16 novembro 2014

XXXIII Domingo do Temp Comum

@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«Um homem, ao partir de viagem,
chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.
A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,
conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.
O que tinha recebido cinco talentos
fê-los render e ganhou outros cinco.
Do mesmo modo,
o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera um só talento
foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos
e foi ajustar contas com eles.
O que recebera cinco talentos aproximou-se
e apresentou outros cinco, dizendo:
‘Senhor, confiaste-me cinco talentos:
aqui estão outros cinco que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:
‘Senhor, confiaste-me dois talentos:
aqui estão outros dois que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:
‘Senhor, eu sabia que és um homem severo,
que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.
Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.
Aqui tens o que te pertence’.
O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso,
sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;
devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro
e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.
Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.
Porque, a todo aquele que tem,
dar-se-á mais e terá em abundância;
mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.
Aí haverá choro e ranger de dentes’».


Palavra do salvação.

***

Talentos!

Tantas lições nesta chamada “parábola dos talentos”! Os talentos não são propriamente as nossas capacidades; são sobretudo aqueles bens, aqueles dons que o Senhor nos confia para que nós os desenvolvamos, não apenas em nosso proveito, mas em proveito de todos e concretamente da Igreja. As graças de Deus, as graças do seu Espírito, os chamados carismas, são-nos dado exactamente para os fazermos frutificar e render em benefício do conjunto; (...) Deus dá-nos os talentos conforme a nossa capacidade e, se quisermos, segundo a missão específica de cada um, porque isso também é outro nome da vocação.
(...) Todos nós podemos dar um contributo positivo: quer a nível social e caritativo, quer para a presença cristã nas diferentes actividades da sociedade, para a edificação da cidade dos homens.


D. Manuel Clemente in O Evangelho e a Vida (Lucerna, 2013, pg. 297)

15 novembro 2014

Pensamentos impensados

Parlamentos
O porta-voz dos deputados é um primus inter parvos.
 
Galardões
Os amnistiados devem ser condecorados com a Ordem da Liberdade, ou já têm ordem de liberdade?
 
Coevos
Os escritores não são contemporâneos das obras póstumas, mas são-no dos seus escritos.
 
Cartões
A expulsão por acumulação de amarelos não se aplica aos chineses.
 
Discursos
Alguns políticos dizem coisas disparatadas, mas não há motivos para alarves.
 
Relações-ralações
O Partido Comunista Português anda distraído; ainda não relacionou a Legionella com a Legião Portuguesa.
 
Segredo de Polichinelo
O segredo de justiça só existe para poder haver fugas.

SdB (I)

14 novembro 2014

Dos ignorantes educados

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


Por motivos prosaicos e que pouco interessam aos meus leitores, tenho vindo a conversar com técnicos de uma área específica da vida quotidiana. Sento-me ao telefone ou em gabinetes e, depois de ter investigado alguma coisa sobre o assunto, proponho-me ouvir o que esta classe de gente tem a dizer-me. E há gente, acreditem, que tem muito a dizer.

Passe a presunção e a humildade ladeadas numa mesma frase, sou um educado ignorante, sendo que a inversa (ignorante educado) também é verdadeira. Gostaria de ser sempre educado, mas sei que não sou ignorante em tudo. A educação mantém-se, portanto, quer eu fale do que sei, quer eu fale do que não sei. Para efeitos deste texto, ligo a educação com a ignorância. Ora, este casamento é a felicidade, o êxtase, o momento de glória para uma certa gente. Apanham à frente alguém que não sabe e que se dispõe a ouvir e zás!, vem de lá arenga (que é um discurso longo e fastidioso, segundo o dicionário) sobre determinado tema. 

Um destes dias aconteceu-me isso com um cavalheiro educado e prestável com quem fui tratar de minudências no que se trata da salvação das almas. Num instante percebeu quem se sentava defronte e todo ele era sorrisos, jargão técnico, acrónimos esotéricos. Há gente que, sobre temas debatidos à saciedade nos jornais e nas televisões, exauridos e dissecados por analistas competentes, ainda tem um pormenor a acrescentar. Ainda são capazes de dizer frases deste quilate: toda a gente acha que, mas estão enganados... Ou também ainda ninguém percebeu que tal e coisa..

Eu sei muito pouco de tudo. Sobretudo quando me comparo com estas pessoas que, do alto de um estabelecimento com vista para um cruzamento (seja moradia ou gabinete) se permitem achar que mais ninguém sabe, mais ninguém viu, todos são isto ou nenhum é aquilo. Deste profissional em questão ouvi educações e solicitudes durante vinte minutos. Ensinou-me de tudo, falou-me de tudo - sempre afável, como quem dá um bodo aos pobres em forma de plano de negócios. Não mencionou aquilo que me interessava especificamente, mas aquilo que só ele - porque tem treino, experiência, gabinete com portas de vidro espesso - sabia que me interessava. Detentor de sigilos, usufruiu de um educado ignorante como se deglutisse uma vitualha feita com esmero e ternura pelo próprio michelin das estrelas. Eu podia ter-lhe dito o cavalheiro quer ater-se ao que me traz aqui?, mas isso seria uma maldade de cristianismo inexistente. 

O ponto de interrogação já teve melhores dias, a conferir por aqueles tantos que, no remanso da sua actividadezinha, ainda têm a coragem de achar que só eles viram, só eles perceberam, só eles conheceram a verdade - e zás!, ponto de exclamação com eles. Sou a alegria dessa gente - não sei e predisponho-me, educada mas desinteressadamente, a escutar. Talvez me venda, como quem cede o corpo ou comercializa figos ao quilo.

JdB

13 novembro 2014

Do silêncio e da lentidão

Toronto, Outubro de 2014


Dá Tempo à Tua Vocação

Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir, te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações. Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti. E, se a atraiçoas, é a ti que desfiguras. Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente, pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula. O tempo é que desempenha o papel mais importante, porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil. Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas, não se te impõe como a solução de um enigma, mas como um apaziguamento dos litígios e uma cura dos ferimentos. E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado. Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão. Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

***

Publiquei este texto quase no início deste estabelecimento, embora já regressado do Zimbabwe. O silêncio e a lentidão são temas que me interessam, e sobre eles já escrevi. Um dia destes, uma escritora jovem que terá tido um AVC há uns anos mencionou numa entrevista a lentidão com que vive agora. E regozijava-se com esse facto. Esta semana, um amigo com quem converso amiúde lamentava, de alguma forma, a lentidão a que a idade o obriga a pensar as coisas, a fazer as coisas. 

Releio o texto acima. Não conheço o original, só esta tradução. Não sei, por isso, se Saint-Exupéry falou em lentidão, ou apenas em vagar. Lentidão aplica-se-me; vagar aplica-se a todos, creio eu. Aceitar o vagar (ou a lentidão, vá) das circunstâncias já é em si bastante. Acolher o vagar - ou mesmo a lentidão - é uma benção.

Digo eu, que gosto de dizer coisas.

JdB  

12 novembro 2014

Dos adjectivos e das acções

Cataratas do Niagara, Canadá, Outubro de 2014

Emma Woodhouse, handsome, clever, and rich, with a comfortable home and happy disposition, seemed to unite some of the best blessings of existence; and had lived nearly twenty-one years in the world with very little to distress or vex her.

É assim que começa o romance Emma, de Jane Austen. De alguma forma seria assim – obviamente com outros adjectivos que completassem o quadro – que descreveríamos muitos dos nossos amigos: egoísta, generoso, atento, irascível, avaro, orgulhoso, simples, discreto, corajoso, divertido, inteligente.

Obviamente que só poderemos classificar os nossos amigos desta forma depois de os termos vistos em acção. Quando eles nos chegam ao contacto são uma folha em branco – ou uma folha semi-preenchida por terceiros. Nada sabemos deles e aceitarmos o que deles nos dizem está numa dimensão de confiança, ou de credulidade, sempre afectada por uma expectativa. Afinal, cada um vê o que vê, o que para si é importante ou tem mais impacto. Ser-se generoso requer demonstração, a entrega de uma certa evidência; classificar alguém de irascível só é justo se o tivermos visto exercer a sua irascibilidade; só se é corajoso em face de uma situação de risco. Não sabemos o que somos até agirmos.

Imaginemos, então, que nos era pedido para descrevermos um amigo muito próximo. Mas, em vez de usarmos adjectivos – orgulhoso, vaidoso, culto, egocêntrico – estávamos obrigados a referenciar situações. Isto é, não dizer que fulano é generoso, mas que fulano, num determinado dia, prescindiu do seu almoço para dar o dinheiro aos pobres. Não dizer que fulano é inteligente, mas que numa determinada situação – ou continuidade de situações – consegue discernir, encontrar ligações, ver mais além.

Há diferença na abordagem? Há seguramente. Qual é a diferença? Não tenho bem a certeza. Mas fico com a sensação de que é mais justo – ainda que potencialmente mais maçador. Obriga-nos a um exercício de memória que é uma retribuição nos casos positivos: não falar das virtudes com um ar vago mas identificá-las, e ser isso que caracteriza uma pessoa. Nos casos negativos a coisa fia mais fina, e não sei o que dizer... A vida das pessoas é muito mais do que aquilo que elas são. É também, ou sobretudo, o que elas fizeram.

Acabo o texto sem saber se gastei 400 palavras em disparates. Acontece que é tarde, estou a caminho de um jantar (escrevo na 3ªf de noite), estou cansado e deixei o moleskine onde assento ideias na faculdade. Tenham paciência, ou dirijam-se a outro estabelecimento.

JdB

11 novembro 2014

Duas Últimas

Estive no concerto que Jorge Palma deu dia 6 deste mês, no CCB.

Bem acompanhados, diga-se em abono da verdade, eu pela minha querida cara-metade, ele pelos excelentes músicos que com ele tocaram.

A casa estava a abarrotar, o que não admira tratando-se de JP (o mesmo sucede, felizmente, com vários outros músicos cá da terra). Uma rápida vista de olhos pela assistência permitia ver gente muito diferente, em termos etários mas não só. Um artista para plateias vastas e gentes multifacetadas. E ao longe …..  

Gostei, como sempre, eu que já o ouvi ao vivo várias vezes. Do piano ou da guitarra, das letras singulares, da voz rouca nem sempre segura, das piadas monossilábicas, que a capacidade de expressão não é o seu forte, da simplicidade que lhe permite ultrapassar com naturalidade os enganos vários que vão aparecendo.

No final, mais um êxito garantido, executando uma música de Dylan na 3ª encore.

Escolhi duas músicas que JP tocou nesse dia, esperando que as apreciem pelo menos tanto como eu. 


fq







10 novembro 2014

Mistérios dos dias que correm


Onde foi tirada esta fotografia? Não sei, mas arriscaria África. Depois vejo o que me parece um urso pendurado na parede, e admiro o trabalho do taxidermista. Talvez possa ser Rússia, se bem que não tenha a certeza de ser um urso. E se não for talvez possamos regressar a África, onde um casal de emigrantes recompôs a sua vida. 

(Em Lusaca conheci sul-africanos - que me ofereceram um cocktail de uísque e coca-cola, e salsichas de animais não europeus -  que haviam casado com russas. Bem, talvez não tivessem casado, e houvesse apenas uma forte intimidade física, pois o continente negro é propício a essas sensualidades.)

Retomo a fotografia. Um braço alaranjado cortado de forma inestética, uma alcatifa sem nódoas, uma mesa oval com um cesto de flores. O casal terá vindo das suas próprias bodas? Nada sei interpretar do que vejo. Talvez pudesse intuir e, se me dessem liberdade, não pararia e contaria histórias de infidelidades e heroísmos, de crianças bastardas filhas do pecado e do feudalismo, de noites quentes ao som do batuque, do beduíno que vela ao longe (uma frase mais desajustada, mas sempre almoço com um amigo hoje que saberá do que falo).

Acontece que recebi esta fotografia acompanhada de uma carta de que reproduzo parte abaixo. Talvez seja Kuwait, afinal, e desinteresso-me do assunto. Tenho a invocação do santo nome de deus em vão e questiono-me o porquê da fotografia. A internet está cheia de mistérios - sendo que, atentando na qualidade da redacção, deveriam repensar o google tradutor...

JdB 



09 novembro 2014

Dedicação da Basílica de Latrão

Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas
e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo. «Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.

A Igreja de pedras vivas e o sacrifício espiritual

A liturgia da dedicação da basílica de Latrão, primeira catedral da cristandade, sugere a extensão a todos os templos cristãos em todas as dioceses do mundo, as “igrejas particulares”, nas quais está presente a Igreja universal a serviço da qual está posto o bispo de Roma, o Papa.
Ora, ao se observar bem, a liturgia não realça os templos de pedra, os edifícios góticos, barrocos…realça o novo templo “espiritual” que é Cristo Ressuscitado e a comunidade, templo de “pedras vivas”, alicerçada nele (pelo trabalho do apóstolo). E a própria actuação do cristão é o “sacrifício espiritual” do novo culto (2ª leitura, evangelho).
”Espiritual”, nesse contexto, não quer dizer o oposto de material. Quer dizer que é suscitado pelo Espírito de Deus (ou talvez: interpretado à luz do Espírito de Deus). Ora, os frutos do Espírito são coisas bem concretas: amor fraterno, alegria, paz, etc. (Gl 5, 22). O sacrifício espiritual (1Pd 2, 5; Rm 12, 1) implica em coisas bem concretas e materiais: é a própria vida quotidiana do cristão, vivida em amor fraterno eficaz. São esses os sacrifícios oferecidos no templo que somos nós.


Johan Konings, s.j. (2009), Liturgia Dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis. Rio de Janeiro: Vozes ed., 506

08 novembro 2014

Pensamentos impensados

Perenidades
As perpétuas (flores) podem morrer na flor da idade?
 
Pedestrianismo
Andar 60 Km a pé não custa nada; é de graça.
 
Promoções
Leve 1 (murro) pague 2 (dentes).
 
Geograficais
Meti o comando da TV no frigorífico; agora só consigo ver documentários com pinguins.
 
Descart...avel
Eu penso, logo desinfecto.
 
Harpa no Céu
Os políticos dão-nos música; que ninguém diga desta ária não ouvirei.
 
Está v...IVA
IVA incluido à taxa em rigor.
 
 
ATENÇÃO LEITORES
Os Pensamentos Impensados vão ser publicados em livro.
Oportunamente será indicada a data e o local do lançamento.

SdB (I)

06 novembro 2014

Largo da Boa-Hora (republicado)

Encontro, na minha ronda de blogues, versos poderosos: when the tears of a whole generation are assembled / they will only fill a coffeee cup. E depois cruzo-me com este texto do meu querido amigo ATM, publicado neste estabelecimento em 9 de Março de 2009. Muitas coisas fazem então sentido.

JdB

***  

Certos dias, sabe-se lá porquê, quando neste meu banco me deixo, entorpeço a razão e acontece escorrerem lágrimas. Choro.
Primeiro, vejo cair na pedra alva da calçada o tímido gotejar lacrimoso, e depois, num ápice, sigo então espantado o meu pranto que se vai avolumando e derramando para o sumidouro público que a toda a calçada serve.
São catadupas de gotas que, impregnadas de mim, caem para o chão indiferente, o qual, não distinguindo as lágrimas da alma do que é chuva dos céus, me protege e acolhe, recolhendo todas no mesmo anonimato da sarjeta, que é vala comum do temporal que vai passando, seja ele humano ou da natureza.
Nestes momentos, o limite da minha auto-repressão é um colocar de mão sobre os olhos, apenas com medo que a possível devassa alheia que possa pressentir, me coíba de ir até ao fim, até ao soluçar, que é o sinal de estar então de facto a chorar, e não a controlar a expressão de mim que tem vontade e direito de acontecer.
Com essas mãos, escondo-me com medo que a vista dos outros me impeça de chorar, por meu pudor ou vergonha, e não porque lute contra esse avassalar de emoções que as lágrimas, magistralmente, unificam e glorificam.
A lágrima é a manifestação maior, mais completa, mais perfeita da sensibilidade humana. A lágrima distingue o ser humano de qualquer outra criação, é a máxima expressão da alma, da essência do ser, do sopro da vida.
No mesmo sentido, o chorar também é um acto de humildade, de reconhecimento da fragilidade e impotência de cada um para o imenso oceano que é a vida, os seus mistérios e voltas.
Chora-se por desgosto, tristeza, infelicidade, incompreensão, vergonha, medo, saudade, frustração, injustiça, raiva, piedade, emoção e até alegria, e por tantas outras razões extremas. Mas, todas estas causas concorrem e despoletam um mesmo processo que vai gerar esse acontecimento singular e único do ser humano.
Na sua modalidade mais extrema e, por isso, mais discreta, silenciosa e oculta, existe o mais pungente dos prantos, que é o dos vencidos da vida, aqueles a quem a desgraça do presente não é sequer mitigada pela esperança do amanhã, e que se limitam a cumprir um calendário de existência coincidente com o tempo de sobrevivência, a qual os próprios, aliás, já não querem.
Na verdade, qualquer daquelas causas, no momento e circunstâncias particulares de cada um, vai esbatendo, esgotando, exaurindo os sistemas de autocontrolo, disfarce, contenção, educação, circunstância, conveniência e demais auto-reguladores, vencendo cada um, até que ganha a emocionalidade e a lágrima acontece.
O choro é, pois, o resultado da acção da emoção/comoção sobre os mecanismos de autocontrolo, de apresentação e representação públicas, que ensinam à repressão, à contenção, à discrição.
Mas, em todos os casos, trata-se sempre de uma vitória do humano sobre a convenção e, por isso, merece o maior respeito e carinho.
Efectivamente, cada lágrima vertida é uma revelação da pessoa humana, é uma vitória da essência sobre a imagem, é uma confissão da condição humana, é um reconhecimento da limitação, é uma nudez.
Com as variações próprias das sensibilidades de cada um, todos fomos mecanizados para criar um dique às emoções que nos contenha as lágrimas que teimam em ser. Quando elas extravasam é sinal que o rio corre, a verdade acontece, o ser humano é livre e foi devolvido à sua condição sensível, permeável aos sentidos e sentimentos, vulnerável a si e aos outros, ao passado, presente e futuro. Isto é, autêntico.
Cada lágrima é um resgate, cada pranto uma salvação.
Há muito que aprendi a lidar com o meu direito ao choro e, por isso, o intróito desta crónica, que pode ter espantado dado eu ser alegre e optimista, esperançoso e “forte”. Mas é precisamente por isso tudo que choro, sem medos e sem vergonha, quando tenho saudades do imenso perdido, ou medo do imenso que posso perder.
Choro no exercício pleno do meu direito a ser filho, irmão, marido, pai, tio, amigo; choro quando tanto depende de tão pouco, e quando já perdi ou perigo tanto por tão pouco.
Agora, se consegui aceitação para a naturalidade da lágrima, sofrida e dorida, vertida pela causa que for, sem mistérios, receios ou vergonhas, queria sair do isolamento do “eu” para o campo relacional, deixando o meu modo de ver as coisas.
Tenho por mim que na vida, entre outros, há uma tristeza capital e um pecado capital.
A tristeza capital é não se chorar sozinho por opção, por vontade própria. Ou seja, não ter quem nos colha as lágrimas no ombro e afago, numa das partilhas maiores que é o consolo. Pobre não é quem nada tem de material. Pobre é quem não tem consolo para o seu pranto, um ombro, um abraço, um afago, uma ternura. A maior e verdadeira solidão não é estar só, é chorar só.
O pecado capital é não merecer, não recolher com desvelo, carinho e consolo a lágrima que alguém nos confiou. O mais rico não é quem tem muitos bens, é aquele que foi eleito para lhe confiarem as suas lágrimas.

ATM

05 novembro 2014

Diário de uma astróloga – [90] – 5 de Novembro de 2014

Marte e Plutão – guerra, violência, agressão

Os dois regentes de Escorpião, Marte e Plutão, estão neste momento muito perto um do outro no céu.
Não é um acontecimento astronómico invulgar; estes dois planetas encontram-se no céu cada dois anos, uma vez que Marte tem uma órbita de 687 dias e Plutão uma órbita longuíssima de 248 anos.

A data exacta da presente conjunção para Lisboa é 10 de Novembro, mas os seus efeitos fazem-se sentir alguns dias antes e alguns dias depois. Durante duas semanas todos nós sentimos a energia conjunta dos planetas associados com agressão, guerra, acidentes, precipitação, violência, fogos, terroristas, bombas, raiva, ódio.

Esta conjunção ocorre no signo de Capricórnio, aliás como as três últimas de Dezembro de 2008 e 2010, e a de 27 Novembro de 2012. Esta última, a 8 graus de Capricórnio, foi bastante tensa porque a quadratura a Úrano aumentava a pressão.

Uma breve resenha pelas notícias dos 10 dias à volta da data da conjunção Marte Plutão de 2012, mostra a seguinte lista de acidentes:
·       112 pessoas morreram um incêndio numa fábrica de roupas em Dhaka, Bangladesh
·       32 pessoas mortas num acidente de avião de carga no Congo
·       16 pessoas mortas e 44 ficaram feridas depois festa de casamento quando o autocarro se despenha num desfiladeiro na Índia
·       8 pessoas mortas e 36 feridos num acidente de viação na Bolívia
·       2 pessoas mortas e 120 feridas num choque de 100 veículos provocado por um denso nevoeiro no Texas

Os horrores provocados por bombas também estiveram nas páginas dos jornais:
·       28 feridos em Tel Aviv
·       37 mortes e 92 feridos no Paquistão
·       11 mortes e 30 feridos numa igreja protestante na Nigéria
·       54 pessoas morrem e 120 ficam feridas pela explosão de dois carros-bomba em Damasco, Síria
·       30 mortes e 100 feridos em Hilla e Karbala, no Iraque


Lamento informar que as tensões provocadas por Úrano mantêm-se na presente conjunção, à qual se adiciona a presença da Lua, o que ainda agrava (emocionalmente) o quadro.



Em termos mundiais, pouco ou nada podemos fazer, mas em termos pessoais, a astrologia dá-nos algumas opções.

Em primeiro lugar é preciso notar que nem todos somos afectados igualmente. Quem tem o Sol, a Lua ou a Ascendente nos 10 a 13 graus de Capricórnio, Carneiro, Caranguejo e Balança vai sentir estas energias mais visceralmente. Falo por experiência própria porque tenho o meu Ascendente a 12 graus de Capricórnio. Este grupo de pessoas já deve ter experienciado a capacidade destruidora e regeneradora que Plutão por trânsito. É um trânsito que dura anos, por isso devem estar habituados. O que muda nestas duas semanas é Marte a aproximar-se. Pelo lado que me toca, tenho sentido um crescendo de agressividade e de irritação.

São semanas de grande energia que podem criar situações explosivas  (incluindo acidentes) ou trazer contrapartidas positivas. Entender astrologicamente o que se passa, não nos torna imunes às influências planetárias, mas pelo menos, põe-nos de pré-aviso. A astrologia não prevê tão bem como previne.

Conselhos para todos para os dias que se aproximam:
·  Não se colocar em situações extremas que possam degenerar em acidentes.
·  Redobrado cuidado na cozinha onde há facas (utensílio ligado a Marte), fogo (elemento ligado a Marte), gás que pode provocar explosões (Plutão).
·  Se possível, adiar reparações com berbequins, martelos e outros instrumentos contundentes.
·  E, sobretudo, estar alerta para situações explosivas no ambiente familiar e profissional. Quando um sentimento de raiva sobe ao nível da consciência, quando numa discussão se empregam palavras violentas, quando gestos traduzem agressividade latente…. parar, respirar fundo, contar até 10 e visualizar uma paisagem idílica antes de prosseguir.

Como não podemos fugir das energias que nos afectam, temos que as utilizar de forma positiva.  É uma excelente época para dar largas à energia física e ir correr, treinar uma maratona no mínimo, dar uns murros num saco de boxe no ginásio, rachar lenha, cavar até à exaustão, sem esquecer actividades sexuais vigorosas (apropriadas à idade naturalmente).

Se quiser dar uma contribuição positiva ao mundo, tem energia para lutar (Marte) contra os opressores (Plutão) institucionais (Capricórnio). 

Já me sinto bastante agressiva, vou a uma manifestação anti banca!


Luiza Azancot

04 novembro 2014

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há treze anos. Os versos que vamos arrumando como nos apetece continuam a ser teus, exclusivamente teus.

Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-m'um pouco do que é seu
Deu-m'uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é um dos anjos do Céu




Nos últimos tempos muitas pessoas falaram de ti, pese embora nunca te tivessem visto nem soubessem da tua existência. Foi aquela mãe colombiana que teme pela saúde da filha que piorou passados dez anos. Foi a outra mãe, que eu já conhecia, que falou do filho que partiu há alguns anos, ou a espanhola que não sorri mas cujo filho é um sobrevivente antigo. Foi a médica que falou do drama das crianças da Etiópia, da esperança que surge com o que se faz por lá. Foi o investigador que mencionou os tratamentos inovadores, algumas estatísticas que não melhoram, a maior qualidade de vida. Foi ainda aquela rapariga portuguesa, sorridente na sua saúde, que referiu os maus momentos por que passou, o coração de hoje mais atento a tudo. Foi a mãe que falou comovida do filho que ela viu morrer duas vezes mas que lutou e ganhou. Foram as professoras que falaram das brincadeiras, dos chapéus pintados que tapam as carecas que são a marca evidente da doença. Foi a psicóloga que falou na montanha russa dos pais, nos momentos de sufoco, nos dias zero de cada instante.

Toda esta gente - e alguém há-de perdoar-me a ousadia e a presunção - olhou fixamente para mim para me falar de ti e no que albergas na eternidade onde vives: o sufoco, a partida, a esperança, o riso, os barretes coloridos, o sentido das coisas, a fé, o desalento, a certeza, o espanto, a injustiça da vida, o olhar que se demora no horizonte onde tudo se realiza. Estás presente em cada filme, em cada gráfico, em cada palavra, em cada referência, em cada soluço discreto ou lágrima evidente, em cada criança que sorri, que sorri, que sorri. Estás presente na luz dos dias mansos, na certeza da imortalidade, no colo infinito de Nossa Senhora, na nostalgia das lembranças, na agitação dos dias saudosos. Estás presente como ponto de união nas diferenças, como mão pacificadora nas palavras agrestes, como elemento que junta o que já foi uno. Estás presente como pó do Amor que tudo redime e tudo salva.

Foi hoje, mas há treze anos. Continuas a ser tudo em cada um de nós.

JdB, em nome de todos os outros que sabes quem são.

03 novembro 2014

Vai um gin do Peter’s?

Segue agora o penúltimo gin da série de casas e construções interessantes espalhadas pelo país, que se descobrem nos recantos mais imprevistos.
Como um segredo bem escondido, estes solares, pavilhões, mosteiros, etc. sobressaem pela traça arquitectónica marcante, cheia de personalidade, embora q.b. degradada por continuarem devolutos. Talvez um destes dias a situação se inverta e voltem aos bons velhos tempos, quando eram habitados e devidamente cuidados.

CONVENTO DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO – Monchique

Imagem encontrada em http://olhares.sapo.pt/GabrielClemente

Foi fundado uma década antes da Restauração, em 1631, por Pero da Silva, quando Monchique era um povoado importante, na província mais meridional do país. Nesse tempo, o litoral pouco contava, à parte das zonas portuárias e piscatórias. Estávamos longe do turismo de praia, que só a partir da década de 70 do século XX tornou conhecidos os encantos da costa algarvia.

PALÁCIO DO REI DO LIXO – Barreiro


Com uma traça enigmática, como que saída de um conto de Edgar Allan Poe, a casa de Manuel Martins Gomes Júnior teve várias alcunhas, todas elas mordazes: Palácio do Rei do Lixo, Torre do Inferno ou Palácio da Bruxa.
Altiva e invulgar, parece querer ostentar a grandiosidade da fortuna do comerciante de Sto.António da Charneca, que fez fortuna a gerir a recolha de lixo na cidade de Lisboa. Começara por comprar a quinta ao irmão do intendente de D.Maria I – Diogo Inácio Pina Manique, ainda no século XIX. Em 1910, mandou construir este casarão com uma torre muito esguia ao centro. Dizia-se que assim conseguia avistar a sua outra propriedade, em Alcácer do Sal. O facto é que se destaca na paisagem junto à EN10, em Coina.

HOTEL MONTE PALACE – Açores

Foi o primeiro hotel de 5 estrelas de S.Miguel, estrategicamente localizado nas Sete Cidades. Apesar da sua qualidade arquitectónica e de estar tão bem inserido na paisagem lindíssima e verdejante da ilha, pontuada por caramanchões de hortênsias azuis, teve vida curta: entre 1989 e 1991.

PAVILHÕES DO PARQUE DE D.CARLOS – Caldas da Rainha


Foram edificados em 1889 para apoio às termas, mas nunca cumpriram essa função, tendo antes albergado serviços públicos diferentes, ao longo dos anos. Começou por ser um quartel militar. Depois uma esquadra da polícia. Mais, recentemente, uma escola secundária, até ficar ao abandono.

PAVILHÃO CARLOS LOPES – Lisboa


Foi inaugurado, em 1932, para a Exposição Industrial Portuguesa, na pequena colina situada na periferia do Parque Eduardo VII. A partir de 1946, o pavilhão foi adaptado para acolher eventos desportivos. Em 1984, tomou a designação do maratonista português Carlos Lopes. Em 2003, foi encerrado aguardando-se a decisão camarária para uma próxima utilização.

QUINTA DO DUQUE – Vila Franca de Xira


Situado em Alpriat, vai buscar o nome aos Duques de Lafões, antigos proprietários daquela propriedade rural. O edifício principal, no tom rosa palácio característico dos solares do sul da Europa, que mais se assemelha à tonalidade salmão, foi das primeiras construções portuguesas de estilo neoclássico.

PALÁCIO DE FARROBO - Vila Franca de Xira


Imagem do site: www.skyscrapercity.com 

Datado do século XIX, o Palácio pertenceu ao 1º conde de Farrobo, de onde toma o nome. Além da parte habitacional, inclui ainda um pequeno teatro, onde actuaram companhias de ópera italianas. Um melómano convicto, o conde organizava concertos, teatros e óperas, que acolhia nas suas casas de Lisboa (Palácio das Laranjeiras) e de Vila Franca, onde se orgulhava de ter pequenos auditórios preparados para a realização destes espectáculos.

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

02 novembro 2014

Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 11, 25-30)

Naquele tempo, Jesus exclamou:
«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Tudo Me foi dado por meu Pai.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

***

Ensina-nos a contar os nossos dias
O pensamento da morte não é um espantalho, mas uma luz que nos ajuda a fazer escolhas justas e sensatas na vida. A primeira leitura descreve o destino último do homem mediante a imagem de um banquete preparado por Deus para todos os povos. Se a morte assinala a entrada numa festa, não pode ser temida, deve ser esperada. Da boca e do coração de cada cristãos deveria sair a exclamação de Paulo: “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Desejo partir para estar com Cristo” (Fl 1, 21.23).
A segunda leitura responde a outra pergunta angustiante: haverá lugar também para mim no banquete do reino de Deus ou serrei excluído por causa dos meus pecados? Responde Paulo: a nossa esperança não se baseia nas nossas obras, mas no amor incondicional de Deus que nos amou e entregou o seu Filho à morte quando nós éramos ainda seus inimigos. O Evangelho mostra como o Pai formalizou o seu projecto de amor através de Cristo.


Fernando Armellini (2000), Banquete da Palavra, 175ss.

01 novembro 2014

Pensamentos impensados

Ai a tola
Bill Clinton tem a cabeça encanecida (canta Marceneiro).
Já a sua mulher tem a cabeça escarnecida.
 
Turismos
Agência de viagens propõe uma visita ao Mar Morto para ver as marés vivas.
 
Hora legal
Penso que as Bodas de Caná terão tido lugar no último Sábado de Outubro.
A um pedido de Sua Mãe, Jesus Cristo respondeu: Mulher, ainda não chegou a Minha hora.
Já tinha atrasado o relógio.
 
Para não ser enganado
Um olho na bunda e outro na cigana.
 
Deslocações
Os professores têm sido colocados por desordem analfabética.
 
Nem fogo nem fumo
Nas Fossas Marianas, felizmente, não há fogos; é uma região de difícil acesso.
 
Desporto?
Em Barcelos, na pancada, houve cenas de bancada.

SdB (I)

31 outubro 2014

Da morte



Penso ter ouvido esta ideia (e não as palavras) da boca do próprio, numa entrevista televisiva fascinante de lucidez e clareza. Aquando do velório de Salazar, Adriano Moreira terá visto uma mosca pousar na boca do finado. E pensou: foi um homem que governou um império com mão de ferro, decidiu da vida de milhões de pessoas, imprimiu uma marca fortíssima na sociedade do seu tempo. E mesmo assim, na altura da morte, uma mosca pousa-lhe na boca, como pousaria a outra pessoa qualquer.

Sábado, ainda em Toronto, recebemos um telefonema: morreu fulano. Este fulano (83 anos) era capitão de mar e guerra na reserva; tinha tido um papel importante na fundação dos fuzileiros, fora preso e maltratado aquando da invasão da Índia, combatera a guerra colonial em África. Apesar de uma vida de risco morreu na EN 125,  atropelado por um idoso que afirma ter ficado encadeado pelo sol. Atravessara a estrada para ir comprar laranjas.

Qual a relação entre os dois parágrafos anteriores? Não sei bem, ao certo. Uma certa ironia, ou talvez o lugar-comum que podemos alcandorar a um pensamento mais elevado, de achar que por alturas da morte somos todos iguais, independentemente do que fizemos (segundo critérios mais humanos). Talvez seja uma forma de nos apresentarmos por igual a Deus, despidos do discernimento terreno com que diferenciamos heróis, ditadores, gente de vidas arriscadas ou de existências pacatas, administradores de multinacionais ou caixas do feira nova. Quando nos entregamos ao Criador vamos numa espécie de nudez total, com uma mosca a zumbir-nos na boca seca ou encostados a uma valeta com um saco de laranjas desmanchadas, com uns sapatos novos ou um vestido esgarçado, com um terço enroscado nos dedos ou na pobreza de um caixão barato.

Talvez a  mosca e o atropelamento sejam metáforas para este despojamento com que chegamos ao Céu. Somos todos matéria inerte infinitamente igual, sem um passado que possamos arvorar por vaidade ou defesa. É então que Deus, esquecido das medalhas, das honras de Estado, das capelas mortuárias vazias, dos funerais desertos de gente chorosa, dá início a uma espécie de juízo final que se repete a todo o momento. E acolhe todos, porque não é senão Amor.

JdB   

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