06 agosto 2012

Fórmula para o caos


A Revolução Russa
De modo a encontrar o contexto histórico do advento da revolução russa, é necessário lembrar a revolução industrial, iniciada no século XVIII. Da industrialização, podemos relevar os seguintes factos: formação do proletariado, prática do capitalismo selvagem e evolução das ideias socialistas. 
A Revolução Industrial consolidou o sistema capitalista e as relações de trabalho assalariado. Nestas, o trabalhador não tem qualquer controle sobre os meios nem sobre os instrumentos de produção, entrando no processo produtivo como mera força de trabalho não-qualificada. Tal situação, agravada pela enorme oferta de mão-de-obra existente, levou os capitalistas a explorar o proletariado de forma absolutamente desumana, configurando o que se convencionou chamar de “capitalismo selvagem”.
O proletariado, dada a sua recente origem, tardou em adquirir consciência de classe, que tornou difícil  a coesão necessária para lutar por melhores  condições de trabalho e de vida. Contudo, a partir de meados do século XIX  começaram a ser formados as primeiras organizações de trabalhadores, o que levou à conquista de alguns direitos junto das classe mais abastadas.. Os governos dos países industrializados, controlados pela burguesia, obviamente dificultaram ao máximo a organização do operariado.
Assim, como a miséria dos trabalhadores permanecia sem expectativa de solução, alguns filósofos começaram a criar teorias que propunham mudanças na estrutura económica e social do capitalismo, com vista a criar uma sociedade mais justa e menos diferenciada. Surgiram então as ideias socialistas.
As primeiras teorias ficaram conhecidas pelo nome de socialismo utópico porque não pregavam a destruição do capitalismo, mas apenas a sua reformulação. Ou seja, na opinião dos socialistas radicais, essa atitude era utópica, já que, para eles, o capitalismo era intrinsecamente mau, não podendo ser reformado, mas sim destruído.
Embora o futuro tenha provado que o projecto de uma sociedade comunista era tão utópico quanto as teorias anteriores, o socialismo marxista seduziu milhares de intelectuais e milhões de operários e camponeses. Já em 1871, os comunistas, aliados aos socialistas utópicos e a uma facção de esquerda ainda mais radical , os anarquistas, realizaram aquela que se tornou a maior insurreição socialista antes da Revolução Russa de 1917: a Comuna de Paris. Mas a repressão do governo burguês foi implacável: 13.000 revolucionários foram fuzilados e quase 50.000, deportados.
Marx afirmava que a revolução socialista deveria triunfar nos países mais industrializados, onde o proletariado seria mais numeroso e organizado. Tal previsão falhou redondamente porque, nos países mais desenvolvidos, os operários já haviam conquistado certos direitos e benefícios, o que diminuiu, largamente, as base de apoio para desencadear uma revolução.
Restavam, portanto, os países atrasados, onde a exploração e miséria dos trabalhadores ainda se encontrava no auge do feudalismo. Nesses Estados, as condições para uma revolução proletária eram mais favoráveis.
Ao iniciar-se o século XX, o Império Russo apresentava um extraordinário atraso em relação às restantes potências europeias.
 A economia ainda era basicamente agrária, praticada em latifúndios explorados de forma antiquada, através do trabalho de milhões de camponeses miseráveis. A industrialização russa foi tardia, dependente de capitais estrangeiros e apenas canalizada para um número diminuto de cidades.
A sociedade russa era ainda mais desigual que a sociedade francesa pré-revolução de 1789. Havia o absoluto predomínio da aristocracia latifundiária, diante de uma burguesia fraca e das massas camponesas marginalizadas. O proletariado russo era  explorado de uma forma absolutamente desumana. Porém, já possuía alguma consciência social e política e estava concentrado nos grandes centros urbanos, o que facilitaria sua mobilização em caso de revolução.
 O Império Russo era oficialmente uma autocracia (isto é, uma monarquia absoluta), com todos os poderes centralizados nas mãos do Czar. Não havia instituições políticas legalizadas, embora as houvesse na clandestinidade. A mais importante era o Partido Social-Democrata Russo, que em 1903 se dividiu em dois ramos: bolcheviques (marxistas radicais) e mencheviques (socialistas moderados).
A causa imediata da Revolução Russa foram os efeitos desastrosos do envolvimento russo na Primeira Guerra. Como membro da Tríplice Entente, juntamente com a Grã-Bretanha e a França, o Império Russo entrou em guerra com a Alemanha e império Austro-Húngaro em 1914. No entanto, e não obstante a boa reputação do seu império que, à época era chamado de  “rolo compressor”, os russos não estavam à altura dos adversários. Estes impuseram às tropas do czar derrotas esmagadoras, que só não levaram a Rússia à rendição porque a Alemanha, dividida entre duas frentes de batalha (havia uma Frente Ocidental, contra ingleses e franceses), não pôde explorar as vitórias de forma triunfal. Mesmo assim, boa parte do território russo encontrava-se na posse dos invasores, com especial atenção para a Ucrânia, que era considerado o  “celeiro do Império “. Esta invasão e tomada do território ucraniano provocou uma devastadora crise alimentar.
As pesadas perdas sofridas pelo exército, a juntar às dificuldades de abastecimento e às pressões inflacionistas dos bens de consumo primário, levaram o povo russo a uma situação de verdadeiro desespero. Assim, em fevereiro de 1917 (março, pelo calendário ocidental), principiaram manifestações em Petrogrado (novo nome de São Petersburgo), exigindo a saída da Rússia da guerra. As tropas da capital recusaram-se a reprimir os manifestantes e aderiram a eles. O czar Nicolau ll, que se havia refugiado num dos seus palácios, foi impedido de entrar em Petrogrado. Em pouco tempo, a insurreição alastrou-se por todas as grandes cidades do Império.
Como o príncipe-herdeiro era hemofílico, Nicolau ll preferiu abdicar em favor do seu irmão, mas este recusou o trono. Para que não se instalasse uma vazio de poder, a Duma  (parlamento russo) nomeou um governo provisório constituído por aristocratas e burgueses, sob o comando do príncipe Lvov.
Tentando ganhar o apoio das massas, o novo governo adoptou uma postura liberal, decretando amnistia política. Com isso, milhares de prisioneiros foram libertados e centenas de exilados retornaram à Rússia. Entre eles, inúmeros revolucionários bolcheviques, liderados por Lenin. Imediatamente começaram a ser organizados sovietes de operários, soldados e camponeses, com vista à preparação da primeira, mas ineficaz, revolução socialista.
Recém-chegado do exílio, Lenin tentou um golpe de Estado em julho de 1917, mas falhou e foi obrigado a viver na clandestinidade durante alguns meses. O príncipe Lvov foi substituído na chefia do governo provisório por um advogado chamado Kerensky, do Partido Social-Revolucionário (apesar do nome, essa era uma organização política moderada), que gozava de uma relevante popularidade. Contudo, a popularidade desceu a níveis muito baixos, devido à insistência de Kerensky em continuar a guerra contra a Alemanha, apesar dos anseios de paz da população e da impossibilidade da Rússia poder arcar com um conflito militar de elevadas proporções.
Em outubro de 1917 (novembro, pelo calendário ocidental), os bolcheviques finalmente tomaram o poder. Os sovietes, que aparentavam não gozar de grande reputação, eram o poder de facto na Rússia, anulando o papel da Duma e de Kerensky. Um assalto ao palácio do governo, conduzido por soldados bolcheviques, resultou na fuga de Kerensky, que logrou uma fuga para os Estados Unidos. Algumas dezenas de jovens cadetes permaneceram nas escadarias e salões do palácio, com o objectivo de cativar Kerensky no poder.
A Duma foi dissolvida e o poder foi assumido por um Conselho de Comissários do Povo, chefiado por Lenin. O novo governo convocou imediatamente uma Assembleia Constituinte.
As eleições realizaram-se em condições de profundo caos. Os bolcheviques dominavam Petrogrado, Moscovo, Minsk e Kiev, no fundo, os grandes núcleos urbanos da Rússia Europeia. Mas o poder estava longe de ser estável no vasto território rural, e asiático, do Império Russo. Assim, as eleições deram maioria aos partidos não-bolcheviques.
A Assembleia Constituinte reuniu-se em Petrogrado em janeiro de 1918, numa única e isolada sessão plenária . Comprovada a hostilidade da maioria dos deputados ao Conselho de Comissários do Povo, Lenin ordenou o encerramento dos trabalhos e da assembleia. Estava dado o primeiro passo pata a ditadura comunista, que passou por diversos períodos do século XX. 
Este modelo encontrado para dirigir os destinos da nação russa, fica marcado por um dos acontecimentos mais sangrentos da história da humanidade, tendo atingido o seu apogeu durante o consulado de Estaline que, com toda a sua vertente totalitária, foi responsável, de forma directa ou indirecta, pelo extermínio de quase um terço da população soviética.


Pedro Castelo Branco

05 agosto 2012

18º Domingo do Tempo Comum


Oração pelas férias

Dá-nos, Senhor,
depois de todas as fadigas
um tempo verdadeiro de paz.

Dá-nos,
depois de tantas palavras
o dom do silêncio
que purifica e recria.

Dá-nos,
depois das insatisfações que travam
a alegria como um barco nítido.

Dá-nos,
a possibilidade de viver sem pressa,
deslumbrados com a surpresa
que os dias trazem pela mão.

Dá-nos
a capacidade de viver de olhos abertos,
de viver intensamente.

Dá-nos
de novo a graça do canto,
do assobio que imita
a felicidade aérea
dos pássaros,
das imagens reencontradas,
do riso partilhado.

Dá-nos
a força de impedir que a dura necessidade
esmague em nós o desejo
e a espuma branca dos sonhos
se dissipe.

Faz-nos
peregrinos que no visível
escutam a melodia secreta
do invisível.

José Tolentino Mendonça, tirado daqui



EVANGELHO – Jo 6,24-35
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas
e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?»
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes milagres,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus,
marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?»
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus
consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que milagres fazes Tu,
para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra realizas?
No deserto os nossos pais comeram o maná,
conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu
para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

04 agosto 2012

Pensamentos impensados


Especiarias
A temperança é um condimento ou um condicionamento?
 
Alcunhas (assistida)
Chamava-se Pombo e era marreco; um dia chateou-se e disse: eu não me chamo Marreco, chamo-me Pombo.
Logo alguém disse: é a primeira vez que vejo um pombo com o papo nas costas.
 
Se não fosse o amarelo...
Portugal está em risco amarelo ou em riso amarelo?
 
Grito
Assisti à abertura dos Jogos Olímpicos e ouvi Paul McCartney; dado os meus rudimentares conhecimentos de inglês, não percebi bem o que disse: primeiro pareceu-me que disse é Julho! Pensei que era uma patetice da minha parte e, pensando melhor, vi que estava a referir-se a um político português, que foi muito badalado há uns anos, e agora não sei onde pára. Paul McCartney gritou: Ei Judas!
 
Traduções MY WAY
I have very feather. Tenho muita pena.

SdB (I)

02 agosto 2012

Cinema dos dias que correm (ou correram...)




Black, um filme de Sanjay Leela Bhansali, 2005

Uma história de amizade, com algo de amor, e de como ultrapassar a adversidade mais profunda. Cinema que parece teatro, actores que parecem mágicos, uma história que limpa por dentro, com os Himalaias em pano de fundo e os exóticos sons do hindi entremeados com o inglês. E uma Mrs. Gomes também! Recomendo vivamente.

PCP

...




conheci um rapaz que chovia
quando o inverno fazia das suas

fugia das noites, bebendo os dias
e comia o sol, para fugir das luas.

gi.

01 agosto 2012

Diário de uma astróloga – [31] – 1 de Agosto de 2012


As Olimpíadas

Sou uma fã incondicional dos Jogos Olímpicos e estes de Londres, que começaram dia 27 de Julho e vão acabar a 12 de Agosto, trazem um elemento suplementar ao prazer de ver os melhores atletas do mundo competir: ALIVIO… das notícias da crise, da mortandade na Síria, do desemprego em Espanha, dos lucros dos bancos em queda, do assassino louco dos Estados Unidos que metralhou 70 pessoas num cinema…

O momento em que vivemos, e que se prolongará por mais tempo, é dominado astrologicamente por uma conjuntura que liga duas energias pesadas e revolucionarias simbolizadas por Plutão e Úrano. Energias necessárias para lançar um novo paradigma … mas muito cansativas.

O espírito olímpico é dominado por Júpiter. O maior planeta do sistema solar representa a capacidade de acreditar em si próprio e na possibilidade de um mundo melhor. É uma energia optimista, ao contrário da de Saturno que tende para o pessimismo. 

Conta a lenda que Hércules, uma vez tendo acabado os seus 12 trabalhos, construiu o primeiro estádio olímpico em honra de Zeus, o rei dos deuses do Monte Olimpo. Zeus na mitologia romana passa a chamar-se Júpiter, mas as características que lhe são associados são as mesmas. O moto olímpico “Citius, Altius, Fortius” (mais depressa, mais alto, mais forte) é a expressão perfeita da necessidade jupiteriana de expansão, de ir mais longe, de nos ultrapassarmos, de procurar a luz ao fundo do túnel, o que, no caso dos atletas, quer dizer quebrar a o record com o olho na medalha de ouro.

Os primeiros jogos realizaram-se na Grécia entre os séculos VIII e o IV AC. Nessa altura as cidades- estados paravam de guerrear e dedicavam-se a competir com “fair play”.

Hoje em dia já não falamos de deuses, mas o Júpiter como arquétipo está presente nas nossas cartas do céu e na nossa personalidade. Por isso, fui com curiosidade astrológica investigar a data de nascimento do Barão Pierre de Coubertin, impulsionador dos Jogos Olímpicos da era moderna. Ele nasceu em Paris a 1 de Janeiro de 1863 e a sua infância foi marcada pela guerra Franco-Prussiana e pela Comuna de Paris. O Júpiter natal de Coubertin está em Balança, o que é o símbolo perfeito para uma pessoa que acreditou (Júpiter) na possibilidade de paz entre nações (Balança). Júpiter faz um ângulo de 180º com Marte em Carneiro, pelo que Coubertin conciliou as suas convicções sobre a paz internacional com a competição (Marte) individual (Carneiro).

Os Jogos Olímpicos não apareceram de um momento para o outro. Coubertin, com o seu poder organizativo simbolizado por Sol, Mercúrio e Vénus em Capricórnio, fundou primeiro o Comité Olímpico Internacional em 1894 em Lausanne. Esse Comité implementou os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna dois anos depois em Atenas. Na carta da fundação do Comité Olímpico Internacional Júpiter está em Gémeos, e não posso deixar de exclamar “grande (Júpiter), ideia (Gémeos) ”! 

Júpiter tem uma órbita de 12 anos, pelo que passa aproximadamente um ano em cada signo. Desde o dia 11 de Junho que está novamente em Gémeos, onde permanecerá até 25 de Junho de 2013.

Desejo a todos que gozem o alivio proporcionado pelo Jogos Olímpicos, a beleza do espectáculo de algumas competições e a emoção de ver quem vai ganhar mas, como a crise não se vai embora, as guerras e as mortes não vão acabar, proponho que, inspirados pelos atletas e por Júpiter em Gémeos, acreditem que é possível quebrar as barreiras físicas, politicas e económicas que nos mantêm manietados. Toca a ter grandes ideias de como o fazer, aproveitando a estadia de Júpiter em Gémeos!

Luiza Azancot

31 julho 2012

Duas últimas

O editor e dono do estabelecimento, no direito que lhe assiste de postar o que bem entender, enceta uma nova romagem de saudade. Recuamos ao início dos anos 70. Alguns dos leitores deste espaço dirão, do alto da sua juventude: eh pá!, nessa altura eu ainda nem tinha nascido...  Pois não, pois não. Mas eu também já postei Mozart e não lhe sou contemporâneo.

O meu querido amigo JdC, arredado por motivos de prioridades do Adeus, até ao meu regresso, apareceu cá em casa com um disco dos Creedence Clearwater Revival que lhe tinham oferecido. Ouvi-lo (ao disco) foi recuar quarenta anos, a tempos dos quais já aqui falei: namoros corados e puros, praias algarvias, jogos de cartas ao fim da tarde, cigarros escondidos, emoções fortes, postais ilustrados, primaveras marcelistas, verões longos, slows imóveis, iéiés ritmados, noites cálidas. Não me alongarei em considerações sobre o encanto desses tempos.

Deixo-vos com os Creedence Clearwater Revival, curiosamente nunca postados no Adeus. Para os que gostarem, ainda bem, voltem sempre. Para os outros, lamento, melhores dias virão. Agora é tempo de nostalgia, de fechar os olhos e recuar para meados dos anos 70.

JdB  




30 julho 2012

Vai um gin do Peter’s?

Sai-se revigorado do filme francês «AS NEVES DO KILIMANJARO»(1). Equivale a uma ida ao (ou vinda do) SPA. O título recupera uma versão antiga, com Ava Gardner(2), de 1952, embora só lhe aproveite a imagem de marca e a música. É um facto que a história inclui um projecto de ida ao Quénia, pelo que o nome da película faz todo o sentido. Os felizes contemplados são um casal a comemorar 30 anos de casados – Michel e Marie Claire – um feito nos dias que correm, sobretudo por  sintonizarem maravilhosamente.
Companheirismo que soube crescer diariamente

O cenário, as figuras e a base da narrativa parecem banais, situados numa França industrializada, onde o operariado desfruta de um nível de vida folgado, perfeitos burgueses num país rico do hemisfério Norte. São pequenos desvios na trama, que vão tornando especial e única a mais prosaica das existências.
O argumento inspira-se no poema magistral de Victor Hugo (1802-1885), «Pobres» (Les Pauvres Gens(3)), mais conhecido pelo famoso romance «Les Misérables», celebrizado nos anos 80 através do grande musical da Broadway: Les Mis.  Também no filme, à maneira de Victor Hugo, somos introduzidos nos meandros do sub-mundo dos desfavorecidos, quase sempre marginais agressivos. Os mais frágeis dos pobres são os preferidos pelo genial escritor francês, do tempo da Revolução Industrial, que tinha uma notável consciência social mas abominava a luta de classes e os confrontos sociológicos preconizados pelo comunismo emergente.
O realizador gaulês parte da condição de um líder sindicalista (o Michel) ainda cheio de ideal, apesar da idade avançada. Praticamente não se deixara acomodar, depois de todas as vitórias laborais somadas ao longo dos anos. Um puro que, um dia, teve a ousadia de se colocar na situação dos trabalhadores a termo, verdadeiros párias do mercado de trabalho. Quis partilhar a extrema vulnerabilidade deles. E as sortes permitiram-lhe, atirando-o de imediato para o desemprego –  é a primeira surpresa. Das fortes.
Os colegas olham-no estupefactos e incrédulos, com a noção de que as sortes poderiam tornar tudo irremediável…

A segunda surpresa é a reacção incrivelmente mansa e compreensiva da mulher, confiante nas opções do marido, incluindo as mais imprudentes, para muitos – irresponsáveis! A espantosa ternura entre ambos, fruto de um longo crescimento em conjunto, está na base do bom entendimento do casal. Entre os dois, os silêncios cúmplices ainda flúem melhor do que as palavras trocadas.
A terceira surpresa está na vida de família alegre, simples e intensa, conseguindo ser aquele espaço alargado de companheirismo e ânimo de vida, onde os amigos gostam de se vir acolher. Lembra as árvores ancestrais dos jardins antigos, de copa generosa, onde todas as aves das redondezas encontram lugar. Ali reina sempre um festim de chilreios e animada confusão.
Só a mãe aceita sem objecções o desemprego do pai

Na sequência do festim da família vem um presente extraordinário, resultado da colecta dos muitos amigos do casal. O pico do Kilimanjaro entra, então, no horizonte!
A acção, até aqui pautada por uma afectividade rica e descontraída, acessível a todos, baseando-se no gozo dos pequenos bons momentos do dia-a-dia, sofre um revés grotesco, com um assalto violento. Aqui introduz-se uma nota de mal, típica da actualidade (sub)urbana, com todos os ingredientes a que já estamos, infelizmente, q.b. habituados. E logo é a viagem espectacular o principal móbil do crime! Quem diria que um bem dá tanto pretexto ao mal.
A quarta surpresa, ao estilo de Victor Hugo, faz desviar a câmara para o assaltante, revelando-nos o rosto humano e dorido do encapuçado, que tínhamos detestado segundos antes… Esta capacidade de nos aproximar de perspectivas e experiências de vida que nos são estranhas e nada atractivas (ou sequer recomendáveis), reevoca a história do pescador do século XIX, contada no poema LES PAUVRES GENS, cujo desfecho o realizador do século XXI transpõe directamente para o filme.
Essa quarta surpresa abre uma caixa de pandora, reveladora da realidade do assaltante. Segue-se uma catadupa de novos acontecimentos, a começar por uma nova agressão, mais insidiosa, precisamente ao sindicalista puro e magnânimo, que considerara ter tido uma atitude bem solidária com os colegas de trabalho mais pobres, ao arriscar o desemprego. Só que os mais pobres não lhe agradecem, pois nem reconhecem o mérito do gesto! Antes atacam-no, acusando-o de má estratégia laboral, além de se indignarem com a enorme desigualdade entre uns e outros, apesar de partilharem a mesma condição de desempregados. A agressão moral e intelectual desferiu um golpe mais feroz que a do assalto, desestabilizando totalmente o manso Michel. Foi o descontrole do marido (e não o ficar sem emprego) que Marie Claire teve dificuldade em acatar, pois não se quadrava com o seu sentido de lealdade e grandeza humana, onde não há lugar para os ataques de fúria de quem está por cima – puras usurpações de poder (à escala de cada um).
A raiva perante a segunda acusação acabou por evoluir para a compaixão perante a óbvia dureza de vida do ladrão insolente, com dois irmãos menores a seu cargo. Marido e mulher, que somavam 30 anos de óptima cumplicidade, experimentam uma nova sintonia, algo imprevista, onde se apanham a olhar a dificuldade alheia, exactamente do mesmo modo, apesar de  ser uma bizarria para as outras pessoas. Percebe-se que o diagnóstico semelhante encaminha-os também para uma solução igual, ancorados na mesma humanidade, tão generosa, que os faria sentirem-se paupérrimos se não a pudessem partilhar com os marginalizados. Sobretudo menores e inocentes. Essa era a sua profunda consciência social – a mais rara, útil e muito acima de qualquer ideologia.  
A viagem de sonho às neves eternas do Kilimanjaro fizeram-nos ascender a maiores alturas – àquelas que dão a estatura do ser humano, como afirma Pessoa (pelo seu heterónimo, Alberto Caeiro): «Porque eu sou do tamanho daquilo que vejo / E não do tamanho da minha altura.». Num jogo de teenagers, o velho casal diverte-se a imaginar os animais selvagens que encontrariam nos safaris do Quénia, sugeridos pelos diversos banhistas que observam na praia. A nova opção de vida, sempre a dois e sempre aberta aos demais, fizeram-nos preferir outras paragens, menos exóticas, mas não menos emocionantes.
Preferem outro prémio, onde a sua presença é imprescindível
Interessante o choque de gerações ao longo do filme, no sentido inverso ao comum, com os mais seniores a ganharem aos pontos… no diálogo com os filhos, na resposta final ao jovem assaltante.
Interessante o sentido de universalismo da sociedade, próximo de Victor Hugo (nada adepto da diferenciação por classes), em que de todas as janelas se vislumbra a azáfama de guindastes, no porto de Marselha. O realizador explica como a vista de todas as casas é igual – seja nos condomínios de luxo, seja nos bairros sociais --  numa metáfora que exalta os valores comuns a qualquer ser humano. 
Interessante registar o efeito de choque que as decisões mais generosas provocam em redor. Essas sim, verdadeiras revoluções, nem sempre bem quistas, sobretudo – ironia das ironias – pelos mais novos!
Interessante ainda o ânimo inquebrantável de Marie-Claire, que prescindira de ser enfermeira, por dar prioridade à família. Tem a arte de se divertir sobriamente com as realidades comezinhas, na esplanada frequentada por miúdos da idade dos filhos, a saborear uma bebida apetitosa que o barman-“psicólogo” recomendou para a situação dela. Com humor, pediu logo dose dupla, porque a sua vida merecia-o! Nem hesita em trocar as patuscadas com as amigas, pelo apoio a crianças desamparadas, mantendo a boa disposição de quem vem das patuscadas.
O gosto pelas pequenas coisas é uma escolha assumida pelo realizador: «Adoro infinitamente as coisas banais que acontecem na vida todos os dias: café, recados, discussões… No cinema são os pequenos detalhes do quotidiano que, colocados na narrativa, acrescentam camadas e profundidade. (…) E filmo-as (…) de forma muito simples, para não contar nem mais nem menos do que elas são, sem qualquer sofisticação em particular: como a própria vida!» 



Interessante história que, ao lembrar les pauvres gens com o olhar de quem os reconhece feitos da mesma massa que todos os outros, nos desafia a repensar na vida e nos outros. O tempo de férias vem a calhar.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 
_____________
 (1) FICHA TÉCNICA

Título original:
LES NEIGES DU KILIMANDJARO
Título traduzido em Portugal:
AS NEVES DO KILIMANDJARO
Realização:
Robert Guédiguian
Argumento:
Robert Guédiguian e Malek Hamzaoui
Produzido por:
Robert Guédiguian, Jean-Louis Milesi
Fotografia:
Pierre Milon
Banda Sonora:
Pascal Mayer
Duração:
107 min.
Ano:      
2011
País:
França

        Elenco:

Ariane Ascaride (mulher do casal, Marie-Claire)
Jean-Pierre Darroussin  (o marido, Michel)
Gérard Meylan  (cunhado de Michel, também sindicalista)
Marlyne Canto  (irmã de Marie-Claire)
Christophe         (assaltante)
Ana*is Demoustier (filha, Flo)
Adrien Jovilet  (filho, Gilles)
etc.
Local das filmagens:
França
Site oficial:

http://diaphana.fr/film/les-neiges-du-kilimandjaro

Pálmarés e distinções

Prémio Lux do Parlamento Europeu

Selecção Oficial no Festival de Cannes
Prémios do Melhor Filme e do Público no Festival de Valladolid.


(2) Película norte-americana com grandes actores: 


(3) Link para aceder ao poema na língua original: http://poesie.webnet.fr/lesgrandsclassiques/poemes/victor_hugo/les_pauvres_gens.html

29 julho 2012

Domingo …. Se Fores à Missa!

Mais do que as palavras, a minha empatia hoje vai para aqueles que têm fome …. não a fome relativa de quem tomou o pequeno almoço cedo e, ao meio dia, diz “tenho fome”, mas sim a fome de quem não tomou o pequeno almoço hoje, nem ontem, nem há 3 dias. Fome, na verdadeira acepção da palavra. Fome que mata e faz matar. Fome que resulta, tantas vezes, de injustiças impiedosas, do egoísmo de alguns, da falta de misericórdia de outros.
Não consigo, sequer, imaginar o que será sentir fome e não ter nada para saciá-la; não consigo imaginar o que será passar uma vida inteira, com fome, sem nada para comer, dia após dia,  ano após ano. Estamos tão habituados a ter comida, em cima da mesa, diariamente; à distância de um braço nas prateleiras do super-mercado; à distância de uma ementa num restaurante qualquer. Já nem nos preocupamos em saber de onde vem, onde foi semeada, colhida ou tratada. Tudo nos chega, de mão beijada, já pronto e confeccionado. Para nós é um dado adquirido a existência de super-mercados e de restaurantes, onde a comida não falta.  Para outros, subsiste a dúvida se hoje conseguirei comer uma batata que seja!
Como é possível que uns tenham tanto e outros nada ? Será que, alguma vez, na história da humanidade conseguiremos chegar a um equilíbrio,  a uma distribuição igualitária de alimentos, de oportunidades e de direitos?  Não sei responder a essa questão.  Acho, no entanto, que todos podemos contribuir para esse fim, fazendo a diferença, partilhando, distribuindo, não acumulando, dando o que se tem a mais, dando a quem tem menos que nós.

Domingo, Se Fores à Missa …..  Partilha !

MAF

EVANGELHO Jo 6, 1-15
«Distribuiu-os e comeram quanto quiseram»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades.
Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?».
Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?».
Jesus respondeu: «Mandai-os sentar».
Havia muita erva naquele lugar e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer:
«Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.

Palavra da salvação.

28 julho 2012

Pensamentos impensados

Contorcionismo
Devido a problemas de coluna já se me torna difícil chegar aos pés;
Ou seja, não estão do pé para a mão.

Culinária
As cebolas eram tão boas que eram de cortar e chorar por mais.

Tradu...sons
Na semana passada falaram-me em Tall Ship Race; como a informação foi oral, e não escrita, não percebi do que se tratava; só me veio à cabeça uma raça de batatas fritas que pagava portagem: Toll Chip Race.

Soberano
O nosso coração comanda a vida; o nosso coração comanda a morte: o nosso coração é mais um órgão de soberania.

Provérbio
Água mole em pedra lascada, tanto dá...até que fica sem nada.

SDB (I)

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