11 junho 2009

Onde estão os Homens? (Onde está o Wally?)

Ultimamente tenho-me deparado com um mistério dificil de entender e resolver. Onde quer que vá, para onde quer que olhe, só se vêem mulheres. Parece que os homens se eclipsaram. Obviamente, não me refiro aos locais ou ambientes tipicamente frequentados por mulheres, como sejam cabeleireiros e igrejas (não, não há qualquer intenção em relacionar secadores com confessionários; são simplesmente locais que, naturalmente, coloco no lado feminino). Embora no que toca aos cabeleireiros e esteticistas, a coisa já esteja a mudar um pouco para o lado dos homens !

Mas voltando ao tema de hoje. Desaparecem aviões, desaparecem pessoas, desaparecem empregos e também desaparecem os homens ! Não sei qual deles o pior. Venha o diabo e escolha. Vou às reuniões na escola do meu filho e vejo 15 mães e 1 pai - desde já contesto o nome Reunião de Pais; à beira-rio, em passo jogging, vejo mulheres e raparigas andando ou correndo, em função da idade; à noite, calhando sair, vejo bandos delas; nos shoppings, ao fim de semana, vestindo o seu fatinho de trem e o seu téne, vem a avó, a mãe, a madrinha, a afilhada e, eventualmente, um homem para compôr o quinteto. Na praia, vemos grupos de amigas, nas esplanadas, aos balcões dos cafés, nos supermercados, à porta das escolas, nas creches, nos ginásios.

Onde estão os Homens ?

Na Internet, nas salas de chats, no facebook; aqui no Adeus, na Caixa de Comentários, as mulheres excedem, em número, os homens e reparem que sublinho em número. Os tantos mails que se enviam e re-enviam, falando e enaltecendo a Mulher-Mãe-Amiga. Não há mails sobre os homens ?

Onde estão os Homens ?

Nas discotecas, nas festas de anos, nos aniversários de casamento, nos enterros, nas aulas de dança, nos consultórios médicos, nos psicólogos e terapeutas, nas coisas da alma e do espírito, nos transportes públicos, até nas faculdades, há sempre mais mulheres que homens.

Onde estão os Homens ?

Enquanto escrevo, ocorre-me uma ideia: será que se trata de fenómeno inverso ? Não os homens que desaparecem, mas sim mulheres que, antes escondidas, emergem agora em toda a sua pujança e número? No tempo das nossas mães e avós, é certo, as mulheres ficavam em casa. Pouco se mostravam. Pouco brilhavam, salvo portas-a-dentro. O seu número era incerto, pois nem sequer votavam. Ou será que, na realidade, nascem mais mulheres que homens e por isso estamos, mesmo, em maior número ? Se assim fôr, a mãe-natureza (até a natureza é apelidada de mãe !) terá de fazer alguma coisa para reencontrar o equilíbrio.

Onde estão os Homens ?

A mulher e o homem, na sua essência, completam-se. Um sem o outro é como uma obra de arte inacabada. Ao longo dos tempos, sabemos pela ciência, muitas espécies animais foram evoluindo, transmutando-se, para se adaptar ao meio ambiente ou para evitar a extinção da sua espécie. Se os homens continuarem desaparecidos, que será de nós, pobres mulheres, seres incompletos?

Homens, onde estão vocês ? (r.s.f.f. - Caixa Comentarios do Adeus)

maf

O poder do sonho

Ao pensar na palavra “sonhar”, logo me ocorre o popular provérbio: “querer é poder”. Meditando sobre ele, atrevo-me, na minha modesta opinião, a criticá-lo, ou melhor, a refazê-lo: “sonhar é poder”. Penso que esta seja uma forma elucidativa de provar o poder do sonho.

Sei que não estou perante uma tarefa fácil, face às inúmeras pessoas que vêem o sonho como algo infantil e datado apenas para o tempo em que somos crianças. No entanto, sirvo-me do meu carácter sonhador proveniente da vontade e do desejo de alcançar um objectivo.

É aqui que está o cerne da questão: de onde vem o sonho? Ele provém do nosso inconsciente como reacção ao desejo de realizar algo grandioso que sabemos, à partida, apresentar dificuldades.

Tratada a questão da sua origem, é importante salientar o seu impacto na nossa rotina. Considero que reside, aqui, o ponto mais atraente e sedutor no acto de sonhar. Já com as metas traçadas no inconsciente, todos os nossos actos vão em função do objectivo a atingir. Logo, cada momento é vivido na constante procura daquilo que nos fará sentir, na plenitude da felicidade, um sonho realizado.

Assim, e em jeito de conclusão, considero o sonho um estado de vida permanente.

MTM

10 junho 2009

Largo da Boa-Hora


Ocorre-me hoje reflectir sobre a prática da mentira, divergência consciente e intencional entre o real e o anunciado, exercida com o propósito de enganar o destinatário da mensagem.
Ao abordar este tema, a primeira constatação que ressalta é a de que existem inúmeras causas e fins para se mentir, num espectro tão amplo e abrangente que nele se contêm inúmeras variedades entre os extremos que serão, respectivamente, a mentira piedosa e a mentira malévola.
A mentira piedosa é, como a designação sugere, aquela que é animada de uma intenção bondosa, compassiva, cujo único propósito é evitar ou adiar o sofrimento do outro pela omissão do anúncio de uma realidade dramática, cuja oportunidade de conhecimento e de enfrentamento não é evidente. É o que sucede quando se mantém alguém na ignorância de um mal grave, cuja percepção imediata não terá qualquer vantagem. É exemplo de escola, deste tipo de mentira, a informação que o médico guarda para si sobre certo prognóstico grave que admite ou conclui.
A mentira malévola é aquela que é instrumental a burlar o destinatário. É o engano fraudulento, associado a práticas de natureza criminosa e que, pela sua natureza, não justifica mais descrição.
Para este texto seleccionei três tipos de mentiras que me proponho abordar, porque me parecem ser, de entre as tantas categorias, espécimes com particular interesse no relacionamento entre as pessoas.
Elejo, pois, a mentira embuste (que é odiosa), a mentira medo (que é compreensível), e a mentira ânimo (que é louvável).
A mentira embuste consiste na sucessão permanente de acções e declarações, falsas e enganosas, por forma a criar em alguém em particular, na intimidade, ou nas pessoas em geral, na comunidade, a convicção de que se é uma pessoa conforme certo modelo, figurino, paradigma, que não têm, todavia, correspondência com a realidade efectiva da natureza do farsante.
A mentira embuste fabrica, pois, uma identidade, estado ou condição, que permite ao ilusionista aparentar aos outros aquilo que na realidade não é.
O mentiroso torna-se num personagem por si idealizado, exercido e assumido, distinto de si próprio, passando a viver, em permanência, no desempenho desse papel teatral.
Pela dificuldade, se não mesmo impossibilidade de exercício, a mentira embuste é raramente global, sendo o mais comum exercer-se em algum dos planos sectoriais, possíveis, designadamente, e entre outros, no plano moral, amoroso e familiar, social, profissional ou económico.
É em algum destes planos, ou melhor palcos, que o indivíduo, pela mentira embuste, vai desempenhar o personagem que elegeu e aparentar o que não é.
Para quem for o seu público, o farsante vai aparentar ser homem de bem e de virtudes, quando é na realidade um libertino; vai fingir sentimentos de amor e afectos, quando o que sente é indiferença e descomprometimento; vai jurar amizades, quando se esgota no seu egoísmo e auto-satisfação; vai invocar títulos e feitos importantíssimos, quando o que faz é comum, sem merecer distinção especial; vai alardear fortuna, quando o que cumula são dívidas e trapalhices.
As causas destas vidas em mentira embuste são a imoralidade, a amoralidade, o ego desmedido, a vaidade, a ganância, a ambição, a frustração, a ânsia da sobreposição e domínio dos outros, o egoísmo, o egocentrismo e outras tantas características e patologias de índole no mesmo sentido.
A razão do meu interesse nesta mentira embuste é porque sinto crescer e proliferar a sua adopção como modo de vida e, sinceramente, estou convicto de que os seus cultores são de facto perigosos - sobretudo em tempo adversos, como estes que agora vivemos - porque tendo-se já triturado a si próprios, não hesitam em sacrificar qualquer um para atingir os fins que premeditaram, perigosidade que se agrava nestes cenários de crises económicas e sociais em que vivemos.
Mas, além desse factor de perigo, outro há que me impressiona: é que estes intérpretes da mentira embuste constroem edificações que vêem como fortalezas, mas que não passam de castelos de cartas que, em regra e sem aviso, soçobram em estrondosas derrocadas, arrastando nas consequências desse ruir todos aqueles que de boa-fé neles confiaram e acreditaram, com consequências destrutivas para essas vítimas.
São famílias partidas e perdidas, amores desiludidos e desfeitos, amigos pulverizados, empresas arruinadas, empregos acabados, honorabilidade e lustre social estilhaçados.
Cautela pois, não se dê o caso de a vida de algum de nós gravitar ou ser relevantemente influenciada por algum desses ilusionistas…
Nos antípodas, a mentira medo consiste na fraqueza humana de faltar à verdade por temor que essa mesma verdade possa magoar, desiludir alguém a quem que se quer, por receio que o conhecimento de certo acto ou facto cometido acarrete perdas de confiança, de respeito, de admiração, de amor, de imagem e notoriedade.
Falo tanto de actos ou factos menos próprios e conformes aos projectos e comprometimentos assumidos e em que o outro confia e segue, como, e especialmente, àquelas acções menos conseguidas ou frustradas que se saldaram em fracassos, cuja revelação poderia perigar o equilíbrio da imagem no pedestal.
É muito ténue a linha que, relativamente à mentira medo, a faz ser um acto indigno e cobarde, ou a converte, ao invés, num acto compreensível e, até, recomendável.
Aceitamos o pressuposto de que todos erramos, todos falhamos, todos caímos. O que está em causa é saber se devemos ou não partilhar esses maus momentos ou, pelo contrário, não só silenciá-los, como negá-los se nos forem imputados ou suspeitados.
Trata-se, evidentemente, de uma matéria delicadíssima, em que penso dever ser a sã consciência a ditar a actuação que em cada caso deve ser assumida. Só um verdadeiro, honesto e corajoso exame de consciência nos pode ditar se o bom caminho é a verdade pela confissão, ou a mentira pela negação ou omissão.
E entre outros, esse exame de consciência terá de ajuizar a importância que o erro teve para o próprio, a sua real dimensão, a força das suas causas, as circunstâncias do seu sucedimento, o impacto para o futuro, a sua reparabilidade, ignorando corajosamente, por outro lado, as consequências que a divulgação desse erro importará para o outro, e para a relação entre ambos.
É este julgamento de nós próprios que somos chamados a fazer
Se a conclusão do julgamento for no sentido da constatação de que esse erro, essa queda, essa violação, é grave em si mesma e para si próprio, porque tem efeitos, impactos, dimensão, se sente como consequência ou detonador de modificações, então a mentira medo é cobardia e ignóbil. Porém, se o resultado for que esses percalços foram isso mesmo, meras inerências à frágil condição humana, que foram apenas pó da estrada, então a mentira medo é justificada.
Neste quadro importará, talvez, ponderar três aspectos: primeiro, a expiação de erros é um processo que, se for honesto, é lento e doloroso, não sendo legítimo ir às pressas buscar a absolvição pelo perdão de quem magoámos ou lesámos, sobretudo porque ao fazê-lo passamos sofrimento e angústia ao outro; segundo, ninguém por mais íntimo que seja quer saber tudo sobre o outro, dispensa de bom grado a partilha de certos episódios marginais e inconsequentes; terceiro, o insucesso, se justificado, não tem por efeito a queda do pedestal, pelo contrário, origina mais união, alento e incitamento para o futuro.
Resta-me a mentira ânimo, à qual o espaço já consumido neste texto só me permite uma breve referência.
A mentira ânimo é aquela que assumimos para ajudar o outro, para o entusiasmar, para reforçar as suas expectativas e esperanças, para fortalecer a convicção nos seus empreendimentos, para lhe afastar medos, angústias e outras aflições. É aquela que proferimos para sermos o espelho que reflecte a imagem que o outro quer e precisa ver.
Com parcimónia e propriedade é indispensável, em exagero e constantemente é um erro de alucinação do outro.

ATM

09 junho 2009

Páginas escolhidas para o Dia de Portugal



Com efeito! Depois de tão desencontradas emoções só apetecíamos as camas que esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira, sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que não se despira, apenas embrulhara os pés no meu paletó, nosso único agasalho, ressonava com majestade.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
boné, que murmuravam baixinho com imensa doçura:

--V. Exas. não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:

--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exa. pelo Grillo... Ai atrás, num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grillo.

A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicência, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.

Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes — e outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido, de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.

Sacudi violentamente Jacinto:

--Acorda, homem, que estás na tua terra!

Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem pressa, à vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.

--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.

--Está claro que cheira bem, animal!

(Eça de Queirós, in A cidade e as Serras)

Músicas de dias que sempre correrão




Para o Wally, que não pediu esta música.

Histórias de descobrir o Mundo para a véspera do Dia de Portugal

(Portugal - I)

Da mão o Destino lhes escapou
e, feito nau, caiu ao mar
traçando no azul um rumo
que não puderam recusar.


(Portugal – II)

Dormia com o sol enrolado nos cabelos
e a areia de dentro de si escorria pela mão.

O mar o penetrou
e ao sair
as ervas medraram aí
como em bom chão.

Saíram então da terra
coisas tidas por secretas:
das cinzas criou um barco
das ganas
fez rotas certas.

Depois de parar um instante,
El -Rei D. João Segundo,
meteu a mão na cartola,
do vazio tirou o Mundo.


(Portugal – III)

Criando-se Pátria
aos homens se provou.

E fez-se depois ao mar
como quem um touro cita
para a si mesmo se provar.


(Portugal – IV)

Fim da Europa o criou
tranquilo e regular
e de proibido
só lá pôs o mar.

Da árvore tentação
o mar colheu
e, errante pelo mundo,
se perdeu.


(Portugal – V)

Heróis do Mar
nobre Povo
lúcido Ícaro.

As fontes do teu jardim
jorravam tédio e mel.

Partiste à grandeza.
Destino antigo,
profundamente mergulhaste o vento.

Profanando a Lei,
tocaste, ao de leve, o Sol.

Ferido,
soletraste a dor
e olhaste, coroado de lume,
a luz insuportável.

Só paraste de morrer
quando a terra arrefeceu
e recomeçou das cinzas a nascer,
rente, a erva.

JCN

08 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os encontros.

Quando marcámos o encontro pelo telefone, num fim de tarde chuvoso e frio, o Sr. Jerónimo Antunes não manifestou disponibilidade para revelar a sua profissão. Foi de tal forma peremptório que imagino, até, que me tenha dado um nome saído da sua própria imaginação. De facto, nada obriga o cliente a revelar a sua verdadeira identidade nem a disponibilizar a actividade profissional. Há informações que não são obrigatórias e que cada um gere da forma que melhor entende.

O Sr. Antunes revelou-se um homem trivial: estatura média, cabelo grisalho a revelar entradas fortes, alguma barriga a denunciar sedentarismo, e uma idade que se situaria próxima dos sessenta anos. Vestia um fato cinzento-escuro, camisa branca e uma gravata azul-clara. De facto, as modas podem transformar em quase uniformes tudo aquilo que se veste.

No instante em que entrou no estabelecimento pressenti-lhe algum incómodo – ou seria apenas mistério? Olhou muito à volta, numa mistura de espanto e curiosidade, atentou fortemente nas raparigas que iam e vinham. Presumo que se tenha surpreendido com as roupas das nossas operárias, porque me perguntou com um ar de ligeira incredulidade:

- Elas estão sempre vestidas desta forma, digamos… normal? Não sabia.

Estou certo de que o Sr. Antunes imaginou saias demasiado curtas, botas demasiado altas, caras demasiado pintadas, cabelos demasiado ressequidos, figuras provocantes e muito próximas de uma vulgaridade pouco estética. Preconceitos, ou proximidade do que é real?

Ao telefone tinha solicitado a Joana Maria, tendo adaptado a sua agenda à disponibilidade da rapariga. Não resisto a relembrar parte da descrição que fiz dela:

A Joana Maria, uma rapariga lisboeta, bonita, alta e esguia, dona de uma elegância natural revelada pela forma de andar, de se sentar, de afastar os cabelos dos olhos, de conversar com os clientes. Apesar da sua licenciatura em Farmácia tinha concorrido ao Corpo Diplomático depois de meses insanos de estudo e pesquisa, persistindo contra uns pais que teimavam em deixar-lhe um estabelecimento nas avenidas novas.

Sorri, imaginando-a, com uma regularidade de relógio, a fazer companhia ao Dr. Guimarães e Costa, o gestor elegante que se interessara por esta jovem que jogava o crapaud suíço como ninguém. Agora, tocava-lhe em sorte o Sr. Jerónimo Antunes com quem travei um diálogo algo estranho, porque feito de interrupções, de suores frios que imaginei no cliente, de palavras gaguejadas, de silêncios incomodativos:

- Já conhecia a Joana Maria?
- Não, de todo. Não! Porque havia de conhecer?
- Como soube dela?
- Por um amigo… Se já lhe disse que não a conhecia.
- O Sr. Antunes joga crapaud suíço?
- Como? Crapaud suíço?

Não reproduzo mais do que esta pequena troca de frases, porque seria difícil descrever em palavras aquilo que só é visível pelos olhos e decifrável por uma intuição que, mesmo assim, tem falhas.

- E agora, o que faço?
- Se quiser ter a amabilidade de se dirigir ao quarto nº 3, a Joana Maria está à sua espera. Pede desculpa por não o vir buscar, mas está a arrumar umas coisas. Satisfação do cliente, sabe…

Vi o Sr. Jerónimo Antunes a desaparecer no corredor, abrindo um botão da camisa que de certo o sufocaria. Por momentos pensei que talvez ele próprio se desvanecesse quieto ao balcão. Não era, confesso, uma visão inédita. O nervosismo de alguns clientes sempre fora patente e compreensível. Há o medo de não estar à altura, a vergonha de se cruzar com uma cara conhecida, o enervamento de uma primeira vez independentemente da experiência que se tem.

Uma hora depois o cliente saía com um olhar vago, uns lábios perlados de suor, uma testa húmida, umas mãos que não disfarçavam o tremor. Sorriu-me envergonhadamente, e senti-lhe educação, mais do que amabilidade. Talvez o sorriso não fosse mais do que um esgar. Encostou-se ao balcão, e solicitou um copo de água. Hesitei, por um instante apenas, na motivação menos imediata do rogo: pedido de último condenado ou primeira alegria de um liberto?

- Então Sr. Jerónimo Antunes, sente-se bem?
- Sim… Obrigado.
- E o que tem a dizer-me da Joana Maria? Uma rapariga lindíssima, não acha? Espero vê-lo cá mais vezes. E estou certo de que ela também o desejará. Gostou dela?

O cliente abriu a boca e voltou a fechá-la. Uma intuição levou-me os olhos para o fundo do corredor, onde vi a Joana Maria - que fugira ao sufoco de herdar uma farmácia - linda e elegante como sempre. Num instante olhou para mim, no segundo imediato dobrava o corpo num soluço.

- Há muitos anos que gosto da Joana Maria e sabia que a encontraria aqui. Sabe, ela é minha filha.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

07 junho 2009

Músicas dos dias que correm

Pensamentos dos dias que correm

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

In O retrato de Mónica (Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares)

Solenidade da Santíssima Trindade

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

EVANGELHO – Mt 28,16-20
Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia,
em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram-n’O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou-Se e disse-lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e fazei discípulos de todas as nações,
baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».


Dons, virtudes e frutos do Espírito Santo:
Dom do entendimento
Dom da ciência
Dom da sabedoria
Dom do con­selho
Dom da pie­dade
Dom da força
Dom do (santo) temor de Deus

06 junho 2009

Imagens dos dias que já correram




Adeus Natasha

Hoje faço um percurso a contragosto. Deixo uma pessoa numa estação de onde partirá para uma viagem de três dias. Três dias que imagino devam equivaler à dureza dos oito anos aqui passados. O mais certo é não voltar a vê-la. Natasha, minha empregada, leal como um pastor alemão, deixa-me um buraco no peito. 58 anos, emigrada calejada já antes de cá chegar, caiu-me aos pés sem falar português, de livrinho de significados em punho e pedindo um ordenado miserável. Enquanto estudava e evoluía na nossa Língua eu colava papéis amarelos nos objectos passíveis de tarefa, desenhava a ideia, em traços tão naifs que só podem ter contribuído para o seu desempenho. Perante a minha total inabilidade gráfica foi inteiramente legítimo que Natasha não fizesse nada com rigor. E quando se esmerava acima da média, sabe Deus com que sacrifício, mandava-lhe uma mensagem em festa, o incentivo. Era sim, fraca, a qualidade do seu serviço, mas imprescindível mantê-la a trabalhar. Por isso, impingi-a a umas quantas casas amigas. Os meus argumentos sempre foram comovedores e demolidores, mas houve quem a despedisse. Precisamente, o meu patrão. “Onde desencantaste a mulher?! Quem te paga para agenciares domésticas do Leste? Tem paciência. Nunca vesti camisas tão mal passadas!”

Chegou ao fim a minha Natasha. Viveu num quarto alugado, aprendeu português, viu os meus filhos crescer, nunca se esqueceu dos meus anos, de pôr flores ao meu Cristo. Trabalhava doente, não queria receber nos feriados, lutou em vão para proferir correctamente o nome Zé Maria – ficou o Maria Zé. Sustentou a família toda na Bulgária, passou horas no SEF, trouxe as duas filhas, um neto e o marido, mas até cá viveu apartada deles. Terça, em Gabrovo, espera-a uma mãe velhinha e doente, o desemprego, uma conta bancária a zeros e o futuro do costume – incerto. Como a Natasha, há oito anos na Bulgária, sinto o mesmo abismo em Portugal. Uma empresa à beira da falência, um País que sem dó nem piedade me exige as coisas mais incríveis e uma profissão que morre a cada dia. Na Natasha, percebi que para sobreviver esquece-se a falta de forças, o passado e o que se foi, larga-se tudo e parte-se, até para limpar o chão que outros sujam. Das suas olheiras de insónia, saudades, cansaço e preocupação, saltava sempre um brilho para nós. Lágrimas, vertia-as longe. Nunca se aproveitou de mim, nunca aceitou almoço ou lanche, nunca me deixou descalça em oito anos. O meu dinheiro jamais teve um fim tão digno. E o que leva daqui a Natasha? As mãos vazias, o coração em chagas. O que veio fazer a Portugal? Só vislumbro a lição que me deu, o mais útil ensinamento para o meu amanhã – o seu exemplo de coragem, humildade e persistência.

DaLheGas

05 junho 2009

no comboio descendente*

de pés descalços, areia por baixo,
as ondas ao fundo e perto
- como o mundo.

de mãos nuas, mexendo na areia,
as estrelas longe e perto
- no mesmo segundo.

espécie de flash fulminante,
lembrando cada instante
- e assim por diante.

uma tarde a revistar as algibeiras,
por dentro, por fora
- de todas as maneiras.

mas não encontrei palavras literais,
nem as metáforas de ricouer,
nem signos, nem cifras, nem fórmulas
- nem criptografias vivas, nem geografias mortas.

nada servia para nada;
nada me fazia bem,
nada me fazia mal.

será então a ausência.. tudo?
ou será antes a presença.. nada?
tudo baço, tudo difuso,
tudo raso, tudo mossa.
eu (para ti): 'nada posso'.
tu (para mim): 'tudo passa'..


* verso de Fernando Pessoa, título de uma conhecida canção de José Afonso.

gi

04 junho 2009

Músicas dos dias que correm

Nota: sem filme, apenas uma fotografia

Beta

Antes de começar a escrever estas linhas, enquanto ajeitava o saco cheio de esferovite que o Diogo trouxe num dia em que resolvemos beber minis demais, Toma lá isto, está a ocupar o meu quarto todo, mas vê lá, é para a Rita, não é para ti, tinha na ideia escrever sobre o condão das manhãs em que o despertador se deixa substituir por um beijo preguiçoso e um bom dia da mesma família. Acontece que, instalado o estaminé, me veio à memória, e não fosse essa, de entre todas as faculdades do intelecto, a minha favorita, a Beta. Perdoem-me os que queriam saber mais das minhas manhãs, ficam prometidas para uma outra oportunidade.

A Beta era a mercearia da Rua Sá Carneiro, que fazia entroncamento com a minha rua, a Da Saudade, as mesmas que contornavam a escola. Tínhamos ali, portanto, uma conjugação de fenómenos demográficos e urbanísticos que faziam daquele cantinho da Vila Forte, um pequeno paraíso para se crescer, um lugar digno de recordação. Comecei a ir à Beta na idade dos joelhos, aquela em que ainda não sabemos bem andar, apenas nos limitamos a atirar as pernas para a frente, ao acaso, e conhecemos toda a gente pelo meio das suas pernas, ora na companhia da Matilde, que fazia o almoço e passava a ferro as camisas lá de casa, ora na da minha mãe. Desse tempo, além dos joelhos, só recordo o meu reflexo no espelho inclinado que estava por cima das frutas e verduras, lembro-me de olhar para cima e de ver um pequeno, novo de mais para usar aqueles óculos, sem uma sobrancelha, que ficava sempre no penso para os "olhos tortos", perdido numa confusão de sapatilhas, sapatos e chinelas, de todos os que por ali andavam nas suas compras. Mais tarde, do alto dos meus quatro ou cinco anos, comecei a ir lá sozinho, com encomendas simples lá de casa, Dois quilos de batatas novas Zezinho, e não deixe que o enganem com o troco, Vai à Beta e trás um pão caseiro Zé, corre antes que acabem, Ai que eu não tenho cenoura para a sopa! Zé!, só o meu pai me deixava sossegado, ele nunca precisou que eu fosse à Beta, nunca me lembrei de lhe perguntar porquê. Quando comecei a receber mesada, duzentos paus, acordei para toda uma riqueza de guloseimas, bolicaos e batatas fritas, até então vedados por força do dinheiro contado para os recados. O poder de compra veio com a primeira classe, antecipei-me rapidamente à matéria de matemática e sabia de cor, a mesada dava para quatro sumóis ou quatro bolicaos, para seis ou sete pacotes de batatas dos pequenos e para um bolso cheio de pastilhas gorila, era uma infinidade de alegrias em mil e uma combinações diferentes.

A Beta fechou já eu tinha pêlos no queixo, descobri numa tarde qualquer, já o meu mundo ia além do rio Lena e do Bairro de São Miguel, não resisti parar em frente à montra forrada a jornal amarelo e a recordar o tempo em que aqueles dois degraus eram um pulo enorme, em que o reflexo do vidro era o meu boné do Benfica, em que os recreios começavam numa correria louca, do lado de lá da rua, em busca duma gorila de laranja, que durava até ao recomeço das aulas, até ao caixote das pastilhas que ficava à entrada da sala, por baixo do quadro das tabuadas.

Quando brinco com a memória, gosto de guardar a infância separada por lugares, a Beta tem uma gaveta só dela.

Zé-do-Telhado

03 junho 2009

Largo da Boa-Hora

Quem já viveu a despedida irreversível, o adeus definitivo, a partida sem regresso, sabe que nesses tempos de cisão, de separação, de perda, irrompem impetuosamente e coexistem múltiplos sentimentos, pensamentos e memórias, formando, o seu conjunto, um intricado e complexo acervo que caracteriza e individualiza a passagem pessoal de cada um por esses acontecimentos.
Confrontando a minha experiência com a de outros que comigo partilharam situações de perda, reconheço e identifico alguns sentimentos que são comuns a todos e que predominaram no durante e, sobretudo, no depois dos acontecimentos.
De entre esses denominadores comuns destaco o remorso, em especial aquele gerado por silêncios e omissões, e não tanto por acções ou afirmações.
Efectivamente, sente-se culpa e arrependimento pelo que não se fez ou não se disse, em surpreendente preponderância sobre a contrição por actos praticados ou ditos proferidos.
Na verdade, não é o mal que se fez que corrói, mas o bem que se omitiu que consome. Porque efectivamente, na maioria dos casos, as pessoas não exercem a maldade, o que sucede é que omitem a bondade.
Na ocasião do fim da estrada, em que os peregrinos se perdem e se separam para sempre, num ápice de recordação e culpabilidade dolorosa, vem o amargo das palavras que foram caladas, dos olhares opacos, dos abraços adiados, dos beijos reprimidos, dos afagos preteridos, dos acenos esquecidos. Em suma, do amor aprisionado numa interioridade teimosa e orgulhosamente não declarada, oferecida e partilhada.
O que me importa neste texto não é propriamente dissecar o luto da perda, mas antes, a partir de uma constatação da sua essência - o remorso – apelar a uma vivência anterior que evite, ou pelo menos mitigue, que o arrependimento seja par no cortejo de dor e infortúnio que segue o adeus.
Vejamos pois.
A perda de entes queridos sobrevém, ou pela morte física, ou porque deixaram de ser queridos para nós, ou porque nós deixámos de ser queridos para eles.
A morte, essa, é inelutável e imprevisível, escapando por definição ao domínio da vontade humana.
Sobre o epílogo da vida nada podemos fazer, e para este texto este fim importa, porque sendo condição extrema de separação, é a ocasião de remorso em que a generalidade das pessoas incorre, e em cuja teia é justamente apanhada.
A morte surpreende-nos sempre, surge abruptamente, vem sempre na véspera do justo tempo.
Este desfasamento entre o tempo da realidade e o tempo conceptualizado decorre da nossa repulsa ao efémero, radicada na irracional crença da perenidade do que é, portanto, na imortalidade.
Ilusão de perenidade que nos leva ao adiamento do ser, do dizer e do fazer.
Concedemo-nos prazos e amanhãs como se fossemos divindades, e com essa concessão somos surpreendidos pela chegada da hora, com a mesma infantilidade e inconsciência da criança preguiçosa, espantada pela chegada do exame, após ter gasto o tempo de estudo em folguedo.
Prudente e sábio é aquele que não confia em amanhãs e rompe hoje, com toda a urgência, o muro de silêncios e o deserto de omissões que povoam a sua relação com o outro, desconfiando sempre que adiar pode tornar tudo tarde de mais.
Admito, aliás, que no chamado leito de morte se possa obter, em derradeira instância, o perdão por actos praticados, se consiga a generosa e pacificadora absolvição de quem parte pelo mal que foi feito, mas já não estou tão certo que esse perdão possa recair sobre uma vida que, não tendo sido vivida, condenou outra a também não o ser, tantos foram os silêncios e omissões que as preencheram. Apagar “instantaneamente” um erro é possível, mas reconstruir décadas de “nada” será, provavelmente, uma ficção impossível, mesmo para o mais bondoso.
Deixando a morte, abordemos os actos entre vivos
O silêncio e a omissão corrompem, minam e destroem os alicerces de qualquer relação.
A ausência e vazio entre presentes fisicamente é mais destruidora e arrasadora do que a distância real que se possa interpor entre duas pessoas.
A mera justaposição, as rotinas do estar e acontecer, o conformismo de uma realidade estagnada como água de lago camarário abandonado, são as causas reais da deterioração da relação.
O fim do princípio sucede quando nos surpreendemos - mas passamos a aceitar - o automatismo da vivência, o quando e como nos tornámos para o outro em peça de uma engrenagem comprometida a um funcionamento mecânico de sobrevivência e subsistência, incluindo de imagem e figurino.
O princípio do fim ocorre quando um dos dois, em inoportuna lucidez, conclui que tudo se resume a um continuar por continuar, a um caminhar, passo após passo, sem felicidade, prazer, desfrute, ideal ou esperança nesse roteiro.
E estes desencontros, estas dissonâncias, estes distanciamentos, pior e no limite, estas (des)intimidades, estas (des)cumplicidades, este estranhamento do outro são, regra geral, resultado do silêncio e da omissão que passou a ser dominante.
Na verdade, a essência dos protagonistas não se alterou. Porém, as palavras de amor, de ternura, de confiança, de compreensão, de sonho, de confissão, de esperança, de medo, de valorização, de exaltação, de importância, de ansiedade, de desafio de... e de… que unem, cimentam e criam a verdadeira e permanente aliança, passaram a ser omitidas, deixaram, pura e simplesmente, de ser ditas.
Quando se queriam permanentes, actuais, constantes, oportunas, em cada fase e momento da vida, porque cada quotidiano reclama o compromisso de partilha plena de tudo o que nos vai na alma, para não sobrarem destroços que, em se acumulando em solidão, acabam por formar uma açude, uma barreira, um muro, que obstrui, reduz e acaba por eliminar a fluidez indispensável para a mesma seiva alimentar a mesma planta, sendo que é este o compromisso do amor, que assim vai sendo negado e que acaba por soçobrar.
Estes silêncios não são gerados pelo desamor ou desencanto, ou grandes desencontros. São gerados porque a desconfiança, o medo, a preguiça, o excesso de confiança os recomendam ou consentem, e a vergonha, o pudor, o temor do ridículo, da revelação da verdade, da frustração perante a vida acabam por os impor.
Do mesmo modo, e no mesmo sentido, sucedem as omissões de actos. Falo de manifestações e expressões físicas que corporizem as palavras que deviam ser ditas e que as securitizariam, complementariam e demonstrariam, cuja ausência deixa um vazio de gestos, impossível de suportar, compreender e aceitar.
Ora, este silêncios e omissões minam e corroem os alicerces, expondo-nos à vulnerabilidade de qualquer agressão externa, que funciona apenas como detonador para a pólvora que essas lacunas constituem.
Nada nem ninguém destrói uma relação, apenas detona o explosivo em que ela se converteu, e sucede a implosão. Um “amo-te”, um “preciso-te”, um “quero-te”, um olhar, um sorriso, um carinho, um abraço, um beijo, acontecidos no tempo e modo do outro, e de nós próprios, tornariam esse detonador em mero estalido de carnaval…
E o melhor é que a minha fé, neste sentido, não exige heróis, nem vencedores, nem estrelas, apenas homens e mulheres sensíveis, atentos e conscientes de que o amor não é um título, uma qualidade, um direito, uma propriedade, mas um estado de graça, que, pela palavra e pela acção, tem de ser vivificado e fortalecido permanentemente. Acredito na dinâmica e sei que a estática liquida.
P.S.: Tudo o que vem dito é para mim válido para qualquer amor, seja ele conjugal, parental, filial e para qualquer afecto, como a amizade ou o companheirismo.

ATM

02 junho 2009

História que aconteceu mesmo

(Esta noite deu-me para criar)

Pus jasmim na tua boca
pintei de luz os teus olhos
tirei-te as rugas da alma
e fiz com elas três molhos.

Deslumbrei o teu sorriso
fiz do teu corpo um desejo
pus ouro nos teus cabelos
e, sem querer, dei-lhes um beijo.

Foi ao ver o que fizera
que vi que em nada mudaste:
tanto trabalho perdido ...
que bonita que ficaste!

JCN

01 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia da tomada de Lisboa aos mouros

O rapaz aproximou-se do balcão e travámos o seguinte diálogo inicial:

- Boa tarde. Sra. D. Amália?
- Sim, sou eu.
- Sou o Martim.
- Martim Miranda?
- Martim Moniz, de facto. Miranda é da minha mãe…
- O seu avô…
- Sim, esteve cá a semana passada, já sei. Estas coisas do avô…
- Pois. Percebo…
- Posso ir entrando?
- Faça favor, Martim. É o quarto nº 6.
- Tem graça. É o número da minha camisola de râguebi.

O rapaz tem o seu quê de interessante. Alto, levemente aloirado e com os olhos azuis do avô, é bem constituído fisicamente, resultado provável de um jogo ao qual nunca achei particular graça, por o imaginar demasiado violento. Como será que um rapaz, habituado a correr atrás de uma bola oval, que parece saltar sem regra nem previsão, e a agarrar-se às pernas dos adversários, caindo todos amontoados, dará ternura e atenção a uma rapariga mais velha? Como se comportará ele? Se calhar uma hora será demasiado…

Martim Moniz, o rapaz de 16 anos que foi iniciado nestas artes do amor a convite do seu avô, que mais não fez do que prosseguir uma tradição antiga – para ele, talvez, tão importante como manter um negócio ou respeitar nomes de família – saiu do quarto nº 6 passado uma hora. Exactamente uma hora. Vinha com uma cara sorridente, levemente corado, e com os botões da camisa mal abotoados. Agradeceu o reparo que lhe fiz a esse facto e corrigiu-o imediatamente.

Travámos o seguinte diálogo final:

- Então Martim, correu tudo bem?
- Acho que sim, não sei…
- Diga lá o que apreciou mais. Gostamos de fazer estas perguntas para satisfazer os nossos clientes…
- Posso dizer-lhe uma coisa?
- Claro, diga…
- Não vou contar nada. Nem a si, nem ao avô, nem aos meus amigos.
- Mas porquê? Não gostou de alguma coisa?
- Não, não é isso.
- Então?
- Sabe, eu gosto muito do meu avô. Um dia ouvi-o dizer, não sei a quem, que um cavalheiro não fala das suas conquistas. Talvez ele se referisse a si próprio, não sei... A minha mãe não concorda nada com a minha vinda cá, mas o meu avô disse que era uma espécie de iniciação para me tornar um homem - e mais tarde um cavalheiro. E como um cavalheiro não fala das suas conquistas...
- Respeito. E quer explicar-me, ao menos, porquê a Honória, uma moçambicana? Confesso que a minha previsão saí enganada.
- É muito simples. Quando o avô me falou nas raparigas, para usar a expressão dele, fixei logo esse nome.
- Mas porquê?
- Porque quando acabar o 12º ano quero ir para Moçambique fazer voluntariado, e sempre perguntava algumas coisas... Ela diz que talvez vá comigo, que tem saudades da Beira e da praia do Macuti.
- Pois...

A Honória aproximou-se de nós e ofereceu um abraço ao Martim, que retribuiu corando até à raiz dos cabelos. Deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios e desejou-lhe uma boa tarde, agradecendo a hora que tinham passado juntos.

- Conta-me, Honória, conta-me como foi. Como é que se portou o rapaz?
- Não ouviste o que ele disse, Amália? Há gente que não fala das suas conquistas. E para um cavalheiro - para um verdadeiro cavalheiro - qualquer acompanhante é sempre uma senhora. E, agora, se não te importas, vou recolher umas informações para o Martim. Sabes se a internet ainda está em baixo?

Vi a Honória, a moçambicana apaziguada com o seu passado, a partir dengosa de volta para o seu quarto, deixando um rasto de África. Ao longe, já a entrar no carro conduzido pelo avô, o jovem Martim Moniz, Miranda por parte da mãe, seguia apressado para mais um treino de râguebi. Talvez fosse, de facto, um cavalheiro a praticar um desporto de selvagens.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

Lanterna Vermelha - explicação

O jovem Martim atrasou-se... Assim sendo, e porque há motivos ponderosos, o Lanterna Vermelha de hoje sairá um pouco mais tarde. Tenham paciência...
Estou certo de que o editor e dono do estabelecimento perceberá.
MTS

31 maio 2009

Dia da Solenidade de Pentecostes

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Um casal de quem sou próximo há muitos anos enfrenta uma crise séria no seu casamento. À sua volta, e borboletando com a melhor das intenções, alguns amigos afadigam-se em conselhos sábios, frases reconfortantes, sugestões díspares. Este par tem, como todos, um histórico de felicidade e do seu inverso, de luta, de cumplicidade, de monólogos persistentes e fracturantes, de pequenos nadas, talvez, que engrossarão o caudal de desestabilização de que se reveste, por vezes, uma relação duradoira.

Alguém, a quem a vida mandou dar uma cambalhota brutal, queixa-se, no meio de um sem número de confortos, de maçadas, coisas irritantes e incómodas, necessidade de soluções para problemas para os quais não estava desperta, porque alguém, que Deus já lá tem, tomava conta dessas ocorrências. Há quem reaja mal a estes queixumes, achando, talvez, que quem tem vidas confortáveis tem menos direito ao lamento.

Outros, no anonimato das ruas e das casas, matam os sonhos que já não sabem se têm e embarcam em aventuras cujo combustível, que se mascara de felicidade aparente, é o medo de uma solidão aterradora. As vidas são indeterminadas, imprevistas, difíceis. O comando da nossa nau pertence-nos cada vez menos, e cada um de nós olha para si ou para os que estão próximos e vê o desemprego, o expediente, a reserva, o sufoco, a frustração, o desânimo. Em momentos de incerteza e insegurança há menos lugar para o devaneio, que é considerado um luxo impensável nos dias de hoje.

Outros, ainda, olham para a soma dos seus dias e vêem um desalinhamento permanente dos astros, um conluio cósmico, um azar persistente, uma injustiça gritante. Nenhum de nós merece, de facto, o que de mal lhe acontece, porque a vida se quer fagueira, confortável, com aquela adrenalina que é boa, como quem tem o colesterol dentro dos intervalos de segurança. O desemprego é injusto, a escassez imoral, as dificuldades esmagam, o futuro afigura-se sombrio. Mais do que para a frente olharmos para trás, mais do que crescimento dizemos crise.

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

Reza assim o Evangelho de hoje, dia da Solenidade de Pentecostes. Ressaltam-me do texto ideias como a das portas da casa que estavam fechadas, o medo, talvez o anoitecer. Mas ressalta, também, o seu inverso: a noção de Jesus no meio dos discípulos, a saudação da paz, a identificação pelas mãos e pelos lados, sinal, não de dor e sofrimento, mas de entrega sem limites.

Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
que se iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.

Um jornalista leria este excerto da primeira leitura e reproduziria factualmente o que aconteceu: gente com dotes poliglóticos surpreendentes, manifestações sem explicação científica evidente. Felizmente não procuramos o facto, mas a metáfora. E é por isso que confiamos no Espírito Santo, que rezamos para sentir a língua de fogo que tudo renova, para sermos bafejados pelo discernimento que identifica o caminho certo e pela força de que necessitamos para o trilhar.

Olho para os quatro casos que referi no início (quatro casos reais, com pessoas igualmente reais) e que são, aparentemente, desligados uns dos outros. Em todos - nos protagonistas e em quem é parte envolvida - vejo portas fechadas, medos, dias que anoitecem. É então que me vem a certeza da necessidade de uma linguagem nova: a linguagem da tolerância e da compreensão, da fé e da esperança, do amor e do perdão.

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

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