16 setembro 2010

Deixa-me rir...

Na revista How to Spend It, suplemento do Financial Times aos Sábados, de que já falei aqui com entusiasmo, existe uma rubrica intitulada The Aesthete. Trata-se de uma simples entrevista, que ocupa uma página inteira, género pergunta-resposta, que visa dar a conhecer os interesses, gostos e hábitos de pessoas consideradas aesthetes (estetas, portanto). São, evidentemente, pessoas ligadas à cultura, à arquitectura, ao design, à moda, aos livros, aos museus. Não necessariamente pessoas muito high-profile, com fotografias nas revistas, mas pessoas que dão cartas nas suas áreas de especialização. Gente com gostos sofisticados e muito dinheiro, habituada a viver num mundo semi-paralelo, onde a fealdade, o desconforto e demais preocupações materiais são coisas do além (nas palavras duma amiga minha…).

Não sei se alguém viu o filme A Single Man, do Tom Ford, o ex-estilista da Gucci. Nunca vi nada tão aesthete na minha vida (nem o filme Io Sono l’Amore, até há muito pouco tempo nos cinemas, o suplanta). Este filme, combinado com uma entrevista que li dele há uns anos, fazem-me crer que TF, pura e simplesmente, não sabe, não convive, não fala, não vive, não quer saber de nada que não seja perfeito, lindo, requintado, caro e extravagante. Uma opção (e uma possibilidade) de vida.



Aqui há uns tempos, no tal suplemento, li uma entrevista a um destes aesthetes (já não me lembro quem) que coleccionava Peter Doig. Tinha-se apaixonado pela obra deste pintor escocês de 51 anos, que viveu parte da sua vida em Trinidad e Tobago e no Canadá. Como nunca tinha ouvido falar neste artista, fui explorá-lo ao Google. Achei muita graça a este vídeo e por isso passo a reproduzi-lo. Um artista simpático, nada vedeta, altamente valorizado (em 2007, o quadro White Canoe foi vendido http://en.wikipedia.org/wiki/Sotheby%27s na Sotheby’s for $11.3 milhões, um record para um artista europeu ainda vivo), fala sobre a sua pintura por ocasião da montagem duma exposição.


Finalmente, só podia escolher uma canção cool, e também intensamente pop, para o meu espaço de hoje. As foi escrita por Stevie Wonder e incluída no seu álbum Songs In The Key Of Life. Aqui é reinterpretada e acho-a bem gira (sobretudo na parte dos coros). Espero que gostem.



PCP

15 setembro 2010

Moleskine

Livros. Leio O Hipopótamo de Deus e Outros Textos (José Tolentino Mendonça, Ed. Assírio e Alvim). Uma escrita poética, clara, cheia de musicalidade espiritual. Reproduzo um parágrafo: “Olha de frente tudo o que é grande” – é o desafio que Deus lança a Job. E, perante isto, Job responde ao Senhor: “os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora viram-te os meus próprios olhos, por isso retracto-me e faço penitência no pó e na cinza.” Ele tinha apenas ouvido, mas agora viu, fixou-se na grandeza, reparou de frente na imensidão. Job queria desvendar a dobra do Mal e esquecia que é o Bem o gigantesco segredo, o inesperado desígnio que mais nos visita.

Mineiros chilenos. O plano B (parece-me) que permitiria resgatá-los mais cedo revelou-se inviável por uma questão de segurança. A este desânimo juntam-se algumas complicações ao nível da moral das tropas, com consequências desconhecidas. A nós, à distancia, resta-nos rezar, por eles e pelas famílias. E esperar que a mina não seja um terrível corredor da morte, filmado em tempo real.

Filme. Assisti, 2ªfeira, à antestreia do filme Assalto ao Santa Maria, aparentemente (?) histórico. Duas informações prévias: não sou entendido em cinema e não sei o suficiente sobre a acção do Capitão Henrique Galvão. Mas posso dizer, numa apreciação genérica, que não gostei. Não temos (acho eu, e perdoe-se a potencial injustiça) uma escola de cinema. Destacam-se alguns actores – e não a maioria –, achei as cenas pobres, inverosímeis, fantasiadas. O romance entre a Ilda (filha de um coronel situacionista) e o Zé (revoltoso), baseado em factos reais, enternece, se bem que seja improvável, assim como grande parte do filme. Liberdade criativa, talvez... No fim, um pequeno cocktail no foyer do S. Jorge. Sinto, por vezes, o impulso de cumprimentar pessoas que julgo conhecer, mas que se limitam a ser figuras públicas. O sentimento invadu-me de novo, algumas semanas depois de quase ter saudado o Paulo Bento num centro comercial. Anteontem, quando dei por mim, avançava de mão estendida e sorriso aberto para o Major Tomé e para a Isabel do Carmo.

Processo Casa Pia. Já se fala em erros processuais. Estou certo – e dedico este raciocínio ao meu querido amigo fq, belenense convicto – que a defesa de Carlos Cruz foi buscar alguém ao Restelo, clube que se habituou a ganhar na secretaria o que não vence no relvado. Alguém me disse que o advogado Sá Fernandes acredita piamente (curiosa expressão...) na inocência do seu cliente. Ingenuidade, manipulação ou visão?

Educação. Cada vez mais tenho esta certeza: só muito tarde vemos o verdadeiro impacto dos valores que transmitimos aos nossos descendentes directos. Até lá é um discurso inter-geracional, tantas vezes incompreendido, sobre temas que fazem sentido para alguns Pais, sobretudo para aqueles a quem a vida nem sempre sorriu. Os filhos que nos percebem são a regra ou a excepção?

Silêncio. À semelhança, provavelmente, da generalidade das pessoas, não gosto de ruído quando ele se define como som indesejado: crianças aos gritos num espaço público, música demasiado alta num transporte colectivo, gente que conversa num volume despropositado. O problema surge, talvez, quando passamos a gostar muito de silêncio, caracterizado como ausência de som. O silêncio pode ser viciante, e é por isso que deve ser combatido com gosto, alegria e convicção.

Missas. Dois casamentos católicos em dois sábados seguidos. Mesmo assim cumpri o meu ritual da missa dominical. A minha espiritualidade não é estática, e é por isso que oiço sempre qualquer coisa – uma leitura, uma atitude diferente dos noivos, uma homilia - que acrescenta valor à minha vida interior, ao momento que atravesso, à minha circunstância. Um destes dias, numa discussão mais acesa, dizia que o homem que eu sou - naquilo que tenho de bom - à fé o devo. A minha vontade de caminhar pelo lado luminoso da vida - que obviamente nem sempre consigo - alicerça-se numa fé sólida e reconfortante. Afigura-se-me isto tão claro como a água.

JdB

13 setembro 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Embora os filmes de ficção científica não façam as minhas delícias, há honrosas excepções, como «A ORIGEM»(1)! Um elenco de luxo, onde se destacam Leonardo Di Caprio e Marion Cotillard, que têm acumulado merecidos óscares.

A tradução do título diz pouco do original anglófono –«INCEPTION»– que nos lança na complexa temática do IMPLANTE de ideias e possibilidade de reconfiguração de um mapa mental. Estamos no terreno da ficção psicológica, pura e dura. Em pano de fundo, deliciam-nos os cenários a rodar em velocidades alucinantes, ao ritmo da criatividade fervilhante dos sonhos. As filmagens foram realizadas em 6 países. Ali assistimos a acrobacias arquitectónicas espectaculares, embaladas por uma imaginação totalmente emancipada dos limites da matéria. Tudo se move com uma plasticidade única e sentido estético. A força da gravidade converte-se em mero adereço, facilmente superável. Muito empolgante.

Entre os críticos de cinema norte-americanos o filme fez furor, até pela densidade e diversidade de elementos reunidos: da psicologia e sociologia ao thriller de espionagem internacional, sem descurar a insubstituível love-story com toques de tragédia (mas mensagem positiva, apesar de tudo) e ainda as incursões filosóficas e metafísicas. Uma fórmula tão original quanto arrojada, a compactar Ian Fleming, Freud, o stress violento dos manos Coen (tudo armadilhado e armado até aos dentes), além dos efeitos especiais de Spielberg! A profusão de virtuosismo visual e sonoro, pontuado por diálogos interessantes, prestava-se para pecar por excesso, pulverizando a atenção do espectador por milhares de momentos demasiado intensos. Até diria que foi providencial o projecto de realização em 3D ter sido chumbado. Mas seja pela presença regular das rajadas de metralhadora a manterem-nos de sobreaviso, seja pelo desenrolar cativante e algo imprevisto da acção, seja pelos cenários em feérica transfiguração, ao jeito do sonho, parece-me difícil alguém despegar do ecrã.

Nos bastidores das filmagens, o realizador, DiCaprio e Ellen Page

A ideia de materializar o subconsciente de cada indivíduo obriga-nos a explorar o mundo das memórias recônditas, da origem das motivações, das inúmeras contradições interiores, do jogo de forças que povoam a mente e ali se digladiam sem se tomar total consciência delas e assim poder geri-las favoravelmente. Os princípios universais e basilares da psicologia humana surgem com impacto e actualidade máximas, começando pela recomendação crucial dos filósofos da Antiguidade Clássica (atribuída a Sócrates) – «CONHECE-TE A TI MESMO». E continua pela linha muito benigna da matriz judaico-cristã da civilização ocidental: perdoa-te, aceita-te, para poderes perdoar e aceitar os outros. A música para despertar do sono induzido, de Édith Piaf, reitera-o assumidamente, recomendando a purificação da memória, a fim de pacificar o passado: «Non! Rien de rien /Non! Je ne regrette rien!». Assim se avança para um estádio de maior subtileza e coragem, que requer a reconciliação com a realidade. Mais: preferi-la à fantasia! Não trocar a factualidade presente pelo mundo onírico, ainda que transborde dos nossos anseios e desejos… mas também, necessariamente, das nossas frustrações, angústias, forças internas desencontradas.

Mas vai mais longe, mostrando-nos a impossibilidade de o mundo pessoal e intransmissível do sonho ser capaz de acolher, verdadeiramente, os outros. O ego do sonhador, inconscientemente – in stricto sensu– impõe-se desmesuradamente, sugando toda a realidade com a força arrebatadora e destrutiva de um furacão. As pessoas são meras projecções do tal ego, incrivelmente frágeis e sublevando-se com uma rapidez assustadora. São, afinal, fruto de mentes (as nossas…) muito mais vulneráveis e paradoxais do que o desejável. Até mesmo para efeitos de sobrevivência, sempre posta à prova.

Naquele universo fantasiado, o tempo nunca joga a favor. Ao invés, adopta a lógica da bomba-relógio. Assim, a missão desenrola-se em total adversidade, atrevendo-se a tentar domar realidades, pessoas e lugares de aparência inexpugnável, em luta contra tudo, sendo o inimigo mais implacável o cronómetro. Cada centésimo de segundo faz a diferença. Daí o desafio. E o frisson. É um bom exemplo disto a quantidade de façanhas sacadas, com grande arrojo e despacho, no brevíssimo tempo entre o monovolume se despenhar da ponte e embater na água!

Interessantíssimo, também, na difícil lavagem ao cérebro para inculcar uma nova ideia, observar que a motivação humana mais profunda é de ordem afectiva e o estímulo positivo prevalece sobre o negativo. Exemplificando: na ordem afectiva, o amor acaba por se sobrepor ao ódio; e na hierarquia dos estímulos, a alegria/o entusiasmo e a esperança superam o medo e o desespero. Transpondo para a realidade individual: uma pessoa feliz tem um potencial de sucesso muito superior às outras. Há uma antiga máxima do Império romano com ecos desta consideração, embora colocando a tónica no voluntarismo: A sorte favorece os audazes.

É invulgar, numa sociedade tão artificializada como a ocidental, o mundo ficcionado acabar por se revelar pobre, inadequado (imagine-se), para realizar, plenamente, os sonhos humanos. Que resultam autodestrutivos. Uma perigosa miragem. Porque tudo ali tende para a canibalização.

Explicando melhor o espantoso confronto de conceitos em despique no filme (ex: sonho vs desejo, factualidade vs ficção replicando a realidade possível), somos levados a concluir que, em última instância, a resposta à felicidade humana passa menos pela fantasia, por mais audaciosa que seja, do que pela possibilidade concreta, realmente vivida, de responder a um desejo. No fundo, o desejo revela-se mais substantivo que o sonho. Como tal, não se contenta com nada menos do que a própria realidade. Ora, o maior desejo da humanidade é o amor. Vivido. Tocado, aqui e agora.

Assim, a prova de fogo no confronto entre sonho e realidade joga-se aí, tendo por palco de guerra a mente e o coração humanos! No final do filme, assistimos a uma autêntica explosão da realidade, sugerindo que só no presente, ainda que desprovido do aparato apetecível e ilimitado do fascínio onírico, a natureza humana atinge a plenitude. Apesar de tudo…

É verdade que o protagonista (Cobb) acabou por acumular duas vivências amorosas que, a dada altura, já só podiam co-habitar em planos incompatíveis, entre o sonho e o dia-a-dia. Mas a escolha derradeira é bem significativa (por aqui me fico, para não quebrar o suspense), privilegiando o horizonte onde a felicidade de cada um é conciliável com a dos demais. Onde as pessoas reais existem. Por isso, os pequenos truques inventados pela equipa que viajava nos sonhos – mandatados para missões impossíveis – para aferir o regresso ao mundo real elevaram-se, espontaneamente, a talismãs sacrossantos. Daí que a recusa de um dos talismã (cena repetida ao longo do filme), encerrado num cofre inviolável, constituísse a prova cabal de se ter cruzado a fronteira irreversível da loucura, que prefere a irrealidade forjada, o puro ilusionismo.

Termino com uma pergunta: será que a realidade não procede também do sonho de alguém com mais capacidade que a imaginação humana para a preencher de substância e lhe insuflar vida? Convenhamos que a natureza não enferma de falta de criatividade. Nem os sonhos são uma invenção humana. Aliás, ninguém se inventou a si próprio nem se conhece totalmente…

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, passando a publicar às Segundas)

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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: Inception Tradução portuguesa: A Origem

Duração: 148 minutos (2 horas e 28 minutos)

Género: Acção / Ficção Científica

Realizador e argumentista (de origem britânica): Christopher Nolan

Ano: 2010

País de origem: EUA / REINO UNIDO

Produção: Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, Syncopy

ELENCO:

Leonardo DiCaprio (Cobb)

Ken Watanabe (Saito)

Joseph Gordon-Levitt (Arthur)

Marion Cotillard (Mal)

Ellen Page (Ariadne)

Tom Hardy (Eames)

Cillian Murphy (Fischer)

Tom Berenger (Browning)

Michael Caine (Professor)

Lukas Haas (Nash)

Tohoru Masamune (Security Guard)

Talulah Riley (Blonde)

Dileep Rao (Yusef)

Carl Gilliard (Hotel Guest

12 setembro 2010

24º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Tenho de confessar que gosto destas duas parábolas. Na sua versão longa (não a que reproduzo abaixo), o Evangelho de hoje inclui o regresso do filho pródigo. Usei várias vezes o conceito espelhado na forma breve ao discutir com uma amiga - mais afastada destas coisinhas da religião - que entendia, maliciosamente, não poder ir à Igreja porque não se sentia digna. E eu bem lhe explicava, na minha fraca argumentação, que vamos à igreja para ser santos, não porque já o somos, e que a alegria de Deus é infinita quando reencontra um filho transviado, uma ovelha tresmalhada, uma moeda perdida.

O Evangelho de hoje é, também, um convite ao arrependimento. Ao arrependermo-nos, na perspectiva de cristãos que somos, estamos a reencontrar o amor de Deus, a disponibilizarmo-nos para receber o abraço divino, a olhar nos olhos, com uma consciência tão tranquila quanto possível, o Pai que nunca nos abandonou, mas do qual fugimos. Por isso o sacramento, que muitos de nós conhecemos outrora como sendo a confissão, chama-se agora reconciliação. Expressão bem mais feliz, e que se pode aplicar a tantas situações da nossa vida.

À nossa maneira, e com a liberdade criativa que me é dada para comentar este evangelho na sua forma breve, todos ambicionamos ser uma ovelha ou uma dracma. Se tudo o resto nos faltasse, a alegria do pastor ou a felicidade da mulher que encontram o que perderam já seria em si bastante. E esses sentimentos não são, no fundo, mais do que o amor misericordioso de Deus que nos quer junto a Si.

Bom Domingo para todos.

EVANGELHO - Lc 15, 1-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem.
Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo:
«Este homem acolhe os pecadores e come com eles».
Jesus disse-lhes então a seguinte parábola:
«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar?
Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes:
'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida'.
Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento.
Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar?
Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: 'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida'. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».

11 setembro 2010

Pensamentos impensados

Há pessoas que criticam o Papa por usar sapatos caros, Prada. Já os fatos devem ser baratos pois só usa produtos brancos.

Há uma regra para a palavra que antecede o nome dos santos;
se o nome começa por vogal, é Santo (Santo António); se o nome começa por consoante é São (São Pedro).
Alguém conhece excepções? Lembro-me de duas.

Há palavras que não sei para que servem; uma delas é CERTÍSSIMO; se algo está certo...está certo.
Já a palavra erradíssimo tem utilidade.
Se perguntarem a alguém quantos são 3 vezes 9 e ela responder 28 está errado, se responder 79 está erradíssimo.

Pode ser que alguém se lembre, e possivelmente use, um objecto para escrever a que deram, erradamente, o nome de caneta de tinta permanente.
Atendendo a a que volta e meia era preciso enchê-la, deveria ter-se chamado caneta de tinta provisória.

Anedota lida num almanaque:
No tribunal.
O Juiz: é casado?
A testemunha: não Sr. Dr. Juiz; este meu ar chateado é mesmo assim natural.

SdB (I)

10 setembro 2010

d-e-c-a-n-t-a-ç-ã-o

um poeta chamado nave escreveu
que 'vão cães acesos pela noite'
- um verso terrível.
mas a culpa, sabes tão bem quanto eu,
não é dos cães, fiéis amigos do seu fiel amigo.
a culpa é nossa (repete comigo: n-o-s-s-a).
n-o-s-s-a e dos nossos olhos (repete: n-o-s-s-o-s)
tingidos por imperfeição, medo, usura.
quando restar só açúcar e cinza,
talvez os teus olhos (repete: m-e-u-s)
tenham recuperado o H de umanidade.
o mesmo equivale para o t-e-u coração
- sideral constelação que homem algum
dia algum compreenderá (não eu, seguramente).
até lá, os dias são pequenos ciclos de vida e de morte,
peles que nos nascem e que deixamos para trás
numa reinvenção permanente
feita do instinto mais puro.
quando nada restar senão poeira cósmica,
haverá ainda assim estrelas para alguns de nós
e o t-e-u nome para sempre gravado no m-e-u céu,
como esse amor inteiro que t-r-a-z-e-m-o-s ao peito.
o resto é uma espécie de paisagem lunar,
abstracção que nunca alcançará a essência do sol.
esse sol - ou uma ideia de sol -
que Deus - ou uma ideia de Deus -
bordou na t-u-a cartografia mais íntima.

gi.

09 setembro 2010

Nota do editor e dono do estabelecimento

Por motivos que ultrapassam a minha vontade, o segundo video escolhido pelo PO não pôde ser colocado no post de hoje. Dado que a sua publicação já foi tardia relativamente ao que é habitual, tomei a liberdade de colocar uma alternativa. Pode ver-se aqui o video originalmente escolhido.

PO: the embedding of the video you chose was disabled by request. I've decided to publish an alternative, although the original one can be viewed here.

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I offer another experience from the classical Proms season in London. Two days ago had been a long tiring irritating day. During the evening I became distracted and completely forgot that I should be meeting a friend for a late-night concert. I remembered, too late I thought, twenty minutes after it started. I looked out of the window. It was raining furiously like cats and dogs. Like London. Not a night to be outside.
But then I decided that the day would not defeat me. I jumped into my car, luckily found a parking space outside the theatre, ran inside, ignoring the attendant who said I could not enter the auditorium because there was no interval, found my seat and my friend just as the orchestra was finishing tuning their instruments for the next piece of the programme. I had missed half of the concert, had no idea who or what I was coming to hear. But, let me tell you, I became so glad that I made the effort to arrive!

The first musical piece was so serene, so beautiful, that I was immediately transported to a better place, a better disposition. Later I discovered that the composer was Nicola Porpora, a relatively unknown contemporary and rival of Handel and better regarded as the teacher of the famous castrata singer Farinelli. The music was an aria, Alto Giove, from his opera Polifemo. The wonderful counter-tenor singer was Philippe Jaroussky. The musicians were a young Baroque orchestra Ensemble Matheus, led by an exuberant charismatic conductor Jean-Christophe Spinosi (who looked like Sean Penn with a sense of humour).

Porpora - "Alto Giove":



So, now I was relaxed. And then the fun began. Jaroussky was joined on stage by a contralto singer Marie-Nicole Lemieux. A large vivacious sensual woman with flaming red hair and turquoise ballgown dress. I say joined, actually she literally ran onto the stage, almost pushing him and the conductor out of the way in her enthusiasm. This was a fun performance of the aria played as if by two competing singers instead of two competing lovers. A joyous victorious finale to my day!

Vivaldi - Orlando Furioso "Nel Profundo Cieco Mondo" (In This Profoundly Blind World)



Enjoy!
A proxima,
PO

08 setembro 2010

Informação

A Maria Zarco, que nos enche quinzenalmente a alma com textos riquíssimos de informação e saber, passa a escrever, com a mesma periodicidade, às 2ªs feiras, sendo que poderemos lê-la já no próximo dia 13. Hoje abrimos o moleskine, para os incautos ou para os heróis. MZ não quis deixar de nos lembrar, no entanto, um must cultural sobre o qual já escreveu, pelo que fica o alerta que me sugeriu publicar. Obrigado.

LEMBRAR

Exposição com as míticas Tapeçarias de Pastrana,

até 12 de Set. (Domingo) no MNAA-Museu Nacional de Arte Antiga

http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/pt-PT/destaques/PrintVersionContentDetail.aspx?id=400

Morada: Rua das Janelas Verdes, Lisboa. Telefone: (351) 21 391 2800.

Moleskine

Mineiros chilenos. A saga continua mas, estou certo, daqui a meia dúzia de semanas ninguém falará deles, esfumando-se o tema na voragem das coisas mais mediáticas. Parece que continuam bem e, segundo li, já há alguma divisão de tarefas, o que permite uma ocupação, tão saudável quanto possível, do tempo. Demorará até que cheguem à superfície, se bem que se fale numa possível antecipação. Até lá é a ausência de sol, o relógio que marcha com uma lentidão de desespero, e as vídeo-conferências com familiares, disciplinados para um optimismo que se pretende contagiante.

Livros. Mais um excerto do Diário dos Vencidos – o 5 de Outubro visto pelos monárquicos em 1910 (Joaquim Leitão, Ed. Aletheia):

(...) Nessa ocasião, um sargento da Estrela falava pelo telefone ao Coronel Malaquias de Lemos, dizendo que lhe haviam comunicado que estava proclamada a República, e que se rendesse, mas que ele não queria render-se porque ainda podia combater.

- E o coronel Malaquias que respondeu?

- Respondeu o seguinte: “Entreguem-se também, que eu já me entreguei”. “Mas nós ainda podemos resistir!...”, dizia o sargento. “Entregue-se, já lhe disse!”, insistiu o coronel Malaquias. E voltando-se para quem estava: “Ora vejam a que estado de indisciplina chegou o exército! Um sargento a discutir comigo a oportunidade de se render. Que me dizem a este sargento, hã? Que me dizem ao sargento!?...”

Beatices (I). Casamento, Sábado, em Vila Viçosa. É de lamentar a canícula calipolense (37ºC às 14.00h, deglutia eu umas migas antes de me atirar à gravata...) mas tudo o resto esteve no domínio do perfeito. Faço parte daquela gente que, num casamento, distingue o verdadeiramente essencial – a cerimónia religiosa – do que é genuinamente importante – o copo-de-água. Fixei os contornos gerais da homilia – muito inspirada – e o fim da 2ª leitura, da famosa carta aos Coríntios: (a caridade) tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade não acaba nunca. Sentado na Igreja, olhei à volta e pensei que é nesta fé que eu quero continuar a viver.

Beatices (II). Missa, Domingo, no Estoril. No fim da homilia falam dois seminaristas, prestes a entrar no 2º ano, e dois rapazes que entrariam 2ªfeira para frequentar o 1º ano. Conheço um de cada grupo, amigos dos meus filhos. Em todos se nota a confiança e a exaltação. No fundo, não é isso, também, o que define a nossa espiritualidade? De facto, Deus não escolhe os capacitados, dá forças aos escolhidos. A fé pode ser contagiante?

Beatices (III). Mão próxima envia-me, 2ªfeira, o link para uma entrevista da LQ, minha amiga de juventude, que agora tem um lugar de responsabilidade nas Irmãs da Caridade. 25 minutos, quase, a falar do amor de Cristo, de serviço, dos mais pobres, da fome espiritual e da fome física. Retenho, no tom de voz que me é familiar, o sentido geral da conversa. Fixo uma das últimas frases, talvez: tenho a certeza de que nunca seria feliz em mais sítio nenhum”. Fé é isto.

Futebol. Segundo desaire no espaço de menos de uma semana, desta vez com a Noruega, com quem nunca tínhamos perdido. Vale-nos o hóquei em patins e a alegria de termos cilindrado, por 14-1, os nossos aliados ingleses. Somos melhores no stick - o que me faz lembrar que poderíamos oferecer um par de patins ao Madaíl e ao Queiroz.

Processo Casa Pia. Há muito tempo que embirro com o Carlos Cruz (antes, ainda, do processo) e alimento um convencimento (injusto, talvez, porque sem bases) da sua culpa. Mas, numa onda que por vezes me invade de fixar o acessório, dei por mim a olhar para o advogado Sá Fernandes, por quem não nutro simpatia alguma. E imaginei esta cena – hipotética, mas possível: a equipa de defesa de Carlos Cruz sabe da sua culpabilidade mas este, por deficiências processuais, acaba não condenado (falta de provas, erros, prescrição). Sá Fernandes tira o panamá (ou era um palhinha?), elogia a justiça que já não vive no mundo das trevas e abraça o apresentador, gritando, entre duas fortes palmadas nas costas transpiradas, porreiro, pá! Nesse dia, no remanso da sua vida familiar, beija a Sofia com um sorriso (desconheço se tem filhos da idade das vítimas) e pergunta-lhe: não queres abrir uma boa garrafa de vinho? Ganhámos o processo casa pia. Eu, agoniado e burguês na minha vida confortável, socorro-me de uma água das pedras e do sossego de não ser advogado, de ter tirado, apenas, um curso menor de engenharia.

JdB

07 setembro 2010

Dia de Finados

Albano nasceu no dia 2 de Novembro. Nunca a sua família pensou que o dia de nascimento pudesse ser um prenúncio da vida que ele havia de levar.

Ao contrário da maioria dos bebés, Albano nunca chorou por ter fome ou sede, nunca deu gargalhadas com o chocalhar de chaves à frente dos olhos e, durante toda a sua meninice, nunca fez asneiras dignas de registo. Na verdade, ao longo de toda a sua vida nunca fez nada digno de registo. Onde quer que estivesse passava despercebido, e só quem o visse, sentado e calado, dava conta de que ele existia.

Na escola aprendera a ler sem fazer barulho, e a fazer contas de somar e subtrair de cabeça, para não ter de pensar alto. Quando chegou a altura de escolher o futuro académico optou por um curso de linguística, com especialização em latim. Escolheu o latim, não por interesse científico, mas porque com uma língua morta o risco de encontrar alguém que a queira usar como via de comunicação é menor.

Depois da formação académica arranjou emprego numa editora especializada em dicionários. Dedicou o resto da sua vida a estudar a etimologia das palavras começadas por .

Não deixou descendência, nunca escreveu um livro nem plantou uma árvore. Do ponto de vista da filosofia oriental pode afirmar-se que não foi um homem realizado.

Teve sempre uma atitude de espectador relativamente à vida, e esta filosofia ganhou ainda mais força quando descobriu a razão pela qual era celebrado o dia 2 de Novembro, o seu dia de anos. A mãe explicara-lhe que o segundo dia do décimo primeiro mês era conhecido como o dia de finados, que em todo o mundo se rezava pelos que tinham morrido e que se lembravam os que já toda a gente esquecera.

A partir desse momento apercebeu-se de que no mesmo dia se recordava o seu nascimento e a morte de outros. Ainda para mais não era uma morte qualquer. Era uma morte anónima, dos que não têm nome. Este facto afectou-o de tal maneira que passou a confundir o seu nascimento com a morte dos que não têm nome. Dentro da sua cabeça, dois acontecimentos passaram a um. Isto levou-o a assumir, ainda em vida, o anonimato da morte celebrada no dia do seu nascimento.

Foi ainda mais longe, e passou a ver, nesta coincidência de datas, uma profecia: havia de morrer no mesmo dia em que nasceu. Para ele era o desfecho lógico da sua vida. Uma vida anónima leva a uma morte anónima, a do dia 2 de Novembro.

Todos os anos, na noite de 1 de Novembro, quando fechava os olhos para dormir, pensava que talvez não mais os voltasse a abrir. Mas este pensamento fatalista não o assustava, e mergulhava num sono do qual poderia nunca mais acordar.

O único pormenor de que se tinha esquecido era que, numa vida anónima e da qual era apenas espectador, não havia ninguém para dar pela sua falta na manhã em que não acordasse. Não havia ninguém para o procurar quando ele deixasse de aparecer. Não havia ninguém para o encontrar morto no seu dia de anos.

SdB (III)

06 setembro 2010

Fórmula para o caos

1. Francisco Louçã afirmou, num qualquer evento do BE, que o seu partido era o único que estava verdadeiramente empenhado na campanha de Manuel Alegre para as presidenciais que se realizarão em Janeiro de 2011. O líder bloquista teme, assim, que Cavaco Silva saia vencedor logo à primeira volta. O clima de "paz podre" entre PS e Bloco de Esquerda, dois partidos que apoiam a candidatura do poeta de Águeda, durou apenas três meses. Era o cenário esperado. Como muitos analistas políticos defendem, o principal objectivo do BE é criar cisões entre os socialistas para, a médio/longo prazo, conquistar a ala esquerda do seu eleitorado.

2. O Primeiro-Ministro de Portugal encontrou uma nova forma de se entreter, a ele, e aos portugueses que habitualmente visionam os noticiários das 20:00 horas. Inaugurar creches! Como no slogan de um anúncio televisivo há uns anos: É fácil, é barato e dá milhões (votos)!
Nada mais FÁCIL do que inaugurar uma creche dizendo meia-dúzia de lugares comuns e dispensar uns sorrisos às criancinhas. É BARATO porque, na maior parte dos casos, o investimento do Estado corresponde uma pequena percentagem do custo total, sendo que o grosso é suportado pelos privados. Dá MILHÕES (VOTOS). Empregando os termos Keynesianos relacionados com o “ Estado Social “ que, aos olhos do eleitorado de centro esquerda, constituem um excelente contra-ponto ao ante-projecto de revisão constitucional apresentado pelo PSD. Do tipo: Eles querem acabar com SNS e com a escola pública e nós, os que temos sensibilidade social, fabricamos creches.

3. Após uma reunião com o Presidente da República, o PGR afirmou, de forma inequívoca, que reitera tudo o que afirmara há um mês numa entrevista. Pinto Monteiro disse que dispunha dos mesmos poderes da Rainha de Inglaterra. E mais. A principal figura do MP assegura que tem tantas condições para continuar no cargo agora como as que tinha quando tomou posse em 2007. Para o procurador, casos como Face Oculta, escutas, negócio PT/ TVI, etc., não o desgastaram nem descredibilizaram minimamente.
A capacidade de comunicação de Pinto Monteiro vai de mal a pior.

4. Muammar Al Khadafi deu um passo de gigante para extremar, ainda mais, o fundamentalismo islâmico. O líder da Líbia, defendeu, numa palestra em Roma, que o futuro trará uma islamização da Europa. Sendo que a entrada da Turquia na União Europeia será a primeira fase desse hipotético processo. Quanto às loucuras de Khadafi, já ninguém se espanta. Relativamente aos cépticos da entrada dos turcos no espaço europeu, não foi uma boa forma de os fazer mudar de opinião.

5.Seguindo nos extremismos: um Rabi israelita afirmou que os palestinianos deveriam ser todos extintos da face da terra. Recorde-se que a partir de 2 de Setembro terão lugar, nos EUA, o recomeço das negociações de paz entre Israel e a Autoridade Palestianiana. Parece que nem todos estão empenhados no sucesso da negociação. Confesso que atitudes como esta, vindas da facção israelita, desiludem-me bastante. Dado que o meu coração está com Israel. Por todas as razões. São uma democracia, não provocam explosões que matam 100 pessoas de uma vez e, quase sempre, com a “socializante“ imprensa a criticá-los.

6.O Presidente da Venezuela, Hugo Chavez, teceu fortes críticas à imprensa internacional por esta estar, segundo o líder bolivariano, apostada em diabolizar o governo venezuelano. Recorde-se que, segundo uma estatística recentemente publicada, a Venezuela é uma país ainda mais perigoso do que o Iraque. Só no ano de 2009 ocorreram perto de 20.000 homicídios.
Ora aqui está mais um exemplo do total falhanço dos regimes socialistas (não democráticos).

7.Na passada semana, algumas personalidades da direita americana, rodeadas por milhares de populares do mesmo espectro político, reuniram-se no Lincoln Memorial para protestarem contra a política levada a cabo por Barack Obama. Segundo os mais altos qualificados analistas dos EUA, este acontecimento poderá beneficiar o actual inquilino da Casa Branca. Este foi um encontro de pessoas marcadamente de direita, considerado por muitos como radical. Com isto, Obama poderá ganhar o eleitorado do centro.
Recorde-se que, nos tempos mais recentes, apenas um Presidente foi derrotado por o seu opositor ter radicalizado o discurso à direita. Aconteceu nas presidenciais de 1980 que opuseram o Presidente Carter a Ronald Reagan. Nessa altura, o povo americano encontrava-se extremamente descontente com Jimmy Carter devido ao falhanço do resgate dos funcionários da embaixada dos EUA em Teerão que haviam sido feitos reféns depois da revolução de 1979.

8.Alguma imprensa iraniana chamou “prostituta“ a Carla Bruni. Estas ofensas deveram-se ao apelo que a primeira-dama francesa fez às autoridades de Teerão no sentido de absolverem a jovem iraniana condenada à morte por adultério.
É por situações como estas que se antevê muito difícil o alcance de algum consenso entre o Ocidente e o Oriente. Claro que já o houve em matéria económica, política e financeira. Mas nunca em questões sócio-culturais.

Pedro Castelo Branco

05 setembro 2010

Domingo …… Se fores à Missa !

O Evangelho de hoje fala-nos de confiança, de confiança cega e total, Mais uma vez Cristo nos pede que confiemos em Si, que confiemos no Seu amor, ao ponto de largarmos pai, mãe e familia, ou seja, largarmos tudo aquilo que nos dá segurança. Claro que não podemos levar este desafio à letra. Não nos é pedido, literalmente, que deixemos a nossa família física, para nos entregarmos a Cristo (embora essa seja a realidade dos que optaram pelo sacerdócio ou pela clausura). Não! Mas mais uma vez nos deparamos com o facto de que os critérios de Deus não são os nossos critérios. A renúncia de que Jesus nos fala refere-se aos bens materiais, aos nossos hábitos mundanos, às posições sociais, aos cargos políticos, às funções profissionais, enfim, um sem-número de coisas nas quais e com as quais nos sentimos seguros, nos sentimos confiantes, nos sentamos comodamente e das quais não nos desinstalamos. Ora, embora tudo isso seja necessário no mundo de hoje, em quantidade q.b., o certo é que muitos de nós acreditamos que a felicidade e a segurança estão directamente relacionadas com a quantidade e qualidade das mesmas e gera-se um circulo vicioso que nos cega, nos impede de ver mais além, de ir mais além, de ousar, de saltar para o desconhecido, de arriscar. Quanto mais temos, mais queremos, porque acreditamos que, assim, vamos atingir a felicidade. E porque a felicidade não chega, empenhamo-nos em ter mais, e assim sucessivamente. O que Jesus nos diz neste Evangelho é muito simples: “Larga tudo isso que tens (a mais), pois, largando, torna-se leve a tua mochila, libertas-te desse peso extra que te prende e então, já solto, será mais fácil seguires-me”. Aliás, Jesus é mesmo peremptório nesta certeza de que só quem se despoja do excedente poderá ser seu discípulo. Não é que não nos salvemos na mesma; não é isso! Jesus não diz que quem não tomar a cruz não será salvo! O que Ele diz é que quem não se despojar, não conseguirá ser seu discípulo mesmo que queira. Enfim, resta-nos saber se queremos ser seus discípulos nesta vida terrena, privar com Ele, contar com Ele, comprometermo-nos com Ele, senti-Lo próximo todos os dias ou se, pelo contrário, optamos por deixar que a vida passe por nós aleatoriamente, esperando o dia em que nos encontraremos com Ele face a face. Se é sua a primeira opção, comece a esvaziar a mochila já hoje. Se é sua a segunda opção, não se acanhe em continuar a enchê-la.

Domingo, Se Fores à Missa ……. Decide se queres encher ou esvaziar a mochila.

Maf

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: ‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo

04 setembro 2010

Pensamentos impensados

Se o Papá tiver papeira, a Mamã vai ter mameira?

No Conservatório Nacional, dada a falta de pianos em bom estado, os alunos aprenderão, apenas, obras para 4 mãos.

Se alguém for ouvir uma orquestra sinfónica tocar um Requiem pode dizer que ouviu música ao vivo?

No deserto do Saará e noutros desertos não há agricultura porque não chove; nos Pólos passa-se o mesmo.

Porque é que o Infante D. Henrique é a figura de proa do Padrão dos Descobrimentos? Porque era o patrão dos descobrimentos.

A galinha pôs ovos de várias cores; vai o galo matou o pavão.

SdB (I)

03 setembro 2010

teu rosto, metafisica

era no tempo das suaves raparigas
e era ainda e para sempre esse agosto
que de areia esculpia flores vestidas
de claridade salgada, acre como mosto.
era no tempo das suaves raparigas
andorinhas anunciando a alvorada
semeando palavras como espigas
preparando a colheita mais desejada.
era no tempo das suaves raparigas
forma poética e, bem sei, algo brutal
de declinar no plural a que me obrigas
aquilo que só pode existir no singular.
era no tempo das suaves raparigas
e novecentos era ainda tempo presente
tudo trocaria: agosto, espigas, mosto
por esse, de mim ausente, teu rosto
(e contudo em mim tão presente).

gi.

02 setembro 2010

Deixa-me rir...

Desconhecia Sam Taylor-Wood até ter estado em Londres. Lembro-me que na altura, 2004-2005, aparecia muito nas revistas sociais inglesas, sempre sorridente e triunfante (venceu dois cancros), ao lado do seu marido, agora ex-marido, Jay Jopling, o dono da famosa http://www.whitecube.com/

Certo dia, vi num qualquer jornal londrino, já não me lembro qual, que Sam tinha inaugurado uma exposição de fotografia, precisamente na White Cube, sob o título Crying Men. Fiquei curiosa. Quis ver, in loco, a qualidade e a força (porque tinham necessariamente de ter força!) das ditas fotografias reunidas sob um nome tão curioso! Bem como a beleza dos homens retratados, já agora: entre eles, Jude Law, o homem com o sorriso mais bonito do planeta...

E assim foi. Pus-me a caminho, numa tarde chuvosa e cinzenta, para o East End londrino. Comigo iam alguns amigos, uns curiosos como eu, outros talvez porque não tinham nada de especial para fazer nesse sábado à tarde…

E aí, ao entrar nesse pequeno espaço que é a White Cube, percebi a razão de ser de tanto sururu. Realmente não é comum depararmo-nos com um conjunto de magníficas e sobredimensionadas fotografias em que homens famosos põem a nu a sua sensibilidade, chorando desconsoladamente. Foi muito estranho estar no centro daquela sala despojada, de um branco imaculado, e sentir-me uma espectadora da dor de outros. Ainda por cima da dor masculina, que não estamos propriamente muito habituados a presenciar.

Não posso dizer que tenha ficado particularmente em choque ou emocionada... não, acho que até me centrei mais nos aspectos “técnicos” das fotografias! Gosto de apreciar o enquadramento, a qualidade da imagem, as cores, os ângulos, as luzes e sombras, os detalhes... mas era, de facto, uma dor muito bem retratada, muito expressiva, muito pungente até.

Sei que as sessões fotográficas foram muito duras para os retratados, e que envolveram, nalguns casos, várias horas para conseguir chegar ao tipo de dores que Sam queria retratar: as dores mais “esquecidas”. Sessões que puseram os retratados a chorar para a fotografia e, em vários casos, a continuar a chorar demoradamente (dito pela artista em entrevista). Isso, sim, impressionou-me muito, esse prolongar da dor, essa dificuldade em estancar o sangue duma ferida aberta…

E por isso vos deixo com este pequeno vídeo que dá uma panorâmica geral do trabalho duma fotógrafa com bastante interesse. Não necessariamente pela série Crying Men, que é abordada neste vídeo, e que provavelmente nem agrada aos leitores deste blogue (terá algo de sádico este trabalho?) mas pelo que faz no geral. Como podem ver, fez e faz muitos outros trabalhos. Sou particularmente fã do filme do prato de fruta a apodrecer. Está na Tate Modern.




E agora a música. Um clássico lindíssimo que pode, também, fazer chorar. Porque todos temos, ou já tivemos, alguém de unforgettable na nossa vida.



PCP

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