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22 julho 2026

Poemas dos dias que correm

Não penses duas vezes, está bem assim

É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim

 
É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Como nunca antes fizeste
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parar, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penses duas vezes, está bem assim  
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
the freewheelin
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

***

Don’t Think Twice, It’s All Right 

It ain’t no use to sit and wonder why, babe It don’t matter, anyhow An’ it ain’t no use to sit and wonder why, babe If you don’t know by now When your rooster crows at the break of dawn Look out your window and I’ll be gone You’re the reason I’m trav’lin’ on Don’t think twice, it’s all right 

It ain’t no use in turnin’ on your light, babe That light I never knowed An’ it ain’t no use in turnin’ on your light, babe I’m on the dark side of the road Still I wish there was somethin’ you would do or say To try and make me change my mind and stay We never did too much talkin’ anyway So don’t think twice, it’s all right

It ain’t no use in callin’ out my name, gal Like you never did before It ain’t no use in callin’ out my name, gal I can’t hear you anymore I’m a-thinkin’ and a-wond’rin’ all the way down the road I once loved a woman, a child I’m told I give her my heart but she wanted my soul But don’t think twice, it’s all right 

I’m walkin’ down that long, lonesome road, babe Where I’m bound, I can’t tell But goodbye’s too good a word, gal So I’ll just say fare thee well I ain’t sayin’ you treated me unkind You could have done better but I don’t mind You just kinda wasted my precious time But don’t think twice, it’s all right


12 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Sonhei que vi St.º Agostinho

Sonhei que vi St.º Agostinho
Tão vivo como tu e eu
Irrompendo por esses bairros
Na mais extrema miséria
Com uma manta debaixo do braço
E uma capa de ouro maciço
À procura das próprias almas
Que já foram vendidas

«Erguei-vos, erguei-vos,» gritou alto
Numa voz sem freio
«Saí, ó prendados reis e rainhas
E ouvi o meu triste lamento
Não está agora entre vós nenhum mártir
A quem possais chamar vosso
Segui então o vosso caminho e acordo com isso
Mas sabei que não estais sós»

Sonhei que vi St.º Agostinho
Vivo com fôlego ardente
E sonhei que estava entre aqueles
Que o abandonaram à morte
Oh, acordei enfurecido
Tão só e aterrorizado
Espalmei as mãos contra o vidro
E curvei a cabeça e chorei

bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
john wesley harding
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

20 fevereiro 2026

Poemas dos dias que correm

Pela quarta vez

Quando ela disse
«Não desperdices as palavras, são só mentiras»
Gritei que era surda
E ela trabalhou-me a face até me amansar os olhos
Depois disse, «Que mais te resta?»
Foi então que me levantei para partir
Mas ela disse, «Não esqueças
Toda a gente deve dar algo em troca
Por algo que recebe»

Fiquei ali em pé e cantarolei baixinho
Dei umas batidas no tambor dela e perguntei-lhe porquê
E ela abotoou a bota
E endireitou o saia-casaco
Depois disse, «Não te armes em engraçadinho»
Então enterrei as minhas mãos nos bolsos
E tacteei com os polegares
E estendi-lhe galantemente
O meu último pedaço de chiclete

Ela pôs-me na rua
Fiquei na sujidade onde toda a gente andava
E depois de me dar conta de que me tinha
Esquecido da camisa
Voltei atrás e bati à porta
Esperei na entrada, ela foi busca-la
E tentei decifrar
Aquela fotografia tua na cadeira de rodas
Que estava encostada contra…

O seu rum jamaicano
E quando ela chegou, pedi-lhe um pouco
Ela disse, «Não, querido»
Eu disse, «As tuas palavras não são claras
Era melhor cuspires o chiclete»

Gritou até a cara lhe ficar toda vermelha
Depois caiu no chão
E eu tapei-a e então
Pensei ir dar uma vista de olhos à gaveta dela

E quando terminei
Enchi o meu sapato
E levei-o até ti
E tu, tu levaste-me para dentro
Amaste-me então
Não perdeste tempo
E eu, eu nunca tomei demasiado
Nunca pedi tua muleta
Agora não peças a minha 

bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
blonde on blonde
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

***

4th time around

When she said, "Don't waste your words, they're just lies"I cried she was deafAnd she worked on my face until breaking my eyesAnd saying "What else you got left?"
It was then that I got up to leaveBut she said, "Don't forgetEverybody must give something backFor something they get"
I stood there and hummed, I tapped on her drumI asked her how comeAnd she buttoned her boot, and straightened her suitAnd she said, "Don't be cute"
So I forced my hands in my pocketsAnd felt with my thumbsAnd gallantly handed her my very last piece of gum
She threw me outside, I stood in the dirtWhere everyone walkedAnd, when finding out I'd forgotten my shirtI went back and knocked
I waited in the hallway, she went to get itAnd I tried to make senseOut of that picture of you in your wheelchairThat leaned up against
Her Jamaican rum, and when she did comeI asked her for someShe said, "No, dear", I said, "Your words are not clearYou'd better spit out your gum"
She screamed till her face got so redThen she fell on the floorAnd, I covered her up and then went and looked through her drawer
And when I was through, I filled up my shoeAnd brought it to youAnd you, you took me in, you loved me thenYou never wasted timeAnd I, I never took much, I never asked for your crutchNow don't ask for mine

11 setembro 2025

Poemas dos dias que correm

 Agora acabou-se tudo, baby blue

Deves partir agora, leva o que precisas, o que pensas que há-de durar
Mas o que quer que desejes guardar, é melhor agarrá-lo depressa
Além está o teu órfão com a sua arma
Chorando como uma fogueira ao sol
Cuidado que os santos estão a passar
E agora acabou-se tudo, Baby Blue
 
A estrada é para os jogadores, é melhor usares o teu bom senso
Leva tudo o que juntaste da coincidência
O pintor de mãos-vazias das tuas ruas
Está a desenhar padrões loucos nos teus lençóis
Também este céu se está a dobrar debaixo de ti
E agora acabou-se tudo, Baby Blue
 
Todos os teus marinheiros enjoados, eles estão a remar para casa
Todos os teus exércitos de renas, estão todos a ir para casa
O apaixonado que acabou de sair pela tua porta
Tirou todos os seus cobertores do chão
Também o tapete se está a mover debaixo de ti
E agora acabou-se tudo, Baby Blue
 
Deixa o trilho de pedras para trás, algo chama por ti
Esquece os mortos que abandonaste, eles não te seguirão
O vagabundo que bate levemente à tua porta
Está com as roupas que dantes usavas
Acende outro fósforo, vai e começa de novo
E agora acabou-se tudo, Baby Blue 
 
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
bringing it all back home
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

09 janeiro 2024

Do Bob Dylan e do idadismo

 O dicionário online infopédia define idadismo como atitude preconceituosa e discriminatória com base na idade, sobretudo em relação a pessoas idosas; etarismo. Não vou debruçar-me sobre o impacto do idadismo no mercado de trabalho, ou sobre o desperdício que é não se aproveitar mão de obra experiente por causa da idade, sendo que, felizmente, se está activo até cada vez mais tarde. O idadismo afecta-me pouco: já não estou no mercado de trabalho e só me sinto discriminado pelos outros quando me impedem de correr a maratona pelo facto de ter quase 66 anos. É que, dizem-me, as pessoas que controlam as chegadas não podem ficar 3 dias à minha espera...

Um destes dias dei por mim a ouvir um música de Bob Dylan de que gosto muito: Forever young


May God bless and keep you always 
May your wishes all come true  May you always do for others  And let others do for you  May you build a ladder to the stars  And climb on every rung  May you stay forever young  Forever young, forever young  May you stay forever young
May you grow up to be righteous  May you grow up to be true  May you always know the truth  And see the lights surrounding you  May you always be courageous  Stand upright and be strong  May you stay forever young  Forever young, forever young  May you stay forever young
May your hands always be busy  May your feet always be swift  May you have a strong foundation  When the winds of changes shift  May your heart always be joyful  May your song always be sung  May you stay forever young  Forever young, forever young  May you stay forever young

A estrutura dos versos é simples: três sextilhas rematadas por um refrão de três linhas. A tradução - forçosamente imperfeita, porque pouco burilada, seria assim:

Que Deus te abençoe e te guarde Que todos os teus desejos se concretizem Que faças sempre algo pelos outros E deixes que os outros façam por ti Que construas uma escada para as estrelas E que subas cada degrau Que fiques jovem para sempre Para sempre jovem, para sempre jovem Que fiques jovem para sempre Que cresças como alguém justo Que cresças como alguém verdadeiro Que saibas sempre onde está a verdade E que vejas as luzes em teu seu redor Que sejas sempre corajoso E que te mantenhas firme e forte 
Que fiques jovem para sempre Para sempre jovem, para sempre jovem Que fiques jovem para sempre
  Que as tuas mãos estejam sempre ocupadas Que os teus pés sejam sempre rápidos Que tenhas fundações sólida Quando mudarem os ventos da mudança Que o teu coração esteja sempre alegre Que a tua música seja sempre cantada 
Que fiques jovem para sempre Para sempre jovem, para sempre jovem Que fiques jovem para sempre 

Quando dei por mim achei a letra curiosa: Bob Dylan, o cantautor nobelizado, deseja que todos sejamos dotados de virtudes humanos inquestionáveis. Ora, também deseja que fiquemos para sempre jovens. Porquê? É natural que nos mantenhamos jovens de corpo e de espírito para melhor gozarmos a vida e não nos afundarmos numa depressão de idoso que vê tudo a chegar ao fim. Mas a letra parece indicar que há um nexo causal: mantém-te jovem para poderes ter e manifestar estas qualidades. 

Talvez eu esteja enganado, mas parece-me que Bob Dylan é um grande defensor do idadismo. Numa altura em que toda a gente sente que tem de pedir desculpa pela História de que foi protagonista, talvez Bob Dylan também o devesse fazer, começando por um telefonema:

- Está lá, João? Daqui o Robert. Quem? Robert Allen Zimmerman... Olha, queria pedir-te desculpa pelo Forever Young. Não é nada pessoal, sabes...

JdB

12 dezembro 2023

Duas Últimas *

Hoje faço uma pausa na música portuguesa com que vos tenho fustigado nos últimos tempos e proponho que ouçam My Back Pages, de Bob Dylan, aqui numa versão ao vivo que juntou no palco do Madison Square Garden, em 1992, alguns dos maiores génios dos tempos já longínquos da minha mocidade, do próprio Dylan a Clapton, passando por Young ou Harrison. Nomes a quem estarei sempre eternamente grato pelos grandes momentos que me proporcionaram e continuam a proporcionar, nos discos que gravaram ou nos espectáculos ao vivo a que tive o privilégio de assistir, neste caso poucos, é certo, que Portugal não é destino de passagem habitual de génios que não sejam os da bola!

Esta musica está inserida num álbum de Dylan de 1964 chamado Another Side of Bob Dylan, que representou uma viragem, uma mudança (usando um cliché tão em voga nestes tempos nublados, terá sido uma mudança “estratégica”?) no percurso do grande compositor, então muito criticado pelos “puristas” de Woodstock, da folk e da contracultura, por ter aderido à guitarra eléctrica e talvez mesmo à vil fama! Mas o certo é que mudou e não se deu mal, produziu depois deste outros álbuns absolutamente fantásticos – poderia enumerar vários – e “construiu” uma longuíssima carreira que ainda hoje dura, mesmo que actualmente de forma algo penosa, suponho que para ele mas sobretudo para os muitos admiradores, que os 70 anos já vão pesando!

A letra, difícil como grande parte das que Dylan escreveu, ainda mais para quem, como eu, lida mal com esta língua dominante, fala da desilusão de tempos passados, que antecipam a tal necessidade de mudança. Uma sequência lógica que nem toda a gente segue, infelizmente…

Nesta versão, aprecio sobretudo os solos de Clapton, um guitarrista excepcional, e a entrada em cena da voz nasalada de Dylan. E, já agora, há uma outra versão desta música que recomendo, interpretada pelos The Birds, que foram certamente, a par de Joan Baez, dos que mais aproveitaram o génio criador de Dylan.

Espero que gostem!

fq 


* publicado originalmente a 6 de Setembro de 2011

31 maio 2021

Duas Últimas *

 



* enviado pelo meu querido amigo fq, fã do Bob Dylan, octogenário há pouco tempo.

02 novembro 2016

Duas Últimas

Dylan, autor e intérprete de obra vastíssima, na qual se incluem várias músicas que me têm acompanhado sempre, nos bons e nos maus momentos.

Escolhi estas duas, como poderia escolher outras vinte ou trinta. Entre as duas medeiam mais de 30 anos, atestando uma carreira muito diversificada, desassombrada e inovadora, mas sempre virtuosa.

Sobre o prémio que lhe foi atribuído há dias não me pronuncio, que o meu inglês é demasiado pobre para permitir tal ousadia. Mas atesto que se trata de um verdadeiro prémio Nobel da Música. 

Espero que não discordem.

fq




14 outubro 2016

Prémio Nobel da Literatura



Desolation Row

They're
Selling postcards
Of the hanging
They're painting
The passports brown
The beauty parlor
Is filled with sailors
The circus is in town
Here comes
The blind commissioner
They've got him in a trance
One hand is tied
To the tight-rope walker
The other is in his pants
And the riot squad
They're restless
They need somewhere to go
As Lady
And I look out tonight
From Desolation Row

Cinderella
She seems so easy
"It takes one to know one"
She smiles
And puts her hands
In her back pockets
Bette Davis style
And in comes Romeo
He's moaning
"You Belong to Me I Believe"
And someone says
"You're in the wrong place
My friend
You better leave"
And the only sound that's left
After the ambulances go
Is Cinderella sweeping up
On Desolation Row

Now the moon is almost hidden
The stars are beginning to hide
The fortunetelling lady
Has even taken
All her things inside
All except for Cain and Abel
And the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love
Or else expecting rain
And the Good Samaritan
He's dressing
He's getting ready
For the show
He's going
To the carnival tonight
On Desolation Row

Now Ophelia
She's 'neath the window
For her I feel so afraid
On her twenty-second birthday
She already is an old maid
To her death
Is quite romantic
She wears an iron vest
Her profession's her religion
Her sin is her lifelessness
And though her eyes
Are fixed upon
Noah's great rainbow
She spends her time peeking
Into Desolation Row

Einstein
Disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend
A jealous monk
He looked
So immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off
Sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you
Would not think
To look at him
But he was famous long ago
For playing
The electric violin
On Desolation Row

Dr. Filth, he keeps his world
Inside of a leather cup
But all his sexless patients
They're trying to blow it up
Now his nurse, some local loser
She's in charge
Of the cyanide hole
And she also keeps
The cards that read
"Have Mercy on His Soul"
They all play
On penny whistles
You can hear them blow
If you lean
Your head out far enough
From Desolation Row

Across the street
They've nailed the curtains
They're getting ready
For the feast
The Phantom of the Opera
A perfect image of a priest
They're spoon feeding Casanova
To get him to feel more assured
Then they'll kill him
With self-confidence
After poisoning him with words
And the Phantom's
Shouting to skinny girls
"Get Outta Here
If You Don't Know
Casanova is just being
Punished for going
To Desolation Row"

Now at midnight all the agents
And the superhuman crew
Come out and round up everyone
That knows more than they do
Then they bring them to the factory
Where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders
And then the kerosene
Is brought down from the castles
By insurance men who go
Check to see
That nobody is escaping
To Desolation Row

Praise be to Nero's Neptune
The Titanic sails at dawn
And everybody's shouting
"Which Side Are You On?"
And Ezra Pound and T. S. Eliot
Fighting in the captain's tower
While calypso singers laugh at them
And fishermen hold flowers
Between the windows of the sea
Where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much
About Desolation Row

Yes,
I received your letter yesterday
(About the time the door knob broke)
When you asked how I was doing
Was that some kind of joke?
All these people that you mention
Yes, I know them, they're quite lame
I had to rearrange their faces
And give them all another name
Right now I can't read too good
Don't send me no more letters no
Not unless you mail them
From Desolation Row

31 janeiro 2012

Duas últimas


Das memórias que guardo da infância e da adolescência (tempos já algo longínquos!), uma das mais vivas e marcantes tem a ver com as estadias no Douro, numa quinta dos meus avós maternos situada perto de uma povoação chamada Gouvinhas, na margem direita do rio, onde em regra passávamos anualmente a Páscoa e boa parte do mês de Setembro.

Eram tempos em que para ir de Lisboa até lá se demorava um dia inteiro, isto se o carro ou as estradas não pregassem uma partida, o que era frequente, ou em que à noite se utilizavam candeeiros de petróleo, porque não havia luz eléctrica. Sendo uma quinta situada num vale, entre montes elevados, lembro-me especialmente da violência das trovoadas, que punham a minha avó a rezar a Sta. Bárbara horas a fio, das trindades anunciadas pelo sino da Igreja todos os dias ao final da tarde, que ecoavam lentamente pelo vale e das sessões de leitura com o meu avô, assanhado queirosiano, que me deram a conhecer o grande escritor.

A quinta acabou infelizmente por ser vendida, ou talvez vendada, numa daquelas precipitações de que nos acabamos por arrepender e que depois nos atormentam pela vida fora, porque o mal já foi feito e dificilmente se pode reparar, mas as lembranças permaneceram.

Acompanhávamos as vindimas, quando eram em Setembro, porque às vezes entravam pelo Outubro dentro, com grande excitação. Sobretudo nas velozes caminhadas que os homens das rogas faziam pelas íngremes vinhas abaixo até aos lagares, em fila indiana, com os cestos de 50 kg de uvas às costas, sempre ao som da gaita de beiços tocada pelo que vinha à frente, que marcava o ritmo. Nós vínhamos atrás, sem nada a pesar nos costados, e mesmo assim muito dificilmente os acompanhávamos, em terrenos com inclinações brutais propensos a vertigens a sério. As noites em que se pisavam as uvas nos lagares, ao som da concertina, também eram um acontecimento.

Em homenagem a esses tocadores e a esses tempos, escolhi três músicas, de um britânico, um norte-americano e um canadiano, em que a harmónica/gaita de beiços desempenha um papel central. Os dois primeiros em gravações já com largos anitos, o último num vídeo bastante mais recente.

Não termino sem um parêntesis: para uma aproximação ao Douro, Miguel Torga, porque ninguém como ele, homem dali, descreveu melhor aquelas terras, paisagens, gentes e costumes.

Espero que gostem das músicas e que leiam Torga!
  
fq



06 setembro 2011

Duas últimas


Hoje faço uma pausa na música portuguesa com que vos tenho fustigado nos últimos tempos e proponho que ouçam My Back Pages, de Bob Dylan, aqui numa versão ao vivo que juntou no palco do Madison Square Garden, em 1992, alguns dos maiores génios dos tempos já longínquos da minha mocidade, do próprio Dylan a Clapton, passando por Young ou Harrison. Nomes a quem estarei sempre eternamente grato pelos grandes momentos que me proporcionaram e continuam a proporcionar, nos discos que gravaram ou nos espectáculos ao vivo a que tive o privilégio de assistir, neste caso poucos, é certo, que Portugal não é destino de passagem habitual de génios que não sejam os da bola!

Esta musica está inserida num álbum de Dylan de 1964 chamado Another Side of Bob Dylan, que representou uma viragem, uma mudança (usando um cliché tão em voga nestes tempos nublados, terá sido uma mudança “estratégica”?) no percurso do grande compositor, então muito criticado pelos “puristas” de Woodstock, da folk e da contracultura, por ter aderido à guitarra eléctrica e talvez mesmo à vil fama! Mas o certo é que mudou e não se deu mal, produziu depois deste outros álbuns absolutamente fantásticos – poderia enumerar vários – e “construiu” uma longuíssima carreira que ainda hoje dura, mesmo que actualmente de forma algo penosa, suponho que para ele mas sobretudo para os muitos admiradores, que os 70 anos já vão pesando!

A letra, difícil como grande parte das que Dylan escreveu, ainda mais para quem, como eu, lida mal com esta língua dominante, fala da desilusão de tempos passados, que antecipam a tal necessidade de mudança. Uma sequência lógica que nem toda a gente segue, infelizmente…

Nesta versão, aprecio sobretudo os solos de Clapton, um guitarrista excepcional, e a entrada em cena da voz nasalada de Dylan. E, já agora, há uma outra versão desta música que recomendo, interpretada pelos The Birds, que foram certamente, a par de Joan Baez, dos que mais aproveitaram o génio criador de Dylan.

Espero que gostem!

fq



Dylan, Harrison, Neil Young... por tigwenn

26 maio 2011

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week is the 70th birthday of Bob Dylan. So much has been written and spoken about him and his music and his cultural significance that I cannot add any fresh insight. Either you appreciate him or you don't. For many people it is his nasal singing voice which prevents liking his music. Perhaps I will offer a few brilliant versions by other artists in the future (pcp last year presented Barb Jungr singing Dylan). There are very few videos available of Bob Dylan, but here are three songs from different periods of his career.
The socio-political Blowing In The Wind is from his folk beginning in 1962, one of the first songs I ever remember hearing. The anthemic Forever Young comes from 1973, and Not Dark Yet from 1997, a self-reflection of getting older and nearer the end of life but not ready to hang up his guitar.







A proxima.

PO

12 abril 2011

Duas últimas

Se há músicos a que me ligam laços especiais, um deles é seguramente Bob Dylan. Porque em determinadas alturas da minha vida, normalmente difíceis, ouvi-lo foi uma boa ajuda, ou porque, simplesmente, se tivesse de escolher 10 músicas, no mínimo 3 seriam dele.

Esta versão de Forever Young, de que gosto especialmente, foi tocada por Bob Dylan no concerto de despedida dos The Band, em 1976, penso que em São Francisco, um memorável concerto que deu depois origem a um memorável filme produzido por Martin Scorsese, um dos melhores musicais que alguma vez vi, e vi-o várias vezes (uma delas na ilustre companhia dos meus colegas de “Duas Últimas”).

Bob Dylan tinha 35 verdes anos em 1976, estava no auge da sua forma. Infelizmente, na única vez em que tive oportunidade de o ver ao vivo, há bastantes anos em Cascais, a sua perfomance não foi comparável. Além disso, a sua vida está aqui facilitada por estar acompanhado pelos extraordinários músicos dos The Band, permitindo-me destacar Robbie Robertson, um fabuloso guitarrista.

Last but not the least, não me esqueço de que Bob Dylan tocou “Que você fique jovem para sempre” numa recepção ao Papa João Paulo II, quando este se encontrava já muito doente, numa manifestação pública de grande sensibilidade e carinho.

Espero que gostem!

fq




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