprar soutiens novos e o Francisco de ir ao barbeiro. Talvez na
4ªfeira, embora haja a ginástica e o voluntariado... E almoço com a Carmo.
Ai que caio! Ai que caio!
Que horror, e a gordura da Antónia? Não admira
que o Carlos a tenha trocado pela secretária de peitos grandes sempre a subir e
a descer. Possidónia! Vai ver como eles ficam depois de dar de mamar. Lixívia,
courgettes, papel higiénico. De que serve
ter coração/e não ter o amor de ninguém... Desodorizante, vinho tinto,
esfregões. A Carlota faz anos amanhã e eu sem ideias para presentes. Que geba
que é a mulher do Cavaco. O Passos Coelho está quase careca. E pasta de dentes.
Se a cortiça se vender troco de carro. Vivo
de saudades, amor/a vida perdeu fulgor... E se ninguém me vier buscar? Ah! Marcar
depilação e dentista.
Socorro! Não quero cair!
JdB
3 comentários:
Uma metáfora, muitas leituras possíveis, parece , mas nāo é nonsense.
As mulheres são mesmo assim!
Saltitam de tema em tema, atribuindo a cada um deles o mesmo grau de urgência. Muito bem JB apesar de se notar um tom ligeiramente trocista entre as suas linhas.
Que divertido!
Beijinhos
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