08 outubro 2015

Do gosto pelo frio

No seu ensaio Nautilus (1975, parece-me, e já citado neste estabelecimento) Roland Barthes afirma: 

"O gosto pelo navio é sempre a alegria do enclausuramento perfeito, do domínio do maior número possível de objetos, do ato de dispor de um espaço totalmente finito: amar os navios é, antes de mais nada, amar uma casa superlativa, porque fechada sem remissão, e de modo algum as grandes e indeterminadas partidas. O navio é uma ação do habitat, antes de ser um meio de transporte. Ora, todos os barcos de Júlio Verne são, realmente, perfeitos ambientes de aconchego, e a grandeza de seu périplo aumenta ainda mais a felicidade de sua clausura, a perfeição de sua humanidade interior. Sob este aspecto, o Nautilus é a caverna adorável: o prazer da clausura atinge o seu paroxismo quando, no seio dessa interioridade sem fissuras, é possível ver através de uma imensa vidraça o vago exterior das águas e assim definir assim num mesmo gesto o interior pelo seu contrário."

Por seu lado, na sua História do Fado, Pinto de Carvalho refere a “(...) teoria de Mantegazza, que, discreteando a respeito da mímica como expressão dos afectos e movimentos físicos, diz que a alegria é centrífuga, enquanto que a dor é centrípeta.”

Só aparentemente há dissociação entre estas duas citações. E a ligação entre ambas é tão forte que consigo ainda juntar-lhe um outro vector sem que nada se perca: o apreço pelo frio como revelador de uma insegurança. Raciocinemos:

É muito pouco provável que o gosto pelo frio ou pelo calor esteja na ordem do conforto corporal mais físico. Isto é - ainda que não possamos afirmar, categoricamente (e cito), que "o frio é um estado de espírito" - podemos dizer que, tomadas as devidas precauções de roupa em quantidade qb, o que define se gostamos de temperaturas elevadas ou baixas é o nosso interior mais profundo, não uma infinidade de sensores à flor da pele que enviam sinais para o cérebro. 

O frio, tal como a música triste, é centrípeta. O frio convida ao recolhimento, ao gorro, à gola levantada do sobretudo, à proximidade com a lareira, ao aconchego de uma manta. O calor, pelo contrário, é centrífugo: convida às janelas abertas, aos grandes espaços, às bebidas alegres, aos sorrisos rasgados, aos movimentos amplos. Assim, o gosto pelo frio (e podemos aqui acrescentar o tempo outonal, o nevoeiro, o encurtar dos dias) revela, não uma resistência à intempérie ou uma mentalidade depressiva, mas um movimento de recolhimento. Gostar do frio é gostar do conforto da casa com tudo o que isso representa. Talvez gostar do frio não seja então um simples prazer - como ouvir música ou cozinhar ou conviver com amigos - mas também uma fragilidade, uma necessidade. E se entendermos que o movimento centrípeto da existência humana é a tal "felicidade da clausura", podemos então afirmar que o frio é uma espécie de Nautilus. Gostar do frio é ter a necessidade do "perfeito ambiente do aconchego." E nesse sentido, a nossa apetência pelas temperaturas altas ou baixas é reveladora, apenas, de uma aparente (in)segurança.

Gostar do frio (ou do nevoeiro, ou do cair da folha) ou de calor não revelam apenas resistências físicas, mentalidades depressivas ou alegres. O gosto pelas temperaturas altas ou baixas diz-nos muito mais das pessoas do que se pensa. Não ficamos tristes porque gostamos do frio nem gostamos do frio porque somos tristes. Não há aqui gosto, como quem se atira a um pop ou a uma milonga, mas necessidade. "Apreciar" o frio e, nesse sentido, a dor centrípeta é, tão só, uma metáfora para a procura de uma segurança. 

JdB

07 outubro 2015

Poemas dos dias que correm

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

***

Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca. 

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte. 

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca' 

06 outubro 2015

Da gestão da consciência

Escrevi o texto abaixo há sete anos (e daí a estranheza do hoje é Domingo, ou do empate de Portugal com a Suécia..). Lembro-me por que motivo o escrevi, as circunstâncias do meu pensamento que mo levaram a fazê-lo, o meu interlocutor daquele sábado. Nem todos os textos que repesco são datados, como se fossem uma peça de mobiliário de estilo definido no tempo. Este está datado apenas pelo facto de ter sido escrito numa época específica, em que eu era o que era e a minha circunstância. Mas, acredito, continua válido, pese o estilo e um ou outro raciocínio mais ultrapassado.

JdB

***   


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico…

Portugal empatava ontem a zero com a Suécia (presumo que fosse o segundo objectivo, nesta hierarquização de propósitos) e eu encetava uma conversa interessante com quem me fazia companhia numa noite de sábado outonal – a gestão da nossa consciência. O título da cavaqueira é meu, mas parece-me que resume, pouco mais ou menos, o que foram aquelas horas de um debate pacífico, sossegado - e esclarecedor, tanto quanto era possível.

Parece-me que há alguma tendência nos dias de hoje (e estou a fazer uma avaliação por baixo) para um excesso de individualismo. Com os meus pedidos de desculpa prévios pelos que se sentirem injustamente atingidos, estou convicto de que a generalidade das recomendações para a recuperação de infelicidades, neurastenias, depressões, tristezas profundas ou nostalgias passam por atitudes individuais de demanda da satisfação: tem de se preocupar consigo, a sua alegria é que importa verdadeiramente, olhe primeiro para si próprio. Se tudo isto funciona em determinados casos – não sou fundamentalista ao ponto de dizer que não -, noutros há em que perverte a escala de valores em que alguns de nós se revêem, e abre portas para o primeiro eu, depois os outros, esquecendo que a felicidade está, tantas vezes, no dar-se.

Quando a nossas opções conflituam com o conforto de terceiros as decisões e os impactos são mais claros, ainda que não mais fáceis. A dificuldade residirá, provavelmente quando as nossas escolhas não prejudicam ninguém, não entram em rota de colisão com quem quer que seja, não se revestem de uma roupagem que diminui a vida de quem nos rodeia. Em todas as alturas poderemos pensar que a escolha de um certo caminho vai prejudicar os interesses de A ou B, ou é intrinsecamente errada à luz de uma cultura que é transversal a quase todos, de um quadro legal em que vivemos. Talvez sigamos essa via, mas no outro prato da balança está um próximo, um outro que poderá sofrer com isso.

Mas, e com este raciocínio termino, quando as escolhas conflituam apenas com os nossos próprios princípios, quando estamos certos de que ninguém sairá prejudicado (tantas e tantas vezes antes pelo contrário), diminuído ou apoucado – a não ser a nossa consciência ou aquilo em que acreditamos – como fazemos esta gestão? Como fazemos uma escolha entre um quadro de valores de que somos herdeiros (e no qual de alguma forma acreditamos) e uma opção que não afecta directa nem indirectamente terceiros? Como vivemos com o escrúpulo e com o merecimento, com a tranquilidade do corpo e o incómodo do espírito, com o sorriso na boca e a ferida na alma?

O facto de termos um blogue dá-nos este direito invejável: publicar o que nos apetece – dentro dos limites da civilização e do respeito – sem termos de nos preocupar sobre se as nossas palavras são precisas, politicamente correctas, cientificamente provadas. Talvez termine o post de hoje em vírgula. O tempo de que disponho não é muito – e não fará mal se cada um dos leitores resistentes interpretar este texto à luz de uma realidade própria.

05 outubro 2015

Pensamentos Impensados

Especial eleições
Pensamentos Impensados gostaria de ter escrito sobre eleições, no Sábado que passou, mas não o pôde fazer por imperativos legais; mandaram-m reflectir, e foi o que fiz. 
Comecei, logo  de manhã, por olhar para o espelho que reflecte a minha cara com fidelidade. Em seguida limpei os vidros reflectores do meu automóvel. Em terceiro lugar, fui a um sítio onde há eco e gritei a pleno pulmões; o som foi reflectido.
Aposto que a maioria das pessoas nem uma reflexão fizeram. 
No dia das eleições vi algumas cenas das pessoas que votavam; as "personalidades"debitaram as banalidades do costume; fixei uma declaração do Ricardo Salgado que afirmou ter ido cumprir o deve rcívico. O seu primeiro dever cívico era não ter aldrabado os clientes do BES.

SdB (I)

Vai um gin do Peter’s?

É sobejamente conhecido que, lá fora, os portugueses dão cartas. Será qualidade das chefias? Ou do ambiente de trabalho mais bem estruturado e de meritocracia? Ou por serem os mais empreendedores a sair? Embora sejam razões que ajudam a explicar um caso ou outro, não se aplicam a todos, até porque muitos dos portugueses bem-sucedidos singram em mercados caóticos e nada profissionais, bem mais desestruturados do que o português, como acontece em países em vias de desenvolvimento, no Extremo Oriente, no continente africano ou na América Latina. 

Um exemplo feliz da geração talentosa de portugueses, reconhecidos além-fronteiras, é o criativo Hugo Veiga, radicado num dos BRIC há 10 anos –  o Brasil. Distinguiu-se pela co-realização (juntamente com Diego Machado) do filme mais visto no youtube, em 2014, aguentando-se em 2015 numa honrosíssima quinta posição. O apelo da curta-metragem é interpelativo e até pedagógico, procurando contrariar a imagem negativa que uma percentagem incompreensivelmente elevada de mulheres tem de si próprias: 96%! Para fazer contravapor a essa falta de auto-estima, em 2013, a Dove lançou a campanha Real Beauty Sketches com um objectivo cristalino, apostado em prestar um serviço extraordinário a mais de metade da humanidade: «Imagine a world where beauty is a source of confidence, not anxiety. Women are their own worst beauty critics. In fact, only 4% of the women around the world consider themselves beautiful. Dove is committed to building positive self-esteem and inspiring all women and girls to reach their full potential. That’s why we decided to conduct a compelling social experiment that proves to women something very important: you are more beautiful than you think.» É aqui, no âmago do problema, que entra o publicitário português, a quem foi confiado o script da campanha dita de sensibilização social. 

Incisivo, Hugo filmou um duplo retrato de várias das mulheres que contribuíram para o estudo: primeiro, o esquife feito a partir do descritivo das próprias marcado pela fealdade; segundo, o esquife correspondente ao descritivo de homens que desconheciam as fotografadas, para permitir uma abordagem mais objectiva. Em 99% dos casos, o segundo é bem mais favorável às retratadas. O êxito do filme valeu-lhe o prémio de Melhor Copywriter do mundo, no prestigiado Festival Internacional de Publicidade, em Cannes. Faria se tivesse somado os votos dos psicólogos e das famílias das equivocadas… 


Para Hugo são «Retratos falados», primeiro pela própria, depois por
terceiros, com diferenças abissais. Difícil de acreditar que são da mesma pessoa. 

A causa deste erro de percepção parece dever-se, sobretudo, ao padrão de beleza demasiado restritivo, feito à medida das top models do momento e das actrizes preferidas dos fotógrafos, mas arruinante para a maioria das mulheres. Propriamente a curta-metragem:



À boleia, vão um par de ditos expressivos do criativo português sobre o melhor e o pior que já ouviu: «Nunca irás conseguir.», bastante alinhado com o pior que já lhe disseram: «Não te dês ao trabalho… está no papo.» Sobre o melhor e pior em Portugal, nem hesitou: «O melhor? Portugal é como um Sunquick. Um concentrado que rende muitos copos. Temos praias, serras, planícies e diferentes microclimas separados por parcas centenas de quilómetros que redem diferentes tipos de paisagens, sabores, arquitecturas e sotaques. O pior são as lamentações (dos portugueses).»

Em matéria de humor, Portugal também dá cartas, num estilo próprio, sem a universalidade dos Monty Python mas nem por isso desinteressante. Sabemos como a língua portuguesa é rica, permitindo tantas nuances que há quem goste de a considerar traiçoeira. A rábula a propósito da crise mostra bem a elasticidade do português. Ao menos, a língua continua riquíssima, imune a qualquer crise e demais desvarios despesistas. Segue o retrato muito caricaturado da crise, sem ofensa para os inúmeros enclaves de indigência que persistem no planeta:

Os padeiros não têm massa
Os talhantes estão feitos ao bife
Os criadores de galinhas estão depenados
Os pescadores andam a ver navios
Os fabricantes de cerveja perderam o seu ar imperial
Os cabeleireiros arrancam os cabelos
Os futebolistas baixam a bolinha
Os jardineiros engolem sapos
Os coveiros vivem pela hora da morte
Os sapateiros estão com a pedra no sapato
Os cavaleiros perdem as estribeiras
Os pintores carregam nas tintas
Os agricultores confundem alhos com bugalhos
As costureiras não acertam as agulhas
Os aviadores caem das nuvens
Os sobrinhos andam "Ó tio, ó tio"
E a maioria mantém o bom humor, apesar das dificuldades!

Com todos os desafios que Portugal ainda tem pela frente, o privilégio de contar com gente fantástica a criar novos serviços, novos produtos, novas empresas por esse mundo fora – hoje cada vez mais interligado –  é uma óptima notícia. Sem dúvida, o melhor cartão de visita, a melhor bandeira do país. Aqui, valia a pena ouvirmos, por exemplo, a Maria João Pires fazer chorar o piano num dos assombrosos Nocturnos de Chopin. Mas a prioridade é para os minutos finais da Quarta Sinfonia de Joly Braga Santos – o Hino à Juventude, com a parte coral que não ficou audível no link enviado num gin anterior. Apesar de ser uma gravação muito artesanal, dá uma ideia do final apoteótico da ária do compositor, que foi reconhecido em vida, dentro e fora de Portugal: 



Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

04 outubro 2015

27º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,2-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova
e perguntaram-Lhe:
«Pode um homem repudiar a sua mulher?»
Jesus disse-lhes:
«Que vos ordenou Moisés?»
Eles responderam:
«Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio,
para se repudiar a mulher».
Jesus disse-lhes:
«Foi por causa da dureza do vosso coração
que ele vos deixou essa lei.
Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher.
Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa,
e os dois serão uma só carne’.
Deste modo, já não são dois, mas uma só carne.
Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo
sobre este assunto.
Jesus disse-lhes então:
«Quem repudiar a sua mulher e casar com outra,
comete adultério contra a primeira.
E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro,
comete adultério».

***

O P. Javier Gafo, especialista espanhol em bioética, falecido há alguns anos, cita num dos seus livros uma bela história índia.

Um casal muito pobre ia celebrar o aniversário do seu matrimónio. Ele dava voltas e mais voltas à cabeça, sem sucesso, pensando como conseguir umas poucas moedas para presentear a mulher que tanto amava e que o tinha acompanhado durante quase toda a sua vida. Até que teve uma ideia que lhe causou calafrio: poderia vender o cachimbo, com o qual todas as tardes se sentava a fumar à porta da sua casa. Com o dinheiro, podia oferecer à sua mulher um pente, para que pudesse pentear o seu belo e longo cabelo, que cuidava com tanto esmero.

Finalmente, com o coração pesaroso e alegre ao mesmo tempo, aquele homem vendeu o seu cachimbo e aproximou-se de casa, levando envolvido num pobre papel o pente que tinha comprado. Lá o esperava a sua mulher, que tinha vendido o seu bonito cabelo negro para oferecer ao seu marido o melhor tabaco para o seu cachimbo.

O amor cristão caracteriza-se por supor entrega, dom de si, desprendimento e sacrifício de um pelo outro. Quando Inácio de Loyola fala do amor, diz que há duas coisas a ter em atenção: «a primeira é que o amor deve pôr-se mais nas obras do que nas palavras; a segunda é que o amor consiste em comunicação recíproca, a saber, em dar e comunicar a pessoa que ama à pessoa amada o que tem ou do que tem ou pode; e, vice-versa, a pessoa que é amada à pessoa que ama; de maneira que, se um tem ciência, a dê ao que a não tem, e do mesmo modo quanto a honras ou riquezas; e assim em tudo reciprocamente, um ao outro» (Exercícios Espirituais, 230-231). Não se pode amar sem entregar o melhor de nós mesmos na relação.

A Carta aos Efésios refere-se à relação matrimonial comparando-a com a relação que existe entre Cristo e a Igreja. Quando nas celebrações do Matrimónio se lê esta leitura, nota-se satisfação no rosto dos noivos durante a primeira parte do texto: «As esposas devem estar sujeitas aos seus esposos como ao Senhor» (5, 22). Mas quando se explica a segunda parte, as noivas são as que parecem mais satisfeitas: «Esposos, amem as vossas esposas como Cristo amou a Igreja e deu a sua vida por ela» (5, 25), porque do que se trata é simplesmente de um amor que está disposto à entrega até à morte, e morte de cruz...

Este amor oblativo só será possível se marido e mulher se fizerem uma só pessoa, que é o que Jesus propõe para a relação matrimonial. Convém, pois, alimentar constantemente esta decisão de amor mútuo que, combinando a dor e a alegria, se torna capaz de uma entre generosa no dia a dia da relação. Amor que se traduz em obras e amor que está disposto a dar e receber numa permanente comunicação. Amor que está disposto a vender o seu cachimbo ou o seu bonito cabelo para se encontrar com o outros, a partir do melhor de si mesmo.


Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins 

03 outubro 2015

Pensamentos impensados

Tipo saca-rolhas
A escada de caracol
Não era grande, era pouca
Mais parecia uma escadinha 
De rabo na boca

Bónus da prova
Os crimes imputados a Sócrates são mais difíceis de provar que uma sopa a ferver.

Anti-Herói
Leio nos jornais: advogado apanhado com heroína.
Só não dizem se era a padeira de Aljubarrota ou a Maria da Fonte.

Conversas de louva-a-Deus
P: Que tal a tua lua-de-mel?
R: Tão boa que o meu marido perdeu a cabeça.

Virose
Agora que tudo se torna viral, só falta o José Castelo Branco tornar-se viril.

Morte à alvorada
Matar o bicho é uma expressão com origem nas corridas de toiros, em Espanha.

Tradu...sons
Lá estarei, em inglês, diz-se ÁIL BIDÉ.

Não pesco nada do assunto
Vejo na internet redes sem fios.
Com estas redes, nem Jesus Cristo conseguiria a pesca milagrosa.

SdB

02 outubro 2015

Em que parte da tua vida...

Um dias destes bebia uma cerveja de fim de tarde com um amigo. Falámos de viagens e eu contei-lhe das minhas, algumas completamente sozinho na Europa. E ele, que me conhece bem, perguntou-me: em que parte da tua vida enterraste esse espírito aventureiro? Olhar para trás pode ser tudo: saudosismo, saudade, insegurança, horror ao futuro incerto. Mas pode ser a procura da resposta para a pergunta: em que parte da tua vida enterraste o que foste? 

A carta abaixo (que encurtei) foi escrita há 8 anos. Sei de onde me saiu o impulso para a escrever, sei de que amigo falo ou que amiga cito. Não a reli com atenção, mas considero a hipótese de que alguém me faça a pergunta: em que parte da tua via deixaste de ser este? Ou que me digam: não mudaste um bocadinho...

JdB

***

Meu querido amigo,

Há alguns meses – lembras-te? – jantámos em casa de amigos comuns que partilham connosco visões semelhantes da vida, princípios e opções basicamente iguais. Havia à volta daquela mesa um menor múltiplo comum que nos unia a todos: a família e a ética, os valores morais, a honestidade que não se negoceia, a preocupação pela geração vindoura.

A dada altura falámos sobre o que faríamos se o ar que respiramos nos fugisse das mãos no prazo de seis meses, deixando-nos, no entanto, a saúde e o dinheiro para gozarmos esse período.


Estarás recordado que de início muitos de nós mencionaram o prazer, as viagens, o aforrar de divertimento para futuros nenhuns. Depois, pouco a pouco, como se a nossa condição de crentes falasse mais alto, este gozo tão desmedido quanto possível foi dando lugar a uma preocupação mais espiritual de preparação para a eternidade em que todos, cada um à sua maneira, acreditam. Talvez resumisse a minha posição, face à eventualidade de viver apenas seis meses, numa frase que me disse pessoa que estimo muito, ainda que nesta definição caibam interpretações múltiplas:
 tentava deixar a casa arrumada.

Gosto da ideia porque ela encerra uma posição muito abrangente. Na realidade, o que é
 arrumar a casa? É deixar o futuro dos filhos garantido? Precaver a inexistência de dívidas? Gizar investimentos de médio / longo prazo com o rendimento mais favorável? Beneficiar os que cá ficam com um recuerdo da nossa passagem por esta terra?

Arrumar a casa é, seguramente, tudo isso. Mas, atrevo-me a dizê-lo, é também regularizar a nossa relação com os que nos rodeiam, não deixar uma lista longa de créditos mal parados nas relações sociais e familiares, sentir que partimos ao cair do último dia do último mês e que de volta do nosso corpo inerte se juntam todos os que connosco se cruzaram: os que nos amaram e os que nos odiaram, aqueles para quem fomos um vestígio de indiferença militante ou uma lufada de amizade sempre fresca, aqueles que remetemos para um olvido tingido de desprezo ou que privilegiámos com o calor do nosso abraço.


É a segunda vez que, face ao teu repto da luta e da não desistência, da resignação e do combate, te contraponho a palavra paz.


Talvez a nossa verdadeira luta, aquela a que não nos devemos resignar, de que não devemos abdicar seja, realmente, a da arrumação da nossa casa: ir fechando as gavetas das incompatibilidades, das caras que se voltam para não verem, das ruas que se atravessam num repente de disfarce, no ódio que nos consome as entranhas, nas raivas que sempre nos azedam, nas faltas de paciência que diminuem o próximo, na mágoa que sentimos por quem julgamos ter-nos prejudicado, esquecendo, tantas vezes, que talvez estejamos na génese de tudo.

Já pensaste no desafio que seria se todos nós tivéssemos a possibilidade – nem que fosse uma única vez na vida – de sermos confrontados com os últimos seis meses da nossa existência e não com uma esperança de vida estatística que nos permite ir adiando o
 arrumar da casa? Numa visão simplista das coisas, talvez este desafio pudesse ser o mais importante de todos, porque aferiria a qualidade da última refeição a que todos têm direito: não os condenados à morte por males infligidos, mas os sentenciados à vida pujante, completa, intensa e verdadeira. Toma lá seis meses. O que vais fazer com eles?

01 outubro 2015

Crónicas de um mestrando tardio


Para a juventude isto é um fait-divers, habituados que estão a Bolonha e as estas coisas de teses de mestrado. Mas para mim - e confesso o entusiasmo quase infantil - não é. Representa o culminar de dois anos de estudo e muita leitura, muita audição, muito enervamento, muita intolerância para as críticas, muita vontade de melhorar, muita coisa escrita para ser deitada fora, muita inspiração, muita aridez mental, muito apoio recebido. Nada de muito importante, no entanto - a não ser o que alguns fizeram por mim.

Hoje farei a entrega. Ontem terminei tudo eram quase 11 da noite. Como dizia ao ATM, na ausência de numerus clausus para teses de mestrado vencem-nos com a burocracia: um CD cheio de requisitos, cinco CV impressos, sete dossiers encadernados a quente com preceitos, quatro impressos para preencher, um dos quais autorizando (ou não) a disponibilização da tese ao mundo. Estou aqui estou no TED Talk...

Sejam felizes - e desculpem qualquer coisinha.

JdB

   

30 setembro 2015

Textos dos dias que correm

O instante, a graça e a «escolha decisiva»

Podem tornar-se instantes de graça todos os instantes da vida? Ou, pelo contrário, não: há instantes límpidos, incomparáveis, de que não conhecemos as regras, e só estas são portadores da possibilidade de sentido e redenção para a vida?

Não fiz sondagens, mas direi sem muitas hesitações que a maior parte de nós tende para esta segunda hipótese. A vida normal goza de má imprensa, sobre ela recai um imutável descrédito, como se vivêssemos a descobrir que o que nos falta está noutro lado.

Olhamos os dias, o curso dos seus instantes reputados como sem história, estranhamento seguros de que deles não virá o que procuramos. Seduz-nos muito mais o extraordinário: pensamos que, no fundo, a felicidade depende da experiência não habitual, descontínua, de uma visita esporádica, de um lampejo que não se detém.

Se tivéssemos de assinalar, entre as práticas artísticas, um exemplo desta sensibilidade dominante, poderíamos citar as fotografias (extraordinárias, ainda para mais) de Henri Cartier-Bresson.

Na introdução ao primeiro livro de imagens que publicou, ele propõe uma tese precisa sobre o que chamava «o instante decisivo». Hoje é impossível pensar na sua fotografia e, em certo sentido, no que é a fotografia em geral, sem revisitar esse texto que o tempo tornou cada vez mais influente.

O ponto de partida de Cartier-Bresson é uma epígrafe extraída dos volumes de memórias do cardeal de Retz: «Não há nada neste mundo que não tenha um momento decisivo». E o que diz, em síntese? Que quando o olhar do fotógrafo considera o mundo, sabe que exercita um poder: pode modificar perspetivas, colocar a máquina fotográfica próxima ou afastada do sujeito, realçar um detalhe ou recompor a realidade.

Mas ao fotógrafo ocorre também dar-se conta de que estão reunidos todos os elementos para uma excelente fotografia, e todavia ainda falta alguma coisa, e não sabe o quê. Até que acontece alguma coisa de imprevisto a atravessar a cena. O fotógrafo põe-se então a acompanhar o movimento por trás da sua máquina e espera, espera, espera.

Quando, por fim, carrega no botão, sente confusamente que captou algo. Mais tarde, no laboratório, revelando aquele material, dá-se conta de que o que captou era o instante decisivo. Fixou o instante sem o qual aquela imagem seria banal, não possuiria a mesma forma, intensidade, pulsão, mistério e vida.

Por isso, a atividade do fotógrafo e do artista pode apenas consistir numa espera aberta ao momento extraordinário. Será também assim para nós? Será que é isto que talvez suceda no labor interno que desenvolvemos, na vida espiritual que se ativa em nós?

Os ingredientes estão lá todos, mas ainda não é suficiente. O quotidiano é opaco, demasiado preso àquilo que conhecemos, que nos é familiar. «De Nazaré pode vir alguma coisa de bom?» (João 1, 46), perguntamos incessantemente. Consumimo-nos na espera difusa daquilo que virá, preferimos sempre o distante ao próximo, o futuro ao presente, e tornamos a existência uma ficção de si própria.

Mas se não é agora, é quando? Se a graça não atravessa precisamente estes instantes cinzentos e contraditórios, esta montanha de emoções dispersas, este movimento que nos parece demasiado concreto, demasiado denso, demasiado obtuso, dificilmente a graça se manifestará de outra forma.

Também aqui o caso de Henri Cartier-Bresson nos pode ajudar de novo. Porque a sua história é, no fim de contas, mais complexa. A curadora de uma grande mostra sobre a sua obra trouxe à luz elementos novos relativos ao seu modo de trabalhar, até então desconhecidos.

Aquilo que a sua investigação nos mostrou é que, mais do que um «instante decisivo», trata-se com mais verdade de uma «escolha decisiva», pois o fotógrafo fazia vários disparos da mesma cena, por vezes em grande número, mas escolhia só um e eliminava os outros.

O instante decisivo não é, então, um momento exterior irrepetível, nem essa epifania que encontra espaço num fugitivo piscar de olhos: é um instante, qualquer instante, que eu faço tornar decisivo, por nele investir deliberadamente a minha esperança.


José Tolentino Mendonça, tirado daqui 

29 setembro 2015

Duas Últimas

Patti Smith esteve em Portugal há muito pouco tempo. Não tive oportunidade de a ouvir ao vivo, porque a conheço mal e talvez por isso o concerto de Lisboa me tenha escapado. Pelas críticas depois lidas, terei perdido um bom espetáculo.

Entretanto, disse-me um irmão meu que o Syriza, um dos queridos musts da nossa comunicação social, fecha os seus comícios com a música de título revolucionário abaixo postada. Se fosse grego talvez assistisse a esses finais reveladores de algum bom gosto musical, não por certo ao desenrolar do que os antecede.

Por falar em política, as legislativas eleições caseiras aproximam-se a passos largos. Façam um esforço e vão votar, mesmo que não vos apeteça a deslocação ou achem que o voto de pouco vale. É em parte verdade, mas podem crer que há por aí à espreita muito pior do que conhecemos ou até imaginamos.     


fq


28 setembro 2015

Encontros e histórias

Sábado estive neste encontro de famílias. Durante um fim de semana, quase cem pessoas, entre pais, irmãos, crianças doentes, crianças que já estiveram doentes, voluntários e profissionais, reúnem, passeiam pela praia, aprendem a dançar, fazem jogos, conversam do  passado, do futuro, de esperança. Na minha mesa de almoço, onde me sentei por acaso, duas famílias: uma de Sintra, a outra de Fermentelos. Numa delas um rapaz de 18 anos, já recuperado; na outra, um rapaz de 13 anos, recuperado há 10, significando, portanto, que foi apanhado pela doença quando tinha 3. As mães não se conheciam mas a conversa sai fluida, porque ambas sabem o que passaram. Fora o sotaque, são ambas naturais da pediatria de um IPO regional.

Não repetirei o que significam estes encontros para mim. Não o encontro em si, mas a confrontação com tantos pais e crianças que começam agora uma luta, continuam uma luta ou, como no caso de um rapaz de uma mesa ao lado - a visão terrível da injustiça da vida - percebem que a luta vai terminar por KO, e perguntam o porquê do combate, ou porque tarda o KO, que o corpo está cansado e o ânimo tem dias. Ao despedir-me, o pai deste rapaz esboçou um sorriso: até amanhã! Digo sempre até amanhã! Vê-lo-ei na festa de Natal ou imaginar-lhe-ei o Natal. Tudo seguramente já sozinho, sem o filho.

Duas outras histórias, de sinal muito diverso:

Brinco com uma criança de dois anos, pertencente ao mundo da Acreditar que, ao colo da mãe, faz uma birra de sono. Digo-lhe patetices, brinco-lhe com os dedos ou com o cabelo, deixo que me dê palmadas na mão. A criança chora, e não se cansa de repetir: a culpa é minha, a culpa é minha... Todos sabemos, face à desestruturação das famílias, que algumas crianças doentes têm sentimentos de culpa, assumindo uma responsabilidade pela aparente desagregação de uma família que se separa durante os tratamentos. Mas uma criança de dois anos? O que ouvirá ela e que repete, numa birra que se deseja de sono?

Encontro duas miúdas pretas (ou negras, se preferirem): cabelo afro, caras giras, despachadas, conversadoras, simpáticas, sociáveis. Converso com uma e pergunto-lhe o nome, um nome tipicamente africano, como ela é, a irmã e a mãe. Pergunto-lhe: donde é que és?  A resposta veio pronta: de Vila Franca. O mundo será isto: uma criança preta, de Vila Franca, que casará com um rapaz africano de uma cidade próxima. Um dia encontrarei os filhos dela. Terei de subir até à geração dos avó (eu sou de Muge, o meu pai de Alverca do Ribatejo) até que me digam: somos de Angola... Os cabelos, esses serão afro, como será o menear das ancas, completamente separadas do resto do corpo, porque ela ainda não é bem de cá: por enquanto só nasceu cá...

JdB

27 setembro 2015

26º Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
João disse a Jesus:
«Mestre,
nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome
e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu:
«Não o proibais;
porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome
e depois dizer mal de Mim.
Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo,
em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.
Se alguém escandalizar algum destes pequeninos
que crêem em Mim,
melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço
uma dessas mós movidas pró um jumento
e o lançassem ao mar.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a;
porque é melhor entrar mutilado na vida
do que ter as duas mãos e ir para a Geena,
para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o;
porque é melhor entrar coxo na vida
do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.
E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo,
deita-o fora;
porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos
do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo não se apaga».

26 setembro 2015

Pensamentos Impensados

Literatura
Estou a trabalhar num livro cujo tema é como chegar aos 90 anos parecendo ter 89.

Desinfecções
Pasteur foi um euro-assético.

Manipulação
O acto de comer à mão chama-se mani-come-o.

Restauração
Em qualquer parte do Mundo se come bem desde que haja três estrelas na algibeira.

Vocativos
Em Portugal, para se chamar uma pessoa diz-se: oh Manel, oh Jaquim....
Na Irlanda usa-se O'Connor, O'Shea.

3 em 1
Paulo Portas tem sido ouvido
Paulo Portas tem nariz
Paulo Portas tem garganta.

Selogane
Com promessas e favores se enganam os eleitores.

Surtos e sustos
A gripe vai ser ouvida na Ministério da Saúde no âmbito do tráfico de influenza.

SdB (I)

25 setembro 2015

"Onde diabo está Deus?"

Já aqui neste estabelecimento abordei o tema por várias vezes, seguramente com menos competência, mas não menos emoção: entre mortes e doenças graves - tudo de gente relativamente nova e próxima - o meu mundo, como o de todos nós, vai-se povoando de dor.  Ontem, ao visitar um amigo nessas condições, confrontei-me com este sentimento de injustiça: não é só o sofrimento no próximo, mas também nos outros, danos colaterais numa guerra que não quiseram. Na boca de muitos, crentes num Deus que não é senão amor, a interrogação feita com voz fragilmente humana: onde está Ele?

Ontem também, depois de um almoço onde fui, mais uma vez, confrontado com a finitude de tudo, encontrei este texto aqui. Um texto simples, que gostei de ler.

***

Tocado pelo acidente que deixou quadriplégica a sua irmã, antes dos 30 anos, o padre jesuíta Richard Leonard aborda algumas das questões mais duras colocadas pela aparente "ausência" de Deus, precisamente quando Ele é mais preciso.


Introdução
In "Onde diabo está Deus?" (Editora Paulinas)
Richard Leonard

A maior parte dos livros filosóficos ou teológicos sobre o tema de como encontrar Deus no sofrimento humano tende a ser bastante académico. Sempre os achei muitíssimo importantes, mesmo quando discordei dos seus argumentos ou conclusões. Tenho até sentido que a distância intelectual que estabelecem pode ser útil para dissecar uma interrogação que é tudo menos distante.

Embora eu espere que este livro seja inteligente, ele não foi pensado para os académicos. Não vou reciclar as inúmeras facetas dos veneráveis argumentos da investigação intelectual a que atualmente chamamos teodiceia. Este livro emerge da experiência, da forma como eu tive de lutar corpo a corpo com uma tragédia familiar que me obrigou a confrontar com algumas interrogações fundamentais que têm a ver com o agarrar-me à minha crença num Deus de amor frente ao mal. Não tenho pretensões excessivas acerca desta obra acessível. Ela pertence claramente à área da chamada teologia especulativa. Ao longo dos séculos, mentes maiores do que a minha têm-se debruçado sobre estas questões e chegaram a conclusões diferentes acerca das mesmas. Sinto-me feliz por isso. O problema é que quando mais precisei de ser ajudado pelas suas intuições, mais as suas respostas me pareceram inadequadas. Não estou a acusá-las. A grande maioria desses autores não teve o benefício dos estudos bíblicos, da teologia, da ciência e da psicologia contemporâneas para lhes dar uma mão.

A Igreja sabe, também, que não pode dar respostas definitivas acerca de tais questões porque, do lado de cá do túmulo, simplesmente não sabemos onde ou como Deus se encaixa em relação ao sofrimento do mundo. Por isso, não tenho outras pretensões neste meu trabalho, senão dizer apenas que ele me ajudou a guardar a fé num Deus de amor, enquanto caminhava no «vale das lágrimas» e na «sombra da morte». (...)

Jill ligou à minha mãe por volta da uma e meia da manhã, para dizer que Tracey tivera um acidente, e que, embora desconhecessem a extensão das lesões, a minha mãe devia ir logo para lá. A continuação da história é um «momento mãe». A minha mãe enviuvara quando tinha 32 anos. O meu pai morreu de um AVC fulminante, aos 36 anos, e a minha mãe passou a ser a única progenitora do meu irmão, de sete anos, da minha irmã, de cinco, e minha, tendo eu dois anos. A minha mãe, que nessa altura vivia sozinha, decidiu que, em vez de acordar o Peter e a mim, seria melhor que nós os dois tivéssemos uma noite bem dormida, pois não havia nada que qualquer um de nós pudesse fazer até de manhã. Não ligou a ninguém. Ficou sentada a beber cafés e a fumar cigarros até ao alvorecer.

Pelas nove horas, a minha mãe e eu já estávamos num avião para Darwin. Se o leitor alguma vez foi atingido por uma tragédia na sua própria vida, entenderá a negação em que ambos estávamos: naquela viagem de avião, tudo nos pareceu histericamente divertido. Ambos desatámos a rir pensando que, à nossa chegada, veríamos Tracey sentada na cama a comer um bife e a beber uma cerveja, e a troçar de nós, por sermos tão melodramáticos. Esse final feliz não viria a acontecer.

Ao chegarmos, havia tantas religiosas de véu e de hábito no aeroporto, que eu pensei que o Papa devia vir no avião seguinte. «Os médicos dir-vos-ão tudo quando lá chegarmos. » Levaram-nos até junto de Tracey, que tinha um longo lençol puxado até ao queixo. Tinha os braços esticados sobre extensões de madeira colocadas dos lados da cama, e havia dois enormes espigões enterrados no seu crânio com pesos suspensos na parte de trás da cama para manter a sua cabeça imóvel. A partir de então, nunca mais consegui olhar para um crucifixo da mesma maneira.

A minha mãe assumiu uma linguagem muito clínica, começando a perguntar a Tracey o que é que ela conseguia mexer. Com duas grandes lágrimas a escorrerem silenciosamente de cada lado do rosto, a minha irmã simplesmente respondeu: «Não passo de uma quadriplégica, mãezinha. Desloquei a quinta vértebra cervical e fraturei a sexta e a sétima vértebras. É tão mau como parece.»

Combater e fugir são duas reações comuns ao choque. Optámos pela segunda. Tracey diz que não percebeu quem saiu mais depressa porta fora, se a minha mãe ou eu. A irmã da pastoral da saúde conduziu-nos a um quarto, onde nos deixou sozinhas. Eu sentei-me a uma secretária e, numa das primeiras vezes na minha vida, fiquei sem palavras. A minha mãe começou a andar de um lado para o outro. Estava zangada. Era como se uma das crias daquela leoa tivesse sido abandonada, para morrer, e ela quisesse apanhar a pessoa responsável por isso. Enquanto andava assim, a minha mãe começou a fazer uma série de perguntas:

Como é que Deus pôde fazer isto à Tracey?
Como é que Deus nos pôde fazer isto?
Que mais quer Deus de mim, nesta vida?
E, pior de tudo: onde diabo está Deus?

Eram perguntas retóricas, mas eu era um jesuíta. De Deus entendia eu e, por isso, arrisquei uma resposta. Mas de cada vez que começava a falar, a minha mãe respondia-me com aspereza. Em momentos assim, muitas vezes descarregamos sobre as pessoas mais próximas de nós. Quis então recordar à minha mãe que também era uma das suas crias!

Contudo, enchi-me de coragem e desenvolvi, provavelmente, o debate teológico mais doloroso e mais importante que jamais terei na minha vida. Disse à minha mãe que, se alguém me conseguisse provar que Deus, na noite anterior, se sentou, no Céu, e pensou consigo «preciso de mais uma quadriplégica, e Tracey serve, pelo que vamos provocar um acidente de automóvel para que isso aconteça» – se aquilo fosse a vontade de Deus –, então deixaria o sacerdócio, os Jesuítas e a Igreja. Eu não conheço esse Deus, não quero servir esse Deus nem ser seu representante no mundo. Nesse momento, a minha mãe arremeteu de novo contra mim: «Então onde é que está Deus?» E eu respondi-lhe, delicadamente: «Penso que Deus está tão devastado como nós, neste momento, pelo facto de uma rapariga generosa e altruísta, que já percorreu o mundo inteiro a tratar dos pobres, se ter transformando na pessoa mais pobre que conhecemos.» Não tinha nada a ver com dinheiro. Eu não tive de escolher entre um Deus de amor e um Deus que nos inflige coisas cruéis. Como o Deus que geme frente a cada perda, em Isaías, ou Jesus que chora diante do túmulo do seu melhor amigo, em João 11, Deus não estava fora da nossa dor, mas acompanhava-nos nela, segurando-nos nos seus braços, partilhando o nosso desgosto e a nossa dor.

Nos meses seguintes, recebi algumas das cartas mais terríveis e assustadoras de alguns dos melhores cristãos que conhecia. Alguns escreveram: «A Tracey deve ter feito alguma coisa que ofendeu profundamente a Deus, por isso teve de ser castigada aqui na Terra, pois com Deus não se brinca!» E prosseguiam: «Agora a única forma de ter paz com Deus é aceitar a sua vontade.» Eles acreditam, de facto, que Deus se volta contra nós. De 1988 para cá, descobri que essa teologia é muito mais comum do que alguma vez poderia imaginar. Tenho encontrado pessoas com cancro, casais com problemas de fertilidade e pais cujo filho morreu, que me perguntaram o que terão feito para merecer a maldição divina de que julgam ter sido alvo. Dá-me vontade de chorar só de pensar neles.

Outros escreveram: «O sofrimento da Tracey está a enviar tijolos gloriosos para o Céu, para construir a sua mansão celeste quando ela morrer.» Esta é a habitualmente chamada «teologia da recompensa no Céu, quando morreres». Eu não sabia que no Céu, nos inúmeros quartos da casa do Pai, há suites de primeira classe, executiva e económica. E, se assim for, quer dizer que o Céu será o primeiro guiché da minha vida em que não andarei à procura de um lugar melhor! De facto, se para chegar do bairro de lata, logo à entrada dos portões celestiais, ao melhor bairro do Céu significa ter de ser lavado, alimentado, virado, limpo e vestido por outra pessoa todos os dias durante mais vinte anos, então eu não posso pagar o preço da deslocação através da cidade. E acho que poucas pessoas poderão.

Finalmente, recebi montes de cartas e de postais que diziam: «A vossa família é verdadeiramente muito abençoada, porque Deus só envia as maiores cruzes àqueles que as conseguem suportar.» Acho sempre graça à forma como algumas pessoas, que não estão a receber essa bênção particular, a conseguem ver claramente como tal no sofrimento das outras pessoas. Mas detenhamo-nos um pouco a pensar nesta frase. Ouvimo-la com frequência. Se for verdade, então todos nós nos deveríamos ajoelhar de manhã, à tarde e à noite, proferindo uma única oração: «Eu sou um fraco, eu sou um fraco, eu sou um fraco, meu Deus. Não me consideres uma pessoa forte.» Porque se essa teologia for verdadeira e Deus pensar que somos fortes, teremos de ser abençoados com uma grande cruz.

Além dessas reações, havia pessoas bondosas que me tentavam confortar, dando o habitual trio de respostas frente às más notícias: «É tudo um mistério»; «os meus caminhos não são os vossos caminhos»; e «só no Céu descobriremos qual era o plano de Deus». Há uma certa verdade em cada uma destas afirmações, mas eu não estou nada convencido de que sejam completamente verdadeiras no sentido que algumas pessoas lhes atribuem. Muitas vezes são utilizadas por pessoas boas para dizer algo que esperam ser reconfortante. Não tiveram esse efeito em mim. Por exemplo, embora seja completamente verdade que os caminhos e os pensamentos de Deus são infinitamente maiores do que tudo o que podemos esperar ou imaginar, evocar Isaías 55 no meio do sofrimento das pessoas tende a colocar Deus fora do nosso drama humano, como um observador que tudo sabe e que, no entanto, não se preocupa com o curso da nossa vida. No entanto, penso que um dos aspetos mais extraordinários da encarnação, de Deus se fazer um connosco em Jesus Cristo, é precisamente que Deus nos quer revelar os seus caminhos e pensamentos, quer ser conhecido, sobretudo naqueles momentos em que por vezes nos entregamos ao maior desespero. A vida, morte e ressurreição de Jesus mostram-nos que Deus se insertou na história humana da mais íntima das maneiras. Nós não acreditamos nem amamos um ser indiferente que se revela de forma misteriosa e que, depois, deserta quando a ação das nossas vidas se torna demasiado dura. A encarnação mostra-nos claramente que Deus está empenhado em participar na aventura humana em toda a sua complexidade e dor.

Por isso estou muito grato aos correspondentes que me escreveram depois do acidente da minha irmã. Eles alertaram-me para a frequência com que ouvimos alguma teologia terrível, que não nos aproxima de Deus nos piores momentos da nossa vida. Aliena-nos. Alienou-me, por algum tempo, acreditar num Deus que quer que nós travemos um inteligente debate acerca das complexidades de onde e como a presença divina encaixa no nosso frágil universo humano. Por isso aqui estão os meus sete passos para a sanidade espiritual, quando somos tentados e cedemos à tentação de perguntar: «Onde diabo está Deus?»

1. Deus não envia, diretamente, dor, sofrimento e doença. Deus não nos castiga.

2. Deus não envia acidentes para nos ensinar coisas, embora nós possamos aprender com eles.

3. Deus não quer terramotos, inundações, secas ou outros desastres naturais. A oração pede a Deus que nos mude para mudarmos o mundo.

4. A vontade de Deus manifesta-se mais na totalidade de uma situação do que nos seus detalhes.

5. Deus não precisava do sangue de Jesus. Jesus não veio apenas «para morrer», mas Deus usou a sua morte para anunciar o fim da morte.

6. Deus criou o mundo que é menos que perfeito, e no qual o sofrimento, a doença e a dor são realidades; se assim não fosse, estaríamos no Céu. Alguns desses problemas somos nós que os provocamos a nós mesmos, e culpamos Deus.

7. Deus não quer acabar connosco.

24 setembro 2015

Preces dos dias que correm

Prece

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu filho copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de Pai ainda não pode ser.
Mas lembra-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é, beberei. Não faças caso.
   
Vitorino Nemésio, O Verbo e a Morte (1959)

***

Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistamos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa, Mensagem

***

Prece

Talvez que eu morra na praia,
Cercado, em pérfido banho,
Por toda a espuma da praia,
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho…

Talvez que eu morra na rua
- Ínvia por mim de repente –
Em noite fria, sem Lua,
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente!

Talvez que eu morra entre grades,
No meio duma prisão
E que o mundo, além das grades,
Venha esquecer as saudades
Que roem o meu coração.

Talvez que eu morra dum tiro,
Castigo de algum desejo.
E que, à mercê desse tiro,
O meu último suspiro
Seja o meu primeiro beijo…

Talvez que eu morra no leito,
Onde a morte é natural,
As mãos em cruz sobre o peito…
Das mãos de Deus tudo aceito.
- Mas que eu morra em Portugal!

Pedro Homem de Mello

23 setembro 2015

Duas Últimas

Hoje, mas há oito anos, estava na Beira. Respigo parte do que então escrevi:

Beira, Moçambique, hoje, mas há exactamente 8 anos


























Descrever a Beira talvez seja falar – por mais disparatado que isto possa parecer – no que imagino ter sido a cidade antes da independência. Agora é uma metrópole suja, mal conservada, estragada, mostrando a face visível do que são as consequências de uma guerra civil prolongada e as quezílias partidárias levada ao extremo. 

Imagino a Beira de há 34 anos, sem que esta descrição tenha o que quer que seja de um saudosismo colonialista, já que é a primeira vez que visito este país. 
Talvez o comércio fervilhasse, talvez a zona do Macuti (que garantem locais e estrangeiros ser a mais bonita da cidade) estivesse pejada de gente passeando ao calor da noite, comentando os dias que passavam, sentando-se numa esplanada a comer camarões, a beber cerveja, a rir e a gozar uma vida diferente, um clima diferente. Imagino as crianças na praia banhada pelo Índico – nalguns casos a dez passos de suas casas – a correrem inocentes atrás dos caranguejos, num cansaço que não vinha, mesmo depois das aulas de natação no Clube Náutico. 
Agora já nada disso existe. As casas de algumas famílias felizes que por lá passaram deram lugar a orfanatos de crianças com futuros improváveis, a terra batida que separa as vivendas do areal parece um trilho do mato, as árvores que debruam a praia do Náutico afiançam-me estar quase secas, o tecido habitacional da cidade carece de uma operação plástica urgente – ainda que não profunda.

Agora deixo-vos com Mc Roger. Agitem-se!

JdB


22 setembro 2015

Do rugby como microcosmos de...

Entre as expressões 'microcosmos', 'família', 'rugby' e 'país' poderia estabelecer-se um raciocínio, diferenciado apenas por um verbo: 'a família é um microcosmos do país' ou 'o rugby deveria ser um microcosmos do país'. Poderia ainda enveredar por uma solução intermédia: 'o rugby deveria ser um microcosmos da família'. Daqui poderia sair, então, um silogismo: se o rugby deveria ser um microcosmos da família e a família é um microcosmos do país, logo, o rugby poderia ser um microcosmos do país. 

Parece-me óbvia a afirmação da família versus país. Se introduzíssemos todas as famílias numa máquina para daí retirar uma fórmula resultante, veríamos Portugal. O país é o conjunto dos agregados familiares em toda a sua diversidade: cultura para o civismo, ética, responsabilidade, educação, honestidade, força anímica, ambição, altura, massa gorda, gostos alimentares, cor do cabelo, apreço pelo Carnaval ou pela observação de obras na via pública. 

Por outro lado, o rugby é um jogo de cavalheiros. (Não queria percorrer esta alameda do lugar-comum mas deu-me jeito). Alguns exemplos: no fim do jogo, o capitão das ilhas Fidji, apesar da derrota, começou por agradecer a Deus o magnífico dia que lhes tinha proporcionado para aquele jogo. E reconheceu que o oponente merecia ganhar. Dois dias depois, um jogador da Nova Zelândia foi punido com uma expulsão de 10 minutos. O que fez? Esticou uma perna displicente para que o adversário tropeçasse. Não esboçou qualquer reacção perante a decisão do árbitro que tem, aliás, esta pedagogia de explicar detalhadamente as faltas que assinala. Aliás, ninguém discute as decisões do árbitro encostando um peito suado a uma camisola tamanho M.

Uma equipa de rugby é uma massa brutal de jogadores com um aparente potencial destrutivo grande, dadas as suas força e velocidade. E no entanto, tudo é feito em nome da equipa ou (lá vou eu pela alameda...) do colectivo. Em bom rigor, o potencial destrutivo da equipa, ou dos jogadores individualmente, não está no metro e muito e mais de cem quilos de peso, mas na perna distraída que se estica para que o adversário, depois de ter ganho a bola, se possa estatelar no chão. O potencial destrutivo de um jogador de rugby não está no físico imponente, mas na pequenina matreirice.

Se o rugby fosse um microcosmos da família e a família o microcosmos do País, viveríamos seguramente melhor, mesmo que gostássemos de Carnaval ou de perder horas infindas observando três técnicos a ensinarem um trabalhador braçal a usar a picareta: agradeceríamos a Deus os dias oferecidos e não rasteirávamos o oponente por raiva de ele nos ter sacado a bola oval.

JdB         

21 setembro 2015

Vai um gin do Peter’s?

Nos idos anos 50 do século passado, Joly Braga Santos (1924-1988) compôs a IV Sinfonia (Op. 16), cujo quarto andamento inclui uma ária coral de homenagem à juventude musicando um poema de Vasconcellos Sobral (creio). 



Na década seguinte esteve para ser consagrada como Hino Mundial da Juventude. Quando se ouve, percebe-se que teria sido uma óptima escolha, tal a frescura e vitalidade daquela peça musical, impregnada de enorme jovialidade e de uma tonalidade muito estimulante e luminosa, sem resvalar para o triunfalismo simplista ou infantil. Infelizmente, o ambiente político internacional penalizou Portugal, que se mantinha uma potência colonial cobiçadíssima, além de muito criticada por não se render à democracia. Factores vários, alguns totalmente estranhos aos critérios artísticos que deveriam imperar, não favoreceram o reconhecimento da qualidade da produção nacional (em geral), menos ainda de as consagrar internacionalmente, ainda que algumas fossem merecedoras de distinções supra nacionais. Ainda assim, em 1969, foi-lhe atribuído o Prémio Internacional da UNESCO pela sua V Sinfonia, além do reconhecimento como sinfonista notável. Teve o mérito acrescido de conciliar a riqueza sinfónica com a capacidade de construir obras que «não desdenhando as conquistas do século XX, falassem ao homem comum com simplicidade e clareza», segundo o próprio. 

A versão completa da sinfonia vem aqui postada, podendo facilmente ser abreviada movendo-se o cursor da régua em baixo para a direita. Anotação sobre os 4 andamentos: I. Lento; II. Andante; III. Allegro Tranquillo; IV. Lento: 



Se há ponto forte nos portugueses é a internacionalidade, que não é sinónimo de cosmopolitismo, pois tem mais a ver com a capacidade de aculturação a outras culturas e a facilidade de contacto com gentes exóticas, indo além dos atributos do cosmopolita. Aliás, a aproximação de civilizações foi iniciada por Portugal, com os Descobrimentos, inaugurando o longo (e imparável) processo de globalização interplanetária, que encurtou distâncias. 

Embora saibamos que menor distância geográfica pode não se traduzir por menor distância afectiva, sempre ajuda. Pelo menos, favorece a saudável afinidade que decorre da mera entrada de um ser humano no horizonte visual de outro. Sim, aquela cara desconhecida pode ganhar alguma familiaridade. Como diz o ditado: longe da vista, longe do coração, percebendo-se que o inverso também funciona. Aliás, foi esse o sentido do InterRail ou do programa Erasmos, quando se procurou aproximar os povos europeus. 

Também em programas semelhantes, Portugal deu um contributo ímpar e original com o programa Inov Contacto(1). Lançado em 1997 (com a designação abreviada a “Programa Contacto”) proporciona estágios a recém-licenciados em empresas espalhadas pelo mundo. O objectivo é ampliar a oferta de trabalho e de horizonte de vida dos mais novos. Nada menos do que todo o planeta, sintonizando com a definição do português (extensível a qualquer ser humano) verbalizada por um sábio de todos os tempos, nascido em Lisboa, no século XVII –  P.António Vieira (1608-1697): «Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo. Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra.»  

Defensor dos proscritos, acabou ele próprio perseguido, apesar da sua proximidade
com a coroa. Primeiro, foi afastado do Maranhão pelas posições públicas contra a escravatura. Depois, padeceu 2 anos numa prisão (1665-1667) em Coimbra pelas
denúncias à inquisição. Por fim, valeu-lhe a protecção da rainha Cristina da Suécia, aquando da sua estadia em Roma, para onde rumou depois de ser liberto

Claro que foi a frase do imperador da língua portuguesa  (como lhe chamava Pessoa) escolhida para figurar na lápide que assinala a primeira morada do jesuíta, junto à Sé de Lisboa. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1)   Recomenda-se  a consulta ao site www.inovcontacto.pt, com inscrições abertas até 11 de Setembro.

20 setembro 2015

25º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 9,30-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia,
mas Ele não queria que ninguém o soubesse;
porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes:
«O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens
e eles vão matá-l’O;
mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».
Os discípulos não compreendiam aquelas palavras
e tinham medo de O interrogar.
Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa,
Jesus perguntou-lhes:
«Que discutíeis no caminho?»
Eles ficaram calados,
porque tinham discutido uns com os outros
sobre qual deles era o maior.
Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes:
«Quem quiser ser o primeiro será o último de todos
e o servo de todos».
E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles,
abraçou-a e disse-lhes:
«Quem receber uma destas crianças em meu nome
é a Mim que recebe;
e quem Me receber
não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

19 setembro 2015

Pensamentos impensados

Antigamente a escola era risonha e franca
Sempre apoiei um professor que dava palmatoadas nos alunos; até lhe dizia que nunca as mãos lhe doam.

Tiroteio
 Tomou carvão vegetal mas, mesmo assim, saiu-lhe o tiro pela cloaca.

Aos políticos
Não precisam de honrar a Pátria; a Pátria vos contempla.

Jogos infantis
Dantes brincava-se aos polícias e ladrões; agora, aos políticos e ladrões.

SEF
Não sabe de que país ela é? Observe-a.

Coincidências
Vejo na internet uma notícia da TSF: dois asteroides chocaram ao mesmo tempo e na mesma zona da Terra.
Com que terá chocado o cérebro do redactor? Ele sempre há cada encontro!

Tipo aborto
Portugal pode ter alterações ao clima: basta escrever klima ou quelima.

Viagem inaugural
Vasco da Gama, quando partiu para a India, foi seguido por uma data de passarada. 
Só disse: a primeira milha é dos pardais.

SdB (I)

18 setembro 2015

Músicas dos dias que correm



Meu Portugal Meu Amor

Ai meu país
De onde vens, p'ra onde vais
Com tanta gente a fazer
Dos teus dias os meus ais

Ai meu país
Minha terra portuguesa
De Camões que tu tiveste
Pelo ventre da tristeza!

Todos os dias te canto
A condição de ser tua
Neste fado, neste pranto
Eu por ti ainda canto
Descalça por qualquer rua!

Não sei se te cante ou chore
Não sei se te grite um dia
Que na força deste canto
Rasgo a alma e digo em pranto
Que eu por ti ainda morria!

Ai meu país
Que trazes nos olhos fado
Desse rei que não voltou
Ao seu povo desejado

Na minha boca
Trago sempre o teu sabor
Por isso te canto e digo
Meu Portugal, meu Amor

(música de Fontes Rocha, letra de José Luís Gordo)

17 setembro 2015

Da vida que pode ser uma gaita

10.09.2015 (fotografia de JMAC, o homem de Azeitão)

Conheci-a em 2001, ano de todos os perigos. Já nessa altura tinha uma vida familiar desafiante, fruto de certezas e de interrogações, que estas últimas podem ser piores do que as primeiras. Mesmo assim encontrou tempo para se juntar a dois desconhecidos que se juntavam a tantos outros com um objectivo comum, maior do que todos. Ficámos amigos. Devo-lhe o que me mostrou, o que é, com todas as imperfeições que são inerentes à nossa condição humana. Nos últimos dias voltou a ser abalada por um sufoco, uma interrogação uma visão preocupada do futuro. Mas uma, que já lhe conheci vários. 

A vida de cada um de nós é um desafio muito grande: àqueles a quem a vida corre sempre bem, o que fazer de tanta felicidade; àqueles que são confrontados com um ou dois ou três acontecimentos funestos, como encontrar paz; àqueles para quem a vida é um permanente sobressalto, como seguir em frente. 

Há alturas na nossa vida em que a fé nos salva, a confiança no futuro nos salva; há momentos em que são as nossas redes sociais de apoio, porque nos acontece o mesmo que aos outros, mas esses estão sozinhos, sem ninguém que os oiça ou lhes ampare um desabafo; há momentos em que é a descoberta do sentido para as coisas, seja num amor, num desgosto, num empreendimento. Mas há momentos em que nada faz sentido. Quando morreu o Pe. Ricardo, um homem bom, que tocou uma infinitude de pessoas, que mudou a vida de tantas outras, afirmei isso: não me falem da Páscoa de Jesus, não me falem da vida eterna. Agora quero alguém que me acompanhe na irritação, talvez no estupor com que olho para os dramas que acompanho. 

Às vezes não há nada que nos salve, porque o sentimento de espanto, de injustiça, de cansaço, se sobrepõe a tudo. Às vezes, por mais crentes que sejamos, temos o direito à indignação de olhos postos no alto. Que já chega, que me deixem os meus em paz, que me deixem encher o peito de ar para enfrentar mais uma onda que me engole. 

A fé salva-nos, mas a vida por vezes é uma gaita. E está muito longe de ser justa...

JdB      

16 setembro 2015

Poemas dos dias que correm

Roma, Setembro de 2015 (fotografia de TdB)


soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

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