As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
03 dezembro 2010
um sonho
sonhei que te oferecia
um palco cheio de palmas.
quando te contei,
sussurraste mansamente
ao meu ouvido:
oferece-me antes um vestido..
tecido com saliva.. (verdadeira)
e lágrimas.. (daquelas falsas).
gi
02 dezembro 2010
I regret...
Deixa-me rir...
"Caros audiophiles, this week I visited one of the BBC's historic recording studios in Maida Vale London, where for 75 years almost every major artist you could think of has performed at one time, either for radio or for television or for recording albums, in every genre of music. It is the spiritual home of the BBC Symphony Orchestra who utilise the enormous Studio 1, one of the very few studios in Europe large enough to accommodate as many as 300 musicians. It is a place also where many new emerging artists have their first opportunity to experience a professional recording studio when they are interviewed and perform for radio shows. And there are photographic reminders everywhere you walk.
The particular studio I visited appears as if nothing had been changed since its creation, except of course for the latest state-of-the-art equipment.
I imagine the same long green curtains around the high ceilinged room, the same parquet wooden flooring, the same art deco lighting, the same acoustic panels on the walls. It reminds me of the Abbey Road studios, made famous of course by The Beatles, but before them by Edward Elgar and many other artists. Abbey Road is a little shabby, in need of re-decoration but the sound engineers are terrified that even a fresh coat of paint will destroy the unique acoustics of each studio, and so the original decor is preserved, untouched. I suspect the same is true at Maida Vale.
But it helps to preserve a wonderful connection to the past and a sense of living history.
So I am reminded of a French film from the 1980s called Diva, directed by Jean-Jacques Beineix. It is a thriller centred partly around a famous operatic singer who refuses to make albums or to allow her concerts to be recorded, believing in the purity of live performance.
So I am thinking - thank goodness for the invention of the gramophone, and of photography and radio and television and film, for allowing us to experience, at second-hand maybe (but otherwise, usually, how else can we?), so many wonderful expressive creative moments...
The music I have chosen comes from this film Diva. The first video is a live performance by the opera star of the aria "Ebben? Ne andrò lontana", from Act I of Catalani's opera "La Wally."
The second video features a beautifully haunting instrumental piano to accompany a night-time promenade through Paris taken by the opera star and her young admirer who has, unknown to her, secretly recorded her. Eventually he confesses to her and plays her the tape. She is nervous but also curious because, she says, she has never heard herself sing.
Promenade Sentimentale:
A proxima.
PO
01 dezembro 2010
Pensamentos impensados
Ir aos comentários e ver o que escreveu ML.
Pergunta da semana:
Em que ano deixou de ser um "espectáculo" público, o guilhotinamento, em França?
Se à Beatriz Costa tivessem cortado a franja, teria ficado com um aspecto confrangedor?
Mouzinho de Albuquerque tinha furor ultramarino?
Uma gravura "avant la lettre" é uma prova só para ver a qualidade do "boneco", e sem legendas.
Será que se podem ver provas de livros "avant la lettre"?
Um dos grandes mistérios da física:
Se se misturar ar com vácuo, o vácuo desaparece.
Para onde foi?
É raro aprender-se qualquer coisa com os políticos, mas agora aprendi. Sempre que me telefonarem a pedir adesões a TV por cabo, cartões de crédito, seguros, etc. respondo: estou em segredo de justiça.
Em que se parece o Luis Goucha com o Dr. António Costa?
Ambos enfrentam a câmara.
30 novembro 2010
Frio
Sou de extremidades frias. Tenho os pés e as mãos longe da barriga e suponho que seja esse afastamento o principal culpado de semelhante tendência para arrefecer pelas pontas, já que a minha circulação sanguínea é, tanto quanto sei, soberba, e que o meu brilhantismo, infelizmente, não tem o calibre necessário para ser responsável pelo desvio de caudal circulatório que justifique tamanho fenómeno refrigerativo nas mais afastadas fronteiras corpóreas. Não me incomodo com nada. Nem quando a sensibilidade dos dedos dos pés, já de si reduzida, se deixa substituir por uma sensação bizarra, como se me estivessem a doer os pés de outra pessoa, nem sequer quando as mãos começam a ficar gradualmente mais lentas e inúteis, exigindo atenção e mimo. Hoje, enquanto vou ignorando os pés de não-sei-quem que me vão doendo do outro lado da cama, vou fazendo o gosto às mãos, à velocidade que a temperatura vai permitindo, e vou empilhando frases compridas, cheias de vírgulas e desinteresses. Não me incomodo com nada.
ZdT
29 novembro 2010
O herói
Em algum momento da vida o inesperado torna-se esperado, o inimaginável real e o inaceitável torna-se, pela força das circunstâncias, aceitável.
Uma neblina intransponível figura o horizonte humano, abate-se a escuridão e o ser humano, enfraquecido, deixa que a sua esperança seja arrastada pelos ventos cortantes, sabe lá ele para onde. A sua habitual posição de lutador, de herói, vacila, ele retrai-se, baixa o olhar e deixa que os seus joelhos enfraqueçam até o derrubarem pelo chão. E assim permanece, deixando que as inúmeras e sucessivas imagens se apoderem da sua mente. Ele teme, teme tanto e é tão legítimo. O fim, seja ele de um capítulo ou de uma história, assusta-o. A noção de ponto final e de parágrafo dá ao nosso (sempre) herói uma perspectiva dura da vida já que não poderá reviver o passado no presente e no futuro. Cada capítulo é um capítulo.
E é perdido nestes pensamentos que o nosso ser humano se mantém ainda abatido sobre a terra, empregando todas as suas forças nas pálpebras de maneira a impossibilitar a abertura dos olhos. Ele deseja ser cego, acredita que a ausência de visão será certamente melhor do que aquela que os seus olhos lhe proporcionam. Domado pelo medo, sim, porque um herói também teme, ele coloca as mãos sobre a face, cerra os dedos, garantindo que nem um raio da vida real trespassa aquela camada. E nesta posição defensiva permanece por mais uns momentos.
No entanto, o seu coração, inferiorizado até ao momento por todo aquele medo e angústia, reage. Devagar, impõe-se sobre a mente, deixando que as emoções prevaleçam sobre a razão. E o nosso lutador deixa as mãos caírem; timidamente abre os olhos, encara a realidade e surpreende-se. Aos olhos do coração, o céu estava azul brilhante, apenas se sentia uma brisa acariciante. Mas ele via, no horizonte, um cenário escuro, sombrio, aterrorizador. Fechou de novo os olhos e jurou que, daí em diante, poria sempre os sentimentos à frente da razão, faria prevalecer o amor aos vícios.
Abriu os olhos, reergueu-se e seguiu caminho para um futuro longo....
Mariana Terra da Motta
Fórmula para o caos
28 novembro 2010
Domingo …… Se Fores à Missa !
Hoje é o primeiro domingo do Advento, o tempo de preparação para o Natal. No Domingo passado, o Evangelho de S.Mateus, tão ricamente comentado pelo meu querido colega JdB, parecia dar-nos a entender que se mudássemos à ultima da hora, se nos arrependêssemos à hora da morte, Deus nos amaria e salvaria de igual modo. Ora, de facto, uma leitura tirada do seu contexto ou do enquadramento que o Evangelista pretende dar, pode ser de difícil interpretação ou mesmo de interpretação errónea. Por isso, o Evangelho de hoje, como que “numa cena dos próximos episódios” vem dizer-nos que devemos estar preparados e vigilantes a toda a hora, porque a qualquer momento podemos encontrar-nos com Jesus e não o vermos. Não se trata, obviamente, de um encontro físico, algo paranormal ou miraculoso, mas sim o encontro com Jesus no Outro (os pobres, os aflitos, os que sofre de solidão, os perseguidos; os nossos familiares mais chegados, os amigos, os colegas de trabalho). Já tentaram realmente ver Jesus no Outro ? É tão difícil. Conseguir ultrapassar todas as barreiras pessoais, sociais e preconceituosas, ver para além do aspecto físico, para além dos preconceitos, perdoar e esquecer o mal que o outro nos fez e vê-lo, unicamente, como nosso irmão em Cristo. “O caminho faz-se caminhando”, dizia o grande poeta castelhano António Machado. E eu acrescento a vida faz-se vivendo. E também a nossa vida de cristãos faz-se vivendo o dia a dia, atento às pequenas coisas, atento aos outros, porque Cristo está nos outros, tal como está em mim.
Domingo Se Fores à Missa …………..Está atento !
Maf
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem.
Palavra da salvação.
27 novembro 2010
Pensamentos impensados
Amadora - Porcalhota
Montijo -Aldeia Galega
Pergunta da semana:
Um escritor português escreveu um conto que começa assim:
Adão, pai dos homens, foi criado no dia 28 de Outubro às duas horas da tarde.
Como se chama o escritor e como se chama o conto?
O fadista Alfredo Marceneiro estaria a pensar em Berlusconi quando cantou vive com muitas amigas aquele de quem vos falo?
Os filhos ilegítimos também descendem dos antepassados?
Quem estiver proibido, pelos médicos, de comer sal, também estará proibido de receber salário?
Portugal precisa de dois submarinos para quê? Só se for para um ficar de reserva.
Uma cantora portuguesa canta fazendo linguagem gestual; percebo. Editou um disco; não percebo.
Descartes parece que adivinhou o que iria acontecer a Suu Kyi, dissidente birmanesa, quando disse penso, logo exílio.
26 novembro 2010
mano a mano
esse chiaro-escuro objecto de desejo - tu -
contra o formidável anti-lirismo
dos meus olhos.
gi
25 novembro 2010
Deixa-me rir...
pcp
24 novembro 2010
Banco Alimentar
Moleskine
Música. Fujo ao tipo de música que costumo postar. Hoje sai algo mais animado, com um ritmo sul-americano de fazer suar as unhas.
Encontro. Almoçámos frente a um bom bife que, naquele dia, era a única certeza que tínhamos – para além da amizade que nos une. Falámos de mudanças radicais de vida tendo como fundo motivador a saúde que devemos a nós próprios e aos outros. Quando se falou em largar vícios – aqueles que são socialmente aceitáveis – fugimos dos conceitos da comida que sabe como se tivéssemos o palato do Adrià, da calçada que se sobe com a alegria de um Obikwelu, do dinheiro que se poupa com a satisfação de um Scrooge. Falámos de coisas muito simples - do sentimento libertador que advém de vencer uma adição. Essa liberdade – que quem estava à minha frente associou àquela que Deus nos dá – é uma motivação extraordinária. Não sei se será motivação ou recompensa. Mas vai dar ao mesmo...
Televisão (I). Oiço nos telejornais da TVI que uma das novelas da estação venceu um prémio internacional, aparentemente equivalente a um Oscar. É sempre meritório por se tratar de uma produção nacional. Vejo a entrega de prémios - um grupo de profissionais rejubila com o galardão, saltando e dando gritinhos. Destaca-se, pela sobriedade, uma das actrizes cujo nome não recordo, que se mantém sossegada perante a alegria dos colegas. Percebo, afinal, que a sobriedade não é mais do que a tarefa ingrata de tapar uns seios assaz desnudos. Talvez mais do que ingratidão possamos falar de impossibilidade, dada a escassez de tecido no local em questão. Exuberâncias...
Televisão (II). Quem me conhece sabe que sou bastante anglófilo, fazendo deste tema um debate interessante com o meu querido amigo ATM, mais voltado para as coisinhas de França. Quem me conhece sabe também que gosto do Jamie Oliver, um chef inglês que prima pela evidente falta de higiene e pelo jeito para cozinhar de forma simples. Vi-o ontem e hoje num périplo por Itália, a verdadeira capital da cozinha saborosa. Orgulhei-me da sua capacidade para falar a língua local com um sotaque de fazer inveja aos poliglotas: agradeceu profusamente, repetindo grazie mille à exaustão, mas também se dirigiu de forma calorosa aos locais, pronunciando um hombre e señorita com a generosidade dos grandes impérios.
Televisão (III). Sou fã de uma série chamada Uma família muito moderna (Modern Family). Passa na Fox Life e faz-me rir sozinho em casa, o que é a maior prova (digo eu...) da sua qualidade. Não perca, numa televisão próxima de si.
Política. Sou só eu, ou já algum dos meus fiéis leitores deu por si a ter pena do Manuel Alegre, pela pobreza do que diz, por aquilo que me parece uma quantidade enorme de clichés por segundo? Quando o oiço prefiro esquecer-me do Manuel Alegre político e lembrar-me do outro Manuel Alegre, o do Meu amor é marinheiro. Depois, já conformado, ocorre-me o pensamento cujo autor me foge: sei que a poesia faz bem, mas não sei a quê...
JdB
22 novembro 2010
Frases mudas
Vai um gin do Peter’s ?
Assim é o Melhor Vídeo Criativo do Youtube, em 2007, a premiar a divulgação de 500 anos da pintura ocidental, que desliza ao som de uma Sarabande de Bach(1). Uma combinação espectacular, da autoria do norte-americano, Philip Scott Johnson. O tema é maximamente estético (digo eu), anunciado por um título simples e directo «WOMEN IN ART». Só por isso, uma aposta ganhadora.
Começa com um ícone russo, do século XII. Daí salta para o Renascimento. Depois avança, suavemente, até ao terceiro quartel do séc. XX, num fading de imagens maravilhosamente fluído, que se vai transfigurando em 90 rostos inspiradores. Um soberbo desfile de musas que, ao longo dos séculos, dezenas de pintores (e apenas duas a três pintoras) imortalizaram na tela. Vale a pena lembrar alguns, para se antecipar a qualidade da selecção de Johnson, que reúne Novgorod, Leonardo, Titian, Botticelli, Raphael, Dürer, El Greco, Rubens, Fantin-Latour, Corot, Renoir, Manet, Gauguin, Klimt (por acaso, numa imagem pouco conhecida e que não faz plena justiça à sua genialidade ímpar), Matisse, Magritte, Modigliano, Dali ou Picasso, a fechar a colecção com várias obras.
A propósito de musas, contava Arpad Szenes e Helena Vieira da Silva(2) um episódio passado com Henri Matisse e revelador da importância da cor na pintura. O pintor francês terá sido abordado por um daqueles discípulos cansativamente zelosos, mas de pouca sensibilidade, que lhe teria perguntado: «De que cor, Mestre, é o chapéu dessa senhora?». Referia-se a uma tela do período fauve, com um rosto feminino afilado e vestido preto sóbrio, a realçar um leque colorido e um chapéu em tons espampanantes. Resposta desencorajante mas clarificadora do mestre: «É preto, evidentemente!»

Femme au chapeau, 1905, Museu da Moda, S.Francisco, EUA
As próprias tonalidades imprevisíveis do fundo já indiciam uma concepção cromática muito desligada da representação figurativa da realidade, que explicam a reacção do pintor.
Ao aprofundar a relevância da paleta de tintas na arte pictórica, Malraux comentava a célebre tela de Vieira da Silva La Bibliothèque rouge (uma das muitas bibliotecas que pintou), observando: «Este quadro é vermelho, mas para se tornar vermelho tem de conter todas as cores.»
E Arpad como que desvenda o segredo guardado nos ateliers: «A Vieira pintou La Bibliothèque rouge em pequenas pinceladas de várias cores, as quais gravitam em torno umas das outras e se transformam em luz vermelha.»
Vieira completa: «Existem sete cores apenas, mas tantos cambiantes»

La Bibliothèque, 1948-1949

Vale a pena ler o testamento originalíssimo de Vieira da Silva sobre o simbolismo dos tons:
«Deixo aos meus amigos
Um azul ceráleo para voar bem alto
um azul cobalto para a felicidade
um azul ultramarino para estimular o espírito
um vermelhão para que o sangue circule alegremente
um verde musgo para acalmar os nervos
um amarelo de ouro: Riqueza
um violeta cobalto para o devaneio
uma garança porque deixa ouvir o violoncelo
um amarelo bário: ficção científica, brilho, esplendor
um ocre amarelo para aceitar a terra
um verde veronese para a memória da Primavera
um índigo para que o espírito se ajuste à tempestade
um laranja para treinar a vista de um limoeiro ao longe
um amarelo limão para a graça
um branco puro: Pureza
terra de Siena natural: a transmutação do ouro
um negro sumptuoso para ver Ticiano
uma terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra
uma terra de Siena queimada para o sentimento da durabilidade.»
A questão da cor é central na pintura, como o demonstra o diferendo entre Matisse e o discípulo equivocado. Porque tem menos a ver com a exuberância cromática de um feltro de plumas e bem mais com a relação entre a realidade e a arte! É, por isso, fracturante aquela disparidade de mundividências. Uma distância nada fácil de transpor pela lógica, mas que se esfuma em face do Belo, como intuía Dostoievski: «A beleza salvará o mundo».
Diria que se inscreve na mesma senda a visita guiada por Johnson a grandes colecções de Museus míticos, como o Louvre. Pelo menos, é um livre trânsito para aceder a alguns corredores, sem restrições geográficas ou horárias nem canseiras burocráticas. Ou simplesmente uma maneira de começar bem a semana.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda-feira)
__________________________
(1) Suite No. 1, BWV 1007 de Bach em Sol Maior - Sarabande, executada por Yo-Yo Ma.
(2) Alusão à entrevista de Anne Philipe ao casal pintor, reportada em «O Fulgor da luz: conversas com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes», Edições Rolim.
21 novembro 2010
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
20 novembro 2010
Pensamentos impensados
19 novembro 2010
overdose
fechar um livro, embriagado ainda
pelas palavras-bisturi,
e sentir os braços tremer,
a pele arrepiar-se,
o sangue a carburar em silêncio e fúria.
a transfusão de sangue entre autores e leitores
não é, em certas tardes, bonita de se ver.
mas, como junto a tantas camas de hospital,
há operações simplesmente necessárias.
nunca pensei aproximar médicos e poetas,
num arremedo de poema.
mas a verdade é que uns e outros têm,
à sua maneira, o dom da vida.
faltam aspas, no verso anterior, claro,
mas não é o meu melhor dote
exercer a pontuação mais exacta.
os médicos juram defender a vida "hasta la muerte",
discutindo acesamente a morte consentida
- basta ler jornais banais para o sabermos.
já os poetas não pensam nisso, aposto.
mas deviam.
também eles prolongam certas vidas,
para além da última oportunidade.
sem juramento ético,
alegam o quê estes miseráveis?
a grande irmandade do desespero
não aceita desistências.
gi.
18 novembro 2010
Deixa-me rir...
Di ruggine Rust
Nerastra tinta a caldo di caligine Blackish color hot haze
Metropoli Metropolis
Le tentazioni andavano e venivano The temptations came and went
Cosa farò di me? What will I do with me?
Guidavo nella notte ferma immobile I was driving in the still fim night
Friabile Fragile
Venivo da una valle dove annuvola I came from a valley of cloud
Nell'umido Humid
Sentivo sulle spalle un bel solletico I felt quite a tickle on my shoulder
Tu cosa vuoi da me? What do you want from me?
Lasciando alla mia infanzia Leaving my childhood
Ogni ingenuità sensibile Each ingenuity sensitive
L'amore è uno stregone un fuoco Love is a fire wizard
Isterico magnifico Hysterical magnificent
Carezza di una mano che semplifica Caress of a hand that simplifies
Cosa sarà di me? What will become of me?
L'abbraccio adulto in un silenzio The adult in a silent embrace
Scenico visibile Visible scene
L'incendio è la stagione The fire season
Delle tenebre bellissime Beautiful darkness
Avevi fatto in aria un incantesimo You had made a spell in the air
Tu cosa sei per me... What are you for me ...
A proxima.
PO
17 novembro 2010
Moleskine
Telefonema. 6ªfeira jantava com amigos. Casa nova e cheia, com um ruído de fundo feito de conversas soltas, próprias de quem inicia um fim de semana fagueiro sem previsão de borrasca. Toca o telefone. Retiro-me para um canto da sala, poupando incómodos próprio e alheio. Do lado de lá do éter, alguém por quem nutro admiração e amizade especiais descreve-me a situação: uma intervenção cirúrgica, uma análise e uma acção em função de... Voltado para uma janela, tendo pela frente uma noite mansa, uma piscina iluminada e uma cascata pujante, vou ouvindo, respondendo e oferecendo: é preciso alguma coisa? Amanhã? Domingo? Sempre? Tento oferecer uma voz confiante e com a firmeza de um ponto final a quem me telefona com umas reticências e um ponto de interrogação. Tento mostrar, na impessoalidade de um telemóvel com ruído de gente animada por trás, que a minha amizade é tão grande como aquela que levou alguém a partilhar o sufoco numa 6ªfeira, jantava eu com amigos.
Blogues. Não sou vasto frequentador de blogues. Tenho uma lista relativamente desactualizada do lado direito deste espaço. Interesso-me pouco por blogues de politica, visito regularmente alguns outros com cujos donos me cruzei ou de quem sou amigo. Conheci a Luísa num jantar de bloguistas, mas já a seguia no Nocturno. Sugiro que a visitem no Beira-Tejo, um espaço que prima pelo bom gosto dos textos e pela qualidade das fotografias. Antes de a conhecer adivinhava-lhe uma máquina fotográfica xpto. Enxovalhou-me, revelando que tem um equipamento vulgar de lineu. A mestria está no olhar, mais do que na técnica. Envergonhado, quis cantar como o fado: desculpa, mãezinha, ser tão pouco.
Histórias. Cumprem-se, em Janeiro próximo, quatro anos de mudança radical na minha vida profissional. A maior parte do meu tempo de trabalho é passada hoje em dia em casa, tentando gerir o trânsito entre o quarto e o escritório, duas assoalhadas intervaladas por um "coto" de corredor e uma parede de alvenaria. Vivo feliz, suportado nas minhas rotinas, nas minhas disciplinas, habitante felizardo de um Monte Estoril que é uma aldeia - no que isso tem de bom. Há algumas desvantagens, uma das quais partilho: a ausência de contacto profissional humano retira-me (também) as ideias para histórias mais leves. Às vezes olho para o que escrevo e lembro-me da frase que alguém disse ao seu próprio filho: tenho medo de que te estejas a tornar num grande maçador...
Livros. Com um atraso de algumas dezenas de anos, comecei a ler o Guerra e Paz. Quatro volumes quatro, como se diria em linguagem taurina. Perante o riso escarninho de alguns dos meus leitores por esta falha cultural tão abjecta, direi em minha defesa: aguardei todos estes anos por uma tradução directa do russo para a nossa língua pátria. Chega como argumento? Intercalarei com livros que gente generosa me oferta, pelo que levarei o último volume para o lar de terceira idade - aquele que os meus descendentes me escolherem, e que assistirá à minha incontinência, assim como ao fio de saliva que escorrerá pela comissura dos lábios.
Música. Gosto de violoncelo. É talvez o instrumento musical com o som mais triste que conheço, mesmo considerando o som triste do oboé, nas palavras do Eça. Fechem os olhos, oiçam parte do 2º andamento do concerto de Dvorak e elogiem o meu bom gosto - por convicção ou amabilidade. Não preciso de mais nada...
JdB
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