11 novembro 2013

Vai um gin do Peter’s?

                     
O filme «HANNAH ARENDT»(1) aproxima-se do documentário histórico –  imperdível! – em torno da tese mais arrojada e polémica de toda a carreira da filósofa alemã (1906-1975) que inspira o título da película.

A realizadora Margaretha von Trotta, também alemã, começou como actriz em filmes famosos, assinados por Fassbinder, lançando-se depois na realização, onde já é considerada a mais notável do cinema da nova vaga, no seu país. Esta obra confirma a sua qualidade e extremo rigor. Nisso, condiz com Arendt, sendo por isso a melhor forma de homenagear a genialidade do legado da grande filósofa, tão revolucionário. A ponto de, num certo sentido, podermos dividir a história do pensamento ocidental no antes e no depois de Arendt, nomeadamente, pelo salto qualitativo do conceito trabalhado no filme: a banalidade do mal. É discutível quem foi o autor da célebre expressão, entre Hanna e o marido, mas a sua consagração pública coube por inteiro à filósofa(2).

Margarethe von Trotta

Como todas as ideias profundas, ainda que sintetizáveis em fórmulas concisas, também esta foi fruto de anos de reflexão, tendo no epicentro o duplo estudo sobre os totalitarismos de direita ou de esquerda e sobre o mal. Duas faces da mesmíssima moeda, como intuiu Hanna, sempre inquieta em perscrutar e decifrar os mecanismos do mal nas suas exteriorizações concretas. Importava-lhe lidar com a realidade, concentrando-se no presente – o século XX –, sem se evadir em abstracções.

De origem judia (os pais vinham da cidade de Kaliningrado, hoje russa), nasceu na Alemanha, onde completou os estudos, tendo sido discípula de Karl Jaspers e de Heiddeger, com quem teve uma relação afectiva tumultuosa (além de o mestre ser casado, tinha bastante mais idade), o que a levou a pedir transferência para a Universidade de Berlim. Com a subida de Hitler ao poder e a sua imediata oposição política, antevendo com enorme lucidez o que aí vinha, foi presa pela Gestapo, logo em 1933, conseguindo fugir para Paris, onde se radicou até as tropas nazis invadirem França, em 1940. Nova retenção num campo de refugiados, que mais parecia uma prisão, conseguindo outra vez fugir. Nova Iorque era agora o destino, passando pela cidade livre e cheia de sol, que foi calcorreada por revoadas de expatriados da guerra – Lisboa!

Com um percurso itinerante, em slalom por entre inúmeros perigos, o seu destino assemelhou-se q.b. ao do povo judeu. Mais uma entre tantos, mas com final feliz. Nos EUA, refez a vida, acompanhada pelo marido, judeu, radical de esquerda e ex-comunista, com quem tinha uma espantosa cumplicidade intelectual. Era entre a elite académica e intelectual norte-americana que circulava, gozando de enorme prestígio.

Quando, em 1960, o Estado de Israel raptou o ex-dirigente das SS, Adolf Eichmann, a viver discretamente num subúrbio de Buenos Aires, para o julgar em Tel Aviv, Arendt ofereceu-se ao The New Yorker para assistir ao julgamento e fazer a cobertura jornalística...

…E aqui começa o filme, com a reposta óbvia por parte do jornal, honradíssimo por ter uma correspondente de luxo a cobrir o acontecimento mais badalado do ano, se não da década! Em vésperas da partida para a Terra Santa, ainda assistimos aos serões em casa do casal de berlinenses loucos (como Hanna e o marido eram, carinhosamente, apelidados pela amiga escritora), onde o tom exaltado da discussão sobre a legitimidade de tal julgamento, nos preparam para o que depois sucedeu. De facto, face à argumentação comum dos judeus presentes, igualmente académicos, motivados sobretudo pelo trauma de guerra e deixando-se embalar em subjectivismos compreensíveis mas pouco conciliáveis com o discernimento que a justiça pede, o casal objectava que o ponto de partida era ilegal e abusivo por parte de Israel – o rapto. Quando os ânimos ficavam mais acesos, os amigos judeus preferiam vociferar na língua materna – o alemão – deixando de fora os convivas americanos que, em boa verdade, nem se tinham atrevido a entrar num diálogo que remexia num passado de dor nacionalista. Cedia-se à tentação de elevar o tema e toda a defesa a uma questão sacrossanta, como se estivesse em causa a existência do povo judeu. Justiça, sobrevivência e revanche arriscavam, perigosamente, a confundir-se. Qualquer abordagem que procurasse a máxima isenção e racionalidade colocava-se nos antípodas. No limite, confundir-se-ia com diletantismo provocatório, a resvalar para a traição, como se verá. Uma temática e todo um modo de interpretar a realidade autenticamente fracturantes.

Embarcamos com Hanna para um país em construção, invadido pela areia seca e amarela do deserto do Médio Oriente. Gente apressada e pouco arranjada cruza-se com a viajante de Manhattan, nas ruelas de traçado sinuoso, típicas das povoações tradicionais. Apercebemo-nos que ali se pisam caminhos muito antigos, cheios de ecos de gerações recuadas, onde se sente o peso da história. A par do entusiasmo febril de uma nação recém-formada, hostilizada pelos países vizinhos e alimentada pelas hordas de imigrantes hebreus que a vão povoando, finalmente acolhidos na Terra Prometida. A filósofa observa tudo, entre curiosa e algo distante, pois apreciava a abordagem racional que a atmosfera reinante não favorecia. Os encontros com os amigos judeus, que conhecera na Alemanha e em França, são muito calorosos. Porque a notável argúcia intelectual de Hanna em nada perturbava a sua afectividade riquíssima e híper esclarecida. Mesmo nisso é fundamentada até ao tutano, como o prova a relação profunda e livre com o marido. Como só eles sabiam vivê-la, serenamente e de forma – dir-se-ia – tão positiva para ambos.    

No julgamento, onde a realizadora intercala com imagens de arquivo factuais, para assistirmos ao que Arendt viu, Eichmann está resguardado da exaltação do público numa redoma de vidro, com uns auscultadores para acompanhar a versão traduzida dos testemunhos em hebraico. Tudo no filme decorre nos idiomas originais, ora inglês, ora alemão, ora hebraico. Igual à realidade.

Os 3 juízes do processo são todos fluentes em língua alemã, para não ficarem sujeitos a eventuais lapsos de tradução. Nesse sentido, é tudo muito profissional. Estranha-se o aspecto tão mediano do réu. As suas afirmações, sempre a repisar que se aplicava no cumprimento estrito de ordens superiores, por mais abstrusas que fossem, causam perplexidade. Um mangas-de-alpaca é tudo o que não se esperaria num carrasco, apenas empenhado em obedecer – garante! – com zelo afinal robótico, às instruções mais desumanas. A pergunta sobre a sua avaliação das ordens que cumpria foi formulada, pelos juízes, de todos os ângulos possíveis, quase incrédulos perante tanta aparente docilidade burocrática que, ao pactuar com um projecto de destruição, deixa todos desconfortáveis. Ou incrédulos. O olhar sobressaltado e estupefacto de Hanna, permite-nos acompanhar um pouco a sua reflexão intensa sobre aquela personagem algo inédita, que, a seus olhos, abre uma caixa de pandora sobre a memória do passado. À medida que a tese da filósofa vai tomando corpo, percebe-se que antevê no rosto daquele funcionário medíocre e cumpridor uma nova modalidade de malignidade, própria de quem decide adoptar um comportamento acéfalo. Trágica e comodamente acéfalo, prescindindo de pensar! Parecia estar ali uma combinação insólita e feia de puro burocrata, misto de brioso e irracional (tudo o que não calha!), passivo a receber ordens mas ardiloso e empreendedor na sua execução, acrítico com a engrenagem infernal onde se integra mas voluntarista no papel que lhe cabe desempenhar para a manter, tacanho e inconsequente a interiorizar ordens repugnantes mas q.b. elaborado na sua concretização. Enfim, a pior das misturas. Não obstante, também não seria o agente do mal demoníaco e de contornos apocalípticos. Pelo contrário, esta é a via mais acessível ao comum dos cidadãos, como personificou Eichmann, aos olhos de Hannah. Por isso, é levada a rejeitar a ideia consagrada sobre a grande conspiração satânica onde se inseririam todos os colaboradores nazis. Segundo ela, aquele colaborador estava longe de ser o diabo à solta ou o algoz pérfido que todos esperavam encontrar, embora tivesse praticado actos pérfidos. E, como a maioria não esperava aquilo que viu, teria acabado por não conseguir ver o que não esperava…  


O homem medíocre que se teria deixado despersonalizar para ser peça perfeita de uma máquina de destruição, como os totalitarismos, sustentados pelo profissionalismo de gente comum, tornada supérflua.

Naturalmente, que a interpretação do depoimento de Eichmann pela filósofa é discutível e poderá não ser o exemplo mais convincente para ilustrar a sua tese sobre a banalidade do mal, pois há boas hipóteses de aquele pretenso funcionário rotineiro ser um cínico manipulativo. Mas isso não retira validade à tese de Hannah, aplicável a muitíssimos agentes comezinhos e anónimos dos regimes totalitários, que os serviram com brio e sem querer medir o impacto dos seus actos, causadores de tanto horror.

Assim, o diagnóstico arrojado de Arendt revelou-se incrivelmente revelador sobre a nossa forma de percepcionar a realidade e os mecanismos vulgares de que males tremendos se podem alimentar, como os totalitarismos, que tornam o ser humano supérfluo ao subtrair-lhe a capacidade de reflexão, para melhor o instrumentalizar. Revelador e insidioso – o artigo de Arendt (1963) suscitou de imediato uma reacção violenta. Além da novidade do conceito, sobre a banalidade do mal, levantou ainda uma segunda celeuma, sobretudo entre os judeus, ao referir a cumplicidade de alguns chefes da Cruz de David com as elite nazis e os guardas dos Campos de Concentração. Claro que esses estavam entre os sobreviventes… A bomba rebentou e os efeitos não se fizeram esperar. Perdeu muitos amigos e coleccionou milhares de inimigos. Mas ganhou o combate da história, pois enriqueceu a forma de raciocinar das gerações seguintes.

O rigor foi-na salvando, em cada novo desafio. Aplicava-o, sobretudo, na linguagem, onde o domínio da palavra lhe facilitava a capacidade de ajuizar as diferentes posições humanas. Exemplos: ao israelita que veio de Tel Aviv para a «avisar» que desistisse da publicação controversa a propósito de Eichmann, responde desarmando-o: isso não é um aviso mas uma ameaça; na conversa com o amigo que a acusa de não gostar do seu povo, explica: Não amo o povo, só consigo amar os meus amigos. E a ti amo-te; ao aluno que a questionou se atacar os judeus equivalia a atacar a humanidade, clarificou: mas claro, porque os judeus são homens, pelo que resulta num ataque à humanidade (note-se que não disse: ‘a toda’ a humanidade).

No filme – que espelha o sucedido – Hanna esclarece bem que não está a ilibar Eichmann mas a explicar o tipo de erro cometido: «O pior mal no mundo é o cometido por pessoas vulgares, o mal cometido sem motivos, sem convicções, simplesmente por pessoas ordinárias que renunciaram à sua dignidade humana. (…) Não escrevi que defendia Eichmann. Tentei estabelecer o laço entre a mediocridade chocante do homem com o horror dos factos. (...) Trata-se de compreender, não de perdoar.»

A incredulidade com que reage às críticas ferozes de que é alvo também dão nota da sua pureza de carácter, algo naïve na busca dos factos, sem prever as repercussões mediáticas das suas afirmações. Sedenta de seguir num trilho de verdade e de o aprofundar, sem hesitações, ficou magoadíssima com os ataques de ordem pessoal (quase todos), de quem nem sequer lera uma linha do que escrevera. Não pôde, portanto, contar com críticas construtivas. Mas não se coibiu de fazer uma séria auto-avaliação, assumindo que cometera um erro. Havia uma contradição no seu postulado: os termos «banalidade» e «radicalidade» não eram compatíveis, porque o mal não é radical, apenas extremo. Só o bem pode ser profundo e radical.


O sentido de humor, muito acutilante e carregado de ironia, é bastante característico do seu tipo de perfil psicológico e intelectual, somando coragem à craveira intelectual. Os exemplos multiplicam-se, no filme e na introdução à reedição do seu livro, em 2007, que está disponível online (link: http://malomil.blogspot.pt/2013/02/arendt-em-jerusalem.html9 de Fevereiro de 2013 ). Num desabafo com o marido sobre as razões por que as outras professoras universitárias faltam tanto, observa: dizem que por se terem divorciado, enfim, estas coisas de americanas. Certeira também no comentário à última declaração de Eichmann, depois de lido o veredicto de pena capital:

O condenado à forca – «Em breve, meus senhores, voltaremos a ver-nos. É esse o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Jamais as esquecerei!».
Hanna – «Perante a morte, ele não encontrou senão o cliché usado na oratória funerária. No patíbulo, a sua memória pregou-lhe a última partida; ficou ‘extasiado’ e esqueceu-se de que estava no seu próprio funeral. Foi como se naqueles últimos minutos ele condensasse a lição que o seu longo percurso de perversidade humana lhe tinha ensinado – a lição da terrível banalidade do mal, desafiadora da palavra e do pensamento.»

Impossível não terminar com as palavras da filósofa, que nos ensina a observar e a discernir, para nunca nos privarmos de ser humanos: «Exercer uma influência, eu? Não, o que quero é compreender.  A necessidade de compreender tomou conta de mim  desde muito nova.» Daí a sua enorme bravura a encarar a realidade, pura e dura…

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

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(2) É na carta de um filósofo amigo de Arendt que se alude ao facto de a designação poder ter sido inventada pelo marido de Arendt, que se penitenciaria por ter sido a causa involuntária da avalanche de ataques que se abateu sobre a mulher. Mas, como rezava na carta, pouco importava a autoria da expressão, pois fora responsável pela sua fundamentação e disseminação, espalhando-se como um rastilho e enorme estrondo! Nesse sentido, era inequívoco que lhe pertencia em pleno.
Título original:
HANNAH ARENDT
Título traduzido em Portugal:
HANNAH ARENDT
Realização:
Margaretha von Trotta
Argumento:
Margaretha von Trotta e Pam Katz
Produzido por:

Fotografia:

Banda Sonora:
André Mergenthaler
Duração:
113 min.
Ano:      
2012
País:
Alemanha
        Elenco:

Barbara Sukowa – Hanna
Axel Milberg – marido de Hanna, Heinrich Blüscher
Janet McTeer – a amiga indefectível de Hanna, Mary McCarthy
Klauss Pohl - Heidegger

Local das filmagens:

Israel, Luxemburgo e Alemanha (Westfália)

Site oficial:

http://www.zeitgeistfilms.com/film.php?directoryname=hannaharendt

Prémios

Prémio Lola (óscar alemão) para Melhor actriz dado a B.Sukowa, e Medalha de Prata dos galardões Lola para Melhor Filme.

No Festival de Denver recebeu prémio de Melhor Argumento e Melhor Som.










No filme, a pose blasée, de cigarro em riste, característica dos anos 50-60.


10 novembro 2013

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 20,27-38

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
aproximaram-se de Jesus alguns saduceus
– que negam a ressurreição –
e fizeram-Lhe a seguinte pergunta:
«Mestre, Moisés deixou-nos escrito:
‘Se morrer a alguém um irmão,
que deixe mulher, mas sem filhos,
esse homem deve casar com a viúva,
para dar descendência a seu irmão’.
Ora havia sete irmãos.
O primeiro casou-se e morreu sem filhos.
O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva;
e o mesmo sucedeu aos sete,
que morreram e não deixaram filhos.
Por fim, morreu também a mulher.
De qual destes será ela esposa na ressurreição,
uma vez que os sete a tiveram por mulher?»
Disse-lhes Jesus:
«Os filhos deste mundo
casam-se e dão-se em casamento.
Mas aqueles que forem dignos
de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos,
nem se casam nem se dão em casamento.
Na verdade, já nem podem morrer,
pois são como os Anjos,
e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.
E que os mortos ressuscitam,
até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente,
quando chama ao Senhor
‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’.
Não é um Deus de mortos, mas de vivos,
porque para Ele todos estão vivos».


09 novembro 2013

Pensamentos impensados

Bola
O Benfica foi à Grécia e ficou em panaticacos.
O Porto foi à Rússia; o Zenit mantém-se no zenite e o Porto com tendências para nadir.
 
Acordo, esse aborto
Se o Adão e a Eva andavam nus, como é que tiveram uma relação de "fato"?
 
Dandy
Era tão requintado que a pasta de dentes tinha de condizer com os atacadores dos mocassinos.
 
Tãobalalão
O martelo que bate nos sinos das torres sineiras chama-se moca-sinos.
 
Avarias
O meu telemóvel ficou sem bateria; empurrei-o mas não pegou.
 
Frase desfeita
Não há pior cego do que aquele que quer ver.
 
Recatados
Cidadãos "low profile" vão fundar o Grupo Onomástico Os Anónimos, sendo padroeiro o Soldado Desconhecido.

SdB (I)

08 novembro 2013

Pensamentos impensados

Compacto Bárbara - Carrilho

Quando o marido de Bárbara quis entrar em casa ela só lhe disse: para cá vens de carrilho.
 
As feiras em Guimarães vão passar a ter carrilhos de choque.
 
O Carrilho levou com água pela bárbara.
 
Já existiu o Barba-roxa. Em Portugal, devido às equimoses, temos a Bárbara roxa.

SdB

A virtude dos doutoramentos

Fotografia do homem de Azeitão, intitulada "La chèvre et les couleurs d'automne"

Sigo sem atenção nem furor o fim do romance entre Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho. Senti o mesmo nível de entusiasmo com o início da relação, pois não nutro por qualquer um dos dois sentimento especial. Ela proporciona-me uma valência estética - moderada, no meu conceito -, ele oferece-me uma dimensão irritante. O meu voyeurismo tem limites, sobretudo se há défice de interesse e excesso do seu contrário. 

Nas minhas leituras pelo éter percebi que alguém se teria surpreendido com o comportamento de Carrilho, sendo ele um filósofo com um doutoramento e tradução em francês, proveniente de uma família com conhecimentos e estudos elevados. Significaria isto que o estado civilizacional avançado de MMC o impediria, de alguma forma, de assumir um comportamento aparentemente tão primitivo. Portanto, passe o raciocínio simplista, o que o ex-ministro socialista fez seria mais consentâneo com um cavador, filho e neto de cavadores. É o aparente paradoxo do comandante de um campo de concentração nazi: como era possível que entre as nove e as cinco mandasse judeus para a câmara de gás, e entre as cinco e as nove se sentasse a ouvir quartetos de Brahms?

Não saberia perorar sobre o mal, tema descrito à exaustão. Mas gosto de pensar (e adquirir certezas) que, como diria alguém próximo, um licenciado é apenas alguém que estudou mais anos. Um doutorado não adquire virtudes morais por tempo de estudo nem por quantidade de livros lidos. Por outro lado, seja num trolha provinciano, seja num doutorado urbano, não se consegue ser o que não se tem dentro de si - neste caso princípios básicos.

Aristoteles acreditava que todas as virtudes (a verdade, a honradez, a humildade, outras) poderiam ser adquiridas, mas para isso era preciso estar-se rodeado de pessoas que apreciassem essas virtudes. Talvez Carrilho se rodeasse apenas de si próprio e daquela sua evidente vaidade, desconhecendo que a adjectivação rica nos livros que escreveu não garante, nem significa, elevação moral. Independentemente de ter a razão do seu lado - algo que me é bastante indiferente - MMC é a evidência objectiva de que um curso não dá nada se não se tiver algo dentro de si. E que ser-se educado pode ser muito diferente de ser-se educado. A frase não é um erro, é uma nuance.

Ser-se filósofo pressupõe a procura da verdade. Há maneiras educadas de o fazer. 

JdB  

07 novembro 2013

Crónicas de um mestrando tardio - o tempo


Várias pessoas me perguntam o que aprendo no mestrado em Teoria da Literatura. Para além de uma ou outra resposta mais completa, porventura mais maçadora, talvez se justificasse afirmar: por enquanto nada. E sublinharia o por enquanto, porque o busílis da questão pode andar por aí.

Há um conceito que me é absolutamente claro nesta altura - o momento em que nos ensinam e o momento em que aprendemos pode ser substancialmente diferente. Esta ideia é bastante interessante porque oferece um sossego e uma perspectiva: 1) não conseguirmos/querermos aprender logo não precisa de ser estranho, muito pelo contrário. 2) a noção de tempo passa a ser algo de muito próprio, pouco baiada por ideias comummente aceites. Tento explicar:

1) quando se conclui o ensino no tempo dito normal, os momentos de ensinamento e aprendizagem são simultâneos - ou pouco diferidos, se pensarmos no estudo após uma aula ou antes de um exame. Ora, o que eu sinto é algo diferente, talvez porque a minha mente já esteja cansada e a memória esvaecida pelo uso. O que eu oiço nas aulas é como uma despensa que se vai enchendo com matéria-prima gastronómica: peixe, massas, especiarias. Ali fica tudo em repouso, porque me falta a sabedoria para uma utilização proveitosa. Um dia mais tarde, quando eu conseguir assimilar vocabulários novos, o que lá está dentro assume um sentido mais certo e parece encaixar-se numa lógica existencial. Sinto que há um puzzle sobre a vida que se vai fazendo na ressaca daquelas aulas. Estranho? Não, falta-me é a capacidade de explicar.

2) Se o momento do ensinamento pode ser diferente do momento da aprendizagem, será que podemos extrapolar a ideia para outros campos? O momento em que fomos a Paris, ou a Londres, ou a Florença pela primeira vez foi, de facto, a primeira vez, ou foi noutra altura? O nascimento dos filhos foi naquele momento, ou pode ter sido num outro? E o desaparecimento de alguém que nos era particularmente querido foi exactamente naquele dia específico? Em que difere o tempo cronológico e o tempo emocional (em sentido lato)? Em que momento é que ouvi o verso de Walt Whitman (…) Do I contradict myself?/Very well, then I contradict myself/(I am large, I contain multitudes)? Foi quando mo citaram ou quando ele fez sentido dentro de mim? 

O que aprendo no mestrado em Teoria da Literatura? Por enquanto pouca coisa, mas a culpa é minha…

JdB  

06 novembro 2013

Diário de uma astróloga – [64] – 6 de Novembro de 2013


Despojar (se) – uma actividade própria de Saturno em Escorpião

No mês passado, em conversa com uma amiga astróloga sobre as dificuldades que muitas pessoas atravessam neste momento, a palavra despojar (se) foi usada com muita frequência.

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, informa que o verbo transitivo significa:
1. Desapossar; privar de posse
2. Despir.
3. Roubar, saquear.
E o verbo pronominal significa:
4. Desapossar-se.
5. Despir-se.
6. Desembaraçar-se.

À saída de casa dessa amiga tinha comigo um guarda-chuva  de que muito gostava. Fiquei privada da sua posse quase imediatamente, pois deixei-o no autocarro 738. No dia seguinte apresentei uma reclamação junto da Câmara Municipal de Cascais, pois o montante da licença de construção que me é exigido é um verdadeiro saque, sinto-me roubada.

Desde então, em conversas com amigas e clientes, este tema tem aparecido repetidamente: a venda de uma casa é sentida como o despojar de uma forma de vida passada, a perda de um emprego sentida como o despojar de um rendimento fixo e seguro e uma lesão num pé de uma pessoa que é muito activa sentida como o despojar do prazer de fazer desporto.

Saindo do mundo pessoal, li uma notícia onde o Papa Francisco convidava “a Igreja a despojar-se de um perigo gravíssimo, que ameaça cada pessoa na Igreja: o perigo da mundanidade”. Uma mensagem muito forte transmitida em Assis na sala do despojamento onde São Francisco, há oito séculos, se despojou de todas as suas posses.

Com tantas alusões senti que devia olhar para este processo através da visão astrológica.


Sempre que aparecem limitações olhamos para SATURNO, que tem um ciclo à volta do Sol de 29 anos e, por isso, passa aproximadamente 2 ½ anos em cada signo. O 5 de Outubro de 2012 ingressou no signo de ESCORPIÃO onde está até meados de Junho de 2015. 


Os que têm mais conhecimentos astrológicos sabem que a intensidade de Saturno em Escorpião se encontra amplificada pela presença de Plutão (regente de Escorpião) em Capricórnio (regido por Saturno) (2008 – 2024).

A energia de Saturno pode ser sentida a nível material e a nível psicológico. As limitações são por vezes tão pesadas e tão restritivas que provocam pensamentos negativos, sentimentos de tristeza que nos fazem mergulhar na depressão. Saturno ou Cronos, o deus do tempo, obriga-nos aceitar que tudo tem a sua época e nada nem ninguém pode existir para além do seu período de vida natural.  

Escorpião é o signo ligado a processos de transformação: o que já não é necessário deve ser deitado fora (por nós próprios, ou o Universo encarrega-se dessa tarefa com mais brutalidade) para dar lugar ao novo. O processo é de eliminação, de limpeza para atingir um estado de purificação. Escorpião também está relacionado com poder, tanto o dos poderosos deste mundo como o poder individual. Aos poderosos do mundo gostaria de lembrar que a roda gira e Saturno representa “dar contas” e Escorpião pode ser implacável. Individualmente, para nos tornarmos realmente poderosos, temos que perder medos e chegar ao fundo, ao fulcro, ao âmago de quem somos.

A combinação de Saturno em Escorpião não é leve nem divertida, mas as experiências de Saturno em geral, e sobretudo em Escorpião, se bem vividas, acabam por trazer a serenidade e a solidez necessárias para atingir os grandes objectivos da vida. Saturno é o mestre exigente, o treinador que impõe disciplina, e em Escorpião fá-lo através de treinos esgotantes que nos fazem perder tudo o que é supérfluo.

O Papa, ao evocar os que foram “despojadas por este mundo selvagem que não dá trabalho, que não ajuda”, referia-se aos poderosos desde mundo cada vez mais desumanizado numa corrida para acumulação de riqueza. A CMC, provavelmente, vai conseguir despojar-me de bastante dinheiro, que espero seja gasto para o bem da comunidade como espero que o meu guarda-chuva esteja a ser útil a quem o encontrou. A casa da minha amiga já não tem lugar na sua vida presente, o que lhe vai dar a possibilidade de construir outra coisa virada para o futuro, assim como a que perdeu o emprego está agora livre duma actividade de escrava para explorar novos caminhos e usar o tempo para fins mais úteis, e a que tem o problema no pé terá que aceitar humildemente que a idade a despojou de uma saúde de ferro.

Pessoalmente, Saturno em Escorpião ajuda a desembaraçar-me de coisas dispensáveis e acessórias, a largar o lastro e, como a tarefa é difícil, peço aos deuses e deusas do zodíaco que me concedam:

O poder da água para aceitar com naturalidade e elegância aquilo que não posso mudar
O poder do fogo para ter energia e coragem para mudar as coisas que posso
O poder do ar para ter o discernimento de perceber a diferença
E o poder da terra para ter a força de construir meu caminho futuro.

Luiza Azancot

05 novembro 2013

Duas últimas

Há três semanas, talvez, colaborei no baby-sitting de uma criança de dois anos. Durante um fim de semana partilhámos os mesmos espaços de uma casa e eu acompanhei-lhe os sonos, as brincadeiras, as refeições. O seu afecto ingénuo manifesta-se no sorriso com que me recebe, na ligeireza com que me dá a mão ou me pede colo, na prontidão com que pergunta por mim e aponta o meu carro. É uma criança simpática, com quem é fácil estar-se.

Quando esta criança olha para mim não tem nada prévio dentro dela, isto é, não há memórias de cheiros, de arquitecturas, de imagens que lhe condicionem o afecto por ninguém. No fundo, tem um disco rígido totalmente vazio, ansioso, quase, por enchê-lo com o amor dos mais próximos. E eu dei por mim a olhar para esta criança e a pensar na felicidade que é ser-se assim, sem ideias preconcebidas, sem noção de saudades e de ausências, totalmente disponível para tudo o que é um beijo, um jogo, uma mão que se dá para que a escada se torne segura.

Talvez devêssemos todos ambicionar esta simplicidade de criança, de que Jesus já falava. Olhar para os outros, para a vida, com uma mente e um coração desprovidos de memórias que tantas e tantas vezes nos condicionam a relação com os outros, connosco próprios. Uma simplicidade de criança, era o que dava jeito, aqui e ali.

***

Deixo-vos com uma parte da Cantata BWV 140, de Bach, que ouvi a semana passada na Igreja de S. Roque, num concerto magnífico com Tom Koopman e o coro da Gulbenkian. As versões (iguais) são adaptadas à mestria de Jacques Loussier e à dos Swingle Singers.

JdB


04 novembro 2013

Texto para o dia de hoje seguido de carta a um anjo

Um aprendiz só perde verdadeiramente o medo ao touro quando o enfrenta pela primeira vez, quando sente fixarem-se sobre si os olhos do animal e se apercebe da sua investida. É nesse momento decisivo, quando nada mais existe no mundo para além do homem e da besta, que o temor desaparece. Não são as palmas, porque ele não as ouve; não é o incentivo, porque ele não o sente; não é a oração piedosa que rezou minutos antes num assomo de religiosidade supersticiosa, porque já não se recorda dela; não é o amuleto, a medalha da virgem ou do desgraçado coração de jesus, porque a alma lhes está imune. O que leva o aprendiz de toureiro - sonhador de jornadas de glória, protagonista de tardes carregadas de cicatrizes - a vencer o medo do touro é o enfrentamento do touro.  Tudo o resto são detalhes, pequenos nadas que adornam o sufoco.
Por semelhança de raciocínio, talvez seja preciso ver-se a morte para se perder o medo à morte. Porque a morte é para uns o que o touro é para outros: a perspectiva, mais ou menos certa, de que o nosso tempo é finito, que tudo se pode jogar num fio de cabelo, num instante de menos saúde derivado de uma análise estranha, de um golpe de cornos que rasga a pele, dilacera a carne, entra por uma veia adentro num fúria acossada.
Citemos um testemunho anónimo, que é de anonimatos que se construíram palácios e catedrais, mas também cemitérios infindos onde jaz uma multidão de corpos sem nome.

Eu vi a morte, não num animal feroz, não num acidente iminente, nem sequer na forma de uma doença que nos habita e que a ciência não sabe curar. Vi-a numa mão pequena, numa vida pequena. Vi-a nuns dedos infantis que agarravam outra vida quando ainda não tinham largado esta. No meio estava a morte, naquela breve passagem de uma realidade que nem sempre dominamos para outra realidade em que nem sempre cremos. Vi-a na dimensão física de um rosto sereno, na impessoalidade de uma parafernália tecnológica que nos revela números que decrescem até ao zero absoluto. Vi-a no vazio árido cujo ar respirei, num deserto onde nada pode existir mas de onde tudo pode nascer.

Ver a morte, essa águia cujo grito ninguém descreve, é viver com ela na persistência da memória até ao fim do tempo, até ao momento em que alguém passa a ser o espectador da nossa própria morte. Só então a imagem se desvanece para dar lugar ao último abraço. É nessa altura que a morte se materializa no nosso próprio corpo, e não no corpo dos outros. O aprendiz, o perseguidor de quimeras, não mais esquecerá o dia em que enfrentou o animal que lhe coube em sorte, porque nunca se esquece o horror que vence a sensação de horror. Por isso, jamais se esquece a morte que vence o medo da morte. Por isso, dirá ainda o testemunho anónimo, jamais esqueci o momento em que vi a besta à minha frente.  
Olhar para a morte não é olhar só para a curva da estrada, lembrar o corpo desaparecido que dá lugar à saudade, conjugar de forma tão exclusivamente,  mas também tão dolorosamente adulta, a expressão nunca mais. Olhar para a morte, vê-la chegar, senti-la nuns dedos que perdem força, perceber que ela se instalou à espera de vencer e de ser vencida numa fracção de instante não constitui uma fatalidade, mas abre uma possibilidade. A morte para quem quase lhe toca pode ser só dor, mas pode ser muito mais. Pode ser uma solidão dolorosa, a ausência de ouvidos que escutem, a saudade que se crava como um espinho persistente; mas pode ser um farol num nevoeiro persistente, pode ser uma oportunidade de redenção, pode ser a chave certa para a criação da beleza.

***

Foi hoje, mas há doze anos.
Todos os dias podem ser o doloroso quatro de novembro, e todos os dias podem ser o esperançoso quatro de novembro. Como olhamos para a morte? Como o acabamento de tudo, ou como o princípio de algo? Como vemos o fim das coisas? Como uma morte que termina uma vida ou como uma vida que nasce com a morte? Que importância determinante damos às palavras “vida” e “morte”? Não será verdade que ambas existem quotidianamente no vocabulário que usamos com os mais próximos, com os sonhos, os devaneios, as desilusões?
Morreremos como vivemos – em paz, em tumulto, desencontrados com o destino que nos liga ao próximo. Viveremos, estou em crer, do mesmo modo que sobrevivemos à morte própria ou alheia, devastadora e sofrida. Somos o que a nossa alma manda fazer no dia seguinte, em todos os dias seguintes, em todos os quatro de novembro daqui até à eternidade. É por isso que uns olham para o céu e não vêem mais do que luto, dor e saudade. É por isso que outros olham para o mesmo céu e, num relance pleno de esperança e certeza, vislumbram o anjo que derrama o infinito pó do amor.
Foi hoje, mas há doze anos, e a nossa vida continua a ser a tua presença.

JdB (em nome de todos os que se lembram, na memória ou no coração) 

03 novembro 2013

31º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 19,1-10
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade.
Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu,
que era chefe de publicanos.
Procurava ver quem era Jesus,
mas, devido à multidão, não podia vê-l’O,
porque era de pequena estatura.
Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro,
para ver Jesus,
que havia de passar por ali.
Quando Jesus chegou ao local,
olhou para cima e disse-lhe:
«Zaqueu, desce depressa,
que Eu hoje devo ficar em tua casa».
Ele desceu rapidamente
e recebeu Jesus com alegria.
Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo:
«Foi hospedar-Se em cada dum pecador».
Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo:
«Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens
e, se causei qualquer prejuízo a alguém,
restituirei quatro vezes mais».
Disse-lhe Jesus:
«Hoje entrou a salvação nesta casa,
porque Zaqueu também é filho de Abraão.
Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar
o que estava perdido».

02 novembro 2013

Pensamentos impensados

Zoologia
Diz o Antigo Testamento que Adão deu o nome a todos os animais.
Não acredito que um analfabeto e confinado ao seu  quintal se tenha lembrado de ornintorrinco e de tiranosaurus rex.
 
Decepado
Cortaram um braço ao polvo: fugiu a 7 pés.
 
Fonias
Um mudo não pode ser porta-voz, quando muito morta-voz.
 
Socialismos
Catarse - Actividade social dos macacos quando estão a tirar pulgas uns aos outros.
 
Construtores
Quando a muralha fernandina estava a ser construida, alguém criticou o construtor; este só disse: não recebo lições de mural de ninguém.
 
Aforismo
Dá Deus ilhoses a quem não tem atacadores.

SdB (I)

01 novembro 2013

Textos e imagem para o dia de Todos os Santos

Pão por Deus* 


Em Portugal, no dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos bandos para pedir o pão-por-deus de porta em porta. As crianças quando pedem o pão-por-deus recitam versos e recebem como oferenda: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocam dentro dos seus sacos de pano. É também costume em algumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.

Esta tradição teve origem em Lisboa em 1756, 1 ano após o terremoto que destruiu Lisboa em 1º de Novembro de 1755. Nesse evento morreram milhares de pessoas e a população da cidade - na sua maioria pobre - ainda mais pobre ficou.
Como a data do terramoto coincidiu com uma data com significado religioso (1 de Novembro), de forma espontânea, no dia em que se cumpria o primeiro aniversário do terramoto, a população aproveitou a solenidade do dia para desencadear, por toda a cidade, um peditório, com a intenção de minorar a situação paupérrima em que ficaram.
As pessoas, percorriam a cidade, batiam às portas e pediam que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse pão, dado grassar a fome pela cidade. E as pessoas pediam: "Pão por Deus".
Esta tradição perpetuou-se no tempo, sendo sempre comemorada neste dia e tendo-se propagado gradualmente a todo o país.
Até meados do séc. XX, o "Pão-por-Deus" era uma comemoração que minorava as necessidades básicas das pessoas mais pobres (principalmente na região de Lisboa). Noutras zonas do país, foram surgindo variações na forma e no nome da comemoração. A designação indicada acima (Dia dos Bolinhos) em Lisboa nunca foi utilizada, nem era sequer conhecido este nome.

(texto tirado daqui)

***

Todos os Santos (Fra Angelico, 1423-1424)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».


31 outubro 2013

Crónicas de um mestrando tardio


O enunciado do último ensaio entregue era este. Aqui está a minha contribuição.

JdB

***


Fixemo-nos na primeira pergunta: a frase “I’ll tell you straight” é uma frase verdadeira?
Retomemos o pensamento de Frege, para quem:
  •                Conhecimento são juízos onde se junta um pensamento com um referente.
  •                Frases com referência transmitem conhecimento e
  •                frases sem referência não transmitem conhecimento.

Ainda segundo Frege, todas as frases que contêm uma palavra sem referente não têm referente e, nesse sentido, não podem veicular conhecimento. Frases que caiem neste tipo não podem ser consideradas verdadeiras nem falsas.
A frase citada – “Mine eyes are not o’ the best: I’ll tell you straight” é atribuída a Shakespeare, na sua obra King Lear, sendo proferida na terceira cena do quinto acto, quando o Rei Lear fala com Kent.
Imaginemos que o actor tem, de facto, uma excelente visão. A frase “I’ll tell you straight” (vou ser directo), depois da referência a uma falta de visão, é verdadeira?
Acontece que o Rei Lear é uma personagem saída da imaginação do dramaturgo inglês, assim como Kent. Nenhum dos dois existiu na realidade. O facto de o actor que incarna o personagem ter, na realidade, excelentes olhos (também poderia ser quase cego) é irrelevante para o caso, se seguirmos a teoria de Frege: frases ditas por entidades ficcionais não podem ser consideradas verdadeiras ou falsas.

***

Abordando o tema por outra vertente, poderíamos ir mais além e classificar um actor, pela natureza do seu trabalho, como simples repetidor (papagueador, passe o neologismo) de frases escritas por outros. Entenderíamos inclusivamente, como Frege, que um actor está mais próximo de um papagaio do que uma pessoa. Só assim se compreende que, reproduzindo com fidelidade o guião que lhes é entregue, um cego possa falar nos pássaros que vê e um anão se autodefina como tendo dois metros de altura (ambos os exemplos em sentido literal, e não metafórico).
Para Anscombe, “A resposta às questões aqui levantadas é a de que não podemos atribuir um verdadeiro fingimento a nada a menos que possamos atribuir-lhe (a) um objectivo e (b) a ideia de ‘pode obter-se parecendo que...’”.
Diz ainda Anscombe: “Independentemente destas simpáticas projecções, temos de afirmar: só podemos atribuir fingimento a seres aos quais possamos atribuir cálculo proposital (purposive calculation)”. Ora, na abordagem que classifica o actor como um papagaio, podemos questionar-nos se é possível atribuir-se ao pássaro um cálculo proposital. E se não há cálculo proposital, como pode haver fingimento? A resposta à segunda pergunta, que inquiria se o actor está a fingir, seria, por esta abordagem mais zoológica, não.

***

Para Anscombe, é necessário tempo para que possamos perceber a natureza de uma paixão. Entendam-se, como exemplos de paixão, a fúria ou a tristeza, por oposição aos exemplos de emoção (sensação), como a pele-de-galinha ou a transpiração.
Aludindo ao caso do presumível fingimento de uma dor, diz Anscombe: “no entanto, isto não significa que haja normalmente dificuldade em saber se alguém sente dor ou não. A dificuldade ocorre nalguns casos; e por vezes não consegue resolver-se. Podemos também pensar na fúria; mas haveria muito mais a considerar no caso da fúria: toda a história da ocasião (the whole story of the occasion)”.
Para Anscombe, portanto, precisamos de conhecer toda a história – razões, motivos, causas, etc. – para distinguir uma fúria genuína de uma não genuína. Precisamos de tempo para saber se há ou não fingimento.
Regressemos então ao diálogo do Rei Lear. Já concluímos que a frase não é, na visão fregeana, verdadeira nem falsa, porque é proferida por um personagem de ficção, um personagem que nunca existiu. Concluímos ainda que o actor, numa abordagem que junta Frege e Anscombe, não finge, porque não há cálculo proposital. O actor papagueia uma frase, não tem um objectivo que possa ser-lhe atribuído.
Quando o actor proclama a frase “[Mine eyes are not o’ the best]: I’ll tell you straight” está ele a fingir? A segunda parte da frase do Rei Lear remete-nos para uma espécie de franqueza, um desejo de ser-se directo. Ora, a franqueza será, na acepção de Anscombe, uma paixão. Nesse sentido, seríamos  forçados a conhecer a whole story of the occasion antes de nos pronunciarmos: quais são as verdadeiras razões/motivações/causas para o Rei Lear dizer aquela frase ao seu interlocutor? E que forma temos de detectar se alguém é/está a ser directo/sincero?
Entrando no drama de Shakespeare, isto é, assumindo o Rei Lear e o Conde de Kent como pessoas de carne e osso, a whole story seria, de facto, uma condição necessária para averiguarmos da sinceridade – por oposição a fingimento -  da frase referida. Mas falamos de actores. Sabemos, ainda segundo Anscombe, que “o fingimento é um conceito dependente de uma intenção”. Ora, onde está a intenção do actor, a não ser entreter uma audiência sendo o mais fiel possível ao texto e encenação? Como pode ele então fingir o que quer que seja, excepto fingir ser alguém, que na realidade não é nem nunca será, por via da sua própria profissão?
Por outro lado, sendo que uma acção fingida não pode ser interpretada porque não é bem uma acção, e considerando que o actor é um fingidor, como poderemos, em bom rigor, interpretar a sua motivação? O actor finge sempre. O Rei Lear finge? Teríamos de saber a história completa.

30 outubro 2013

Do dia de hoje


Estou em crer que não serei original: todos os que têm uma idade idade semelhante à minha se recordam de terem dito um dia que já não fariam mais amigos, que os existentes bastavam para constituir uma reserva até que a morte nos tocasse à porta, de gadanha e caveira. A vantagem de não ter amnésia não é só lembrar datas, relações de parentesco, frases curiosas, ementas de tempos idos. Há uma dimensão libertadora no riso de disparates próprios.

Nos últimos anos travei conhecimentos, constituí recordações para memória futura, fiz amizades - embora achasse que já não era tempo para tal. Não tenho Facebook, pelo que não colecciono likes nem coisas quejandas. Aos amigos dou e solicito intimidade por igual, mesmo sabendo que todos somos uma diferença que se revela, muitas vezes, na extensão da dádiva. Ainda bem, porque estas relações também são uma espécie de vasos comunicantes.

Esta semana, por um daqueles acasos que nos batem à porta - é importante que o acaso perceba que a nossa porta se deixa visitar - encontrei uma outra virtude nestas coisas. E percebi que alguns destes amigos me ofereceram algo que aprendi numa enervada manhã de 2ªfeira, filosofando sobre ironia: a hipótese de um outro vocabulário. A nossa vida - o que somos e onde somos - encarrega-se de nos formar um conjunto de ideias, pensamentos, conceitos, valores. Formamos um vocabulário interno, que entendemos ser final, até que um encontro fortuito (e são sempre fortuitos, mesmo se encomendados pelo destino) elimine em nós este vocabulário final, para dar lugar a outro. Sãos os livros, as experiências, os filmes, os pequenos nadas, as viagens mentais ou físicas. E são os amigos. Mais este do que aquele, sobretudo muito este e menos aquele, talvez. A eles agradeço esta possibilidade de me ajudarem a substituir um vocabulário final por outro vocabulário final, forçosamente mais próximo de algo maior. Parece curto e enigmático mas para mim, dono e editor deste estabelecimento, com o dia de hoje bem presente, não é. 

Para já é isto, que não tarda haverá mais…

JdB

PS: Imaginemos que tudo poderia ser visto do céu: as casas, as cidades do nosso encanto, as pessoas, as relações, as amizades, os vocabulários. Imaginemos que por um instante, toda a nossa visão subiria e a perspectiva se alterava. O que veríamos nós? Como veríamos nós? Tudo visto do céu...

  

29 outubro 2013

Crónicas de um mestrando tardio

Das perguntas abaixo sairão 3 para o teste de 4ªfeira. Conto com a possibilidade de consulta e com uma caligrafia que é indecifrável para me safar com uma honra que respeite os mínimos…

JdB


Chaos and Order                         Midterm Exam Questions                      Fall 2013

1.     It is often said that during the medieval period, natural philosophy was a synthesis of Aristotelian philosophy and Christian theology. Is this a reasonable assessment in your opinion? Give an example of how Aquinas adapts Aristotle’s physics to the Christian view? How is this synthesis reflected in Dante’s Divine Comedy?

2.     The logical positivist Rudolf Carnap and his contemporary, Karl Popper, were two of the great philosophers of science in the 20th century. Briefly discuss to what extent their ideas agreed and disagreed in terms of scientific methodology, relation between appearance and reality, and the roles of logic and empirical observation in science.

3.     In The Structure of Scientific Revolutions, Kuhn discusses how changes in world-views and methods (“paradigm shifts”) typically play out (described nicely in the Godfrey-Smith reading). Briefly analyze the transition from the medieval world-view to the modern (i.e. heliocentric) view in light of Kuhn’s ideas. In what ways do you think the geocentric to heliocentric transition that takes place in the 16th and  17th centuries agrees/disagrees with Kuhn’s ideas about how science progresses?

4.     What is meant by the term “Clockwork Universe”? In what ways is this world-view reflected in the ideas of Newton, Descartes, and Boyle regarding space, time, and motion? Are there points on which these three writers differ?

5.     Briefly contrast the Aristotelian, Galilean, and Newtonian views of motion. What roles do concepts such as impetus, force, essence, and mass play in the evolution from the ancient to modern view?  What are some of the metaphysical changes in world-view brought about by this transition?

6.     Briefly describe at least two epistemological changes during the period spanning the mid-16th to late-17th centuries. How did the methods of science change during this period?  How did this transition from the late medieval period to the dawn of the modern era change Humanity’s conception of God?

28 outubro 2013

Fórmula para o caos

O Guião em 10 Etapas

1. O Governo entra em funções e crê ser fundamental reformar o Estado.

2. Sem tempo para reformar o Estado entre a tomada de posse e a apresentação do orçamento para 2012, o Governo faz cortes indiscriminados na despesa pública.

3. O primeiro-ministro delega na pessoa do ministro dos Negócios Estrangeiros a formulação e apresentação de um Guião sobre a Reforma do Estado.

4. O ministro dos Negócios Estrangeiros aponta a apresentação do Guião para 15 de Fevereiro de 2013.

5. O mesmo ministro adia a apresentação para Junho de 2013.

6. Em Julho de 2013, sem ter apresentado qualquer Guião, o ministro dos Negócios Estrangeiros demite-se do executivo e afirma tratar-se de uma decisão irrevogável.

7. O ministro demissionário, após negociação com o primeiro-ministro, passa a ocupar o cargo de vice-primeiro-ministro e fica com a pasta da Reforma do Estado.

8. O primeiro.ministro garante que o Guião vai ser discutido e aprovado em Conselho de Ministros no dia 24 de Outubro.

9. O primeiro-ministro assegura que o Guião vai ser discutido e aprovado em Conselho de Ministros no dia 31 de Outubro. 

10. Faltam quatro dia para o esperado dia 31 de Outubro…

Pedro Castelo Branco

27 outubro 2013

30º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 18,9-14
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus disse a seguinte parábola
para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao templo para orar;
um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim:
‘Meu Deus, dou-Vos graças
por não ser como os outros homens,
que são ladrões, injustos e adúlteros,
nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’.
O publicano ficou a distância
e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu;
Mas batia no peito e dizia:
‘Meu Deus, tende compaixão de mim,
que sou pecador’.
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa
e o outro não.
Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

26 outubro 2013

Pensamentos impensados


Yeti
Mário Soares, com o seu cabelo cor da neve, e a sua grande barriga, faz lembrar o "abdominável" homem das neves.
 
Quem te t'avisa teu t'amigo é
Em Liège atiraram ovos a Durão Barroso; assim como há o Aviso Laranja, também devia haver o Aviso Ovos.
 
Aula de inglês
Mar, em inglês, pode escrever-se com uma única letra: C
 
Hierarquias
Sempre pensei que a 1ª dama era a Presidente da Assembleia Nacional.
 
Traduções?
Tentei traduzir para inglês batem leve, levemente.
Desisti quando só me saiu HIT TAKE AWAY
 
Hora legal
Este Sábado, no Polo Norte, também se muda para a hora de Inverno?
 
Estéticas
Cavaco exortou os portugueses a não baixar os braços; Lembram-se da Rosa Mota de braços levantados? Bom espectáculo!

SdB (I)
 

25 outubro 2013

2/7*

Os oboés dão o tom. Lá maior. O maestro volta-se para a direita e, lentamente, com um golpe de pulso, acena aos violoncelos. Estes expõem o tema. Apenas as linhas gerais, o fio condutor.

O resto da orquestra está suspensa, muda. Os violinos, impacientes, preparam o arco. Encostam-no às cordas. Com o apontar da batuta, estas vibram em coro.

O céu começa a fechar-se. As nuvens juntam-se em cores de tempestade.

A primeira secção de violinos recomeça o tema inicial sobre os graves dos violoncelos. O tempo é mais rápido e o instrumento apresenta os capriccios próprios.

Entra agora a segunda secção. Complementa a primeira. Enche, a contraponto, os espaços que esta vai deixando vazios. Sobem os arcos de uma, descem os da outra.

O ar começa a escurecer, o vento sente-se. As nuvens, cada vez mais escuras, enrolam-se sobre elas próprias.

O primeiro violino toma o seu lugar. Eleva-se, sozinho, acima do resto. O vibrato agudo, cristalino, sobrepõe-se a qualquer outro som da orquestra. O maestro, com movimentos curtos e precisos, dirige os instrumentos. Com a batuta ordena que os violoncelos subam de intensidade.

Os graves são o suporte para todos os outros sons, são o chão onde caem.

A segunda secção de violinos, regida pelo maestro com gestos secos da mão esquerda, acompanha os violoncelos nesta escalada, num diálogo que, pouco a pouco, vai subindo de volume.

Um a um, os violinos que seguiam o tema acompanham o primeiro na escalada sobre o resto da orquestra. Camada sobre camada, agudo sobre grave, o quadro acabou de ser pintado.

A tempestade desdobra-se impaciente para trás e para a frente.

O céu abre-se em dois com o estrondo dos tímbales. O chão estremece a cada vibração da corda dos contra-baixos. Foge debaixo dos pés.

Um, um dois três, um.

As madeiras rangem, os metais brilham, os arcos retesam-se.

Os violinos, em voo rasante, numa ventania fria, puxam os cabelos de trás do pescoço. Elevam-se no ar, em rodopio, e caem no chão, em estilhaços.

A chuva dos violoncelos cai, numa dança furiosa com o vento. É atirada contra as paredes, contra o tecto, contra o chão.

Os metais polvilham o quadro com reflexos de ouro. Relâmpagos rasgam o ar, iluminando à sua passagem.

Os contra-baixos trovejam, graves, assustadores, a fazer tremer por dentro. As cordas grossas soltam, em estrondos, trovões curtos. Em simultâneo com os relâmpagos. A tempestade atinge o seu pico.

Dois minutos e cinquenta e dois segundos depois já se pode respirar outra vez.

(SdB (III)



(publicado originalmente em 9 de Julho de 2009)


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