10 setembro 2012

Vai um gin do Peter’s?


Desde meio de Julho que o Metro estendeu a sua rede ao aeroporto de Lisboa, oferecendo uma alternativa de acesso muito confortável e rápida para os viajantes. 

Na nova estação sobressaem os cartoons de António a evocar figuras públicas da portugalidade, nos dois últimos séculos, aplicadas sobre o revestimento de azulejo branco, que faz o efeito de tela. Nem todas são notáveis. E nem todas são, sequer, especialmente conhecidas, até mesmo pelas más razões. De facto, a escolha é discutível! 

Ainda assim, num desfile histórico com uma selecção algo redutora, aparecem inúmeras personalidades maiores, como: Pessoa, Almada, Sophia, Mª Helena Vieira da Silva, o benfeitor da cultura nacional –Gulbenkian, Mª João Pires, O’Neill, Amadeo de Souza-Cardoso, Eça, Bordalo, Nemésio, Pomar, Duarte Pacheco, Amália, Carlos Paredes, Egas Moniz, Cesariny, Sacadura Cabral e Gago Coutinho, Vergílio Ferreira, Villaret e até Sá Carneiro, entre outros que merecem destaque. 

A par das celebridades, também surgem nomes menos compreensíveis, neste contexto, como: Stuart Carvalhais (da B.D.), os arquitectos Cassiano Branco e Pardal Monteiro, António Sérgio (pensador e político), Solnado ou os quatros fundadores dos maiores partidos da III República, parecendo querer garantir palco às forças políticas com maior assento na Assembleia. Não há dúvida de que os políticos têm tendência para se levar muito a sério… 

Sente-se a falta de: Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Manoel de Oliveira, Siza Vieira, Fontes Pereira de Melo, a célebre Ferreirinha (Antónia Ferreira – empresária talentosíssima do século XIX), Régio, Agustina, Alfredo Keil, o Pe. Américo, Rosa Mota e António Champalimaud, entre outros. 

Embora o traço nem sempre seja feliz, resultando em imagens histriónicas e pouco buriladas, não lhes falta expressividade nem semelhança com a figura representada. Quase todas já morreram, salvo um par de excepções, como a grande pianista, a pantera negra do futebol, Júlio Pomar, Soares ou Freitas do Amaral.  

Aqui vai uma visita antecipada à nova estação: 




Apetece aterrar em Lisboa…

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

09 setembro 2012

Domingo …… Se Fores à Missa !


 Há um mês, comentava eu que não conseguia imaginar o que seria ter fome, já que estou tão habituada a ter a comida em cima da mesa, sem grande esforço. Privilegiada !

Hoje, dou comigo a pensar o que seria não ter língua para falar, ouvidos para ouvir, olhos para ver. Dizem que os surdos-mudos são pessoas extremamente felizes e tranquilas.  Acredito, plenamente, que o sejam.  O facto de não estarem, diariamente, expostos aos ruídos da civilização moderna,  proporciona-lhes um silêncio interior, só comparável – penso eu – ao dos monges tibetanos.

É certo, também, que nunca conhecerão uma sinfonia de Beethoven, o chilrear de um passarinho ou o riso de uma criança, embora, ao que parece, eles consigam sentir a vibração das notas musicais.

Considero o silêncio um bem escasso, difícil de encontrar nos dias de hoje e mais difícil, ainda, de manter. Mesmo quando a nossa boca está calada, a nossa mente não pára de falar, os nossos ouvidos não param de escutar. Tento ir, uma vez por semana, a um local tranquilo, ali para os lados do Palácio da Ajuda, onde nos ensinam a meditação “Raja Yoga”. Apesar do nome, a meditação “Raja Yoga” nada tem a ver com Yoga ou com práticas de defesa pessoal. Tem a ver com o silêncio interior, com práticas de espiritualidade, com paz e harmonia, com a arte dos bons relacionamentos, com a natureza e o que ela nos pode dar.  Ensinam-nos a travar o ruído exterior e a concentrar-nos no silêncio interior.  Às vezes, quando lá estou, lembro-me dos surdos-mudos e penso como, para eles, será tão fácil entender este conceito do silêncio interior.

No Evangelho de hoje, Jesus opera um milagre no surdo-mudo e fá-lo ouvir e falar.  No mundo de hoje, precisávamos de um milagre diferente; precisávamos que o milagre se operasse no nosso coração, por forma a deixarmos de ser surdos-mudos para a realidade que nos rodeia, para as injustiças, para a violência, para a miséria, para a prepotência e arrogância.

Domingo, Se Fores à Missa ………. Procura o Silêncio Interior !

Maf

  
EVANGELHO Mc 7, 31-37

«Faz que os surdos oiçam e que os mudos falem»

Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar correctamente. Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém. Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam. Cheios de assombro, diziam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

Palavra da salvação.

08 setembro 2012

Pensamentos impensados


Odores
O ministro Álvaro disse que o Governo não pode baixar os braços; pode e deve, pois o que tem feito cheira a sovaco.
 
Neologismo
Leio nos jornais que Portugal está a perder competitividade; a culpa é do supra citado Álvaro que baniu a palavra competitividade e diz competividade.
 
Olimpíadas
Qualquer desporto pede atleta.
 
Libações
A Princesa Margarida. irmã da Rainha Isabel II, "gostava do seu copinho". Essa actividade era conhecida como drinks de princesa.
 
Medidas
Qual será a altura mínima para se estar à altura das circunstâncias?

SdB (I)

06 setembro 2012

Fotografias dos dias que correm

Ontem, por volta das 7.15 da manhã, no paredão do Estoril

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, something a little unusual this week, a little eclectic: An orchestra performing without instruments!
The National Youth Orchestra of Great Britain appear every year during the BBC Proms classical music festival at the Royal Albert Hall in London. I have watched them many times and they are, of course, exceptionally talented young musicians and inspiring to watch.
This year they presented a new work, specially commissioned for them, by contemporary composer Anna Meredith.
This piece, ironically as you will discover, is called HandsFree. It is fun and unexpected, especially because they are performing in such a grand and venerable institution. Imagine a "flash mob" of gospel singers, let's say, in Jeronimos.
From the point of view of the musicians, one of the NYOGB principal percussionists described the experience like this:
"HandsFree has been a fantastic journey this year; showing the NYO in a completely new, fun and accessible light. One of the really great things about it is that it bridged any possible gaps within the orchestra and also enabled players to come to know even more people in other sections, which consequently helps the overall teamwork and enhances our playing greatly. I have especially enjoyed being a team leader, which meant leading group rehearsals and teaching the piece, and these skills will definitely help me later in my career. HandsFree is perfect for the NYO as it requires huge amounts of skill and concentration but also shows our virtuosity and musicianship!"





A proxima.
PO

05 setembro 2012

Ponto de Vírgula

(...) Que pretendes dar-lhes para o almoço?  
   - Ovos cozidos e sanduíches de galinha.
   - Absurdo. Ninguém pode fazer um piquenique sem páté de fois gras. Precisam de levar, em primeiro lugar, camarões com caril: peito de galinha em gelatina, com uma salada de alfaces tenras, que eu mesmo prepararei: e depois do páté, se quiseres, como concessão ao hábito nacional, uma torta de maçã.
   - Levarão ovos cozidos e sanduíches de galinha, Elliott - declarou Mrs. Bradley, em tom decidido.
   - Pois bem, toma nota do que te digo: vai ser um desastre e a culpa será tua.

in  O fio da Navalha, Somerset Maugham


Caril de Camarão

Ingredientes:

100 g de cebola picada
3 a 4 dentes de alho
60 g de Vaqueiro Líquida
erva limeira fresca (opcional)
600 g de miolo de camarão calibre 30/40
2 colheres de sopa de polpa de tomate
1 colher de sopa de caril (picante ou suave, consoante a sua preferência)
3 dl de leite de coco
sal
1 maçã
coentros picados

Preparação:

Aloure a cebola e os dentes de alho, descascados e picados, num tacho com a Vaqueiro Líquida. Perfume com uma haste de erva limeira picada, se a conseguir encontrar. Deixe a cebola começar a alourar e junte o miolo de camarão. Quando o camarão começar a ficar rosado, adicione a polpa de tomate e polvilhe com o caril. Misture bem e deixe suar, tapado mais 5 minutos. Regue com o leite de coco e tempere com sal. Junte a maçã descascada e ralada e deixe apurar destapado, mexendo de vez em quando.

Polvilhe com coentros picados.

Nota: receita tirada daqui

MFM

04 setembro 2012

Duas últimas

Há uns dias, nestas romagens nostálgicas a que sempre me atiro, e vencido, também, por uma certa falta de inspiração para o blogue, fui ver o que estava a fazer naquele exacto momento, mas em 2008, quando estive no Zimbabwe. A crónica relatava o meu primeiro e único safari - uma experiência de luxo a preços módicos, um contacto próximo com a natureza africana, os animais à distância de um bafo. No dia anterior tinha escrito para Portugal, no que seria o princípio de uma conversa muito interessante e profícua, assente, também, em Mia Couto. Outra coincidência significativa.

Ontem, ao ter de escrever para a crónica Duas Últimas, fiz o mesmo exercício. Dia 3 de Setembro de 2008 estava a usufruir de uma das experiências que mais impacto teve nos meus sentidos: a subida à montanha mágica de Ngomakurira (a crónica pode ser lida aqui, para quem tiver vontade e paciência). Por mais anos que viva não esquecerei este dia, não só pela simpatia do convite, pela beleza esmagadora da paisagem mas, também, pela sincronicidade: ao meu lado, por puro acaso do destino, caminhava uma pessoa que não me conhecia (nem eu a ela) e me levaria, no dia seguinte, à ala das crianças com cancro de um hospital de Harare.

Tive a sorte de viajar muito, sozinho ou acompanhado, com amigos ou em família. Sem desprimor por todas as viagens e por todas as companhias, nada se comparará nunca ao Zimbabwe - até pelas circunstâncias em que fui. Ali encontrei tudo: beleza, extensão, cor, música, ritmo, simplicidade, amizade, companhia, saudades, futuro. Entre a sensualidade de uma dança no Pointe e o destino de uma casa no Macuti transformada em orfanato, tudo se aproveitou, de tudo se construiu alguma coisa.

Peço desculpa, mas hoje é dia de Zimbabwe (embora a música seja sul-africana). Vejam o vídeo e dancem.

JdB
    

03 setembro 2012

Músicas dos dias que correm




Sou grande fã da Adele. E deste vídeo muito em particular. Porque tudo nele é profundamente bonito. Do look so 60's da intérprete à sua voz modulada e quente, do maravilhoso cenário do Royal Albert Hall aos vários planos no decurso da homenagem à Amy Winehouse (uma das suas músicas preferidas, como diz Adele), da qualidade do vídeo à descontracção da cantora (tão refrescante, tão total e completamente anti-star), da beleza e sentimento das letras (a primeira de Bonnie Raitt, a segunda de Bob Dylan) à emoção provocada na assistência...  deve ter sido um grande, grande concerto. Gostava imenso de lá ter estado. Espero que gostem. 

pcp

02 setembro 2012

22º Domingo do Tempo Comum


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Falar sobre o evangelho de hoje é falar de leis, um tema sobre o qual não é fácil discernir no princípio de uma manhã de sábado que se prevê de muito calor. Mas as leis da Igreja são um tema importante e, quantas vezes, fracturante - para usar uma palavra muito em voga. De facto, não são raras as vezes que o que separa um cristão de um católico (ou, num linguagem mais actual, um católico não praticante de um católico praticante) são, exactamente, as leis. Alguém que não teve experiência religiosa quase nenhuma dizia-me várias vezes (e cito de cor): eu até gosto da ideia, não gosto é das regras do clube...

A Igreja Católica está repleta de leis. Não conheço a fundo as outras religiões, mas vou pensar que a realidade será semelhante, independentemente da quantidade ou nível de exigência. Muitas das leis nasceram num determinado contexto histórico que já não existe, pelo que muitos poderiam considerar que pura e simplesmente deveriam ser eliminadas. Um exemplo comezinho está na proibição da carne à 6ª feira durante a Quaresma. Por motivos que já não vale a pena explicar aqui, a lei não é para ser tomada à letra. Tem outro sentido, bastante óbvio - o do sacrifício, não em nome da mortificação do corpo, mas em nome de qualquer coisa maior.

Para os católicos a santidade é o objectivo de vida e as leis devem ser encaradas como caminhos de perfeição, numa tentativa de nos aproximarmos de Deus e de nos assemelharmos a Ele tanto quanto é possível. São desafios que servem para nos ajudar, não para tornar a nossa vida num inferno. Há leis difíceis? Seguramente que há! Há leis que parecem ser menos ajustadas? Pois há com certeza, e é por isso que se evolui, que se debate dentro da igreja, que se muda, por mais lentamente que seja. Mas querer só leis que não sejam exigentes, ou reduzir a moldura legislativa ao re-casamento ou ao celibato dos padres parece-me pobre e, sobretudo, pouco desafiante.

A qualidade do nosso catolicismo não se mede pelo número ou evidência das leis que cumprimos. Não cumprimos leis para os outros verem, não contabilizamos nada. Deveríamos fazer tudo isto recatados e discretos, para que este caminho que nos levará ao céu seja percorrido na companhia de Jesus, não de um holofote.

Hoje irei à missa, como sempre. Não porque é uma regra, mas porque é uma ferramenta que fará de mim (espera-se...) um homem melhor. 

Bom Domingo para os que me lêem (hoje ligeiramente mais extenso).

JdB

***
          
EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas,
como está escrito:
‘Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.
Vós deixais de lado o mandamento de Deus,
para vos prenderdes à tradição dos homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar impuro.
O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».

01 setembro 2012

Pensamentos impensados

Calistices
Não era supersticioso mas entrava sempre com o pé direito; perdera a perna esquerda num acidente.

Estação ou apeadeiro?
Costuma chamar-se "silly season" quando a política vai de férias; nada mais errado.
A "silly season" começa quando abre a Assembleia da República e vêm os deputados debitar patacoadas, frases feitas e promessas.
Outra fase da "silly season" também surge quando começa o futebol; os treinadores debitam patacoadas, frases feitas e promessas.

Transvases
Vi na SIC: escola de surf despejada.
Despejaram o oceano? Para onde? Para os lagos do Rossio?

Transplantes
O Dr. Eduardo Barroso deve ter maus fígados; o que é que ele faz aos fígados podres que transplanta?

Traduções MY WAY
Steak with an egg digging it - Bife com ovo a cavalo.

SdB (I)

30 agosto 2012

Moleskine

Paredão. Sempre que possível, por volta das sete da manhã (07.10h, para os mais puristas), atiro-me a uma caminhada de mais de uma hora junto ao mar. Não levo música para não me distrair do ritmo e aproveito o tempo para redigir mentalmente cartas que vou escrever, para pensar na minha vida, para imaginar um texto para um post, ou para esvaziar a cabeça de toxinas. Cruzo-me sempre com as mesmas pessoas: a senhora francesa, sobre a qual escrevi um texto, que reza fervorosamente o terço; gente mais velha do que eu, que corre com uma energia incomodativa revelando T-shirts de várias mini-maratonas; a mulher de um amigo que caminha decidida para o seu local de trabalho, não imaginando eu se já lá chega suada; o senhor gordo, de chapéu de palha e de jornal na mão, que se senta revelando umas costas prolongadas para além da estética e do pudor; duas amigas sexagenárias que caminham lampeiras para um banho matinal; gente com personal trainers a apurar a forma física, desconhecendo que um homem desta idade sem um pouco de barriga é um possidónio. Se for uma hora mais tarde encontrarei outras pessoas, que serão quase sempre as mesmas dia após dia. Em comum têm o facto de sobre elas se poderem inventar histórias: sexo tórrido ao som de Quim Barreiros, cozinhados sensuais numa nudez tapada por um avental, uma masculinidade evidente denunciada por brincadeiras no chão com um casal de caniches, uma fé fervorosa que é temperada pela leitura compulsiva de livros sobre ritos satânicos. E tantas outras ao dispor de imaginações férteis... .  

Paredão do Estoril, 28 de Agosto, por volta das 07.15h da manhã (tirada com um iphone)

Universidade. Em boa hora desafiado por uma amiga, decidi inscrever-me numa pós-graduação (Artes da Escrita, Universidade Nova). Os motivos eram vários: aprender, aprender, aprender; recuperar hábitos de estudo, aceder a mais mundo, ganhar agilidade intelectual, desenvolver a minha forma de escrever ou mudar radicalmente, explorar novas portas. Alguns dos professores ofereciam poucas dúvidas: Gonçalo M. Tavares, Luísa Costa Gomes, Mário de Carvalho, Ricardo Araújo Pereira, para citar apenas os que eu conhecia. 2ª feira fui tratar da burocracia, eu que saíra da faculdade em 1984. 
A diferença entre uma secretaria nessa altura e agora? A existência da internet. O resto pareceu-me pouco diferente: notícias desconexas, falta de informação básica, desconhecimento por parte do pessoal, etc. Alguns exemplos: no site diz que é preciso uma fotografia, não especificando que tem de ser obrigatoriamente digital. Mandam-nos responder a um inquérito com preenchimento do nome da mãe e do pai. Será relevante? As empregadas da secretaria falaram comigo - que tenho 54 anos e aparento 54 anos - como se falassem com um aluno de 18. Exigia tratamento diferente? Exigir não exigia, mas achava adequado. O jovem do inqueritozinho (expressão dele) correu com duas jovens que navegavam num computador e, perante a minha preocupação sobre a extensão das perguntas, sussurrou-me para não responder a algumas. A minha orientação sexual, indaguei eu? Sorriu, como se não quisesse revelar a sua. 
Enfim... Voltarei à escola 31 anos depois de ter posto os pés numa faculdade, e de ter visto um professor a dar uma matéria que me pareceu ser de outro curso, tal o espanto. Será que agora conseguirei aprender tudo sobre tudo? Chumbarei? Serei castigado? O Ricardo Araújo Pereira fará um sketch sobre mim do tipo idoso obeso com bom nome chumba na cadeira de escrita para comédia...?     

Livro. Leio Pepetela pela primeira vez (A Sul. O sombreiro) oferta do meu amigo JdC. O começo não pode ser mais auspicioso. 1ª linha do 1º capítulo: Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho da puta. Estes são os inícios certos para um livro, porque nos agarram logo pelas ventas num qualquer escaparate da FNAC.   

JdB    

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