JdB
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
22 março 2010
Preguiça
JdB
21 março 2010
Reconciliação - desejar mudar e mudar mesmo
P. Vasco de Magalhães, S. J.
5º Domingo da Quaresma
Naquele tempo,
Jesus foi para o Monte das Oliveiras.
Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo,
e todo o povo se aproximou d’Ele.
Então sentou-Se e começou a ensinar.
Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus
uma mulher surpreendida em adultério,
colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus:
«Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres.
Tu que dizes?».
Falavam assim para Lhe armarem uma cilada
e terem pretexto para O acusar.
Mas Jesus inclinou-Se
e começou a escrever com o dedo no chão.
Como persistiam em interrogá-l’O,
ergueu-Se e disse-lhes:
«Quem de entre vós estiver sem pecado
atire a primeira pedra».
Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão.
Eles, porém, quando ouviram tais palavras,
foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos,
e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio.
Jesus ergueu-Se e disse-lhe:
«Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?».
Ela respondeu:
«Ninguém, Senhor».
Disse então Jesus:
«Nem Eu te condeno.
Vai e não tornes a pecar».
20 março 2010
A esperança de Margarida (cont)
19 março 2010
polaroids de figuras extintas
anos a fio, colegas de carteira e de malandrice inocente,
amiguinhos pequeninos com queda para a esperteza matreira,
mas sem ponta de maldade.
anos depois, na vida adulta, tudo importa, filipe - tudo importa.
por isso mesmo, é importante escrever 'sem ponta de maldade',
porque a poesia nem sempre é justa,
mas as mais das vezes a justiça é razoavelmente poética
(só em Portugal é que não, eu sei, mas se vamos por aí,
nunca mais acabamos o poema..).
crescemos, jogámos futebol, catrapiscámos as meninas,
- uma vez, até a mesma, se bem me lembro.
coisa linda esses nossos dias.
mais tarde, divergimos, como quase sempre acontece,
há milhares de livros a explicar a isso.
nunca li nenhum, por dandismo ou coisa assim.
mas, dizia, divergimos, quando os gostos, a cosa mentale,
começam a fazer da suas.
passámos então a ser colegas, companheiros,
mas não mais os preferidos um do outro.
(lembra-me outras coisas, mas adiante.)
mais uns anos passaram, lembras-te da ânsia de lá chegar?
e chegámos, mas o carro não parou, continuou, seguiu viagem,
para nosso espanto e, voilá, disfarçado terror.
tudo importa, filipe - tudo importa. também o terror, como verás à frente.
era fim-de-ano, ainda a juvenília imperava com as suas cores garridas.
na festinha de aldeia, bar do júlio alugado pela comissão de festas possível,
encontro-te à porta, sob a ombreira, mas mais ainda sob aquele céu de chumbo
que a noite beirã por vezes comporta.
estavas bebido, muito. eu estava bebido, um pouco.
anos de intervalo pelo meio e lembrar o que, já nessa altura, havíamos sido.
de repente, sem perceber bem,
abraçaste-te a mim e desataste a chorar convulsivamente.
os passantes, poucos, amigos e ébrios, diziam de nós
'mais dois bêbados! que rica festa! isto está porreiro, pá!',
movidos a cerveja e bebidas espirituosas baratas, decerto.
movidos a juventude e inconsciência, talvez.
mas só tu e eu é que sabemos,
que às 00h01 do dia 1 de Janeiro de um ano qualquer,
nos braços um do outro,
descobríamos aterrorizados
que falháramos ambos a vida.
tantos anos depois, tanta coisa depois, filipe,
e os dois amiguinhos de carteira de escola,
perceberam que
tudo importa. tudo importa.
e que nada mais importa.
(só o terror. e, em dias claros, o amor.)
gi.
18 março 2010
Deixa-me rir...
If all that grows starts to fade, starts to falter
Oh, let me inside, let me inside, not to wake
Let all that run through the fields, through the quiet,
Go on with their own, on with their own hidden ways
When all the newness of gold travels far from
Where it had once been,
Worn like the earth over years,
And when the acts of men
Cause the ground to break open
Oh, let me inside, let me inside, not to wait
Great are the sounds of all that live
And all that man can hold
I fell into silence overwhelmed by these days
For I had been shown empty rulers, ruling all things
Thinking the world was mine to lay hold of
I breathed in the promise of maiden and man
But each had their own illusions to hold on to
I only want to be left to my own ways
The rulers have won leaving all things undone
I've stood in awe of the whole creation
Gathered among them was the morning
Giving all it's rest
Thinking the world was mine to be lost in
I ran with freedom and sang in between
For I have the path of wonder
There before me
PO
17 março 2010
Pensamentos impensados
A ASAE e a Brigada de Narcóticos apreenderam o Auto de Mofina Mendes, de Gil Vicente; pensaram que era Morfina Mendes.
O acto de se ver através duma lupa diz-se lupanar.
Ausência total de caco
Como depois se provou
Quem foi o grande velhaco
Que descobriu o tabaco
E que o mundo forNICOT
SdB (I)
Good morning sunshine

2nd Must Have:
A little black Dress
16 março 2010
Ao luar
15 março 2010
Avareza
14 março 2010
4º Domingo da Quaresma
P. Vítor Gonçalves
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».
13 março 2010
A esperança de Margarida (cont)
12 março 2010
polaroids de figuras extintas
sabes, carlos, hoje, em que te avisto daqui,
és-me muito mais próximo do pudeste ser outrora,
nos estádios improvisados da nossa infância,
junto à escola, marcados na nossa imaginação
como os mais perfeitos estádios de futebol.
'olha o macaco!', riam-se os petizes, enquanto
te lançavam as imprecações violentas
que a idade ainda desculpava.
'olha o macaco' era a expressão, carlos,
com que te crismaram,
padres de tenra idade,
a treinar em meninos,
os homens que viriam a ser,
caça grossa e pontaria,
toda a colossal brutalidade
de que seríamos capazes.
esse 'macaco', que eras tu para eles,
(que digo, para nós..),
entrava em campo e,
talvez fome de bola e falta de jeito,
talvez fome de outras coisas
que tentarei não escrever aqui
à frente de ti e de todos,
entrava em campo e
chutava para todos os lados,
na primeira direcção que o pé,
desajeitado mas potente,
era capaz de negociar com a bola.
não te percebíamos, na altura,
e nunca te percebemos, acho eu.
mas hoje, em que te avisto daqui,
penso no quão certo tu estavas,
infalível na brusquidão da força,
impassível na violência do remate,
intocado pelos dichotes da miúdagem,
- como um sísifo sem patine ou caução histórica.
tentavas o teu melhor, à tua maneira, provavelmente.
sabias que não nasceras com sorte, talento ou fidalguia,
o que dá sempre jeito e vantagem.
por isso mesmo, tentavas ser energia pura,
uma possibilidade, instinto em combustão,
bestialidade humana, na ponta do sapato que ardia.
hoje, carlos, 'macaco' que foste,
estejas onde estiveres,
vivo ou morto como eu,
peço-te que me desculpes.
e que do alto do sítio de onde agora me avistas,
percebas
que hoje eu, como ontem tu,
tentamos apenas não desistir,
fazer o melhor que sabemos,
apesar de sabermos que sabemos tão pouco.
11 março 2010
Deixa-me rir...
Tudo se passa em Baltimore, EUA, no ano de 1962, por altura do aparecimento dos concursos televisivos. Não me lembro dos detalhes da história, confesso, mas sei que as questões do racismo e do corpo são a base do filme. Tratados, obviamente, da maneira mais ligeira possível.
Racismo porque tudo se passa numa comunidade tradicional e preconceituosa em que o “black power” se encontra em processo de afirmação (e ascenção) através da música, da dança e de uma cultura própria (não esqueçamos que se viviam os dias das conquistas de Martin Luther King). São também abordadas questões da imagem e do corpo, duas das grandes problemáticas do século XX, alimentadas à exaustão pela mítica Coco Chanel nos anos 20: ser magra é ser gira, sexy, chique e ter sucesso. Ser gorda é o oposto. Neste filme temos uma (espécie de) líder dos negros que é grande, poderosa e imponente (Queen Latifah) e uma actriz principal baixinha, gordinha e com pretensões a ganhar um concurso de dança muito popular, no qual participa também uma jovem loira, magra e atractiva, cuja mãe, a maquiavélica Michelle Pfeiffer, é esquelética e podre de chique. Adivinhem quem triunfa no fim do filme?!
No meio disto tudo vemos um John Travolta travestido de mulher, um Christopher Walken numa valsa delirante por entre lençóis estendidos ao luar, um Zac Efron a iniciar os seus primeiros passos como actor e um realizador (Adam Shankman), de quem nunca ouvi falar, mas que sabe muito bem o que faz.
Nos EUA, o sucesso do “Hairspray”, adaptado de um musical homónimo da Broadway de 2002, só foi ultrapassado pelo Grease, Chicago e Mamma Mia.
Se puderem alugar o filme, façam-no. É ideal para uma noite em família.
Há n músicas giríssimas e nem todas estão disponíveis no Youtube. Por isso vi-me mais ou menos restringida a estas duas. Vejam-nas até ao fim porque em ambos os casos há surpresas engraçadas (uma visão do John Travolta quase irreconhecível e a extraordinária mudança de ritmo, na interpretação da mesma música, ao ser cantada por brancos e pretos).
Have fun.
pcp
10 março 2010
Vai um Gin do Peter's?

Em Mily há zero de uma certa melancolia lusa ou de alguma insatisfação anímica, cantada nos fados, onde perpassa uma tensão trágica. Entendamo-nos que esta observação em nada diminui o fado! Apenas se visa sublinhar o estilo admiravelmente radioso dos seus desenhos, de uma leveza flutuante.
Aqui fica este aperitivo para a exposição formidável, patente na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, com pena de não ter conseguido postar também as gravuras espectaculares dos bustos (Desenhos /Estudos académicos).

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
Horário de Segunda a Domingo – 10h00 às 18h00. Encerra à Terça e feriados. Entrada gratuita ao Domingo de manhã: 10h-14h.
(**) Excerto do original da carta, na exposição.
09 março 2010
A Camisola
grande demais para toda a gente,
aparentemente.
Serve para o inverno
e para o verão
e tem de estar sempre à mão.
Se me perguntassem,
eu já sabia,
a minha camisola tinha magia.
É a camisola das memórias,
das cores e dos cheiros,
das viagens e dos pequenos passeios.
É a toalha,
quando calha,
e é a almofada,
quando bem enrolada.
Até de chapéu serviu,
e já fez de cachecol,
aqueceu-me do frio
e tapou-me do sol.
No bolso da frente
dá para guardar
tudo o que quisermos levar,
já guardou o lanche,
dentro dum saquinho,
e houve um dia
em que escondeu um cãozinho.
A minha camisola era
a minha namorada,
até ao dia em que foi emprestada.
Vestiste-a morena
e salgada do mar
sorriste e disseste
para te abraçar.
Cheiraste-me no carapuço
e nas mangas sem fim,
sorriste outra vez
e beijaste-me enfim.
zdt
07 março 2010
Good morning sunshine
“nobody can go back and start a new beginning but anyone can start today and make a new ending”1st must have:
black heels
TdB
3º Domingo da Quaresma
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».
06 março 2010
A esperança de Margarida (cont.)
Gonçalo a rir todos os dias que se seguiram, em que a Rosa ia subindo o tom das ordens que dava, pregava-lhe um beijo na testa e saia com um séquito querido pequenino atrás a fazer barulho. Distribuía-os a todos pelos colégios e finalmente entrava no seu escritório com luzes, cheiros, linhas e cores habituais a todos que andam no mundo por aí cada dia, sempre contente por voltar à sua rotina normal e numa atitude de luta perante todos iguais. Tinha uma empresa crescente de design com um sócio e amigo, o João, com quem costumava jogar squash e almoçar sandes, saladas, sumos e essas coisas sempre saudáveis para eles e para toda aquela geração, menos para a Rosa, claro, que achava que passavam todos fome!
João Freitas era também da Cabreira e ao avô dele era o dono d’A Trombeta, o pequeno jornal semanal lá da terra sempre com notícias das pessoas que lá vivem, do dia em que fazem anos, do orfeão, do fórum e esse género de coisas. As indignações pelas soluções do trânsito, dos prédios que crescem pelos cantos, e assim! Tanto João como Gonçalo lembravam-se amiúde com ternura do velho José Freitas Júnior, avô do João, sempre curvado, pequenino e magrinho, nos últimos anos da sua vida ao volante de um enorme Ford Granada, o carro grande da terra, que veio depois do da Condessa quando este desapareceu da vida da vila. Este Ford era demasiado grande, elegante, sóbrio, austero, snob! Era usado todos os dias para ir de casa para o jornal e vice-versa, também ao fim de anos ainda estava novo e só conhecia as mãos e os pés do Senhor Freitas, sempre respeitador.
A Trombeta eram duas salas no local mais central da vila, se é que isso podia existir, cheias de pastas, papéis e livros. Máquinas de escrever todas abauladas, cheias de design, uma ainda do tempo da guerra; cheiro a pó, a respeito e a seriedade, numa atitude de defesa contra a modernidade! Também o Senhor Lopes lá andava todos os dias, empregado desde não se sabe quando, com o cabelo empastado de brilhantina, gravata sempre preta num eterno luto, mangas da alpaca e uma tristeza sem fim nos olhos. O seu destino era servir o Senhor Freitas, sempre velho de fato com colete, a corrente do relógio preponderante e um ar constante de patrão. A casa dos Freitas, por seu lado, era uma típica moradia de província construída no princípio dos anos cinquenta, com vasos sem ser preciso, porque tinha terra a rodos por todos os lados, rendas em cima da televisão e uma sala de visitas onde nunca se entrava para não sujar os couros, a ceia de Cristo e as pratas pequeninas que a vida foi dando, de comemorações e isso. A Dona Deolinda Freitas, dona de tudo e da serenidade do dia-a-dia, gorda e corada com aventais de flores e folhos, cabelo grisalho apanhado em puxo no alto da cabeça e óculos redondos sobre uma eterna cara simpática, tinha atrás um quintal com hortaliças, galinhas e algumas laranjeiras; tudo ao serviço da sua cozinha. Cozinhar bem, mais do que um ponto de honra, era um destino. A Dona Deolinda fazia parte do grupo de senhoras que todas as semanas lanchavam em casa do Senhor Abade. Mesmo depois da Condessa ter deixado de ir por estar fraca, um terço era sempre por ela, durante meses a fio, entre todas, por todas e no coração de todas.
O imponente Ford do Senhor Freitas veio substituir a grandeza do Pontiac da Condessa pelas ruas da Cabreira de casas toscas e prédios pretensiosos, todos os dias a rolar entre a Vivenda Deolinda e A Trombeta. Às terças-feiras quebrava a rotina pela porta vermelha do Abade Afonso onde descia a Dona Deolinda, sempre com as mesmas recomendações para ir devagar e com cautela, enquanto fechava a porta do carro com uma mão e segurava os bolinhos com a outra. E lá continuava o Senhor Freitas em direcção ao jornal, tipicamente curvado e de chapéu com ar zangado, como que a congeminar contra a vida e a ordem das coisas: as calças à boca de sino, a música que se ouvia aos berros, a guerra do ultramar, o preço das coisas, enfim, um rol de calamidades que tinha a missão de denunciar n’ A Trombeta. Escrevia sob vários pseudónimos para dar uma noção de mundo. Até mesmo a Dona Deolinda tinha a cargo o artigo “Culinária & Lavores” e assinava com o nome de solteira, sempre podia dar um ar mais abrangente! E sim, aquele Ford sempre ajudava a todo aquele ambiente digno, e o Senhor Freitas era considerado pelos seus iguais e respeitado pelos netos que tinha em Lisboa, principalmente pelo João, que adorava as férias da Páscoa em que se divertia à grande com o Gonçalo e em que tinham explicações de português e de matemática com a Dona Domingas, a professora primária da Cabreira tão prestável e ingénua como solteira e beata! As más notas eram mais do que inevitáveis: eram obrigatórias! Tinham um óptimo pretexto para passarem as tarde juntos a andar de bicicleta e a fumar às escondidas. Os lanches de leite e pão com manteiga em casa das avós ou tias ficaram para sempre na memória de ambos.
Já que a pequena casa onde vivia tinha sido herdada dos pais, o único grande investimento que a Dona Domingas tinha feito na vida tinha sido há trinta anos, e resumia-se ao já completamente familiar na Cabreira Simca Étoile branco que tratava com o maior esmero. Todos os dias o viam passar a ir e a vir da escola, sempre com a professora de peito encostado ao volante, com o ar responsável de quem tem na mão a educação de várias gerações de uma freguesia inteira de homens e mulheres de hoje e de amanhã. Viveu sempre com a satisfação de ter feito um bom negócio e trocá-lo estava absolutamente fora de questão, porque o velho Simca sempre se tinha portado impecavelmente bem; nunca a tinha deixado ficar mal, dizia. A professora Domingas também ia a casa do Abade Afonso às terças, claro, e o seu era o único carro que todas as outras conheciam há muito e a quem confiavam os mexericos que não podiam dizer em frente do Senhor Abade ou do sacristão ou de alguma criada enquanto ela as despejava uma a uma em casa de casa no fim do chá semanal. Trinta anos depois mantinha-se com os tampões e os cromados a reluzirem, os brancos sem uma nódoa e o motor equilibrado. Era também o cúmplice da sua solidão e da revolta nunca resolvida de Deus lhe ter levado os pais demasiado cedo, achava, apesar de terem morrido ambos depois dos oitenta. Era também eterno companheiro na sua tristeza de ter perdido um irmão na tropa em África, não por uma bala, mas para uma bifa; que nunca mais tinha dado notícias e que era toda a família que lhe restava, gente da sua gente, sangue do seu sangue. Se calhar tinha por lá sobrinhos e não sabia. Mas também essa era uma dúvida que tinha deixado de ser torturante dentro do seu peito, que tinha acalmado com o tempo e com São Cristóvão, santo da sua devoção e dos viajantes!
Ruth Breiss, uma sul-africana cheia de peito a viver num bairro caro de Joanesburgo, nos seus quarenta e muitos dentro dum saia-casaco cinzento curto, saltos altos e camisa de folhos de seda natural, pernas, decotes e boquilhas muito generosas, fechava os olhos sempre que lhe acendiam um cigarro e contorcia-se numa atitude entre o provocador, o erótico e o vendedor. Em Junho de 71 Joanesburgo era a mesma cidade transpirante de sempre lá fora, a mais parecida do mundo com Nova Iorque, mas em África, e com a força que isso lhe dava, em onda em tesão, no que fosse! No meio dos 20º andar do Hotel President o ambiente era sempre o que acompanha o imaginário de qualquer um, naqueles anos em que se usavam golas grandes, calças à boca de sino e penteados cheios de onda: alcatifas pretas de pêlo alto e maples redondos brancos e roxos, tudo muito fofo e cheio de curvas. Bares com garrafas de cores e espelhos pelos cantos e também cadeiras de verga tipo trono pelos terraços sobre as luzes e a cidade. Mesmo em Joanesburgo toda a gente ainda recuperava da estreia do Laranja Mecânica.
Ruth quando se levantava nestes sítios assim desse género, em reuniões que tinha amiúde, com o queixo para cima e as mãos a abrir em leque, com anéis caros mas discretos, adorava no fim fazer ouvir os fechos vitoriosos da sua mala James Bond, entre engravatados novinhos e desconhecidos de bancos e seguradoras, em que a sua vontade tinha prevalecido de certeza e em que também por certo tinha fechado um negócio extremamente vantajoso para a sua frota de traineiras de pesca ao largo. Pescava, congelava e exportava. Passou os olhos pelos quinze em volta da mesa, todos com olhares de respeito e impotência, e sentiu que nenhum podia atingir o mundo a que pertencia. Desceu ao piso -3 sempre com o queixo ao alto e gostou da sua sombra solene e esguia, da sua postura entre o comum dos mortais e das cores que a sua alma emanava; entre o betão e as tiras amarelas da parede da garagem e todo o universo que desafiava a toda a hora! Entrou no carro, um Datsun absolutamente novo e vermelho, chegado do Japão antes de todos os iguais, e sentiu-se uma vez mais acima de todos, como já ia sendo costume entre os negócios que fechava, a casa que tinha e os amigos que mantinha! Dirigiu-se então ao Blue Train, o restaurante mais na berra naquela época por lá, mas sem saber bem porquê, apenas sabia que era onde era normal ir downtown a meio da semana com a vida toda a correr-lhe bem. As notícias espalhavam-se depressa cidade fora, apesar de ser tão grande, da televisão ainda ser pouco eficiente e de não haver telemóveis! Sentou-se enquanto sorria e cumprimentava alguns presentes com a cabeça, e abriu o guardanapo sem vontade de comer como se o trabalho continuasse sempre. Mesmo assim acabou por pedir sopa fria de caranguejo e trufas, achou que calhava! O que queria mesmo, aqui para nós, era que o empregado giro que rondava se sentasse ao seu lado e lhe contasse uma história, lá da sua terra ou que inventasse, ou ainda fizesse qualquer coisa desde que lhe fizesse companhia pertinho, só para lhe dar calor e ouvir o som mesmo que fosse medíocre da voz dele. Já tinha claro na sua cabeça e em segredo que nada na sua vida lhe fazia sentido, assim sozinha, sem ninguém para partilhar momentos grandes que ia conquistando dia a dia! Podia sempre fazer compras depois nas lojas caras da zona ou meter-se no carro novo que acabava por dominar sempre e era lindo, lindo de morrer. Lindo também era um português do norte, da Cabreira achava, e que conheceu enquanto ele fazia a tropa em África e que nunca mais esqueceu. Sentia ainda os seus músculos e o seu peito a rebentarem camisa e o ar seguro com que a amava completamente! O calor das suas mãos nas costas e nos ombros, a sua cara pelo pescoço e pelo cabelo, as pernas de ambos cruzadas sem saberem onde começavam e acabavam, da maneira como era deitada no chão como se flutuasse. Tinha-lhe tocado completamente para sempre, até aquele ponto em que o seu corpo se confundia com o dele, mixed! Tinha-a feito sentir mulher, pertença de, como ninguém mais o tinha conseguido, até aí e a partir daí. De um momento para o outro nunca mais ouviu falar dele, nunca mais lhe tinha visto o rasto, acabou por se perder, assim de repente, em tempos confusos.
05 março 2010
polaroids de figuras extintas*
a professora sussurrou-nos, dentro da escola primária,
(cheiro a lenha a arder, o aquecimento improvisado que havia)
que nesse dia não irias estar connosco,
que ficaras doente ou a acompanhar a tua mãe
(a memória faz-me escrever viúva, mas a memória não é sempre amiga)
- trabalhos do campo ou lá o que era.
no dia seguinte, voltaste à escola,
frágil como quase todos os meninos e meninas desses dias,
em que fazia frio em todas as casas
(e fome nalgumas, mas tenho vergonha de o escrever..).
voltaste à escola e a professora deu-te as boas-vindas do regresso,
perguntando-te qualquer coisa, em voz alta.
lembro-me, cesário, que te levantaste do teu lugar,
meio metro de gente agarrada a uma capucha que brilhava,
e que disseste assim:
- ontem, a minha mãe fez-me esta capucha,
enquanto me pedia que rezasse um terço por ela.
acho que nunca recuperei dessa frase.
tantos anos depois, décadas sem te ver,
vens-me à memória, uma e outra vez,
tal como essa dignidade que não sei dizer,
tantos livros e tantos discos e tantos beijos depois.
eu sei, cesário, que ontem como hoje,
houve meninos e meninas, naquela sala,
que te esqueceram, que nem repararam
na profunda beleza do que ali acontecera.
eu sei, cesário, que hoje como ontem,
há meninas e meninos, que vão ler estas palavras,
e seguir em frente, encolhendo os ombros e largando um
'que horror, tanto sentimentalismo enjôa..'.
- ontem, a minha mãe fez-me esta capucha,
enquanto eu rezava um terço por ela.
o diabo me leve se há padre-nosso mais bonito, cesário.
* polaroids de figuras extintas (polaroids from the dead, no original) é o título de um livro do escritor canadiano Douglas Coupland (1961-), que usamos aqui com respeito e gratidão.
gi.
04 março 2010
Deixa-me rir...
My favourite song is Ferris Wheels, (unfortunately the video misses the final few seconds), but there are many so that I include also 2 other songs which also have interesting videos, Proof and Over My Shoulder.
Ferris Wheels:
I don't know who i am,
I don't know who you are,
but when i touch your hand
i see shooting stars
i see ferris wheels
curving walls of steel
and light.
A long distance call
over twisted wires,
some lost heart-felt words
caught up on the line.
We speak through satellites
that hang like the stars at night
in the sky.
A proxima,
po
02 março 2010
Berlim

01 março 2010
Pensamentos impensados
só pensou: não `tás mal.
Os grupos excursionistas já passaram um pouco de moda; no entanto aqui vão 2 sugestões para nomes de grupos:
se tiver só um membro poderá chamar-se GRUPO EXCURSIONISTA O MAIS VALE SÓ QUE MAL ACOMPANHADO.
Se fôr composto por preguiçosos será GRUPO EXCURSIONISTA OS SEDENTÀRIOS.
A dança dos 7 veus (Salomé) não tem regras muito definidas; é quase tudo "ad libidum".
Era um fotógrafo de renome mas um dia sofreu um desaire:fotografou a arco-iris a preto e branco.
SdB (I)
28 fevereiro 2010
2º Domingo da Quaresma
Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.
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