22 março 2010

Preguiça

Há, em todos os amores nascidos entre dois quase desconhecidos, um não sei o quê de misterioso, de inexplicável, de impalpável. Podem ser acasos que têm a sua existência no espaço de um instante: dois olhares que se cruzam numa multidão, uma madeixa caída sobre o enigma de um olhar penetrante, um sorriso cúmplice numa monotonia generalizada. Um segundo depois e o mundo já girou, e o que era encanto e fascínio volta a ser aborrecimento e rotina.

Jorge e Odete tinham-se apaixonado um pelo outro sem que ninguém vislumbrasse um motivo, ainda que não tivesse de ser lógico. Encontraram-se pela primeira vez em casa de amigos comuns. Nunca ninguém tinha achado grande graça ao estudante de Filosofia em fase de desenvolvimento de uma tese chamada “Os pecados mortais e o seu enquadramento na sociedade de hoje”. Era um rapaz desinteressante fisicamente, com um cabelo num permanente desalinho, uma roupa pingona à qual era impossível associar uma moda ou uma época, mas não a velhice e o pouco cuidado.

Ela, pelo contrário, era uma mulher bem parecida, assediada em permanência por gente que circulava em carros baixos a velocidades elevadas e conhecia as estância de esqui como uma intimidade que esmagava. Tinha uma figura que se aproximaria da perfeição, e uma cara tão interessante que até um pequeno sinal no queixo suscitava sensualidades inexplicadas. Ninguém percebia a motivação dela, o que lhe suscitara uma centelha de amor

O que vês nele, Odete? Que homem mais desinteressante...

E Odete respondia com oferecendo um sorriso e retendo as palavras.

Era um par improvável, mas mesmo assim um par, porque apareciam juntos em todo o lado - festas, jantares sociais, eventos culturais, premières de filmes. Os transeuntes fixavam-se na beleza dela, na sua frescura, na sua aura. Beleza que parecia maior porque há encantos que não só têm um valor absoluto – Odete era muito bonita, em qualquer lado -como têm um valor relativo – Odete era muito mais bonita do que Jorge.

As marés seguiam as suas rotinas mansas, as estações do ano prosseguiam com uma regularidade de relojoaria suíça, a lua mudava de fase seguindo uma regra milenar. Um dia, Jorge apareceu numa festa e revelou-se um homem elegante, bonito, com uma farpela clássica que lhe assentava como roupa por medida num modelo de elite. As pessoas paravam para olhar, sobretudo para avaliar a mudança que parecia radical: o cabelo bem cortado e penteado, umas calças clássicas e bem vincadas, uma camisa igual à de qualquer príncipe.

O que lhe fizeste, Odete? Está um homem tão bonito...

A rapariga sorria e olhava para o Jorge com um misto de admiração e erotismo.

Posso usar esta expressão porque já a discuti com ele no âmbito da sua tese de mestrado. O Jorge, de facto, teve de se arrepender de um grande pecado. É honesto, correcto, com um feitio cordato e não faria mal a ninguém. Mas comete um pecado mortal – a preguiça.... Nem sempre há gente feia, por vezes há gente preguiçosa. E isso também é pecado?

JdB

21 março 2010

Reconciliação - desejar mudar e mudar mesmo

« Há tanto tempo que não me confesso que já nem sei… já nem sei como se faz! Até parece que mudou de nome, oiço falar de reconciliação… mas a verdade é que até me confesso muitas vezes a Deus e Ele lá sabe…. » Quantas vezes ouvimos este desabafo ou não será um grito a pedir ajuda? E também é certo que vemos muita gente que se vai confessar, com frequência até, e nem por isso tem cara de reconciliada.

Na verdade, de um modo ou de outro, andamos todos longe como “filhos pródigos” a esbanjar e a estragar talentos, bens e relações num novo riquismo próprio da nossa época consumista mas recheada de bolsas de miséria. Fazemos de conta ou fazemos o que queremos, como pensam alguns, achando-se evoluídos sem precisar de perdão nem remissão…. Outros, porém, temem. E, nem uns nem outros, se mostram muito felizes, nem são cartaz de que a coisa vai bem. No fundo, todos desejamos um mundo melhor, mais reencontrado consigo mesmo, com os outros, com a natureza, com Deus.

Façamos um bom Exame de Consciência.

E – porque não – fazer este ano uma grande revisão geral de toda a minha vida? Uma “confissão geral”, como se chamava antes, pode haver razão para a fazer, mesmo que os meus pecados já tenham sido perdoados. Mas não é por isso. É que nos faz bem rever o grande filme da nossa vida, certamente cheio de graças e falhas; mas a proposta, agora, seria revisitar o passado com Deus e não sozinho: ter o atrevimento de convidar Jesus Cristo a ver este filme e vê-lo com Ele e pelos olhos d’Ele. Rever tudo – graça e pecado – com olhos de misericórdia, para de tudo tirar proveito, para descobrir que “o amor é mais forte do que a morte”, que “onde abundou o pecado superabundou a graça”. Então, sairemos mais fortes e perdoados pela mão d’Ele para enfrentar o futuro com renovada Sabedoria e Fortaleza. São esses dois dons necessaríssimos que recebemos numa sincera confissão.

Deus só quer que cada um de nós nasça de novo. E nós – quem não? – queremos ter forças para começar de novo: mais ajustados a Deus, mais capazes de justiça… isto é, reconciliados.

Pego em mim e vou ter com Deus e digo-lhe “Pai pequei contra o céu e contra ti…” ou seja, digo-lhe o que sofro, digo-lhe o que faço sofrer, falo-lhe do egoísmo e da vaidade que me cegam, da impaciência e da mentira com que me justifico, dos desânimos e das consequentes compensações em que caio… Etc., digo-lhe “a vida dura” – e Ele já sabe e por isso me quer dar a mão e o abraço – e atrevo-me a gaguejar “quero ser melhor e parece-me que não sou capaz… sem Ti!” E Ele que é Pai e quer as coisas bem sentidas precisa de um “Padre”, de um instrumento concreto, vivo, para me transmitir a sua força e o seu perdão, através de um sinal eficaz que me ajuda a levantar e a caminhar para que o mal não torne a acontecer. A Absolvição liberta-me e dá-me liberdade.

Mas, Ele precisa de padre? Ele e nós, claro, e por três razões, por ordem de importância: a primeira é de ordem psicológica, pois, me ajuda, a mim, a ser concreto, objectivo e enfrentando-me diante de outro posso aceitar-me sem falsas humildades; a segunda é de ordem eclesial, comunitária, porque tudo o que fiz ou deixei de fazer – as omissões – teve a ver com outros, foi a outros e por isso, a comunidade ofendida deve estar representada e não só imaginada. Por fim, a terceira razão é teológica: é que se trata de ir receber uma força divina, uma graça de Deus que não posso dar a mim próprio. É aqui que está o ponto: não se trata de despejar o saco e de ficar aliviado; trata-se de encher a cabeça e o coração, esvaziados do amor pelo pecado, com a força de Deus, com o seu amor e a sua fidelidade. Confissão é um nome perigoso.

Confessar-me, deitar para fora, posso fazer sozinho, ou como uns dizem, directamente a Deus. Fazê-mo-lo muitas vezes na oração mas, receber a graça, encher o vazio que o pecado deixou, isso tem de me ser dado. Então, reconciliação, sacramento do perdão, são nomes melhores. Na parábola do Pai do filho perdido, não é o filho que abraça o pai, é o Pai que vem abraçar o filho e levá-lo para casa. O filho só cai de joelhos e confessa a sua desgraça e o seu desejo de mudar. É o abraço do Pai que o muda.

Há quem pense assim: eu, primeiro, converto-me e depois faço o favor de me ir confessar e buscar a medalha de bom comportamento. Mas não. Primeiro desejo mudar – arrependo-me – e compreendo que sozinho não sou capaz, declaro-o, confesso-me e peço que me seja dada a graça. Então Deus dá-me o perdom: o dom que me cura e fortalece e orienta. Só então mudo; só então posso mudar de vida.

Nesta peregrinação, a ordem não é pecado confessado – conversão – perdão. É antes pecador arrependido – perdão – conversão. Quem o fizer fica reconciliado, re-encontrado com o seu verdadeiro “eu”, com os irmãos, com Deus e com a criação …

Fico sempre a pensar naquela frase de S. Paulo (Ef. 3, 20) mais ou menos assim: não somos capazes de imaginar o que Deus faria de nós se nós deixássemos.

P. Vasco de Magalhães, S. J.

5º Domingo da Quaresma

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus foi para o Monte das Oliveiras.
Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo,
e todo o povo se aproximou d’Ele.
Então sentou-Se e começou a ensinar.
Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus
uma mulher surpreendida em adultério,
colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus:
«Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres.
Tu que dizes?».
Falavam assim para Lhe armarem uma cilada
e terem pretexto para O acusar.
Mas Jesus inclinou-Se
e começou a escrever com o dedo no chão.
Como persistiam em interrogá-l’O,
ergueu-Se e disse-lhes:
«Quem de entre vós estiver sem pecado
atire a primeira pedra».
Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão.
Eles, porém, quando ouviram tais palavras,
foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos,
e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio.
Jesus ergueu-Se e disse-lhe:
«Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?».
Ela respondeu:
«Ninguém, Senhor».
Disse então Jesus:
«Nem Eu te condeno.
Vai e não tornes a pecar».

20 março 2010

A esperança de Margarida (cont)

Abriram naquele doido amarelo pelas ruas onde antes passavam todos os dias Cristina Onassis e Carolina do Mónaco, pela Avenue Mozart depois pela Victor Hugo até à Étoile onde seguiram directos para o Jardins Elisées, um bar caro de cantoras mulatas com as mesas em espiral, escada em caracol, onde os árabes faziam cair notas sobre quem cantava e o piano de cauda no meio de tudo. Onde o dinheiro ia balouçando pelo ambiente e descendo até ao chão. Aquele ar de riqueza com um pouco de chique e muito de ostensivo irritou solenemente Ângelo, no fundo um serrano que se lembrava bem da Condessa e das senhoras da Cabreira a correrem para a casa do Abade Afonso às terças todas com a noção forte do que era bom e sempre com reservas em relação a almas pequenas, por muito douradas que fossem, mas que não impressionavam, porque eram pretensiosas, eram ocas e faziam rir.

Sobretudo surpreendido ficou com as oito ou dez mulheres ansiosas e pintadas que esperavam Jean num sofá corrido vermelho, a rir e a mexerem-se contentes de o verem finalmente, esperavam o que a noite tinha para lhe propor, com ele num papel de agente profissionalmente assumido! Todas elas lindas, bem vestidas de morrer e a cheirar bem. Queriam mais a companhia de um velho lânguido cheio de vícios e de dinheiro do que um jovem potente manequim a prestar provas semana que vem para Armani, Valentino, Dolce & Gabanna ou Mugler, quem fosse! Parece que todas tinham deixado de sentir, com horizontes confusos e sem noção de sexo, de amizade ou de bem. Eram apenas bonitas, pronto, mas bonitas de gritos, caramba, porra! Não se deixavam perder por um amor, nem por uma paixão sequer; apenas e simplesmente pelo brilho do dinheiro que não as levava nunca a lado nenhum, mas ainda não tinham percebido isso, coitadas delas, e quando se apercebessem já seria tarde com certeza!

Ângelo pensou em Deus, passou os olhos por todas aquelas pequenas giras e boas sem rumo, pensou em si e no que tinha construído; e que lhe sabia a nada, a escuro ou a vácuo, qualquer coisa dentro desse conceito. Passou a mão pela cara e levantou as sobrancelhas, preocupado consigo, com o seu destino e com o seu cansaço. Queria qualquer coisa que não era de certeza aquilo que lhe tinha ofuscado os olhos toda a vida; se calhar era apenas agarrar alguém, mesmo sem sexo definido, pela cintura e pedir que partisse consigo para o cimo de uma montanha a sentir que não eram dois mas apenas um, sentir que os silêncios não eram pesados e que se podiam rir das mesmas coisas, deslumbrarem-se com as mesmas cores e com horizontes rasgados. Aquele champanhe era realmente bom, enfim, mas o que pensou estava certo, sabia-o desde sempre! O que o tinha feito ir com um circo estrada fora atrás de um dia sem destino, quando pensou que o mundo não tinha fim, e se calhar não tinha; e o que centenas de Ruths não tinham tido coragem para abraçar durante a vida; era uma constante, um peso, uma perseguição, uma maldição que parecia acompanhá-lo sempre, porque afinal via que nunca tinha chegado a lugar nenhum. A noção geográfica antes da de serenidade pesava-lhe em grande! Nem sentia os toques de cotovelos, de joelhos e de dedos daquelas queridas todas à volta dele! Estava bêbado era o que era, mas feliz, claro, com as luzes, as cores, os sons, os risos, os copos e os cigarros, mais uma vez na sua vida por aí no mundo! E o Nissan continuava como se a noite fosse toda só para ele nas ruas, pelo empedrado e pelo cimento dos passeios, pela noite de Paris. Ângelo e Jean, Sabrine e Nicole, se se tivessem enganado nalguma delas não fazia mal nenhum! Eram daquelas caras que não se decoram. Espremiam todos a adrenalina e os seus próprios corpos até às olheiras profundas. Haveriam de prestar contas sempre no dia seguinte quando acordassem com o peso do mundo na testa e gente estranha na cama enquanto abriam os olhos e vislumbravam algumas luzes dum infinito qualquer por entre as brechazinhas da persiana, com o barulho e a vida a correrem indiferentes lá fora na rua, os fumos dos carros, as vozes das pessoas, os pios dos pássaros e o vazio simplesmente.

A pachorra do dia seguinte conquista-se a punho! É despachar quem está a mais entre lençóis tipo “vai lá e apaga a luz antes de saíres” e tentar depois continuar a viver entre uma cerveja ou antigas receitas de tias velhas para a ressaca, com gemas de ovo, molho inglês e sal que fazem um cristão vomitar até à última. Se, por outro lado, a tal receita for com pozinhos e coisas menos claras para o nariz e para o estômago de alguém num estado assim lastimável, é porque se está nas mãos de estranhos esquisitos, nada cristãos, e mais vale continuar ressacado com sabor a cabo de guarda-chuva na boca e um paralelo de calçada na testa. Mas, profundamente cansado como se sentia, já nada espantava Ângelo, não cansado de noitadas, mas da vida e da procura que não sabia ao certo identificar.

Depois da tal temporada no Olympia, arranjou emprego num casino. Não como “O Maior Mágico do Mundo vindo directamente da América do Sul”, mas no bengaleiro. Arranjou também um pequeno apartamento confortável e modesto com vista para centenas de varandas com roupa a secar para os lados de La goute d’Or e viu-se com muita pouca vontade para sair à noite em esquemas com Jean Paul ou com amigos mais ou menos que ia conhecendo. Espantava-se com a sua capacidade vinda não percebia de onde para tratar da roupa e do pequeno-almoço a qualquer hora que fosse, para ir trabalhar ou apenas para sair e sentir o ar do fim da tarde na cara. O seu T1 era limpo e arrumado, cheio de coisas no frigorífico, tipo iogurtes, patês, fiambre e coisas congeladas. Passava os natais com Jean Paul e com loiras flamejantes, sempre diferentes, a rir e a beber, mas isso era inevitável com um comparsa assim e sozinho, completamente sozinho algures no mundo, como se sentia, sem o cheiro da serra, as recomendações da Domingas para ir à missa e as discussões aos gritos sobre futebol pelas tascas da Cabreira.

Um dia, sem lhe parecer rupturante, fechou as duas malas que tinha, deu um beijo enorme a Jean e partiu numa camioneta de emigrantes para trás de todos os montes, Europa fora entre milhares de sacos vazios que passadas semanas tornariam cheios de azeite, de bacalhau e de vinho. Ele, pelo que lhe dizia respeito, não voltaria. Confiava na sua sorte quase inabalável, o que não foi fácil, porque quase dois dias de viagem enlatado entre berros de bêbados, guinchos de criancinhas e cheiro a frango, pó e sopa, com um calor insuportável e uma velha gorda ao lado a querer sempre conversar, acabam por abalar a fé de qualquer cristão!

Assim, quando a camioneta parou e ele desceu na Praça do Conde de Vivalma, a maior da Cabreira, a meio do dia e do calor, pôs as malas no chão e respirou o mais fundo que pode. Os cafés, os correios, as lojas, tudo estava mudado, mas eram-lhe completamente familiares as linhas, as cores, os cheiros! Os toldos com reclames da Super Bock e o sino da igreja a chamar para a missa da tarde! As mulheres a escolherem fruta na mercearia do Quim Aldrabão e a Câmara com a bandeira nacional, sempre solene. Mas Ângelo já contava com esta avalanche de emoções, por isso tinha voltado com uma sensação estranha de conquista e com uma enorme serenidade dentro de si, já se sabe. Foi logo para casa da Domingas com ar firme, mas humilde, e bateu à porta, hesitante, sem medo. Para ela foi uma chatice ouvir a campainha, porque era terça e já estava atrasada para ir para casa do Senhor Abade. Quando a professora abriu, curvada e com os óculos na ponta do nariz e viu um homem desconhecido, assustou-se até conseguir reconhecer o sorriso do seu pai na cara de Ângelo e, sem dizer uma palavra, sentou-se no chão a chorar. Ângelo chegou-se ao pé do braço dela, levantado e a tremer, com a intenção de tocar-lhe com o indicador no nariz, nos olhos, no cabelo e nos dentes, sempre sem conseguir falar. Sentiu-lhe o cheiro, mas não ouviu o som da voz dela, apenas soluços e o sabor salgado de lágrimas. Uma cena lancinante foi o que foi! A partir daí a vida de ambos mudou. Ângelo não tinha voltado, tinha ressuscitado e calmamente foi-se embrenhando na vida da professora e da vila.

19 março 2010

polaroids de figuras extintas

#3 - filipe

anos a fio, colegas de carteira e de malandrice inocente,
amiguinhos pequeninos com queda para a esperteza matreira,
mas sem ponta de maldade.

anos depois, na vida adulta, tudo importa, filipe - tudo importa.
por isso mesmo, é importante escrever 'sem ponta de maldade',
porque a poesia nem sempre é justa,
mas as mais das vezes a justiça é razoavelmente poética
(só em Portugal é que não, eu sei, mas se vamos por aí,
nunca mais acabamos o poema..).

crescemos, jogámos futebol, catrapiscámos as meninas,
- uma vez, até a mesma, se bem me lembro.
coisa linda esses nossos dias.

mais tarde, divergimos, como quase sempre acontece,
há milhares de livros a explicar a isso.
nunca li nenhum, por dandismo ou coisa assim.

mas, dizia, divergimos, quando os gostos, a cosa mentale,
começam a fazer da suas.
passámos então a ser colegas, companheiros,
mas não mais os preferidos um do outro.
(lembra-me outras coisas, mas adiante.)

mais uns anos passaram, lembras-te da ânsia de lá chegar?
e chegámos, mas o carro não parou, continuou, seguiu viagem,
para nosso espanto e, voilá, disfarçado terror.

tudo importa, filipe - tudo importa. também o terror, como verás à frente.

era fim-de-ano, ainda a juvenília imperava com as suas cores garridas.
na festinha de aldeia, bar do júlio alugado pela comissão de festas possível,
encontro-te à porta, sob a ombreira, mas mais ainda sob aquele céu de chumbo
que a noite beirã por vezes comporta.

estavas bebido, muito. eu estava bebido, um pouco.
anos de intervalo pelo meio e lembrar o que, já nessa altura, havíamos sido.
de repente, sem perceber bem,
abraçaste-te a mim e desataste a chorar convulsivamente.

os passantes, poucos, amigos e ébrios, diziam de nós
'mais dois bêbados! que rica festa! isto está porreiro, pá!',
movidos a cerveja e bebidas espirituosas baratas, decerto.
movidos a juventude e inconsciência, talvez.

mas só tu e eu é que sabemos,
que às 00h01 do dia 1 de Janeiro de um ano qualquer,
nos braços um do outro,
descobríamos aterrorizados
que falháramos ambos a vida.

tantos anos depois, tanta coisa depois, filipe,
e os dois amiguinhos de carteira de escola,
perceberam que

tudo importa. tudo importa.

e que nada mais importa.

(só o terror. e, em dias claros, o amor.)

gi.

18 março 2010

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I offer a group which until last week I had never heard but which I immediately liked.
Midlake, I discovered, are a Texas band who only came to be noticed in 2006 with an album called Trials of Van Occupanther.
They originally were jazz musicians but claim to be influenced by early 1970s classic/progressive/folk rock bands such as Jethro Tull and King Crimson and also by contemporary artists like Radiohead.
Personally, on certain songs I also hear very definitely the distinctive guitar sound of Fleetwood Mac around the time of Rumours, and the lead singer reminds me of Rufus Wainwright and Neil Young.
More than this it is too soon for me to say, but I present two songs, from their new album The Courage of Others, which so far have made for me the most impression, and hope that you may enjoy:



Acts of Man:
If all that grows starts to fade, starts to falter
Oh, let me inside, let me inside, not to wake
Let all that run through the fields, through the quiet,
Go on with their own, on with their own hidden ways

When all the newness of gold travels far from
Where it had once been,
Worn like the earth over years,
And when the acts of men
Cause the ground to break open
Oh, let me inside, let me inside, not to wait

Great are the sounds of all that live
And all that man can hold


Rulers, Ruling All Things:
I have been cruel and kind without knowing
I fell into silence overwhelmed by these days
For I had been shown empty rulers, ruling all things
Thinking the world was mine to lay hold of
I breathed in the promise of maiden and man
But each had their own illusions to hold on to

I only want to be left to my own ways
The rulers have won leaving all things undone
I've stood in awe of the whole creation
Gathered among them was the morning
Giving all it's rest

Thinking the world was mine to be lost in
I ran with freedom and sang in between
For I have the path of wonder
There before me


A proxima,
PO


17 março 2010

Pensamentos impensados

Quando falamos de energias renovaveis será que estamos a falar de "doping"?

A ASAE e a Brigada de Narcóticos apreenderam o Auto de Mofina Mendes, de Gil Vicente; pensaram que era Morfina Mendes.

O acto de se ver através duma lupa diz-se lupanar.

Ausência total de caco
Como depois se provou
Quem foi o grande velhaco
Que descobriu o tabaco
E que o mundo forNICOT

SdB (I)

Good morning sunshine

"No matter how long or how hard you shop for an item, after you've bought it, it will be on sale somewhere cheaper"


2nd Must Have:
A little black Dress

(É só uma lista do que acho que o armário de uma mulher deve ter; agora as marcas já variam conforme o que cada um gosta ou ganha. Por exemplo, os estagiários só se dão ao luxo de comprar na Modalfa ou na Zara em dias de festa...)

TdB

16 março 2010

Ao luar

Todos na região o conheciam. Uns pessoalmente, outros pelos rumores que se murmuravam sobre ele, e alguns apenas por ouvirem as suas fúrias, cujos gritos assustavam quem passasse à sua porta. Famoso pelo seu temperamento, geralmente mau, e pelo seu génio, muitas vezes também com o adjectivo anterior. Era compositor, e como muitos outros saía de noite para procurar a inspiração que teimava em fugir.

A ela, ninguém a conhecia. Ninguém falava dela, ninguém olhava para ela na rua, e ninguém a ouvia quando pedia uma moeda para um pão. Era cega de nascença, e essa condição tinha-lhe trocado muitos dos pequenos prazeres da vida por pesadas amarguras. Um desses pequenos prazeres foi o de não poder ver a lua cheia sobre o lago vizinho. Foi uma cruel partida que a vida lhe pregou. Deu-lhe uma cama com uma vista aberta sobre o lago, mas tirou-lhe os olhos que a podiam ver.

Foi num desses pequenos passeios nocturnos que ambas as personagens se encontraram. Ela, enfezada e encolhida num canto, ouviu-o a aproximar-se. Já o tinha ouvido passar várias vezes durante a noite, e identificava-o sempre pelas melodias que trauteava pelo caminho. Decidiu pedir-lhe, em vez da habitual esmola, que ele lhe tocasse a vista que a cegueira lhe havia roubado.

E foi esse pedido que lhe devolveu a inspiração que teimava em fugir. Correu para casa, sentou-se ao piano, e de lá saiu uma imagem para o reflexo da lua sobre o lago que vale mais que mil palavras.

SdB (III)

15 março 2010

Avareza

Pouco havia em Celeste que se diferenciasse da generalidade das mulheres. Tinha uma altura média, um beleza corrente, umas mãos equilibradas e de uma elegância quase corriqueira, um cabelo castanho muito claro que não se destacava por nada. No entanto, era dona de uns olhos azuis claros – claríssimos, mais precisamente – quase como se Deus quisesse que se assemelhassem ao Céu ou se a natureza tivesse olvidado um pouco mais de cor naquela transparência. Eram de uma estranha beleza – talvez pela sua raridade.

Num dia de Março, a tarde punha-se num calor manso enquanto o sol se escondia por trás dos prédios ao longe. Celeste cruzou-se no escritório com Ricardo Pires, o novo director financeiro, um profissional alto e esguio com umas mãos nervosas e um olhar irrequieto por trás de uns óculos sem história. Era o primeiro encontro

boa tarde, como tem passado
bem muito obrigada, senhor doutor

e o homem dos números não disfarçou o fascínio por aqueles olhos que eram de uma transparência tal que se poderia ver a alma através deles. A fixação era quase incomodativa, não fosse a Celeste ter sentido um ligeiríssimo aumento do batimento cardíaco, fruto daquelas coisas que a ciência não explica e a experiência chama nomes diferentes.

Alguns meses depois cruzaram-se num centro comercial, ela com um conjunto novo de atoalhados adquiridos em oportunidades imperdíveis, e ele com o Eurico o Presbítero debaixo do braço, numa edição anotada e antiga. Já se conheciam bem e o convite

Posso convidar-te para jantar, Celeste?
Claro, gosto muito

surgiu natural e esperado, como quem não se espanta com o pôr-do-sol ainda que se deixe fascinar por ele.

O Dr. Ricardo Pires revelou-se um conversador nato, culto, com um mundo extenso vivido fora das paredes de um escritório e da secura desinteressante dos gráficos, e citou Herculano

10 anos... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar 10 anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e depois desfechar do céu nas profundezas do nada?

antes de a brindar com um fetuccine de mexilhões que perfumou com um xerez superior e com umas ervas aromáticas numa precisão de alquimista.

Entre adultos pode haver um momento, um instante, um ponto – talvez se possa chamar de não retorno – que separa o afastamento físico e a proximidade. Transposta essa porta - que é um levíssimo roçar de mãos, o contacto dos corpos numa passagem estreita, dois olhares que se fixam na embriaguez de um desejo – não há regresso possível e a expressão

há-de ser o que Deus quiser

é uma frase não descartável no domínio das possibilidades audíveis.

No dia seguinte, Celeste bebericava uma tisana com os olhos postos num folha diferente das oportunidades imperdíveis. Sabes Adília,

e a Adília a abanar a cabeça a garantir que sim, que sabia

há mais para além do sentido vulgar que damos às coisas, das definições a que fomos habituadas ao longo de séculos sem fim. Agarramo-nos a conceitos,

e a Adília num constante vaivém de cabeça, que sim, que sabia

mas nem tudo é assim. O que achei do Dr. Ricardo Pires? Um homem culto, que cozinha como ninguém, que tem um olhar irrequieto e viajante. Um homem à sua maneira sedutor. Mas, na escuridão de uma cama larga e à luz de uma vela ténue, revelou-se. E sabes o que achei?

e a Adília a responder que sim, que continuava a saber

Naquele quarto rico e bem decorado achei-o um homem avaro. Avareza, foi a palavra que me ocorreu. Não a do dinheiro ou dos bens materiais, como aprendemos. A ausência da generosidade física, da retribuição da carícia, do altruísmo sensual. Avareza, Adília. Avareza. Isso também é pecado?

JdB

14 março 2010

4º Domingo da Quaresma

De tanto chamar a Deus, “Senhor”, (e não deixa de o ser, mas certamente é “Senhor à sua maneira” e não à nossa!) podemos esquecer o nome mais belo que Jesus nos deu. O nome, “Pai”, que Jesus exprimia em aramaico: “Abba”, “Paizinho”! É com ele que Andrei Tarkovski termina o belíssimo filme “Sacrifício”. Jesus não queria que olhássemos para Deus como um rei, um senhor ou um juiz. Esses títulos evocam superioridade, exigem obediência e submissão, reclamam o cumprimento de deveres. Pai implica relação, intimidade, descoberta e amor.
É uma maravilha o pai desta parábola. Não pensa em si e não se ofende quando o filho mais novo o trata como “morto” e lhe pede a sua parte da herança. Espera-o e comove-se ao vê-lo ao longe, renunciando a toda a compostura para o abraçar e beijar. Devolve-lhe a dignidade de filho e prepara-lhe a verdadeira festa onde a alegria supera em muito as anteriores diversões e prazeres. Não pede contas dos bens esbanjados nem castiga os seus desvarios. Tudo parece pronto para um final feliz.
Mas uma sombra vem obscurecer esta felicidade. O irmão mais velho fica ressentido. Ele, que sempre tinha cumprido tudo, revolta-se com o excesso de generosidade do pai. Não era justo. Os seus méritos não eram reconhecidos. Não faz sentido desbaratar mais bens com aquele que tanto desperdiçou. Sem se dar conta, dentro de si, o dever tinha morto o amor. Por isso, trata o pai como um senhor, e o irmão como um estranho.
Mais uma vez, o pai é surpreendente. Sai de casa, ouve o filho e procura reacender nele, de novo, o amor apagado. Está sempre a caminhar este pai! A ir ao encontro dos filhos perdidos. Um perdido na distância, outro na proximidade; um na desobediência, outro no dever. Que frase tão bela diz ao filho mais velho: “Tu estás sempre comigo”! E insiste na necessidade da festa. Como que para nos dizer que todo o perdão é uma festa, e que nem a teologia, nem o direito canónico, nem a catequese, nem a liturgia podem esquecer isto. Trazemos um pouco dos dois irmãos na alma? Umas vezes um, outras, o outro? E do pai, o que transparecemos? A casa do Pai, que também acredito ser a Igreja, produz a memória feliz que alimenta a esperança de um regresso? Com que alegria e projecto de crescimento acolhemos? Que disponibilidade criamos para fazer festa? É muito difícil dizer “Pai” simplesmente por dever!

P. Vítor Gonçalves


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os publicanos e os pecadores
aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’.
O pai repartiu os bens pelos filhos.
Alguns dias depois, o filho mais novo,
juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante
e por lá esbanjou quanto possuía,
numa vida dissoluta.
Tendo gasto tudo,
houve uma grande fome naquela região
e ele começou a passar privações.
Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra,
que o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele matar a fome
com as alfarrobas que os porcos comiam,
mas ninguém lhas dava.
Então, caindo em si, disse:
‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância,
e eu aqui a morrer de fome!
Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe:
Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho,
mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.
Pôs-se a caminho e foi ter com o pai.
Ainda ele estava longe, quando o pai o viu:
encheu-se de compaixão
e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos.
Disse-lhe o filho:
‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos servos:
‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha.
Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o.
Comamos e festejemos,
porque este meu filho estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’.
E começou a festa.
Ora o filho mais velho estava no campo.
Quando regressou,
ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
O servo respondeu-lhe:
‘O teu irmão voltou
e teu pai mandou matar o vitelo gordo,
porque ele chegou são e salvo’.
Ele ficou ressentido e não queria entrar.
Então o pai veio cá fora instar com ele.
Mas ele respondeu ao pai:
‘Há tantos anos que eu te sirvo,
sem nunca transgredir uma ordem tua,
e nunca me deste um cabrito
para fazer uma festa com os meus amigos.
E agora, quando chegou esse teu filho,
que consumiu os teus bens com mulheres de má vida,
mataste-lhe o vitelo gordo’.
Disse-lhe o pai:
‘Filho, tu estás sempre comigo
e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e voltou à vida,
estava perdido e foi reencontrado’».

13 março 2010

A esperança de Margarida (cont)

Chegou a casa cedo pela tarde e buzinou para cumprir um ritual estabelecido: Philip, o seu filho querido pequenino de um pai qualquer, francês para aí, se houvesse bancos de esperma era onde tinha recorrido com certeza, mas pronto foi o que surgiu, corria a rir para os seus braços sempre sólidos mas não muito presentes, com a ama nervosa atrás com ar preocupado. Era a Philip que competia todos os dias guardar o carro na garagem pelo caminho do jardim não muito longo mas sempre generoso entre grama e canteiros, ao colo da mãe que o ia enchendo de beijos e de festas. Entre eles sabiam que estavam perto do que mais forte havia na vida de ambos; entre os carrinhos match box de Philip por um lado e os brokers da Bolsa de Valores onde Ruth se mexia por outro. Entraram em casa a rir, com Philip agarrado ao pescoço da mãe e sentaram-se no balcão da cozinha a beberem Coca-Cola e a prepararem hambúrgueres com molhos de cores gritantes sob o olhar reprovador da ama com as mãos atrás das costas. Depois de Philip se ter deitado, Ruth entrou na sala, tirou os sapatos e os brincos e agarrou a alcatifa com os pés. Pôs um disco do Fausto Papetti e sentiu fortemente, em frente das portas de vidro que davam para o jardim, como todos os dias, a enorme solidão que morava no seu peito. Deitou-se na mais fria, longínqua, branca e áspera das camas!

Num dos sábados seguintes foram ambos ao circo conforme prometido, com Philip sem mais mãos para pipocas, latas e balões. Sentaram-se, pouco depois as luzes apagaram e começaram os palhaços, que aos olhos de Ruth eram como desenhos animados; depois os trapezistas e os equilibristas; as meninas loiras com plumas no rabo em cima de elefantes e tudo mais que o circo dá! Quando entrou Ramón, El Grande, “O Maior Mágico do Mundo vindo directamente da América do Sul”, Ruth não queria acreditar no que estava a sentir e o seu coração começou a bater descontrolado! Depois de uns momentos de dúvida; será não será; ficou com a certeza que apesar dos anos não podia deixar de se tratar do soldado Ângelo, número não-sei-quantos da Cabreira, aquele irmão perdido da Dona Domingas que tinha sido o homem mais marcante que tinha passado pelos seus braços, omnipresente no seu dia-a-dia e na sua intimidade.

O olhar de Fellini sobre o mundo era realmente do mais simples que havia, afinal! O ar sólido que mantinha não deixava margem para dúvidas! A alma dele muito para além do corpo que habitava abraçou ternamente o espírito de Ruth quando entrou no palco seguro de que nada durante o espectáculo iria correr mal. Era ele completamente, e apesar de todos aqueles anos, reparou que continuava a deixá-la fora de si, com acessos de suor e sem defesas para olhar em frente. O cheiro, o tom da pele, a maneira como mexia as mãos, regressaram a si no minuto em que o viu, dentro de um smoking sob holofotes, a tirar coelhos do chapéu e a serrar meninas todas brilhantes ao meio. No fim, sem querer e sem saber porquê, viu-se com Philip pela mão a bater com os nós dos dedos e a tremer, à porta do furgão que servia de casa a Ramón ou a Ângelo, tanto fazia. Tinha sido desde sempre o seu homem, para sempre! Quando ele abriu a porta de t-shirt branca o mundo caiu e Ruth viu estrelas, cavalos a correr, bombas atómicas a explodir. Ia dizer alguma coisa, mas só viu o sorriso e os braços dele para cima, onde se perdeu por uns minutos. Afinal era claríssimo para si que não queria mais nada no mundo, apenas aquele calor!

Combinaram então jantar em casa dela essa noite. Foi logo a correr Datsun fora tratar de tudo e com uma inexplicável vontade de dar um ar de solteira a todo o ambiente geral! Pôr o Philip na cama e arranjar a mesa com copos altos, velas, frutas e essas coisas! Pôs também um vestido preto e justo com elastano de modo a que se sentisse apalpada sempre que se mexesse; chegar um frasco de perfume atrás das orelhas, enterrar os dedos no cabelo para soltar a laca e partir à abrir quando a campainha tocasse, e tocou! Correu para a porta enquanto calçava uns sapatos de tacão alto. Ângelo entrou, enorme no seu peito, tirou o casaco, deu-lhe um beijo forte e ela irritou-se com a sua própria insegurança diante aquele sorriso provocador com qualquer coisa de erótico até, dum cheiro que a fazia sentir pequenina e duma voz que não a deixava falar. Era impressionante como estava, quer quisesse quer não, nas mãos daquele homem mágico, artista de circo, de um nível social e cultural indefinido, mas que apenas com a sua presença conseguia fazê-la sentir totalmente mulher, com desejos de ser possuída, controlada, propriedade de! Assustava-a o facto de ser tão claro que por ele abandonaria tudo, e que o que mais queria era esperar tempos a fio o seu regresso à noite de cada dia para uns minutos de amor que de certeza a tornariam na mulher mais feliz do mundo. Momentos que a fariam sentir amada, desejada, protegida, única. Instantes que o seu mundo de escritórios, de reuniões, de compras e de mãe não lhe dava! Por tudo isso foi inevitável que as velas naquela noite ardessem até à última, o jantar ficasse frio na mesa, e Ruth entrasse no seu quarto ao colo de Ângelo aos beijos, com o mundo lá fora e bem longe. É óbvio que com a luz da manhã seguinte era-lhe impossível pensar sequer em partir com ele estrada fora, circo dentro, por isso restou-lhe nos meses seguintes apenas a sensação de ter sido bem amada uma vez mais.

Passados anos a deambular pelo mundo, aqui e ali, Ângelo viu-se aterrar em Charles de Gaulle, finalmente numa temporada muito esperada por ele no Olympia; e logo no aeroporto conforme combinado, esperava-o Jean Paul, um velho amigo de farras que já tinha tido um número de tigres, mas agora contentava-se com um de pombas amestradas porque já tinha aprendido a ganhar dinheiro com mulheres e com a noite. Jean Paul já com a cabeça cheia de esquemas para os dias que se aproximavam, com os óculos escuros e brilhantina, casaco de couro e brinquinho, pôs a mala de Ângelo no banco de trás do seu Nissan 200 SX amarelo, todo quitado, enquanto se riam alto, contentes de se verem e de estarem juntos. Era bom aquele vento depois de sair do ar comprimido do avião!

Mitterrand era o novo presidente e não era Paris que era deles, era o mundo todo! A solidez de Ângelo assentava nas Ruths que ia deixando pelo mundo; na Domingas que estaria eternamente na Cabreira; e nos amigos como Jean Paul que estariam sempre a esperá-lo pelos aeroportos e estações. Gostavam da vida de ambos, acreditavam e contavam completamente consigo próprios e riam-se às gargalhadas enquanto o bólide amarelo galgava passeios e passava por sentidos proibidos em direcção ao pequeno apartamento de Jean, perto da Porte d’Auteil. É sempre muito forte a sensação de estar com amigos às duas da tarde em cuecas, a beber champanhe e a falar de mulheres que vão passando, dos contratos que vão conseguindo e da barriga que vai aparecendo. Há uma linguagem comum nas casas dos homens solteiros, mundo por aí: revistas aos montes na casa de banho, meias a secar no micro ondas e embalagens abertas de comida chinesa estragada no frigorífico, por isso nada parecia estranho a Ângelo, apenas a porcaria do telefone que não parava de tocar. Tomaram banho, estilaram-se e saíram para jantar.

12 março 2010

polaroids de figuras extintas

#2 - carlos

sabes, carlos, hoje, em que te avisto daqui,
és-me muito mais próximo do pudeste ser outrora,
nos estádios improvisados da nossa infância,
junto à escola, marcados na nossa imaginação
como os mais perfeitos estádios de futebol.

'olha o macaco!', riam-se os petizes, enquanto
te lançavam as imprecações violentas
que a idade ainda desculpava.
'olha o macaco' era a expressão, carlos,
com que te crismaram,
padres de tenra idade,
a treinar em meninos,
os homens que viriam a ser,
caça grossa e pontaria,
toda a colossal brutalidade
de que seríamos capazes.

esse 'macaco', que eras tu para eles,
(que digo, para nós..),
entrava em campo e,
talvez fome de bola e falta de jeito,
talvez fome de outras coisas
que tentarei não escrever aqui
à frente de ti e de todos,
entrava em campo e
chutava para todos os lados,
na primeira direcção que o pé,
desajeitado mas potente,
era capaz de negociar com a bola.

não te percebíamos, na altura,
e nunca te percebemos, acho eu.
mas hoje, em que te avisto daqui,
penso no quão certo tu estavas,
infalível na brusquidão da força,
impassível na violência do remate,
intocado pelos dichotes da miúdagem,
- como um sísifo sem patine ou caução histórica.

tentavas o teu melhor, à tua maneira, provavelmente.
sabias que não nasceras com sorte, talento ou fidalguia,
o que dá sempre jeito e vantagem.
por isso mesmo, tentavas ser energia pura,
uma possibilidade, instinto em combustão,
bestialidade humana, na ponta do sapato que ardia.

hoje, carlos, 'macaco' que foste,
estejas onde estiveres,
vivo ou morto como eu,
peço-te que me desculpes.
e que do alto do sítio de onde agora me avistas,
percebas
que hoje eu, como ontem tu,

tentamos apenas não desistir,
fazer o melhor que sabemos,
apesar de sabermos que sabemos tão pouco.

gi.

11 março 2010

Deixa-me rir...

Adorei o filme “Hairspray” (não gostando nada de musicais). Não sei se o viram, se passou cá em Portugal. Vi-o em Londres em 2007. É absolutamente brilhante do ponto de vista musical, coreográfico, de montagem, de ritmo … e no que transmite de boa disposição. Lembro-me de ter sorrido (e rido) do princípio ao fim do filme. Saí da sessão da noite com uma energia sem limites, com uma sensação de alegria e de gosto pela vida como não me lembro de alguma vez ter sentido ao abandonar um cinema.

Tudo se passa em Baltimore, EUA, no ano de 1962, por altura do aparecimento dos concursos televisivos. Não me lembro dos detalhes da história, confesso, mas sei que as questões do racismo e do corpo são a base do filme. Tratados, obviamente, da maneira mais ligeira possível.

Racismo porque tudo se passa numa comunidade tradicional e preconceituosa em que o “black power” se encontra em processo de afirmação (e ascenção) através da música, da dança e de uma cultura própria (não esqueçamos que se viviam os dias das conquistas de Martin Luther King). São também abordadas questões da imagem e do corpo, duas das grandes problemáticas do século XX, alimentadas à exaustão pela mítica Coco Chanel nos anos 20: ser magra é ser gira, sexy, chique e ter sucesso. Ser gorda é o oposto. Neste filme temos uma (espécie de) líder dos negros que é grande, poderosa e imponente (Queen Latifah) e uma actriz principal baixinha, gordinha e com pretensões a ganhar um concurso de dança muito popular, no qual participa também uma jovem loira, magra e atractiva, cuja mãe, a maquiavélica Michelle Pfeiffer, é esquelética e podre de chique. Adivinhem quem triunfa no fim do filme?!

No meio disto tudo vemos um John Travolta travestido de mulher, um Christopher Walken numa valsa delirante por entre lençóis estendidos ao luar, um Zac Efron a iniciar os seus primeiros passos como actor e um realizador (Adam Shankman), de quem nunca ouvi falar, mas que sabe muito bem o que faz.

Nos EUA, o sucesso do “Hairspray”, adaptado de um musical homónimo da Broadway de 2002, só foi ultrapassado pelo Grease, Chicago e Mamma Mia.

Se puderem alugar o filme, façam-no. É ideal para uma noite em família.

Há n músicas giríssimas e nem todas estão disponíveis no Youtube. Por isso vi-me mais ou menos restringida a estas duas. Vejam-nas até ao fim porque em ambos os casos há surpresas engraçadas (uma visão do John Travolta quase irreconhecível e a extraordinária mudança de ritmo, na interpretação da mesma música, ao ser cantada por brancos e pretos).

Have fun.




pcp

10 março 2010

Vai um Gin do Peter's?

Na Casa gira do jardim das Amoreiras, onde as paredes das salas estão revestidas com as telas do casal pintor – Mª Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes – inaugurou uma exposição temporária(*) de outra pintora, amiga dos anfitriões: Mily Possoz (1888-1967).

Mily (Emília) era filha de pais belgas, mas começou a sua vida em Lisboa, antes de deambular por Paris, Bruxelas, Düsseldorf, Holanda, para aprofundar os estudos de Belas-Artes. Diferentemente de Vieira da Silva, voltou para Portugal, vivendo entre a capital e Sintra, de forma fixa a partir de 1937. Nos últimos vinte anos de vida, esteve hospedada no Hotel Tivoli, onde pagava em telas, quando havia falta de liquidez… Actualmente, o Hotel guarda um dos maiores espólios da pintora.

O seu talento – integrando o Primeiro Modernismo Português – foi cedo reconhecido, catapultando-a para a ribalta. Almada Negreiros teceu-lhe elogios rasgados! Logo em 1924, publicou um desenho na revista Athena (nº 2) com uma dedicatória muito eloquente: «Para Mily Possoz, o melhor desenhador portuguez do meu tempo.» (sic, Almada). A partir da década de 30, os seus desenhos, gravuras, óleos enchem a paisagem lisboeta e até portuguesa. Quem tenha feito a primária, antes do 25 de Abril, reconhecerá nas gravuras do Livro da 2ª Classe o traço muito rico e feliz de Mily. Na grande Exposição do Mundo Português (1940), a pintora modernista encarregou-se de inúmeras decorações, que agora se podem apreciar nos estudos para o Biombo japonês.

Talvez a temática pueril – com meninas, flores, gatos e ambientes saídos de contos de fadas – por um lado, e o gosto pelos trajes regionais portugueses, por outro, a tenham tornado numa ilustradora apetecível para o SNI. O facto é que a artista se evidenciou no antigo regime e hoje parece votada a um certo esquecimento, ficando-se pelo acervo distribuído pelo Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Hotel Tivoli e colecções particulares.

Percebe-se que, sobretudo a partir dos anos 40, para uma certa agitação de massas, urdida pelos grupos da clandestinidade política, a satisfação serena das figuras de Mily terá redundado num contratestemunho desagradável! Mas não há qualquer benefício em imiscuir as lutas político-ideológicas na livre expressão artística de cada um… Ao menos, em nome da liberdade !

Por mim, aderi logo ao traço muito sensível de M. Possoz, com extraordinário sentido decorativo, festivo e sóbrio, em simultâneo. Tudo parece simples, mas adivinha-se um trabalho intenso de desbaste, depuração e muita estilização, até atingir uma beleza hiper delicada e assim fixar os contornos das figuras. Respiram saúde e vitalidade, os meninos campinos que habitam as telas. Imanam doçura e jovialidade as meninas que posam à janela. Os olhos maravilhados com que Mily vê as minhotas, assegurar-lhes-ia um contrato imediato com a exigentíssima agência Elite! Imaginem a Giselle Bündchen de arrecadas, para terem uma ideia! Os milagres na composição da imagem, em que hoje são pródigos os fotógrafos mais cobiçados do jet-set, esbanjou a Mily, generosamente, ao retratar a gente anónima, que nada mais lhe deu senão uma torrente inspiradora para a desenhar linda e feliz.


No seu mundo pictórico reina uma alegria suave e colorida, uma bondade subtil, uma estética diáfana, atractiva, feita de harmonia. O olhar, muito aberto e expressivo das suas figuras, jorra confiança e gosto de viver. Parecem quase imobilizadas num estado de comunicação pura com o espectador, como se bastasse serem e estarem! Se há qualidade evidente nas personagens de Mily é terem “atitude” ! Transbordam de atitude! Até nesse sentido respiram modernidade.


Talvez a sobriedade pacata, aparentemente ingénua, da sua obra nos possam iludir acerca da grandeza que reconhece na vocação artística. Mas na carta que escreveu (1941) à sua amiga, Mª Helena Vieira da Silva, nessa altura a viver no Rio, deixa bem explícita a missão cimeira que atribui à arte: «Para nos compensar d’este flagello (ciclone que tinha assolado Lisboa e Sintra) tivemos agora a exposição do Almada e aproveito para lhe mandar o lindo catálogo. Foi a melhor exposição d’este anno – cheia de lições para todos – uma vida de Artista com toda a sua coragem e convicção de Arte e de verdade (…)» (**) Esta declaração rectilínea e depurada, bem ao jeito da pintora, vem ao encontro da definição de poeta, dada no estilo hiperbólico e passional de Florbela Espanca: «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens! (…) É ter cá dentro um astro que flameja, / É ter garras e asas de condor! / É ter fome, é ter sede de Infinito!»

Em Mily há zero de uma certa melancolia lusa ou de alguma insatisfação anímica, cantada nos fados, onde perpassa uma tensão trágica. Entendamo-nos que esta observação em nada diminui o fado! Apenas se visa sublinhar o estilo admiravelmente radioso dos seus desenhos, de uma leveza flutuante.

Aqui fica este aperitivo para a exposição formidável, patente na Fundação
Arpad Szenes-Vieira da Silva, com pena de não ter conseguido postar também as gravuras espectaculares dos bustos (Desenhos /Estudos académicos).

Interior de um atelier

Boas descobertas no atelier da Mily,

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

___________________________

(*) Patente ao público até 20 de Junho, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – Praça das Amoreiras, nº 56.
Horário de Segunda a Domingo – 10h00 às 18h00. Encerra à Terça e feriados. Entrada gratuita ao Domingo de manhã: 10h-14h.
(**) Excerto do original da carta, na exposição.

09 março 2010

A Camisola

Tenho uma camisola
grande demais para toda a gente,
aparentemente.

Serve para o inverno
e para o verão
e tem de estar sempre à mão.
Se me perguntassem,
eu já sabia,
a minha camisola tinha magia.

É a camisola das memórias,
das cores e dos cheiros,
das viagens e dos pequenos passeios.

É a toalha,
quando calha,
e é a almofada,
quando bem enrolada.
Até de chapéu serviu,
e já fez de cachecol,
aqueceu-me do frio
e tapou-me do sol.

No bolso da frente
dá para guardar
tudo o que quisermos levar,

já guardou o lanche,
dentro dum saquinho,
e houve um dia
em que escondeu um cãozinho.

A minha camisola era
a minha namorada,
até ao dia em que foi emprestada.

Vestiste-a morena
e salgada do mar
sorriste e disseste
para te abraçar.

Cheiraste-me no carapuço
e nas mangas sem fim,
sorriste outra vez
e beijaste-me enfim.

zdt

07 março 2010

Good morning sunshine

“nobody can go back and start a new beginning but anyone can start today and make a new ending”

1st must have:
black heels

TdB

3º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 13,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

06 março 2010

A esperança de Margarida (cont.)

Gonçalo a rir todos os dias que se seguiram, em que a Rosa ia subindo o tom das ordens que dava, pregava-lhe um beijo na testa e saia com um séquito querido pequenino atrás a fazer barulho. Distribuía-os a todos pelos colégios e finalmente entrava no seu escritório com luzes, cheiros, linhas e cores habituais a todos que andam no mundo por aí cada dia, sempre contente por voltar à sua rotina normal e numa atitude de luta perante todos iguais. Tinha uma empresa crescente de design com um sócio e amigo, o João, com quem costumava jogar squash e almoçar sandes, saladas, sumos e essas coisas sempre saudáveis para eles e para toda aquela geração, menos para a Rosa, claro, que achava que passavam todos fome!  

João Freitas era também da Cabreira e ao avô dele era o dono d’A Trombeta, o pequeno jornal semanal lá da terra sempre com notícias das pessoas que lá vivem, do dia em que fazem anos, do orfeão, do fórum e esse género de coisas. As indignações pelas soluções do trânsito, dos prédios que crescem pelos cantos, e assim! Tanto João como Gonçalo lembravam-se amiúde com ternura do velho José Freitas Júnior, avô do João, sempre curvado, pequenino e magrinho, nos últimos anos da sua vida ao volante de um enorme Ford Granada, o carro grande da terra, que veio depois do da Condessa quando este desapareceu da vida da vila. Este Ford era demasiado grande, elegante, sóbrio, austero, snob! Era usado todos os dias para ir de casa para o jornal e vice-versa, também ao fim de anos ainda estava novo e só conhecia as mãos e os pés do Senhor Freitas, sempre respeitador.  

A Trombeta eram duas salas no local mais central da vila, se é que isso podia existir, cheias de pastas, papéis e livros. Máquinas de escrever todas abauladas, cheias de design, uma ainda do tempo da guerra; cheiro a pó, a respeito e a seriedade, numa atitude de defesa contra a modernidade! Também o Senhor Lopes lá andava todos os dias, empregado desde não se sabe quando, com o cabelo empastado de brilhantina, gravata sempre preta num eterno luto, mangas da alpaca e uma tristeza sem fim nos olhos. O seu destino era servir o Senhor Freitas, sempre velho de fato com colete, a corrente do relógio preponderante e um ar constante de patrão. A casa dos Freitas, por seu lado, era uma típica moradia de província construída no princípio dos anos cinquenta, com vasos sem ser preciso, porque tinha terra a rodos por todos os lados, rendas em cima da televisão e uma sala de visitas onde nunca se entrava para não sujar os couros, a ceia de Cristo e as pratas pequeninas que a vida foi dando, de comemorações e isso. A Dona Deolinda Freitas, dona de tudo e da serenidade do dia-a-dia, gorda e corada com aventais de flores e folhos, cabelo grisalho apanhado em puxo no alto da cabeça e óculos redondos sobre uma eterna cara simpática, tinha atrás um quintal com hortaliças, galinhas e algumas laranjeiras; tudo ao serviço da sua cozinha. Cozinhar bem, mais do que um ponto de honra, era um destino. A Dona Deolinda fazia parte do grupo de senhoras que todas as semanas lanchavam em casa do Senhor Abade. Mesmo depois da Condessa ter deixado de ir por estar fraca, um terço era sempre por ela, durante meses a fio, entre todas, por todas e no coração de todas.  

O imponente Ford do Senhor Freitas veio substituir a grandeza do Pontiac da Condessa pelas ruas da Cabreira de casas toscas e prédios pretensiosos, todos os dias a rolar entre a Vivenda Deolinda e A Trombeta. Às terças-feiras quebrava a rotina pela porta vermelha do Abade Afonso onde descia a Dona Deolinda, sempre com as mesmas recomendações para ir devagar e com cautela, enquanto fechava a porta do carro com uma mão e segurava os bolinhos com a outra. E lá continuava o Senhor Freitas em direcção ao jornal, tipicamente curvado e de chapéu com ar zangado, como que a congeminar contra a vida e a ordem das coisas: as calças à boca de sino, a música que se ouvia aos berros, a guerra do ultramar, o preço das coisas, enfim, um rol de calamidades que tinha a missão de denunciar n’ A Trombeta. Escrevia sob vários pseudónimos para dar uma noção de mundo. Até mesmo a Dona Deolinda tinha a cargo o artigo “Culinária & Lavores” e assinava com o nome de solteira, sempre podia dar um ar mais abrangente! E sim, aquele Ford sempre ajudava a todo aquele ambiente digno, e o Senhor Freitas era considerado pelos seus iguais e respeitado pelos netos que tinha em Lisboa, principalmente pelo João, que adorava as férias da Páscoa em que se divertia à grande com o Gonçalo e em que tinham explicações de português e de matemática com a Dona Domingas, a professora primária da Cabreira tão prestável e ingénua como solteira e beata! As más notas eram mais do que inevitáveis: eram obrigatórias! Tinham um óptimo pretexto para passarem as tarde juntos a andar de bicicleta e a fumar às escondidas. Os lanches de leite e pão com manteiga em casa das avós ou tias ficaram para sempre na memória de ambos.  

Já que a pequena casa onde vivia tinha sido herdada dos pais, o único grande investimento que a Dona Domingas tinha feito na vida tinha sido há trinta anos, e resumia-se ao já completamente familiar na Cabreira Simca Étoile branco que tratava com o maior esmero. Todos os dias o viam passar a ir e a vir da escola, sempre com a professora de peito encostado ao volante, com o ar responsável de quem tem na mão a educação de várias gerações de uma freguesia inteira de homens e mulheres de hoje e de amanhã. Viveu sempre com a satisfação de ter feito um bom negócio e trocá-lo estava absolutamente fora de questão, porque o velho Simca sempre se tinha portado impecavelmente bem; nunca a tinha deixado ficar mal, dizia. A professora Domingas também ia a casa do Abade Afonso às terças, claro, e o seu era o único carro que todas as outras conheciam há muito e a quem confiavam os mexericos que não podiam dizer em frente do Senhor Abade ou do sacristão ou de alguma criada enquanto ela as despejava uma a uma em casa de casa no fim do chá semanal. Trinta anos depois mantinha-se com os tampões e os cromados a reluzirem, os brancos sem uma nódoa e o motor equilibrado. Era também o cúmplice da sua solidão e da revolta nunca resolvida de Deus lhe ter levado os pais demasiado cedo, achava, apesar de terem morrido ambos depois dos oitenta. Era também eterno companheiro na sua tristeza de ter perdido um irmão na tropa em África, não por uma bala, mas para uma bifa; que nunca mais tinha dado notícias e que era toda a família que lhe restava, gente da sua gente, sangue do seu sangue. Se calhar tinha por lá sobrinhos e não sabia. Mas também essa era uma dúvida que tinha deixado de ser torturante dentro do seu peito, que tinha acalmado com o tempo e com São Cristóvão, santo da sua devoção e dos viajantes!
  
Ruth Breiss, uma sul-africana cheia de peito a viver num bairro caro de Joanesburgo, nos seus quarenta e muitos dentro dum saia-casaco cinzento curto, saltos altos e camisa de folhos de seda natural, pernas, decotes e boquilhas muito generosas, fechava os olhos sempre que lhe acendiam um cigarro e contorcia-se numa atitude entre o provocador, o erótico e o vendedor. Em Junho de 71 Joanesburgo era a mesma cidade transpirante de sempre lá fora, a mais parecida do mundo com Nova Iorque, mas em África, e com a força que isso lhe dava, em onda em tesão, no que fosse! No meio dos 20º andar do Hotel President o ambiente era sempre o que acompanha o imaginário de qualquer um, naqueles anos em que se usavam golas grandes, calças à boca de sino e penteados cheios de onda: alcatifas pretas de pêlo alto e maples redondos brancos e roxos, tudo muito fofo e cheio de curvas. Bares com garrafas de cores e espelhos pelos cantos e também cadeiras de verga tipo trono pelos terraços sobre as luzes e a cidade. Mesmo em Joanesburgo toda a gente ainda recuperava da estreia do Laranja Mecânica
.  

Ruth quando se levantava nestes sítios assim desse género, em reuniões que tinha amiúde, com o queixo para cima e as mãos a abrir em leque, com anéis caros mas discretos, adorava no fim fazer ouvir os fechos vitoriosos da sua mala James Bond, entre engravatados novinhos e desconhecidos de bancos e seguradoras, em que a sua vontade tinha prevalecido de certeza e em que também por certo tinha fechado um negócio extremamente vantajoso para a sua frota de traineiras de pesca ao largo. Pescava, congelava e exportava. Passou os olhos pelos quinze em volta da mesa, todos com olhares de respeito e impotência, e sentiu que nenhum podia atingir o mundo a que pertencia. Desceu ao piso -3 sempre com o queixo ao alto e gostou da sua sombra solene e esguia, da sua postura entre o comum dos mortais e das cores que a sua alma emanava; entre o betão e as tiras amarelas da parede da garagem e todo o universo que desafiava a toda a hora! Entrou no carro, um Datsun absolutamente novo e vermelho, chegado do Japão antes de todos os iguais, e sentiu-se uma vez mais acima de todos, como já ia sendo costume entre os negócios que fechava, a casa que tinha e os amigos que mantinha! Dirigiu-se então ao Blue Train, o restaurante mais na berra naquela época por lá, mas sem saber bem porquê, apenas sabia que era onde era normal ir downtown a meio da semana com a vida toda a correr-lhe bem. As notícias espalhavam-se depressa cidade fora, apesar de ser tão grande, da televisão ainda ser pouco eficiente e de não haver telemóveis! Sentou-se enquanto sorria e cumprimentava alguns presentes com a cabeça, e abriu o guardanapo sem vontade de comer como se o trabalho continuasse sempre. Mesmo assim acabou por pedir sopa fria de caranguejo e trufas, achou que calhava! O que queria mesmo, aqui para nós, era que o empregado giro que rondava se sentasse ao seu lado e lhe contasse uma história, lá da sua terra ou que inventasse, ou ainda fizesse qualquer coisa desde que lhe fizesse companhia pertinho, só para lhe dar calor e ouvir o som mesmo que fosse medíocre da voz dele. Já tinha claro na sua cabeça e em segredo que nada na sua vida lhe fazia sentido, assim sozinha, sem ninguém para partilhar momentos grandes que ia conquistando dia a dia! Podia sempre fazer compras depois nas lojas caras da zona ou meter-se no carro novo que acabava por dominar sempre e era lindo, lindo de morrer. Lindo também era um português do norte, da Cabreira achava, e que conheceu enquanto ele fazia a tropa em África e que nunca mais esqueceu. Sentia ainda os seus músculos e o seu peito a rebentarem camisa e o ar seguro com que a amava completamente! O calor das suas mãos nas costas e nos ombros, a sua cara pelo pescoço e pelo cabelo, as pernas de ambos cruzadas sem saberem onde começavam e acabavam, da maneira como era deitada no chão como se flutuasse. Tinha-lhe tocado completamente para sempre, até aquele ponto em que o seu corpo se confundia com o dele, mixed! Tinha-a feito sentir mulher, pertença de, como ninguém mais o tinha conseguido, até aí e a partir daí. De um momento para o outro nunca mais ouviu falar dele, nunca mais lhe tinha visto o rasto, acabou por se perder, assim de repente, em tempos confusos.  

  

05 março 2010

polaroids de figuras extintas*

#1 - cesário

a professora sussurrou-nos, dentro da escola primária,
(cheiro a lenha a arder, o aquecimento improvisado que havia)
que nesse dia não irias estar connosco,
que ficaras doente ou a acompanhar a tua mãe
(a memória faz-me escrever viúva, mas a memória não é sempre amiga)
- trabalhos do campo ou lá o que era.

no dia seguinte, voltaste à escola,
frágil como quase todos os meninos e meninas desses dias,
em que fazia frio em todas as casas
(e fome nalgumas, mas tenho vergonha de o escrever..).
voltaste à escola e a professora deu-te as boas-vindas do regresso,
perguntando-te qualquer coisa, em voz alta.

lembro-me, cesário, que te levantaste do teu lugar,
meio metro de gente agarrada a uma capucha que brilhava,
e que disseste assim:
- ontem, a minha mãe fez-me esta capucha,
enquanto me pedia que rezasse um terço por ela.

acho que nunca recuperei dessa frase.
tantos anos depois, décadas sem te ver,
vens-me à memória, uma e outra vez,
tal como essa dignidade que não sei dizer,
tantos livros e tantos discos e tantos beijos depois.

eu sei, cesário, que ontem como hoje,
houve meninos e meninas, naquela sala,
que te esqueceram, que nem repararam
na profunda beleza do que ali acontecera.

eu sei, cesário, que hoje como ontem,
há meninas e meninos, que vão ler estas palavras,
e seguir em frente, encolhendo os ombros e largando um
'que horror, tanto sentimentalismo enjôa..'.

- ontem, a minha mãe fez-me esta capucha,
enquanto eu rezava um terço por ela.

o diabo me leve se há padre-nosso mais bonito, cesário.

* polaroids de figuras extintas (polaroids from the dead, no original) é o título de um livro do escritor canadiano Douglas Coupland (1961-), que usamos aqui com respeito e gratidão.

gi.

04 março 2010

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I wish to highlight one of my favourite contemporary "indie" bands, I Am Kloot.
From Manchester, they have enjoyed a cult following for some years without achieving, or perhaps not wanting to achieve, a wider popularity. 
They are friends and collaborators with their fellow Manchester band Elbow and I think deserve the same recognition that Elbow has recently experienced. 
The first song I ever heard, appropriately called Untitled #1, was on an acoustic mixed artist compilation, maybe 2 or 3 years ago, and I was curious to go hear them play in concert, in a small sweaty venue in East London. The place was packed tight like sardines, so intimate, so raw, and I sensed immediately an unusual rapport between band and audience, like a shared secret among friends. In fact I  felt a strange sense of deja vu, that I had met this band somewhere.This was the place to be, for the clever people, I felt like I had joined an exclusive club of cognoscenti.
Their songs are passionate, romantic in a slightly twisted way, but don't easily fit into any category for the mainstream. To borrow a comment I heard somewhere about the charismatic lead singer, he is not afraid of sentiment and so is quite unsentimental.
My favourite song is Ferris Wheels, (unfortunately the video misses the final few seconds), but there are many so that I include also 2 other songs which also have interesting videos, Proof and Over My Shoulder. 



Ferris Wheels:
I don't know who i am,
I don't know who you are,
but when i touch your hand
i see shooting stars
i see ferris wheels
curving walls of steel
and light.
 
A long distance call
over twisted wires,
some lost heart-felt words
caught up on the line.
We speak through satellites
that hang like the stars at night
in the sky.




I hope you enjoy.
A proxima,

po
 

02 março 2010

Berlim

Começo esta crónica de viagem com uma nota histórica, para ver se consigo transmitir alguma credibilidade a quem me lê. A construção de Berlim foi inspirada em Paris. O arquitecto responsável pelo projecto, Sr. X (nome fictício por questões de privacidade, seguramente não por eu não fazer a menor ideia do nome do senhor), imaginou uma cidade com avenidas largas que vão dar a um ponto comum, jardins e muitas árvores. Claro que eu não sabia isto, nem sequer pesquisei na internet ou em livros da especialidade. No meio dos passeios apanhei um tour de turistas chineses e juntei-me a eles o tempo suficiente para ouvir algumas curiosidades. E curioso é também o facto de as árvores em Berlim estarem todas numeradas.

Posto isto, posso falar sobre a minha viagem. Foi de certeza muito menos intelectual do que a dos chineses acima, todos com máquinas a tiracolo e sempre a tirar fotografias a tudo o que o guia apontava. Conselho para quem viaja: sempre que precisarem de um estranho para tirar a fotografia de grupo da praxe, escolham estes amigos de olhos em bico. Dominam o aparelho com uma perícia de quem cresceu a fazer aquilo, abanam a cabeça com um ar sorridente e não querem fazer conversa, não fazem perguntas do género de ‘onde é que carrego para tirar?’, e têm uma bela noção de enquadramento. São sempre apostas garantidas.

Voltando agora à viagem em si. Acho que já esgotei todos os apartes que tinha a fazer; sigamos. Não decorei um único nome das ruas por onde passei. Para mim era tudo ‘aquela rua ao pé da filarmónica, e a outra perpendicular ao tiergarten e paralela à praça do parlamento’. Tinha dificuldade em ler os nomes das estações, quanto mais decorar palavras com oito e nove consoantes.

Impressões de Berlim? Para alguém com formação ou olho para arquitectura, a cidade deve ser única. Arquitectonicamente parece-me muito bem conseguida. Edifícios avant-garde que ligam muito bem com outros mais óbvios e tradicionais. Isto, claro, sou eu a dizer. Pode ser uma parvoíce como outra qualquer. Ainda desenho as casas da mesma maneira que desenhava na segunda classe, com aqueles telhados em perspectiva que aos 7 anos são um avanço técnico gigante. Deixo abaixo um desses edifícios avant-garde de que falei atrás e que foi, talvez, o que mais gostei - a Filarmónica de Berlim.



Diz quem lá foi que a sala principal é do calibre do edifício, e que a acústica é única. É como ouvir o concerto ao colo do maestro. Infelizmente não posso comprovar isso.

Uma das ideias com que fiquei é que Berlim é uma grande cidade para artistas ou aspirantes a. Um dos sítios obrigatórios a visitar é um prédio em ruínas que foi ocupado por várias pessoas que lá trabalham e fazem negócio. E o trabalho / negócio passa principalmente por escultura e pintura. O ambiente é estranho e pouco apelativo, mas vale a pena ir, mesmo não se gostando do que lá se vende. Tudo o que eu possa escrever é vago e não transmite o que é realmente o sítio. A fotografia abaixo faz melhor trabalho.



As pessoas que lá vi são da estranheza do sítio e dos trabalhos...

Outro ponto obrigatório em Berlim é o memorial do Holocausto. Não tem uma parede gigante com nomes, números ou outros factos da 2ª guerra. Não precisa, toda a gente conhece o que aconteceu e os números da guerra. E talvez por isso o impacto seja tão grande. A fotografia abaixo é só para dar uma ideia do que estou a falar.


E isto não faz, de todo, justiça ao original. Isto é apenas uma pequena parte do memorial. São centenas destas campas de pedra. Sem um único nome, uma única inscrição, um único número.

Como despedida, obrigado e até ao próximo destino!

SdB (III)

01 março 2010

Pensamentos impensados

Quando o Shah Jahan foi ver como estava o mausoleu que tinha mandado construir para a sua mulher Mumtaz Mahal
só pensou: não `tás mal.

Os grupos excursionistas já passaram um pouco de moda; no entanto aqui vão 2 sugestões para nomes de grupos:
se tiver só um membro poderá chamar-se GRUPO EXCURSIONISTA O MAIS VALE SÓ QUE MAL ACOMPANHADO.
Se fôr composto por preguiçosos será GRUPO EXCURSIONISTA OS SEDENTÀRIOS.

A dança dos 7 veus (Salomé) não tem regras muito definidas; é quase tudo "ad libidum".

Era um fotógrafo de renome mas um dia sofreu um desaire:fotografou a arco-iris a preto e branco.

SdB (I)

28 fevereiro 2010

2º Domingo da Quaresma

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

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