12 maio 2012

Pensamentos impensados


Natureza
Na natureza também se usa a barriga de aluguer. O cuco põe os ovos nos ninhos de outras aves.
 
Obras públicas
As capelas imperfeitas, no Mosteiro da Batalha, têm maus acabamentos.
 
Virtudes
D. Maria é virtuosa.
D. Maria é casta.
D. Maria é casta de uvas.
 
Dinheiro
Tenho uma má quina de fazer notas falsas, mas está obsoleta: só faz escudos.
Pelo sim, pelo não, vou guardá-la.
 
Crise
Os portugueses devem fazer o possível para ajudar Portugal a sair da crise antes que o hino nacional passe a ser Nação valente e mortal.

SdB (I)

11 maio 2012

enquanto escuto a Glória, segundo os Sétima Legião




nesses dias
ainda estávamos
todos vivos.

(um poema sem metáforas
é sempre
um bom poema.

a vida
é que é
má poesia.

faz uma certa diferença
- não faz?)


gi

10 maio 2012

Moleskine


Educação, sempre. Imprescindível a simpatia. Talvez simplicidade, que não deve confundir-se com simplismo. A certeza de que um apelido ou um berço nos dão deveres, mais do que direitos. Com o mesmo à-vontade comer codornizes no seu sarcófago com um príncipe e migas gatas com um trabalhador do campo.

Matilde explica tudo isto a uma sobrinha usando uma voz serena sem ser paternalista, convicta sem ser irredutível. Compõe o vinco de umas calças elegantes, para que fique rigorosamente paralelo à canela,  e roda no dedo um bonito anel que lhe foi oferecido por uma avó, tinha ela 18 anos. Agora, passados quase 40, a jóia mantém a sua elegância discreta, sinal da intemporalidade de algumas coisas. E continua, para explicar o que é, no seu entendimento, frisa, ser-se educado e, além disso, ser-se fino, um conceito que ela usa como o cardamomo – com parcimónia. 

Uma vida discreta, sem alardes do que se tem ou faz. O pudor na revelação pública da sua vida, mantendo dentro de casa o que deve estar dentro de casa. Saudar quem está à sua frente segundo os hábitos do outro. Não evidenciar a diferença que diminui. Ser elogioso sem ser bajulador. Perceber a diferença entre requinte e ostentação, porque até na humildade se pode ser requintado. Vestir-se sobriamente, o que não é contraditório com elegância. O tom de voz certo e uma linguagem adequada, que não ofenda pela vulgaridade nem pela sobranceria.

Matilde é dona de um antiquário que herdou e desenvolveu. Quando está na loja recebe qualquer cliente com uma amabilidade e um sorriso genuínos. Usa o mesmo tom de voz para explicar quem eram os bons gravadores, a impossibilidade de se encontrar uma Nossa Senhora de Fátima do século XVIII, o menor valor dos retratos (mesmo sendo um Columbano), ou que não há tamanho abaixo quando se fala de vasos chineses da dinastia Ming... A vida corre-lhe bem, financeiramente desafogada, socialmente rica, dentro dos parâmetros que ela tão claramente – sem notas de imposição – explicou à sobrinha.

Uma vez por mês Matilde agarra no carro – um Mercedes discreto, preto – e segue para fora de Lisboa. A empregada da loja informa que a Sra. D. Matilde foi tratar de assuntos profissionais e por aí se fica, até porque não sabe mais. No entanto, foi-lhe explicado o valor da sobriedade comercial, porque a aquisição de antiguidades é feita, muitas vezes, à custa da debilidade financeira de famílias que acabaram em apartamentos modestos, cartões de crédito sucessivos, noites agarradas ao ferro, memórias de palacetes e criadagem emolduradas em casquinha nacional. Matilde é recatada, porque ser-se educado é não comentar  a desgraça alheia.

Ao fim do primeiro dia Matilde está em Toxofal de Baixo, nas proximidades da Lourinhã. Estaciona o carro na garagem de um prédio e entra discretamente, resguardada por trás de uns óculos escuros de marca. Utiliza o elevador para subir ao 3º esquerdo, toca à campainha que imita um gongo oriental e entra, depois de se assegurar que não foi vista. Dez minutos depois está vestida com uns hot pants vermelho sanguíneo, um top cor-de-rosa com um decote de uma generosidade que já não se usa, e um anel grande numas unhas tingidas de azul turquesa. Faz amor com Abílio, um empregado de café que ostenta um bigode preto fino, umas patilhas bem aparadas e um problema sério de joanetes. Matilde grita muito, porque gosta de verbalizar o prazer que recebe. Depois, deitada na cama e revelando uma nudez onde a expressão pudor não tem lugar definido, responde a perguntas que ela própria fez, para uma revista social (O Toxofal Elegante) que ela inventou. O Abílio é o homem da minha vida; agora sim, estou feliz; estamos a amadurecer a nossa relação mas há uma cumplicidade muito grande; o Abílio ajuda muito em casa, cozinha com muita paixão... 

O sol põe-se em Toxofal de Baixo. Matilde veste um fato de treino, calça umas havaianas e avança para a cozinha, porque é dia de bola e alguém tem de lavar a loiça da semana. Restam-lhe dois dias, e há tanto amor para fazer... Não sabe se voltará mais, porque há um presságio de morte na sua relação com Abílio. Tudo começou com umas aulas de kuduro nos bombeiros locais e com a professora, vinda expressamente  de Luanda, cuja generosidade de nádegas levou o empregado de café a revirar os olhos. E isso, no fundo, é o princípio da lascívia e da traição. 

A menina pode ter fetiches à vontade. Não pode é falar neles, porque as pessoas finas não falam dessas coisas...

JdB

09 maio 2012

Diário de uma astróloga – [25] – 9 de Maio de 2012


Os Nós Lunares

Há um ano, o dono deste estabelecimento convidou-me para contribuir para o blog escrevendo sobre astrologia, que é simultaneamente a minha profissão e a lente através da qual tento compreender o mundo, os outros e, sobretudo, eu própria. Tem-me dado imenso prazer escrever estes posts e procurar exemplos ou imagens certas para ilustrar os textos que escolho, olhando para uma lista preliminar de assuntos e, depois, deixando que a inspiração, as datas do calendário ou um comentário ocasional ditem a ordem pela qual que eles têm aparecido.
Foi justamente um comentário aqui publicado que me indicou que era a altura de falar dos Nós Lunares. São os pontos de intersecção da órbita da Lua com a órbita aparente do Sol (a elíptica). São dois pontos opostos no espaço que distam, por isso, 180º entre si. O ponto de passagem da Lua de uma latitude sul para a latitude norte chama-se Nó Lunar Norte, e vice-versa, e são calculados para o momento do nascimento.

Os nós lunares não são planetas e, por isso, não representam energias específicas ao nível da personalidade mas, por integrarem toda a órbita do Sol e da Lua, os nossos luminários, são a simbologia mais parecida com “alma” que a astrologia pode fornecer. O eixo dos nós lunares é o resumo, ou a fotografia do nosso percurso evolutivo. O nó lunar sul representa os processos a que estamos habituados, os que nos são mais familiares, talvez por termos sido condicionados por experiências anteriores - de onde viemos. O nó lunar norte representa aquilo que temos que conquistar para nos sentirmos plenamente realizados – para onde vamos. É evidentemente o ponto de maior resistência, que requer esforço porque descobrir e cumprir a nossa missão não é tarefa fácil.
A astrologia chinesa refere-se a estes pontos como Cauda do Dragão e Cabeça do Dragão. Antigamente o Ocidente usava a mesma designação, em latim naturalmente. Nas pinturas e frescos renascentistas vêm-se representações de Cauda Draconis e Caput Draconis. Por exemplo, esta cabeça de dragão é um pormenor que faz parte do tema astral pintado no tecto do Castelo Sforzesco, em Milão, que data de 1474.


Lamento que o mundo ocidental tenha eliminado as referências à cabeça do dragão porque sugere com muita clareza a dificuldade, a conquista, o desafio. É com certeza mais ilustrativo do que Nó Lunar Norte.
Na semana passada, num dos seus belos textos, o JdB entregou-me de bandeja a oportunidade de falar sobre os nós lunares. Impressionou-me pela clareza com que definiu o que o eixo dos nós lunares representa em termos de escolhas e desejos. Com a sua autorização passo a citar e a comentar:

A parte mais saudável de mim é gregária. A parte mais lúcida de mim é gregária. Apesar disso, nas profundezas do que sou há algo que pensa na ilha do Corvo, no silêncio, na interiorização, na vontade de escrever em frente ao mar, na contemplação das ondas, na vastidão da paisagem, na parcimónia dos sons, num minimalismo existencial, no isolamento que favorece a espiritualidade. Demasiados factores me prendem ao inverso de tudo isto: a família, as relações afectivas, o medo, a (quase) certeza do que sou, a convicção do que é saudável, os projectos, as pessoas que me são imprescindíveis, o gosto por uma vida mundana, a dúvida sobre a validade de alguns desejos.

Para quem, como o JdB, tem consciência do seu percurso evolutivo, é importante perceber que a Ilha do Corvo é a sua cabeça do dragão, é a parte de si que precisa de conquistar, que é normal que seja menos lúcida porque vem, exactamente, das profundezas que eu chamaria a voz da alma. Mas os nós lunares constituem um eixo; há o outro lado, o lado oposto a puxar ao contrário, com o chamamento do que é familiar, do que é mais fácil: demasiados factores me prendem ao inverso. 
A experiência que tenho, comigo própria e com os meus clientes, ensinou-me que esta evolução requer equilíbrio. Para chegar onde devemos ir não podemos ignorar de onde viemos. Não é uma corrida onde viramos as costas ao ponto de partida com os olhos só na meta. É uma estrada que se vai construindo feito de escolhas e oportunidades, e muitas delas vêm ao nosso encontro quando menos se espera. Recentemente, numa consulta, discuti com uma cliente como a compra de um armazém velho, coisa que lhe apareceu “por acaso”, se encaixa perfeitamente no significado da sua Cabeça de Dragão.
O eixo dos nós lunares, o retrato no nosso propósito de vida, é diferente para cada um de nós pelo signos que ocupam (sempre em signos opostos), pelas casas em que estão localizados (sempre opostas) e pelos planetas que mais os influenciam.
Aqui fica a imagem dos símbolos usados no horóscopo, caso queiram consultar o vosso tema natal e aprofundar esta questão. Ao JdB espero que a visão astrológica o ajude no seu percurso de auto-conhecimento e de cidadão do mundo.



Luiza Azancot

08 maio 2012

Duas últimas

Tomei conhecimento do Quarteto em Cy quando estive no Brasil no ano do verão quente. Tinha comprado uma cassette (sim, sim, o tempo era dessas modernices) com músicas do Ary Barroso e elas interpretavam No rancho fundo (parece-me) com uma limpidez de voz que me encantou. Infelizmente não encontrei esse vídeo na Internet.

Eu tinha 17 anos e começava a viajar sozinho, embora tivesse guarida amiga no destino. Atravessar o atlântico num Boeing 747 (TAP) - e em primeira classe - é uma experiência que devia estar vedada a jovens imberbes como eu. Não apreciei metade do que me foi dado experimentar: aviões bastante vazios, uma farpela melhor que se punha para voar, um atendimento de cinco estrelas, vinhos das melhores proveniências (escolhi cerveja para o jantar e estou convencido que a hospedeira se revolveu de nojo contido), queijos que nos eram disponibilizados em tabuleiros, como se estivéssemos num restaurante. Em turística tudo era bastante pior mas, mesmo assim, havia guardanapos de pano, ementas de papel para se escolher entre carne e peixe, um nível de serviço dificilmente comparável noutras companhias aéreas. Luxos que, tal como os 13º e 14º meses para a função pública, não voltarão mais, porque viajar é um desporto de massas, e esse conceito é incompatível, a um certo nível, com pormenores de sofisticação.

Não vale a pena descrever a beleza do Rio de Janeiro. Todos conhecemos, quer de lá ter estado, quer de fotografias. Mas nessa altura a cidade era bem menos perigosa do que será agora. Na praia as roupas ficavam na areia enquanto tomávamos banho, porque lá estariam quando regressássemos; bebíamos chá mate fresquinho, estendidos ao sol do Leblon; comíamos sandes de ovo na lanchonette Bob's ao fim da tarde; à noite saíamos e regressávamos de autocarro, sem problemas de maior. Dessas minhas duas idas guardo gratas recordações. Voltei lá com a família, quase 30 anos depois, para reforçar o sentimento: em termos de beleza natural, dificilmente se bate a Cidade Maravilhosa.

Deixo-vos com o Quarteto em Cy. Quem está em climas mais outono/invernosos poderá sentir uma ligeira e alegre primavera interior. Quem está em terras de clima mais ameno (e há quem esteja, com certeza) sorrirá de comodismo egoísta, porque há o mar, as amplitudes térmicas reduzidas, o calorzinho que convida à manga curta...

Façam o favor de ser felizes.

JdB      



07 maio 2012

Especial eleições


Já aqui manifestei a minha repulsa pelo sufrágio universal.
Ontem, mais uma vez, se assistiu ao espectáculo ridículo de dois candidatos a presidente a república no acto de votar. Estariam a votar em quem? No Tio Patinhas? Nos 3 mosqueteiros? Na abelha Maia? Felizmente ninguém perguntou em quem tinham votado, pelo que não se ouviu o que já ouvi a Cavaco Silva: o voto é secreto (secretos bons são os de porco).
As Monarquias podem ter muitos defeitos, mas os Reis não votam.

SdB (I)

Vai um gin do Peter's?

Estamos pouco habituados a ver filmes portugueses premiados. Menos ainda com sucessos de bilheteira. Pois o realizador de «TABU»(1)  somou os dois feitos. Já no filme anterior – «Aquele Querido Mês de Agosto» (2008) – tinha conquistado o público.  
Em 2012, Miguel Gomes (M.G.) foi mais longe e, quase em despique com outro filme de êxito, a preto-e-branco («O Artista»), TABU também dispensou a cor e até as falas, ficando-se pela voz-off, em toda a segunda parte. Repare-se que a ausência de cor neste filme pouco tem a ver com a película francesa, de revivalismo puro dos anos 20. É um facto que M.G. também se reporta ao tempo do cinema-mudo, mas nem tanto para o recriar (como o galardoado dos Óscares deste ano), se não como homenagem à genialidade do grande realizador do início do século XX: F.W. Murnau. Inspira-se, sobretudo, na última realização deste cineasta, também passada em África. Além disso, adopta para nome da protagonista o título do filme mais famoso do alemão – «Aurora». 


Como em Murnau, a fotografia é de uma beleza extrema, permitindo fixar objectos e paisagens quase elevados a co-personagens da trama em curso. A árvore magnífica, de copa majestosa e uma profusão de ramos escultural, poderia evocar a árvore da vida, ou a metáfora bíblica sobre a árvore pré-figurativa do Reino dos Céus, onde todas as aves se vêm abrigar. Aqui, é a sombra salvadora dos calores asfixiantes da savana e a marca mais digna e senhorial da presença humana no seio da natureza, verdadeiro ex-libris das grandes fazendas coloniais.

Na ironia saudável do realizador e co-argumentista de TABU, a mesma árvore é igualmente filmada num episódio cómico, como cenário da capa de disco de uma banda dos anos 60, com as poses ridículas e incrivelmente artificiais da era do vinyl. Cada cantor, de fato branco e gravata, aparece pendurado no seu galho: ora hieráticos como se estivessem num salão, ora de braços abertos num suposto acolhimento, totalmente despropositado no meio da folhagem. É de gargalhada, mas sem resvalar para a piada corrosiva. Este género de cenas são recorrentes, embora sem afectar a profundidade da narrativa contada em off.
A comicidade de M.G. é dos seus pontos fortes, conseguindo um equilíbrio bem hábil no saber expor e assumir maximamente, sem humilhar ou apoucar o próximo. De facto, os seus filmes estão impregnados de humanidade, de respeito pelo outro, pelo mais diferente – único, de uma diversidade utilíssima e de uma riqueza impossível de abarcar na totalidade. Daí a vastidão do horizonte narrativo (lembrando Manoel de Oliveira), assim como alguns traços de grandeza nas suas personagens, apesar de todos os óbvios paradoxos e fraquezas de cada um (lembrando Camilo). Não há mesquinhez, ainda que haja um par de atitudes repugnantes. Respira-se! Porque há noção do valor das pessoas, criticando-se sem contaminar tudo de um desdém arrogante e julgador. Até os momentos cómicos ajudam a desmascarar os erros. Mas resiste-se à desqualificação simplista e moralista das personagens. Exemplo disso é o sonho alucinado da velhinha, para explicar por que voltara a torrar euros no Casino… Ou a insistência ainda mais alucinada, da mesma velhinha, a alertar contra um jacaré que ameaçava morder um Gianluca, a soar a galã de ficção. Ou a solução engenhosa, a contento de várias partes, para branquear um disparo precipitado e mortífero, no Norte de Moçambique, numa observação mordaz às habilidades dos políticos e à pouca fiabilidade dos supostos registos históricos… Numa palavra: lucidez. Uma lucidez temperada pela compaixão, porque se baseia na busca ousada para sintonizar com o outro, colocando-se nos seus moucassins, segundo um provérbio índio. A partir da perspectiva de vários outros, franqueiam-se novos olhares sobre a realidade. Esta multiplicidade de ópticas evoca a prodigalidade de heterónimos de Fernando Pessoa (em exposição na Gulbenkian, até ontem), sedento por explorar novos pontos de focagem do universo, qual camera-man…
Percebemos, na segunda parte, muito do que nos parecera deslocado e febril na velhinha da primeira parte. Inspirado em Murnau, M.G. quis jogar com os contrastes – um processo narrativo invulgar no cinema actual. Vida e morte, anciania e juventude, cidade e campo, trivialidade e aventura, abandono e paixão fogosa confrontam-se em directo, em sentido cronológico inverso, i.e., dos últimos momentos de uma longa vida, para o fulgor dos primórdios da idade adulta. Saltamos do isolamento e inadaptações de uma anciã (Primeira Parte – “Paraíso Perdido), para o início da gloriosa década de 60, em que vivia numa fazenda gigantesca do sudeste africano, no sopé do monte Tabu (Segunda Parte: “Paraíso”).


A vida alegre e faustosa da África portuguesa não esconde, ali, o atordoamento de vários meninos da cidade, perdidos numa vastidão ecológica, sob um sol tórrido, onde as excentricidades são dos poucos entreténs que lhes emprestam alguma adrenalina. Aí entra um jacaré pequenino, chegado num vasto alguidar transportado por dois negros, ao som de um batuque tribal. Aí entram também inúmeros aventureiros, com espaço para as suas experimentações existenciais, livres da pressão das sociedades pequenas. Aí entram os sonhos de uma jovem (igual a tantas outras) a quem nada parecia faltar… para além de alguma noção do quotidiano – que é a forma mais concreta de se tocar a realidade. Ou não. O que a muitos faltava em sentido de vida, sobejava-lhes em tempo, meios, hobbies e um horizonte de capim a perder de vista, onde animais e caçadores costumavam brincar às escondidas.



O texto em off é riquíssimo, ajudando-nos a viajar por um mundo aparentemente longínquo da nossa condição. E que julgávamos enterrado, desde que os últimos colonos brancos se deixaram de sentir os anfitriões do continente verde.


Um guarda-roupa impecável, bem caracterizado, a evocar aquele Portugal transplantado para o Ultramar, que parecia viver num Verão infindo, equivalente a férias eternas. Piscina ou praia, bicicleta, jipes, barcos, jardins colossais, courts de ténis, caçadas, festas ao ar livre ponteavam a existência daquela elite vinda da metrópole. Aliás, sua ilustre representante. No entanto, os anseios e sentimentos de cada um moldavam mais os comportamentos e as opções de vida do que as próprias circunstâncias. Por mais irreais que fossem.


Ainda assistimos ao regresso (1975) atabalhoado de Aurora a Lisboa, sob os disparos da guerra que se seguiu à descolonização. E inicia-se, então, uma segunda existência, diametralmente oposta, confinada aos pequenos andares de uma malha urbana, densa em betão e stress.



Aurora na primeira parte de «Tabu» e segunda da sua vida,

mantendo inúmeras ligações a África: visíveis e invisíveis


Deparamo-nos ainda com uma escolha afectiva imprevista, a privilegiar uma solução mais austera, por não ter querido renegar todo o alcance do que antes vivera, em especial dos atropelos. Escolhera resgatá-los, ao menos simbolicamente. Desta vez não haveria branqueamentos condescendentes do passado. Embora até fossem compreensíveis. Mas se encararmos os factos com a frontalidade da velhinha…    
A originalidade deste grande contador de histórias rodadas em filme, vale bem o galardão atribuído a Miguel Gomes no Festival de Berlim e prova quanto a escassez de meios não tolhe o talento. Antes o aguçará. Nos seus filmes, toda a equipa técnica se desdobra em múltiplas funções, de figurantes a produtores da banda sonora, ajudantes de cenógrafo, etc. Claro que a falta de condições complicará o trabalho. O próprio Michelangelo demorou muito mais tempo (no seu padrão) para esculpir o célebre David, por só dispor de uma pedra com um enorme buraco. Talvez isso justifique a posição original da mega escultura de Florença. Mas ocorre pensar que há males que vêm por bem, quando uma matéria-prima especialmente inóspita faz o artista superar-se, beneficiando a obra e cada um de nós!




Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
TABÚ
Realização:
Miguel Gomes
Argumento:
Uma equipa humoristicamente chamada de “Comité Central”, com Miguel Gomes e Mariana Ricardo nos papéis principais.  
Produzido por:
Luís Urbano e Sandro Aguilar
Fotografia:
Rui Poças
Som:
Vasco Pimentel
Duração:
118 min.
Ano:      
2012
País:
Portugal, Alemanha, Brasil e França

        Elenco:

Laura Soveral (Aurora sénior)
Ana Moreira   (Aurora em nova)
Carloto Cotta  (Gianluca Ventura em novo)
Henrique Espírito Santo (Gianluca em mais velho)
Ivo Müller        (marido de Aurora )
Teresa Madruga (Pilar, vizinha da velha Aurora)
Isabel Muñoz Cardoso (Santa, a empregada africana)
Manuel Mesquita (Mário)

Local das filmagens:
Portugal-Lisboa, Moçambique.
Site oficial:

http://www.osomeafuria.com/films/3/35/

Prémios  da Crítica e Alfred Bauer no Festival de Berlim’ 2012

06 maio 2012

Dia da Mãe


Celebramos hoje o dia da Mãe.
Lembramo-nos, em primeiro lugar, da nossa Mãe do Céu. A ela recorremos para nos dar o discernimento e força que todos precisamos para percorrer a estrada da santidade.
Lembramos, também, todas as outras mães: as que partiram e que deixaram uma lembrança, as que continuam connosco de braços abertos para o afecto.
Lembramos as mães que o souberam ser dos filhos por si gerados e as que o quiseram ser dos filhos que outras geraram e que não conseguiram manter.
Lembramos as mães que vivem uma saudade dos filhos que partiram antes e aquelas a quem o destino afastou, quaisquer que sejam os motivos.
Mas lembramos também os filhos, para que olhem para as mães e perdoem sem limites, elogiem sem reservas, lembrem sem vergonhas.
Nem sempre a boca com que se fala ou a mão com que se escreve obedecem ao coração, pelo que muito fica por dizer sobre as nossas mães. Rezemos uma Avé Maria e guardemo-las no nosso íntimo.

(JdB, publicado hoje no boletim de Santo António do Estoril)

***


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor.
Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto
e limpa todo aquele que dá fruto,
para que dê ainda mais fruto.
Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei.
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós.
Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo,
se não permanecer na videira,
assim também vós, se não permanecerdes em Mim.
Eu sou a videira, vós sois os ramos.
Se alguém permanece em Mim e Eu nele,
esse dá muito fruto,
porque sem Mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em Mim,
será lançado fora, como o ramo, e secará.
Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem.
Se permanecerdes em Mim
e as minhas palavras permanecerem em vós,
pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
A glória de meu Pai é que deis muito fruto.
Então vos tornareis meus discípulos».

05 maio 2012

Pensamentos impensados


Veterinária
Hipo-tenusa é uma doença dos cavalos.

Publicidade
Vi um anúncio a sapatos em segunda mão; não faz sentido. A única coisa em segunda mão são as luvas.

Culinária
Fabergé, o grande fabricante de ovos, saberia fazer ovos estrelados?

Desporto
Tenho umas meias tão velhas e com tantos buracos que vão para o lixo. São consideradas meias-finais.

Crise
A maioria dos clubes de futebol estão falidos ou para lá caminham. Deixo aqui uma sugestão para que poupem dinheiro: a exemplo do União de Leiria, joguem só com 8 jogadores; sempre poupam cerca de 30%.

Traduções MY WAY
You will see how they bite - Vão ver como elas mordem.

SdB (I)

04 maio 2012

Moleskine


Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

O problema é resolvido, o tempo é cronometrado, o sistema actua para que uma nova chamada entre, numa espécie de nova corrida nova viagem a pontuar no serviço ao cliente.

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

Novo problema, nova tentativa de resolução, nova cronometragem do tempo, porque as regras são claras e a pressão é muita. Há o cliente, a satisfaçãozinha cujo indicador é calculado através de fórmulas e raciocínios vedados aos iniciados, o valor da hora, a amortização do equipamento, os indirectos, a energia, o custo do trabalho, os três minutos ideais para a optimização das variáveis.

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

Vasco Silva trabalha num call center e repete vezes sem conta o monólogo número um do manual que lhe entregaram, e em cujo verso se refere que os colaboradores são o nosso melhor activo. O silêncio pelo qual anseia restringe-se à intimidade de uma casa de banho, porque na escassa pausa para o cigarro há o colega que se lamenta da vida e insulta o chefe, o que comenta a bola e as gajas, o que fala de si próprio com uma admiração reservada aos santos.

Hora e meia, um autocarro e um barco depois chega a casa. Vai cansado, as cordas vocais ressequidas como duas gavinhas expostas ao sol. Entra na cozinha que é exígua, na sala onde cabe uma televisão, um sofá e um livro de ficção científica, no quarto onde uma cama de corpo e meio ocupa a quase totalidade de uma alcatifa cinzenta velha. Bebe uma cerveja fresca e olha para as paredes vazias e por pintar, para as janelas de madeira fissuradas e deslavadas, para um silêncio que o sossega porque o poupa ao seu próprio tom de voz.

Ao fim de semana recebe a Otília a quem beija com um fervor feito de saudade e ausência, de desejo, de vontade, de amor. Ela trabalha isolada num laboratório, homogeneizando reagentes, analisando resultados, detectando tendências. Enroscam-se num sofá e Otília fala da vida, dos colegas que não tem, dos diálogos que não acontecem, das ausências esmagadoras de som. Vasco passa-lhe a mão pelo cabelo revolto, beija-lhe a nuca e olha para lá das janelas ressequidas, das paredes por pintar, da alcatifa puída e velha. O monólogo de Otília embala-o, e ele sente que não conseguiria sobreviver sem aquela média feita de um falar constante e de um silêncio permanente.

Quando recolhem ao quarto Vasco despe-a com vagar, botão a botão, fecho a fecho, palmo a palmo. Percorre-lhe o corpo como se tudo se resumisse a uma boca que sente, vê, palpa, prova. Amam-se indiferentes aos gritos da vizinha, aos carros que buzinam, aos cães que ladram à lua. Quando acabam, Vasco olha para o relógio porque os hábitos demoram a morrer, e na cabeça dele o tempo é cronometrado, os custos são controlados e o impacto dos indirectos tem de ser medido com rigor. Depois vê Otília deitada de lado num pudor que o comove e sussurra-lhe ao ouvido o monólogo número um dos manuais. Ela sorri com o corpo todo, numa generosidade sensual que sempre vence os hábitos que custam a morrer.

Boa tarde, fala Vasco Silva, em que posso ajudá-lo? Aguarda só um minuto, por favor? Muito obrigado.

JdB



03 maio 2012

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, after several weeks of presenting some classic old artists and songs, it is time to introduce another new artist.
Actually Ane Brun is not exactly 'new', since this Norwegian singer has been performing for ten years, but until quite recently has been relatively unknown outside Scandinavia where she has won Norway's equivalent of a Grammy award.
I first heard her last year in a beautiful slow haunting acoustic version of an old 80s electro synthpop song Big In Japan, which encouraged me to uncover her own songs. Last week I went to see her in a captivating concert.
She is hard to describe. Her voice is pure, sometimes strong and confident, sometimes fragile and quivering. Her songs can be quiet and ethereal, or can be uptempo and experimental such as Do You Rememberand One. She reminds me a little of Kate Bush.
Here I present the more ethereal acoustic side of Ane Brun.

one more try





let myself go





big in japan





Let yourself go, let yourself flow, it's the only way of being...
 
A proxima.
 
PO

Imagens dos dias que correm


Fotografia tirada de um montra em Évora. Imagino o que será um concerto para esquentador e canalização, sobretudo se já ouviram falar em purgar as tubagens...

02 maio 2012

Ponto de Vírgula

O capitão fez-se todo vermelho. Ela folheou o livro e de repente deu um pequeno grito, corou, e ficou com o álbum aberto, os olhos húmidos, risonhos, os lábios entreabertos. Olhei: na página estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janela, tendo defronte um horizonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Ele tinha-a visto assim na véspera, ao luar, à janela do Club-House. O conde tinha-se, aproximado.
— Como! Como! És tu, Luísa! Mas que talento! É um homem adorável, capitão. Que desenho! Que verdade! — Oh! Não! Não! — disse o capitão. — Ontem estava no meu quarto, em Club-House; instintivamente tinha o álbum aberto, e o lápis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lápis que deve ser castigado!
— O quê! — gritou o conde. — É um lápis encantado. Capitão, está decidido que vai jantar comigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Há-de ser o nosso cicerone em Malta. Mas que talento! Que verdade! E falando em português para a condessa:
— É um bebedor de cerveja, hem? Nesse momento uma sineta tocou: era o almoço.

in O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queirós


Bolo Inglês de Cerveja

Ingredientes:


350g de açúcar
200g de manteiga
4 Ovos
2,5 dl de cerveja branca
2 colheres de chá de fermento em pó
50g de coco ralado
Raspa de 1 limão
400g de farinha de trigo
Manteiga para untar
Papel vegetal


Preparação:

Unte com manteiga uma forma de bolo inglês, forre-lhe o fundo com papel vegetal e unte de novo. Numa tigela, amasse o açúcar com a manteiga e junte depois os ovos, um a um e mexendo bem entre cada adição.
De seguida, adicione a cerveja, depois o fermento, o coco ralado, a raspa de limão e, por fim, a farinha. Envolva tudo bem e deite na forma.
Leve a cozer, cerca de 1 hora, em forno médio (150º).
Verifique se está cozido, retire e desenforme.

Nota: receita tirada daqui

MFM

01 maio 2012

Duas últimas


(...) Agora queria que me deixassem em paz. Se calhar já é tarde. Os cartuxos só admitem vocações até aos 40 anos, já tenho o dobro, não sei se tenho capacidades de viver sozinho. Mas pelo menos queria, com a liberdade pessoal suficiente e sem imposição de tempo, dedicar-me à oração. Mais do que isso: dedicar-me a descobrir o valor da palavra, o autêntico significado da palavra, no sentido de linguagem, de expressão da realidade, no sentido de logos. Encontrar-me na meditação da palavra como expressão do mundo, da existência, da história, e descobrir-lhe um sentido.


Li esta entrevista ontem pela hora de almoço. Durante a paragem da minha jornada de trabalho também li um artigo e vi o trailer de É na Terra, não é na Lua, o filme premiado de Gonçalo Tocha sobre a Ilha do Corvo. Há duas semanas, talvez, deparara-me com um artigo sobre o médico da ilha, a relação de amor-ódio que vive com os corvinos, o que o leva a ficar. Ontem, ainda, troquei meia dúzia de frases com quem passa tempos profissionais menos bons, que se refugia num isolamento para, diz-me, focar-se nos seus problemas e na sua resolução.

Há temas recorrentes nas minhas meditações, nos diálogos que mantenho comigo próprio. Serão as minhas obsessões, na expressão de um amigo, sábado ao jantar? O silêncio é, seguramente, um desses temas. Em momento particularmente difícil da minha vida quis isolar-me do mundo que eu conhecia, procurar a solidão das multidões estranhas, como dizia o Eça, refugiar-me alguns dias numa cartuxa, num deserto não turístico, em qualquer sítio onde me encontrasse comigo próprio, rezar e encontrar um sentido para muita coisa. Acabei nos Açores, em S. Miguel, porque entre querer e fazer há um mundo de inseguranças, temores e opções pretensamente inadiáveis. Mesmo assim o tempo não foi perdido...

A parte mais saudável de mim é gregária. A parte mais lúcida de mim é gregária. Apesar disso, nas profundezas do que sou há algo que pensa na ilha do Corvo, no silêncio, na interiorização, na vontade de escrever em frente ao mar, na contemplação das ondas, na vastidão da paisagem, na parcimónia dos sons, num minimalismo existencial, no isolamento que favorece a espiritualidade. Demasiados factores me prendem ao inverso de tudo isto: a família, as relações afectivas, o medo, a (quase) certeza do que sou, a convicção do que é saudável, os projectos, as pessoas que me são imprescindíveis, o gosto por uma vida mundana, a dúvida sobre a validade de alguns desejos.

Domingo almocei em casa de gente que me é próxima, onde adultos e crianças gritavam, faziam barulho, riam, conversavam; ontem jantei com amigos que me sobraram de uma vida profissional de 20 anos; hoje é dia de estar com quem pertence a outra caixinha onde guardo parte da minha existência. Gostei de tudo, repetiria tudo, sentiria a falta de tudo. Não obstante, há algo de corvino dentro de mim. 


Deixo-vos com uma música bonita, que muitos considerarão triste. É assim... Há sempre o primeiro de maio, sabem?

JdB 
  

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