21 janeiro 2026

Da diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação'

Um dia destes, entre uma bicada numas amêijoas à Bulhão Pato e uma bicada numas plumas de porco preto, dei por mim a dialogar sobre a diferença entre alguém 'queixar-se' e alguém 'manifestar uma preocupação'. Afinal, o tema não é despiciendo: tendemos naturalmente para nos impacientarmos com os primeiros, e tendemos de forma igualmente natural para nos solidarizarmos com os segundos. Ouvir uma pessoa e decidir que ela está a queixar-se ou apenas a demonstrar uma preocupação pode suscitar respostas completamente diferentes. 

O dicionário Priberam define 'queixar[-se]' (também) como lamentar-se, mostrar-se ofendido ou indignado. Por outro lado, a expressão 'manifestar preocupação por' pode definir-se (também) como um estado de inquietação, ansiedade ou receio sobre algo que pode dar errado ou que necessita de atenção. É uma demonstração de apreensão por uma situação, pessoa ou problema. 

A diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação' poderá estar no tom, na intenção e na forma como ouvimos quem profere o lamento. 'Queixar-se' envolve insatisfação ou descontentamento com algo e costuma ter um tom mais emocional, negativo ou crítico, podendo ser percebido como simples reclamação ou como algo pouco construtivo. Já a 'manifestação de preocupação' envolve cuidado, atenção ou alerta sobre um possível problema. Tem um tom mais neutro, respeitoso e racional, sugerindo intenção construtiva, muitas vezes com um foco na prevenção de consequências ou na melhoria de uma situação.  

O meu interlocutor defendia que a queixa é de alguma forma egoísta, nomeadamente quando a pessoa se lamenta, não tomando nenhuma decisão. Exemplo: tem muito trabalho. Porém, quando o lamento tem impacto noutras pessoas já configura a manifestação de uma preocupação. Exemplo: o trabalho que dá a manutenção de casas porque a sua alienação pode afectar potenciais herdeiros. Eu defendi que a diferença entre a queixa e a manifestação de preocupação está, também, no tom de voz e na repetição; e defendi que apenas em casos claramente óbvios essa diferença é óbvia. Fora isso, há uma enorme zona cinzenta relativamente à qual a diferença entre um estado e o outro é muito ténue, sendo que depende, também, de quem ouve. Na verdade, do que dizemos só metade nos pertence; a outra metade é de quem nos escuta. 

A definição constante acima é bastante clara. No entanto, quem pode dizer que a queixa de muito trabalho não tem uma motivação construtiva por trás? No seu roman à clef intitulado Vidas Concêntricas, escreve Adalberto Cristina Carvalho: Hélder tinha uma generosidade que era filha da preguiça, como que a comprovar que uma virtude poderia ser motivada por um pecado; e tinha uma forma de lamento homeopática que, dizia ele, o ajudavam a combater a misantropia - a queixa como alívio. O incómodo para os outros - uma espécie de pecado social - era motivado pela virtude.

Há diferença entre dizer 'queixo-me dos custos dos materiais' ou dizer 'tenho uma preocupação com os custos dos materiais'? Podemos dizer à primeira que, no fundo, embora use a expressão 'queixa', essa pessoa está a manifestar uma preocupação? E podemos dizer à segunda que, no fundo, apesar de manifestar preocupação, essa pessoa não faz mais do que queixar-se? O que as diferencia?

Neste tema, como em tantos outros, teremos de usar de bom senso:a forma como ouvimos o lamento, se o lamento é transformado numa acção, a motivação, o histórico da pessoa que profere o lamento, a forma como o ouvimos e a nossa opinião sobre a referida pessoa, o universo humano associado ao lamento.

JdB

20 janeiro 2026

Poemas dos dias que correm

 Os Meus Livros 

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

***


Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

Pedro Mexia, in "Duplo Império" 

18 janeiro 2026

II Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO – João 1,29-34

Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim batizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a batizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que batiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

17 janeiro 2026

Pensamentos Impensados

Atendendo a que todos os meses têm um signo, qual será o signo do 13º mês?

Tentaram promover uma exposição pornográfica, mas foi vetada; foi uma espécie de veto de castidade.

Os subsídios concedidos ao teatro podem ser considerados como despesas de representação?

Tomou um remédio para as alergias e ficou com alergia ao remédio.

SdB (I)

16 janeiro 2026

O músico *

Habituei-me a vê-lo, nos últimos dois ou três anos, numa das ruas mais movimentadas da zona onde vivo. Relativamente novo, pelos quarenta anos, aparentou sempre um ar distinto, para o qual contribui o ar lavado e as roupas em bom estado, não obstante algum desenquadramento com a moda. 

Entabulei conversa com ele um dia, quando o vagar do meu fim de tarde o permitiu. O cão ao seu lado sorriu-me num abanar de cauda afável e o Alberto - assim se chama o rapaz - agarrou na bengala para que não houvesse o risco de ela ficar fora do seu alcance. Rodou a cabeça para captar melhor o som da minha voz e, perdoe-se a contradição, olhou-me por detrás de uns óculos escuros de cego. Trocámos meia dúzia de palavras de circunstância e afastei-me rapidamente, porque o Alberto tinha de trabalhar para poder facturar, passe a expressão demasiado economicista para quem está incapaz de ver o mundo, limitado a uma imaginação cuja fertilidade tem dias.

Durante cerca de uma hora ouve-se fado tocado com o maior sentimento. De guitarra na mão, o Alberto percorre as melodias que revelam a alma portuguesa funestamente melancólica. A qualidade é francamente elevada, pelo que as pessoas param, encostam-se a uma parede, ouvem com deleite. No fim, aproximam-se do músico, elogiam-lhe a arte, afagam o cão, deixam uma recompensa generosa na caixa da guitarra.

Quando o sol se põe e o movimento diminui, o Alberto recolhe, acompanhado do cão e de uma bengala, auxiliares que lhe tacteiam os obstáculos e o guiam na selva urbana. Ao chegar a casa, um apartamento herdado num bairro de classe média, cumpre religiosamente as suas rotinas: um bom prato de comida que o cão chamado Esperto merece recompensa; uma música suave para acalmar a tensão do dia e, por vezes, um banho quente e longo que revigora e relaxa.

Quando o noticiário das nove da noite está quase a terminar, chega a Marília, a quem o Alberto beija com uma sensualidade e um ardor que ganhariam foros de erotismo no cinema. Percorre-lhe o corpo com uma mão ávida e carregada de desejo, como se o tacto assumisse foros de grandeza, alcandorado ao mais importante de todos os sentidos que a natureza nos oferece.

Correu-te bem o dia, Alberto?

Não me posso queixar…

Percorrem então, lentamente, os canais de uma televisão maçadora e repetida. Comentam as notícias, as pessoas, as roupas, os cabelos, as actrizes. Alberto fala dos espectadores que o ouvem tocar, dos visitantes assíduos, dos esporádicos, da dimensão das esmolas.

Ao fim da noite, o homem que domina a guitarra portuguesa, cujos dedos reproduzem melhor do que ninguém o Mouraria e o Menor, já não tem óculos escuros, e os seus olhos azuis apreciam a geografia física da namorada.

Estás melhor do que nunca, Marília.

Abraçam-se e riem muito os dois, numa voragem de emoções fortes. A Marília enamorada doentiamente por um homem vocacionado para o teatro e que sempre enganou toda a gente. O Alberto, com uma cegueira só de paixão, sem conseguir imaginar o que seria não ver o que as mãos sentem.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

* publicado originalmente a 2 de Novembro de 2009

14 janeiro 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

2026 INSPIRADO PELO PEDIDO DE FLANNERY O’CONNOR 

Nascida há cem anos, de vida relativamente curta, até aos 39 anos (1964), Flannery O’Connor deixou uma produção literária muito premiada – a maioria, postumamente – , sobretudo composta por contos duros, narrados em estilo seco e algo cortante. Abundam nas suas narrativas os twists imprevistos, que fazem desabar ideias pré-concebidas sobre a realidade e sobre as pessoas. Tudo parece ser testado ao limite, explorando as motivações mais profundas para expor as mil fraquezas humanas, numa destrinça lúcida entre a aselhice e a má intenção. 

No seu estilo inconfundível, Flannery era genuína e corajosa a explorar os refolhos do comportamento humano, marcado por contradições, mesquinhez em excesso, mas também imprevista grandeza, quando tocado pelo dom. 

À esquerda, com a sua novela «Wise Blood».

Pertencente à América sulista de maioria protestante e herdeira da tradição esclavagista dos grandes latifúndios, a escritora teve a invulgaridade de ser uma católica intelectual, convicta até ao âmago e avessa a sentimentalismos. Não esteve imersa na afectividade de muitos ambientes cristãos da Europa do Sul, antes em contraciclo com a maioria dos seus conterrâneos. Também não se lhe conhecem afinidades com o salero caloroso da religiosidade latino-americana. No seu mundo, avançava o materialismo e subsistia ainda o moralismo dos pregadores protestantes, que funcionavam como opinion leaders das sociedades rurais do Sul dos Estados Unidos.   

Racional e rigorosa, empenhou-se com todo o seu talento literário em desconstruir o proselitismo manipulativo dos falsos profetas do seu tempo, que pregavam paraísos ocos, narcísicos, baseados em miragens e num consumismo meio desenfreado, onde a maioria vivia superficialmente, tornando-se presa fácil dos sedutores do momento e das modas da época. A sua novela «Wise Blood», sobre um pregador de uma ‘Igreja da Verdade, sem Deus’, oferece uma síntese desta decadência quase nihilista, que a autora denunciava e combatia. A obra foi transposta para o cinema por Huston (1979) com argumento adaptado pelos filhos (Michael e Benedict) dos seus amigos Fitzgerald. 

Curiosamente, marcou os colegas de faculdade pelo sentido de humor, além do enorme talento na escrita e no desenho. Nos tempos da Universidade, os seus cartoons faziam furor. O temperamento tímido não a impediu de se integrar nos círculos intelectuais de Nova Iorque e de cultivar boas amizades com gente muito diversa. 




Os seus contos – que uns consideram “góticos”, outros de escrita áspera e indigesta (revejo-me) ou até “grotesca” – estão impregnados de um humor sarcástico e ácido, que proporciona reviravoltas surpreendentes nas tramas sombrias, habitadas por personagens que arrastam fracasso, vícios e incontáveis limites. Será que o seu olhar só tropeçava nos falhados da vida ou serão eles a metáfora do ser humano comum, apenas com os contornos da América profunda? Segundo a escritora, os traços caricaturais dos seus anti-heróis serviam de alerta para as mentes embutidas e desatentas do grande público (basicamente, todos nós), já só capaz de captar imagens e mensagens extremadas, hiperbólicas sobre os perigos camuflados que pululam na vida. A possibilidade de happy end residia na graça. Explica a autora: «Resumindo, descobri, ao ler a minha própria escrita, que o meu tema na ficção é a acção da Graça em território dominado, em grande parte, pelo diabo, (ao ponto de) o diabo (poder) ser instrumento involuntário da Graça.» 

Quando lhe foi diagnosticada a doença autoimune lúpus (1951), de que o pai morrera, viu-se forçada a abandonar a vida cosmopolita de Manhattan e a mudar-se definitivamente para a quinta da família – “Andalusia”. Naqueles últimos 13 anos manteve-se fiel à disciplina diária da escrita, a par de cuidar das plantas e dos seus queridos pavões. Recebia também muitas visitas e viajava, quando as dores abrandavam, para dar conferências pelo país. Tinha de gerir forças para aguentar o peso de cada dia: «Tenho uma doença chamado lúpus e tomo um medicamento chamado ACTH, e consigo viver bem com ambos. O lúpus é uma daquelas coisas na categoria do Reumatismo; vem e vai; quando vem, retiro-me, quando vai, aventuro-me. O meu pai teve-o há cerca de 12 ou 15 anos, mas na altura não havia nada a que se pudesse recorrer senão ao coveiro; agora pode ser controlado com ACTH. Tenho energia suficiente para escrever, e como isso é tudo o que realmente tenho de fazer, posso, com um olho semicerrado, tomar tudo isto como uma bênção.» (in carta a Elizabeth e Robert Lowell, a 17.MAR.1953).  

Mesmo sem conseguir apreciar parte da sua obra bastante crua, reconheço-lhe linhas geniais e luminosas, como este pedido, sob a forma de oração, que ajudam a inaugurar o ano de 2026, em beleza: 

«Ó Rafael, guia-nos em direcção àqueles que esperamos, àqueles que nos esperam:

Rafael, Anjo do encontro feliz, guia-nos pela mão até àqueles que procuramos.

Que todos os nossos movimentos sejam conduzidos pela tua Luz e transfigurados pela tua alegria.

Anjo, guia de Tobias, apresenta o pedido que aqui te entregamos aos pés d’Aquele cujo Rosto desvelado tens o privilégio de contemplar. Solitários e cansados, esmagados pelos desencontros e mágoas da vida, sentimos a necessidade de te chamar e de implorar a protecção das tuas asas, para que não sejamos como estranhos na província da alegria, ignorantes das preocupações da nossa pátria.

Lembra-te dos fracos, tu que és forte, tu cuja morada está para além da região do trovão, numa terra sempre pacífica, sempre serena e luminosa com a resplandecente glória de Deus. Amen.» 

Flannery O’Connor em carta à amiga Betty Hester, 
datada de 10 de Março de 1956  

Também delicioso e bem apanhado é o introito de Flannery a este pedido a Rafael: «Detesto recitar a maioria das (novenas, orações) escritas por santos-em-estado-emocional. Sinto-me como se estivesse a usar as melhores roupas de outra pessoa, e nunca consigo descrever o meu coração como “ardente” diante do Senhor (que o conhece melhor do que ninguém) sem me rir.» 

Que as surpresas do Novo Ano consigam tocar-nos de forma benigna, para não sermos nunca estranhos na terra da alegria

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

13 janeiro 2026

Poemas dos dias que correm

Paredão do Estoril, etc. e tal

Reconhecimento à loucura 

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar. 

Almada Negreiros

11 janeiro 2026

Festa do Batismo do Senhor

 EVANGELHO – Mateus 3,13-17

Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser batizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser batizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi batizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».

10 janeiro 2026

Pensamentos Impensados

Mário de Sá-Carneiro escreveu um pouco mais de Sol e eu era brasa e é citado e aplaudido; vou também dizer qualquer coisa: um pouco mais de Fevereiro e eu era bissexto.

Era um fotógrafo de renome mas um dia sofreu um desaire: fotografou o arco-íris a preto e branco.

Quando falamos de energias renováveis, será que estamos a falar de doping?

A ASAE e a Brigada de Narcóticos apreenderam o Auto de Mofina Mendes, de Gil Vicente; pensaram que era Morfina Mendes.

SdB (I)

09 janeiro 2026

Da ideia de Céu

Leio o livro acima, por sugestão de um amigo. De uma forma potencialmente simplista, o livro assenta numa história fácil de contar: Javier Cercas, escritor espanhol que se considera (e cito) ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, é desafiado pelo Vaticano para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia e para escrever um livro, tendo-lhe sido dado acesso a figuras altas do Vaticano. O escritor impõe, no entanto, uma condição: poder estar a sós com o Papa durante 5 minutos para lhe perguntar se, depois de morrer, a sua (do escritor) mãe verá o pai (do escritor) que já morreu. No fundo, precisa de informar a mãe se há Céu, e quer interrogar o Papa sobre a ressurreição da carne e sobre a vida eterna. Na fase em que estou essa conversa já existiu, mas não se sabe o que o Papa respondeu. Ou ainda não se sabe, ou nunca se saberá.

A conversa sobre este livro surgiu num jantar de amigos, todos católicos. Discutiu-se o que nós achamos, o que o Papa acha, o que o Papa pode ou deve responder (e poder e dever são coisas diferentes). Talvez a resposta mais próxima da certeza teológica seja esta: o Céu é a contemplação de Deus. No entanto, eu gostaria que o Papa respondesse: não sei. Gostava que ele respondesse uma coisa humana, feita de um desconhecimento humano mas, também, de uma esperança humana.

O meu Pai, já aqui o escrevi, tinha também essa dúvida sobre o que era o Céu, quem e como iria encontrar quando morresse. A minha visão do Céu é algo infantil, talvez, ou apenas humanamente ingénua e compreensível: quero encontrar a minha filha. E não só quero, como estou mais do que certo de que irei encontrá-la; se assim não for, muitas coisas em que acredito não farão sentido. 

Não domino os dogmas da igreja Católica, mas parece-me que a ideia de Céu não é dogmática, pelo que cada um de nós pode - dentro dos limites da razoabilidade - imaginar o Céu à sua maneira, encontrar uma definição pessoal do que é a ressurreição da carne ou a vida eterna. Se eu quero contemplar Deus, como lugar geométrico da felicidade eterna? Sim, quero, mas sou revolucionário: talvez a contemplação da felicidade eterna seja a contemplação de uma filha que morreu com 7 anos. E nisso não estou sozinho: todos os Pais enlutados com que conversei - e muitos não seriam crentes - tinham a mesma esperança: a de encontrar um dia o seu filho ou filha. Seguramente que a sua ideia de felicidade eterna (ou apenas de felicidade desejada) é a contemplação, feliz e desprovida de angústia, de um filho que lhes morreu (muito) cedo demais. É a alegria do reencontro porque é isso, também, que os sustenta. 

Como ainda não cheguei ao fim do livro, não sei se se saberá a resposta do Papa à inquirição do escritor. Se a resposta constar do livro, só rezo para que não seja uma resposta excessivamente teológica, feita de um jargão que não nos conforta a alma nem nos alimenta a fé. Ou o Papa tem certezas - do que duvido - ou então que responda: não sei se existe, não sei como é, mas estou em crer que será bom. Depois disso olharei para a minha fotografia com o Papa durante a sua vinda a Lisboa e imaginarei que ele me confortou: sim, acredito que vais encontrar a tua filha. É imaginação eu sei, mas para já chega.

JdB

07 janeiro 2026

Poemas dos dias que correm

 Para vir a gostar de tudo 

Para vir a gostar tudo,
Não queiras ter gosto em nada.
Para vir a saber tudo,
Não queiras saber algo em nada.
Para vir a possuir tudo,
Não queiras possuir algo em nada.

Para vir ao que não gostas,
Hás-de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes,
Hás-de ir por onde não sabes,
Para vir a possuir o que não possuis,
Hás-de ir por onde não possuis.
Para vir ao que não és,
Hás-de ir por onde não és.

Quando reparas em algo,
Deixas de arrojar-te ao todo.
Para vir de todo ao todo,
Hás-de deixar-te de todo em tudo.
E quando o venhas de todo a ter,
Hás-de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez acha o espírito o seu descanso
Porque não cobiçando nada,
Nada o afadiga para cima e nada o oprime
para baixo porque está no centro
da sua humildade.

S. João da Cruz

***

Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?

Frei Agostinho da Cruz (Agostinho Pimenta), in 'Sonetos'

06 janeiro 2026

Da leveza *

 Durante 20 anos trabalhei em fábricas, espaços que são mais, muito mais, do que zonas onde se transformam matérias-primas e se manufacturam produtos acabados, e onde se alinham maquinarias diversas segundo uma lógica qualquer. Uma fábrica, como já o disse aqui por várias vezes, é um micro-cosmos de vidas, uma sociedade em pequena escala com regras próprias e existências específicas. 

Na minha actividade de empregado fabril travei inúmeros contactos com pessoas ligadas ao marketing e às vendas. Detectava-lhes no olhar e nas conversas uma certa estranheza quanto aos nossos processos, à nossa forma de pensar, aos nosso ritmos e à nossa noção de tempos, prazos, gestão e eficácia. Presumi-lhes a diferença pelo facto de sermos engenheiros quase todos, com um jargão próprio e uma desatenção atávica às necessidades dos consumidores. 

O que nos diferenciava não era essa aparente ignorância do que a dona de casa queria no remanso do seu lar, ou uma certo jargão próprio, já que todos os misteres os têm, independentemente de serem multinacionais ou agremiações profissionais. O que nos separava era uma palavra simples: leveza

O mundo está todo feito para a leveza - não só dos equipamentos, cada vez mais pequenos e em materiais menos pesados, mas das vidas. A comida de fusão tem uma leveza semelhante à volatilidade das relações conjugais, porque uma conjugalidade duradoura tem a densidade de um regionalismo gastronómico. A felicidade dos tempos modernos é um desejo de leveza: descartável, utilitária, frívola, sem critério de compromisso nem desejo de perenidade. Os corpos são leves, não porque haja nisso saúde, mas porque queremos saltitar entre nenúfares. O futuro é pesado, só o presente é leve. 

Uma fábrica é, toda ela, pesada, por oposição ao seu contrário. Planeamentos, ordenação de maquinaria volumosa, cálculos de eficiências e encadeamento de acções para definição de caminhos críticos, gestão e classificação de  pessoal especializado ou indiferenciado, folhas de cálculo, são o oposto da leveza com que o mundo quer viver hoje em dia. A deslocalização não é, portanto, a procura da redução de custos de mão de obra, mas o desejo de estar actualizado, estar à moda, ser ligeiro, efémero, sorridente. 

A diferença entre um engenheiro de fábrica e um profissional de marketing reside numa palavra apenas: leveza.

JdB     

* publicado originalmente a 25 de Setembro de 2017

04 janeiro 2026

Solenidade da Epifania do Senhor

 EVANGELHO – Mateus 2,1-12

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado,
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

03 janeiro 2026

Pensamentos Impensados

Antigamente dizia-se que mãe há só uma. Hoje em dia já existe a mãe biológica, a mãe afectiva, a mãe de acolhimento; isto sem contar com a Mãe Rússia, mãe natureza, a mãe de água e Mem Martins.

A igreja estava muito longe; podia dizer-se que ficava em casa do Diabo.

Se se destilar o carapuço de um frade capuchinho sai um líquido que se chama cappuccino.

Os fabricantes de automóveis só querem o nosso bem; até aconselham jante comida leve.

SdB (I)

02 janeiro 2026

Um Bom Ano de 2026

 

Ainda que com um ou dois dias de atraso, aqui ficam os desejos de um Bom Ano de 2026, com tudo o que desejarem. Se ouvirmos as reportagens, o que se quer é saúde e paz. Que assim seja!

JdB

01 janeiro 2026

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

 EVANGELHO – Lucas 2,16-21

Naquele tempo,
os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém
e encontraram Maria, José
e o Menino deitado na manjedoura.
Quando O viram, começaram a contar
o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino.
E todos os que ouviam
admiravam-se do que os pastores diziam.
Maria conservava todas estas palavras,
meditando-as em seu coração.
Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus
por tudo o que tinham ouvido e visto,
como lhes tinha sido anunciado.
Quando se completaram os oito dias
para o Menino ser circuncidado,
deram-Lhe o nome de Jesus,
indicado pelo Anjo,
antes de ter sido concebido no seio materno.

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