12 maio 2015

Duas Últimas

Se me pedissem para classificar o youtube que vos ofereço, mas exigissem que o fizesse apenas numa única palavra, eu diria: é tudo óptimo. Sim, sim, eu sei que era numa palavra apenas, mas eu quero lá saber de regras no meu estabelecimento...

Mão amiga apresentou-me a música e eu, caninamente agradecido, reencaminho-a para deleite dos meus fiéis - surpreendentemente fiéis - amigos. Ponto alto? Aos 0'58'', 1'58'' e 2'58'' as vocalistas - giras, gingonas, divertidas - dizem, mesmo sabendo eu que a frase é proferida por uma mulher referindo-se a si própria: my mama she told me: 'don't worry about your size'. Oh p'ra mim a pensar no mesmo...

Oiçam alto, vejam bem, abanem o corpo e a alma, sacudam preocupações e angústias. Sobretudo divirtam-se. Numa palavra apenas, é tudo óptimo. 

JdB

11 maio 2015

Da ideia de felicidade e bem-estar

Tivesse-nos dado Deus uns olhos diferentes e todo o mundo seria também diferente. A diferença não era uns olhos mais resistentes, sobre os quais não se pudesse dizer vista vazada; a diferença também não era um colorido diferente e ao jeito da estética, adaptado ao lenço do blazer ou à cor da blusa, como se tudo no nosso corpo e roupas adjacentes fosse um permanente ton-sur-ton. A diferença era, apenas, um olhar mais penetrante. Apenas isso.

Eu explico melhor, mesmo sabendo que tanto faz, pois às vezes a explicação é um fosso (um fenómeno muito vulgar em relações humanas) ou uma inutilidade. Mas avanço mesmo assim, arrogando-me da propriedade do estabelecimento. Apesar da minha idade, sou um velho. A frase, desinteressante, podia tê-la dito há dez anos; ou mesmo há vinte ou, quem sabe, há quarenta. Talvez tenha sido sempre um idoso de espírito, que o corpo ainda se mantém civilizado q.b. 

Sábado fui a um jantar, e ao fim de 30 minutos era eu - um velho. Mais precisamente a uma festa, onde estariam cerca de 400 comensais. Tomámos os nossos lugares e eu senti uma batida persistente no peito. Não sendo excesso de emoção, não sendo arritmia cardíaca, não sendo um amigo maçador a querer a minha atenção para uma anedota, o que poderia ser? Percebi rapidamente - era a música. Uma batida electrónica, feita seguramente por um bêbado que, após ter criado a primeira frase no computador, caiu de borco sobre a tecla repeat.  Assim durante trinta minutos, o meu coração bateu a descompasso, enquanto ao longe se perfilava uma fila para os frios - um bufete, outra coisa de que não sou apreciador.

Na sua dimensão mais corriqueira, há uma ideia erradamente certa de bem-estar e de alegria humanas. Imaginando nós uma receita - tipo alegria à morra dantas morra pim -  há ingredientes que teriam lugar cativo, e o ruído é um deles. As pessoas casam e, durante o almoço ou jantar, a música persegue-nos numa dimensão invasiva, impedindo conversas ao diâmetro da mesa; vamos a uma loja e queremos fugir, porque o volume do som violenta tudo. Etc., etc., etc. Em qualquer lugar onde vamos tem de haver ruído, som, música. O silêncio é sinal de tristeza, melancolia, solidão, depressão e seus derivados. Quem vive com som em casa é sempre feliz. Quem ouve música alegre é sempre alegre, quem ouve música triste (entremeada de silêncios) é sempre triste.

Outro sintoma de felicidade e bem-estar é a dança. Um corpo dançarino é o paradigma mais evidente de uma mente que sorri. Agitação é bom, muito bom. Uma mulher que dança sozinha (sim, porque aqui, ao contrário do Zimbabwe, os homens dançam pouco, menos ainda sozinhos) é sempre uma mulher, mais do que em paz, em êxtase com a existência. Uma pessoa que não dança é uma pessoa triste, a quem a alma castiga com lágrimas e suspiros de dor. Por isso, gente que não gosta de ruído (ou mesmo de música em permanência) e não se agita freneticamente pela pista deveria ter benefícios fiscais, protecção do sistema nacional de saúde, prerrogativas de novenas de oração.

O mundo moderno é feito por seres detentores de uma mente para a qual se deve olhar com atenção - e preocupação. Tivessem eles uns olhos diferentes - lá está, mais penetrantes - , e perceberiam que a música nem sempre é benéfica. Por vezes só serve para disfarçar ventosidades.

JdB        

10 maio 2015

VI Domingo da Páscoa

EVANGELHO (Jo 15, 9-17)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

***

O ciclo do Amor

Nós, muitas vezes, na apresentação das coisas cristãs, caímos naquilo a que agora se chama moralismo. Com certeza que é preciso moral, isto é, ter bons costumes e costumes cristãos. Aliás, é até uma questão de consequência: sermos consequentes com a nossa fé, levá-la à prática, porque essa prática diz da fé que temos ou não temos…E temos, com certeza. Mas não basta termos diante de nós o ideal perfeitíssimo que é Jesus Cristo e depois, de vez em quando, nos nossos melhores momentos, termos aspirações a nos transformarmos, para sermos mais como Ele… não bastam só arranques de vontade; se o coração não arranca também, é muito complicado aproximarmo-nos de Jesus Cristo!
Por isso é tão importante esta passagem do Evangelho de São João – e outras similares – em que Jesus revela que o amor de Deus é a raiz de tudo e é a verdade da nossa vida. É na medida em que nós apreendemos, absorvemos e depois permanecemos no Amor de Deus que o amor acontece também na nossa vida. «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei». É este, digamos, o ciclo inteiro de como o Amor pode e deve acontecer na nossa vida.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 125

09 maio 2015

Pensamentos Impensados

Mezinhas
Pensava que o melhor tratamento para as aftas era o afta save.

Provações
Para comentar sou confrontado com prove que não é um robô.
Para Ricardo Salgado será prove que não roubou.

Mais aborto
Como não acreditasse, visitei um campo de nudistas.
Há nudistas, de fato.

Fundações
Era um casal de portugueses tão célebre, que deu o nome a um estado dos Estados Unidos: Luis e Ana.

Ementa grega
Tsipras à moda do Porto e Syrisa no topo do bolo.
Atenção! ele há bolo podre.

Temores
2 mortos e 7 esfaqueados na Escala de Rixa.

Patos mansos
No Japão, há templos com centenas de anos, em madeira. E estão ali de pedra e cal..

Galináceos
S. Pedro pensou: se eu não tivesse negado conhecer Jesus, outro galo cantaria.

SdB (I)

07 maio 2015

lisboa, depois de ti

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

escuto uma música concreta, algures na mesma cidade onde respiras. 
as fotos são folhas mortas, caídas do tempo, das gavetas onde te arrumei, 
entreabertas, de tão atulhadas de substâncias tóxicas.  
respiro e partilho, provavelmente, o mesmo ar que de que te alimentas, 
entre cafés e fatias milimétricas de queijos exóticos e de pão acabado de cozer 
naqueles fornos a lenha que desencantavas perante os meus olhos, 
como um mágico e os seus misteriosos milagres espanta as crianças. 
era agosto, cheirava a verão e a alfazema e a tua pele tisnada
era o mais próximo  que alguma vez estive do sol, do coração do mundo. 
em setembro, quando me disseste que ias ver outras galáxias, 
senti a exacta dor de mil agulhas a perfurarem-me, de dentro para fora, 
essa dor única que só a morte e o coração quebrado sabem.
foi um verão de amor ou um amor de verão, pergunto-me tantas vezes, 
enquanto caminho sob as acácias, os choupos, os diospireiros,
pequenos resquícios de humanidade que resistem ao betão, 
tal como aquelas frágeis ervas que irrompem do asfalto.
tantos anos depois, ainda acredito em milagres. por exemplo, 
que um dia vou acordar e estarás, como dantes, deitada ao meu lado
e no silêncio da madrugada tecerei com saliva um vestido só teu 
e as lágrimas que hoje movem os meus dedos serão, então, 
uma renascida máquina de alegria, um colar feito do melhor de mim, 
uma homenagem aos deuses que me te concederam,
nem que seja apenas a memória da memória de ti.


escuto uma música concreta, algures na mesma cidade onde respiras.

gi.

06 maio 2015

Das pedrinhas para regressar a casa

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

No conto dos irmãos Grimm, Hansel e Gretel são votados ao abandono numa floresta. Encontram o caminho de regresso a casa graças às pedrinhas que o rapaz deixa pelo caminho. Vítimas da mesma maldade da madrasta, e já não podendo socorrer-se do estratagema das pedrinhas, recorrem a migalhas de pão, só que neste caso os pássaros comem tudo... Por trás da história, que acaba bem, realço dois pontos de interesse (digo eu, que nunca me debrucei sobre o tema) - a maldade de uma mulher, cujo estereótipo contaminou o conceito de madrasta até aos nossos dias; e, acima de tudo, o desejo de regresso a casa.

Afastemo-nos do conceito de "regresso a casa" no sentido mais literal isto é, o regresso depois de uma viagem de lazer, após um internamento hospitalar, no decurso de uma jornada longa de trabalho. Assumamos o regresso a casa como o retorno à segurança, às memórias felizes, ao conforto da alma. Uma espécie - na visão de Roland Barthes - da sala de comando do capitão Nemo ou da tenda que cada um de nós fez com os lençóis da sua cama, porque ambos, mais do que sinal de poder ou fantasia, representam a segurança. A segurança, apenas. Regresso a casa no sentido metafórico, portanto.

Como regressamos a casa? O que são as pedrinhas que Hansel colocou na floresta? E talvez, mais importante ainda, o que é a nossa casa?

                                                                  ***

Fulano é um optimista e um positivo. As conversas rodam em volta de tudo o que lhe traz felicidade, mas também rodam em volta de tudo o que o magoou, e que ele transformou em ensinamento feliz. E rodam ainda em torno do que é bom nos outros, nas qualidades que ele vê nos outros, nos elogios que ele faz aos outros, como se quisesse que todos estivéssemos irmanados na mesma luz. Beltrano fala das dores, dos sofrimentos, dos episódios negros, da cruz em cima da qual ele quis ver o mundo - ou em cima da qual ele quis que o mundo o visse a ele. Fala ainda das dores dos outros, sobre as quais lança um olhar presente. Sicrano atenta no sinal menos do próximo. Sabe uma história jocosa ou eivada de incompetência sobre todos os nomes que lhe referem; é conhecedor de um podre, de uma pequenina galhofa, de uma queda na rua que impossibilitou uma promoção ou de uma suspeita de um cheque depositado um módico de tempo após o permitido, de um romance onde há três.

Nenhum dos fulano, beltrano e sicrano é só isto, porque não somos apenas algo, mas também o oposto de algo ou o complemento de algo. Outros terão olhares semelhantes - sobre os nomes das pessoas, como se fossem um roteiro para a história do mundo, sobre os sucessos próprios, como se fosse um guião para a felicidade impante. Mas isto - os sinais menos ou mais, as cruzes próprias, os nomes - são a mancha que vemos quando analisamos os Hansel e Gretel que povoam a nossa vida. São o caminho dominante que cada um escolhe para fugir da floresta e regressar a casa, o que quer que isso signifique, porque as conversas persistentes são a bússola para os terrenos sombrios ou desconfortáveis. 

Há a floresta na qual as pessoas foram abandonadas; há as pedrinhas que lhes permitem regressar a casa. Perceber a diferença entre um e outro é saber muito sobre as pessoas. Perceber este meu texto é, para além de uma grande interrogação, um exercício confuso.

JdB
      

05 maio 2015

Duas Últimas *

* De novo uma sugestão filial a salvar um pai desinspirado



Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
No teu penoso altar particular
Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal
E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós
Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós
Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser
Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faço melhor do que lhe parecer
Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor
Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor…( BIS)

04 maio 2015

Vai um gin do Peter’s?

Há momentos na vida dos povos que são pontos de viragem radical, em que nada fica como dantes. Compreensivelmente, as catástrofes costumam produzir esses sobressaltos no regular curso dos acontecimentos, como estamos a assistir com o tremor de terra no Nepal.

Assim aconteceu também em Lisboa, onde até a hora de começo de uma calamidade natural entrou para a História: às 9h30 da manhã de 1 de Novembro de 1755, a capital do Império – conhecida na Europa como a cidade do ouro, tal a sua magnificência – estremecia com a violência de um terramoto com uma magnitude próxima dos máximos – 8,50 na escala de Richter. Era, depois, submergida por um tsunami e ainda devorada por um incêndio que a consumiu durante dias. Uma sequência de desastres sem precedentes, que um canal norte-americano simulou numa curta-metragem com link postado adiante.

Localização provável do epicentro do terramoto e maremoto de 1755,
que atingiu sobretudo o Algarve, Setúbal, Lisboa, o sul de Espanha e Marrocos,
embora os efeitos tenham chegado, pelo Atlântico, à Madeira e aos Açores,
ao norte da Europa e a locais longínquos, como Antígua, Martinica e Barbados. 

Toda a Europa bem pensante ficou chocada com o desmoronamento quase instantâneo de uma construção humana magnífica, como era Lisboa, no more a city of gold. A impotência humana ficou a nu, ensombrando o optimismo do Século das Luzes. Os principais filósofos iluministas reconhecer limites que até ali tinham desvalorizado, confortavelmente. Kant dedica páginas a este fenómeno perturbador desenvolvendo, a partir da hecatombe, o conceito de sublime, além de várias teorizações geográficas. Para Voltaire este foi um momento de verdade. Em Dezembro de 1755 discorre sobre o tema, refutando as certezas de Leibniz e de Alexander Pope, e colocando a personagem Candice a passear nos escombros de Lisboa e a rever a sua premissa de vida sobre o melhor dos mundos. Num dos versos do seu «Poème sur le desastre de Lisbonne», declara: «Je suis comme un docteur ; hélas ! je ne sais rien.». Filósofos contemporâneos consideram, inclusive, que a certeza fundadora do ideário de Descartes conheceu, aqui, as primeiras brechas. 

O Núncio acreditado em Lisboa – D. Filippo Acciaiuoli – verbaliza de forma muito expressiva o alcance da tragédia, nas cartas semanais que dirige ao Papa, a partir de 4 de Novembro: «o terrível terramoto da cidade que foi Lisboa» (1).


Por calhar num feriado, a família real teve a sorte de ser poupada, encontrando-se fora da cidade, nos seus domínios de Belém, enquanto a sua luxuosa residência no Palácio da Ribeira, situada no Terreiro do Paço e decorada com telas de Rubens, Ticiano e Correggio, era desfeita pelas vagas gigantescas e, mais tarde, pelo fogo. Só a biblioteca real contava 70 mil volumes, o que era um assinalável para a época, possuindo incunábulos inéditos. As lareiras nas casas e a imensidão de velas que resplandeciam nas Igrejas, para festejar o Dia de Todos-os-Santos, propagaram acidentalmente as chamas. O grande hospital de Lisboa, chamado de Todos-Os-Santos, como o próprio dia, ardeu como uma tocha.


Curiosamente, logo a 2 de Novembro, no dia de Fiéis Defuntos, nascia no próspero palácio imperial de Viena, a filha mais nova da poderosa Imperatriz Maria Teresa de Áustria – Maria Antonieta, futura rainha de França, marcada por inúmeras adversidades ao longo da vida, até acabar na guilhotina, no auge da Revolução Francesa. Segunda curiosidade, que associa de modo directo Maria Antonieta à Casa Real portuguesa: os seus padrinhos de baptismo eram os tios D.José I (Habsburgo pelo lado materno) e D.Mariana Vitória, que tiveram de se fazer representar na cerimónia.

As perdas foram imensas: em vidas contabilizam-se cerca de 90.000, só em Lisboa; a nível material, cerca de 85% da construção lisboeta ruiu, entre estabelecimentos, quartéis, hospitais, monumentos, património artístico riquíssimo, a recém inaugurada Casa da Ópera, o valioso Arquivo Real que guardava documentos náuticos únicos e outras preciosidades. Até o túmulo de uma das figuras maiores da portugalidade desapareceu: o Santo Condestável, depositado no Carmo. Apenas subsistiram o pórtico manuelino e o travejamento das naves do Convento, conferindo-lhe um aspecto misterioso e romântico, que fascina os turistas. À imagem do Carmo, Lisboa ficou reduzida à expressão mais simples, o que significou uma dor indizível, na altura.

O ciclo de provação e luto, iniciado naquela manhã fatídica, não se ficou pela devastação de 1 de Novembro. Somaram-se, depois, as réplicas nos meses seguintes, as doenças, as pilhagens e uma política especialmente autoritária e persecutória com julgamentos sumários cheios de irregularidades, a culminar em pena capital. Os casos mais emblemáticos foram o Processo dos Távoras (após um nebuloso atentado contra o rei pelo Duque de Aveiro em que tudo indica pretender atingir-se o Marquês, e não o monarca, forçando-se depois o envolvimento do poderoso clã Távora, que se opunha ao primeiro-ministro), a 13 de Janeiro de 1759, e o enforcamento do padre jesuíta italiano Malagrida, a 21 de Setembro de 1761. Isto já para não nos determos nas consequências da nova estratégia educativa de cariz elitista, introduzida pelo Marquês, aplicando as teorias pedagógicas do médico e cientista Ribeiro Sanches (1699-1783), que recomendava que a educação fosse um privilégio exclusivo de uma minoria aristocrata, para garantir a centralidade do poder. Por azar, os estudantes do recém-criado Colégio dos Nobres não estavam dispostos a estudar, manietando os professores e entretendo-se em batalhas campais nas salas de aula que, não poucas vezes, tiveram de ser encerradas. Os inúmeros instrumentos científicos que o marquês encomendou para o colégio, só 200 anos depois saíram das embalagens! Assim, a nova política restritiva redundou num fracasso completo, que o primeiro-ministro não pudera prever. Com esta política, Portugal tomava um rumo em contra-corrente com o resto da Europa, que se empenhava na ampla alfabetização das populações, exceptuando a Rússia de Catarina II, de quem Ribeiro Sanches fora Conselheiro de Estado. É da Czarina a expressão: a Rússia é demasiado grande para ser governada por mais de uma pessoa.

É na prossecução da estratégia elitista e de concentração máxima do poder régio que vem a expulsão dos jesuítas, pondo-se cobro a 170 anos de um ensino que fora ampliado à classe média, no Colégio de Santo Antão. Mas o principal ainda era afastar a Companhia de Jesus do império ultramarino, onde tinham uma influência proeminente e uma presença capilar por todo o território da coroa portuguesa. Na sua cruzada anti-jesuítica, o marquês conseguiu internacionalizá-la e pressionar o Papa a extinguir a Companhia, em 1773. Novamente, a pragmática Czarina foi excepção, pelo que na Rússia ortodoxa os padres da Companhia continuaram a ser protegidos e acarinhados, mantendo o seu contributo prestimoso na área do ensino.   

Voltando a 1755: das ruínas do terramoto-maremoto, Lisboa renasceu das cinzas por mérito do plano de reedificação levado a cabo sob a vontade férrea de Sebastião de Carvalho e Melo. A Baixa sujeitava-se, assim, a um traçado urbanístico harmonioso e simétrico, que nunca mais conheceu. Os novos edifícios adoptaram uma estrutura anti-sísmica que se tem provado resistente, apesar de ainda não ter havido novo sismo de magnitude semelhante. A reconstrução foi também favorecida pela experiência adquirida durante o reinado anterior, de D.João V, com Mafra e outros monumentos, que resultaram numa espantosa escola de engenharia civil.

Cria-se a estrutura flexível alcunhada de «gaiola pombalina»

Ainda outro mérito do marquês correspondeu ao levantamento de dados junto da população, através de um inquérito encomendado às paróquias de todo o país, para se apurar o sucedido e as consequências imediatas, num trabalho notável que é considerado precursor da ciência sísmica. O questionário incluía 5 questões: Quanto tempo (considera que) durou o sismo? Quantas réplicas se sentiram? Que tipo de danos causou o sismo?  Os animais tiveram comportamento estranho?  Que aconteceu nos poços? A partir das respostas, religiosamente arquivadas na Torre do Tombo, os cientistas têm podido reconstituir o fenómeno, sendo a primeira iniciativa de descrição objectiva e em larga escala, que se conhece, no campo da sismologia.

Em Novembro, o Smithsoninan Channel postou na net uma curta-metragem com a simulação computorizada do horror vivido naquela manhã de 1755, integrada numa série de episódios a que designou por «Tempestade Perfeita: A Ira da Deus». Começa pela razia produzida pelo sismo, seguindo-se o flagelo da onda colossal e logo as chamas mortíferas. As ruas da capital convertem-se num cenário apocalíptico, com o desabamento de muitos  edifícios, nomeadamente igrejas, onde multidões de fiéis participavam nas cerimónias litúrgicas do feriado:



E hoje: que impacto positivo poderá vir da catástrofe no Nepal?  Se a resposta solidária internacional ajudar o país a renascer das cinzas, nem tudo foi perdido.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1) Expressão adoptada também no título do livro editado pela Aletheia com a correspondência guardada nos arquivos secretos do Vaticano.


03 maio 2015

V Domingo da Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 15, 1-8)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».

***

Permanecer em Deus

“Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós” é a frase central deste Evangelho! Muitas vezes, gostaríamos sobretudo do inverso: que Jesus permanecesse em nós. Mas Jesus começa precisamente por nos fazer esta exigência: “Permanecei em Mim”, diz Ele, “e eu permanecerei em vós”. Cristo ressuscitado está connosco, mas será que nós estamos com Ele? “Se alguém permanece em Mim”, afirma Cristo-Videira, “e Eu nele, esse dá muito fruto”. Mas qual é o fruto? O fruto é o que o Espírito, a seiva da videira de Cristo e do Pai, realiza depois em nós. Se as pessoas permanecem na prática cristã, pouco a pouco, mais e mais, esta seiva, este Espírito de Cristo-Videira, vai para os ramos, vai para essas pessoas e frutifica…É assim sempre! Isto tem 2000 anos de comprovações: Cristo permanece nas pessoas que permanecem n’Ele, para lá dos desafios e das dificuldades, elas dão muito fruto!

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 120-121.

02 maio 2015

Pensamentos impensados

Ele há dias
Para quando o Dia Mundial das Mil e Uma Noites?

Pisgam-se
Deixem ouvir nas cadeias a Arte da Fuga, de J.S.Bach, e depois queixem-se.

O grande dilema
Se a vida são dois dias, nasci ontem e morro hoje, ou nasci hoje e morro amanhã?

Vitórias
D. Afonso Henriques teve grandes sucessos nas suas batalhas pois antes de as travar contava espingardas.

Diferenças
Mole de pedra não é o mesmo que pedra mole.

Será GMT?
Quando um esquimó diz ao meio dia, quer dizer daqui a 3 meses.

Criações
O galo gala a galinha. E o pombo, pomba a pomba?

Morte ao trema, PIM
Para se acabar com o trema, foi tomada uma posição ex-trema.

SdB (I)


01 maio 2015

As escolhas de gi


Depois, claro, há sempre as surpresas. Aquelas coisas que dão para tudo. As chamadas triplas em forma de canção. Se criadas cá no burgo, então merecem uma dupla entrada.. catalogar em "uau" e "do caraças".

gi.

*** 


Capícua, "Sereia Louca" / "Mão Pesada" / "Vayorken"





30 abril 2015

Orgulho *

Álvaro tinha entrado na Igreja pela primeira vez de mão dada com a Marília. Não iam casar e, por isso, a frase é metafórica, se bem que não seja estatisticamente impossível. A rapariga queria apresentar-lhe Jesus, os mistérios, os sacramentos, o incenso, o serviço ao próximo, o Céu e a ausência dele, que os mais antigos chamavam Inferno. Tal como se chama frio à ausência de calor e escuridão ao que é a inexistência de luz.

Álvaro gostou da sensação de ser alcandorado a cristão-novo no século da tecnologia, das redes sociais, da solidão das multidões estranhas. Absorveu tudo com um furor quase missionário; inebriou-se com os fumos que saíam do incensório, olhou com temor para os pecados mortais, fixou os mandamentos como se o seu futuro dependesse disso e cresceu para os inimigos da fé como se atacassem algo intrinsecamente seu.

Marília tinha um odor de virtude que surgia por baixo de um perfume adocicado e inebriante – se bem que a condição “e” pudesse ser fatal. Era uma rapariga gentil, cordata, disposta ao perdão, sorridente, prestável e humilde. Zangava-se pouco com as pessoas e vivia num impulso permanente de promover a paz e o amor onde a discórdia e a guerra assumissem foros de domínio.

Daquela boca fina, de lábios delgados e dentes muito perfeitos saía um discurso singelo, minado de uma coerência permanente com os ensinamentos mais antigos e mais perenes que regulam o saudável convívio entre os mortais

Deixa, a culpa é minha;
Na realidade não tenho um feitio fácil;
Não te zangues;
Peço desculpa se te ofendi.
Deixa estar – não te preocupes comigo;
Podemos esquecer este assunto?
Estás mais do que perdoado, eu também não estive bem...

Álvaro cresceu na fé – e na vida com a Marília, vá... - com este discurso, esta atitude constante, este apagar de si mesmo. Impressionava-se e, entre duas minis bem geladas e um prato de caracóis, confessou a um amigo, ateu militante e inspector das finanças, que duvidava por definição da legalidade fiscal dos padres, que a felicidade da namorada lhe advinha daquela humildade, daquela paz com a vida, daquela incapacidade do rancor e da raiva.

Um dia, quis o destino que as mãos de ambos percorressem territórios alheios – não territórios terceiros, no sentido da infidelidade mútua. Álvaro era um homem vivido, se bem que a noção do pecado lhe viesse a refrear os ímpetos, e temeu o desencontro de tempos e de ritmos, afligiu-se que um excesso de pudor, filho de uma castidade incoerente, matasse a sensualidade e o erotismo.

Marília desapertou um botão da camisa junto ao pescoço magro onde latejava uma veia num frémito circulatório. Ao lado dela o recém-convertido estirava-se na sua nudez, sem saber se a companheira a veria – essa tal nudez esplêndida – com uma dimensão demasiado pecaminosa. Álvaro olhou para ela, para aquele corpo magrito que seria seu, e enterneceu-se perante uma humildade que lhe abria portas para a explicação das virtudes do toque, do beijo, da lentidão, dos finais conjuntos, da criatividade.

Trinta minutos depois, o frémito circulatório tinha-se passado para as veias de Álvaro. Afinal não tinha sido preciso ensinar-lhe nada: a rapariga que citava as escrituras, dominava as vidas dos santos e falava dos dogmas com uma facilidade invejável, tomara mão dos ritmos, do virtuosismo, da elasticidade dos corpos, do gosto pela experiência.

Tu desculpa, Álvaro, se calhar não estive muito bem. Tenho pouco jeito, sabes...

Álvaro olhou para ela, percorreu-lhe o corpo com um olhar indecifrável e, antes de atender o telefone ao tal inspector das Finanças - o TóJó - que ficara de indagar do IRC das ordens religiosas disse-lhe:

És uma mulher orgulhosa, sabias Marília? Não há aí humildade, mas orgulho. E isso é um pecado, ou não?
Diz Tójó...

JdB
_________
* publicado inicialmente em 3 de Maio de 2010.

29 abril 2015

Do sentido da vida

A Associação Vale de Acór dedica-se há 21 anos a recuperar toxicodependentes. Em todos eles, pobres ou ricos, há uma coisa em comum: "querem fugir à dor e ao sofrimento", diz o fundador da associação, Pedro Quintela.
É um padre com uma vasta experiência de acompanhamento de casos difíceis, de gente esmagada pelo consumo de drogas e outras atribulações da vida. Diz que o ambiente de uma comunidade é regenerativo: "O homem ultrapassa muito o que diz o boletim clínico do próprio homem." 
O método da Associação Vale de Acór aposta na logoterapia. Quintela explica porquê: "O que nos cura não é mexer muito no passado, como as correntes freudianas; não é a pretensão sobre o presente, como dizem outras correntes. Aquilo que me pode libertar do que está a acontecer de negativo e destrutivo, é encontrar para a vida um significado, um sentido". 
***
Encontrei esta entrevista, de que tiro excertos, mas que pode ser lida e ouvida na íntegra aqui, há pouco menos de um mês. Dois aspectos prenderam a minha atenção: a amizade que me liga há 40 anos, seguramente, à família do Padre Quintela, nomeadamente ao seu irmão mais velho, também bloguista regular neste estabelecimento. E também a expressão logoterapia, que me fez recuar quase duas décadas.

Já aqui contei a história: há muitos anos frequentei um curso de gestão da mudança para quadros da multinacional onde trabalhava. Um dos professores mencionou abundantemente o conceito de sentido da vida, voltando a ele sem qualquer razão aparente para o âmbito da formação. Mencionou Viktor Frankl, judeu preso num campo de concentração, pai (presumo) desta ciência. No fim, para me satisfazer um curiosidade não exteriorizada, informou-nos que tinha um filha pequena e deficiente profunda. Tinha sido o conceito de sentido da vida que, de alguma forma, o tinha salvo. Li o livro que tinha sido mencionado na formação, e pouco me disse.

Muitos anos depois (e repito outra história) telefonaram-me para rezar por uma criança pequena a quem teria sido diagnosticado um cancro. Veio-se a descobrir que o estado de saúde da criança era bem menos grave do que se supunha. A avó diria a alguém: não podemos perguntar porquê, mas para quê. À sua maneira, esta frase revelava a procura de um sentido das coisas. E lembro-me amiúde de um frase (de Karen Blixen) com que dediquei inúmeros exemplares do Deus pregou-me uma partida, livro onde abordei (abordámos) o sentido: Todos os sofrimentos são suportáveis se fizermos deles uma história. E lembro-me dos outros que encontraram um sentido para a tensão de ser terem libertado de adições que os consumiam e consumiam o projecto maior em que se tinham envolvido.

Viktor Frankl, Pe. Pedro Quintela, os aparentemente desgraçados que enchem o Vale d’Acór, Karen Blixen, a avó sofrida, o professor sofrido, eu, os que largam vícios, e tantos outros. O que nos une a todos? O sentido que temos de dar à vida, o desafio de agarrar no sofrimento e fazer dele uma narrativa. Não nos fecharmos na angústia de perguntar porque motivo nos acontecem as coisas, mas o que fazemos com elas. Não sou seguramente igual aos outros no que fizeram, mas sou igual aos outros no que quiseram fazer.

A repetição pode ser maçadora e sinal de senilidade, mas pode também ser o reavivar do que é importante, para que os caminhos pedregosos não sejam apenas caminhos pedregosos mas vias com um destino, apesar de tudo o que fica pelo caminho – choros, lágrimas, perdas, desgostos, lutos.

Deixo-vos com Viktor Frankl, o homem que reli em 2001 e que, de alguma forma, me salvou. Foi o ano de todos os anos, e o livro viria a fazer a diferença...

“(...) Precisamos aprender e ensinar às pessoas desesperadas que, em rigor, não interessa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós (...).”

“(...) Quando um homem descobre que o seu destino lhe reservou um sofrimento, tem também que ver neste sofrimento uma tarefa sua, única e original. Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa de ganhar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o universo, dentro deste destino sofrido. Ninguém a pode substituir no destino, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta este sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular (...).”

 “(...) O sentido da vida modifica-se sempre, mas nunca deixa de existir. Podemos descobrir este sentido na vida de três formas diferentes: 1. criando um trabalho ou praticando um acto; 2. experimentando alguma coisa ou encontrando alguém; 3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável (...)”

 “(...) Nunca nos devemos esquecer que também podemos encontrar sentido na vida quando nos confrontamos com uma situação sem esperança, quando enfrentamos uma fatalidade que não pode ser mudada. O que interessa, então, é dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado e que consiste em transformar uma tragédia pessoal num triunfo, em converter o nosso sofrimento numa conquista humana. Quando já não somos capazes de mudar uma situação – podemos pensar numa doença incurável – somos desafiados a mudarmo-nos a nós próprios (...)”

JdB

28 abril 2015

Duas Últimas

Estava eu por estes dias a ser fustigado com notícias em catadupa sobre os “41 anos do 25 de Abril” e os “40 anos das eleições para a Constituinte” quando me veio de súbito à memória a Brigada Vítor Jara, que me lembro de ouvir sobretudo em discos de vinil, em anos já distantes mas fáceis de enquadrar.

Não se tratou de uma associação revolucionária de pessoas ou de ideias, pois de revolucionário pouco tenho. Aliás, não gosto por princípio de revoluções, porventura às vezes necessárias, mas normalmente remédio santo para a destruição e o “marcar passo” de países e de sociedades. A de Abril 74, tentativa importadora dos ideais da “liberdade, igualdade e fraternidade”, fugiu pouco a essa generalização.  

A Brigada Vítor Jara foi criada em 75, talvez no “Verão quente”, por gente de Coimbra. Começou por participar nas campanhas de alfabetização e dinamização do MFA (na sua vertente educadora), de resultados no mínimo incertos. Vítor Jara era um poeta e cantor chileno de intervenção, militante comunista, apanhado e morto nos dias seguintes ao golpe que derrubou Allende.

Se muito me afasta da Brigada, a sua música tem um efeito de aproximação. Bem como a voz límpida e segura de Né Ladeiras, a dar aqui os seus primeiros acordes. E a recuperação de boa música tradicional portuguesa, das mais variadas proveniências, com recurso a excelentes instrumentações.

Trago-vos dois exemplos, o primeiro dos Açores e o segundo da Beira Litoral (este não dos Açores, como aparece no vídeo), ambos do álbum “Tamborileiro”, de 1979, que espero que apreciem tanto como eu.


fq



27 abril 2015

A minha poesia é melhor do que a tua

Maria do Rosário Pedreira nasceu em 1959. Adília Lopes nasceria um ano depois. Quem é que diria a frase que dá título a este post (mesmo eu sabendo que a frase é traiçoeira, ou pateta, ou não faz sentido...)

JdB

***

Mãe, Eu Quero Ir-me Embora
Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira, in 'O Canto do Vento nos Ciprestes' 
 ***
Arte Poética
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

Adília Lopes, in 'Um Jogo Bastante Perigoso' 

26 abril 2015

IV Domingo de Páscoa

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 10, 11-18)

Naquele tempo, disse Jesus:
«Eu sou o Bom Pastor.
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.
O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas,
logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge,
enquanto o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário não se preocupa com as ovelhas.
Eu sou o Bom Pastor:
conheço as minhas ovelhas,
e as minhas ovelhas conhecem-Me,
do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai;
Eu dou a vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil
e preciso de as reunir;
elas ouvirão a minha voz
e haverá um só rebanho e um só Pastor.
Por isso o Pai Me ama:
porque dou a minha vida, para poder retomá-la.
Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente.
Tenho o poder de a dar e de a retomar:
foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

***

O Bom Pastor

“Eu sou o Bom Pastor” – é assim que Jesus se apresenta! O Bom Pastor, como nós verificamos na vida dos rebanhos, toma conta das ovelhas.
Mas Jesus não se fica por aqui. Jesus diz: “O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas”! Isto ultrapassa o que nós habitualmente vemos na pastorícia. Mas esta é que é a qualidade do pastoreio de Jesus: Ele é o bom pastor e dá a vida pelas ovelhas!
Isto quer dizer que Jesus é o Bom Pastor que, no meio de nós, continua a dar-nos a vida!
A presença de Jesus no meio de nós não é uma presença geral, abstrata, descomprometida. Pelo contrário: é uma presença de que se desfruta e em que se repara numa relação de intimidade que dá lugar ao conhecimento.

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 114-115.

25 abril 2015

Pensamentos Impensados

Bandalheira do cartel do Carmo

Casa de repouso dos cravas

São flores, senhor
Conheço flores chamadas assembleias e flores chamadas repúblicas.
Não conheço flores chamadas assembleias da república; a natureza é sábia.

Pedidos perdidos
Disse-me dê-me o cracia. Não sei o que é cracia, não lhe dei nada.

Disfunções
A democracia nem sempre funciona bem; são coisas do demo.

Bulhas sujas
Os lugares em S. Bento são disputados.

Quem muito quer
Já se pede o sufrágio universal quando ainda nem foi conseguido o mundial.

SdB (I)

24 abril 2015

As escolhas do gi.


E, mesmo, mesmo no final do ano, aparece um disco, de feitura clássica para todos aqueles que gostam da tradição norte-americana a que chamamos "alternative country", "americana", "slow country folk rock", e que canta "apenas" assim...

gi.

***

The Delines, "Calling In"



The Delines, "I Won't Slip Up" 



The Delines, "He Told Her The City Was Killing Him"

23 abril 2015

Da linguagem suavizada

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


No meu post Duas Últimas, da passada 3ªfeira, usei a expressão recentemente desaparecido para me referir a Percy Sledge. O meu querido amigo ATM (vou ter de encontrar uma fórmula diferente se persistirem estas referências que lhe faço) indignou-se. E escreveu-me, sendo que o citarei sem sua autorização: 'Recentemente desaparecido'. São tantos os eufemismos para suavizar. A idéia é morto ser um estado normal e até agradável, tipo 'recentemente casado', e fazer parte da narrativa curricular. E rematava: não é o 'povo quem mais ordena', mas o medo.  

Percebo - ou julgo que percebo, o seu argumento. Poderia ter escrito que Percy Sledge tinha falecido (uma expressão mais suave, que não aprecio) recentemente. Poderia ter dito morreu na semana passada.  Ou ter encontrado os motivos para o seu falecimento (lá está...). Se ele tivesse morrido de cancro (não sei, confesso, de que morreu), talvez devesse dizer que tinha morrido de doença prolongada, porque a expressão cancro (os brasileiros têm a vida facilitada, falando em câncer, nome de trópico?) tem conotações brutais. De facto o cantor não desapareceu, porque se sabe bem onde é que ele está... 

Noutro âmbito, não há desempregados, mas gente que foi dispensada. Também há as pessoas de mobilidade reduzida, quando se poderia dizer coxas, ou paralíticas, ou, simplesmente, gente de cadeiras de rodas. Não há gordos, mas criaturas com excesso ponderal (ou obesos, vá...), sendo que desconheço o equivalente suave para as pessoas muito magras - excesso de déficit ponderal? Os carecas são seres humanos que sofrem de calvície, sendo que a inversa não tem qualificativo piedoso.

O mundo da comunicação social está todo feito para não nos arreliar, para nos fazer sentir que a vida é um enorme caminho feito de beleza, pelo que a linguagem usada deve reflectir esse alinhamento cósmico favorável. Todos os jornalistas, estou certo, perceberão que, no meu caso, usarem a expressão excesso ponderal (ou obesidade vá...) é menos tormentoso do que falarem em gordura. Gostava talvez que não me chamassem canhoto, que tem uma dimensão pejorativa (o cruzes canhoto, por aí...). Talvez preferisse ser qualificado como cidadão que usa uma mão estatisticamente menos relevante.  Não sei, mesmo assim, de onde vem a ideia de que não se morre de cancro, mas de doença prolongada. Se os AVC matam tanto, deveremos criar uma expressão igualmente doce, que não fira sensibilidades?

Mudo ligeiramente de tema, ficando ainda pelos falecimentos. Um destes dias, um meliante terá morto uma rapariga e a sua mãe. Esta asfixiada, aquela apunhalada várias vezes. Na notícia do jornal inglês - porque isto se passou por lá - referiam-se à mãe como sendo uma mulher muito extrovertida. E referiam-se à filha como sendo muito extrovertida e gostando muito do seu cão. Não me parece que dissessem a actividade profissional das pessoas. Apenas as qualificaram como sendo extrovertidas e gostando do cão. O que é que isto nos diz? E se estas mesmas pessoas fossem introvertidas, tímidas, recatadas e não se interessassem pela companhia de animais? O que se mencionaria nos jornais?

Feita a divagação, vou ali à horta ver se o brócolo cresce com vista à sua deglutição, e se o alho francês já revela uma estrutura carnuda.

JdB

     

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