04 janeiro 2009

Os Reis Magos

A adoração dos Reis Magos (Rubens, 1609. Museo do Prado, Madrid)


E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes:ouro, incenso e mirra.

[Do Evangelho de hoje]

A Igreja celebra hoje a Solenidade da Epifania do Senhor e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Indicadores, sondagens, gráficos, evolução, análises, medidas, rácios.

Precisamos de tudo isto para saber ler o estado da economia, da política, da saúde, da justiça. Precisamos de números para saber de onde partimos e onde queremos chegar. Precisamos de números, ainda, para saber qual o melhor caminho entre o ponto A e o ponto B.

Precisamos de algo que meça o nosso sucesso, o nosso património, o que temos, o que queremos. Medir é comparar e fazemo-lo com coisas quantificáveis, que nos indiquem se estamos ou somos mais ricos do que os outros, se o nosso êxito profissional nos garante benefícios maiores ou menores do que os do vizinho, do primo, do amigo, do colega.

Carros, casas, viagens, férias, aparelhagens, roupas, cartões de crédito, ordenados, fins-de-semana, livros, restaurantes.

Precisamos de tudo isto porque nos satisfaz necessidades básicas, porque equilibra a nossa vida, porque a torna mais divertida, menos tensa, porque proporciona alegria e satisfação (peço desculpa, mas guardo a expressão felicidade para outra dimensão) aos que vivem connosco.

Há dois mil anos o mundo era radicalmente diferente, e os três reis magos não precisaram de mais do que uma estrela para ver o sinal daquilo que para eles era a libertação. Arriscaram tudo, largaram tudo e foram atrás de um Menino que tinha nascido em Belém.

Indicadores e bens são importantes, e de modo algum incompatíveis com a estrela que permanece no oriente das nossas vidas.

Todos vemos essa estrela. Os Magos decidiram segui-la.

JdB

03 janeiro 2009

Coisas da nossa gente

Os Santos há muito que eram pretexto para o povo festejar. Desde o século XVIII que há notícias de arraiais em vésperas de Santo António, de bairros enfeitados, de fogueiras acesas e de folguedos pagãos, a que a Igreja ia atribuindo patronos. Dessa animação popular que corria como rastilho as ruelas da cidade, imbuída de costumes e saberes das gentes oriundas de todas as províncias do País, surgiu a Leitão de Barros a ideia de juntar os bairros num só local, de forma a promover as já institucionalizadas Festas de Verão do Parque Mayer. Para entusiasmar os participantes, Leitão de Barros elaborou o que se chamou o Grande Concurso de Marchas Populares. Com a ajuda preciosa de Norberto de Araújo, e do “Diário de Lisboa”, logo responderam algumas freguesias. Conforme fora estipulado, a Avenida da Liberdade acolheu os bairristas que seguiram ao Parque Mayer, já de forma organizada, “marchando”. Alcântara, sem saber, levava um futuro tesouro da nossa cidade, Amália Rodrigues. Tinha 12 anos. O despique foi tão bem recebido que dois anos depois, em 1934, a Câmara Municipal chamou a si a tutela do evento. Regulamentou o concurso e listou quinze requisitos a avaliar: música, versos, arte, guarda-roupa, aprumo, distinção, arcos, iluminação, pitoresco, alegria, vozes, cavalinho, marcha da rua, marcação e encenação. Tinham nascido as Marchas Populares de Lisboa.

Mas nem tudo foram rosas para as Marchas. Nas quatro décadas contadas até 1974, muitos foram os anos em que os bairros não saíram à rua, somando-se apenas dezanove desfiles. Entre 1935 e 1940 o Regime não permitiu – Espanha vivia a guerra civil e Portugal procurava consolidar-se. Entre 1941 e 1946, a II Grande Guerra e as restrições económicas. Em 48, 49, 50 e adiante em 59 e 62, idem – o Estado receava agitação interna. Em 1971, é de novo cancelada a festa por causa da guerra colonial. Após o 25 de Abril, o desgoverno e outras preocupações emergiam. Em 1981, as marchas desfilaram num lugar sem história, o Estádio do Restelo. Em 1987, nem houve concurso, desmotivando os participantes. Só em 1990, com Jorge Sampaio na Câmara, é que Lisboa revê os seus bairros bailando e cantando na Avenida. A Câmara dinamiza o evento, a ideia de Leitão de Barros ressuscita e devolve-se esse orgulho aos alfacinhas. Os marchantes são a alma das Marchas. Ficam palavras sentidas de alguns deles.

“Quando chega a hora de desfilar, choro, choro, choro… Arrepio-me e as lágrimas começam a cair pela cara abaixo. Não consigo falar. Aliás, eu nem sequer consigo ver a marcha. Olhar olho, mas não consigo ver.” Mário Albuquerque, comissão técnica dos Olivais

Não esquece um marchante que, apesar das suas orientações, “acabou por esbarrar contra uma árvore. Com arco e tudo.” Já desfilou com várias marchantes grávidas. “Nestas andanças surgem muitos namoricos que, algumas vezes, resultam em casamento.” Alberto Castro, ensaiador da Ajuda

Há uns anos, os preparativos atrasaram-se. “Estávamos muito aflitos, faltavam algumas coisas nos arcos e estava a Marcha toda à espera para ir para a Avenida. Em vez de ajudarmos a ‘despachar’, apanhamos todos um ataque de nervos que não conseguíamos parar de rir.” Lurdes Bicho, coordenadora das costureiras de Benfica

Inscreveu-se, mas “o primeiro repente, foi ir-me embora”, confessa. “Acabei por voltar no dia seguinte e vi dois casais a dançarem com miúdos ao colo. E iam trocando de braço o filho pequenino, vencidos pelo cansaço. Essa é uma imagem que eu nunca mais vou esquecer. Se com um filho ao colo eles faziam um sacrifício por participar, eu também podia fazê-lo.” Delfim Dias, marchante de Benfica

“Nunca falho. Quando tinha 18 anos arranjei uma namorada que me deu a escolher entre ela e as Marchas. Nesse ano fiz-lhe a vontade, mas depois terminámos o namoro. No ano seguinte lá estava eu de volta à Madragoa. Não há nada como o primeiro amor.” Mário Monteiro, o marchante mais antigo da Madragoa

“Sou de Marvila, e é o ‘bichinho’ que me faz vir. Não consigo imaginar-me sem participar na marcha.” Maria Santos, marchante de Marvila desde 1980

“Temos casos de marido, mulher e filhos. Todos dançam. Namorados costuma haver muitos. Quando o amor está no ar não se pode fazer nada.” Fernando Duarte, coordenador da Bica

Quando marcha não passa despercebida, mas o marido não a acompanha nestas lides. Todos os anos, em Fevereiro, inscreve-se nas marchas. A partir de Abril ele deixa de contar com ela. “Já está habituado. Fica em casa a torcer pelos Olivais.” Madalena, marchante dos Olivais

Em 2000 ficou excluída da participação por causa do guarda-roupa. “Era muito arrojado e eu já não tenho idade para usar decotes daqueles. Gosto de coisas mais conservadoras.” Adelaide Horta, marchante de Campo de Ourique

DaLheGas

02 janeiro 2009

7 poemas (quase haiku) em português (quase suave)

na viragem do ano,
a formiga interroga-se:
a harpa ou as suas cordas?

na viragem do ano,
também a cigarra se pergunta:
tronco ou flauta?

a montanha condensada - diz a capa.
mão de criança hoje, pulso firme futuro.
ou será ao contrário?

à flor não se pergunta.
a verdade não se dilui,
chovam mil águas ou nenhuma.

o livro como a vida.
quantas páginas, mestre?
as que escreveres, rapaz.

escrever.
lavrar o campo.
esperar a estação certa.
sim, não, sim, não, sim, não..
lenga-lenga de inverno hoje.
escuta: já lá vem o verão.


feliz 2009!


gi.

01 janeiro 2009

Textos dos dias que correm

(...)

Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!

E a mãe, em soluços:

– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

– Mãe, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

– Aqui estou.

O Suave Milagre, Eça de Queiroz, Contos

Vidas cruzadas

Durante mais de dez anos, falámos por telefone. Havia semanas em que nos ouvíamos várias vezes, depois passavam-se dois, três meses de silêncio. Há dois anos, foi também por telefone que chegou a notícia. “Já sabes? O Martin morreu. A notícia já está na Lusa.” Dois minutos depois, o telefone de novo. “Estava na Somália, a filmar uma manifestação. Deram-lhe um tiro à queima-roupa.” Lembro-me que pousei o auscultador e fiquei quieta. A primeira imagem que me veio à memória foi a de uma avenida a preto e branco em Grozny, os prédios em escombros, onde uma mãe caminha pelo passeio destruído levando a filha pela mão. A mulher usa um vestido de manga curta, estampado com figuras que à distância parecem flores e um lenço cobre-lhe os cabelos. A criança, 5 ou 6 anos, olha o fotógrafo, curiosa, apanhada entre um saltitar e outro. A toda a volta, a desolação é total. E, no entanto, naquele Verão de 1995, a vida continuava à sombra das montanhas do Cáucaso, numa Chechénia onde se prolongavam os combates entre tropas russas e rebeldes.
Martin Adler nasceu em Estocolmo, em 1958, de mãe britânica e pai sueco. Estudou antropologia em Londres, optou pelo jornalismo e juntou-se a um pequeno grupo de profissionais em vias de extinção - os repórteres de guerra. Esteve praticamente em todos os cantos onde o mundo ameaçava vir a desabar ou já se desmoronava: de Caxemira ao Ruanda, do Sri Lanka à Guatemala, do Afeganistão à Chechénia, no Iraque, em Darfur, na Indonésia, na Somália, no Congo, na Serra Leoa, na Libéria, na Bósnia, na Eritreia, no Burundi, na Nigéria. Começou por escrever e fotografar, passou depois a carregar também uma máquina de filmar. Preferia ser freelancer e dono do seu destino. Trabalhou sobretudo para jornais e televisões em Inglaterra e na Suécia e recebeu inúmeros prémios (em 2007, o Rory Peck Trust, instituição que apoia jornalistas freelance e respectivas famílias em todo o mundo, instituiu o Prémio Martin Adler). Em Portugal, foi colaborador permanente da revista “Grande Reportagem”, depois de “O Independente”, e durante mais de uma década os textos e as fotografias publicados nessas páginas foram a maior prova do seu profissionalismo e objectividade. E da sua enorme coragem.
Martin preferia cobrir os conflitos e as misérias humanas de que ninguém se lembrava ou que o mundo fazia por esquecer. Nos intervalos voltava a Vasteras, na Suécia, onde vivia com a mulher e as duas filhas. Nos intervalos reactivava contactos e planeava as próximas reportagens. Era nesses intervalos que o telefone tocava. Que ele cruzava a vida com as vidas dos outros.

Talvez seja da época. Ou destes dias de chuva intermitente. Ou das más notícias que chegam de Israel, do Zimbabué ou sobre a crescente tensão entre a Índia e o Paquistão. Ou talvez seja só a estranha saudade de uma noite de Verão e de conversa em Lisboa.
Take care, Martin. Como noutro tempo.

http://br.youtube.com/watch?v=VSX4ZfFGXnU

On Patrol with Charlie Company, no Iraque, a reportagem emitida pelo canal de televisão norte-americano PBS que, em 2004, valeu a Martin Adler o Prémio Rory Peck.


Mónica Bello

31 dezembro 2008

Largo da Boa-Hora

Trinta e um de Dezembro. Estou sentado no meu banco neste Largo feio, lúgubre e sem vivalma. Estou só, não vejo ninguém, está vento e frio.
Entranha-se-me a desolação que me rodeia, mas desato a rir numa gargalhada íntima que me percorre, não por contentamento mas sim por desafio, conquista, prazer, pela minha forma de sentir este frio, este vazio, esta desolação.
O que passo neste transe é o prémio de ser um optimista inveterado, um indomável alegre, um entusiasta militante de todas as causas, um arauto de boas novas e dos bons dias, mesmo sabendo do nefasto que por aí vai e dos dilúvios que se abatem.
Vivo a clamar a vitória do bem sobre o mal, do possível sobre o improvável, a certeza de tudo se compor, o ajuste do desajustado, o reencontro do desencontrado, o retorno do que partiu, a colagem do quebrado, o reerguer do caído.
Espalho, pois, à minha volta, esperanças que dou como certezas, garanto quimeras como factos já vistos, sou, permanentemente, o marinheiro que, na gávea da Nau Catrineta, é constante arauto da “terra à vista”.
Perante cada adversidade, imediata e automaticamente relativizo a sua importância no cômputo geral de toda a vida; no mesmo reflexo contabilizo os danos e prejuízos causados, concluindo não serem letais nem incomportáveis - o perdido é recuperável ou, se o não for, recordo que já houve um antes sem ele que lhe tira a preciosidade - e, por último, empenho-me exclusiva, prioritária e obcecadamente em encontrar a melhor solução, a alternativa, o que faça a vida andar, apesar de tudo.
A relativização dos factos negativos, o desprezo pelos danos aliado à urgência de reparação e prosseguimento, são as dominantes da minha atitude.
Subjacente está uma certeza que é meu guião: a vida, também por culpa própria, tem necessariamente momentos maus, episódios perversos, sofrimento, erros, infelicidades, azares, imbecilidades, imperfeições. Toda esta panóplia de tristeza, amargura, culpa e frustração é inevitável, mas temos de a suportar, enfrentar e resolver, como coisas naturais que são.
Sou como o marinheiro que sabe que a travessia atlântica vai ter borrasca, vaga grossa, alterosa, danosa. Quando a tormenta chegar - e chegará - há que firmar o leme, cerrar a vontade, aproar e passar a vaga, olhando sempre para o mar vindouro, e não gastando mais do que um ápice a concluir que o navio sofreu mas passou, meteu água e perdeu apresto e palamenta mas aguentou-se, adornou perigosamente mas endireitou-se e, portanto, segue a sua rota, na certeza de que haverá calmaria e bonança.
Na navegação que é a minha vida concentro-me no Farol que ilumina a rota que elegi, sigo na esteira da sua luz, o que nos separa é para ser vencido, com maior ou menor dificuldade, angústia, medo ou dor, o que importa é flutuar, navegar e alcançar a fonte dessa luz que marca o porto de abrigo onde ancoraremos em paz, sãos e salvos.
Que se dane o apresto e palamenta perdidos, a carga arrancada, as redes roubadas, o peixe varrido, o desmantelado e todo o mais fruto da fúria do mar. Chegaremos ao Porto de Abrigo.
Não existem naufrágios anunciados, não existem monstros marinhos que nos arrastem para as profundezas, não existem fins do mar que nos lancem em precipícios de trevas, não existem marinheiros marcados como tributo ao desafio de navegar.
Não, a tragédia consome aqueles que fundeiam na tormenta, julgando-se a salvo porque amarrados em inércia e desalento, ou os escondidos atrás de molhes imaginados pelo medo e auto-comiseração, bem como os que desistem de navegar e manobram em fuga dando o costado do navio ás vagas, e ainda os terrificados que abandonam o navio, tomando a balsa só para si e condenando a tripulação a afogamento certo, não esquecendo aqueles que soçobram porque se limitam a carpir e a pedir socorro.
São estes os que o mar reclama e cobra, não os que ousam navegar pela luz do Farol que firmaram.
Navegar é preciso.
Mas, como todo o homem de mar, tenho medo. Sei que há uma vaga que me pode afundar, afogar e perder o meu navio e tripulação.
Essa vaga existe e vagueia pelos oceanos. A minha esperança e fé é que a insuperável nunca se cruze com a minha proa.
É por isso que me rio e gargalho, neste banco e Largo. Desafio o frio, a solidão, a desolação, sei que amanhãs de Sol, companhia e alegria virão, hoje é só mais uma vaga, e esta, convenhamos, das pequenas.
Deste meu banco que é ponte do meu navio antevejo as navegações do ano novo que vai entrar. Tudo vai acontecer: dias de calmaria exasperante em que não andaremos, dias de brisa moderada que nos darão bom e tranquilo aviamento, e as inevitáveis borrascas e tormentas. Estas esperam-me, tanto como eu as espero.
Mas uma coisa é certa: vejo a luz do meu Farol, confio no meu navio, sou marinheiro, tenho a tripulação escolhida, pelo que, se não me cruzar com a intransponível, para o ano aqui estarei neste meu banco, ponte do meu navio, a recordar a travessia de 2009 e, mais uma vez, a rir-me do Adamastor e suas patifarias.
Companha, saudades, são horas de soltar amarras, vamos à faina, todos com coragem e confiança, cada qual com sua embarcação e tripulação, rumo ao Farol de cada um, cuja luz já se vê.

ATM

30 dezembro 2008

História de uma dedicatória

Dizia assim: “Para a Maria, que bem sabe o que significa este livro para nós dois, do António”

Esta outra história semi-contada na dedicatória sempre me pareceu ter mais intriga que o livro.

Cem anos passados, a tinta deixou no papel gasto o traço de uma relação que escondeu para si a trama toda, criando um segredo da forma mais tradicional: pondo-nos de fora.

Somos excluídos com pouca subtileza, abrindo o equívoco e deixando-nos a imaginar o que eles sabem e nós não. Trazendo até netos e bisnetos a centenária Maria a receber com cumplicidade o testemunho de um segredo a dois.

O que poderia ter significado este livro para ela?

Não o texto, que é uma novela banal, de fraco enredo e fim feliz.

Então o quê?

Que guardou então esta dedicatória até aos nossos dias?

O segredo, interrogo-o com prazer novo e idêntico mistério cada vez que abro o livro.

Os vinte anos vibrantes da Avó Maria, esses rejuvenescem por milagre quando, com ela, de cada uma dessas vezes, o abro.

JCN

29 dezembro 2008

Lanterna Vermelha


Diário de Amália, 28 de Dezembro

Começo amanhã o meu primeiro dia de trabalho no estabelecimento da Dra. Clara. Vou chamar-lhe Fábrica da Ilusão porque, no fundo, é disto que se trata - um estabelecimento fabril em laboração quase contínua onde se manufacturam delírios e enganos. É isto que os clientes procuram, como se em vez de quadros ou fotografias nas paredes se pretendesse um forro a espelhos enganadores que reflectissem algo diferente da figura que se põe em frente. A ilusão da aventura, do não compromisso, do amanhã que não existe, do anonimato, da transgressão, da pergunta que não sai.

Despedi-me da empresa de representações onde fui chefe de departamento nos últimos 10 anos e, confesso, tive vergonha e preguiça de revelar a nova actividade, porque há explicações que abrem fossos entre os elementos de uma comunicação. O único que sabe é o Fábio, com quem passei estes últimos dias. Contei-lhe tudo numa manhã limpa e clara, o que me pareceu ser um bom indício para a minha própria necessidade de transparência. Senti que ele, com a sua generosidade de carácter, seria o único com quem poderia partilhar este manto pesado que uso voluntariamente.

Estávamos os dois deitados, e o sol entrava devagarinho pela abertura estreita dos cortinados, incidindo na cabeceira da cama através de um fio de luz revelador de uma finíssima poeira em suspensão. O Fábio enrolava-me uma madeixa de cabelo enquanto fumava um cigarro matinal, impregnando o quarto com um cheiro forte. Quando lhe disse do meu propósito, seguindo com os olhos uma pluma elegante de fumo, senti uma ligeiríssima paragem naquele momento de ternura, uma fracção de hesitação, como se a terra tivesse cessado momentaneamente os seus movimentos habituais.

- Porque vais?

- Porque quero mais. Ou se calhar quero diferente. Ou talvez queira apenas o choque da contradição, a brusquidão do contraste, o fascínio dos opostos. A minha cicatriz contra uns olhos verdes rasgados e lindos que hipnotizam um cliente, a minha perna defeituosa ao lado de uma figura esbelta e tentadora que entontece de entusiasmo. Realidade versus ilusão, porque foi esse o meu argumento para ser admitida. Foi esse o meu trunfo, a carta que atirei para a mesa qual jogador que está disposto a tudo – a ganhar ou a morrer, porque o empate é coisa vã, inútil, fraca e desnecessária. O empate, neste tipo de jogos, é a ignorância da História.

Nestes últimos dias circulei um pouco a pé pelas redondezas de minha casa, preparando-me mentalmente para este novo trabalho que inicia uma mudança radical na minha vida. Ainda há restos de Natal nos caixotes de lixo, nas montras, nos passeios, nos rostos das pessoas, no sorriso das crianças que agarram um jogo novo, na provocação dos adolescentes que usam uma roupa moderna com uma juventude insultuosa.

Virei ligeiramente a cara ao vento e senti que a cidade ainda cheirava a fantasia, a alegria, a generosidade, a redenção. Rodei ao de leve para o sentido oposto e o odor que me atingiu era o da miséria, da tristeza, da mágoa, da solidão. Repeti o exercício e, de todas as vezes, tive a mesma sensação: dois aromas diferentes e antagónicos, como se a minha face fosse o lugar geométrico do encontro e da mudança, o espaço onde realidade e ilusão se juntam, se confrontam, se digladiam, reconhecendo existências mútuas.

Amanhã receberei o primeiro cliente, e talvez seja um funcionário apagado de uma qualquer repartição periférica, protagonista triste de uma vida baça e mortiça. Encaminhá-lo-ei para os braços de uma mulher fogosa, entusiasmada, pronta a levá-lo ao céu da sua criatividade. A sensação que referi acima irá repetir-se seguramente: brisas de fantasia e certeza que me tocarão no rosto numa comunhão porventura impossível. Ao dizer:

- Boa noite, Sr. Ferreira, a Natália está à sua espera.

ou

- Até para a semana, Sr. Ferreira, prazer em vê-lo.

serei o porteiro que manipula o acesso ao devaneio ou ao verdadeiro. A mão do amanuense que me cumprimenta à chegada é a mesma com que me acenará à saída; é aquela mão que carimbará as certidões na penumbra de uma secção poeirenta e afagará um corpo que sorri para ele num deslumbre de volúpia. Mas o Sr. Ferreira irá reparar em mim - uma coxa portadora de uma cicatriz que lhe desfeia um olhar - e saberá que é aqui que tudo se joga: a fuga da realidade e o regresso a ela própria.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

28 dezembro 2008

A Festa da Sagrada Família

A Sagrada Família (Pompeo Batoni 1708 - 1787)


Família. Do latim família, «o conjunto dos escravos da casa, os escravos; a casa, todas as pessoas ligadas a qualquer grande personalidade; casa de família».

A Igreja celebra hoje a festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Fosse por preguiça, falta de criatividade, dificuldade do tema ou indecisão sobre a melhor aproximação ao assunto, o facto é que andei engasgado com os dedos pairando sobre um teclado desinspirador, nesta ingenuidade de quem acredita que o tempo de espera resolverá o drama da folha em branco.
Oscar Wilde afirmava-se de gostos simples, satisfazendo-se com o melhor. À nossa maneira – dos cristãos, digo – poderíamos dizer frase semelhante, aplicando o raciocínio à Sagrada Família.
Não tenho competência para falar da família de hoje em dia, naquilo em que se tornou, na mudança de paradigma, nas vantagens e desvantagens de novas formas. Sei que a vida mudou, as separações e os divórcios deixaram de ser um estigma que doía e envergonhava, e que as famílias reconstruídas estão longe de ser menos boas do que as originais, tantas e tantas vezes disfuncionais e coladas com o cuspo de dependências várias.
Não obstante todas as tendências, costumes, estudos, evidências, continuo a acreditar firmemente na família tradicional como espaço de partilha, de memória, de estabilidade, de troca de experiências, de transmissão de valores e de princípios. Mais ainda, acredito no valor e na importância da igreja doméstica, consubstanciada numa família que se revê no ideal cristão, que encontra na mensagem de Cristo um guia seguro para o caminho que deve seguir, e que constrói a sua casa sobre a rocha firme de valores que não se compadecem com modas.
O post de hoje é dedicado à minha família, em particular aos meus três filhos e a quem me ajudou na tarefa de os educar, transmitindo-lhes valores seguros de solidariedade, atenção ao próximo, respeito, honestidade, altruísmo, generosidade. Estou certo de que aquilo que são, o que me ensinam e o que passarão aos que vierem a seguir a eles foi possível pelo ambiente familiar em que cresceram. Não um ambiente de perfeição, mas de procura daquilo que é justo e recto. Nem sempre uma casa, mas sempre um espaço.
A Igreja celebra hoje a festa da Sagrada Família. Não nos podemos queixar de não ter um modelo.

JdB


27 dezembro 2008

meu amor vou-te deixar

Tão convincente és no abandono e nunca cumpres. Acabas sempre aqui. Sufocado de saudades, a roer ciúmes, atraiçoado pela voz maldita que reivindica o que é teu. Só teu. A posse é a conquista deste vai e vem.

Tão convincente eu no teu abandono que me vence. Na aceitação com que remato o desespero, na persistência que imprimo à esperança, na culpa sacudida docemente dos teus ombros, dos meus. Voamos outra vez.

Tão convincentes somos neste embalo que a nenhum ocorreu ainda – meu amor, para a alma, cada abandono é sem sentido e o nosso voo perde altura.


DaLheGas

26 dezembro 2008

naqueles tempos, em que os anos oitenta faziam já a curva que antecede a recta onde se anunciavam os anos noventa, andava a pensar, como sempre andava, nos inúmeros afazeres a que a sua intensa vida profissional o obrigava. não era, como na série, um 'veterinário de província', mas andava lá perto. dava assistência técnica, espécie de consultoria profissional, a dezenas e dezenas de pequenas explorações agropecuárias, um pouco por toda a zona centro do país.
a azáfama pré-natalícia ainda não era bem aquilo que é hoje, mas o facto de normalmente o natal o obrigar a deslocações familiares, tornava aqueles dias particularmente ocupados. mil e uma coisas para fazer, pé-na-tábua, trilhando as estradas nacionais, concelhias, locais, da região, metendo por atalhos pouco conhecidos, enfim tentando esticar o tempo, naquele jeito bem português de equilibrar o impossível.. e conseguir.
era já noite, como é próprio dos fins-de-dia de dezembro, na beira alta. ainda há pouco o sol brilhava e já havia caído uma muralha negra sobre as serras, as casas, as estradas, as gentes. ele gostava. sempre gostou do que é próprio. seja lá o que isso for sobre o que for. à antiga, de certa maneira.
era já noite, dizíamos, quando avistou os dois vultos na beira da estrada. ao passar por eles, olhou para o retrovisor e, enquanto o carro se afastava, fixou o olhar naqueles dois corpos, envoltos em capuchas, combatendo o frio e o escuro da noite como podiam. desapareceram, ao fim de uns segundos, como sempre desaparecem os estranhos que olhamos, nas estradas da vida. seguiu viagem, que era tarde.
uns minutos depois, lembrou-se de qualquer coisa. ou melhor, o seu cérebro parecia ter acordado, de uma forma estranha. enquanto conduzia, era como se aqueles dois vultos lá de trás se projectassem agora à sua frente - coisa estranha. reparou então que um era claramente de um adulto, mas que o outro era de uma pequena criança - como fora possível ter-lhe escapado? lá fora, as serras estavam cada vez mais pintadas de negro e o vento assobiava, como só nas serras sabe assobiar, tornando-se vivo.
parou o carro na berma da estrada. olhou para um lado e para outro. fez inversão de marcha.
poucos minutos depois, avistou, em sentido contrário, os dois vultos que continuavam a sua jornada, como podiam. devagar, o vulto adulto protegendo o vulto mais pequenino. jurava que era assim que os seus olhos viam.
abrandou, ao lado dos caminhantes. abriu a janela do lado oposto ao seu e disse:
- boa noite. a senhora quer que a leve a algum lado?
a senhora, uma mulher via agora claramente, abeirou-se do carro e respondeu, com o olhar titubeante que os humildes muitas vezes têm, estranha declinação da palavra respeito:
- boa noite, meu senhor. vamos lá para a frente, para a aldeia. se o senhor assim puder..
- sim, entrem, por favor.
descortinou os olhos de um pequenito, transido de frio e de medo. ficou triste, por um segundo, como poderia ele inspirar medo.. mas logo ali perguntou:
- na estrada, com este frio? e está tão escuro.
- tem que ser, meu senhor. muito obrigada. sabe, enquanto caminhávamos, o meu filho dizia qualquer coisa. quando me acerquei dele, o pobrezinho dizia: 'oh, meu Jesus, manda-nos um carro; oh, meu Jesus, mando-nos um carro'.. e Jesus mandou, meu senhor.
engoliu em seco. e, em silêncio, num silêncio brilhante, conduziu-os a uma aldeia próxima.
dias depois, contou esta história aos seus filhos e sobrinhos. ele que nem era propriamente uma pessoa religiosa, resolveu contar essa história. houve, desde esse dia, pelo menos duas pessoas que nunca esquecerem esse Natal. ou quatro, contando com um vulto adulto e outro mais pequenito. ou Cinco.
'o que fizeres ao mais pequenino dos teus irmãos, é a Mim que o farás.'
(dedicado a meu pai, que me contou, bem como às minhas irmãs e primos, esta história, numa véspera de Natal.)

gi

Quadros dos dias que correm

A persistência da memória (Salvador Dali, 1931)

Textos dos dias que correm

Dá Tempo à Tua Vocação

Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento dos litígios e uma cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

25 dezembro 2008

Textos dos dias que correm...

(...)

Mas, naquele esforço supremo toda sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: «Ah! meu menino! meu menino!...»

Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.

— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?

— Mais longe, Cristóvão, mais longe...

E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.

Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.

— Onde é a casa de teu pai?

— Muito longe, Cristóvão, mais longe...

Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.

(S. Cristovão, Eça de Queiroz, Últimas Páginas)

Christmas play



Vou passar devagarinho à sala do lado, fechar a porta e os olhos e deixar correr estes pouco mais de sete minutos do Concerto de Natal de Corelli - dirigido e interpretado por Roy Goodman e o Brandenburg Consort. Replaying.

Mónica Bello

24 dezembro 2008

Largo da Boa-Hora

Este banco é coisa pública. Pelo que já vos descrevi, ele é pouco frequentado e hoje, dia 24 de Dezembro, ainda menos o será. Penso nos poucos que ficarão em breves momentos de contemplação e naqueles que aí se refugiarão, talvez por muitas horas desta tão longa noite.
Os primeiros serão aqueles que chegarão pelo meio, final da tarde e, desolados como este Largo, contemplarão as suas vidas, em apeadeiro na linha que irão percorrer até à estação de destino à qual não querem chegar. Sabem, todavia, que têm de ir, que terão de estar presentes numa morada que não é lar, numa relação que não é amor, numa convivência que não é afecto, numa presença que não é companhia, numa festa que não é alegria, numa celebração que sentem culto de coisa alguma.
Sentados, anteciparão a mentira e a farsa que irão representar. Antevêem os rituais, as palavras, as expressões, os votos, os gestos, os actos que, conforme o guião, irão cumprir e consumar, na esperança e ânsia de que finalmente caia o pano de cena e a noite chegue ao fim com o recolher ao leito onde, no isolamento e silêncio, ressurgirá a verdade da ruptura, do afastamento, da exclusão, devolvendo-lhes a dignidade da autenticidade.
Para esses o meu banco hoje é camarim, onde, amarga e envergonhadamente, se caracterizarão, se travestirão, de amantes, pais, filhos, tios, amigos, vizinhos, felizes a viverem o Natal, num espectáculo que se não for arruinado por uma pateada que surja por um erro de casting de algum dos actores, pode até terminar num aplauso comedido de agrado.
Sentam-se, pois, pessoas, e levantam-se actores de comédias trágicas a caminho do palco, e assim partem, deixando o camarim vago para quem dele precisar.
Quando vejo cada um deles partir em passo resoluto, e determinados a cumprir, aplaudo-os e acarinho-os, porque são actores, não são hipócritas, falsos ou fingidores, não são malévolos.
São pessoas cujas encruzilhadas da vida, os encontros e desencontros, os amores e desamores, as esperanças e realidades, os sonhos e os acontecidos, as fantasias e os factos, as tornaram desenraizadas, deslocalizadas, desfocadas, destacadas das vidas que construíram e das pessoas com quem as construíram, estando agora num limbo, num território de ninguém, sem pátria, Não pertencem a lugar algum ou a pessoa que seja. São marinheiros sem navio, navio sem porto.
Não têm maldade, o que não conseguem é ser lúcidos, compreenderem-se, esclarecerem-se, iluminarem-se e, consequentemente, reunir a coragem, determinação e tenacidade para quebrarem as amarras e embarcarem numa nova vida, que seja ela qual for, custe o que custar e doa a quem doer, lhes devolva a identidade da existência, a conformidade entre o ser e o parecer, a verdade, a genuinidade; em suma, a paz e o bem.
Essa nova vida para uns será uma vida alternativa, diversa, oposta, discrepante da vida velha que os consumiu, mas para outros será um regresso à vida original que foi estilhaçada, será o refundar dessa vida, firmando os alicerces e reconstruindo o que possa ter desabado, expurgando tudo e todos os que minem esse edifício.
Qualquer dos caminhos para essa nova vida exige muito, em especial descoberta, verdade, esperança, acção, coragem e renúncia.
São estes dons, virtudes, graças, que eu peço para todos os que usam o meu banco como camarim.
Este Natal será Feliz para os meus actores se, por ventura e inspiração, eles, neste que agora passa, se comprometerem a que no próximo Natal seguirão directos, sem precisar de parar em apeadeiros de refúgio e de adiamento, para os destinos que finalmente escolheram ou finalmente aceitaram, como vidas novas.
Acreditem: essa firme decisão será suficiente para um ânimo e vivência desta noite totalmente diferente da esperada, seja ela um nostálgico e carinhoso adeus ao que se vai deixar, seja ela uma esperançosa saudação de aurora ao que se vai reencontrar.
Saudados os meus actores, detenho agora os meus sentimentos naqueles que, como disse no início, antevejo que passarão pesadas horas no meu banco, nesta noite longa do dia 24 de Dezembro.
Esses chegarão pelo princípio da noite e ficarão por tempo indefinido, como indefinidas são as suas vidas.
Eles são os abandonados ou os que se abandonaram. Eles são os que não resistiram, os vencidos, inclusive por si próprios.
São espectros, são sombras de seres humanos que pairam em memórias, são imagens porque a vida se lhes esvai.
São mendigos, drogados, alcoólicos, desesperados, pobres.
São os destruídos, os destroçados.
Escolhem o meu banco pela mesma razão que escolhem qualquer coisa ou lugar, ou seja por razão nenhuma, já que não há mais razão na sua razão.
Não esperam nada, porque para eles o tempo acabou, o que resta é ir restando, ir cabendo em cada dia que vai passando, e ao qual dão tanto desprezo como dele sempre recebem.
Para eles não há Natal, mas, quando deitados no meu banco, embrulhados nos seus cartões, frios, sujos, com fome, repelentes, eles são o Natal, e o meu banco um altar em que repousam.
Eles são uma anunciação, viva, real, presente, que actualiza e contemporiza o nascimento do Menino Jesus, desafiando cada um de nós a confrontar-se com a evidência que foi isto que nós fizemos da criança que nasceu há 2000 anos.
Eles são o isto em que esse Jesus, menino adorado, se converteu pela desumanidade da humanidade.
O meu banco tem sobre si a realidade do que fizemos àquele menino que nasceu em Belém há 2000 anos.
Tenhamos a coragem de olhar e ver. Tenhamos a hombridade de reconhecer que não é possível que o presépio se tenha convertido nisto.
Como é que, colectiva e individualmente, contribuímos, ou pelo menos não conseguimos evitar, o isto.
O que se terá passado, para sermos agora confrontados com esta realidade, que é a do meu Largo da Boa-Hora, mas podia falar de África, da fome generalizada, das guerras, das injustiças, do desemprego, da constante dor humana infligida por (des)humanos que grassa em malfadada e eterna barbárie que perpetuamos.
Voltarei a escrever sobre este assunto, mas a primeira explicação para o presépio deste Natal, ser o mendigo acoitado no meu banco, é a que colectivamente não cumprimos o mandamento novo de Jesus: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”.
Se o critério primeiro da obra do Homem fosse o Amor ao próximo, não tínhamos sistemas políticos, económicos e sociais que consentissem, em parte alguma, sequer no mais pequeno foco, as marginalização, pobreza, degradação, exclusão... bestialização de irmãos.
Individualmente falhamos nas virtudes da fraternidade, igualdade e caridade (é por demais óbvio).
Mas igualmente caímos todos na soberba de pensar que o percurso que conduz a ser um desterrado da vida humana só acontece aos outros, porque cada um de nós jamais admite que nos pode suceder exactamente o mesmo, seja por desgraças da vida, seja por sermos igualmente vencidos por nós próprios, quando trilhamos caminhos de perigo.
Que os meus espectros sirvam como permanente consciencialização do desamor da nossa sociedade e da soberba de cada um de nós.
Descansem pois no meu banco, que no presépio que faz o Natal ninguém ousa mexer.

ATM

23 dezembro 2008

Como um anjo...



Encontrei-te.
No frio que senti ao sair de casa
No vento agreste que me fazia chorar
Nas nuvens altas e negras que escondiam o Céu
No sol que teimava em rasgar de laranja a noite escura
Nas gaivotas que planavam em silêncio indiferente
Nos barcos que oscilavam ao ritmo das marés
No horizonte entrecortado de mastros
Na cara dos desconhecidos cuja história só imagino
No sorriso dos que conheço e a quem devolvo um aceno
Na solidão de um caminho feito de sonhos
Na lágrima dos dias que passaram e já não voltam
Na esperança dos dias que virão alegres
Na saudade, na sempre saudade
Na certeza de que me vês
Na confiança do teu sopro
Encontrei-te.
Como um anjo que passa e que permanece.

[I close my eyes
And my twilight images go by
All too soon
Like an angel passing through my room]

História de Natal II

A terra não pedia muito.
Leve e escura, dava em muitos dobros
o que se lhe espetava
e bastavam-lhe
dois dedos de falatório ao fim da tarde
para se ver paga.
Pelas sete horas, Inverno ou Verão,
descia a caminheira das pereiras
e ia junto à chã do poço
contar à horta as coisas do dia e da vida.

«- Logo temos consoada... Mais uma.
Fez-se depressa o ano.»

A chuva caía miúda e a noite vinha aí.

«- Fez-se depressa o ano ...»

O bom ouvidor faz a conversa corrida
e iam por aí fora
sobre coisas de muito e de pouco,
sem pesar nem medir,
que é aí que está o gosto.
De quando em vez paravam de remar
e seguiam o embalo, fazendo caminho.
O vento cheirava a preparos de ceia.
Sentado no muro de pedra solta,
aconchegou a samarra e cuspiu longe.
Para a horta a conversa era um regalo
e a ele, no fim de contas, não lhe custava nada.

«- Parece que foi ontem.»

Que sim, que parecia.

«- Santas noites, até amanhã.»
«- Adeus, saudades ao Deus Menino.»
«- Serão presentes.»

Ele a virar a curva da eira e o Menino a chegar.

«- O João ?»
«- Ainda agora abalou. Mandou saudades.»
«- É sempre assim ...»

JCN

22 dezembro 2008

Zimbabué


Ao longo destas últimas quatro semanas tenho escrito quase sempre sobre o Natal – o Natal dos que sofrem, dos doentes, dos que sentem as ausências, dos que são privados de sacramentos que os confortariam, mas, também, do Natal dos alegres, dos felizes e despreocupados, dos que circulam na sunny side of the street.
Hoje, de uma forma mais prosaica, dirigi-me aos meus companheiros de blogue e aos que nos lêem, assim como à Parede 7 (quem sabe do que estou a falar sabe do que estou a falar – passe a frase fortemente la paliciana), de quem guardo saudades e o apoio fundamental numa altura difícil da minha vida.
Para acabar esta onda de Boas Festas, queria lembrar-me do Zimbabué e dos amigos portugueses que lá deixei. Lembro-os a todos com a nostalgia de quem chegou há quase quatro meses e não se importava de voltar para a semana para cumprir um calendário forte de contratos com casas de karaoke.
Quem acompanha este blogue sabe da generosidade com que todos me receberam em suas casas ou nas suas vidas, a simpatia com que me integraram e resolveram problemas logísticos, técnicos, informáticos, negociais, turísticos.
Fica, pois, um abraço especial ao JdC, à Manuela, à Teresa e à Nichola, à Bela, à Cristina e ao Sérgio, à Ana e ao Alberto, à Sílvia e ao Toni.
Um Santo Natal para todos e um Bom Ano de 2009.

Adeus, até ao meu regresso...

Parede 7

Madonna del Magnificat - ( Sandro Botticelli 1480-1481)

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.

[do Evangelho de hoje]

Para os meus queridos Amigos da Parede 7, com quem partilhei tantas e tantas vezes este Magnificat, aqui ficam os votos de um Santo Natal e de um Bom Ano de 2009. Que as crises que atacam alguns elementos sejam factor de crescimento e de confiança nas capacidades de cada um.

JdB

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